Open-access Apresentação e objeto na teoria de Brentano sobre a consciência: um exame da Psicologia de um ponto de vista empírico 1

Presentation and object in Brentano’s theory of consciousness

Resumo:

O artigo aborda a distinção proposta por Brentano entre os objetos primários e secundários dos atos mentais, apresentando a proposta da distinção entre apresentações primárias e secundárias (correspondentes àqueles dois tipos de objetos). É focalizada a relação entre as apresentações (primárias e secundárias), por um lado, e o objeto primário, por outro lado. Após uma exposição dos conceitos de apresentação (seção 2) e de objeto (seção 3) empregados por Brentano, é discutido o argumento dele para a fusão das apresentações (primárias e secundárias) (seção 4). Em seguida, são debatidos os problemas da multiplicação de objetos (seção 5) e do testemunho da experiência interna contra essa multiplicação (seção 6). Por fim, é discutido o conteúdo das apresentações secundárias (seção 7). Conclui-se que a apresentação secundária apresenta a apresentação primária de modo meramente incidental ou periférico, mantendo uma relação igualmente periférica com o objeto primário (seção 8).

Palavras-chave:
Consciência; Apresentação; Fusão; Objeto; Conteúdo

Abstract:

The article approaches the distinction proposed by Brentano between primary and secondary objects of mental acts, proposing the distinction between primary and secondary presentations (corresponding to those both kinds of objects). The relation between (primary and secondary) presentations, on the one hand, and the primary object, on the other, is discussed. After an exposition of the concepts of presentation (section 2) and object (section 3) employed by Brentano, is discussed his argument for the fusion of (primary and secondary) presentations (section 4). After that, are discussed the problems of the multiplication of objects (section 5) and of the evidences of inner experience against this multiplication (section 6). Finally, is discussed the content of secondary presentations (section 7). I conclude that the secondary presentation presents the primary presentation in a merely incidental or peripheral way, maintaining an equally peripheral relation with the primary object (section 8).

Key-words:
Consciousness; Presentation; Fusion; Object; Content

INTRODUÇÃO

De acordo com David Rosenthal (2009, p. 158), o filósofo alemão Franz Brentano (1838-1917) foi pioneiro, ao propor uma explicação sobre o que é, para estados mentais, possuir a propriedade da consciência, e, desde a virada do século XXI, as contribuições do pensador alemão para esse assunto têm recebido uma grande atenção, na cena filosófica (cf. Thomasson, 2000; Hossack, 2002; Kriegel, 2002, 2003; Zahavi, 2004, 2006; Textor, 2006; Boccaccini, 2015).

É bem conhecido que Brentano (1924, p. 128; 1995, p. 91) considerou a (1) intencionalidade como a propriedade que distingue os fenômenos mentais dos fenômenos físicos. Mas não deve ser esquecido que ele atribuiu duas outras propriedades gerais aos fenômenos psíquicos: o fato de eles (2) serem percebidos na consciência interna (inneres Bewusstsein)3 (cf. 1924, p. 128; 1995, p. 91), e o fato de eles (3) sempre nos aparecerem como uma unidade, o que não deve ser confundido com simplicidade (cf. Brentano, 1924, p. 135; 1995, p. 96).

Por um lado, essas três características marcam a diferença entre fenômenos mentais e fenômenos físicos, uma vez que estes últimos (1’) não possuem direcionamento a objetos, (2’) são percebidos na percepção externa e (3’) nem sempre nos aparecem como unidades. Contudo, por outro lado, a primeira característica estabelece uma relação peculiar dos fenômenos psíquicos com os fenômenos físicos, a saber, a de que estes podem ser conteúdo dos fenômenos psíquicos.

Considerando que os fenômenos psíquicos sempre têm um objeto como seu conteúdo (cf. Brentano, 1924, p. 125; 1995, p. 88) e que Brentano entendia que o objeto imanente de um fenômeno psíquico não pode ser idêntico a um simples conteúdo mental4, podemos concluir que, em muitos casos (nos quais a pessoa não esteja pensando sobre entidades inexistentes como, p. ex., um unicórnio), fenômenos psíquicos possuem objetos físicos como conteúdo.

O caso é que Brentano não apenas propôs uma explicação do que é para um fenômeno mental ser um fenômeno consciente, mas também do porquê de todos esses fenômenos (na concepção dele) efetivamente possuírem a propriedade da consciência (cf. Rosenthal, 2009, p. 158).5

Diferentemente de seu aluno Sigmund Freud (1856-1939), Brentano recusava a existência de fenômenos mentais inconscientes (cf. Brentano, 1924, p. 194; 1995, p. 137), embora ele não levasse em conta a ideia de uma “consciência inconsciente” como necessariamente contraditória (cf. Brentano, 1924, p. 143; 1995, p. 102), e ainda que ele considerasse a ideia de um fenômeno mental inconsciente como, ao menos, concebível (cf. Brentano, 1924, p. 180; 1995, p. 128; cf., também, Thomasson, 2000, p. 193).6

Em sua réplica a um dos argumentos que ele identificava, em sua época, a favor da existência de mentalidade inconsciente (justamente a réplica que teve a maior repercussão na literatura filosófica posterior), Brentano sustenta que todo fenômeno mental é consciente, na medida em que, por um lado, tem um fenômeno físico como seu conteúdo - enquanto apresentado (vorgestellt) - e, por outro lado, tem a si mesmo como seu conteúdo (cf. Brentano, 1924, p. 179-180; 1995, p. 127).

Segundo a concepção assim formulada, todo fenômeno mental envolve a apresentação de um objeto (primário), apresentação esta que, por sua vez, é objeto (secundário) de uma “outra” 7 apresentação (cf. Brentano, 1924, p. 180; 1995, p. 128).

