Open-access LÉXICO EM DISPUTA: IDEOLOGIAS LINGUÍSTICAS E REIVINDICAÇÃO DE IDENTIDADES NA SUBSTITUIÇÃO DE “HOMOSSEXUALISMO” POR “HOMOSSEXUALIDADE” NO DISCURSO JORNALÍSTICO

LEXICON UNDER DISPUTE: LINGUISTICS IDEOLOGIES AND REVINDICATION OF IDENTITIES IN THE REPLACEMENT OF “HOMOSSEXUALISMO” WITH “HOMOSSEXUALIDADE” IN JOURNALISTIC DISCOURSE

RESUMO

O objetivo deste trabalho foi apresentar o resultado de análises realizadas acerca de algumas questões de cunho identitário e ideológico que perpassam a discussão da substituição linguística, mais precisamente morfológica, da lexia “homossexualismo” por “homossexualidade”. Os excertos analisados foram coletados a partir de textos jornalísticos produzidos e publicados no século XXI, da versão on-line do jornal Folha de S. Paulo. Esse trabalho se justifica pela pertinência da discussão acadêmica acerca da reivindicação pautada na ideia de que o sufixo “-ISMO”, em oposição a “-DADE”, contenha valores semânticos atrelados à patologia, o que, direta ou indiretamente, expressaria, por meio do discurso, aspectos de preconceito e discriminação social. Assim, a proposição do emprego de “homossexualidade” em vez de “homossexualismo” passou a se manifestar como uma forma de reivindicação ou representação de uma identidade social. O presente artigo se fundamenta na Lexicologia (Zavaglia, 2012; Lara, 2006), na Morfologia (Gianastacio, 2009; Simões, 2009) e na Análise do Discurso (van Dijk, 2005; Charaudeau, 2015). Foi possível observar que a reivindicação analisada é legitimada pelos argumentos de caráter identitário e ideológico dos grupos LGBTQIAP+, e não pelo de caráter linguístico, fato que contribui para a desmobilização de discursos de poder hegemônicos que visam a manutenção do status quo.

Palavras-chave:
léxico; discurso; ideologia; identidade.

ABSTRACT

The objective of this study was to present the outcome of the analysis about some issues of identity and ideological nature that pervade the discussion of linguistic substitution, more precisely morphological, of the lexical unit “homossexualidade” for “homossexualismo”. The excerpts analyzed were gathered from journalistic texts, of the 21st century, of the online version of the newspaper Folha de S. Paulo. This work is justified by the continuing academic discussion about the claim based on the idea that the suffix “-ISMO”, as opposed to “-DADE”, contains semantic values linked to pathology, which, directly or indirectly, would express, through discourse, aspects of prejudice and social discrimination. Thus, the proposition of the use of “homossexualidade” instead of “homossexualismo” began to manifest itself as a form of claiming or representing a social identity. This work is based on Lexicology (Zavaglia, 2012; Lara, 2006), Morphology (Gianastacio, 2009; Simões, 2009) and Discourse Analysis (van Dijk, 2005; Charaudeau, 2015). It was possible to observe that the revindication analyzed is legitimated by the arguments of identitarian and ideological aspects of LGBTQIAP+ groups and not by the linguistic aspects, a fact that contributes to the demobilization of hegemonic power discourses which seek to maintain the status quo.

Keywords:
lexicon; discourse; ideology; identity.

INTRODUÇÃO

As transformações sociais, culturais e científicas experienciadas ao longo do século XX levaram a um novo entendimento sobre a sexualidade humana, sobretudo da perspectiva médica e psicossocial. A homossexualidade, instituída como “personalidade patológica” pela Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (doravante CID), de 1948 e, posteriormente, como “desvio e transtorno sexual”, pela CID de 1965, segundo Laurenti (1984), foi retirada da categoria de doença a partir de 17 de maio 1990, após a revisão feita pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Essas transformações afetaram diretamente movimentos sociais e políticos e refletiram na proposta de adoção de novos termos e nomenclaturas para designar práticas sociais que envolviam não só os homossexuais, mas também outros grupos minoritários. Pode-se afirmar que movimentos sociais influenciam, então, o uso da língua, assim como o uso da língua influencia os movimentos sociais, fato que reforça a ideia de que ambas as práticas - cultural e linguística - são indissociáveis.

Dentre muitas discussões que começaram a ser pautadas, tem-se a proposta de substituição da unidade lexical “homossexualismo” por “homossexualidade”, que pode ser entendida como fruto da onda do “politicamente correto”, que nasceu nos Estados Unidos, nos anos 1990, e começou a dar voz a grupos sociais reivindicando mudanças em vários âmbitos, como o social, o laboral e o linguístico. Segundo Borges (2011, p. 109), o movimento do politicamente correto:

[...] tem como atribuição funcionar como aparelho normatizador de práticas sociais, principalmente no que se refere ao exercício de um controle explícito da prática linguageira, a fim de que sejam evitados os comportamentos linguísticos estigmatizantes. Com vistas a este objetivo, a linguagem é considerada uma espécie de espelho revelador da rede de (des)considerações que os membros de uma sociedade nutrem uns em relação aos outros.

O autor complementa, ainda, que esse movimento pode ser compreendido como a “[...] ética que se constitui a partir da insistência quanto à reformulação da linguagem, coibindo certas expressões de nomeação, literais ou metafóricas, dadas como discriminatórias” (Borges, 2011, p. 109). Assim, a retirada da classificação de homossexualidade como doença, contemporânea a essas reinvindicações sociais que passaram a ganharforça na década de 1990, pode ter fomentado as discussões acerca da substituição de “homossexualismo” por “homossexualidade”. Além disso, nas palavras do autor, este movimento é

[...] um fenômeno político-social da história recente, originado nos Estados Unidos (fato, aliás, altamente significativo para a compreensão das marcas características deste movimento, incluindo-se aí a sua prática discursiva), como uma forma de controle social sempre vigilante, a evitar que sejam cometidos atos que violentem, ou que atentem aos direitos, dos vários segmentos sociais, seja por alusão à cor, à origem étnica, à condição social, sexual ou à atividade econômica, etc. (Borges, 2011, p. 110).

Essa discussão linguística, que se apresenta, inicialmente, pelo viés morfológico, pois se centra na substituição de sufixos, passou a fazer parte da mídia. Presenciamos, ao longo dos últimos vinte anos que marcaram o início do século XXI, discussões que nortearam o debate em torno do uso da língua, centradas em argumentos linguísticos, mas que deixaram implícitas questões ideológicas subjacentes no âmbito das relações entre língua, linguagem e transformações socioculturais.

