Open-access Competências culturais na formação em enfermagem: o contexto da região amazônica

Cultural competences in Nursing education: the context of the amazon region

Competencias culturales en la formación en enfermería: el contexto de la región amazónica

Resumo

O artigo teve por objetivo analisar o desenvolvimento das competências culturais de estudantes do curso de enfermagem de universidades públicas do Amazonas. Trata-se de uma pesquisa descritiva, com abordagem qualitativa, com estudantes do último ano do curso de graduação em enfermagem de duas universidades públicas desse estado. Os dados foram coletados por meio do preenchimento de formulário on-line, via Google Forms, e avaliados de acordo com a técnica de análise de conteúdo de Bardin. Com base no discurso dos participantes, emergiram duas categorias: a primeira sobre a interculturalidade e o ensino em enfermagem, com ênfase na população indígena, em que também se abordaram as populações negra e quilombola; com menor espaço para diálogos e discussões, foram apontadas a população ribeirinha e a população em situação de rua. A segunda categoria teve como foco as competências culturais – a habilidade de assistir populações culturalmente diferenciadas –, buscando-se avaliar a compreensão desse conceito na perspectiva dos estudantes. Concluiu-se que o desenvolvimento das competências é um processo complexo e gradual, que exige intervenções continuadas ao longo da formação acadêmica, com a necessidade de uma abordagem de forma transversal e o envolvimento de toda a comunidade acadêmica.

Palavras-chave:
enfermagem; competências culturais; educação em enfermagem

Abstract

The objective was to analyze the development of cultural competencies among nursing students from public universities in the state of Amazonas, Brazil. This is an descriptive study with a qualitative approach, conducted with final-year undergraduate nursing students from two public universities. Data were collected through an online questionnaire via Google Forms and analyzed using Bardin’s content analysis technique. From the participants’ discourse, two categories emerged. The first category was interculturality and nursing education, with an emphasis on the Indigenous population. Other groups were also addressed, such as the Black and Quilombola populations, while the riverside communities and homeless populations were mentioned as having less space for dialogue and discussion. The second category refers to Cultural Competencies: the ability to deal with and care for culturally diverse populations, establishing an understanding of the concept of cultural competence from the students’ perspective. We concluded the development of cultural competence is a complex and gradual process that requires ongoing interventions throughout academic training. It must be approached transversally, involving the entire academic community.

Keywords:
nursing; cultural competence; nursing education

Resumen

El objetivo fue nalizar el desarrollo de las competencias culturales de estudiantes del curso de enfermería de universidades públicas del estado de Amazonas, em Brasil. Se trató de una investigación descriptiva, con enfoque cualitativo, realizada con estudiantes del último año del curso de grado en enfermería de dos universidades públicas. Los datos fueron recolectados mediante un formulario en línea, a través de Google Forms, y analizados utilizando la técnica de análisis de contenido de Bardin. Con base en los discursos de los participantes, surgieron dos categorías. La primer fue la interculturalidad y la enseñanza en enfermería, con énfasis en la población indígena. También se abordaron otras poblaciones: la población negra y quilombola, mientras que la población ribereña y las personas en situación de calle fueron señaladas como teniendo menor espacio para el diálogo y la discusión. La segunda categoría trata sobre las competencias culturales: la habilidad para tratar y atender a poblaciones culturalmente diversas, estableciendo la comprensión del concepto de competencias culturales desde la perspectiva de los estudiantes. En conclusión, el desarrollo de competencias culturales es un proceso complejo y gradual que requiere intervenciones continuas a lo largo de la formación académica. Debe ser abordado de manera transversal, con la participación de toda la comunidad académica.

