Open-access Abordagens metodológicas no ensino de farmacologia na graduação em medicina: uma revisão integrativa

Methodological approaches for teaching pharmacology in undergraduate medical education: an integrative review

Enfoques metodológicos para la enseñanza de farmacología en la educación médica de pregrado: una revisión integrativa

Resumo

Buscou-se evidenciar, na literatura científica, as discussões acerca dos métodos de ensino da farmacologia no curso de medicina. Trata-se de uma revisão integrativa que seguiu as seguintes etapas: elaboração da pergunta norteadora, busca na literatura científica, coleta dos dados, análise crítica dos estudos selecionados, interpretação dos resultados e apresentação da síntese final, utilizando as bases de dados Medline, SciELO e LILACS. Selecionaram-se 44 artigos, cujos métodos de ensino foram organizados em três categorias: métodos baseados na abordagem centrada no aluno ou metodologias ativas; métodos baseados em tecnologias e recursos digitais; e métodos interativos e lúdicos. Parte desses métodos foi testada quanto à sua eficácia no processo de aprendizagem e na aceitação por professores e alunos. A maioria dos métodos apresentou resultados superiores nos exames teóricos em comparação aos tradicionais, além de vantagens no processo de aquisição e fixação do conhecimento a médio e longo prazos. Os níveis de aceitação também foram elevados, sendo apontados tanto pelos discentes quanto pelo corpo docente como metodologias mais dinâmicas. Considera-se que os achados deste estudo podem contribuir para que o corpo docente das escolas médicas reflita sobre a adoção dessas metodologias em suas práticas pedagógicas cotidianas.

Palavras-chave
métodos de ensino; farmacologia; educação médica

Abstract

We aimed to highlight, within the scientific literature, the discussions on teaching methods of Pharmacology in medical education. It is an integrative review conducted through the following steps: formulation of the guiding question, literature search, data collection, critical analysis of selected studies, interpretation of findings, and synthesis of results. The databases MEDLINE, SCIELO, and LILACS were consulted, and 44 articles were included. The identified teaching methods were grouped into three categories: Student-Centered and/or Active Learning Approaches, Technology- and Digital Resource-Based Methods, and Interactive and Playful Methods. Some of these strategies were tested regarding their effectiveness in the learning process and acceptance by teachers and students. Most methods showed superior outcomes in theoretical examinations compared with traditional approaches, as well as advantages in medium- and long-term knowledge acquisition and retention. High levels of acceptance were also reported, with both students and faculty recognizing them as more dynamic methodologies. These findings may contribute to fostering reflection among medical educators about adopting such methods their daily pedagogical practices.

Keywords
teaching methods; pharmacology; medical education

Resumen

Se buscó evidenciar, en la literatura científica, las discusiones acerca de los métodos de enseñanza de la Farmacología en el curso de Medicina. Se trata de una revisión integradora que siguió las siguientes etapas: elaboración de la pregunta orientadora, búsqueda en la literatura científica, recolección de datos, análisis crítico de los estudios seleccionados, interpretación de los resultados y presentación de la síntesis final, utilizando las bases de datos MEDLINE, SCIELO y LILACS. Se seleccionaron 44 artículos, cuyos métodos de enseñanza fueron organizados en tres categorías: Métodos basados en el enfoque centrado en el estudiante y/o metodologías activas, Métodos basados en tecnologías y recursos digitales, y Métodos interactivos y lúdicos. Parte de estos métodos fueron evaluados en cuanto a su eficacia en el proceso de aprendizaje y su aceptación por profesores y estudiantes. La mayoría de los métodos presentaron resultados superiores en los exámenes teóricos en comparación con los tradicionales, además de ventajas en la adquisición y retención del conocimiento a mediano y largo plazo. Los niveles de aceptación también fueron elevados, siendo señalados por los discentes y docentes como metodologías más dinámicas. Se considera que los hallazgos de este estudio pueden contribuir a que el cuerpo docente de las escuelas de medicina reflexione sobre la adopción de estas metodologías en sus prácticas pedagógicas cotidianas.

