Open-access Influência de uma estratégia educacional na coordenação entre níveis assistenciais do Sistema Único de Saúde

Influence of an educational strategy on coordination between levels of care in the Brazilian Unified Health System

Influencia de una estrategia educativa en la coordinación entre los niveles asistenciales del Sistema Único de Salud

Resumo

A fragmentação do cuidado dificulta o alcance das diretrizes propostas para o Sistema Único de Saúde, sobretudo a integralidade, manifestando-se para os usuários na experiência de descontinuidade da atenção. Este estudo objetivou analisar a coordenação entre níveis assistenciais, com base na percepção de usuárias e de profissionais da atenção especializada, no contexto de duas redes de atenção à saúde no Brasil que implantaram a Estratégia de Planificação da Atenção à Saúde, com foco na linha de cuidado materno-infantil. Realizou-se um estudo avaliativo e descritivo, envolvendo 16 participantes (seis usuárias e dez profissionais). Foram analisadas entrevistas semiestruturadas, nas quais se abordaram três dimensões de coordenação da atenção: informação, gestão clínica e administrativa. Observaram-se avanços na criação de planos de cuidado, ações de matriciamento e protagonismo da Atenção Primária a Saúde na ordenação do cuidado. Contudo, identificou-se dependência das usuárias para troca de informações, falta de integração com atenção hospitalar, carência de especialistas e alta rotatividade profissional. Apesar dos avanços proporcionados pela Estratégia de Planificação da Atenção à Saúde na organização de fluxos assistenciais, a fragmentação no compartilhamento de informações e na articulação entre níveis compromete a continuidade do cuidado.

Palavras-chave
avaliação em saúde; colaboração intersetorial; níveis de atenção à saúde; atenção primária à saúde; atenção secundária à saúde

Abstract

The fragmentation of care makes it difficult to achieve the guidelines proposed for the Brazilian Unified Health System, especially comprehensiveness, and users experience discontinuity of care. This study aimed to analyze coordination between levels of care, based on the perceptions of users and specialized care professionals, in the context of two healthcare networks in Brazil that have implemented the Health Care Planning Strategy, with a focus on maternal and child care. This was an evaluative and descriptive study involving 16 participants (six users and ten professionals). Semi-structured interviews were analyzed, addressing three dimensions of care coordination: information, clinical and administrative management. Progress was observed in the creation of care plans, matrix support actions and the role of Primary Health Care in ordering care. However, there was a dependency on users to exchange information, a lack of integration with hospital care, a shortage of specialists and high professional turnover. Despite the progress made by the Health Care Planning Strategy in organizing care flows, fragmentation in information sharing and coordination between levels compromises continuity of care.

Keywords
health assessment; intersectoral collaboration; levels of health care; primary health care; secondary health care

Resumen

La fragmentación de la atención dificulta la consecución de las directrices propuestas para el Sistema Único de Salud, especialmente la integralidad, y los usuarios experimentan discontinuidad en la atención. El objetivo de este estudio fue analizar la coordinación entre niveles de atención, con base en las percepciones de usuarios y profesionales de atención especializada, en el contexto de dos redes de salud de Brasil que han implementado la Estrategia de Planificación de la Atención a la Salud, con foco en la atención materno-infantil. Se realizó un estudio evaluativo y descriptivo con 16 participantes (seis usuarios y diez profesionales). Se analizaron entrevistas semiestructuradas en las que se abordaron tres dimensiones de la coordinación asistencial: información, gestión clínica y administrativa. Se observaron avances en la creación de planes de cuidados, en las acciones de apoyo a la matriz y en el papel de la atención primaria en la organización de los cuidados. Sin embargo, se observó dependencia de los usuarios para intercambiar información, falta de integración con la atención hospitalaria, escasez de especialistas y alta rotación de profesionales. A pesar de los avances de la Estrategia de Planificación Sanitaria en la organización de los flujos asistenciales, la fragmentación en el intercambio de información y la coordinación entre niveles compromete la continuidad de la asistencia.

