Open-access PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA: USO DE ÁLCOOL E/OU OUTRAS DROGAS, SOFRIMENTO MENTAL E VIOLÊNCIA

RESUMO

Objetivo:  analisar a associação entre o uso de álcool e/ou outras drogas, o sofrimento mental e a violência entre Pessoas em Situação de Rua.

Método:  estudo transversal analítico realizado em uma capital do Nordeste do Brasil com 127 Pessoas em Situação de Rua. Os dados foram coletados mediante questionário para caracterização sociodemográfica, econômica e das condições de vida e de violência, aplicação do Alcohol, Smoking and Substance Involvement Screening Test e do Self-Reporting Questionnaire no período de outubro de 2019 a março de 2020. Na análise inferencial, foram realizados os testes de associação Qui-quadrado e Exato de Fisher, considerando significativo p<0,05.

Resultados:  a maioria relatou que viver na rua é um fator predisponente para o consumo de substâncias psicoativas (69,3 %). A prevalência de sofrimento mental nas Pessoas em Situação de Rua foi de 63 %. Entre os tipos de violências, 36,3 % autorreferiram ter sofrido violência psicológica, 32,7 % violência física, 20,2 % violência patrimonial e 5,4 % violência sexual ou outro tipo de violência. Houve associação significativa entre a violência sexual e o sofrimento mental (p=0,02), uso problemático de tabaco e outras violências (p=0,01), uso problemático de álcool e a violência física (p=0,04) e patrimonial (p=0,005), bem como o uso problemático da maconha com outras violências (p=0,01). A violência autodirigida também apresentou associação com a violência física (p=0,048), violência sexual (p=0,033) e o sofrimento mental (p=0,017).

Conclusão:  a violência apresentou implicações no sofrimento mental, no uso problemático de substâncias psicoativas e na violência autodirigida entre Pessoas em Situação de Rua.

DESCRITORES:
Pessoas mal alojadas; Consumo excessivo de bebidas alcoólicas; Usuários de drogas; Saúde mental; Violência

ABSTRACT

Objective:  to analyze the association between alcohol and/or other drug use, mental distress, and violence among homeless people.

Method:  an analytical cross-sectional study was conducted in a capital city in Northeast Brazil with 127 homeless people. Data were collected using a questionnaire to characterize sociodemographic, economic, and living conditions and violence, the Alcohol, Smoking and Substance Involvement Screening Test, and the Self-Reporting Questionnaire between October 2019 and March 2020. The Chi-squared and Fisher’s exact tests of association were performed in the inferential analysis, considering p<0.05 as significant.

Results:  the majority reported that living on the street is a predisposing factor for the use of psychoactive substances (69.3 %). The prevalence of mental distress among homeless people was 63 %. Among the types of violence, 36.3 % self-reported having suffered psychological violence, 32.7 % physical violence, 20.2 % property violence, and 5.4 % sexual violence or other types of violence. There was a significant association between sexual violence and mental distress (p=0.02), problematic tobacco use and other violence (p=0.01), problematic alcohol use and physical violence (p=0.04) and property violence (p=0.005), as well as problematic marijuana use with other violence (p=0.01). Self-directed violence also showed an association with physical violence (p=0.048), sexual violence (p=0.033), and mental distress (p=0.017).

Conclusion:  violence had implications for mental distress, problematic use of psychoactive substances, and self-directed violence among homeless people.

DESCRIPTORS:
Poorly housed persons; Excessive alcohol consumption; Drug users; Mental health; Violence

RESUMEN

Objetivo:  analizar la asociación entre el consumo de alcohol y/u otras drogas, el distrés mental y la violencia en personas en situación de calle.