Palabras clave
métodos de enseñanza; farmacología; educación médica

Introdução

A educação médica tem como foco a formação dos profissionais médicos, com o objetivo de melhorar a qualidade na assistência da saúde ofertada para a população. Ela está diretamente influenciada pelos acontecimentos históricos, sociais, econômicos e políticos de um país. As transformações demográficas, com o aumento populacional e o envelhecimento das sociedades, aliadas às mudanças nos modelos econômicos e ideológicos que passaram a demandar maior cobertura e acesso aos serviços de saúde, impulsionaram reformas educacionais voltadas à ampliação da formação médica. Esse contexto favoreceu o processo expansionista do número de escolas médicas em diversos países (Dal Poz, Maia e Costa-Couto, 2022).

No Brasil, no início do século XX, havia apenas três escolas médicas. A partir de 1960, esse número começou a crescer, com a criação de mais 35 instituições. Esse avanço, porém, se intensificou nas últimas décadas, levando o país a contar, até 2024, com 448 cursos de medicina em funcionamento, segundo o estudo “Demografia médica no Brasil” (Brasil, 2025). Esse crescimento expressivo reflete a atuação de políticas públicas e decisões governamentais. Um marco desse processo foi o lançamento do Programa Mais Médicos (PMM) em 2013, que buscou concretizar o projeto de expansão federal. O programa envolve ações como a reforma do currículo médico, mas teve como eixo central o aumento das vagas e a interiorização da formação, com o objetivo de suprir a demanda por profissionais em regiões mais carentes (Santos Júnior et al., 2021).

Nesse contexto, com base nas discussões sobre a necessidade de se reorientar a formação médica no Brasil, foram lançadas, em 2001, as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs), com o propósito de fortalecer uma formação mais generalista, humanista, crítica e reflexiva. Entretanto, em 2025, houve a atualização, cuja finalidade foi atender às demandas oriundas da formação. Essa nova versão das DCNs apresentou mecanismos para direcionar a formação dos futuros médicos dos cursos abertos por meio do PMM, agora com uma formação que garanta que esses profissionais sejam resolutivos nas diversas esferas da saúde, compreendendo atenção básica, saúde mental e urgência e emergência (Garcia, Breda e Fonseca, 2024).

Além disso, as novas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Medicina (Brasil, 2025) reforçam a importância de currículos orientados por meio de competências e estruturados em torno de metodologias de ensino centradas no estudante, que promovam a aprendizagem significativa e o desenvolvimento de habilidades clínicas, éticas e comunicacionais. Nesse contexto, os métodos tradicionais expositivos e fragmentados cedem espaço a estratégias pedagógicas ativas, como a aprendizagem baseada em problemas (ABP), a aprendizagem baseada em equipes (TBL) e o uso de cenários simulados e práticas interdisciplinares, que estimulam a autonomia, a reflexão crítica e a integração ensino-serviço-comunidade (Cavalli e Carvalho, 2022; Brasil, 2025).

Nesse contexto de reorientação e transformação contínua da educação médica, as instituições têm buscado novas estratégias pedagógicas que favoreçam o aprendizado, a integração teoria-prática e o desenvolvimento de competências alinhadas às necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS) e da sociedade. A farmacologia destaca-se nesse cenário por sua relevância para a prática médica e por ser uma das disciplinas mais investigadas quanto ao desenvolvimento de novas abordagens pedagógicas. Ela estuda os efeitos dos fármacos no organismo, desde aspectos farmacocinéticos e farmacodinâmicos até as escolhas terapêuticas, e é considerada complexa em razão da extensa quantidade de conteúdos e detalhes exigidos dos estudantes (Shooraj et al., 2023).

Tradicionalmente, a farmacologia tem sido ensinada em um modelo centrado no professor, com foco na transmissão de conteúdo e pouca participação discente. Entretanto, diante das limitações desse formato, principalmente quanto à aplicação prática do conhecimento e à motivação dos estudantes, muitas instituições vêm adotando metodologias ativas de aprendizagem, consideradas alternativas ao ensino expositivo tradicional. Tais abordagens, como o estudo de casos clínicos e o trabalho em pequenos grupos, têm como finalidade promover maior engajamento dos estudantes, desenvolver o raciocínio clínico e aprimorar a capacidade de tomada de decisão (Kaddoura et al., 2024).