Palabras clave:
enfermería; competencia cultural; educación en enfermería

Introdução

Ao se considerar que a diversidade cultural é um aspecto inerente da sociedade global, especialmente no Brasil, é fundamental que os currículos dos cursos de formação superior tenham como um dos seus objetivos a formação de competências culturais e transculturais. Nesse sentido, Campinha-Bacote (1999) afirma que as competências culturais representam o esforço contínuo dos profissionais em alcançar a prestação de um cuidado eficaz, levando em conta o contexto cultural do cliente, sendo ele pessoa, família e comunidade. A autora também destaca que o empenho desse profissional é resultado do desejo próprio para desenvolver consciência cultural, habilidades culturais e encontros culturais (Campinha-Bacote, 2002).

O aumento no número de pacientes de diferentes culturas representa um grande desafio para os enfermeiros, que precisam oferecer um cuidado individualizado e holístico, considerando as necessidades culturais de cada pessoa. Isso exige que os enfermeiros possuam conhecimento e compreensão sobre as diversas culturas, especialmente no que se refere à saúde, a crenças, valores e costumes (Jose et al., 2021).

O conhecimento transcultural mostra-se fundamental para que os enfermeiros desenvolvam sensibilidade em relação às necessidades de indivíduos de diferentes culturas. É importante ressaltar que esses profissionais mantêm contato direto com os pacientes e têm a responsabilidade de elaborar planos de cuidado que atendam às necessidades específicas de cada um (Jose et al., 2021).

A temática ganha relevância regional e nacional, pois a região Norte apresenta um quantitativo expressivo de indígenas. O censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022 indicou que 753.780 pessoas se autodeclararam indígenas, constituídos por 305 grupos étnicos, falantes de 274 idiomas, o que corresponde a 44,47% da população indígena do Brasil (IBGE, 2023).

O estudo aqui apresentado, com foco na área da enfermagem, constatou que

A abordagem cultural com vistas a compreender os aspectos relacionados aos cuidados foi amplamente difundida com estudos e imersão no campo da antropologia com a Teoria da Diversidade e Universalidade do Cuidado Cultural, desenvolvida por Leininger, na qual a autora postula que culturas diferentes percebem, conhecem e praticam o cuidado de diferentes maneiras, embora existam cuidados universais (Pina, 2017, p. 24).

A autora citada prossegue:

A partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), o projeto político pedagógico dos cursos de graduação em enfermagem passou a ser elaborado pelas próprias Instituições de Ensino Superior (IES), que têm autonomia para definir o perfil profissional a ser formado e definir os conteúdos essenciais para a formação do enfermeiro, de modo a atender às necessidades sociais de saúde, com ênfase no Sistema Único de Saúde (SUS) (Pina, 2017, p. 133).

As revisões sistemáticas indicam que os estudos sobre competências culturais se desenvolveram na área de gestão dos serviços e da formação de profissionais de saúde, mas poucos com foco na realidade da Amazônia (Shen, 2015), o que reforça a necessidade de pesquisas sobre tal abordagem temática, devendo ser pensada e discutida nos cenários acadêmicos e de formação em saúde – especialmente na região Norte e amazônica do país, não somente pela sua diversidade étnico-social como também pelo fato de concentrar o maior contingente populacional de indígenas do Brasil.

Nesse contexto, a(o) enfermeira(o) é um dos principais personagens envolvidos no ato de cuidar, tornando-se imprescindível que sua formação possa ser ancorada nos marcos teóricos que contemplem as competências culturais. Assim, o estudo aqui apresentado teve como objetivo analisar o desenvolvimento das competências culturais dos estudantes do curso de enfermagem de universidades públicas do Amazonas. É de suma importância que os profissionais da saúde, especialmente os da enfermagem, desenvolvam competências culturais; dessa forma, as intervenções de enfermagem em contextos culturais diversos estarão ancoradas em um elevado nível de literacia.

Métodos

Trata-se de uma pesquisa descritiva com abordagem qualitativa, realizada com estudantes matriculados no último ano do curso de enfermagem em duas universidades públicas amazonenses, ambas consideradas referências na formação de profissionais das diversas áreas do saber, com destaque para o curso de enfermagem. As duas juntas formam cerca de cem enfermeiros anualmente. Neste estudo, optou-se por identificar as instituições de ensino superior (IESs) pelas siglas ‘IES A’ e ‘IES B’.