Nessa perspectiva, no presente trabalho, foi proposto, à luz da Lexicologia, discutir o emprego dos sufixos-ISMO e -DADE em unidades lexicais da língua portuguesa e apresentar o resultado de análises realizadas acerca de quais argumentos circularam na imprensa brasileira em torno da adoção de novas unidades do léxico, mais especificamente com relação ao uso do binômio “homossexualismo” e “homossexualidade”, a fim de observar como ocorreu tal mudança lexical e o debate em torno dessa mudança, que se apoia em argumentos que transitaram entre o caráter linguístico (morfológico) e político (ideológico).

Este trabalho é um recorte da dissertação de mestrado intitulada “Léxico, cultura e ideologia: representações da homossexualidade na mídia”, no qual é utilizada a versão on-line do jornal Folha de S. Paulo como corpus de análise, como será explicado na seção “Fundamentos Metodológicos”.

A relevância do presente trabalho reside em contribuir para discussões que envolvem língua e sociedade, com ênfase para questões lexicais e ideológicas, uma vez que acreditamos que língua e sociedade estão diretamente relacionadas e, por isso, uma prática do âmbito social pode incidir no âmbito linguístico.

1. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS

Léxico: fenômeno linguístico, ideológico e social

A conceituação de léxico não é uma tarefa simples devido à sua natureza complexa e interdisciplinar e pode variar de acordo com a perspectiva à qual é submetido para definição e análise. Henriques (2018, p. 19) discute que “Léxico é uma palavra familiar a todos, no entanto é difícil chegar a uma definição exata. Muitos a têm como sinônimo de vocabulário, glossário, dicionários. Mas, às vezes esses termos têm definições diferentes entre si”.

Zavaglia (2012, p. 231) afirma que “O léxico é, pois, o conjunto de todos os itens lexicais existentes em uma língua natural, incluso aí expressões, fraseologismos, itens gramaticais. É um conjunto aberto, em contínua expansão, impossível de ser delimitado em sua totalidade”. Para Villalva e Silvestre (2014), o léxico é um repositório das unidades lexicais de uma língua. Uma entidade abstrata que se obtém por acumulação e que é também degradável (é ganhado, perdido, transformado e herdado). Apresentamos também uma definição mais ampla sobre o léxico:

É muito comum que o léxico seja entendido apenas como uma longa lista de palavras. Ao contrário, concebemos o léxico como um conjunto de recursos lexicais que incluem os morfemas da língua e mais os processos disponíveis na língua para construir palavras com esses recursos (Trask, 2011, p. 155).

Nesse sentido, com base nas definições apresentadas até o momento, entendemos o léxico como as unidades simples e complexas de uma língua, incluindo os recursos que permitem seu uso e sua transformação. Cabe ressaltar que observamos o uso e a construção de lexias de uma língua a partir de um viés discursivo e ideológico, que considera a incidência de processos extralinguísticos sobre esses fenômenos.

Desse modo, a investigação proposta neste trabalho, fundamentada na Lexicologia, visa analisar não somente as unidades lexicais “homossexualidade” e “homossexualismo”, mas principalmente a discussão em torno da substituição dessas lexias pautada pelo emprego dos sufixos, -ISMO e -DADE e como essa discussão, acerca do uso de uma ou de outra lexia , é atravessada no âmbito social e político por questões de caráter ideológico.

Para Lara (2006), o léxico tem um papel muito importante perante a sociedade, por transcender o nível linguístico e manifestar-se como símbolo social, articulando atitudes normativas e prescritivas de caráter ideológico, por meio de nomeação de ações, objetos, valores e tabus. Em função de tal manifestação, o léxico deixa de ser apenas um signo linguístico e, consequentemente, começa a fazer parte, também, do âmbito da moral e da ideologia, conceito de que trataremos adiante. Ao considerar o léxico como símbolo social, Lara (2006) aclara que não é aconselhável entender as palavras somente como sendo motivadas ou, então, como sendo arbitrárias, conforme proposto por Saussure (1916), mas, sim, como uma tradição verbal que é singular a cada língua e é refletida, diretamente, por meio da cultura e da ideologia, e vice-versa.

Com o passar dos anos, os usos sociais em torno da palavra criam regras e convenções, estabelecendo o que se deve e o que se pode dizer, ou não, em determinados contextos. É sugerível que se fale palavras aceitas, ou no máximo, toleráveis. Toda palavra que não é bem-vista, por qualquer viés, como o religioso, por exemplo, converte-se em um tabu social e lexical. As palavras tabu serão diferentes em cada sociedade, ainda que muitas possam ser comuns, porque os fatores culturais, políticos e ideológicos influenciam para que uma palavra seja socialmente aceita ou não.

Para Borba (2006), o léxico é um conjunto de representações da realidade e é responsável por fazer a conexão entre a língua, como entidade abstrata, e a realidade, o mundo dos objetos. Cada grupo da sociedade representa o mundo de uma maneira, a partir de suas perspectivas, ideologias, crenças, de modo homogêneo ou não, uma vez que, no interior desses grupos, também há pluralidades ideológicas. Deste modo, diferentes grupos sociais lançam mão de determinado léxico para melhor representar sua realidade, em contextos diversos. O léxico pode se manifestar a partir de vários pontos de vista social, político, linguístico, histórico etc. No caso deste trabalho, entende-se que os defensores dos direitos LGBTQIAP+, ao optarem pelo uso de “homossexualidade” no lugar de “homossexualismo”, e ao debaterem a importância dessa substituição, estão expressando, por meio da linguagem, o modo como sua orientação sexual deve ser representada linguisticamente, de maneira mais adequada.

Cada palavra remete a uma particularidade, cabendo ao lexicólogo, cientificamente, mostrar a sua significação. Para o autor, a relação entre língua e sociedade tem como produto final elementos ideológicos, culturais e linguísticos, como um processo cíclico e interligado. Essa interrelação resulta em discussões de língua como identidade social, em oposições como normas linguísticas versus normas sociais, e da língua como instrumento para defender a posição social de um sujeito a partir de um viés ideológico.

Nesse sentido, entendemos que práticas sociais podem ser manifestadas por meio do léxico de uma língua, representando, linguisticamente, visões de mundo e ideologias de determinados grupos sociais, e, no presente trabalho, observamos como tais manifestações ocorrem no âmbito morfológico a partir da discussão da possível substituição do sufixo -ISMO pelo sufixo -DADE no binômio “homossexualismo” e “homossexualidade”.

