Open-access SIMULAÇÃO IN SITU PARA PREVENÇÃO DE LESÃO POR PRESSÃO EM UNIDADES DE TERAPIA INTENSIVA: QUASE-EXPERIMENTO

RESUMO

Objetivo:   Avaliar efeito da simulação in situ como estratégia educativa na performance, satisfação e autoconfiança de enfermeiros na prevenção de lesão por pressão em unidade de terapia intensiva.

Método:  Quase-experimento do tipo antes e depois, com abordagem quantitativa, realizado em uma unidade de terapia intensiva de um hospital público. Participaram 30 enfermeiros, submetidos à simulação in situ com debriefing estruturado. Foram utilizados um instrumento de avaliação da performance e a Escala de Satisfação e Autoconfiança na Aprendizagem (ESEAA). Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva e testes inferenciais.

Resultados:  Houve melhora estatisticamente significativa na performance dos participantes, com aumento do percentual médio de acertos de 75% no pré-teste para 84% no pós-teste (p=0,001). Os escores de satisfação (4,7 ± 0,3) e autoconfiança (4,6 ± 0,4) foram elevados após a intervenção. Apesar do pequeno tamanho do efeito, os resultados indicam impacto positivo da simulação in situ na qualificação dos profissionais.

Conclusão:  A simulação in situ mostrou-se eficaz na capacitação de enfermeiros para a prevenção de lesão por pressão em UTI, promovendo melhora da performance e altos níveis de satisfação e autoconfiança. Trata-se de uma estratégia promissora para o fortalecimento da educação permanente em saúde e para a melhoria da qualidade assistencial.

DESCRITORES:
Enfermagem; Unidades de Terapia Intensiva; Lesão por Pressão; Simulação; Educação em Saúde

ABSTRACT

Objective:  To evaluate the effect of in situ simulation as an educational strategy on nurses’ performance, satisfaction, and self-confidence in the prevention of pressure injuries in an intensive care unit.

Method:  A before-and-after quasi-experimental study with a quantitative approach, conducted in the intensive care unit of a public hospital. Thirty nurses participated and underwent in situ simulation with structured debriefing. A performance assessment instrument and the Satisfaction and Self-Confidence in Learning Scale (SSCLS) were used. Data were analyzed using descriptive statistics and inferential tests.

Results:  There was a statistically significant improvement in participants’ performance, with an increase in the mean percentage of correct responses from 75% in the pre-test to 84% in the post-test (p = 0.001). Satisfaction (4.7 ± 0.3) and self-confidence (4.6 ± 0.4) scores were high after the intervention. Despite the small effect size, the findings indicate a positive impact of in situ simulation on professional qualification.

Conclusion:  In situ simulation proved effective in training nurses for pressure injury prevention in the ICU, promoting improved performance and high levels of satisfaction and self-confidence. It represents a promising strategy for strengthening continuing health education and improving care quality.

DESCRIPTORS:
Nursing; Intensive Care Units; Pressure Injury; Simulation; Health Education

RESUMEN

Objetivo:  Evaluar el efecto de la simulación in situ como estrategia educativa en el desempeño, la satisfacción y la autoconfianza de los enfermeros en la prevención de lesiones por presión en una unidad de terapia intensiva.

Método:  Estudio cuasiexperimental del tipo antes y después, con enfoque cuantitativo, realizado en una unidad de terapia intensiva de un hospital público. Participaron 30 enfermeros, sometidos a simulación in situ con debriefing estructurado. Se utilizaron un instrumento de evaluación del desempeño y la Escala de Satisfacción y Autoconfianza en el Aprendizaje (ESCAA). Los datos fueron analizados mediante estadística descriptiva y pruebas inferenciales.

Resultados:  Hubo una mejora estadísticamente significativa en el desempeño de los participantes, con un aumento del porcentaje medio de aciertos del 75% en el pretest al 84% en el postest (p = 0,001). Los puntajes de satisfacción (4,7 ± 0,3) y autoconfianza (4,6 ± 0,4) fueron elevados después de la intervención. A pesar del pequeño tamaño del efecto, los resultados indican un impacto positivo de la simulación in situ en la cualificación profesional.

Conclusión:  La simulación in situ demostró ser eficaz en la capacitación de enfermeros para la prevención de lesiones por presión en la UCI, promoviendo una mejora del desempeño y altos niveles de satisfacción y autoconfianza. Se trata de una estrategia prometedora para fortalecer la educación permanente en salud y mejorar la calidad asistencial.