A coleta dos dados ocorreu no período de janeiro a março de 2021, de forma on-line, por meio de formulário elaborado no Google Forms. O instrumento foi composto por questões fechadas sobre condições sociodemográficas e abertas com foco na avaliação das competências culturais dos participantes.

Para iniciar a coleta dos dados, estabeleceu-se contato com os respectivos coordenadores do curso de enfermagem, que disponibilizaram os e-mails institucionais dos estudantes, bem como o contato telefônico dos representantes das turmas. O convite aos estudantes foi enviado por e-mail, assim como o endereço para acesso ao instrumento de coleta de dados, juntamente com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Para garantir o anonimato, identificou-se cada participante pela letra E seguida dos números de 1 a 26.

Os dados foram tratados com base na análise de conteúdo de Bardin. A pré-análise consistiu na organização dos dados, criteriosamente organizados e sistematizados para a operacionalização da análise. A exploração do material envolveu a codificação das informações obtidas, como a classificação e a agregação das falas, seguindo-se o tratamento dos resultados obtidos e a interpretação do material, de modo a se permitir a concepção das categorias (Bardin, 2011).

Resultados

Dentre os 60 estudantes convidados para participar do estudo, 26 responderam ao formulário. A maioria informou ser do sexo feminino (76,7%), com média de idade de 26,3 anos. A grande parte dos estudantes (79,9%) cursava o décimo período do curso de enfermagem; 20,1% estavam no nono período. Chamou a atenção o fato de que cerca de 15,3% dos participantes consideraram ter pouco conhecimento acerca das competências culturais durante a sua formação no curso.

De acordo com os discursos dos estudantes, emergiram duas categorias: ‘A interculturalidade e o ensino de enfermagem’ e ‘Competências culturais: habilidade de lidar com e assistir populações culturalmente diferenciadas’, conforme apresentado a seguir.

A interculturalidade e o ensino de enfermagem

Essa categoria retrata que populações culturalmente diferenciadas foram abordadas durante a graduação. Embora as populações tenham sido um tema estudado em sala de aula, os participantes consideram que foi de maneira superficial. A população indígena mostrou-se a mais referida pelos estudantes; em menor espaço para diálogos e discussão foram as populações negra, quilombola, ribeirinha e em situação de rua, conforme evidenciado nas falas a seguir:

A temática foi abordada apenas durante a disciplina de saúde das populações indígenas, na qual trabalhamos direcionado especificamente a essa população citada de forma abrangente (E7).

Houve algumas disciplinas iniciais, como antropologia e saúde e sociedade, mas a disciplina de saúde da população amazônica abordou de forma mais incisiva o tema (E2).

Houve maior enfoque para a população indígena e para a população ribeirinha (E8).

Em relação às disciplinas cursadas durante a graduação que favoreceram o desenvolvimento de competência cultural, saúde indígena foi indicada como protagonista para o processo ensino-aprendizado, sendo citada pela maioria dos estudantes. Entretanto, as disciplinas saúde e sociedade, antropologia da saúde e saúde da mulher também foram lembradas pelos estudantes, por terem incluído temas sobre diversidade cultural.

Chamou a atenção o fato de os participantes relatarem a participação em atividades extracurriculares que consideraram ter contribuído para o desenvolvimento de competência cultural, como observado nas transcrições a seguir:

Tive a oportunidade de participar de uma ação voluntária junto a algumas pessoas da minha turma com a docente de saúde indígena. Nós nos dirigimos a uma comunidade onde boa parte da população era indígena. Foi interessante, pois fizemos atividades de educação em saúde para o público infantil do local e distribuição de itens de higiene pessoal (E6).

Durante a coleta de dados de um projeto de pesquisa onde tivemos a oportunidade de conhecer várias pessoas de populações culturalmente diferenciadas, foi o período em que mais tive contato com diversidade cultural (E10).