Usos dos sufixos -ISMO e -DADE

O sufixo -ISMO do português moderno é fruto do sufixo -ISMUS, do latim, que, por sua vez, é fruto do -ISMÓS, do grego. Gianastacio (2009) argumenta que na língua portuguesa, durante muito tempo, -ISMO não foi incorporado às gramáticas e descrito como sufixo. É possível notar, a partir de suas análises, que a inserção do -ISMO nas gramáticas foi lenta e não unânime ao longo do tempo. Na mesma perspectiva, é possível afirmar que as abrangências semânticas de -ISMO, diacronicamente, foram se transformando, sendo adicionada ou retirada alguma eventual significação.

Conforme atesta Gianastacio (2009, p. 76-79), -ISMO abarca muitos significados relacionados à: (i) tipicidade (o que é característico de algo, como em “lirismo”); (ii) semelhança (que tem a propriedade de algo, como em “simbolismo”); (iii) atividade (ideologia ou filosofia associada a algo, como em “tropicalismo” ou “cubismo”); (iv) quantidade (indicando coletivo de algo, como em “monossilabismo”) e (v) filiação (indicando adepto, simpatizante ou partidário de algo, como em “judaísmo”, “pragmatismo”, “concretismo”).

Na classificação de Gianastacio (2009), é possível ver o caráter multifacetado do sufixo -ISMO, uma vez que ele tem muitos significados. O autor categorizou os valores polissêmicos de -ISMO em classes, a que se refere às doenças, por exemplo, indicados pela marca “DOE”, mostrando a quantidade de palavras formadas por -ISMO com tal sentido. Além disso, o autor apresenta a distribuição de seus usos ao passar dos séculos e alguns exemplos. No século XVIII, duas palavras com -ISMO para doenças foram documentadas pela primeira vez na língua, “embolismo” e “histerismo”. Já no século XIX, tem-se 18 palavras documentadas, por exemplo “albinismo”. No século XX, foram 13 palavras, dentre elas “botulismo”.

De acordo com o dicionário Houaiss de elementos mórficos (2009), -ISMO é um sufixo que transitoudo grego para o latim, como formador de substantivos a partir de verbos de ação: “catecismo”, “helenismo”, “ostracismo”. No português, o percurso desse sufixo também foi inverso, uma vez que se formaram verbos a partir de substantivos terminados em -ISMO, como em “bolchevismo” (bolchevizar) e “jacobinismo” (jacobinizar). Em formações mais recentes, o sufixo -ISMO foi, primeiro, usado em medicina para designar uma intoxicação por um agente: “absintismo”, “alcoolismo”, “iodismo”. No curso dos séculos XIX e XX, seu uso se disseminou para designar movimentos sociais (veganismo), ideológicos (feminismo), políticos (populismo), religiosos (budismo) e, por meio dos nomes próprios representativos, ou de nomes locativos de origem. Assim, observou-se que o sufixo -ISMO pode agregar distintos significados às lexias as quais compõe. É possível notar, pois, que o sufixo -ISMO é explorado em muitos outros contextos, com diferentes possibilidades de sentido, e não só como doença.

Para Sandmann (1989), a pejoratividade não é inerente ao sufixo -ISMO, mas decorrente de fatores culturais que levaram o traço depreciativo ao sufixo. Como exemplo, o autor diz que -ISMO pode também compor lexias com um valor cultural neutro e positivo, como em “cubismo” e “naturalismo”. Contrapondo -ISMO ao sufixo -DADE, é possível observar que ele também pode formar substantivos que são associados a sentidos pejorativos, como em “falsidade”, uma vez que os traços negativos desta lexia vêm a partir da sua base, “falso”.

O sufixo -DADE, consoante ao sufixo -ISMO, também é muito produtivo na língua portuguesa e, com o passar dos anos, sofreu algumas mudanças, se comparado com o sufixo -TATEM, do latim. De forma análoga ao estudo de Gianastacio (2009), Simões (2009) estudou, diacronicamente, os valores semânticos do sufixo -DADE, usando como corpus os dicionários da língua portuguesa, categorizando os diferentes significados e funções do sufixo -DADE, associados a essa língua.

De acordo com Simões (2009, p. 60) é possível classificar os significados do sufixo -DADE por paráfrases. Vejamos agora a lista em exemplos: (i) propriedade/qualidade de ser x, como em “criminalidade”; (ii) o fato de ser x, como em “lealdade”; (iii) atitude ou ação de quem é x, como em “moralidade”; (iv) aquele ou aquilo que é x, como em “lealdade”; (v) conjunto do que é x, como em “atualidade”.

Outro fator identificado por Simões (2009), é que há intersecções em algumas formações com o sufixo -DADE, isto é, uma mesma lexia pode ser classificada por mais de uma categoria, como o caso de “lealdade”, presente no parágrafo anterior. Outro exemplo trazido pela autora é “antiguidade”. A palavra antiguidade designa o fato de ser antigo; propriedade ou qualidade de ser antigo, como também aquele/aquilo que é antigo; conjunto do que é antigo (Simões, 2009, p. 72).

A autora assevera, também, a importância da diacronia para os sufixos, visto que eles podem ganhar, perder e modificar muitos significados ao longo dos anos. Desse modo, pode-se afirmar que os sentidos desses dois sufixos foram se transformando com o passar do tempo, adquirindo ou perdendo matizes de significação.

É importante notar que, na discussão do binômio “homossexualismo” e “homossexualidade”, um dos principais argumentos presentes no debate midiático, como veremos em nosso corpus de análise, é que -ISMO carregaria um valor de doença e -DADE, por sua vez, seria a forma “neutra” ou dissociada da ideia de doença ou patologia, porém, como vimos anteriormente, essa associação de sentido não é absoluta, podendo tanto um como outro serem empregados para definir eventos ou fatos com matizes semânticos apreciativos ou depreciativos, pois não são os sufixos que determinam esses fatores, mas sim os componentes semânticos associados às lexias que compõem as suas bases.

Os estudos de Gianastacio (2009) e Simões (2009) demonstram que não é possível taxar necessariamente -ISMO como um sufixo negativo, pois existem muitas palavras formadas por -ISMO que não remetem a doenças. Ao realizar um levantamento no dicionário eletrônico Houaiss, podemos constatar que, matematicamente, as palavras repertoriadas formadas por -ISMO que remetem a doenças são a minoria, menos de 10% da totalidade dos lexemas registrados com esse sufixo. Vale ressaltar, também, que a suposta neutralidade atribuída ao sufixo -DADE pode ser questionada facilmente ao analisarmos palavras como “adversidade”, “agressividade”, “ansiedade”, “bestialidade”, “calamidade”, dentre outras, que podem ganhar, em variados contextos de uso, certos matizes negativos. Reforçando, dessa maneira, que os sufixos não contêm sentidos negativos ou positivos, mas sim refletem sentidos a partir de usos linguísticos que são social e culturalmente associados a determinados discursos ideológicos ou a partir dos sentidos associados às suas bases.