Método:  se realizó un estudio transversal analítico en una capital del noreste de Brasil con 127 personas en situación de calle. Los datos se recopilaron mediante un cuestionario para caracterizar las condiciones sociodemográficas, económicas y de vida, así como la violencia, la Alcohol, Smoking and Substance Involvement Screening Test, y el Self-Reporting Questionnaire entre octubre de 2019 y marzo de 2020. En el análisis inferencial, se realizaron las pruebas de asociación de Chi-cuadrado y la prueba exacta de Fisher, considerando un valor p<0,05 como significativo.

Resultados:  la mayoría reportó que vivir en la calle es un factor predisponente para el consumo de sustancias psicoactivas (69,3 %). La prevalencia de distrés mental entre las personas en situación de calle fue del 63 %. Entre los tipos de violencia, el 36,3 % autoreportó haber sufrido violencia psicológica, el 32,7 % violencia física, el 20,2 % violencia contra la propiedad y el 5,4 % violencia sexual u otros tipos de violencia. Se observó una asociación significativa entre la violencia sexual y el distrés mental (p=0,02), el consumo problemático de tabaco y otros tipos de violencia (p=0,01), el consumo problemático de alcohol y la violencia física (p=0,04) y la violencia contra la propiedad (p=0,005), así como el consumo problemático de marihuana con otros tipos de violencia (p=0,01). La violencia autoinfligida también mostró una asociación con la violencia física (p=0,048), la violencia sexual (p=0,033) y el distrés mental (p=0,017).

Conclusión:  la violencia tuvo implicaciones en el distrés mental, el consumo problemático de sustancias psicoactivas y la violencia autoinfligida entre las personas sin hogar.

DESCRIPTORES:
Personas en situación de pobreza; Consumo excesivo de alcohol; Consumidores de drogas; Salud mental; Violencia

INTRODUÇÃO

As Pessoas em Situação de Rua (PSR) são expostas às vulnerabilidades de dimensões individual, social e programática1, que repercutem diretamente nas condições de vida e saúde dessa população, uma vez que essas pessoas estão mais suscetíveis ao uso abusivo de substâncias psicoativas, ao sofrimento mental e às situações de violência2-3. Assim, é fundamental que os serviços sociais, de saúde mental e de tratamento da dependência de substâncias psicoativas sejam articulados para atender às necessidades dessa população e oferecer cuidados abrangentes4.

Entre 2018 e julho de 2023, o quantitativo de PSR cadastradas no CadÚnico quase dobrou no Brasil, chegando a 221 mil e 113 pessoas, além da constatação do agravamento das condições de vida desses indivíduos com a pandemia de covid-19, o que reforça a necessidade de políticas públicas eficientes para esse grupo populacional5.

Na Espanha, 17,5 % das PSR apresentavam uso de risco e 14,5 % dependência para bebida alcoólica, enquanto 32,3 % mostraram uso de drogas nocivo ou de risco e 26,5 % dependência de drogas6. No Brasil, o tabaco (84,6 %) e o álcool (84,7 %) foram as substâncias psicoativas mais consumidas ao longo da vida pelas PSR. Em contrapartida, as drogas ilícitas mais consumidas foram a maconha (67,9 %), o crack (63,9 %) e a cocaína em pó (44,1 %), além de 47,2 % relatarem que a situação de rua ocorreu devido ao uso de drogas7.

A falta de moradia é um entrave que afeta criticamente a saúde mental e o bem-estar das PSR, pois esse grupo populacional possui elevada prevalência de transtornos depressivos, ansiosos, psicóticos, neurocognitivos, bipolar e transtornos por uso de substâncias psicoativas, além de apresentarem índices consideráveis de comportamento suicida. Nesse sentido, é crucial a compreensão dos aspectos psicossociais e epidemiológicos envolvidos nessa condição para adotar medidas efetivas para prevenir, identificar e tratar transtornos mentais nas PSR8.