Em um trabalho de saúde indígena, fomos a um centro de convivência da etnia Sateré-Mawé. Pudemos aprender com a população, que fala com propriedade sobre seus costumes e crenças (E1).

Na disciplina de saúde das populações amazônicas, tive oportunidade de visitar o Centro de Medicina Indígena Bahserikowi, a Casa de Saúde Indígena (E5).

Realizei atividades de educação em saúde sobre infecções sexualmente transmissíveis para indígenas da Casai Manaus. Foi o momento que proporcionou a interação com a população. E ao longo da prática clínica, atendemos pacientes ribeirinhos e indígenas, o que ocorreu mais em situações de urgência, em serviços de pronto atendimento e na Fundação de Medicina Tropical (E22).

Competências culturais: habilidade de lidar com e assistir populações culturalmente diferenciadas

Conforme os discursos transcritos a seguir, essa categoria expressa a compreensão dos participantes quanto ao conceito de competência cultural, observando-se o que se entende como a capacidade de lidar e atuar de forma adequada com os diversos grupos étnicos.

Sensibilidade humana e capacidade profissional de assistir o outro em suas necessidades a partir de sua realidade cultural, enxergando-o como ser holístico, onde a cultura precisa ser considerada para um cuidado eficaz (E16).

É o reconhecer as individualidades dos grupos sociais, características culturais que definem, por exemplo, como lidam com o processo de saúde-doença, a formação intelectual, rituais, forma de alimentação, dentre outras coisas (E7).

Capacidade dos profissionais do sistema de saúde de fornecer cuidados que levem em consideração os valores, crenças, culturas, aspectos sociais e linguísticos dos pacientes (E3).

A maioria dos participantes relatou ter adquirido, ao longo da formação, conhecimentos sobre o conceito de competência cultural, o que foi reforçado pelas seguintes falas:

Um atributo de qualquer profissional da saúde, que deve ser desenvolvido dentro da área de trabalho para conseguir lidar com as mais diversas etnias, grupos sociais, orientações sexuais [...] (E4).

Você tem o conhecimento sobre como auxiliar no cuidado da população de acordo com suas especificidades da forma correta e baseado em conhecimento científico, colocando, assim, em prática um dos mais importantes princípios do SUS, a equidade (E20).

Como enfermeiro, é entender a formação e as influências de um indivíduo e saber dar um atendimento diferenciado de acordo com a necessidade daquele paciente (E3).

Processo do cuidado a partir dos conhecimentos, crenças e costumes específicos de cada cultura (E9).

Habilidades práticas de atuar com as diferenças de costumes, crenças, hábitos de vida etc. (E15).

Conhecer outras culturas e compreender como funciona a mesma, seus costumes, valores, tradições [...] (E23).

Quando questionados sobre as experiências de contato direto com pessoas de uma cultura diferente, os estudantes apresentaram relatos marcantes, indicando que o tema é fundamental para a formação e a qualificação profissional para aqueles que atuarão tanto em áreas urbanas quanto nas regiões mais remotas do país, com ênfase no Amazonas, uma região caracterizada por sua diversidade étnica, cultural e social.

Isso faz toda diferença na formação do profissional de saúde, principalmente do enfermeiro, o qual muitas vezes vai se deparar com pacientes de diversas culturas. Trabalhar sobre as diversidades culturais é de suma importância para ter um olhar mais holístico e prestar um serviço equânime e de qualidade, procurando intervir com a medicina ocidental juntamente com a tradicional utilizada por esses grupos sociais. Vale ressaltar ainda que as universidades dentro das suas grades deveriam trabalhar além da saúde das populações indígenas, por exemplo, que foi a que eu tive, a saúde da população negra, LGBTQIA+, ribeirinhos. Pois são populações que estão muito presentes no nosso dia a dia, principalmente na cidade de Manaus (E2).

Cada pessoa é única. Imagina a abrangência de uma cultura? Não se muda cultura, existem adaptações para as diferenças. O homem é flexível, e com o tempo, querendo ou não, ocorrem mudanças de alguma forma (E5).