Palabras clave
evaluación sanitaria; colaboración intersectorial; niveles de atención sanitaria; atención primaria de salud; atención secundaria de salud

Introdução

A fragmentação do cuidado dificulta o alcance das diretrizes propostas para o Sistema Único de Saúde (SUS), sobretudo a integralidade, manifestando-se para os usuários na experiência de descontinuidade da atenção (Haggerty et al., 2003). Assim, faz-se necessário que os serviços de saúde operem de forma conectada, a começar em uma Rede de Atenção à Saúde (RAS) integrada e sem barreiras de acesso, centrada na necessidade dos usuários, das famílias e da comunidade (Hartz e Contandriopoulos, 2004; Malta e Merhy, 2010; Conselho Nacional de Secretários de Saúde, 2019). Compreende-se, portanto, que o acesso à rede de atenção extrapola a disponibilidade de profissionais e serviços, pois nem sempre a oferta é compatível com as demandas do usuário e, ainda, apresenta-se de forma desfavorável às populações mais vulneráveis (Gulliford, 2017).

Grande parte dos estudos sobre integralidade da atenção à saúde têm dado destaque à Atenção Primária à Saúde (APS) como porta de entrada preferencial no sistema, com a função de coordenação do cuidado (Starfield, 2002; Magalhães Junior e Pinto, 2014; Conselho Nacional de Secretário de Saúde, 2019). No entanto, um dos grandes desafios à integralidade diz respeito à articulação e à coordenação do cuidado entre diferentes serviços na RAS, notadamente entre APS e a Atenção Especializada (AE) (Magalhães Junior e Pinto, 2014; Fausto et al., 2014). Experiências internacionais apontam a baixa comunicação entre serviços como uma barreira que dificulta a continuidade e a coordenação do cuidado (Terraza-Núñez, Vargas-Lorenzo e Vázquez-Navarrete, 2006; Suter et al., 2009; Vargas et al., 2018; Miranda-Mendizábal et al., 2020; Espinel-Flores et al., 2022). Simultaneamente, o acesso à AE também se configura como um dos gargalos do SUS, devido tanto à insuficiência na oferta de serviços diagnósticos e terapêuticos quanto ao modelo de financiamento, organização e funcionamento (Solla e Chioro, 2008; Rocha, 2014; Tesser e Poli Neto, 2017).

A portaria nº 1.604 instituiu a Política Nacional de Atenção Especializada em Saúde (Pnaes), contemplando as diretrizes para orientação do modo de organização e funcionamento de práticas assistenciais, ações e serviços marcados por uma maior densidade tecnológica. A Pnaes ressalta a importância e o papel estratégico da AE na consolidação do SUS como política pública de saúde, um desafio que está posto em um contexto de atenção à saúde fragmentada, prevendo três diferentes dimensões que irão embasar os seus eixos estruturantes: sistêmica, organizacional e profissional. Neste estudo, enfatiza-se a dimensão sistêmica, que trata da articulação da AE com os demais pontos de atenção, e seu papel de apoio à APS na promoção da integralidade e continuidade do cuidado (Brasil, 2023).

É nesse cenário que se insere a Estratégia de Planificação da Atenção à Saúde (PAS), que tem como objetivo estimular o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e atitudes dos profissionais, ancorando-se nos referenciais teóricos do Modelo de Atenção às Condições Crônicas (MACC) e da Construção Social da APS, por meio de um planejamento estratégico e participativo que busca a efetividade das RAS (Mendes, 2012; Conselho Nacional de Secretários de Saúde, 2018; Evangelista et al., 2019).

Assim, pretende-se analisar a coordenação entre níveis assistenciais, com base na percepção de usuárias e de profissionais da AE, no contexto de duas redes de atenção à saúde no Brasil que implantaram a PAS entre os anos de 2015 e 2018, com foco na linha de cuidado materno-infantil.

Método

Este estudo é um recorte da pesquisa “Efetividade da Estratégia de Planificação da Atenção à Saúde em quatro regiões de saúde no Brasil” (Efetiva PAS) (Samico et al., 2024). A seleção das áreas de estudo se deu de forma intencional, definida pelos representantes do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), tendo como critério primário a continuidade no desenvolvimento da PAS no momento da realização da pesquisa. Selecionaram-se quatro regiões de saúde no Brasil e, em cada uma, incluiu-se um município onde se localizam as unidades Laboratório da APS e da AE, que são aquelas nas quais a PAS encontra-se implantada. Nessas regiões, a PAS estava voltada para duas linhas de cuidado: atenção materno-infantil ou doenças crônicas.

