RESUMO
Objetivo: compreender as percepções dos familiares de pacientes adultos sobre o atendimento emergencial pré-hospitalar, com foco no enfrentamento da situação de urgência, nas vivências emocionais e no acolhimento recebido durante o cuidado.
Método: pesquisa descritiva, de abordagem qualitativa, pautada nos princípios da Teoria dos Sistemas Familiares e do Cuidado Centrado na Família, desenvolvida com pessoas que acompanharam o atendimento emergencial de seu ente querido realizado por uma equipe de suporte avançado do SAMU-192. A coleta de dados ocorreu em um município da região Sul do Brasil, entre setembro e novembro de 2024, por meio de entrevistas, conduzidas com o apoio de um roteiro semiestruturado. Os dados foram organizados e analisados à luz da Análise Temática.
Resultados: participaram doze familiares. Das narrativas emergiram dois temas: “Entre o desespero e o alívio: percepções familiares sobre o sofrimento e o socorro no contexto pré-hospitalar” e “Percepção dos familiares acerca do acolhimento e acompanhamento do atendimento pré-hospitalar para uma abordagem centrada na família”.
Conclusão: os familiares relataram experiências marcadas pela urgência e sofrimento, mas também perceberam o SAMU-192 como recurso essencial em situações de crise. Ao acompanhar a assistência, vivenciaram sentimentos como tranquilidade, conforto e segurança, embora nem todos os atendimentos tenham sido igualmente satisfatórios. Os achados evidenciam a necessidade de capacitações profissionais e de novos protocolos que favoreçam a promoção do cuidado pré-hospitalar de urgência sob a perspectiva do Cuidado Centrado na Família.
DESCRITORES:
Serviços médicos de emergência; Tratamento de emergência; Família; Enfermagem familiar; Relações familiares
ABSTRACT
Objective: to understand the perceptions of family members of adult patients regarding pre-hospital emergency care, focusing on coping with the emergency situation, emotional experiences, and the support received during care.
Method: this is a descriptive study with a qualitative approach based on the principles of Family Systems Theory and Family-Centered Care, developed with people who accompanied the emergency care of their loved one provided by an advanced support team from the Brazilian Mobile Emergency Care Service (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência - SAMU-192). Data collection took place in a municipality in the Southern region of Brazil between September and November 2024, through interviews conducted with the support of a semi-structured script. The data were organized and analyzed using Thematic Analysis.
Results: a total of 12 family members participated. Two themes emerged from the narratives: “Between despair and relief: family perceptions of suffering and care in the pre-hospital context” and “Family members’ perception of the reception and accompaniment of pre-hospital care for a family-centered approach.”
Conclusion: family members reported experiences marked by urgency and suffering, but also perceived SAMU-192 as an essential resource in crisis situations. They experienced feelings such as tranquility, comfort, and security while accompanying the care, although not all care was equally satisfactory. The findings highlight the need for professional training and new protocols which promote pre-hospital emergency care from the perspective of Family-Centered Care.
DESCRIPTORS:
Emergency medical services; Emergency treatment; Family; Family nursing; Family relations
RESUMEN
Objetivo: comprender las percepciones de los familiares de pacientes adultos sobre la atención de emergencia prehospitalaria, centrándose en el afrontamiento de la situación de emergencia, las experiencias emocionales y el apoyo recibido durante la atención.
Método: investigación descriptiva, con enfoque cualitativo, basada en los principios de la Teoría de Sistemas Familiares y la Atención Centrada en la Familia, desarrollada con personas que acompañaron la atención de emergencia de su ser querido, proporcionada por un equipo de apoyo avanzado del SAMU-192 (Servicio Móvil de Atención de Emergencia Brasileño). La recolección de datos se realizó en un municipio de la región sur de Brasil, entre septiembre y noviembre de 2024, mediante entrevistas realizadas con el apoyo de un guion semiestructurado. Los datos se organizaron y analizaron mediante Análisis Temático.
Resultados: participaron doce familiares. Dos temas emergieron de las narrativas: “Entre la desesperación y el alivio: percepciones familiares del sufrimiento y la asistencia en el contexto prehospitalario” y “Percepción de los familiares sobre la recepción y el acompañamiento de la atención prehospitalaria para un enfoque centrado en la familia”.