Portanto, propõe-se neste artigo apresentar, com base na literatura científica, as estratégias pedagógicas de ensino da farmacologia na graduação em medicina.

Método

O estudo caracterizou-se como uma revisão integrativa da literatura, elaborada mediante coleta e análise de dados disponíveis na produção científica. Essa técnica busca reunir e sintetizar o conhecimento existente sobre determinado tema, permitindo examinar e fortalecer os resultados obtidos (Souza, Silva e Carvalho, 2010). O presente estudo seguiu seis etapas: elaboração da pergunta norteadora; busca na literatura científica; coleta dos dados; análise crítica dos estudos selecionados; interpretação dos resultados; e apresentação da síntese final.

A pergunta norteadora foi: ‘Quais são os métodos de ensino da farmacologia para o curso de medicina?’ – idealizada com base na adaptação da estratégia Paciente, Intervenção, Comparação e Outcome (PICO) e, por conseguinte, com o uso da nomenclatura para PVO, em que P é a população da pesquisa; V, variáveis de aprendizagem; e O, resultados alcançados (Silva e Otta, 2014). Dessa forma, P = acadêmicos de medicina; V = métodos de ensino; e O = ensino da farmacologia.

Utilizaram-se as seguintes bases de dados: Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (Medline), Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS). Nestas aplicaram-se os descritores controlados em ciência da saúde (DeCs) e do Medical Subject Heading (MeSH), que foram: Education, Medical, Pharmacology e Teaching Methods, adicionados com o operador booleano AND. A pesquisa ocorreu por meio do portal de periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Adotaram-se como critérios de elegibilidade: inclusão de artigos com texto completo; idiomas português, inglês ou espanhol; alinhamento com o objetivo do estudo; e publicação entre 2014 e 2023. Esse recorte temporal foi adotado para se compreender o período posterior à atualização das Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de medicina (Brasil, 2014), marco que promoveu importantes mudanças no processo formativo, com ênfase em metodologias ativas e na formação baseada em competências. Esse intervalo permitiu abranger transformações pedagógicas significativas, incluindo o impacto das tecnologias digitais e das adaptações decorrentes da pandemia de covid-19 (2020-2022). Optou-se por encerrar o recorte em 2023, uma vez que este foi o último ano completo disponível para análise no momento da coleta de dados, de modo garantir a inclusão de produções recentes e o rigor metodológico da revisão. Excluíram-se materiais que fugissem à temática, editoriais, cartazes, trabalhos de conclusão de curso, dissertações, teses, revisões, biografias, relatos de experiência e duplicatas. A busca pelos artigos foi realizada de 19 de junho a 20 de julho de 2024.

Após isso, com a aplicação do recorte temporal, encontraram-se 1.879 trabalhos que foram analisados acerca dos seus títulos e resumos, com a expectativa de selecionar os que poderiam responder à pergunta norteadora, com a aplicação dos demais critérios de inclusão e exclusão. Posteriormente, obtiveram-se 78, que foram lidos na íntegra. Destes, 44 fizeram parte do corpus desta revisão integrativa.

Dessa forma, esses 44 artigos foram analisados e classificados por nível de evidência, em que se usou para esse critério a seguinte classificação de sete níveis: trabalhos oriundos de revisões sistemáticas ou metanálise; trabalhos provenientes de ensaios clínicos controlados e delineados; trabalhos originados de ensaios clínicos não randomizados; estudos de coorte e caso-controle; trabalhos de revisão sistemática de pesquisa descritiva e qualitativa; pesquisas descritivas ou qualitativas; e trabalhos provenientes de opiniões de autoridades no assunto ou de um comitê de especialistas (Melnyk e Fineout-Overholt, 2005).