DESCRIPTORES:
Enfermería; Unidades de Cuidados Intensivos; Lesión por Presión; Simulación; Educación en Salud

INTRODUÇÃO

As lesões por pressão (LP) representam um dos eventos adversos mais prevalentes e persistentes no ambiente hospitalar, especialmente em unidades de terapia intensiva (UTI), onde pacientes apresentam maior grau de vulnerabilidade clínica devido à instabilidade hemodinâmica, imobilidade prolongada, uso de dispositivos invasivos e comprometimento do estado nutricional. Estima-se que a prevalência de LP em UTIs varie entre 10% e 41%, sendo que a incidência pode atingir até 23,1% em determinados contextos assistenciais críticos, o que evidencia a magnitude do problema e a necessidade de ações sistemáticas de prevenção1,2. Outros estudos nacionais apontam que a incidência de LP pode variar entre 6 e 62% dependendo do serviço e dos setores avaliados, sendo a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) o setor com maior número dessas lesões3.

A prevenção de lesões por pressão constitui uma prioridade para a segurança do paciente e demanda uma abordagem multidisciplinar, com destaque para a atuação da equipe de enfermagem. Nesse cenário, medidas educativas direcionadas aos profissionais que atuam em UTIs têm se mostrado fundamentais para o fortalecimento de práticas baseadas em evidências e para a promoção de cuidados qualificados.

O National Pressure Ulcer Advisory Panel (NPUAP) publicou novas diretrizes internacionais sobre a prevenção e tratamento de lesões por pressão, lançando recomendações para o desenvolvimento de políticas públicas, educação e pesquisas de tratamento e prevenção de lesões por pressão4. Sabe-se que o desempenho do enfermeiro no cuidado especializado de lesões é uma atribuição peculiar ao processo de formação e atuação na sua prática profissional, sendo necessário desenvolver uma assistência sistematizada e voltada para o desenvolvimento de habilidades e conhecimento científico aos portadores de feridas5. Para tal, faz-se necessário realizar atividades de capacitação e treinamento.

Dentre as estratégias educacionais inovadoras, destaca-se o treinamento com base em simulação in situ, que consiste na realização de cenários clínicos simulados no ambiente real de trabalho. Essa abordagem permite a integração de conhecimentos teóricos à prática, favorecendo o raciocínio clínico, a tomada de decisão, o trabalho em equipe e o reconhecimento precoce de riscos. Essa metodologia tem se consolidado como uma ferramenta eficaz no contexto da educação em saúde, especialmente por proporcionar uma experiência imersiva e realista, capaz de promover mudanças comportamentais e melhorias na qualidade do cuidado6.

Além do impacto na prática assistencial, a implementação de métodos ativos de ensino, como a simulação, está associada à elevação da satisfação dos participantes com o processo de ensino-aprendizagem, bem como ao desenvolvimento da autoconfiança para tomada de decisão e execução de condutas em situações críticas. A avaliação dessas dimensões torna-se essencial para validar a eficácia das estratégias educacionais adotadas e orientar melhorias contínuas no processo formativo dos profissionais de enfermagem7.

A satisfação é definida por uma sensação de prazer ou decepção que é resultado do comparativo do desfecho com as expectativas do indivíduo8,9. A autoconfiança, por sua vez, representa um elemento que auxilia na cognição e no desenvolvimento de competências e pode ser relacionado com a autoeficácia, na qual o sujeito realiza um julgamento sobre suas capacidades de execução e organização, considerando seu lado comportamental e sua produtividade8,9.

A performance, neste estudo, é compreendida como o desempenho mensurável dos enfermeiros na aplicação de conhecimentos e habilidades relativos à prevenção de lesões por pressão, avaliado por meio do percentual de acertos no questionário teórico aplicado antes e após a intervenção.

Nessa perspectiva de avaliação, destaca-se a necessidade de um olhar mais apurado para a identificação da satisfação com o ensino-aprendizagem, e o desenvolvimento de autoconfiança no profissional que experimenta estratégias educacionais, como a simulação in situ, durante a educação permanente em saúde. A análise integrada desses três construtos - performance, satisfação e autoconfiança - permite compreender não apenas o domínio técnico, mas também dimensões afetivo-cognitivas essenciais para a prática segura e de qualidade.