Sendo algum fenômeno físico o objeto primário de uma apresentação, e sendo esta apresentação mesma um objeto secundário de uma “outra”, parece-me perfeitamente adequado designar essas apresentações segundo o termo usado para designar seus objetos. Assim, denomino a apresentação do objeto primário de “apresentação primária” e a apresentação desta última de “apresentação secundária” (cf. Prata, 2023, p. 64; 2024a, p. 82-83; 2024b, p. 164).

No presente trabalho, pretendo abordar essa concepção da consciência como uma fusão [Verschmelzung] de apresentações, na tentativa de esclarecer a relação entre as apresentações (primária e secundária), por um lado, e o objeto (primário), por outro lado. Tal esclarecimento é importante para que possamos compreender adequadamente a concepção do filósofo sobre os fenômenos mentais enquanto fenômenos sempre conscientes (cf. Brentano, 1924, p. 218; 1995, p. 153), embora não essencialmente conscientes, vale ressaltar.

A esse respeito, Mauro Antonelli (2022, p. 308) afirma que, se usarmos os termos da tradição aristotélico-escolástica à qual Brentano estava ligado, podemos dizer que, enquanto a intencionalidade é uma propriedade essencial dos atos mentais, a qual tem de estar presente na definição desses atos, a acessibilidade à percepção interna, por sua vez,

[...] constitui um “acidente próprio” ou ἴδιον (proprium) do ato mental, assim como “capaz de aprender gramática” é um proprium do homem (Aristóteles, Top. I.5, 102a20-25); como tal, [a acessibilidade à percepção interna] é coextensiva à intencionalidade (isto é, inexistência intencional), mas não faz parte de sua definição.8

O esclarecimento das relações entre apresentações e objeto é importante, primeiramente, porque a multiplicação ou não dos objetos desempenha um importante papel no argumento de Brentano (cf. Textor, 2006, p. 417; 2017, p. 55-56) a favor da tese da fusão de apresentações. Além disso, em segundo lugar, entender a relação entre a apresentação secundária e o objeto primário nos ajuda a compreender de que modo as duas apresentações (primária e secundária) formam algum tipo de unidade, na visão de Brentano.

Após um rápido exame dos conceitos de apresentação (seção 2) e de objeto (seção 3), abordarei o argumento de Brentano (1924, p. 176-179; 1995, p. 126-127) a favor da fusão de apresentações (seção 4), para, então, discutir o problema da multiplicação de objetos (seção 5) e a questão do testemunho da experiência interna a respeito dessa multiplicação (seção 6). Finalmente, explicitarei qual é o conteúdo das apresentações secundárias (seção 7) e qual a estrutura apresentacional dos fenômenos psíquicos, na visão de Brentano (seção 8).

Concluo que, na visão de Brentano, enquanto a apresentação primária apreende diretamente o objeto primário, contendo-o como seu objeto apresentado, a apresentação secundária apreende implicitamente o seu objeto, que é a própria apresentação primária, e, dessa forma, apreende, também, implicitamente, o objeto primário.9

Assim, as apresentações primária e secundária formam uma unidade, que é a já mencionada fusão de apresentações, na medida em que a apresentação secundária (fundida à apresentação primária) apenas apresenta a primária, manifestando-a incidentalmente para o sujeito da experiência.

1 O CONCEITO DE APRESENTAÇÃO

Antes de mais nada, é importante esclarecer que escolho traduzir o termo Vorstellung, usado por Brentano, com a palavra “apresentação” para exprimir o sentido - pretendido pelo filósofo alemão - de uma aparição imediata de algo diante da mente. Nessa escolha, sigo as indicações de Federico Boccaccini (2021, p. 256), o qual traduziu Vorstellung com presentazione - o equivalente, em italiano, de “apresentação”10 - em virtude do fato de Brentano usar esse termo para designar uma manifestação “[...] no sentido de estar diante da mente: no sentido de algo que está presente, colocado na frente (stellen vor) da consciência, e não no sentido de estar na mente, ou seja, um estado interno ou conteúdo mental do sujeito ou do seu pensamento”11 (cf. Antonelli, 2022, p. 305).

A esse respeito, Zahavi (2004, p. 74) sustenta que o termo “representação” (representation) não é apropriado para designar os constituintes de nossa consciência interna - nossa consciência de nossos próprios fenômenos psíquicos - visto que

[n]ossa familiaridade [acquaintance] com nossas próprias experiências parece ter uma imediatez apresentacional [presentational immediacy] que não é facilmente capturada pelo termo “representação”. De fato, na maioria dos casos, minhas experiências estão presentes para mim, em vez de representadas para mim. Não há mediação representacional (grifos meus).

De acordo com Brentano, todos os fenômenos mentais ou são apresentações ou são baseados em apresentações (cf. Brentano, 1924, p. 120, p. 136; 1995, p. 85, p. 97), e todos eles contêm em si algo como seu objeto (Brentano, 1924, p. 124-125; 1995, p. 88).

É bastante claro que ele entende as apresentações como tipos de atos mentais (cf. Boccaccini, 2019, p. 406; Antonelli, 2022, p. 304-305; Taieb, 2022, p. 146), pois ele próprio esclarece que, “[...] por apresentação [Vorstellung] eu não tenho em vista o que é apresentado, mas sim o ato de apresentar [Akt des Vorstellens]” (Brentano, 1924, p. 111; 1995, p. 78-79).

Ao discorrer sobre os fenômenos psíquicos, Brentano (1924, p. 218-219; 1995, p. 154) afirma que mesmo o mais simples deles possui quatro diferentes aspectos: (i) a apresentação de um objeto primário, (ii) a apresentação de si mesmo [Vorstellung seiner selbst], (iii) um conhecimento de si mesmo e (iv) um sentimento de si mesmo (embora, posteriormente, ele tenha abandonado essa quarta característica (cf. Textor, 2006, p. 414; 2017, p. 57).

