Open-access Os nossos passados ainda são históricos? Interpelações do presente à disciplina da história (apresentação)

Are our pasts still historical? Contemporary challenges to the discipline of history (presentation)

Resumo:

O dossiê “Os nossos passados ainda são históricos? Interpelações do presente à disciplina da história” conta com a contribuição de pesquisadores nacionais e estrangeiros, cujos trabalhos examinam as múltiplas formas pelas quais as questões do presente interpelam a escrita da história e a prática historiográfica contemporânea.

Palavras-chave:
Historiografia; Teoria; Presente

Abstract:

The dossier “Are our pasts still historical? Contemporary challenges to the discipline of history” features contributions from Brazilian and international researchers, whose work examines the many ways in which contemporary issues challenge the writing of history and contemporary historio­graphical practice.

Keywords:
Historiography; Theory; The present

Os editores da revista Tempo têm a satisfação de apresentar o primeiro dossiê de 2026, “Os nossos passados ainda são históricos? Interpelações do presente à disciplina da história”. Organizado pelos professores Alexandre de Sá Avelar e Maria Inés Mudrovcic, o dossiê conta com a contribuição de cinco pesquisadores, nacionais e estrangeiros, cujos trabalhos examinam as múltiplas formas pelas quais as questões do presente interpelam a escrita da história e a prática historiográfica contemporânea.

Em “‘Push the sky away’: struggles over genocide in contemporary Brazil”, Sabrina Costa Braga e Mariana de Moraes Silveira analisam os usos do conceito de “genocídio” no âmbito da Comissão Parlamentar de Inquérito criada no Brasil para investigar as ações durante a pandemia da covid-19 (a CPI da Covid), inserindo esse debate num panorama mais amplo de violações dos direitos humanos dos povos indígenas. Embora a CPI tenha rejeitado a acusação de genocídio em favor de crimes contra a humanidade, as discussões expuseram contradições históricas na interpretação do termo: juridicamente, visto como um crime restrito que exige a comprovação de intencionalidade; politicamente, mobilizado como uma estrutura abrangente para denunciar violências sistêmicas. Tomando a crise humanitária dos Yanomami como ponto central, as autoras examinam como o debate ultrapassa o campo jurídico, transformando-se numa disputa de memória sobre o passado ditatorial e o presente democrático do país.

Francine Iegelski, em “Humanismo, fim do humano e impasses para a história: Lévi-­ Strauss e a crítica ao pensamento moderno sob o olhar do século XXI”, debate os impasses da história no século XXI diante da perspetiva concreta de um “mundo sem nós” decorrente da ação humana no planeta. A autora analisa como a crise contemporânea exige a problematização da própria noção de humano, dialogando com os contributos teóricos de François Hartog e Ewa Domańska. Para refletir sobre a herança do pensamento moderno, o artigo desenvolve-se em dois movimentos principais: primeiro, estabelece uma comparação entre Nietzsche e Lévi-Strauss com base no nexo que ambos estruturam entre a música e o mito, elementos que suscitam reflexões profundas sobre a ideia de fim; segundo, aponta caminhos possíveis para pensar as relações entre a história, o humanismo e o esgotamento de uma determinada concepção de humano na atualidade.

O ensaio de Arthur Lima de Avila, “O fim de uma disciplina? ‘Presentismo’, colapso profissional e o problema do problema da história nos Estados Unidos contemporâneos (cenas de uma polêmica)”, discute a crise da historiografia disciplinar nos Estados Unidos a partir da controvérsia sobre o “presentismo”, iniciada por James Sweet em 2022. O autor contextualiza o debate apresentando o histórico de ansiedades da profissão e examina as profundas repercussões políticas e existenciais decorrentes da coluna de Sweet na esfera pública. A análise detalha como as críticas ao texto evidenciaram o desgaste do tradicional distanciamento metodológico e das políticas de tempo hegemônicas frente às demandas contemporâneas por justiça social. Por fim, o autor argumenta que a polêmica expõe o “problema do problema da história”, o qual interliga transformações epistemológicas ao colapso material e institucional da carreira acadêmica no país.

O texto “De la era del testigo a la era del usuario: updatism y autoridad relacional en el testimonio digital”, de Gonzalo Urteneche, analisa as transformações na autoridade epistêmica do testemunho na era digital, caracterizada pelo fenômeno do updatism (atualismo) e pelas redes hiperconectadas. O autor argumenta que, em contraste com as perspectivas tradicionais do “parêntese de Gutenberg” emerge na atualidade uma autoridade de caráter relacional e comunitário, em que a validação do conhecimento se configura de forma coletiva nos ambientes digitais. Para ilustrar essas tensões, o estudo compara o testemunho holográfico de Lea Zajac, mediado por salvaguardas institucionais, com sua posterior viralização na plataforma TikTok. O artigo expõe o embate entre a estabilidade e a permanência das instituições tradicionais e a fluidez participativa que define o presente tecnológico.

E, finalmente, Sônia Meneses, em “A máquina da negação: do polemismo na mídia tradicional ao negacionismo sistêmico no universo digital” analisa a emergência de uma nova forma de negacionismo, intrínseca a uma sociedade imersa no ethos midiatizado, em que a realidade e a virtualidade se fundem sob o controle de grandes corporações de tecnologia e sistemas de vigilância de dados. A autora examina a dinâmica em dois momentos principais: o polemismo e a subversão da pluralidade de vozes nos jornais tradicionais, e o negacionismo estruturado como um negócio rentável no universo digital. Com base em colunas do jornal O Globo e em reações do público ao conteúdo da empresa Brasil Paralelo, o estudo reflete sobre os impactos profundos das transformações na apropriação do conhecimento e da informação na contemporaneidade.

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    Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do texto.

Editado por

  • Editores responsáveis:
    Fabrina Magalhães Pinto (https://orcid.org/0000-0001-5088-9125), Karla Carloni (https://orcid.org/0000-0001-7586-3802) e Norberto Osvaldo Ferreras (https://orcid.org/0000-0003-3801-0418).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026
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