Apesar de todo avanço técnico-científico e da criação de novos protocolos e diretrizes para prevenção de LPP, ainda existe fragilidade na aplicação desses conhecimentos na prática clínica, na utilização de escalas preditivas de risco e na implementação de medidas preventivas10,11.

Dessa forma, o objetivo deste estudo foi avaliar o efeito da simulação in situ como estratégia educativa na performance, satisfação e autoconfiança de enfermeiros na prevenção de lesão por pressão em unidade de terapia intensiva.

MÉTODO

Trata-se de um estudo quase-experimental do tipo pré-teste/pós-teste com grupo único, realizado com enfermeiros de uma unidade de terapia intensiva cuja intervenção foi o treinamento por simulação in situ de enfermeiros de Terapia Intensiva na prevenção de lesão por pressão.

A pesquisa foi realizada em uma UTI de um hospital universitário público localizado no município do Rio de Janeiro, Brasil, no período de novembro de 2020 a fevereiro de 2021. Participaram do estudo 30 enfermeiros selecionados por conveniência. Como critério de inclusão, foi exigida a leitura prévia do protocolo operacional padrão da instituição sobre medidas preventivas de LPP.

A intervenção baseou-se nos pressupostos da National League for Nursing/Jeffries Simulation Theory12 e seguiu as orientações do protocolo SQUIRE 2.013 para delineamento de estudos com foco em melhoria da qualidade. Foram respeitados os Healthcare Simulation Standards of Best PracticeTM em todas as etapas: pré-briefing, design do cenário simulado e processo de debriefing.

O cenário foi desenvolvido por docente-pesquisador com expertise em simulação clínica, com base nas diretrizes do National Pressure Ulcer Advisory Panel e recomendações do Ministério da Saúde e da Anvisa sobre prevenção de LPP. Os objetivos de aprendizagem foram: identificar precocemente lesões por pressão, avaliar a integridade da pele, reconhecer fatores de risco e implementar medidas preventivas.

A simulação foi conduzida em um leito de UTI desativado, garantindo fidelidade ambiental e psicológica. O cenário incluiu prontuário clínico semiestruturado com histórico de saúde, exames laboratoriais e motivo da internação. Utilizou-se um paciente padronizado (ator treinado), com script prévio, preparado pela equipe de pesquisa. O facilitador, pesquisador principal, oferecia informações adicionais mediante solicitação do participante. O cenário foi previamente testado em piloto.

A intervenção durou 45 minutos: 5 minutos de briefing, 10 minutos de execução do cenário e 30 minutos de debriefing estruturado. Os enfermeiros foram organizados em grupos de até cinco participantes, sendo que apenas um deles executava as ações no cenário, por voluntariado, enquanto os demais observavam e participavam ativamente do debriefing.

Realizou-se um debriefing estruturado no qual os profissionais foram convidados a: identificar os sentimentos vivenciados durante a atividade de simulação; avaliar sua compreensão acerca da situação clínica vivenciada; instigar a autoavaliação e a expressão das ações positivas que realizou no cenário; instigar a autoavaliação e a expressão do que faria de diferente se tivesse outra oportunidade; expressar o que levou de aprendizado da experiência simulada para a prática clínica futura14.

Três instrumentos foram utilizados: 1) Questionário sociodemográfico: elaborado pelos autores, contendo variáveis como idade, sexo, tempo de atuação e formação. 2) Questionário de conhecimento teórico: composto por 20 itens de múltipla escolha com respostas “certo” ou “errado”, aplicado no pré e pós-teste. O gabarito correto foi: “certo” para os itens 1 a 10, 13, 15 e 17; e “errado” para os itens 11, 12, 14, 16 e 18 a 20. 3) Escala de Satisfação dos Estudantes e Autoconfiança na Aprendizagem (ESEAA): validada para o português9, composta por 13 itens em escala Likert de cinco pontos (1=discordo totalmente a 5=concordo totalmente), subdividida em duas subescalas: satisfação (5 itens) e autoconfiança (8 itens).

Os dados foram organizados em planilha no Microsoft Excel, com dupla digitação por dois assistentes de pesquisa para garantir consistência. A caracterização da amostra foi apresentada em frequências relativas.

Para avaliar a performance dos participantes, compararam-se os escores de acertos nos testes teóricos antes e após a intervenção. O teste de McNemar foi utilizado para comparar as respostas de cada item entre os momentos. O teste de Wilcoxon comparou as medianas dos escores totais. A distribuição dos dados foi verificada pelo teste de Shapiro-Wilk. O tamanho do efeito foi mensurado pelo delta de Glass.