Conclusion: los familiares relataron experiencias marcadas por la urgencia y el sufrimiento, pero también percibieron el SAMU-192 como un recurso esencial en situaciones de crisis. Mientras acompañaban la asistencia, experimentaron sentimientos de tranquilidad, comodidad y seguridad, aunque no todos los cuidados fueron igualmente satisfactorios. Los hallazgos resaltan la necesidad de capacitación profesional y nuevos protocolos que promuevan la atención de emergencia prehospitalaria desde la perspectiva de la Atención Centrada en la Familia.
DESCRIPTORES:
Servicios médicos de emergencia; Tratamiento de emergencia; Familia; Enfermería familiar; Relaciones familiares
INTRODUÇÃO
A presença da família durante o cuidado crítico e emergencial tem despertado crescente interesse de pesquisadores e profissionais de saúde em diversas regiões do mundo1-5. A literatura aponta que a participação dos familiares nesse contexto pode trazer inúmeros benefícios aos pacientes como, por exemplo, sentimentos de segurança, conforto, tranquilidade, apoio emocional e afeto, favorecendo o enfrentamento da situação1-2. Para os familiares, estar presente diminui o estresse e a ansiedade e proporciona alívio emocional por saber que todo o possível foi feito e por despertar a sensação de “estar com” seu ente querido, inclusive no processo de morte2-3,6. Além disso, muitos se sentem úteis ao fornecer informações relevantes aos profissionais de saúde, que podem ser cruciais para o atendimento adequado2,5. Os profissionais, por sua vez, relatam que a presença da família os ajuda a lembrar que o paciente não é apenas uma doença, mas uma pessoa que “pertence a alguém”, o que contribui para uma assistência mais humanizada e para o aumento da satisfação com o cuidado prestado2,4.
Diversas organizações internacionais7-11 recomendam e incentivam a inclusão da família nos cuidados prestados a pacientes em situações críticas e emergenciais. Apesar disso, a presença de familiares durante a assistência ainda é incipiente, irregular e pouco sistematizada, especialmente, para pacientes adultos2 e/ou no contexto pré-hospitalar12-13. Entre os motivos para essa resistência, destaca-se o receio de que os familiares funcionem como avaliadores da qualidade do cuidado, o que poderia aumentar o risco de responsabilizações judiciais14. Outros argumentos incluem o medo de que sua presença interfira na realização de procedimentos, cause traumas emocionais nos familiares, comprometa a confidencialidade, dificulte o ensino de estudantes e residentes, intensifique o estresse da equipe e amplifique o sentimento de impotência frente à morte do paciente14-15.
Contudo, estudos têm demonstrado que essas preocupações não se confirmam na prática2,4-15. É necessário, portanto, que os profissionais do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU-192) superem os discursos paternalistas e protetivos, que dificultam a presença familiar e reconheçam que situações emergenciais comumente geram reações e sentimentos nas famílias, como nervosismo, desespero, tristeza, preocupação e medo. Tais vivências reverberam no sistema familiar, interferindo em sua dinâmica, funcionalidade, equilíbrio e homeostase2,5,15.
A partir dos pressupostos da Teoria dos Sistemas Familiares, compreende-se que a família constitui um sistema complexo - cujos membros interagem entre si de forma dinâmica e sinérgica -, permitindo entender que o adoecimento de um dos integrantes afeta toda a unidade16. Diante disso, torna-se imprescindível considerar a contextura familiar nos cuidados ao paciente, particularmente, em situações de fragilidade e incerteza. Nesse pano de fundo, o Cuidado Centrado na Família (CCF) emerge como abordagem que promove a inclusão efetiva da família no processo assistencial, beneficiando pacientes, familiares e profissionais17,18.
De acordo com o Institute for Patient- and Family-Centered Care, o CCF propõe uma abordagem inovadora para o planejamento, a execução e a avaliação da assistência à saúde, pautada no reconhecimento da família como parceira no cuidado, no respeito à diversidade, na valorização das individualidades, no compartilhamento de informações e no estímulo ao suporte familiar e da rede de apoio17,18. Assim, espera-se que o cuidado em saúde, independentemente do contexto e do nível de atenção, contemple e envolva as famílias dos pacientes.