Deixando de lado os dois últimos aspectos, temos aquilo que me parece ser a estrutura mais básica dos fenômenos mentais, na visão de Brentano: a conexão da (a) apresentação do objeto (primário) com a (b) apresentação do próprio fenômeno mental, conexão que é o tema da réplica que ele articulou para refutar o argumento do “regresso ao infinito”.

Antes de abordar a concepção do filósofo sobre essa estrutura básica, é importante examinar o conceito de “objeto” empregado por ele.

2 O CONCEITO DE OBJETO

A esse respeito, Inwood (1997, p. 240) esclarece: “Das Objekt, do latim objectum (o particípio passado de objicere, ‘lançar adiante, opor como defesa ou proteção, impedir’), significa ‘algo jogado diante de ou contraposto a’. Contrasta com ‘sujeito’, ‘o que é posto debaixo’”.12

Nesse sentido, parece-me claro que essa palavra pode (e costuma) ser compreendida em termos daquilo que se contrapõe13 ao sujeito (do conhecimento e da ação), sendo, portanto, distinto dele. Conhecemos e agimos sobre objetos que são diferentes de nós e, por isso, estão “lançados diante” de nós ou “contrapostos” a nós.

Contudo, há um outro sentido frequentemente associado ao termo “objeto”, na literatura filosófica. Antonelli (2022, p. 310) explicita: “Na tradição aristotélico-escolástica, o objeto (obiectum, ἀντικείμενον) é sempre, por definição, o objeto de uma faculdade ou função mental, ou de uma atitude epistêmica ou intencional”. Isso significa que o objeto não é uma entidade, mas, sim, se refere a uma entidade.

Nessa perspectiva, poderíamos dizer que aquilo que está “contraposto” a nós, no sentido de estar “lançado diante” de nós, é algo que aparece ou se manifesta para nós, por meio de uma faculdade ou função mental. Nesse sentido do termo, o “objeto” não é pensado, em primeira linha, como o que é diferente do sujeito, todavia, como o que (sendo diferente do sujeito) está relacionado ao sujeito consciente.

Em suma, ainda que, atualmente, a noção de objeto mais usual na filosofia diga respeito àquilo que é distinto do sujeito (por estar contraposto a ele), a noção medieval, recuperada por Brentano, concerne a tudo aquilo que se manifesta para o sujeito, por estar, por assim dizer, “confrontada a ele”.

Na verdade, as duas noções de objeto estariam presentes no pensamento de Brentano. No entender de Mijuskovic (1978, p. 320), “[...] podemos compreender o objeto visado, intencionado, ou como real, além e independente da consciência, ou podemos considerá-lo como imanente dentro da consciência”.14

3 O ARGUMENTO PARA A FUSÃO DE APRESENTAÇÕES

Brentano (1924, p. 147-48; 1995, p. 105) procura oferecer réplicas aos quatro argumentos que ele encontra, em sua época, para defender a existência de fenômenos inconscientes:

  • (1) o argumento das causas inconscientes,

  • (2) o argumento dos efeitos inconscientes,

  • (3) o argumento da relação funcional entre a intensidade de um fenômeno mental e a nossa consciência dele, bem como

  • (4) o argumento do regresso ao infinito.15

Segundo o argumento do regresso ao infinito, todo aquele que nega os fenômenos mentais inconscientes se compromete com uma série infinita de apresentações (algo que nossa mente não conseguiria abarcar - cf. Thomasson, 2000, p. 191). Se toda apresentação de um objeto é consciente, e se toda consciência decorre de uma apresentação, então, a apresentação do objeto tem de ser acompanhada por uma segunda apresentação. Mas, se nenhuma apresentação pode ser inconsciente, logo, essa segunda tem que ser acompanhada por uma terceira apresentação, e essa terceira por uma quarta, e assim ad infinitum (cf. Brentano, 1924, p. 170-71; 1995, p. 121-22).

A esse argumento, o qual já fora discutido por Aristóteles, no De Anima (cf. Aristotle, 1995, p. 677 [425b 12 - 425b 17]), Brentano responde ser necessário refletir sobre se, para determinar o número e a diversidade de apresentações, devemos nos guiar pelo número e diversidade de objetos, ou pelo número e diversidade de atos psíquicos (cf. Brentano, 1924, p. 177; 1995, p. 127).

Ele entende que, se escolhermos determinar o número e a diversidade de apresentações pelo número e diversidade de objetos, logo, teremos diversas apresentações, as quais seriam conteúdo uma da outra, enquanto uma delas teria um fenômeno físico como objeto (cf. Brentano, 1924, p. 178; 1995, p. 127).

Nesse ponto, ele me parece estar sugerindo que, se considerarmos o objeto físico enquanto tal (ou seja: enquanto um tipo de objeto), e se considerarmos a apresentação desse objeto físico como outro tipo de objeto, então, já que estamos diante de dois tipos diferentes de objetos (um é físico, enquanto o outro é mental), temos de concluir que estamos lidando com duas apresentações diferentes, correspondentes a esses objetos.

Mark Textor (2006, p. 417) formula esse raciocínio, nos seguintes termos: caso o número de apresentações seja determinado pelo número de objetos, se temos o objeto a e o objeto b, sendo ab, logo, se a apresentação 1 apresenta o objeto a, enquanto a apresentação 2 apresenta o objeto b, temos de concluir que apresentação 1apresentação 2 . Porém, se temos duas apresentações diferentes, uma vez que toda apresentação tem de ser consciente, e uma vez que a propriedade de uma apresentação ser consciente decorre de outra apresentação, o indesejável e absurdo regresso ao infinito se segue.