Realizou-se uma pesquisa avaliativa e descritiva, em duas redes de atenção, uma na região Norte e outra na região Nordeste, na busca de elucidar aspectos relacionados à coordenação entre níveis assistenciais, baseando-se no referencial teórico de Vázquez e colaboradores (2015) e atentando-se aos três tipos de coordenação da atenção (Reid, Haggerty e McKendry, 2002; Aller et al., 2015), a saber: coordenação da informação; coordenação da gestão clínica; e coordenação administrativa. Levou-se em consideração as duas redes de atenção à saúde onde a PAS implementada se relacionava com a atenção materno-infantil, uma na região Norte e outra na região Nordeste.

Utilizaram-se as transcrições dos áudios originais dos bancos de dados da Pesquisa Efetiva PAS, obtidos de entrevistas semiestruturadas, cujo roteiro contemplou as categorias da coordenação da atenção. A pesquisa selecionou usuárias (n=6) e profissionais da saúde das unidades da AE (n=10) das duas redes de atenção à saúde. Como critérios de inclusão estabeleceu-se que as usuárias fossem puérperas que realizaram pré-natal de alto risco, com ocorrência do parto nos seis meses anteriores à entrevista; quanto aos profissionais, foram incluídos aqueles que tinham um ano ou mais de experiência na unidade de AE da linha de cuidado materno-infantil. As entrevistas aconteceram entre maio e agosto de 2022.

Utilizou-se a análise temática de conteúdo (Minayo, 2014), nas seguintes etapas: pré-análise, abrangendo a escolha do material, a formulação de hipóteses e os objetivos para a interpretação dos resultados; a análise do material, que consistiu na codificação e categorização da informação; e o tratamento dos resultados. A análise recaiu sobre cada uma das entrevistas e, comparativamente, entre as categorias de atores (usuárias e profissionais), para o estabelecimento de dissensos, contradições e consensos. Finalmente efetuaram-se a descrição e interpretação dos resultados e o estabelecimento de relações, permitindo a identificação dos elementos facilitadores e dificultadores relacionados à coordenação da atenção entre os níveis assistenciais.

Os informantes receberam identificação numérica, da seguinte forma: usuárias – usuária 1, usuária 2 etc.; e profissionais – profissional AE 1, profissional AE 2 etc.

Resultados

Ao todo, foram analisadas 16 entrevistas, nas quais os grupos de informantes (puérperas que vivenciaram gestações de alto risco e, portanto, necessitaram de acompanhamento na AE; e profissionais dos ambulatórios de especialidade materno-infantil) revelaram elementos facilitadores e dificultadores relacionados à coordenação entre níveis assistenciais. Esses elementos encontram-se sumarizados nos Quadros 1 e 2.

Coordenação da informação

O discurso da maioria das usuárias entrevistadas apontou para a existência do cuidado compartilhado entre os profissionais da APS e da AE, porém a integração com a atenção hospitalar apareceu como uma fragilidade nas duas redes. As narrativas revelaram o desconhecimento das usuárias acerca de mecanismos formais para a troca de suas informações assistenciais, e a própria usuária, por ser o principal instrumento de coordenação, acaba ficando responsável pelo compartilhamento das informações sobre recomendações, medicamentos, exames, entre outros. Nesse sentido, a correta utilização das informações sobre as usuárias atendidas no outro nível assistencial torna-se dependente do entendimento e do comprometimento delas, o que influencia diretamente a tomada de decisão dos profissionais envolvidos no cuidado.

Os profissionais da AE destacaram a criação do plano de cuidado compartilhado entre a APS e a AE, as ações de matriciamento com foco na capacitação profissional e no manejo clínico adequado entre os profissionais da rede e as reuniões de equipe na AE como mecanismos de transferência da informação clínica e biopsicossocial. No entanto, esses mesmos profissionais relataram que fica sob a responsabilidade da usuária o manuseio, entre os níveis de atenção, de todos os instrumentos/formulários, inclusive do próprio plano de cuidados, exames, recomendações etc. A falta de integração com a atenção hospitalar também foi mencionada por todos os profissionais entrevistados.