A literatura tem explorado a perspectiva dos profissionais de saúde do SAMU-192 no que tange à presença da família no acompanhamento direto da assistência12,13. Por outro lado, as vivências, percepções e necessidades dos sistemas familiares permanecem pouco investigadas e compreendidas nesse enquadramento específico. Face ao exposto, explorar o presente tópico é fundamental para qualificar o cuidado em saúde, embasar políticas públicas mais sensíveis às necessidades das famílias e orientar a (re)formulação de protocolos institucionais que favoreçam o CCF. O estudo se justifica, portanto, pela lacuna científica identificada, assim como por seu potencial de gerar transformações concretas na prática assistencial, contribuindo para a qualificação do atendimento e o fortalecimento de vínculos entre serviços de urgência e as comunidades que atendem.
Desse modo, o objetivo do estudo em tela foi compreender as percepções dos familiares de pacientes adultos sobre o atendimento emergencial pré-hospitalar, com foco no enfrentamento da situação de urgência, nas vivências emocionais e no acolhimento recebido durante o cuidado.
MÉTODO
Trata-se de um estudo descritivo, de abordagem qualitativa, realizado com familiares de pacientes que acompanharam o atendimento emergencial no âmbito do serviço pré-hospitalar, prestado pelo SAMU-192. Para embasamento teórico, foram utilizados os referenciais do Cuidado Centrado na Família17 e da Teoria dos Sistemas Familiares16. A descrição deste estudo foi realizada de modo a considerar as recomendações do Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Reseach (COREQ)19.
O estudo foi desenvolvido em uma cidade que integra o Consórcio de Saúde dos Municípios do Oeste do Paraná (CONSAMU), localizado na Região Sul do Brasil. O SAMU-192, sede da investigação, conta com uma frota composta por quatro unidades de suporte avançado de vida: entre elas, uma aeronave e oito unidades de suporte básico de vida, sendo três motocicletas. Os atendimentos, realizados em locais públicos ou intradomiciliar, contabilizam em média 3500 ocorrências/mês, sendo as principais causas os agravos clínicos e traumáticos. O cenário do estudo, em todos os casos, foi o domicílio - local onde ocorreu o atendimento emergencial.
Os critérios de inclusão previamente definidos foram: ser familiar e ter acompanhado o atendimento realizado pelo SAMU192 ao paciente adulto em condição clínica ou traumática e ter 18 anos ou mais. Já os critérios de exclusão seriam: apresentar barreira de comunicação (surdo, dislálico, imigrante ou refugiado que não dominasse a língua portuguesa) e/ou estar emocionalmente fragilizado, devido aos riscos de intensificação do sofrimento. Vale ponderar que nenhum familiar abordado foi excluído com base nesses critérios e tampouco recusou-se a participar do estudo.
A coleta de dados foi realizada entre setembro e novembro de 2024, e dividiu-se em três etapas, conforme pormenorizado no Quadro 1.
Para a análise dos dados, as entrevistas gravadas foram transcritas na íntegra, e os arquivos de áudio devidamente destruídos posteriormente. Todavia, por uma limitação de tempo, as transcrições não foram apresentadas aos participantes. Dessa maneira, ao final de cada entrevista, eles eram questionados sobre o eventual desejo de acrescentar outras informações ao conteúdo ou de se opor à análise de alguma parte da entrevista. Não houve qualquer objeção à análise completa do conteúdo, de modo que o processo metodológico da Análise Temática20 foi seguido, tal qual demonstra o Quadro 2.
Os pesquisadores delimitaram a etapa da coleta e análise com base na saturação teórica dos dados. Nesse momento, identificou-se que entrevistas adicionais não estavam agregando novas informações relevantes para a compreensão do fenômeno em investigação21.
Para assegurar o rigor metodológico, as entrevistas foram conduzidas pelo mesmo pesquisador, garantindo a padronização na abordagem dos participantes. Todas as falas foram registradas em áudio e transcritas integralmente, preservando a fidedignidade das narrativas. Com vistas à credibilidade e à confirmabilidade, manteve-se uma trilha de auditoria composta por registros sistematizados de todas as etapas do processo investigativo - desde o planejamento da coleta até as decisões analíticas -, de modo a possibilitar rastreabilidade e verificação independentemente dos procedimentos adotados. A confiabilidade foi reforçada pela descrição minuciosa do percurso metodológico, o que possibilitou a replicação do estudo em situações semelhantes. Já a transferibilidade foi garantida pela caracterização detalhada do cenário e dos participantes, permitindo que leitores e pesquisadores avaliem a aplicabilidade dos achados em outras realidades.