Desenvolvi sensibilidade de procurar entender a realidade dos outros para aplicar um cuidado singular (E11).

Vivenciar dentro da comunidade, mesmo que por um período ínfimo, vai além da associação teórico-prática. Aprender por empirismo explora relações entre culturas, sociedades, e traz um olhar diferenciado e equânime ao modo de como o cuidado é direcionado ao usuário (E1).

Ao serem indagados sobre como a temática poderia ser mais bem abordada pelas disciplinas curriculares, os estudantes ressaltaram a importância de os assuntos relacionados à competência cultural do enfermeiro serem desenvolvidos de forma aprofundada, incluindo oportunidades que permitam ao estudante conhecer a realidade de alguns grupos culturalmente diferenciados, como os indígenas. Os participantes também destacaram as particularidades do contexto amazônico, bem como as melhorias para que o tema possa alcançar impacto positivo no processo de ensino e aprendizagem:

É uma temática relevante e necessária. Acredito que seja necessária uma mudança nos planos de ensino, bem como nas grades curriculares, para a inclusão de disciplinas que abordem populações culturalmente diversas, enfatizando ações de abordagens, cuidados e intervenções (E3).

Deveria ser mais falado, estudado, pesquisado e vivenciado pelos estudantes de graduação, pois é uma população fragilizada e pouco assistida como deveria ser (E7).

[...] que poderia ter um contato maior com pessoas com culturas diversificadas, afinal o Norte é uma região rica em cultura e diferenças, apesar de que com o contato que nos foi oferecido já deu para abrir os olhos para o grande desafio que teremos enquanto profissionais de saúde (E11).

Acredito que seja um tema pouco explorado (E12).

A ‘IES A’ tem portas abertas em diversas entidades e grupos étnicos, portanto essas parcerias devem ser valorizadas e reconhecidas pela universidade, colocando assim o estudante de enfermagem frente à realidade da singularidade que é tão abundante no nosso cenário amazonense e brasileiro (E14).

[...] que é pouco abordado e quando abordado é superficial demais. Dentro de matérias específicas, deveriam ser abordados mais como tratar todas as culturas, pelo menos uma introdução sobre cada tipo de cultura que predomina no Brasil, sobre como conversar e tratar, por exemplo, população indígena, refugiados, moradores de rua, grupos LGBTQI+, entre outros (E15).

Desenvolvi sensibilidade de procurar entender a realidade dos outros para aplicar um cuidado singular; porém, há a necessidade de mais contatos práticos com tal realidade para provar e aperfeiçoar toda a teoria apreendida (E18).

Nosso território é muito rico em diversidade étnica, e nós vemos muito pouco ou quase nada sobre isso na escola e na universidade. É um assunto amplo e que precisa ser discutido, só assim a gente vai chegar perto de alcançar os tão primados princípios do SUS (E19).

Poderia ser evidenciada em mais disciplinas, principalmente as que aperfeiçoam o atendimento ao paciente (E20).

Deveriam ser mais abordadas durante as aulas teóricas, e mesmo que não vivenciadas, devem ser lembradas pelos professores durante as aulas práticas e teóricas (E21).

Poderia ter sido mais diversificada (E24).

Discussão

Os achados da pesquisa demonstram como o tema sobre populações culturalmente diferenciadas foi estudado ao longo do curso de graduação em enfermagem. A categoria ‘A interculturalidade e o ensino de enfermagem’ mostra que as disciplinas que abordaram o assunto o desenvolveram de forma superficial. O foco foi na população indígena, não sendo incluídos outros grupos étnicos como negros, quilombolas, população ribeirinha e em situação de rua, evidenciando lacuna importante para a formação profissional no que se refere à aquisição de competência para atuar em diferentes contextos socioculturais.