Todavia, Brentano sustenta que não devemos proceder assim (escolher o número de apresentações pelo número de objetos), pois, segundo ele, a experiência interna [innere Erfahrung] (nossa experiência de nossos próprios fenômenos mentais) nos mostra indubitavelmente que a apresentação do objeto (primário) e a apresentação dessa apresentação (ou seja, a apresentação secundária) pertencem a um único ato psíquico, porque a apresentação do objeto contribui internamente para a existência da apresentação secundária [innerlich zum Sein der anderen beiträgt] (cf. Brentano, 1924, p. 179; 1995, p. 127).

Tendo em vista que as apresentações são concebidas por Brentano (1924, p. 111; 1995, p. 78-79) como um tipo de ato mental (cf. Boccaccini, 2019, p. 406; Antonelli, 2022, p. 304-305; Taieb, 2022, p. 146), e que o objeto pode ser concebido como o conteúdo desse tipo de ato (cf. Brentano, 1924, p. 125; 1995, p. 88, cf. também Mijuskovic, 1978, p. 320), parece-me que a imagem da consciência interna que emerge da argumentação acima exposta pode ser representada pictoricamente da seguinte maneira:

Figura 1 -
As relações entre apresentação primária e secundária

Todo fenômeno psíquico é formado por uma apresentação básica (a apresentação1), aquilo que denominei “apresentação primária”, diretamente dirigida a um objeto (um fenômeno físico, extramental)16, apreendendo-o como seu conteúdo.17

Entretanto, essa apresentação do objeto primário é, ela mesma, o objeto secundário da relação intencional do fenômeno psíquico com esse objeto primário, na medida em que é apresentada por aquilo que chamei de uma “apresentação secundária” (a apresentação2).

Por conseguinte, a apresentação do objeto primário é apreendida por uma apresentação secundária e, ao ser apresentada (↓) pela apresentação secundária, tal apresentação primária é um constituinte indispensável (↑) dessa segunda apresentação.

A ideia de que o objeto peculiar de uma apresentação possa ser um constituinte indispensável de certa espécie de apresentação me parece bastante razoável. Embora tenhamos diversos tipos de apresentações sensoriais, por exemplo, para que tenhamos apresentações auditivas, tais apresentações têm de ter sons como seus objetos. Do mesmo modo, para que tenhamos apresentações olfativas, tais apresentações têm de ter cheiros como seus objetos.18

Mesmo que ele admita que uma apresentação do objeto primário desacompanhada de uma apresentação secundária não seria inconcebível, ao menos a priori [von vornherein wenigstens, nicht undenkbar], Brentano sustenta que uma apresentação secundária desacompanhada de uma apresentação primária seria uma contradição óbvia [ein offenbarer Widerspruch] (cf. Brentano, 1924, p. 180; 1995, p. 128).

Portanto, se há apresentação secundária, o que é evidenciado pelo fato de que temos experiência do objeto primário19, tem de haver realmente uma apresentação primária (ou seja, a experiência interna não pode errar), pois ambas as apresentações estão fundidas, embora, por outro lado, seja abstratamente concebível um cenário no qual a apresentação primária exista sem uma apresentação secundária.

Ao defender esse vínculo de dependência da apresentação secundária em relação à apresentação primária, Brentano (1924, p. 129; 1995, p. 91) claramente está sob influência da concepção cartesiana segundo a qual não podemos nos enganar a respeito de nossos próprios fenômenos psíquicos.20

Por outro lado, a conceptibilidade de uma apresentação primária desacompanhada de uma apresentação secundária levanta um problema para a concepção de Brentano sobre os fenômenos mentais inconscientes, porque essa conceptibilidade equivale à conceptibilidade de apresentações inconscientes, o que enfraquece a recusa de Brentano em aceitar que fenômenos mentais inconscientes possam existir.

Mas, por limitações de espaço, esses problemas não serão tratados aqui.21 O problema que irei abordar agora diz respeito às relações entre cada apresentação (primária e secundária) e o objeto primário do fenômeno mental total.

4 O PROBLEMA DA MULTIPLICAÇÃO DE OBJETOS

Em sua discussão do problema do regresso ao infinito, Brentano (1924, p. 171; 1995, p. 122) afirma que, caso a recusa da existência de fenômenos inconscientes nos leve a uma série infinita de apresentações (conectada a cada apresentação de um objeto primário), então, uma outra consequência, bastante indesejável, é que nessa série infinita haveria a ocorrência de uma série infinita de objetos (enquanto conteúdos dessas apresentações).

Isso ocorreria porque o objeto primário não poderia ser apresentado apenas na apresentação primária (diretamente dirigida a ele), mas teria de ser apresentado também em cada apresentação presente na (impossível) cadeia infinita.

Tomando o exemplo da escuta de um som (ou seja, a apresentação primária desse som), Brentano (1924, p. 171; 1995, p. 122) enfatiza que esse som

[t]em que ser apresentado [als vorgestellt enthalten sein muss] não só na escuta, mas também na simultânea apresentação da escuta. E também na apresentação da apresentação da escuta ele [o som] tem que ser apresentado uma terceira, enquanto a escuta tem que ser apresentada uma segunda vez.

Em outras palavras, cada apresentação de “ordem superior” (“superior” apenas no sentido de ser uma apresentação dirigida a outra apresentação - cf. Rosenthal, 2008, p. 835) teria de conter não apenas o objeto, mas também a(s) apresentação(ções) de ordem inferior em seu conteúdo.