Ademais, considerando que o pesquisador principal atuava como enfermeiro no cenário do estudo, adotaram-se estratégias de reflexividade para mitigar possíveis vieses decorrentes dessa inserção prévia. Desta sorte, antes e durante a coleta de dados, foram identificadas e registradas as percepções e expectativas previamente construídas em relação ao fenômeno estudado, as quais foram mantidas em suspensão, de modo a evitar que estas interferissem na abordagem dos participantes e na condução das entrevistas. Esse movimento reflexivo foi continuamente retomado durante a análise e interpretação dos dados, assegurando que as compreensões emergissem prioritariamente das narrativas dos participantes, e não de pressupostos do pesquisador.
O estudo seguiu os preceitos éticos contidos nas Resoluções nº 466/2012 e nº 510/2016, do Conselho Nacional de Saúde, tendo sido aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Com o intuito de garantir o sigilo da identidade dos participantes, adotou-se a seguinte codificação: grau de parentesco familiar com o paciente, seguido de um número arábico (Ex: “Mãe 1”; “Pai 2”; “Neta 3”; “Filho 4”).
RESULTADOS
Participaram 12 familiares de pacientes adultos que vivenciaram o atendimento pré-hospitalar em uma cidade no Sul do Brasil. Os dados referentes à caracterização dos familiares podem ser identificados na Figura 1.
Caracterização dos familiares do estudo que acompanharam o atendimento. Cascavel, Paraná, Brasil - 2024 (N=12).
Os pacientes atendidos pelo SAMU-192 tinham entre 18 e 70 anos, sendo sete do sexo feminino. Os principais problemas de saúde apresentados foram: acidente vascular encefálico, surto psiquiátrico, parada cardiorrespiratória, crise convulsiva, dificuldade respiratória e rebaixamento do nível de consciência. Observou-se que todos os pacientes foram encaminhados para referência hospitalar após a estabilização do quadro clínico, não ocorrendo óbitos no local do atendimento.
A partir da análise dos dados, surgiram os seguintes temas: “Entre o desespero e o alívio: percepções familiares sobre o sofrimento e o socorro no contexto pré-hospitalar” e “Percepção dos familiares acerca do acolhimento e acompanhamento do atendimento pré-hospitalar para uma abordagem centrada na família”.
“Entre o desespero e o alívio: percepções familiares sobre o sofrimento e o socorro no contexto pré-hospitalar”
As falas dos familiares permitem identificar um conjunto de experiências marcadas pela urgência, pelo sofrimento e pela percepção do SAMU-192 como recurso essencial em situações de crise. Os relatos revelam que o acionamento do serviço se deu, em grande parte, diante da percepção de risco iminente à integridade física do paciente ou dos próprios membros do sistema familiar, o que gerou, nas pessoas envolvidas, um senso de impotência frente à situação. Nos casos relacionados a transtornos mentais, os familiares descrevem episódios de agitação e agressividade que fugiam ao controle, evidenciando a gravidade do momento e a complexidade que as famílias vivenciam no cuidado cotidiano. O SAMU-192 foi acionado como último recurso, após tentativas frustradas de manejar a situação por conta própria.
Meu filho tem esquizofrenia e não faz o tratamento direito. Ele deixa de usar as medicações e toma cerveja. Com isso, de vez em quando, ele surta, começa a ficar agressivo, quer bater em nós. É bem complicado. Após conseguirmos um pedido de internamento involuntário, chamamos o SAMU (Pai 10).
Meu filho tem diagnóstico de autismo desde pequeno. Estava levando-o para a escola, quando começou a ficar agitado e agressivo, ainda não tinha presenciado uma crise como essa. Acredito que deve ter sido algo na rua que serviu como gatilho. Como não estava conseguindo acalmá-lo. Tive que chamar o SAMU (Mãe 7).
Era no período da tarde. Estávamos em casa e minha nora me chamou, pois meu filho estava surtando. Ele faz uso de drogas e misturou com álcool. Quando faz isso, ele fica bem agitado e agressivo. Tentei conversa com ele, porém, ele não deixava. Foi aí que chamei o SAMU (Pai 11).
Nos episódios de emergência clínica, principalmente, envolvendo mães idosas, os relatos evidenciam a súbita deterioração do estado de saúde, com sinais como perda de consciência, dificuldade respiratória, pele fria e alterações neurológicas agudas. Nessa conjuntura, o chamamento do SAMU-192 esteve associado à urgência em obter atendimento especializado, demonstrando o reconhecimento, por parte dos familiares, da gravidade dos sinais e sintomas apresentados. A narrativa desses momentos revela a globalidade do sistema familiar, mostrando que havia tensão e medo entre os distintos membros, levando a uma rápida tomada de decisão.