James, Stiles e Stephens (2021) ressaltam que a aptidão dos profissionais de enfermagem para oferecer cuidado de qualidade a populações culturalmente diferenciadas exige que eles sejam culturalmente competentes, ou seja, é necessário desenvolver competências como sensibilidade, conhecimento e habilidades. A importância de tratar as competências culturais no processo de formação em enfermagem visa à construção de profissionais capacitados a trabalhar em cenários culturalmente diferenciados, com bagagem para praticar a equidade.

A população indígena, apesar de ter sido abordada durante o curso, foi somente em disciplinas pontuais em um semestre, como em saúde das populações indígenas, por exemplo. Cabe destacar que outros grupos populacionais, tais como os ribeirinhos e os de rua, que também pertencem à sociedade, não tiveram espaço para diálogo.

O estudo evidencia a necessidade de se ampliar a inclusão de outras realidades culturais durante a graduação. Com o objetivo de que os futuros enfermeiros se tornem profissionais integralmente capacitados para atuar em contextos multiculturais, é fundamental que o currículo de enfermagem se expanda para contemplar outras populações culturalmente distintas.

Trabalhar a saúde indígena de forma satisfatória ainda na graduação representa a visão diferenciada e a compreensão da realidade que os profissionais de agora terão ao adentrar no mercado de trabalho, reforçando o que Sartori Junior e Leivas (2017) afirmam: que assegurar o direito à saúde dos povos indígenas é especialmente relevante, pois compreende uma estrutura institucional de características próprias de atendimento e cuidados, enfrentando desafios significativos relacionados a indicadores sociais alarmantes, inseridos em um contexto de diversidade cultural.

Ainda sobre o processo de ensino, “o currículo deve contemplar temas transversais que envolvam conhecimentos, vivências e reflexões sistematizadas e que considerem as relações étnico-raciais e história da cultura afro-brasileira e indígena” (Freitas Júnior et al., 2018, p. 101). A escassez de disciplinas que trabalhem as competências culturais ainda na graduação pode ser agente formador de profissionais com dificuldades de comunicação, promovendo fragilidades entre cuidador e paciente, de modo a afetar negativamente o serviço prestado.

No que tange à segunda categoria do estudo, ‘Competências culturais: habilidade de lidar com e assistir populações culturalmente diferenciadas’, ela demonstra que os participantes têm compreensão quanto à importância do tema, sendo possível observar que eles consideram necessário o desenvolvimento de habilidades para atuarem em contextos culturais diferenciados. Além disso, as respostas dos estudantes indicam que um dos aspectos para adquirir competência cultural envolve sobretudo a habilidade para olhar o processo de cuidar em enfermagem não somente de forma sensível e integrada, mas também considerando crenças, valores e práticas culturais como parte essencial para o alcance de uma assistência eficaz e equânime (E3, E16).

A compreensão da diversidade cultural do ponto de vista dos estudantes não se restringe ao reconhecimento das diferenças; também abarca a capacidade de adaptar a prática de cuidado às necessidades específicas de cada grupo, o que é fundamental para se garantirem a efetividade e a humanização no atendimento.

Outro ponto que chamou a atenção foi que embora os participantes tenham demonstrado elevado interesse para desenvolver competência cultural, as fragilidades quanto à capacidade de levar os conhecimentos adquiridos para a aplicação prática são evidentes. As atividades extracurriculares desenvolvidas, como as visitas a comunidades indígenas e ribeirinhas, contribuíram para o desenvolvimento de competência cultural, por ter permitido a interação e o contato direto com alguns grupos indígenas (E5, E22). Entretanto, essas atividades não incluem todos os estudantes, bem como não garante que o estudante alcance total compreensão das diversas dimensões que envolvem a capacidade para exercer a profissão de enfermagem em outros grupos culturais.

A imersão em contextos específicos, como o trabalho com a etnia Sateré-Mawé, possibilitou que os estudantes aprendessem diretamente com membros dessas comunidades, de modo a se permitir a compreensão sobre as diferentes crenças e práticas culturais (E1). Essas experiências externas foram indicadas como momentos de grande aprendizado e reflexão, além da oportunidade de proporcionarem o desenvolvimento de habilidades que considerem as especificidades culturais. Porém, o fato de essas experiências serem descritas como pontuais e não integradas a um plano curricular mais abrangente destaca a necessidade de maior planejamento por parte das instituições de ensino.