Penso que a (hipotética) situação do regresso ao infinito, incluindo a maneira como cada apresentação de ordem superior apresenta o objeto (primário) e as apresentações de ordem inferior, pode ser indicada pictoricamente da seguinte maneira:

Figura 2 -
O (absurdo) regresso ao infinito

Sendo o objeto (escrito em letras maiúsculas e negrito) o fenômeno físico (nesse caso, o som), e sendo a apresentação1 a escuta desse som, Brentano (1924, p. 171; 1995, p. 122) preconiza que o som tem de ser apresentado também, uma segunda vez, na apresentação2, que é a apresentação da escuta, assim como tem de ser apresentado, uma terceira vez na apresentação3, que é a apresentação da apresentação da escuta.

Do mesmo modo, a escuta (apresentação1) tem de ser apresentada uma segunda vez, na apresentação3, já que, evidentemente, ela já fora apresentada uma primeira vez pela apresentação2. Tudo isso evidencia como o conteúdo das apresentações iria se tornando cada vez mais complexo, à medida que prosseguíssemos no (absurdo e impossível) regresso ao infinito. Esse é o cenário indesejável (pois absurdo) que emerge do suposto regresso, decorrente da negação da existência de fenômenos mentais inconscientes. Observemos agora como o filósofo procura evitar esse cenário.

Conforme foi discutido na seção 4, acima, para refutar o regresso ao infinito, Brentano recorre a uma argumentação (já prenunciada por Aristóteles)22 que nega, justamente, a multiplicação de objetos, com base na ideia de que a apresentação primária (do objeto) e a apresentação secundária estão fundidas em um único fenômeno mental.

5 O TESTEMUNHO DA EXPERIÊNCIA INTERNA A RESPEITO DA MULTIPLICAÇÃO DE OBJETOS

Em sua argumentação a favor da fusão de apresentações, Brentano (1924, p. 177-178; 1995, p. 127) faz algumas outras considerações extremamente pertinentes à discussão da relação entre as apresentações (primária e secundária) e o objeto primário.

Ele afirma que, se escolhermos determinar (I) o número de apresentações pelo (II) número de objetos, teremos diversas apresentações, de tipos distintos, sendo uma o conteúdo da outra, ao mesmo tempo em que tem um fenômeno físico como conteúdo.

O cenário aqui descrito por Brentano parece ser exatamente o que vemos na relação entre a apresentação1 e a apresentação2, na Figura 2, acima, a qual representa o regresso ao infinito. Ao mesmo tempo que a apresentação1 apreende diretamente o objeto, ela pertence ao conteúdo da apresentação2 (assim como, também, o objeto pertence ao conteúdo dessa segunda apresentação).

A esse respeito, Brentano (1924, p. 178-179; 1995, p. 127) explica que, se for assim, o objeto tem de pertencer ao conteúdo das duas apresentações, ao de uma como objeto exclusivo [ausschlieẞlicher] e ao da outra como objeto incluso [eingeschlossener].

Nesse ponto, o filósofo faz uma observação extremamente importante para os propósitos do presente trabalho. Ele afirma que, se o objeto pertence ao conteúdo das duas apresentações, a primária e a secundária (uma como objeto exclusivo, outra como objeto incluso), então, como já observou Aristóteles, o objeto teria de ser apresentado duas vezes. Essa afirmação (feita no contexto do argumento do filósofo grego contra o regresso ao infinito) se encaixa perfeitamente com as considerações de Brentano (1924, p. 171; 1995, p. 122), discutidas acima, a respeito da multiplicação de objetos, caso ocorresse um regresso infinito de apresentações.

Porém, o caso é que, em nossa experiência interna, não percebemos o menor vestígio dessa dualidade de objetos apresentados especulada por Brentano (1924, p. 178-179; 1995, p. 127), assim como, no meu modo de entender, não percebemos o menor vestígio de uma multiplicação de apresentações, apresentadas no conteúdo uma das outras. Esse, por assim dizer, “testemunho” de nossa experiência interna é a razão de Brentano (1924, p. 179; 1995, p. 127) para negar a multiplicação de objetos e o consequente regresso ao infinito.

Portanto, só pode haver um objeto, enquanto fenômeno físico apresentado23, assim como só pode haver um objeto intencional enquanto conteúdo24 da apresentação primária. Assim, é bastante clara a relação entre esta última apresentação e o objeto primário: a apresentação primária apresenta o objeto físico em seu conteúdo.

Mas qual é, então, a relação entre a apresentação secundária e o objeto primário?

6 O CONTEÚDO DAS APRESENTAÇÕES SECUNDÁRIAS

Já que a apresentação primária apreende o objeto primário, este último não pode ser um objeto exclusivo [ausschlieẞlicher] da apresentação secundária, pois ele já é o objeto exclusivo da apresentação primária. Além disso, como não há uma duplicação, o objeto primário também não pode ser um objeto incluso [eingeschlossener] da apresentação secundária.

Discorrendo sobre a apresentação secundária, Brentano (1924, p. 179; 1995, p. 127) assevera que ela e a apresentação primária formam um único fenômeno psíquico, o qual nós dividimos conceitualmente [begrifflich zergliedern] em duas apresentações, com base na relação de cada uma com seu objeto: a relação da primária com um fenômeno físico e a relação da secundária com um fenômeno mental (que é a própria apresentação primária).

De acordo com Brentano (1924, p. 179-180; 1995, p. 127), a apresentação secundária, ao apresentar a apresentação primária, nos faz apreender [erfassen] o próprio fenômeno psíquico, na sua dupla peculiaridade de ter (1) o objeto primário e (2) a si mesmo como conteúdo. No meu entendimento, isso significa que a apresentação secundária não apreende diretamente o objeto primário; ela apreende, de maneira direta, apenas a apresentação secundária.