A crítica à ausência de feedback dos profissionais da APS à AE quanto à aplicabilidade dos planos de cuidado elaborados surgiu na fala de um profissional, destacando que, apesar desses planos serem elaborados conjuntamente entre os profissionais no ambulatório, estes não têm o conhecimento sobre sua real utilização.

Coordenação da gestão clínica

As narrativas das usuárias entrevistadas demonstraram que há coerência na atenção prestada nas duas redes, principalmente no que diz respeito a tratamentos compartilhados entre os níveis assistenciais e adequação clínica, inclusive com referência (uma usuária) à realização de acompanhamento concomitante nos dois níveis de atenção.

Os profissionais mencionaram que há coerência na atenção prestada, porém afirmaram que ela está relacionada ao próprio nível secundário, na medida em que são discutidos, entre a equipe, os objetivos clínicos, os exames e os tratamentos que serão utilizados para a construção do plano de cuidado. No entanto, esse compartilhamento não emerge como uma prática entre níveis. Apenas um profissional citou a realização da prática de interconsulta entre a equipe da APS e o especialista (pediatra), em casos em que a equipe da APS tem alguma dificuldade em realizar o manejo clínico.

Apesar de a maioria das usuárias ter relatado a realização de testes e exames cruciais ao adequado manejo clínico da gravidez, tanto na APS quanto na AE, problemas relacionados à insuficiência de especialistas ficaram evidentes, o que pode comprometer a integralidade do cuidado. A relação desfavorável entre a oferta e a demanda por consulta especializada emergiu da fala de duas usuárias, somada à demora para a realização de alguns exames (por exemplo, ultrassonografia obstétrica), prejudicando o manejo em tempo oportuno após a transferência para a AE. Uma usuária relatou a necessidade de recorrer aos serviços da rede privada para a realização de determinados exames durante o período gestacional, em virtude da morosidade na marcação desses procedimentos pela rede SUS.

Corroborando os relatos das usuárias, a desproporcionalidade entre a demanda da população e a oferta de consultas especializadas também emergiu entre os profissionais entrevistados. Ainda reportaram a indisponibilidade de alguns exames em tempo oportuno, medicações e serviços crucias ao adequado manejo clínico, contribuindo para a diminuição no tempo das consultas e comprometendo, consequentemente, a qualidade da contrarreferência.

A alta rotatividade profissional se configurou como um dos gargalos para o seguimento adequado das usuárias nas duas redes, prejudicando a sustentabilidade dos processos de trabalho. Os entrevistados apontaram, ainda, a baixa adesão dos profissionais da APS, sobretudo médicos, em relação às ações de matriciamento promovidas pela AE como um desafio a ser superado. A falta de celeridade no processo de regulação assistencial também foi mencionada por parte dos profissionais entrevistados como um gargalo à atenção continuada, dificultando a acessibilidade entre níveis. Parte dos profissionais reconheceu a existência de comunicação dialógica e aberta entre a APS e a AE, o que favorece o correto encaminhamento, porém dois profissionais apontaram equívocos relacionados à triagem e encaminhamento de pacientes para a AE.

Também emergiu das narrativas a realização de alguns macroprocessos de trabalho preconizados pela PAS, como a estratificação de risco e a utilização de protocolos clínicos. Essas ações favorecem uma maior precisão e uma menor variabilidade dos atendimentos, por meio da incorporação de procedimentos ancorados por notas técnicas.

Coordenação administrativa

O protagonismo da APS foi reconhecido nas narrativas das usuárias, que também identificaram a APS como ordenadora do cuidado, acionando e coordenando o acesso à AE. No entanto, entraves no processo de trabalho da AE foram relatados, sobretudo quando se faz necessário o encaminhamento para o nível hospitalar.

Os profissionais entrevistados destacaram que o encaminhamento à AE se dá exclusivamente por meio da APS, de acordo com um fluxo de referência e contrarreferência estabelecido na rede após a implantação da PAS. O médico ou enfermeiro da APS faz a estratificação de risco da gestante e da criança e, caso detecte a necessidade de encaminhamento ao especialista, a marcação é realizada pelo próprio profissional, por telefone. Na AE, os profissionais do ambulatório ficam responsáveis pelas consultas subsequentes, pela elaboração do plano de cuidado e pela marcação de exames, caso necessário. Um profissional do ambulatório de uma das redes relatou que uma cópia do plano de cuidados é entregue à usuária e que esse plano de cuidado “vai para a UBS”.