Conduziu-se a análise dos dados de forma crítica e sistemática, buscando-se identificar padrões, recorrências e singularidades entre os estudos selecionados (Minayo, 2021). Após a organização das informações, os artigos foram examinados quanto aos objetivos, delineamentos metodológicos, contextos de aplicação e principais resultados. Essa etapa permitiu agrupar os achados e possibilitou a comparação entre diferentes abordagens e a síntese de evidências sobre as estratégias de ensino investigadas.

Resultados e discussão

O total de artigos encontrados foi de 3.358. A Figura 1 apresenta o fluxograma das etapas de seleção dos estudos, em que 44 artigos compuseram a amostra.

Figura 1
– Fluxograma da seleção dos artigos da revisão integrativa

Acerca da prevalência das publicações por ano, constatou-se que houve maior número de artigos em 2016 (dez), 2019 (sete) e 2022 (sete), seguidos por 2021 (seis), 2020 (cinco), 2015 (três), 2017 (dois), 2023 (dois), 2014 (um) e 2018 (um).

Com relação aos países, tem-se: Índia (dez) e Cuba (seis) com os maiores números, seguidos por Alemanha (três), Austrália (três), Estados Unidos (dois), Brasil (dois), Reino do Bahrein (dois), Portugal (dois), Arábia Saudita (dois) e China (dois). Todos os demais países a seguir apresentaram apenas uma publicação: Inglaterra, Indonésia, Malásia, África do Sul, Taiwan, Chipre, Zâmbia, Irlanda, Espanha, Itália e Colômbia.

Com o propósito de melhorar a apresentação dos resultados e a compressão da discussão, organizaram-se os artigos em três categorias: métodos baseados na abordagem centrada no aluno ou metodologias ativas, que englobam estratégias estruturadas de ensino-aprendizagem que colocam o estudante como protagonista do processo, como a aprendizagem baseada em problemas (PBL), aprendizagem baseada em equipes (TBL) e sala de aula invertida; métodos baseados em tecnologias e recursos digitais, que utilizam ferramentas tecnológicas como suporte ao ensino; e métodos interativos e lúdicos, que incluem o uso de jogos, simulações e dinâmicas como estratégias de engajamento e motivação dos estudantes. Essa separação foi estabelecida com base na compreensão de que o lúdico e o interativo, embora possam compor metodologias ativas, configuram recursos pedagógicos específicos voltados à interação e à ludicidade no processo de aprendizagem (Sousa, 2021; Assis e Santos, 2023; Nikonova, 2020; Vale et al., 2024; Margoto et al., 2024; Boysen et al., 2024).

O Quadro 1 apresenta esses dados com a descrição dos artigos com base em informações referentes a autores, ano, país, nível de evidência, número de participantes, objetivos e resultados.

Quadro 1
– Caracterização da amostra

Observou-se uma preocupação por parte de determinadas instituições acadêmicas quanto aos seus modelos de ensino, o que foi evidenciado pelo expressivo número de pesquisas encontradas sobre os diferentes métodos de ensino da farmacologia nos cursos de graduação em medicina, cujos principais achados serão apresentados e discutidos a seguir.

Métodos baseados na abordagem centrada no aluno ou metodologias ativas

O ABP, ao centralizar a aprendizagem no aluno, mostrou resultados positivos em relação aos resultados de aprendizagem. Brinkman e colaboradores (2021) observaram melhor desempenho e menos erros de prescrição em alunos submetidos ao ABP. Khaja e colaboradores (2019) também reforçaram a ideia de que a frequência às sessões se relaciona com melhores notas, destacando assim a importância do engajamento. James, Al Khaja e Sequeira (2015) demonstraram que a inclusão de casos reais promove a assimilação de conceitos e o pensamento crítico.

Além da ABP, seis estudos abordaram metodologias centradas na interação entre estudantes acerca do ensino entre pares e as tutorias acadêmicas. Mozeika e colaboradores (2020) e Qin e colaboradores (2022) relataram alto desempenho com estratégias participativas, como apresentação de medicamentos. Nas tutorias, Demak e colaboradores (2021) e Palappallil, Sushama e Ramnath (2016) observaram maior motivação e desempenho acadêmico. Métodos como o Student-Led Objective Tutorial (SLOT) também mostraram impacto positivo nas notas e foram bem avaliados (Arora e Hashilkar, 2016; Demak et al., 2021). Contudo, ressalta-se a necessidade de capacitação prévia dos estudantes tutores e apresentadores para o ensino entre pares.