A fim de apreender diretamente o objeto primário, a apresentação secundária deveria tê-lo em seu conteúdo, como se fosse um conteúdo separado do conteúdo da apresentação primária, o que seria uma duplicação do objeto (já presente no conteúdo da apresentação primária), duplicação que Brentano (1924, p. 179; 1995, p. 127) nega. Além disso, entendo que (na concepção de Brentano) a apresentação secundária não pode apreender diretamente o objeto primário, por estar fundida com a apresentação primária.

Em virtude dessa fusão, a apresentação secundária nos faz perceber (na percepção interna) a apresentação primária apenas incidentalmente (cf. Brentano, 1924, p. 41, p. 180; 1995, p. 30, p. 128). Isso ocorre porque a apresentação secundária, na verdade, coincide com nossa consciência da apresentação primária, de tal modo que, de acordo com Brentano (1924, p. 182; 1995, p. 129), essa consciência (da apresentação primária) é também uma consciência do fenômeno mental inteiro [von dem ganzen psychischen Akte], fenômeno no qual essa consciência (isto é, a própria apresentação secundária) é “dada em conexão” [mitgegeben].25 Por conseguinte, parece-me claro que, se ela puder apreender o objeto primário (de alguma maneira), a apresentação secundária só pode apreendê-lo, também, de forma meramente incidental e periférica.

Na concepção de Brentano, enquanto somos capazes de entrar em uma relação explícita com o objeto primário, por meio da apresentação primária, nós, por outro lado, só conseguimos entrar em uma relação implícita com essa apresentação primária, por meio da apresentação secundária. É exatamente por isso que uma observação interna [innere Beobachtung] é, de acordo com Brentano (1924, p. 41, p. 180-181; 1995, p. 29-30, p. 128-129), impossível. A apresentação secundária apenas torna a apresentação primária implicitamente manifesta para nós (enquanto sujeitos de nossos fenômenos mentais), ao passo que essa apresentação primária torna o objeto primário explicitamente manifesto26 para nós.

Em suma, já que, no cenário (impossível) do regresso ao infinito, o objeto (enquanto conteúdo mental) reapareceria em cada apresentação de ordem superior, e já que o argumento baseado na experiência interna nega a duplicação de objetos27, logo, na concepção resultante desse argumento, o objeto aparece como conteúdo (explícito) apenas da apresentação primária.

À apresentação secundária, por sua vez, resta o papel de manifestar a própria apresentação primária para o sujeito do fenômeno psíquico (a pessoa consciente), fazendo-o perceber internamente que ele se encontra em um determinado tipo de estado mental, embora essa percepção seja implícita, periférica, e nunca possa se tornar objeto de atenção explícita.

Diante dessas considerações, seria possível pensar (erroneamente) que a concepção de Brentano sobre a estrutura apresentacional dos fenômenos psíquicos poderia ser pictoricamente representada da seguinte maneira:

Figura 3 -
Uma falsa ideia sobre a relação entre apresentações

O aspecto fundante de todo o fenômeno psíquico (o qual inclui ainda um conhecimento de si e um sentimento sobre si, que não estão pictoricamente representados na Figura 3) é o direcionamento para o fenômeno físico (OBJETO), que passa a ser o conteúdo (objeto) da apresentação primária. Portanto, o único28 conteúdo - que Brentano (1924, p. 180; 1995, p. 128) chama de “objeto secundário” - que resta para a apresentação secundária é a própria apresentação primária.

Contudo, essa figura, exposta acima, me parece inadequada. Primeiramente, por sugerir que a relação entre essas apresentações é uma relação, por assim dizer, exterior. Ela sugere que a relação entre a apresentação secundária (que é um fenômeno mental) com a apresentação primária (que é, também, um fenômeno mental) é uma relação análoga à relação entre a apresentação primária com o fenômeno físico. É como se estivéssemos diante de uma concepção metapsicológica (cf. Rosenthal, 1986, p. 335; 1997, p. 741; 2017, p. 165), segundo a qual a consciência, como uma propriedade de estados mentais, surge da relação entre fenômenos mentais distintos entre si.

E uma segunda dificuldade com a figura acima é que ela não parece fazer jus à relação entre a apresentação secundária e o objeto primário. Se a apresentação secundária contém a primária como seu objeto (secundário), e se a apresentação primária contém o fenômeno físico como seu objeto (primário), então, parece que a apresentação secundária tem de fazer algum tipo de referência a esse objeto primário, mesmo que seja uma referência extremamente periférica e nebulosa.

Por isso, temos que repensar a representação pictórica da estrutura apresentacional básica dos fenômenos psíquicos, de sorte que tenhamos uma figura que corresponda melhor à concepção de Brentano sobre a consciência interna.

CONSIDERAÇÕES FINAIS: A ESTRUTURA APRESENTACIONAL BÁSICA DOS FENÔMENOS PSÍQUICOS

Na verdade, vimos que, de acordo com o filósofo, há um peculiar entrelaçamento [eigentümliche Verwebung] (cf. Brentano, 1924, p. 179; 1995, p. 127), ou uma peculiar fusão [eigentümliche Verschmelzung] (cf. Brentano, 1924, p. 183; 1995, p. 130) entre as duas apresentações, de maneira que a representação pictórica da relação entre elas deveria mostrá-las, de algum modo, unidas.