Profissionais da AE destacaram a elaboração de fluxos de atendimento entre níveis, de forma integrada e compartilhada, a começar da implantação da PAS. Eles afirmaram que esses fluxos não existiam nas redes antes da incorporação dessa estratégia. No entanto, um profissional ressaltou que, apesar da existência desses fluxos, a alta rotatividade de profissionais dificulta a ordenação do acesso. Segundo a fala de um dos profissionais, depois da PAS, os profissionais da AE passaram a desempenhar outras funções na rede, relacionadas à pesquisa, supervisão e promoção de ações educativas, tendo em vista a organização e gestão dos fluxos assistenciais.

O desenvolvimento de estratégias, como o matriciamento e o monitoramento dos planos de cuidado, estimulado pela PAS, foi apontado como fundamental para efetividade do sistema de saúde em relação às necessidades dos usuários, criando um vínculo robusto entre a APS e os serviços especializados e assegurando que os profissionais conheçam e colaborem mutuamente em benefício da atenção integral. No entanto, alguns relatos evidenciaram desafios e limitações na coordenação e na integração entre a APS e a AE, contrapondo-se às percepções positivas mencionadas anteriormente. Usuárias e profissionais relataram dificuldades práticas, como a necessidade de documentação extra e burocracia para encaminhamentos, o que pode comprometer a fluidez na prestação do cuidado. Houve críticas à postura de alguns profissionais que ofereceram resistência a seguir diretrizes dos planos de cuidado e a participar de forma ativa de iniciativas como o matriciamento.

Com relação à atenção às usuárias de risco e muito alto risco as narrativas apresentaram tanto aspectos positivos quanto negativos. Em comum, ganha destaque a importância da PAS na integração entre os diferentes níveis de cuidado, reconhecendo que a coordenação e a comunicação efetiva entre os gestores, profissionais e instituições são essenciais para colocar a usuária no centro do cuidado. Contudo, os discursos evidenciaram limitações significativas, como a falta de uma integração efetiva com maternidades e hospitais, além da dificuldade em obter a adesão de médicos e o acesso a especialidades, como neuropediatria, que frequentemente apresentam longos tempos de espera e acesso apenas fora da região de saúde.

Discussão

Os resultados deste estudo revelaram aspectos importantes sobre a coordenação assistencial entre a APS e a AE, com base na percepção de usuárias e profissionais da AE de duas redes de atenção. O estudo evidenciou que, apesar dos avanços promovidos pela PAS e pelos mecanismos de ordenação da atenção implementados, que fortalecem a rede de cuidado e o continuum assistencial, persistem limitações estruturais e culturais que afetam a efetividade da integração entre os níveis de atenção. As dificuldades com a adesão de profissionais, a fragmentação dos serviços em relação às maternidades e a alta rotatividade de profissionais comprometem o fluxo de assistência, mostrando que a busca de uma rede de saúde mais coesa e funcional continua a ser um desafio substancial.

A opção de considerar a percepção de profissionais da AE na análise da coordenação entre níveis justifica-se, primeiramente, pela visão complementar e, muitas vezes, distinta da dos profissionais da APS sobre os desafios enfrentados na coordenação dos cuidados. Enquanto os profissionais da APS frequentemente abordam a continuidade do cuidado na perspectiva de porta de entrada do sistema (Bousquat et al., 2017; Gurgel Júnior e Jorge, 2022), os da AE podem destacar barreiras e facilitadores relacionados à referência e contrarreferência, à adequação dos planos de cuidado e ao papel que desempenham no manejo de casos de maior complexidade.