Assim, podemos refletir que, guiados unicamente pelo critério linguístico, isto é, pela natureza semântica e morfológica que caracteriza os sufixos -ISMO e -DADE, não é possível afirmar que o seu acréscimo a uma base possa originar um substantivo neutro ou isento de conotações favoráveis ou desfavoráveis. Trata-se de sufixos complexos que aportam uma gama variada de sentidos e valores, não necessariamente estando atrelados de modo objetivo a uma esfera positiva e negativa de significação. Desse modo, entendemos que a reivindicação de troca de um item lexical por outro, pautado unicamente por critérios linguísticos, sejam eles morfológicos ou semânticos, não se sustenta como um argumento justificável para a proposta de tal alteração, como são apresentados em alguns órgãos, sites, manuais de coletivos ou grupos que tentam promover essa substituição.

Entender e analisar os valores semânticos dos sufixos, além da estrutura interna e suas variações, fazse necessário para lidar com uma das questões do presente trabalho: a substituição de “homossexualismo” por “homossexualidade” e suas possíveis motivações. Uma vez que ambas as lexias são frutos de formação aditiva, no caso, por derivação sufixal, quais diferenças estariam implicadas, morfológica e semanticamente, em seus diferentes empregos?

Partimos do entendimento de que as lexias “homossexualismo”, para designar a prática de relação amorosa e/ou sexual entre indivíduos do mesmo sexo, e “heterossexualidade”, para designar relação amorosa e/ou prática sexual entre indivíduos do sexo oposto, vinham sendo empregadas, convencionalmente em língua portuguesa, no lugar de seus sinônimos concorrentes “homossexualidade” e “heterossexualismo”. Como exemplificamos abaixo, a forma “heterossexualismo”, de emprego menos frequente, tem ocorrência no corpus desta pesquisa e é também dicionarizada, embora não seja discutida por estabelecermos como escopo desta investigação somente o binômio “homossexualismo” e “homossexualidade”.

Inserimos abaixo, a título de exemplificação, o lexema do Dicionário On-line de Português:

HETEROSSEXUALISMO

substantivo masculino: Propensão a se sentir atraído (sexualmente e/ou emocionalmente) por pessoas do sexo oposto. Prática

sexual efetivada entre pessoas de sexo oposto.

Etimologia (origem da palavra heterossexualismo). Heterossexual + ismo.

A partir da despatologização da homossexualidade no final do século XX e com a reivindicação do item lexical “homossexualidade” no lugar de “homossexualismo”, a discussão na mídia passou a ser pautada em argumentos de natureza distinta. Trataremos a seguir dos embasamentos que parecem sustentar um dos polos centrais ao debate: o uso do sufixo do ponto de vista linguístico.

Ilari (2002, p. 181) define os sufixos como unidades significativas, inferiores à palavra, que se acrescentam “à direita de um radical, formando novas palavras”. O autor destaca que os sufixos podem sofrer flexão de gênero e número, nos substantivos, e de tempo e modo, nos verbos. Nesse sentido, os sufixos acrescentados à lexia “homossexual” formam os substantivos que caracterizam a orientação sexual de pessoas que se atraem pelo mesmo gênero, mas a escolha entre -ISMO ou -DADE, por não se assentarem na semântica dos sufixos, revelam os valores socialmente construídos ao longo do tempo em torno dessas lexias e que foram carregados por matizes ideológicos e culturais. Desse modo, Gonçalves e Souza (2018) traçam um breve histórico da linguística textual para fazer um estudo colaborativo entre o nível morfológico e o textual, lançando mão de diversos exemplos para defender que a morfologia não se esgota apenas no nível morfológico, mas também trabalha no nível discursivo. Assim, a partir de escolhas lexicais, por exemplo, ou de determinados sufixos, pode-se acentuar um caráter depreciativo ou positivo, a depender da intencionalidade do falante/emissor, como discutido na análise a seguir.

Identidade, ideologias e ideologias linguísticas

Aidentidade, bem como a ideologia, é inerente a todos os indivíduos. Todos recebem, direta ou indiretamente, algum nome que traz, consequentemente, algumas etiquetas, que têm normas, valores e hábitos a serem seguidos; muitas vezes, por convenção social, política e histórica, nomeia-se esta identidade como social. Além da identidade que é atribuída a um indivíduo, existe, também, a que ele próprio se atribui, a identidade pessoal, a partir das escolhas dos grupos sociais dos quais fará parte, compartilhando ideologias e representações de mundo.

Segundo Charaudeau (2015), as identidades ajudam os indivíduos a tomar consciência de si mesmos, dentro de determinada sociedade. As identidades colaboram, diretamente, para que o indivíduo possa se entender dentro de alguma comunidade e, também, fora de outra. Todo indivíduo é composto por suas identidades. Essas identidades podem dizer respeito, por exemplo, às suas orientações sexuais, às suas identidades de gênero, aos movimentos políticos e sociais dos quais fazem parte, como o veganismo, às suas etnias etc. Nesse sentido,elas são construídas a partir das relações sociais e das práticas às quais esses indivíduos estão vinculados em sociedade, sempre marcadas por produções discursivas. No caso dos membros da comunidade LGBTQIAP+, essas identidades podem ser atreladas aos discursos que reivindicam seus direitos, por meio de leituras teóricas, ou de debates em coletivos sociais, sobre as orientações sexuais e as identidades de gênero que não se encaixam na imposição cis-heteronormativa. Esses debates e leituras podem acontecer em universidades, em programas de televisão, nas redes sociais etc.

As identidades estão relacionadas fundamentalmente com o ato de nomear. Segundo Borges e Rocha- Coutinho (2015), tal ato tem o fito de delimitar fronteiras, naturalizar limites, demarcar lugares a serem ocupados e distâncias a serem mantidas. Então, ao nomear alguém, uma identidade está sendo atribuída, o que as autoras chamam de operação social que, somadas a outras operações sociais, geram uma construção social, isto é, quando um sujeito é nomeado, diretamente, são impostas normas que ele deve seguir na sociedade da qual faz parte. Desse modo, neste trabalho, entendemos que determinadas ideologias sobre alguns grupos sociais podem culminar em discursos que ferem identidades relacionadas às pessoas que constituem a comunidade LGBTQIAP+. Assim, os sujeitos desse grupo podem produzir discursos que visam defender suas identidades e reivindicar seus direitos. Uma pauta muito frequente nas reivindicações dos homossexuais era apagar a ideia de doença. Tal fato passou a se transformar a partir da despatologização da homossexualidade na década de 1990, como vimos anteriormente.