Outro método recorrente foi a discussão de casos clínicos, com resultados positivos na aprendizagem. Hasamnis, Arya e Patil (2019) relataram que os estudantes atribuíram altos índices de satisfação à estratégia, destacando avanços no raciocínio clínico e resolução de problemas. Nesse sentido, Ahsan e Mallick (2016) reforçaram esses achados ao mostrar que a introdução de testes teóricos e discussão de casos clínicos aumentou a taxa de aprovação e a média das notas em relação ao ensino convencional. Diante disso, Kaur e colaboradores (2020) testaram essa metodologia em salas com grande número de alunos e constataram elevação nas notas e na frequência dos estudantes. Os casos clínicos aproximam o estudante das demandas do exercício médico, o que estimula a aprendizagem.

Os guias educacionais também se configuram como estratégia no ensino da farmacologia. Com o objetivo de organizar conteúdos, eles promovem a interdisciplinaridade e a compreensão de temas complexos. Quatro estudos exploraram diferentes formatos de guias e seus impactos na aprendizagem. Fernández e colaboradores (2022) relataram a construção de um guia sobre antimicrobianos com boa aceitação por parte dos docentes. Pérez e colaboradores (2019) desenvolveram um guia voltado à farmacocinética, mediante a consulta a alunos e professores.

Ainda nessa perspectiva, dois estudos avaliaram a efetividade dos guias na performance discente. Esmore e colaboradores (2023) compararam o desempenho de estudantes que usaram o guia com aqueles que seguiram o modelo tradicional e observaram melhor desempenho acadêmico dos primeiros. De forma semelhante, Esmore e colaboradores (2021) relataram aumento no rendimento após o uso de guias. Sugere-se, então, que os guias potencializam o processo de ensino-aprendizagem.

De forma mais ampla, os achados deste estudo dialogam com as Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de medicina (Brasil, 2025), que reforçam a centralidade do estudante no processo formativo, o papel do docente como mediador e a adoção de metodologias de ensino ativas e integradoras. As novas diretrizes reafirmam o compromisso com uma formação baseada em competências, voltada ao cuidado integral, à responsabilidade social e à integração ensino-serviço-comunidade, princípios que se expressam nas práticas e nas estratégias pedagógicas identificadas nesta revisão.

Esse reconhecimento é reforçado por diretrizes e trabalhos recentes, como o de Souza, Viero e Emerick (2024), que, por meio de um estudo de revisão sobre as evidências científicas dos métodos ativos para o ensino superior, constataram um aumento na capacidade crítico-reflexiva dos alunos submetidos a essas metodologias, resultados obtidos de acordo com a própria percepção dos discentes em relação às metodologias ativas.

A literatura recente converge em reconhecer que metodologias centradas no estudante, como PBL, TBL e CBL, frequentemente aprimoram o pensamento crítico, a motivação e o raciocínio clínico, embora os ganhos em provas tradicionais ainda se mostrem heterogêneos (Gomes et al., 2024; Zhang et al., 2024). Esses resultados sugerem que os instrumentos de avaliação precisam ser ajustados aos objetivos pedagógicos, de modo a captar competências além da memorização de conteúdo.

A eficácia dessas estratégias é modulada por fatores contextuais, como preparo dos estudantes-tutores, supervisão docente e carga de atividades. Revisões recentes demonstram que o ensino por pares oferece benefícios tanto para tutores quanto para aprendizes, mas depende de formação prévia e acompanhamento sistemático para garantir precisão conceitual (Tanveer et al., 2023).

A modalidade de discussão de casos clínicos também se manteve robusta como ferramenta para desenvolvimento do raciocínio clínico. Estudos indicam que, quando bem estruturada, com objetivos claros e feedback, essa abordagem favorece a transferência de conhecimentos para a prática clínica e fortalece a resolução de problemas (Lim e Veasuvalingam, 2024). Entretanto, sua eficácia varia conforme o tipo de avaliação empregada, o que reforça a necessidade de múltiplas formas de mensuração.