A percepção dos profissionais da AE é fundamental para compreender a efetividade dos processos de articulação, uma vez que eles podem apontar desafios que não são visíveis para os profissionais da APS, tais como a sobrecarga de consultas especializadas, a comunicação fragmentada e as dificuldades de adesão a protocolos, que impactam na continuidade assistencial. A PAS propõe para o serviço de saúde a gestão compartilhada e integração entre níveis, reduzindo a fragmentação da atenção (Guerra et al., 2022). Evangelista et al. (2019) apontam a intervenção como importante ferramenta de gestão, que auxilia o compartilhamento do cuidado. Ao incluir a visão de profissionais da AE, estudos podem alcançar uma análise abrangente da RAS e, assim, contribuir para intervenções que promovam uma integração efetiva e um cuidado coeso, centrado no usuário.

Surgiram aspectos positivos e fragilidades na coordenação da informação entre os diferentes níveis de atenção à saúde após implantação da PAS. Positivamente, os informantes relataram a criação de planos de cuidado compartilhados e a realização de ações de matriciamento destinadas a capacitar os profissionais e aprimorar o manejo clínico. Esses mecanismos são fundamentais para facilitar a transferência de informações clínicas e biopsicossociais entre a APS e a AE, promovendo uma continuidade do cuidado mais efetiva (Campos et al., 2014; Tesser e Poli Neto, 2017; Evangelista et al., 2019). As reuniões de equipe na AE também foram apontadas como uma prática que contribui para a transferência de informações relevantes sobre o usuário.

Persistem desafios significativos que comprometem o fortalecimento dessa coordenação. As narrativas das usuárias revelaram que, na ausência de um sistema formal robusto, a responsabilidade pelo compartilhamento das informações de saúde recai sobre elas mesmas (Luján et al., 2017). Essa dependência pode ser problemática, pois a continuidade do cuidado se torna dependente do entendimento e do comprometimento de usuárias que, por vezes, situam-se em contextos de vulnerabilidade social. Frequentemente, essas pessoas podem apresentar baixa escolaridade e dificuldades decorrentes de um baixo nível socioeconômico, o que pode limitar sua capacidade de compreender e comunicar de forma correta informações médicas complexas. Essa situação não apenas aumenta o risco de equívocos na transmissão de informações cruciais para o cuidado, mas também expõe uma fragilidade estrutural do sistema de saúde, que, ao delegar essa responsabilidade às usuárias, pode comprometer a continuidade e a qualidade do cuidado prestado (Mendes et al., 2021).

Um conceito importante, descrito por Mendes (2012), é o de autogestão, que se refere à autonomia do usuário na participação ativa de seu cuidado. Contudo, essa participação deve ocorrer em um sistema de saúde que ofereça suporte e infraestrutura adequados. A situação identificada nos resultados, em que a transferência de informações essenciais à equipe depende das próprias capacidades da usuária, mostra uma falha na implementação desse aspecto do MACC, sugerindo que ainda não há um suporte suficientemente robusto para a autogestão efetiva, especialmente em contextos de vulnerabilidade social.

Os profissionais da AE destacaram a ausência de feedback da APS sobre a aplicação dos planos de cuidado, indicando falha na comunicação bidirecional. Essa lacuna dificulta a troca de informações entre os profissionais, prejudicando o monitoramento do impacto das intervenções propostas e limitando a capacidade de ajustes (mecanismos de coordenação de adaptação mútua) e melhorias no cuidado prestado (Mendes et al., 2021).

A falta de integração com a atenção hospitalar foi outra fragilidade identificada. Essa desconexão indica que, embora existam práticas e instrumentos que busquem integrar a APS e a AE, o elo com a atenção hospitalar permanece como um ponto crítico, resultando em uma quebra na rede de atenção à saúde que pode impactar negativamente a continuidade do cuidado, principalmente em situações de maior complexidade, como as que envolvem o manejo de gestantes de alto risco (World Health Organization, 2018). Para fortalecer a coordenação da informação, é essencial que sejam desenvolvidos sistemas formais e estratégias estruturadas entre os níveis de atenção. Isso inclui não apenas a criação de mecanismos de comunicação bidirecional, mas também o fortalecimento de soluções tecnológicas e de treinamento contínuo que auxiliem no empoderamento de profissionais e usuários, assegurando que as informações cruciais sejam compartilhadas de forma segura e integrada (Miranda-Mendizábal et al., 2020).