Em consequência desses acontecimentos, coletivos organizados em torno do tema LGBTQIAP+ propuseram apresentar aos meios de comunicação manuais de orientação para o uso mais adequado dessa terminologia. Como pode-se observar no Manual de Comunicação LGBTQ+, organizado pelos coletivos Gay Latino - Rede pela Igualdade de Direitos e Aliança Nacional LGBTI, que orienta acerca do emprego de “homossexualidade” no lugar de “homossexualismo”, pois este último seria considerado “incorreto e preconceituoso devido ao sufixo “ismo”, que denota doença e anormalidade. De acordo com esse Manual, o termo substitutivo é “homossexualidade”, que se refere à forma correta à orientação sexual do indivíduo, indicando ‘modo de ser e sentir’” (Reis, 2018, p. 64).

As reivindicações incidem sobre a representação de um determinado grupo, no caso, os homossexuais, que lutam contra a homofobia e tentam tornar legítimas transformações que desconstruam uma identidade que foi criada pejorativamente, propondo eventuais mudanças que contemplem e façam sentido para os indivíduos que pertencem ao grupo social. Ao falar de identidade deve-se, também, refletir sobre a importância da língua nos processos de construções identitárias, pois as ideologias e representações de grupos sociais são constituídas e reproduzidas essencialmente por meio das práticas discursivas.

Nesse sentido, cabe mencionar as seguintes afirmações de Borges (2011, p. 111, grifos nossos):

Propor a simples substituição de um termo “marcado”, ou de formas genéricas, por um sinônimo, ou eufemismo ou expressão descritiva, como tem sido propugnado pelos adeptos deste movimento, apesar de pôr em evidência certos efeitos de sentido, sintomas de preconceitos, não resolve o problema das assimetrias sociais, antes, o dissimula. Substituir a palavra, sem alterar a arquitetura discursiva que sustenta o seu sentido, não altera as relações de significância que esta mantém com o complexo histórico de valores e atitudes próprios de uma sociedade [...]. As palavras, isoladamente, não são o(s) sentido(s) de que estão possuídas. É mediante um processo histórico que as palavras são investidas de sentidos. Isto quer dizer que os sentidos são constituídos pela materialidade histórico-social.

Assim, como será observado na análise, o uso de “homossexualidade” nem sempre assinala uma construção discursiva a favor dos direitos LGBTQIAP+, assim como “homossexualismo” não marca necessariamente um discurso homofóbico. É necessário avaliar o contexto discursivo em que as lexias foram utilizadas, assim como os produtores do discurso, pois suas posições ideológicas nem sempre refletem diretamente suas escolhas lexicais, como será destacado na discussão acerca de ideologias, na sequência. Esses usos apontam justamente para a instabilidade dessas duas unidades lexicais, “homossexualidade” e “homossexualismo”, no momento sóciohistórico em que os discursos foram produzidos.

Van Dijk (2005) define a ideologia como um elemento sociocognitivo, pois é resultado da relação dos grupos sociais com o sistema de crenças. Uma vez que o autor parte da definição de ideologia atrelada à esfera das ideias, um sistema de crenças, então, ele acredita ser necessário, também, uma teoria cognitiva para fundamentar os estudos ideológicos.

Tal sistema de crenças não é individual, mas sim compartilhado pelos membros de um grupo. Criarou desenvolver uma ideologia não é inerente a todos os grupos, já que as ideologias servem para representar socialmente e definir a sua identidade. Há uma gama de tipos de ideologia, que variam a depender dos grupos, por exemplo: movimentos sociais, religião e profissão.

O autor argumenta que as ideologias são crenças compartilhadas socialmente, no entanto, não devem ser generalizadas. O conhecimento sociocultural ou atitudes sociais não são ideologias, já que, para uma crença ser definida como ideológica, faz-se necessário um caráter mais fundamental e explícito, isto é, crenças que controlam e organizam outras crenças compartilhadas socialmente. A título de exemplificação, uma ideologia LGBTQIAP+ pode controlar atitudes sobre casamento igualitário, conceito de família, de casa e de defesa contra homofobia.

De acordo com Van Dijk (2005, p. 11), ter bem delimitado o que não são ideologias também é útil, por se tratar de um conceito abstrato. As ideologias não são crenças pessoais ou individuais, não são só estritamente negativas, não são apenas dominantes e não são um tipo de falsa consciência. Assim, do mesmo modo que existe a ideologia do racismo, existe a do antirracismo.

Após conceituar o que é ideologia, é pertinente, agora, explanar o conceito para o âmbito da Linguística. Segundo Swiggers (2018), o campo da ideologia linguística é muito vasto e pode ser usado em outras grandes áreas, como a antropologia e a filosofia. No entanto, a sua definição é mais estrita, já que se trata de um conceito bem amplo sendo aplicado para a língua, a linguagem e a linguística. Swiggers (2018, p. 75) parte de quatro definições, de Silverstein (1979), Irvine (1989), Woolard (1998) e Kroskrity (2000) a fim de delinear melhor o conceito.

Nessas diferentes perspectivas, define-se a ideologia linguística como um conjunto de ideias e convicções que constituem uma racionalização e justificativa de estrutura e de usos da língua na percepção dos falantes, um sistema cultural de ideias, carregadas de interesses políticos e morais, acerca das relações sociais e linguísticas. Atesta também que a ideologia linguística trata de representações, explícitas ou implícitas, que constituem a intersecção entre seres humanos e linguagem dentro de um universo social; e, define ideologias linguísticas como um conceito agrupado com quatro propriedades: as ideologias representam a percepção da língua e do discurso que convém aos interesses de um grupo sociocultural particular; as ideologias linguísticas são múltiplas (em relação às diferenças sociais entre grupos socioculturais com suas visões divergentes); as ideologias são compactadas (se usam em lugares específicos); as ideologias são uma mediação entre estruturas sociais e formas de falar.