Métodos baseados em tecnologias e recursos digitais

Uma das estratégias tecnológicas mais exploradas para o ensino da farmacologia são as videoaulas, com múltiplos formatos identificados na literatura. Azer (2014) analisou vídeos de farmacologia disponíveis no YouTube e constatou que os indicadores de popularidade da plataforma não refletem a qualidade educacional do conteúdo, apontando para a necessidade de uso crítico pelos estudantes.

Modelos que combinam videoaulas com outras abordagens pedagógicas apresentaram melhores resultados. Morton e colaboradores (2016) avaliaram o ensino híbrido, no qual conteúdos teóricos eram disponibilizados por vídeo, liberando o tempo presencial para atividades. Relatou-se maior compreensão e satisfação com o modelo. DeCloedt e Schalkwyk (2019) propuseram a produção de vídeos educativos pelos próprios alunos, promovendo maior retenção do conteúdo e desenvolvimento de habilidades comunicacionais. Wu e colaboradores (2022) adaptaram essa lógica à sala de aula invertida por meio de microvídeos, obtendo melhor desempenho.

Dois estudos (Wang et al., 2022; Chen et al., 2022) identificaram relação positiva entre o acesso a videoaulas assíncronas e o desempenho em testes teóricos. Durante a pandemia da covid-19, o uso de vídeo como recurso educacional se intensificou. Hafner, Zolk e Barth (2022) observaram aumento no tempo dedicado aos estudos e uma preferência discente pelas videoaulas, enquanto docentes ainda valorizavam o ensino presencial.

Consoante a isso, existem tecnologias, como os softwares educativos, que oferecem a integração de recursos multimídia promovendo o aprendizado em contextos simulados. O FarmacOft®, voltado à farmacologia ocular, foi considerado uma estratégia didática relevante pelos especialistas (Torres et al., 2015). Já o Pharmasoftware® mostrou viabilidade didática ao apresentar resultados semelhantes aos métodos tradicionais (Saraiva et al., 2016).

Ezeala (2020) investigou o uso de cinco programas de simulação que proporcionaram melhorias no desempenho discente. Haleem e colaboradores (2023) reforçaram esse achado ao analisar um deles e constatar aprovação da maioria dos estudantes, que recomendaram sua ampliação para outras instituições.

Além dos simuladores experimentais, os softwares de pacientes virtuais (VPs) foram explorados como instrumentos didáticos. Nicolau e El Saifi (2020) compararam a aprendizagem com VPs ao ensino tradicional expositivo e observaram aumento nas notas e maior satisfação dos alunos, especialmente na disciplina de farmacologia, o que sugere sua efetividade como recurso complementar ao ensino clínico.

Tecnologias digitais também têm sido empregadas para reforçar a retenção de conteúdos em farmacologia por meio de métodos ativos de memória. Jape, Zhou e Bullock (2022) utilizaram flashcards com revisão espaçada via Anki®, obtendo boa aceitação dos estudantes e melhorias na retenção. Já Kühbeck e colaboradores (2019) analisaram um banco de questões on-line e identificaram correlação entre o desempenho inicial e os resultados finais, embora o número de questões resolvidas e o tempo gasto não se associassem diretamente às notas.

Esses recursos têm respaldo e atualizaçõs nas diretrizes educacionais, como a resolução CNE/CES n. 536/2025 e a lei n. 14.533/2023, que reforçam a importância da integração de tecnologias digitais na formação médica.

Assim, o uso de métodos baseados em tecnologias e recursos digitais também é incentivado na educação médica, tanto por diretrizes educacionais quanto por estudos como o de Schmidt, Souza e Silva (2022), autores que investigaram a aplicação de metodologias ativas e tecnologias voltadas para a educação inovadora na área da saúde. Como resultado, o estudo identificou 24 artigos, dos quais 12 abordavam o uso de tecnologias no processo de ensino. Com base nesses trabalhos, os autores constataram que o emprego de ferramentas tecnológicas se mostrou mais atrativo aos discentes.