A análise dos escores da ESEAA foi realizada por meio de medidas de tendência central e variabilidade. A consistência interna da escala foi verificada por meio do alfa de Cronbach. As análises foram realizadas com o software IBM SPSS Statistics versão 29. O nível de significância adotado foi de 5% (p < 0,05).

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição conforme a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

RESULTADOS

A amostra foi composta majoritariamente por mulheres (76,7%), com predominância da faixa etária entre 31 e 40 anos (53,3%). A idade variou entre 24 e 57 anos, com média de 36,8 anos (DP=8,2). A maioria dos participantes possuía mais de cinco anos de formação (66,7%), com tempo de exercício profissional variando de dois a 22 anos, com média de 9,7 anos (DP=6,1). Do total, 70% relataram possuir especialização lato sensu, sendo apenas um profissional com formação específica em estomaterapia.

A média de acertos no questionário de conhecimento teórico foi de 75% no pré-teste e 84% no pós-teste, com diferença estatisticamente significativa (p=0,001). O tamanho do efeito, calculado pelo delta de Glass, foi classificado como pequeno (0,33; IC: -0,18 a 0,84) (Tabela 1).

Tabela 1 -
Comparação das porcentagens de acertos na avaliação de performance dos enfermeiros antes e após o treinamento simulado. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2021. (n=30)

Observou-se diferença estatisticamente significativa entre os momentos pré e pós-intervenção em três itens do questionário (Tabela 2): Item 1: “A digito pressão é realizada na área vermelha por 15 segundos” (p=0,012); Item 4: “A escala de Cubbin Jackson está indicada para pacientes internados em UTI” (p=0,016); Item 10: “Deve-se usar AGE para remoção do óxido de zinco” (p=0,001).

Tabela 2 -
Performance dos enfermeiros nos itens do questionário de prevenção de LPP antes e depois do treinamento simulado. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2021. (n=30)

A Escala de Satisfação dos Estudantes e Autoconfiança na Aprendizagem (ESEAA) demonstrou boa confiabilidade, com alfa de Cronbach de 0,811 e Ômega de McDonald de 0,808.

As análises das subescalas revelaram predomínio de respostas nas categorias “concordo” e “concordo totalmente” (valores 4 e 5 da escala Likert), com médias, medianas e modas superiores a 4 na maioria dos itens. Apenas o item 13 apresentou média inferior a 4. A média geral de satisfação foi superior à de autoconfiança (4,71 vs. 4,35) (Tabela 3).

Tabela 3 -
Medidas de tendência central da ESEAA. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2021. (n=30)

DISCUSSÃO

Os resultados deste estudo indicam uma melhora estatisticamente significativa na performance dos enfermeiros após a simulação in situ voltada à prevenção de lesões por pressão (LPP) em unidades de terapia intensiva (UTI). Observou-se aumento no percentual médio de acertos de 75% para 84% (p=0,001), ainda que com tamanho de efeito pequeno. Embora o incremento percentual seja modesto, a interpretação prática desses resultados deve ser considerada no contexto de ambientes clínicos de alto risco, onde qualquer melhoria no desempenho pode refletir em uma maior segurança para o paciente. Portanto, é importante discutir se o efeito, mesmo pequeno, pode ser ampliado com intervenções complementares ou repetições do treinamento.

Adicionalmente, os participantes relataram elevados níveis de satisfação e autoconfiança após a atividade simulada. A literatura aponta que tais construtos influenciam diretamente o engajamento, a motivação e a percepção de competência profissional. A autoconfiança, entendida como crença na própria capacidade de realizar tarefas, está associada ao desenvolvimento da autoeficácia e ao fortalecimento da tomada de decisão em ambientes de alta complexidade. Quando somadas à melhora da performance, essas variáveis indicam um efeito positivo mais abrangente da simulação, que vai além da aquisição de habilidades técnicas, alcançando dimensões afetivo-cognitivas relevantes para a prática segura e qualificada8.

Os resultados positivos podem ser atribuídos à natureza dinâmica da estratégia empregada. A simulação in situ tem se consolidado como uma aliada no campo da saúde, especialmente diante da crescente demanda por treinamentos de alta fidelidade em ambientes seguros15, sem afastar os profissionais do seu local habitual de trabalho, o que representa uma vantagem adicional. Essa abordagem permite a realização de atividades formativas no próprio ambiente clínico, reduzindo os entraves associados à necessidade de estrutura física e logística típicos dos centros de simulação16-19.