Segundo Calero Vaquera (2010), nossa língua influencia diretamente a maneira como pensamos e, por consequência, nos serve para defender a identidade social e linguística e as visões de mundo. A ideologia linguística está ligada diretamente ao uso da língua/linguagem. O indivíduo, por meio da língua, expressa sua visão de mundo, suas opiniões, seus pensamentos, defende a si mesmo, ou a seu grupo e, até mesmo, ataca outros grupos, vide o embate travado pelas ideologias de racismo versus antirracismo. Para todas essas ações que se expressam pela língua, a ideologia está presente, consciente ou inconscientemente. Pode-se afirmar, então, que a ideologia se relaciona de maneira intrínseca à língua/linguagem.

Entendendo a ideologia como algo inerente à sociedade, em qualquer que seja o âmbito, é possível, consequentemente, entender que não existe posicionamento, visão de mundo, opinião e discurso (fala ou texto) isentos de ideologia, visto que a ideologia é intrínseca à língua que, por sua vez, atua como instrumento para tais realizações discursivas. As ideologias marcam uma posição do sujeito diante do discurso e refletem uma visão de mundo particular, podendo ser, portanto, representações de discursos dominantes ou de resistência de determinados grupos sociais. Desse modo, algumas ideologias são veiculadas por grupos hegemônicos para a manutenção do status quo, enquanto outras, veiculadas por grupos minoritários, são entendidas como formasde resistência.

As ideologias linguísticas, em síntese, as crenças e os pensamentos acerca da língua, estão interligadas com as ideologias sociais, sendo que a argumentação de uma pode interferir, direta ou indiretamente, na outra. É o que, inicialmente, foi notado no presente trabalho, argumentações de caráter linguístico, mais pontualmente morfológico, de sufixação e formação de palavras, são usadas para defender um posicionamento que, possivelmente, deriva de uma ideologia social e não estritamente linguística. As pessoas, ao se manifestarem sobre a língua, expressam, direta ou indiretamente, opiniões que vão além do caráter linguístico: o social e o político.

2. FUNDAMENTOS METODOLÓGICOS

A presente seção se ocupa da metodologia do trabalho. Dada a abordagem qualitativa da pesquisa, foram analisados excertos selecionados a partir da presença do binômio lexical “homossexualismo” e “homossexualidade”, a fim de explorar tanto a arbitrariedade presente, ou não, no uso das duas lexias, como o debate em torno da troca desses vocábulos e os argumentos linguísticos e ideológicos mobilizados nessa discussão. O corpus foi composto por textos disponibilizados no modo on-line do jornal brasileiro Folha de S. Paulo, em função de ser um jornal de grande circulação no país. Usamos a ferramenta de busca que o próprio jornal disponibiliza em seu site para selecionar notícias que traziam o binômio “homossexualismo” e “homossexualidade”. Para este trabalho, usaremos um recorte do nosso corpus total, composto por 6 textos, número considerado adequado para a extensão do presente artigo, referente ao período de 2000 a 2018, pois considera-se que o período é representativo das ideias que circularam nos primeiros anos do século XXI.

A metodologia do trabalho seguiu as seguintes etapas: a primeira foi, utilizando o buscador da versão online do jornal Folha de S. Paulo (https://www.folha.uol.com.br/), realizar o levantamento dos textos nos quais as lexias “homossexualismo” e “homossexualidade” ocorriam simultaneamente. Para essa etapa, classificamos os textos dos mais antigos para os mais atuais. Finalizada essa etapa de seleção, realizamos a leitura das notícias a fim de extrair do corpus os dados que seriam apresentados na análise.

A título de organização, diante de cada excerto haverá a indicação, entre parênteses, da fonte de consulta (Folha de São Paulo), por meio da sigla FSP, número do texto em função da organização progressiva cronológica em que são apresentados e o ano de sua publicação. Esses dados serão separados por vírgulas, dessa forma, o sexto texto do nosso corpus, por exemplo, receberá a marcação (FSP, 6, 2000). Os excertos que apresentarem fragmentos que não mantiverem relação com o escopo da pesquisa, sofrerão elisões indicadas por colchetes e reticências [...].

Quadro 1
Organização do corpus

3. ANÁLISE DE DADOS

Os primeiros excertos do corpus, de 17 de abril de 2000, fazem parte de um compilado de opiniões de leitores enviado à seção “Cartas” do jornal Folha de S. Paulo, no Caderno Folhateen, em resposta a uma carta que foi publicada na semana anterior a essa publicação (no dia 10 de abril de 2000). Na carta, cuja autora é Priscila Ferreira, a unidade lexical “homossexualismo” é utilizada da seguinte forma: “homossexualismo não é uma opção sexual do indivíduo e, sim, uma deturpação grave da sexualidade”. Os fragmentos que citaremos abaixo compõem as manifestações de outros leitores que, em resposta à afirmação de Priscila Ferreira, demonstraram desconforto com a colocação. Podemos observar que em alguns comentários a lexia escolhida é “homossexualidade”, em outros é “homossexualismo”, isto é, ambas são usadas pelos leitores arbitrariamente.

Embora todos rechacem a carta de Priscila, em nenhum comentário a substituição sufixal é colocada em voga, como vemos a seguir:

É impressionante que, no ano 2000, ainda existam pessoas como Priscila Ferreira (ed. de 10/4), com opiniões infelizes e arcaicas sobre homossexualidade. É digna de pena. Está mais do que provado que a atração entre duas pessoas do mesmo sexo não se dá por uma “deturpação da sexualidade” ou por medo do sexo oposto.

Marcos Ribeiro (Campinas, SP) (FSP, 1, 2000, grifo nosso).

[...] Escrevo também para protestar contra uma leitorazinha que teve seu e-mail publicado (ed. de 10/4). Ela xinga a doutora Rosely Sayão e classifica o homossexualismo como “deturpação sexual’(!?!). Isso só prova que somos educados para engolir tudo que nos foi predeterminado, sem parar para pensar no que é “certo ou errado”. O que é certo e errado, afinal? Ser gay é errado por quê?? Camila Eleutério, 15 (Santos, SP) (FSP, 1, 2000, grifo nosso).

Embora sejam enunciados produzidos por diferentes sujeitos, pode-se notar nos excertos acima que a substituição do sufixo -ISMO pelo -DADE ainda não se impunha como um debate presente na sociedade no ano 2000, ou pelo menos, não foi manifestado explicitamente pelos leitores que se expressaram no jornal e usaram indistintamente as duas unidades para criticar a posição de Priscila.

O próximo excerto extraído do texto 2, da antropóloga Lilian Schwarcz, é a primeira ocorrência do nosso corpus que traz a discussão da possível substituição de “homossexualismo” por “homossexualidade”, pautada pelo viés do politicamente correto, como veremos a seguir:

Revelador dessa troca alargada de termos é o item consagrado ao “homossexualismo”. A indicação é para que se passe a usar “homossexualidade”, uma vez que este termo descreve a condição de forma neutra, enquanto que o primeiro teria uma carga pejorativa e associaria o homossexual a uma doença (FSP, 2, 2005, grifos nossos).