A incorporação de videoaulas curtas (microvídeos) e modelos de sala invertida aparece na literatura recente como estratégia capaz de aumentar engajamento, favorecer estudo prévio e liberar o tempo presencial para atividades aplicadas. Estudos controlados em farmacologia e disciplinas afins mostram ganho em desempenho teórico e maior satisfação quando microvídeos são usados como preparação prévia e o tempo em sala é dedicado à discussão de casos e resolução de problemas. Entretanto, o sucesso depende do design instrucional e da supervisão da aprendizagem assíncrona, já que o formato por si só não garante benefício se não houver alinhamento pedagógico (Wu et al., 2022).

A pandemia de covid-19 acelerou a adoção de recursos digitais, levando a uma preferência discente por materiais assíncronos devido à flexibilidade, porém mantendo a valorização do ensino presencial para momentos de interação e prática clínica. Tal cenário evidenciou a necessidade do preparo de docentes para atuarem em modelos híbridos, já que a resistência de parte do corpo docente ainda se mostra como barreira (Silva, 2023).

Métodos interativos e lúdicos

Outras estratégias pedagógicas para o ensino da farmacologia são aquelas voltadas para as técnicas menos cansativas para os alunos, com o objetivo de ir além da metodologia tradicional e introduzir abordagens mais lúdicas. Nesse contexto, encontraram-se estudos dessa natureza que abordam o ensino com base no emprego de métodos inovadores.

Schramm e colaboradores (2017) implementaram uma abordagem de educação interprofissional (EIP) envolvendo acadêmicos de medicina e residentes em farmácia, promovendo o aprendizado colaborativo e a troca de saberes entre diferentes formações em saúde. A EIP, entendida não como um método em si, mas como um marco conceitual que orienta práticas pedagógicas integradas, articula diferentes estratégias metodológicas com o objetivo de desenvolver competências colaborativas e fortalecer o trabalho em equipe interprofissional. O estudo obteve resultados positivos em termos de aprendizado e valorização da atuação interprofissional.

Newby, Stokes e Smith (2019) também observaram ganhos na confiança e na competência em prescrição após a interação entre estudantes e farmacêuticos. Tais abordagens fomentam a troca de saberes entre os profissionais, em consonância com a formação para o trabalho em equipe, preconizada pelas diretrizes curriculares.

Nesse cenário, estratégias interdisciplinares, ao integrarem disciplinas médicas básicas e clínicas, possibilitaram o desenvolvimento do raciocínio clínico. Comparados ao ensino tradicional, os modelos integrados obtiveram melhores resultados (Yadav et al., 2016; Pérez et al., 2021).

Além disso, a simulação contribui para o aprendizado duradouro e o desenvolvimento de habilidades comunicativas (Arcoraci et al., 2018; Kirsch e Matthes, 2021). A dramatização, abordada por Lavanya e colaboradores (2016) e Gotardelo e colaboradores (2017), possibilitou o favorecimento da internalização dos conceitos farmacológicos e o desenvolvimento interpessoal. Esses métodos aproximam o ensino da realidade prática, conforme a resolução CNE/CES n. 536/2025 e as recomendações propostas pela Associação Brasileira de Medicina (Abem) para as DCNs dos cursos de medicina, defendendo a aprendizagem em ambientes simulados como suporte pedagógico (Associação Brasileira de Educação Médica, 2024; Brasil, 2025).

Abordagens como jogos, autobiografias de medicamentos, construção com Lego®, filmes e poesia foram testadas em estudos, com resultados positivos tanto no desempenho quanto na aceitação pelos discentes (Cambra-Badii et al., 2020; Gudadappanavar, Benni e Javali, 2021; Joshi e Ganjiwale, 2015; Kalra et al., 2016; Kirby e Pawlikowska, 2019; Narváez et al., 2016). Ao integrarem criatividade e ludicidade, essas atividades tornam melhor o processo de ensino-aprendizagem. Ainda que a resolução n. 536/2025 não as cite diretamente, seu artigo 10 respalda metodologias que favoreçam o protagonismo do estudante no seu desenvolvimento profissional (Brasil, 2025).