A necessidade de algum tipo de referência da apresentação secundária (apresentação2) ao objeto primário (OBJETO) parece ser reforçada pelas alegações de Brentano (1924, p. 182; 1995, p. 129), segundo as quais a apresentação secundária apresenta o fenômeno mental como um todo. Se esse é o caso, logo, parece que a apresentação secundária tem de fazer alguma referência ao objeto primário, pois ele é parte desse todo, pelo menos enquanto ele é o conteúdo da apresentação primária.29

Portanto, parece-me mais adequado representar pictoricamente a fusão das apresentações da seguinte maneira:

Figura 4
A estrutura da fusão de apresentações

Nessa figura, os colchetes, os quais traçam os limites do conteúdo da apresentação secundária, abarcam o objeto, enquanto este é o conteúdo da apresentação primária. Certamente, se a apresentação secundária apreende a primária de modo meramente incidental (cf. Brentano, 1924, p. 41, p. 180; 1995, p. 30, p. 128) ou secundário (cf. Brentano, 1924, p. 181; 1995, p. 129), a relação da apresentação secundária com o objeto primário tem que ser tão nebulosa e fugidia quanto a sua relação com a apresentação primária. Porém, mesmo assim, algum tipo de relação entre apresentação secundária e objeto primário tem de estar presente.