A literatura aponta que a simulação in situ tem sido utilizada com múltiplos propósitos, incluindo educação em saúde, avaliação, melhoria da qualidade e promoção da segurança do paciente. Sua adoção tem crescido nos últimos anos, com evidências de impacto positivo sobre indicadores clínicos, desenvolvimento de competências profissionais e desempenho organizacional19.

Ao analisar conjuntamente os desfechos avaliados - performance, satisfação e autoconfiança -, é possível inferir que a simulação in situ atua de forma integrada, tanto no desenvolvimento de habilidades técnicas quanto na consolidação de aspectos afetivo-cognitivos relevantes para o exercício profissional seguro. Nesse sentido, o modelo de aprendizagem experiencial de Kolb também oferece suporte teórico à estratégia utilizada, ao reconhecer que o conhecimento é construído a partir da vivência, reflexão e aplicação prática em contextos significativos.

A natureza imersiva e realista da simulação in situ representa um diferencial importante, por ocorrer no próprio ambiente de trabalho, com os recursos e dinâmicas reais da unidade. Essa característica favorece a identificação de lacunas, a familiarização com protocolos institucionais e a minimização de barreiras logísticas, aspectos frequentemente limitantes em centros de simulação tradicionais. A literatura corrobora tais benefícios, apontando que essa abordagem contribui para o aprimoramento de competências técnicas, fortalecimento da cultura de segurança e melhoria de indicadores clínicos18.

Destaca-se, ainda, o papel do debriefing estruturado como componente fundamental da simulação, ao promover reflexão crítica guiada por facilitador, potencializando a aprendizagem a partir da análise das ações realizadas18. Tal estratégia favorece o protagonismo do profissional no processo de aprendizagem, promovendo internalização do conhecimento e autopercepção crítica sobre a própria atuação.

Quanto aos itens avaliados na performance, observou-se que apenas um deles - “é necessário realizar a troca da fralda sempre que houver umidade” - apresentou redução no número de acertos no pós-teste. No entanto, o erro foi cometido por apenas um participante, não representando diferença estatisticamente significativa. Dois itens mantiveram índices reduzidos de acertos, ambos relacionados a conhecimentos mais especializados. Esses achados sugerem que a simulação in situ, por si só, pode não ser suficiente para abranger aspectos conceituais de maior complexidade, sendo necessário incorporar abordagens complementares, como microlearning (conteúdos breves e focados) e recursos de inteligência artificial educacional, capazes de reforçar a fixação de conceitos críticos e de personalizar o aprendizado20,21.

A mensuração de satisfação e autoconfiança tem sido amplamente explorada na literatura, por se tratar de construtos relevantes na avaliação de estratégias de ensino-aprendizagem em saúde. Neste estudo, a aplicação da ESEAA revelou elevados níveis em ambas as dimensões após a atividade simulada, corroborando achados de estudos anteriores que utilizaram a mesma escala22,23.

Atualmente os construtos de satisfação e autoconfiança tem despertado grande interesse na área da pesquisa e têm sido objeto de investigação em diferentes contextos. Mensurá-los pode ser um forte indicativo para avaliação de eficácia e utilização de novas estratégias de ensino9.

A avaliação desses construtos deve considerar múltiplas perspectivas, uma vez que envolvem componentes afetivos e cognitivos. A satisfação está relacionada à expectativa do profissional diante da experiência de aprendizagem e associa-se diretamente ao engajamento com o desenvolvimento profissional. Já a autoconfiança pode ser compreendida como a crença do indivíduo na própria capacidade de realizar determinada tarefa, estando vinculada à autoeficácia e ao desenvolvimento de competências práticas9. Ambos contribuem para o fortalecimento da prática profissional e estão associados à adesão a protocolos de prevenção e melhoria da qualidade assistencial.

No contexto da simulação, é plausível considerar que os altos índices de satisfação e autoconfiança estejam relacionados à oportunidade de vivenciar situações clínicas em ambiente controlado, com espaço para reflexão crítica sobre práticas e condutas. A simulação clínica é reconhecida como estratégia pedagógica eficaz, ao favorecer a tomada de consciência sobre as próprias capacidades e promover o aprimoramento de habilidades, contribuindo para maior segurança do paciente e qualidade do cuidado prestado24.