No conjunto, as estratégias analisadas convergem com um movimento atual de descentralização da aula expositiva e de reancoragem da farmacologia em contextos colaborativos, integrados e ativos. Em interprofissionalidade, revisões recentes indicam ganhos consistentes em atitudes colaborativas e autopercepção de competências para decisões terapêuticas, especialmente quando médicos(as), farmacêuticos(as) e outros cursos resolvem casos reais ou simulados em coensino e coavaliação (Ni et al., 2024). Ainda que haja evidências promissoras, aponta-se a necessidade de se conectarem mais diretamente tais práticas a desfechos clínicos, como redução de erros de prescrição.

Nas abordagens lúdicas, o panorama atual é animador, mas requer cuidado metodológico. Experiências com torneios e jogos baseados em times têm elevado engajamento e desempenho em farmacologia quando articuladas a conteúdos-chave (Delage et al., 2024; Masich et al., 2025). Contudo, revisões recentes alertam que nem toda gamificação resulta em aprendizagem efetiva, já que elementos competitivos mal calibrados podem gerar desmotivação (Júnior e Desidério, 2024). Assim, o uso de mecânicas de jogo deve ser meio e não fim, alinhado a objetivos e rubricas transparentes.

Apesar do avanço das pesquisas, a heterogeneidade metodológica ainda é um limite: predominam relatos de experiência e estudos quase-experimentais, com poucas pesquisas randomizadas e de longo prazo. Assim, recomendam-se cautela na generalização dos resultados e a realização de estudos mais rigorosos, com desfechos clínicos objetivos e acompanhamento longitudinal (Gomes et al., 2024; Zhang et al., 2024).

Conclusão

A literatura científica revelou uma ampla diversidade de métodos pedagógicos voltados ao ensino da farmacologia na graduação médica, organizados em diferentes abordagens que vão desde metodologias ativas e centradas no estudante até o uso de tecnologias digitais e estratégias lúdicas. Essa sistematização evidencia que ainda há carência de estudos comparativos de maior robustez metodológica que apontem, de forma consistente, quais estratégias geram impactos mais duradouros na formação médica.

Assim, este trabalho procura contribuir ao reunir e analisar criticamente evidências que podem subsidiar docentes e gestores acadêmicos na seleção de práticas pedagógicas mais eficazes, dialogando diretamente com as DCNs de medicina e com o movimento global de inovação no ensino superior em saúde. Ao destacar as potencialidades e limitações das metodologias identificadas, esta revisão amplia o debate sobre a necessidade de currículos mais dinâmicos, participativos e integradores.

Recomenda-se que futuras investigações avancem em estudos multicêntricos, com delineamentos experimentais e análises de impacto a longo prazo, de modo a consolidar um corpo de evidências que oriente, com maior rigor científico, a implementação de metodologias inovadoras no ensino da farmacologia e em outras áreas da educação médica.

Referências

  • Apresentação prévia:
    Este artigo é resultado do trabalho de conclusão do curso em medicina de Carlos Alberto Leite Filho, em 2025, intitulado Métodos de ensino da farmacologia para o curso de medicina: revisão integrativa, apresentado ao Centro de Ciências Humanas, Naturais, Saúde e Tecnologia da Universidade Federal do Maranhão, Campus Pinheiro, como requisito parcial para obtenção do título de médico.
  • Declaração de disponibilidade dos dados:
    Os dados utilizados neste estudo estão publicamente disponíveis no repositório SciELO Data e podem ser acessados por meio do DOI: 10.48331/SCIELODATA.1WHAB5/WTEUWL.
  • Preprint e versão final:
    Não se aplica.
  • Financiamento:
    Este estudo não recebeu financiamento.

Editado por

  • Editora Científica:
    Bárbara Bulhões

Disponibilidade de dados

Os dados utilizados neste estudo estão publicamente disponíveis no repositório SciELO Data e podem ser acessados por meio do DOI: 10.48331/SCIELODATA.1WHAB5/WTEUWL.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    07 Set 2025
  • Aceito
    31 Out 2025
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