Esse excerto, que data de 2005, foi pioneiro ao apontar o início de um novo tema para debate: a substituição do sufixo -ISMO por -DADE, instaurando a discussão que antes se centrava apenas no âmbito científico, ou seja, se a orientação sexual era ou não algum tipo de patologia, estendendo-a também para o âmbito linguístico e social, fazendo referência explícita à substituição dos termos.

É importante ressaltar que nesse artigo de opinião, intitulado “Quem tem medo do politicamente incorreto”, a historiadora e antropóloga brasileira Lilian Schwarcz discute a substituição e tece comentários sobre a onda do politicamente correto no Brasil. Ela aborda a questão da importação dessa discussão como sendo originária, de forma “inusitada”, nos Estados Unidos (“Há algum tempo uma polêmica inusitada surgiu nas páginas da imprensa norte-americana”) e tece críticas a esse comportamento.

Esse texto, além de representar um marco de transformação em nosso corpus, traz para o contexto midiático reflexões importantes que passariam a tangenciar as discussões ao longo dos próximos anos, tanto acerca do funcionamento estrutural da linguagem como do caráter ideológico que subjaz ao seu uso. A perspectiva da autora nos faz considerar até que ponto a presença de lexias pejorativas definem um texto ou discurso como sendo iminentemente preconceituoso e, por outro lado, se a presença de eufemismos não revela igualmente a tentativa de dissimulação em torno dos preconceitos e estereótipos arraigados em uma sociedade. Também nos suscita reflexões em torno da possibilidade de “neutralidade” da linguagem ou do uso “não marcado” que possa refletir ações menos discriminatórias por parte dos falantes.

É interessante notar que, em alguns textos, como é o caso dos fragmentos a seguir, pertencentes ao texto 3, de 2010, as duas lexias aparecem integradas ao mesmo discurso e que esse discurso se configura como uma reivindicação de “respeito” emitido pelo locutor, por meio de uma citação do médium mineiro Chico Xavier, cuja entrevista foi publicada por Almyr Guimarães, em 30 de abril de 2010. O entrevistado, além de “homossexualidade” e “homossexualismo”, usa as lexias “bissexualidade” e “bissexualismo”, sem fazer distinção entre elas, associadas, ao longo da entrevista, a outras unidades lexicais, com destaques nossos: “condições da alma humana”, “não devem ser interpretados como fenômenos espantosos, como fenômenos atacáveis pelo ridículo da humanidade”, “tanto quanto acontece com a maioria que desfruta de uma sexualidade dita normal”.

Os excertos da entrevista expostos abaixo, configuram a resposta da pergunta “Como se explica o homossexualismo e a perturbação no comportamento sexual à luz da doutrina espírita?”

O homossexualismo, tanto quanto a bissexualidade ou bissexualismo como a assexualidade são condições da alma humana. Não devem ser interpretados como fenômenos espantosos, como fenômenos atacáveis pelo ridículo da humanidade. [...] Aqueles que são portadores de sentimentos de homossexualidade ou bissexualidade são dignos do nosso maior respeito”, afirmou o médium mineiro Chico Xavier (1910-2002), em uma entrevista histórica concedida à extinta TV Tupi no ano de 1971. Não nos referimos aqui aos problemas do desequilíbrio nem aos problemas da chamada viciação nas relações humanas. Estamos nos referindo a condições da personalidade humana reencarnada, muitas vezes portadora de conflitos que dizem respeito seja à sua condição de alma em prova ou à sua condição de criatura em tarefa específica (FSP, 3, 2010, grifos nossos).

Podemos observar, dessa forma, que as unidades lexicais “homossexualismo” e “bissexualismo”, presentes na discussão, são usadas em um debate que se instaura em defesa dos direitos e valores homossexuais, reafirmando questões identitárias que incidem sobre o reconhecimento e respeito a esse grupo, e que o funcionamento dessas unidades está vinculado a sua articulação no discurso.

O uso arbitrário dos sufixos -ISMO e -DADE, usados também com “bissexualismo” e “bissexualidade”, pode demonstrar que o falante desconhece as questões ideológicas que se vinculam às unidades lexicais que compõem o seu discurso e que já se instauravam em debates em outros contextos que se focavam no uso de um sufixo em detrimento do outro, ou mesmo que os falantes ainda tenham consciência sobre tais usos, desconsideravam, até esse momento, sua relevância. Dessa forma, são usados como sinônimos e, possivelmente, para o falante em questão, Chico Xavier, a carga ideológica não influenciou suas escolhas. Assim, como já foi discutido, o argumento sobre o valor negativo ser presente no sufixo -ISMO não se sustenta linguisticamente.

Somente no texto 4, no próximo excerto, Hélio Schwartsman, editorialista e colunista da Folha, polemiza ao escrever sobre seu ponto de vista defendendo o uso da lexia “homossexualismo” e não “homossexualidade”.

Compreendo que os gays procurem levantar bandeiras, inclusive linguísticas, para mobilizar as pessoas. Em nome da cortesia pública, eu me disporia a adotar a forma “homossexualidade”, desde que ela fosse defendida como uma simples predileção. Mas, enquanto tentarem justificar essa opção com base em delírios etimológicos, sinto-me no dever de continuar usando a variante em “-ismo”. Alguém, afinal, precisa zelar para que preconceitos não invadam e conspurquem o universo de sufixos, prefixos e infixos. A batalha pode ser inglória, mas a causa é justa. (FSP, 4, 2013, grifos nossos).

Schwartsman defende seu argumento à luz da morfologia, relatando que há muitas palavras que terminam com -ISMO e não são pejorativas ou remetem à patologia. Em suas palavras:

Quem estudou um pouquinho de grego sabe que o elemento “-ismós” (que deu origem ao nosso “-ismo”) pode ser usado para compor palavras abstratas de qualquer categoria: magnetismo, batismo, ciclismo, realismo, dadaísmo [...]. “De qualquer formae por qualquer conta, as moléstias são uma minoria. Das 1.663 palavras terminadas em “-ismo” que meu Houaiss eletrônico relaciona, apenas 115 (um pouco menos que 7%) designam doenças ou estados patológicos.