Foi após o almoço. Estava me preparando para voltar a trabalhar. Fui ao banheiro e, quando voltei para a sala, percebi minha mãe passando mal no sofá. Ela estava jogada. Chamava e não me respondia. Aí ela começou a ficar gelada, roxa e com uma respiração bem lenta. Imediatamente, chamei [o SAMU-192] (Filha 8).
Estávamos almoçando em família, quando percebi que minha mãe começou a apresentar mal-estar, apresentou dificuldade para falar com a gente, paralisou um lado do corpo e a boca caiu. Ficamos todos preocupados e foi aí que chamamos o SAMU (Filha 2).
Estávamos em casa conversando e minha mãe estava no quarto, quando escuto uma voz bem baixinha me chamando. Sabia que era ela. Quando chego, ela disse que estava com falta de ar, difícil de respirar e estava ficando com pele fria e roxa. Fiquei desesperada. Nesse momento, chamei o SAMU (Filha 4).
A partir das falas, identifica-se que a homeostase dos sistemas familiares foi ameaçada pela situação crítica e emergencial de saúde de um de seus membros. Destarte, as percepções dos entrevistados eram marcadas por forte carga emocional durante o tempo de espera pela chegada do SAMU-192. Os relatos evidenciam, dessa forma, a circularidade das relações familiares, mostrando que sentimentos intensos de angústia, desespero, ansiedade e impotência estavam presentes nos distintos membros diante do agravamento do estado clínico de um ente querido.
Nós estávamos angustiados, preocupados com o que tinha acontecido com nossa mãe. Foi uma sensação horrível. Não sabia como podia ajudar até a chegada da equipe. Foi muito desesperador (Filha 5).
Estava nervosa porque minha mãe não respondia e estava ficando gelada e roxa. Aí, me bateu a ansiedade e desespero, porque tinha chamado ajuda, mas não chegava. Até ver eles entrando em casa para realizar o atendimento (Filha 8).
O tempo, nessas circunstâncias, foi vivenciado de forma subjetiva e dilatada, descrito como uma “eternidade”, revelando como a espera pode potencializar o sofrimento emocional. A sensação de não saber como agir ou de não ter recursos para atender a situação gerava um sentimento de vulnerabilidade, notadamente, por se tratar de pessoas próximas em condição de fragilidade aguda.
Até eles chegarem, foi uma eternidade. Estava muito preocupada com minha filha. Não sei se foi rápido ou demoraram para chegar. A primeira coisa que fiz foi pegar ela no colo e levar até os socorristas. Estava preocupada, mas fui tentando me acalmar à medida que a estavam examinando (Mãe 12).
Estava aflita. Não tinha visto minha mãe naquela situação. Me bateu o desespero, e nada de a ambulância chegar. Parece que demorou muito, até que escuto alguém chamar de longe e começo a me acalmar e sentir um alívio (Filha 2).
Ao mesmo tempo, as narrativas apontam para um papel simbólico da chegada do SAMU-192 como marco de transformação emocional. A sirene ao longe, a presença dos profissionais e o início do atendimento traziam alívio, segurança e a percepção de que, finalmente, a ajuda especializada estava presente. Esse momento funcionou como um ponto de respiro na vivência familiar da crise, restaurando, ainda que parcialmente, a sensação de controle sobre a situação. As falas mostram que, para além da assistência técnica, o SAMU representava uma rede de amparo emocional para os sistemas familiares, atuando como presença que compartilha o peso da urgência vivida.
Estava preocupada. Parece que o tempo não passava. Minha vó estava ruim, e o SAMU não chegava. Até que escuto a sirene de longe, e comecei a ficar aliviada: eu tinha com quem contar, com quem dividir aquele momento (Neta 3).
Percepção dos familiares acerca do acolhimento e acompanhamento do atendimento emergencial para uma abordagem centrada na família
As falas revelam a globalidade do sistema familiar e uma dimensão relacional e afetiva profunda na experiência dos familiares durante o atendimento pré-hospitalar. Este núcleo temático evidencia sentimentos de presença, apoio e significado emocional atribuídos ao ato de “estar com” o ente querido em um momento de vulnerabilidade. A presença física é entendida não somente como testemunho da situação, mas como forma de cuidado ativo, uma maneira de comunicar proteção, solidariedade e amor mesmo diante do sofrimento e da impotência frente à gravidade do quadro clínico.