As narrativas das usuárias sugeriram uma certa consistência nos tratamentos recebidos em ambos os níveis de atenção, com destaque para a continuidade do acompanhamento clínico e a adequação na transferência entre os níveis. Esse ponto positivo demonstra que, em situações em que os processos de encaminhamento e atendimento são bem conduzidos, a gestão clínica se alinha às necessidades dos usuários, promovendo um cuidado integrado e coordenado de forma efetiva (Almeida et al., 2010; World Health Organization, 2018; Waibel et al., 2018; Ollé-Espluga et al., 2021; Shimocomaqui et al., 2023).

Os profissionais também destacaram a coerência na gestão clínica, especialmente em relação às práticas internas da AE, como as discussões de casos em equipe. Isso indica um certo nível de organização na AE, que favorece a construção de planos de cuidados bem delineados. No entanto, a dificuldade de ampliar essa prática para uma colaboração com a APS demonstra uma articulação entre níveis ainda insuficiente (Guerra et al., 2022). Além disso, a prática de interconsulta, embora mencionada, parece ser restrita a situações específicas, o que enfraquece o potencial da gestão clínica integrada.

A coordenação da gestão clínica, que se revelou efetiva dentro da AE, mas fragmentada ao integrar-se com a APS, reflete a necessidade de que todos os níveis trabalhem de forma integrada e em rede, com um foco em planos de cuidado colaborativos e contínuos. A falta de feedback e a ausência de práticas consistentes de colaboração entre APS e AE encontradas no estudo apontam para a carência de alinhamento da estratégia com o modelo proposto por Mendes (2012), que destaca a gestão compartilhada e a importância da comunicação entre equipes para garantir o cuidado integral.

Um desafio significativo que emergiu dos discursos foi a carência de especialistas e os problemas de acesso a exames, o que compromete a integralidade do cuidado e pode dificultar a oportunidade no manejo de casos de alto risco (Mendes, 2019; Almeida et al., 2021). A demora na realização de exames, como ultrassonografias obstétricas, citada por usuárias, reflete a tensão entre oferta e demanda, muitas vezes forçando-as a buscar serviços privados. Esse cenário impacta negativamente a continuidade do cuidado e destaca uma falha na gestão clínica ao não conseguir atender de forma efetiva às necessidades de alta complexidade dentro da rede pública (Amarilla et al., 2020).

Outro ponto de destaque é a alta rotatividade de profissionais, que compromete a sustentabilidade dos processos de trabalho implementados no âmbito da PAS. A mudança frequente dos membros das equipes prejudica o estabelecimento de vínculos, a continuidade dos cuidados e a aplicação consistente dos protocolos e planos (Belga, Jorge e Silva, 2022). A baixa adesão de profissionais da APS às ações de matriciamento promovidas pela AE aponta uma falha na disseminação de práticas colaborativas que são fundamentais para uma gestão clínica bem-sucedida, podendo ainda ser resultante da elevada demanda de atendimentos, da métrica utilizada para avaliação da produção de trabalho, da formação, experiência e facilidade ou dificuldade de compartilhamento de cada profissional, das exigências da população e gestão local e da insuficiência da rede de serviços do território em relação à demanda, gerando uma sobrecarga constante de trabalho em todos os níveis assistenciais (Santos, Uchôa-Figueiredo e Lima, 2017).

Os resultados da coordenação administrativa refletiram a forma como a APS é reconhecida como ordenadora do cuidado, assumindo a responsabilidade de gerenciar os fluxos de encaminhamento e a referência para a AE. As narrativas das usuárias e dos profissionais apontaram que a APS desempenha um papel central na organização do acesso, estratificando riscos e coordenando as ações iniciais necessárias para garantir a continuidade do cuidado. Esse protagonismo permite que a APS facilite a entrada na AE, assegurando que o acompanhamento especializado seja agendado ainda na consulta da APS (Bousquat et al., 2017).

Contudo, os resultados evidenciam obstáculos na coordenação administrativa. Um exemplo é a dependência da usuária para gerenciar o plano de cuidado e documentos importantes, como exames e formulários de encaminhamento, que, em um sistema ideal, deveriam ser integrados eletronicamente entre os níveis de atenção. O retorno de uma usuária à APS para obter encaminhamentos específicos sugere que a integração administrativa ainda carece de processos simplificados e acessíveis, que reduzam os custos, acelerem o acesso ao especialista e melhorem a coordenação do atendimento (Bodenheimer, 2008).

