Open-access Trilhas para sentir o que não sabemos

MAIA, João R.; REIS, José R. F.; CRUZ, Leandra B.. (org.). Pensar a loucura: trilhas literárias, culturais, históricas . Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2023, 312 p.

Daí a literatura poder constituir uma experiência que, ilusória ou não, aparece como um meio de descoberta e de esforço, não para expressar o que sabemos, mas para sentir o que não sabemos. (Blanchot, 1997, p. 81)

Há algo de irônico na forma como esse excerto de Blanchot é evocado nesta resenha. É que as epígrafes, no mais das vezes, apresentam-se justamente como um recurso que busca sintetizar de modo elegante as ideias apresentadas em um texto. E assim, a partir da escolha arbitrária de algum fragmento de discurso literário, um autor pode valer-se das veredas de Rosa (1956) para apresentar um capítulo de metodologia, ou da narrativa de Breton (2007) stalkeando Nadja para introduzir algumas linhas sobre acompanhamento terapêutico.

Não é assim que a arte aparece em Pensar a loucura: trilhas literárias, culturais, históricas, organizado por uma psicóloga (Leandra Brasil da Cruz), um historiador (José Roberto Franco Reis) e um professor de literatura (João Roberto Maia). Assim como o cuidado de pessoas em sofrimento psíquico, também a organização de um livro sobre arte e loucura demanda articulação de saberes, que se amplia ainda mais na lista de autoras e autores, onde encontramos pensadores da psiquiatria, sociologia, psicanálise, saúde pública, arte e cultura. A solução de unidade para tal polifonia foi reunir os escritos em três blocos: “Trilhas na ficção, na poesia e no romance gráfico”, “Trilhas nas artes plásticas, no teatro e no cinema”, “Trilhas no memorialismo: testemunhos, ficção e realidade”.

A solução também pode ser entendida como provocação. Se a organização de um livro pode ter algo de autoral, por que não sua leitura? Nas linhas que se seguem, apresento apenas uma dentre infinitas trilhas possíveis, posto ser viável adentrar o livro por qualquer um de seus treze artigos. Nesta resenha, opto por começar justamente pelo último texto, no qual Yonissa Wadi discute a obra de Rodrigo de Souza Leão, cujo percurso pela literatura teve início depois de sua primeira internação, em 1989. “A loucura ganhou mais corpo”, dizia ele, revelando que seus personagens reuniam características suas, e também de outras pessoas em sofrimento psíquico que conheceu. O medo de machucar ou matar outras pessoas levou-o a uma última internação em 2009, durante a qual veio a falecer.

Se Rodrigo Leão tinha medo de matar, Lima Barreto temia sua incapacidade para administrar a própria vida fora do hospício. Em seu texto, João Maia apresenta o visionário que antecipou críticas à eugenia e ao racismo científico décadas antes da II Guerra Mundial chegar ao fim. Aliás, é justamente com base nestas críticas à douta crendice positivista que Lima afirma o alcoolismo, não como causa de sua desdita, mas como sintoma da pobreza, do desamor e da ausência de reconhecimento social.

Como Lima, também Sylvia Plath esgrimou sua escrita contra o discurso médico de seu tempo. Xará de Plath, Sílvia Jardim vaticina: não se deve reduzir uma obra literária a mero caso clínico, um depoimento de personagens que sofrem sem refletir sobre sua dor. Nada mais distante das reflexões generosamente expostas pela protagonista de A redoma de vidro (Plath, 1999), ou da dramaturgia de autores como Sartre e Luigi Pirandello, conforme o texto de Lucrecia Corbella sobre a experiência vivida e sobre a Companhia Andarilhos Mágicos, grupo de teatro formado por usuário de serviços de Saúde Mental do Rio de Janeiro.

Mas a reflexão que a loucura convoca não se limita ao pensamento sistematizado. É o que se vê no artigo de Marcos Santo sobre Antonin Artaud, o artista enlouquecido que, com sua estética vertiginosa, desestabiliza a máquina cartesiana de pensar, ao mesmo tempo que produz fissuras contra-hegemônicas nos modos de sentir. Artaud, mais que um ser humano, foi um verdadeiro acontecimento na ordem do discurso psiquiátrico, criador de conceitos que fecundam não apenas o trabalho em saúde mental, mas também a arte e a filosofia.

É que a arte - e isto é tratado em profundidade no artigo de Eduardo Torre -, longe de mero entretenimento, rompe o silenciamento do louco. O autor oferece uma breve história da arte na saúde mental, de Phillipe Pinel a experiências brasileiras como Museu das Imagens do Inconsciente, Escola Livre de Artes Plásticas do Juquery, Rádio Tam Tam e Espaço Além do Tempo. Caminho semelhante foi seguido por Kaira Cabañas, que aborda o tortuoso caminho trilhado em Saint-Alban, na França, que vai de exposições em que cada obra de arte era vinculada a um diagnóstico, passando pela legitimação surrealista do manicômio, até a “arte do convívio” de Tosquelles, para ao final questionar: será que existe mesmo algo que poderia ser chamado de “arte louca”?