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  • ZAHAVI, D. Two Takes on a One-Level Account of Consciousness. Psyche, v. 12, n. 2, p. 1-9, 2006 (May).
  • 1
    O presente trabalho foi redigido no âmbito no projeto de pesquisa “Autoconsciência e a unidade da experiência consciente em Franz Brentano e John Searle”, desenvolvido entre 2022 e 2023 no Departamento de Filosofia da University College Cork (UCC) - Irlanda. Agradeço ao Prof. Dr. Alessandro Salice pelo convite para um estágio de pesquisa em Cork. Agradeço aos pareceristas anônimos da Trans/Form/Ação por suas proveitosas críticas e sugestões. Agradeço especialmente ao Prof. Dr. Federico Boccaccini (UFPE-CNPq), pela leitura cuidadosa e discussão detalhada de versão anterior do presente artigo.
  • 3
    Salvo indicação em contrário, todas as traduções para o português das citações em outras línguas foram feitas pelo autor do presente artigo.
  • 4
    Em carta a Anton Marty, datada de 17 de março de 1905, Brentano (1930, p. 87-88) afirma: “Não foi nunca a minha opinião que o objeto imanente fosse idêntico ao objeto apresentado [vorgestelltes Objekt]. A apresentação não tem a ‘coisa apresentada’ como seu objeto, mas sim ‘a coisa’, por exemplo, a apresentação do cavalo não tem o ‘cavalo apresentado’ [como objeto], mas sim o ‘cavalo’.” A esse respeito, cf. também Antonelli (2012, p. 114-117).
  • 5
    É importante ressaltar que, embora Brentano considerasse todos os fenômenos mentais como fenômenos conscientes, ele não concebia a consciência como uma propriedade essencial dos fenômenos mentais (cf. Antonelli, 2022, p. 308).
  • 6
    O fato de Brentano não conceber a ideia de uma “consciência inconsciente” como contraditória, bem como o fato de ele ter em vista a ideia de um fenômeno mental inconsciente como, ao menos, concebível, já indicam que ele não considerava a consciência como uma propriedade essencial dos fenômenos mentais.
  • 7
    Conforme veremos (cf. a seção 4, a seguir), Brentano (1924, p. 179; 1995, p. 127) irá concluir que essas apresentações são partes de um único fenômeno psíquico. A apresentação secundária é uma parte distinguível, mas não separável, do fenômeno mental como um todo.
  • 8
    Em uma nota de rodapé a essa passagem citada, Antonelli (2022, p. 308) explica: “Um proprium é uma propriedade necessária, mas não essencial, de uma espécie, mais profunda que um acidente, mas ainda não essencial. Como tal, não aparece na definição real de uma espécie, embora pertença a todos os seus membros e nada mais. Nesse sentido, um proprium é um acidente que decorre ou flui necessariamente da essência de uma coisa, mas não é explicativamente básico e não é realmente necessário para a existência contínua de uma coisa. Como tal, é nomologicamente necessário, mas contingente no sentido ‘metafísico’”.
  • 9
    Já que a apresentação primária contém o objeto primário, e já que a apresentação secundária contém, implicitamente, a apresentação primária, então, a apresentação secundária também tem de conter implicitamente o objeto primário.
  • 10
    Embora Boccaccini (2021, p. 255) tenha optado traduzir presentazione por “representação”, “[...] a fim de não introduzir um neologismo que pudesse complicar desnecessariamente a compreensão do texto pelo leitor”, eu escolho o termo “apresentação” para traduzir Vorstellung, primeiramente, porque essa palavra (ao contrário de “presentação”) é usual na língua portuguesa e, em segundo lugar, porque o termo “apresentação” tem, entre os seus sentidos, o de mostrar algo ou alguém a um outro. Logo, a “apresentação” faz com que algo, ou alguém, apareça para outros.
  • 11
    Nesse sentido, Boccaccini (2021, p. 256) esclarece que Vorstellung designa “[...] um ato da mente em linha com a tradição aristotélico-tomista e não uma representação mental, noção mais próxima da linha cartesiano lockeana da filosofia moderna”. A questão é discutida e aprofundada em Antonelli e Boccaccini (2021, cap. 3, p. 110-113), atualmente em tradução para o português: “[...] a noção clássica de ideia ou representação de origem cartesiano-lockiana está muito distante do uso que Brentano faz da Vorstellung, e deixa claro porque Brentano enfatiza repetidamente que está interessado na apresentação como ato e não como conteúdo. Por Vorstellung, Brentano observa, entende-se tradicionalmente tanto a consciência de presentar algo quanto o termo deste ato, ou seja, ao mesmo tempo o fenômeno psíquico e o fenômeno físico. Este uso equivocado deriva da tradição empírica, à qual Brentano reprova por não ter destacado adequadamente a estrutura de oposição na qual cada experiência se articula, confundindo os momentos subjetivos e objetivos em um único amálgama (a ideia), do qual o objeto percebido só pode ser contabilizado alavancando a intensidade e a constância do conteúdo da apresentação. Recuperando um vocabulário aristotélico e em certa medida contra o léxico psicológico da filosofia moderna que tinha favorecido a noção de ideia como uma entidade mental fundamental, a escolha da terminologia de Brentano pretende sublinhar que o pensamento não é nem um processo, nem um tipo de entidade dentro de um fluxo, como em Hume ou William James, mas uma ação ou atividade de natureza não física orientada para algo objetivo (Richtung auf ein Objekt)” (trad. Boccaccini). Além disso, segundo Boccaccini, o famoso parágrafo 5 do primeiro capítulo do segundo livro da Psicologia do ponto de vista empírico, o qual contém a definição de inexistência intencional, não deve ser lido e interpretado isoladamente, mas em relação ao parágrafo 3, onde Brentano explica o que ele entende por “apresentar” (vorstellen) como “estar-presente” (Gegenwärtig-sein) à consciência e que coincide, segundo Brentano, com o simples “manifestar-se” (erscheinen) do objeto à consciência. Sobre esse ponto, ver Boccaccini, ms. (“Intentional presence from Descartes to Brentano”).
  • 12
    Sobre a diversidade de significados associados ao termo “sujeito”, cf. Inwood (1997, p. 299-302).
  • 13
    Cf. Prata (2016, p. 57).
  • 14
    Cf. também Mijuskovic (1978, p. 320-321); Carvalho (2021, p. 269) e Taieb (2022, p. 146).
  • 15
    A respeito desses argumentos, cf. Krantz, (1990, p. 746-747); Tassone (2012, p. 124-129); Prata (2023, p. 59-60, p. 63-68; 2024a, p. 89; 2024b, p. 165).
  • 16
    O objeto físico é representado pictoricamente, na figura, pela palavra “OBJETO”, em letras maiúsculas e negrito, para designar seu caráter extrapsicológico.
  • 17
    O objeto, enquanto conteúdo da apresentação, é representado pictoricamente, na figura, pela palavra “objeto”, em letras minúsculas e itálico, para designar seu caráter de um conteúdo mental.
  • 18
    Talvez o mesmo que foi explicitado aqui de espécies (tipos) de apresentação, possa ser aplicado a apresentações singulares. Ainda que meu sentido visual não tenha que apresentar determinados objetos singulares para ser visão, para que eu possa ter a visão desta tela de computador, neste exato momento, meu sentido visual tem de apresentar esta tela. Portanto, (A) esta tela singular é um constituinte indispensável de (B) minha visão desta tela.
  • 19
    A experiência do objeto primário é possibilitada pela manifestação da apresentação primária para o sujeito da experiência, manifestação esta que é possibilitada pela apresentação secundária.
  • 20
    Para uma visão oposta a essa, cf. Rosenthal (2018).
  • 21
    Em outros trabalhos, os quais estão em progresso, discutirei esses outros problemas.
  • 22
    “Uma vez que é através dos sentidos que nós estamos cientes de que estamos vendo ou ouvindo, tem que ser ou através da vista que estamos cientes de estar vendo, ou através de algum outro sentido que não a vista. Mas o sentido que nos dá essa nova sensação tem que perceber tanto a vista quanto o seu objeto, por exemplo, uma cor, de modo que ou vão existir dois sentidos que percebam o mesmo objeto sensível, ou o sentido perceberá a si mesmo. Além disso, mesmo se o sentido que percebe a vista fosse diferente da vista, nos vemos diante de duas opções: ou caímos em um regresso ao infinito, ou temos de aceitar que o sentido é ciente de si mesmo” (Aristotle, 1995, p. 677 [425b 12 - 425b 17]).
  • 23
    Representado pictoricamente, nas figuras acima, pela palavra “OBJETO”, em letras maiúsculas e negrito.
  • 24
    Representado pictoricamente, nas figuras acima, pela palavra “objeto”, em letras minúsculas e itálico.
  • 25
    Ou seja: quando o fenômeno psíquico ocorre (no que envolve, sempre, a apresentação primária de um objeto), a apresentação secundária sempre é dada, pois está inseparavelmente conectada àquele fenômeno psíquico.
  • 26
    Lembremos que, de acordo com Brentano (1924, p. 114; 1995, p. 81), “[...] como usamos o verbo ‘apresentar’ [vorstellen], ‘ser representado’ [vorgestellt werden] significa o mesmo que ‘aparecer’ [erscheinen]”.
  • 27
    Se não há, sequer, duplicação, é claro que não pode haver multiplicação.
  • 28
    Entendo que, uma vez que a apresentação primária tem o objeto primário como conteúdo, a apresentação secundária, ao apresentar a primária, tem que fazer uma referência, por assim dizer, periférica ao objeto primário.
  • 29
    Evidentemente, o objeto físico (OBJETO) não pode ser parte do fenômeno psíquico como um todo. Ele pode, em certo sentido, ser “parte” do fenômeno psíquico apenas enquanto se manifesta ou aparece para o sujeito da experiência, através da apresentação primária. Ou seja, o objeto físico só é parte do fenômeno psíquico enquanto conteúdo (objeto) da apresentação primária.
  • Declaração de disponibilidade de dados:
    O conjunto de dados deste artigo está disponível no SciELO Dataverse da Revista Trans/Form/Ação, no link: https://doi.org/10.1590/0101-3173.2025.v48.n6.e025165
  • Editor responsável:
    Marcos Antonio Alves

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    08 Jul 2025
  • Aceito
    15 Ago 2025
  • Revisado
    15 Set 2025
  • Publicado
    06 Out 2025
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