Embora os estudantes reconheçam a relevância da interculturalidade na formação em enfermagem, as respostas indicam uma percepção generalizada de que o tema ainda é tratado de forma insuficiente e superficial nas grades curriculares (E3, E7, E15). Muitos estudantes sugerem que a inclusão de mais disciplinas focadas na diversidade cultural é essencial para potencializar o processo formativo (E3, E14), além da necessidade de que as experiências práticas e teóricas sejam mais alinhadas com as realidades sociais e culturais presentes no contexto amazônico e brasileiro (E19, E21).

As competências culturais designam a capacidade de entender a existência das diferenças culturais, objetivando cuidados específicos, voltados ao atendimento individualizado do ser humano (Leininger, 2002). No Brasil, um país caracterizado por sua rica e histórica diversidade cultural, a importância da enfermagem transcultural se torna ainda mais evidente.

A pluralidade de etnias, crenças, práticas de saúde e modos de vida exige que os profissionais de enfermagem tenham uma formação que vá além dos conhecimentos técnicos tradicionais, incorporando sensibilidade e respeito profundos às diferentes culturas. A enfermagem transcultural, ao considerar as especificidades de cada grupo, é essencial para garantir um atendimento de saúde mais humanizado, eficaz e acessível a todas as populações, respeitando as particularidades sociais, econômicas e culturais presentes em cada contexto. Em um país tão diversificado, essa abordagem é fundamental para promover a equidade na prestação de cuidados de saúde (Leal, 2017).

Ao se pensar na teoria proposta por Madeleine Leininger (2022), observa-se que

A enfermagem é essencialmente uma profissão de cuidados transculturais e interculturais, que assume a centralidade do cuidado na promoção do cuidado para pessoas de uma maneira significativa e congruente, respeitando os valores culturais, os estilos de vida e visão de mundo (Coutinho et al., 2017, p. 1.579).

Nesse contexto, a globalização impulsionou o aumento rápido da movimentação de pessoas entre os países, e esse processo tende a crescer ainda mais com o tempo, alterando constantemente o panorama cultural das regiões. Como consequência, as necessidades individuais, assim como os perfis de saúde e doença da população, também se transformam. Portanto, o profissional de enfermagem precisa estar capacitado para atender a essa sociedade cada vez mais diversa (Aydogdu, 2021).

O profissional de enfermagem está presente em todos os níveis de atenção à saúde, sendo pilar fundamental para o bom funcionamento e andamento do SUS. Por estar presente em vários segmentos, é fundamental que sua formação contemple aspectos culturais a fim de promover assistência adequada, observando o princípio da equidade. Leininger (2002) destaca a necessidade de se compreenderem e aplicarem as competências culturais no cuidado. Para a autora, a enfermagem transcultural visa entender as especificidades culturais de cuidados dos indivíduos para adaptar cuidados congruentes às suas necessidades.

Neste estudo, os participantes destacaram a necessidade de atualização, aprofundamento e inclusão de abordagens com grupos e populações culturalmente diversos em currículos, planos de aula e demais documentos que guiam o processo de formação, com o intuito de capacitar e habilitar o profissional enfermeiro. Observa-se a necessidade de se avançar nesse sentido, visto que o estudo de Castro e colaboradores (2019) realizado na região Centro-Oeste do Brasil destacou a ausência de uma disciplina específica no currículo de enfermagem voltada para o atendimento das populações tradicionais da região, como indígenas e quilombolas. Essa lacuna no currículo reflete a necessidade de se incluir o estudo dessas comunidades, suas culturas e suas particularidades na formação dos futuros profissionais de saúde, a fim de prepará-los adequadamente para oferecerem cuidados mais sensíveis e respeitosos às diversidades culturais presentes no país.