Estudos anteriores reforçam a eficácia da simulação in situ na capacitação de enfermeiros para a prevenção de lesões por pressão. Em um deles, identificou-se que essa estratégia proporcionou ambiente seguro para a prática de avaliação de risco, identificação precoce de lesões e aplicação de medidas preventivas, resultando em melhora significativa da competência clínica dos profissionais11. Em outro estudo qualitativo, os participantes relataram aumento de autoconfiança após atividades de simulação, corroborando os achados do presente trabalho16. De modo semelhante, investigação conduzida em contexto de trauma, com uso regular de simulação in situ, também revelou aumento significativo nos níveis de autoconfiança dos profissionais envolvidos17.

Um estudo evidenciou que treinamentos simulados realistas aumentaram significativamente a autoconfiança dos enfermeiros para prevenção de LPP em UTIs, além de promover maior satisfação em comparação aos métodos tradicionais. Outro trabalho apontou que níveis elevados de autoconfiança se associam à maior adesão aos protocolos de prevenção e à melhoria da qualidade assistencial, reforçando o valor desses indicadores no contexto clínico. Apesar de promissora, a simulação in situ ainda é utilizada de forma incipiente no Brasil. Sua adoção enfrenta desafios como limitação de tempo, recursos humanos e materiais, além da necessidade de adaptação dos cenários à realidade de cada unidade.

No que se refere à satisfação e autoconfiança, reconhece-se o papel central dos enfermeiros na prática clínica em UTIs, onde a prevenção de lesões por pressão é prioridade. A utilização de instrumentos específicos para avaliar esses construtos, como a ESEAA, fornece subsídios relevantes sobre a eficácia das estratégias formativas adotada.

Limitações do estudo

A principal limitação desta pesquisa refere-se ao delineamento quase-experimental de grupo único, do tipo pré e pós-teste, sem grupo controle, o que restringe a força das inferências causais e demanda cautela na interpretação dos resultados. Além disso, o tamanho reduzido da amostra (n=30) limita a generalização dos achados para outros contextos. Ainda assim, o estudo contribui para preencher uma lacuna existente na literatura ao investigar, de forma conjunta, a performance, satisfação e autoconfiança de enfermeiros submetidos à simulação in situ voltada à prevenção de LPP. Os achados reforçam a importância dessa abordagem e podem fomentar sua ampliação no cenário nacional, sugerindo que futuras pesquisas adotem delineamentos mais robustos e amostras maiores, bem como a inclusão de grupos comparativos.

CONCLUSÃO

A simulação in situ demonstrou-se uma estratégia educativa eficaz na capacitação de enfermeiros para a prevenção de lesão por pressão em unidades de terapia intensiva, promovendo melhora significativa na performance dos profissionais, além de elevados níveis de satisfação e autoconfiança. Tais resultados evidenciam o potencial dessa abordagem para o fortalecimento da educação permanente em contextos críticos da prática assistencial.

Embora o tamanho da amostra limite a generalização dos achados, este estudo contribui para o avanço do conhecimento ao explorar de forma integrada os efeitos da simulação sobre diferentes dimensões do desempenho profissional. Recomenda-se a ampliação de estudos com delineamentos mais robustos e amostras maiores, bem como a incorporação de estratégias complementares de aprendizagem que aprofundem aspectos conceituais mais complexos. A implementação sistemática da simulação in situ pode representar um diferencial na promoção da segurança do paciente e na qualificação do cuidado em ambientes de alta complexidade.

AGRADECIMENTO

À Divisão de Enfermagem do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (HUCFF-UFRJ) pela parceria que resultou na produção de materiais que subsidiaram a construção deste estudo.

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NOTAS

  • ORIGEM DO ARTIGO
    Extraído do Projeto de Pesquisa intitulado “PREVENÇÃO DE LESÃO POR PRESSÃO EM PACIENTES CRÍTICOS: simulação in situ como estratégia educacional” , apresentado ao programa de Residência Multiprofissional em Saúde, Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como requisito à conclusão da Residência Multiprofissional em Saúde em 2020.
  • APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
    Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Parecer N. 4.498.649, Certificado De Apresentação Para Apreciação Ética 39971120.0.0000.5257.
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS
    O acesso aos dados será permitido mediante a solicitação ao autor correspondente pois os mesmos tem a identificação dos participantes e, precisamos garantir a confidenciabilidade desses.

Editado por

  • EDITORES
    Editores Associados: Camila Dalcol.
    Editor-chefe: Gisele Manfrini.

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    07 Maio 2025
  • Aceito
    30 Set 2025
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