Os avanços promovidos pela PAS na construção de vínculos e ampliação da comunicação entre os níveis de atenção permitiram que os profissionais da AE passassem a assumir atribuições adicionais, como a supervisão e a promoção de ações educativas, o que contribui para a organização dos fluxos assistenciais. No entanto, a integração administrativa plena ainda enfrenta desafios estruturais, como a necessidade de protocolos mais robustos e sistemas de informação interoperáveis que permitam um compartilhamento rápido e seguro de dados entre a APS e a AE de uma mesma área geográfica, por meio de acesso eletrônico (Bodenheimer, 2008). Portanto, para melhorar a coordenação administrativa, é fundamental investir em mecanismos que integrem a APS e a AE, reduzindo a dependência dos pacientes e melhorando a comunicação entre as equipes. Estratégias para estabilizar a equipe profissional e a adesão aos protocolos estabelecidos são cruciais para uma ordenação mais efetiva e uma assistência integral e contínua (Almeida et al., 2021).

Concluiu-se que, apesar dos avanços consideráveis percebidos pelos entrevistados nas duas redes de atenção que desenvolveram a intervenção da PAS, ainda persistem desafios na integração entre a APS e a AE. A PAS emergiu como uma estratégia potente para aproximar os profissionais, estruturar fluxos de cuidado e estabelecer processos de trabalhos, como o matriciamento, elaboração de planos de cuidados, reuniões de equipe, interconsulta, entre outros. No entanto, na coordenação da informação, a dependência das usuárias para a transmissão de informações entre os níveis de atenção demonstra a necessidade de aprimorar os mecanismos formais de comunicação. Na coordenação da gestão clínica, embora a coerência interna da AE tenha sido reconhecida, a dificuldade em expandir essa prática para uma colaboração efetiva com a APS comprometeu a continuidade do cuidado. Por sua vez, na coordenação administrativa, houve indícios de que a APS assumiu seu papel de ordenadora do acesso e beneficiou-se da PAS para construir vínculos e fortalecer a rede, mas ainda encontra barreiras relacionadas à burocracia e à falta de sistemas integrados.

Quadro 1
– Síntese dos principais elementos facilitadores relacionados à coordenação da atenção entre níveis assistenciais, de acordo com a percepção dos atores entrevistados em duas redes de atenção à saúde, na linha de cuidado materno-infantil. Pesquisa Efetiva PAS, 2022.
Quadro 2
– Síntese dos principais elementos dificultadores relacionados à coordenação da atenção entre níveis assistenciais, de acordo com a percepção dos atores entrevistados em duas redes de atenção à saúde, na linha de cuidado materno-infantil. Pesquisa Efetiva PAS, 2022.
Quadro 3
– Principais citações identificadas como elementos facilitadores relacionados às mudanças na coordenação da atenção entre níveis assistenciais em duas redes de atenção à saúde, na linha de cuidado materno-infantil. Pesquisa Efetiva PAS, 2022.
Quadro 4
– Principais citações identificadas como elementos dificultadores relacionados às mudanças na coordenação da atenção entre níveis assistenciais em duas redes de atenção à saúde, na linha de cuidado materno-infantil. Pesquisa Efetiva PAS, 2022.

Referências

  • Aspectos éticos:
    A Pesquisa Efetividade da Estratégia de Planificação da Atenção à Saúde em quatro regiões de saúde no Brasil – Pesquisa Efetiva PAS foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (IMIP) sob o Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) n. 34198320.5.0000.5201.
  • Apresentação prévia:
    Este artigo é resultante da pesquisa Efetividade da Estratégia de Planificação da Atenção à Saúde em quatro regiões de saúde no Brasil – Pesquisa Efetiva PAS.
  • Material e/ou dados de pesquisa em repositório:
    Não se aplica.
  • Preprint e versão final:
    Não se aplica. Editora científica Bárbara Bulhões
  • Financiamento:
    Estudo financiado pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) em cooperação com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e o Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (IMIP).

Editado por

  • Editora científica
    Bárbara Bulhões

Disponibilidade de dados

Não se aplica.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    31 Mar 2025
  • Aceito
    03 Set 2025
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