O colunista usa estritamente um argumento linguístico para defender seu argumento e, concomitantemente, refuta os argumentos pró substituição dos sufixos. É possível notar que o locutor do texto 4 tem algum conhecimento gramatical, no entanto, fica evidente um posicionamento conservador, no que se refere ao usode um ou outro sufixo. Além disso, ao usar o argumento de que a quantidade de palavras que denotam doenças formadas com -ISMO são minoria, o colunista usa “moléstia”, deixando uma ideia de que se é minoria, não é importante. Com isso, pode-se notar que Schwartsman não leva em consideração o fenômeno de mudança linguística, nem os fatores de caráter ideológico que podem incidir sobre tal fenômeno. Além disso, podemos agregar a essa ideia de que tal mudança não é casual e sem motivação, mas sim, que acompanham os fenômenos sociais, históricos e culturais, o que, por exemplo, ocorre na discussão da substituição de “homossexualismo” por “homossexualidade”. O fato de ser “minoria” ou “maioria” na língua não deveria ser, de antemão, julgado como “melhor” ou “pior”. O último ponto que revela uma perspectiva linguística mais conservadora e tradicional no excerto de Schwartsman é afirmar que os falantes “conspurcam” a língua, não somente ao utilizar um verbo muito formal, mas também por revelar, por meio da afirmação, a visão estereotipada e preconceituosa de queos falantes fazem mau uso da língua portuguesa.

Ainda de 2013, compõe o nosso corpus de análise o texto 5, uma entrevista com Marco Feliciano, que foi digitalizada para ser publicada no jornal Folha de S. Paulo.

Marco Feliciano: Se eu falar patologia, amanhã eu vou ser crucificado de novo porque vamos falar de doença. Não, a homossexualidade, não posso falar mais homossexualismo... Eu posso falar heterossexualismo, mas não posso falar homossexualismo. A homossexualidade, ela não é uma patologia (FSP, 5, 2013, grifos nossos).

Feliciano faz uma explicitação do controle linguístico imposto ideologicamente com relação ao usode “homossexualismo”, fato demonstrado quando ele se corrige, conscientemente, fazendo uso da lexia “homossexualidade”, para evitar mais indisposições de viés ideológico com grupos de militâncias. Aqui podemos pontuar um marco de transformação também indicado pelo uso monitorado da língua com relação à substituição das lexias em função das pressões ideológicas do entorno social, diferente do que é explorado anteriormente, pelo viés linguístico. Claramente, o falante não é partidário da adoção da lexia “homossexualidade”, mas faz uso dela voluntariamente para evitar represálias ou desagravos por pessoas que reivindicam a troca.

O texto 6, escrito pelo colunista Tony Goes em 2018, discute sobre a orientação sexual do cantor Lulu Santos, analisando alguns discursos homofóbicos.

Ninguém quer ser tachado de homofóbico. Nem mesmo quem expressa claramente sua intolerância aos homossexuais. Os preconceituosos tentam se disfarçar usando frases como “não concordo com a prática do homossexualismo (sic)”, ou a já clássica “tenho até amigos gays” (FSP, 6, 2018, grifo nosso).

Uma possível consolidação da ideologia da substituição pautada pelo viés ideológico que apareceu no corpus aqui analisado com maior frequência à medida que entramos na segunda década do século XXI fica mais evidenciada, nesse texto, com o uso do recurso “(sic)” pelo jornalista. Tony Goes não apenas se posiciona, mas taxa o uso da lexia “homossexualismo” como preconceituoso. A expressão latina sic erat scriptum, traduzida literalmente como “assim estava escrito”, é usada pelo jornalista com o (sic) para marcar que a citação incorreta está igual do texto de origem, aclarando para o leitor que quaisquer eventuais desvios gramaticais, ortográficos e uso arcaico de linguagem não têm relação com o autor do texto, e sim com a fonte citada, sendo, portanto, de responsabilidade da fonte. Tony, ao marcar (sic) em “homossexualismo”, assevera seu posicionamento de que considera o uso inadequado e que deve ser evitado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste trabalho, analisamos o processo de mudança ou substituição de duas unidades lexicais que entraram em concorrência no final do século XX e permanecem ainda em competição atualmente: as lexias “homossexualismo” e “homossexualidade”. O cerne do trabalho, foi, então, investigar em quais argumentos se pautaram as ideologias linguísticas usadas para defender a substituição (ou não) do sufixo -ISMO pelo -DADE, tendo como corpus textos jornalísticos do jornal Folha de S. Paulo, produzidos nas primeiras décadas do século XXI.

Procuramos evidenciar, em nossa análise, primeiramente, os fenômenos que motivaram tais mudanças, na nossa perspectiva, de natureza ideológica, porém fundamentados em argumentos não só de caráter político, histórico e social, mas também linguístico (pautados no suposto valor etimológico presente na sufixação -ISMO e -DADE). Os argumentos mobilizados em defesa da substituição de -ISMO por -DADE, pautados na ideia da despatologização, atestavam que o sufixo -ISMO conotava um sentido de enfermidade, e que o sufixo -DADE seria “neutro”.

Entretanto, a pesquisa em bases lexicais, gramáticas e na literatura de morfologia histórica apresentada demonstrou que o sufixo -ISMO denota muitos outros sentidos, assim como o sufixo -DADE também pode denotar, em algumas lexias, sentidos “negativos”, o que não sustenta, de um ponto de vista estritamente linguístico, a defesa do uso de um ou outro sufixo com base na mobilização de argumentos fundamentados, exclusivamente, no processo de sufixação.

Nessa perspectiva, o léxico, e sua relação com os aspectos discursivos e identitários, se situa no nível da representação simbólica, atravessado não só por ideologias identitárias, políticas ou sociais, mas também pelas ideologias linguísticas. Dessa forma, esse conceito foi debatido aqui com base nos processos de correção política presentes em diferentes contextos, nacionais e internacionais, e que se manifestam com destaque na mídia digital. Entendemos, portanto, que, embora a reivindicação não se sustente de uma perspectiva linguística, ela se legitima, do ponto de vista ideológico, da representação identitária de grupos minoritários, uma vez que o léxico agrega sentidos que o convertem em símbolo social.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS DA PESQUISA

Declaramos, para os devidos fins, que o artigo intitulado “Léxico em disputa: ideologias linguísticas e reivindicação de identidades na substituição de ‘homossexualismo’ por ‘homossexualidade’ no discurso jornalístico” utiliza apenas de dados públicos, que estão disponíveis nos endereços eletrônicos citados, permitindo amplo e irrestrito acesso.

REFERÊNCIAS

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Set 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    31 Ago 2024
  • Aceito
    15 Abr 2025
  • Publicado
    22 Abr 2025
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