O principal é estar perto dela, de poder estar presente naquele momento, mesmo que ela não estivesse respondendo, eu estava presente. Acho que, de alguma forma, consigo demonstrar que estava torcendo por ela (Filha 6).
As falas também expressam um movimento de ressignificação da própria experiência: estar presente é percebido como gesto de força, acolhimento e até de realização pessoal. Ao descrever-se como “fortaleza” ou ao afirmar ter “ajudado e feito o bem”, os participantes atribuem sentido à sua atuação, ainda que limitada do ponto de vista técnico. Assim, a circularidade do vínculo familiar se reafirma como elemento essencial nas situações de urgência, funcionando como âncora emocional. Identificou-se, portanto, que o cuidado transcende o aspecto físico e clínico, e assume contornos simbólicos e afetivos fundamentais para a vivência do momento crítico.
Estava do lado do meu filho, passando confiança e tranquilidade para ele naquele momento, na tentativa de acalmá-lo. Me senti como uma fortaleza, um porto seguro, para que ele pudesse se sentir protegido (Mãe 7).
Me veio um ar de alívio e calmaria durante o atendimento. Poder ajudar quem nós amamos, quando ele não está conseguindo ganhar a luta contra o vício, me fez refletir o bem que estou fazendo para ele e para mim. Foi gratificante (Pai 10).
Vale ressaltar que a presença pode ser entendida como forma de melhorar o enfrentamento do adoecimento em um ente querido do sistema familiar.
Foi muito bom estar do lado de quem a gente ama, ainda mais nos momentos de doença, que a gente nunca espera que aconteça com a gente. Acredito que estando junto aos nossos familiares, possa trazer um melhor enfrentamento nesse período de doença, uma confiança (Filha 5).
Outro ponto observado, foi em situações em que não houve a integração familiar durante o atendimento, devido à condição emocional desfavorável do familiar e/ou a condição clínica do paciente.
Naquele dia, meu filho não estava muito legal. Tinha tentado conversar inúmeras vezes com ele para levá-lo para atendimento, mas sem sucesso. Quando a equipe chegou, comuniquei que seria difícil conversa com ele, e me afastei, pois minha presença poderia agitar mais ele e atrapalhar o atendimento (Pai 10).
Reitera-se, ainda, que os entrevistados se sentiram acolhidos quando os profissionais conversavam a respeito da condição clínica do paciente, explicavam o atendimento ou solicitavam informações. Poder acompanhar o atendimento e informar os profissionais de saúde foi percebido como gratificante pelos familiares e promoveu neles uma sensação de pertencimento.
Tinha uns seis socorristas na minha casa. A todo momento, eles estavam conversando comigo, falando o que estavam fazendo e explicando cada medicação realizada. Me deixou bem tranquila durante o atendimento. Me senti presente (Mãe 1).Durante o atendimento, eu estava junto da equipe, auxiliando no que me perguntassem, para saber o que tinham dúvidas. Foi gratificante estar presente, pois estava junto do meu pai, mesmo ele não falando, estava perto (Filho 9).
Me senti segura, pertencente ao atendimento. Pude ver tudo que estavam fazendo, a avaliação que fizeram. Foi muito bom (Filha 2).
Importa, igualmente, registrar que os participantes ressaltaram a necessidade de uma abordagem centrada também na família, advogando pela inclusão dela nas decisões e nas ações de cuidado, de modo especial, em momentos críticos. Isso foi entendido como relevante, ao destacarem que a presença familiar tem uma função de regulação emocional, tanto para o paciente, como para o familiar. Isso revela a interdependência emocional entre membros da família.
A equipe que foi atender meu filho foi muito assertiva quando me deixaram participar do atendimento. Eles sabiam que precisariam da minha presença para ele colaborar com o atendimento. Estava servindo como suporte, segurança e tranquilidade para meu filho, possibilitando um atendimento mais adequado (Mãe 7).
Estar com ele durante o atendimento me passou um ar de segurança, acalento e proximidade. Estava ajudando-o de alguma forma. Realizar esse atendimento sem um familiar por perto, acredito eu que não traria tantos benefícios (Filho 9).