Para Mendes e colaboradores (2024), na formação do enfermeiro, o tema é generalizado ou tratado de forma superficial; no entanto, os autores salientam que essa realidade tem mudado nos últimos anos – como exemplo, as reformulações dos currículos de graduação e das diretrizes curriculares nacionais, que recomendam a inclusão de discussões de forma transversal sobre as minorias.

Os modelos curriculares atuais, frequentemente, não atendem às necessidades dos enfermeiros que lidam com pacientes de diferentes contextos clínicos. A mudança de paradigma demandará ajustes significativos na forma como os docentes de enfermagem abordam, estruturam e transmitem o conteúdo cultural necessário para o desenvolvimento da competência cultural dos estudantes. As estratégias educacionais tradicionais podem não ser suficientes para responder de forma imediata à diversidade cultural dos pacientes nos cuidados de saúde (Turale, Kunaviktikul e Mesukko, 2020).

O objetivo de um currículo que inclua estratégias para o desenvolvimento das competências culturais é assegurar que os estudantes adquiram o conhecimento, as atitudes e as habilidades necessárias para trabalhar de forma eficaz com os pacientes e suas famílias – e também com outros membros da comunidade e das equipes multidisciplinares de saúde –, sempre levando em conta as diferentes culturas (Souza e Oliveira, 2021). Aydogdu (2021) corrobora esse aspecto, ao destacar a importância da enfermagem na prática transcultural, evidenciando os riscos que podem ser ocasionados por desentendimentos provenientes de hábitos, crenças e idiomas distintos.

Conclusão

O desenvolvimento das competências culturais durante a graduação em enfermagem configura-se como um processo complexo, gradual e contínuo, com o envolvimento de diversos atores. A pesquisa apontou resultados significativos para a sociedade acadêmica, evidenciando a relevância da temática e os aspectos relacionados, com destaque para os numerosos benefícios além da graduação, como na formação profissional em diferentes âmbitos da enfermagem. Além disso, por meio dos conceitos apresentados pelos participantes do estudo, foi possível observar os pontos fortes e as fragilidades do desenvolvimento de tais competências no processo formativo.

Os dados coletados permitiram compreender como as competências culturais estão sendo desenvolvidas durante a formação em enfermagem, demonstrando que se concentram em apenas algumas disciplinas, especialmente nos períodos iniciais do curso. Ressalta-se ainda que, apesar de presentes, elas precisam ser reforçadas e inseridas de forma integral e transversal, com abordagens teóricas e práticas, compreendendo uma vasta quantidade de populações culturalmente diferenciadas, com o objetivo de atender às demandas de cuidado do enfermeiro.

A pandemia de covid-19 foi um dos principais limitantes do estudo, ocasionando atrasos em sua realização e mudanças no modo como a pesquisa ocorreria. Destaca-se também que embora tenha se estabelecido contato com várias pessoas da IES B, houve baixa participação dos alunos dessa instituição.

Apesar de as competências culturais não serem um conceito novo, a temática encontra-se distanciada de muitas áreas, principalmente na saúde, em que sua aplicação é fundamental para a prestação do cuidado integral. Faz-se necessário o desenvolvimento de outros estudos que compreendam o tema dentro do cenário de formação. O fortalecimento dessa abordagem não só contribuirá para a construção de profissionais mais conscientes como também poderá transformar a prática da saúde, promovendo um ambiente mais inclusivo e sensível às necessidades de cada indivíduo.

Referências

  • Aspectos éticos:
    A elaboração e a condução da pesquisa seguiram as orientações da resolução n. 466/2012, que orienta sobre a pesquisa envolvendo seres humanos, com aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Amazonas, com o Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) n. 30527020.0.0000.5020.
  • Apresentação prévia:
    Não se aplica.
  • Preprint e versão final:
    Não foi disponibilizado.
  • Declaração de disponibilidade de dados:
    Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
  • Financiamento:
    Não houve.

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Disponibilidade de dados

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    06 Maio 2025
  • Aceito
    21 Jan 2026
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