Víctor Lemus e Leandra Cruz, por seu turno, falam da força da arte para potencializar reflexões. O primeiro aborda Dom Quixote (Cervantes, 2004) de um modo peculiar, salientando um hábito comum à época de seu lançamento: a leitura pública feita em voz alta, num tempo em que os livros eram considerados um risco para lucidez, tendo o próprio cavaleiro da triste figura enlouquecido por tanto ler romances de cavalaria; já a segunda comenta Canto dos Malditos (Bueno, 1990), obra seminal para a Luta Antimanicomial brasileira, e sua relação com Bicho de sete cabeças (2000). E que não nos deixemos enganar pelos séculos de distância entre Cervantes e Carrano: tanto a leitura pública quanto o cinema são tecnologias de amplificação dos efeitos políticos de obras literárias.

E por falar em obras de referência, chegamos ao artigo sobre O Alienista (Assis, 1980). Nele, Elton Corbanezi chama nossa atenção para a força política de uma característica central na estética machadiana: a ironia com que o autor mina as bases de uma racionalidade positivista que conduziria ao projeto eugênico e, no limite, ao nazismo. Já no artigo de José Roberto Reis, sobre o livro Trem para o hospício (Grünspun, 1980), a ironia está menos na obra em si, e mais numa leitura informada por questões contemporâneas da Reforma Psiquiátrica brasileira. Das reminiscências de um psiquiatra em formação, emerge uma expressão vívida da divisão de classes no Brasil: o trem que conduzia ao Hospital Juquery, em vagões distintos, médicos e pacientes. A ironia reside no fato de Grünspun preferir viajar no vagão dos médicos ao dos usuários (“gente primitiva”), por julgar que tal opção contribuiria mais para sua formação profissional.

Há ainda dois artigos que abordam o processo de formação de três artistas em contextos de cuidado em Saúde Mental. O primeiro, escrito por Walter Melo, descreve o encontro entre Darcílio Lima, autodidata paranaense, e o carioca Ivan Serpa. Em 1955, com apenas 17 anos, Darcílio vai estudar arte no Rio de Janeiro, onde sobrevive da venda de trabalhos com motivos regionais. Um surto acaba por levá-lo à Casa das Palmeiras, dirigida por Nise da Silveira, onde foi apresentado a Serpa. O segundo artigo, de Diego Santos e Cristiana Facchinetti, investiga os efeitos do encontro clínico entre Art Spiegelman e o psicanalista Paul Pavel para concepção de Maus: a história de um sobrevivente (Spiegelman, 2005), expoente máximo da elevação das histórias em quadrinhos à condição de obra de arte. Em ambos os casos, os encontros ensejados em ambiente de cuidado contribuem sobremaneira para desenvolvimentos artísticos significativos, não apenas para os sujeitos diretamente envolvidos, mas para suas respectivas comunidades artísticas.

Amplificação das vozes que denunciam a violência manicomial, afirmação da arte para difusão de outras formas de dizer a loucura para além do enquadre diagnóstico, defesa do cuidado em saúde mental como espaço privilegiado para o livre desenvolvimento da arte e dos artistas, abertura para a vertigem que livra a reflexão da clausura cartesiana: tudo isto eu pude encontrar em Pensar a loucura: trilhas literárias, culturais, históricas. Achados inseparáveis de minhas próprias afetações, e que por isto mesmo não esgotam a obra. É que com a arte, como diz Rodrigo Leão, “a loucura ganha mais corpo”. Outros leitores, cada qual com suas questões, certamente encontrarão muito mais.

E que a arte siga nos interpelando impiedosamente, fazendo sentir aquilo que ainda não sabemos.

Referências

  • ASSIS, Machado. O alienista. São Paulo: Abril Educação, 1980.
  • BICHO de sete cabeças. Direção de Laís Bodanzky. São Paulo: Buriti Filmes; Dezenove Som e Imagens Produções; Gullane Filmes; Fábrica de Cinema, 2000. 1h30m.
  • BLANCHOT, Maurice. A parte do fogo. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
  • BRETON, André. Nadja. São Paulo: Cosac & Naify, 2007.
  • BUENO, Austregésilo Carrano. Canto dos malditos. Curitiba: Scientia et Labor/UFPR, 1990.
  • CERVANTES, Miguel. El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha. Madrid: Real Academia de Lengua Española; Asociación de Academias de Lengua Española, 2004.
  • GRÜNSPUN, Haim. Trem para o hospício. São Paulo: Livraria Cultura, 1980.
  • PLATH, Sylvia. A redoma de vidro. Rio de Janeiro: Record, 1999.
  • ROSA, Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956.
  • SPIEGELMAN, Art. Maus: a história de um sobrevivente. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    08 Nov 2024
  • Aceito
    13 Nov 2024
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