DISCUSSÃO
Os resultados deste estudo permitiram identificar, a partir dos relatos dos familiares, as principais percepções e vivências experimentadas desde o início do agravo de saúde até o atendimento emergencial. Ficou evidente que a manutenção dos vínculos familiares durante esse processo é percebida como algo necessário e benéfico quer para o paciente, quer para os familiares, sobretudo, quando se observa um adequado acolhimento por parte da equipe de saúde durante os atendimentos.
Verificou-se que os acionamentos da equipe ocorreram, predominantemente, devido a desordens de origem clínica, entre elas, as condições cardíaca, neurológica, respiratória e mental. Isso corrobora com estudos realizados no atendimento pré-hospitalar na Dinamarca e na Suécia, os quais apontaram que essas são as principais causas dos atendimentos emergenciais pré-hospitalares22,23.
No que tange aos atendimentos em casos de surtos psiquiátricos, os familiares relataram que sua presença atuou como a primeira forma de demonstrar amor, cuidado, bem-estar e proteção, tanto para eles, como para o paciente. Esses relatos sugerem que, em situações de crise, os sintomas psiquiátricos - agravados por gatilhos emocionais e pelo uso de substâncias, como álcool e drogas - intensificam o quadro clínico, situação já observada em estudos conduzidos no Canadá e nos Estados Unidos24,25.
Os relatos evidenciaram também que a globalidade do sistema familiar foi responsável pela vivência, por parte dos distintos membros da família, de sentimentos negativos, como preocupação, desespero, angústia e nervosismo, decorrentes, em partes, da falta de compreensão do quadro clínico. Houve, nos momentos que antecederam a chegada da equipe do SAMU-192, a intensificação desses sentimentos. Observou-se, inclusive, uma percepção subjetiva de dilatação do tempo, como se houvesse um intervalo excessivo entre o acionamento do socorro e a chegada da equipe de atendimento. Sabidamente, a falta de compreensão ou desconhecimento do quadro de saúde, associado a espera pelo atendimento, colaboram com o desenvolvimento de estresse e preocupação, o que interfere na percepção do tempo de espera pelo socorro26.
Somente com a chegada e a intervenção dos profissionais, os sentimentos de angústia foram minimizados, dando lugar à percepção de calma, controle e alívio. A dinâmica das relações familiares revela uma significativa interdependência entre seus membros, a qual tende a se intensificar diante de agravos à saúde. Nessa toada, o acompanhamento do atendimento emerge como fator que contribui para a tranquilização dos familiares27. A propósito, estar presente durante o atendimento reforça o papel do familiar como suporte emocional, facilitando a transmissão de informações sobre o quadro clínico para a equipe e contribuindo para a aceitação dos desfechos, até mesmo, em casos de morte15,27.
Em contrapartida, é preciso considerar que as dificuldades na implementação do CCF no âmbito emergencial e pré-hospitalar ocorrem pela falta de clareza e compreensão do conceito, tanto por parte das equipes, como dos próprios familiares. Além disso, restrições organizacionais e a ausência de protocolos institucionais específicos prejudicam o convite para que as famílias estejam presentes no atendimento28. Mas, por outro lado, os familiares que vivenciaram essa possibilidade relataram sentimentos consistentes de tranquilidade, segurança e calma, evidenciando que a abordagem que integra as necessidades do paciente e da sua família contribui para uma assistência de saúde aprimorada.
Nesse sentido, a adoção de práticas pautadas na filosofia do CCF tem demonstrado resultados positivos, inclusive, na redução de sintomas de ansiedade, depressão e transtorno do estresse pós-traumático29. Do mesmo modo, as famílias dos pacientes beneficiam-se de uma postura de escuta, respeito e cortesia, facilitando a troca de informações, compartilhamento das tomadas de decisão, estabelecimento de vínculos de confiança com a equipe de saúde e, consequentemente, a melhoria dos desfechos do atendimento30.
No entanto, é preciso considerar que, por vezes, os casos que envolvem a participação dos familiares em tomadas de decisões junto à equipe de saúde podem levar ao enfrentamento de desafios. Isso porque, os anseios e demandas das famílias diante do tratamento e da cura, podem ser divergentes do prognóstico terapêutico estabelecido pelos profissionais. Por sua vez, isso descortina a necessidade de que as equipes estejam devidamente capacitadas e que os serviços desenvolvam protocolos institucionais específicos para o entendimento de que as famílias são sistemas complexos e indissociáveis, levando à aplicação do CCF no ambiente pré-hsopitalar15. A divulgação e o aprofundamento desse tema são essenciais para a construção de estratégias que viabilizem a incorporação sistemática dessa abordagem no âmbito do SAMU-192.
Este estudo possui limitações. Uma delas se relaciona ao intervalo de tempo entre a ocorrência do evento e a realização das entrevistas. Em alguns casos elas aconteceram dias ou até semanas após a vivência. Isto pode ter introduzido um viés de esquecimento. Entretanto, os relatos apresentaram experiências marcantes e detalhadas, oferecendo contribuições significativas para o reconhecimento da importância da participação familiar no contexto do atendimento emergencial pré-hospitalar. Outra limitação se refere ao fato de a maior parte das entrevistadas ser do sexo feminino, o que pode imprimir uma perspectiva de gênero aos dados. Porém, geralmente dentro dos sistemas familiares são as mulheres que se envolvem no cuidado direto a pessoas com necessidades de saúde, por isso, era esperada uma predominância feminina. De toda sorte, os pesquisadores se empenharam em adicionar também participantes do sexo masculino para que, em alguma medida, suas percepções fossem consideradas. Por fim, o fato de o entrevistador integrar a equipe do SAMU que realizou o atendimento pode ter influenciado as respostas dos familiares, preponderantemente, se existisse descontentamento com algum procedimento/atitude por parte dos profissionais. Todavia, no início da entrevista, se reforçava que as informações prestadas seriam tratadas no mais absoluto sigilo e que não refletiriam em atendimentos futuros, se necessários.
Dessa forma, os resultados oferecerem conhecimentos oportunos e críticos sobre a participação do sistema familiar na esfera do atendimento do SAMU-192, o que possibilita a construção de novas estratégias de abordagem ao paciente e sua família por parte dos serviços de saúde pré-hospitalar e seus profissionais. Evidencia-se, assim, a necessidade de ampliar a formação e a capacitação dos profissionais de saúde, bem como de desenvolver protocolos que garantam a efetiva implementação do CCF nos diversos contextos assistenciais.
CONCLUSÃO
Os achados aqui arrolados revelam que o acionamento do SAMU-192, em circunstâncias de crise, ocorre diante da percepção de iminente risco à vida ou à integridade do paciente e de seus familiares. As experiências compartilhadas apontam que o serviço é visto como recurso fundamental quando os meios pessoais e familiares se esgotam. As situações narradas expressam um momento de desestabilização emocional e impotência, no qual o socorro representa o início de um cuidado técnico, bem como um amparo emocional diante do incontrolável.
Durante o tempo de espera pelo atendimento, os familiares relataram vivências intensas de angústia, ansiedade e desespero, agravadas pela incerteza e pela urgência da situação. A chegada do SAMU-192, simbolicamente marcada pela sirene e pela presença dos profissionais, representou um romper emocional que trouxe alívio, sensação de acolhimento e restauração parcial do controle. Para além da técnica, a presença da equipe foi percebida como gesto de cuidado compartilhado, reforçando o papel simbólico e afetivo dos profissionais de saúde em momentos críticos.
Adicionalmente, a possibilidade de acompanhar o atendimento emergencial foi vivida como ato de cuidado mútuo, reafirmando o valor da presença do sistema familiar como elemento de suporte e enfrentamento. Os resultados sugerem que práticas baseadas em uma abordagem centrada na família podem promover maior vínculo, segurança emocional e cuidado. Com efeito, recomenda-se que futuras pesquisas analisem, a partir de uma perspectiva quantitativa, os impactos da presença da família no contexto do atendimento pré-hospitalar em termos de atuação profissional, desfecho clínico e efeitos psicoemocionais nos familiares. Por fim, numa perspectiva qualitativa, podem ser explorados os limites e as potencialidades da inclusão ativa dos membros da família no processo de cuidado em situações de urgência e emergência.
Referências bibliográficas
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NOTAS
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ORIGEM DO ARTIGO
Extraído da dissertação - Presença da família durante o atendimento pré-hospitalar vivências de familiares e profissionais de saúde, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, da Universidade Estadual de Maringá, em 2025.
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APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Maringá, parecer nº 6.901.110 e Certificado de Apresentação e Apreciação Ética nº 80145224.5.0000.0104.
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DISPONIBILIDADE DE DADOS
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Legenda: *SM: Salário-Mínimo nacional (valor de 1412,00 reais).