A violência entre as PSR é influenciada pelo próprio contexto social, bem como por crenças, valores, situações vivenciadas, ócio, humor, características inerentes de algumas pessoas e em decorrência do efeito do uso de substâncias psicoativas. Além disso, os atos violentos podem ser perpetrados com o intuito de se defender, para a violência não se repetir, por orgulho pessoal, reciprocidade das ações ou pela cobrança dos outros por uma resposta à violência ocorrida9.

Nessa perspectiva, as PSR são vulneráveis e expostas a vários tipos de violência. Assim, estudar essa problemática, juntamente com o sofrimento mental e o uso de substâncias psicoativas, é fundamental para estimular a implementação de políticas públicas e linhas de cuidado efetivas, visando proporcionar melhores condições de vida e de saúde, reduzir danos e melhorar a equidade em saúde dessa população, que aumentou consideravelmente em várias partes do mundo após a pandemia de covid-19.

Desse modo, este estudo objetivou analisar a associação entre o uso de álcool e/ou outras drogas, o sofrimento mental e a violência entre Pessoas em Situação de Rua.

MÉTODO

Trata-se de um estudo transversal analítico realizado nos serviços e locais que compõem a rede de ações integradas de Proteção Social Especial de Média Complexidade do município de uma capital da região Nordeste do Brasil. Foram coletados dados no Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP), Serviço Especializado de Abordagem Social e Albergue Municipal Casa do Caminho, bem como em logradouros, praças e pastorais.

A população do estudo foi estimada em 500 pessoas vivendo em situação de rua, levando em consideração os registros de atendimentos do ano de 2018 disponibilizados pela coordenação do Centro POP, uma vez que é um segmento populacional instável no que se refere ao número exato de pessoas nessa situação. Para o cálculo amostral, adotou-se a fórmula de estimativa da proporção populacional para populações finitas, com nível de confiança de 95 %, prevalência presumida de 25 % e erro máximo de 5 %, totalizando uma amostra representativa de 127 participantes.

A seleção da amostra foi realizada por meio da técnica amostral não probabilística por conveniência, devido à dificuldade de acesso aos participantes do estudo. Os critérios de inclusão foram: participantes com idade igual ou superior a 18 anos, de ambos os sexos, com tempo mínimo de seis meses vivendo em situação de rua. Foram excluídos aqueles que não apresentaram condições físicas e emocionais para responder aos questionamentos do pesquisador e os que estavam visivelmente sob efeito de alguma substância psicoativa.

A coleta de dados foi conduzida no período de outubro de 2019 a março de 2020 e contou com uma equipe composta por um mestrando e quatro discentes de graduação, previamente treinados para utilização dos instrumentos de coleta. Para operacionalização da coleta de dados, inicialmente foi efetuado contato prévio com as coordenações responsáveis pelos serviços de referência na assistência às PSR, para apresentação da proposta de pesquisa, levantamento do número da população estudada e definição dos horários de visita para a efetivação das entrevistas. Um pré-teste foi realizado com 30 participantes para avaliar os instrumentos quanto à sua apresentação, compreensão, tempo de preenchimento e adequação aos objetivos sugeridos, mediante essa análise, adaptações foram realizadas no questionário de caracterização dos participantes.

No Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua e no acompanhamento em campo das equipes do Serviço Especializado de Abordagem Social, as coletas ocorreram no turno matutino, enquanto, no Albergue, foram realizadas no turno vespertino. As entrevistas para aplicação dos instrumentos de coleta de dados aconteceram em espaços disponibilizados por esses serviços, exceto quando eram realizadas junto com as equipes do Serviço Especializado de Abordagem Social, haja vista que a abordagem dos participantes ocorria diretamente no cenário da rua. A duração média de cada entrevista foi de 20 minutos.

Os dados foram coletados por meio do questionário adaptado para caracterização sociodemográfica, econômica e das condições de vida10 e de violência autorreferidas11 bem como mediante aplicação do Alcohol, Smoking and Substance Involvement Screening Test (ASSIST), usado para avaliação sobre o consumo de álcool, tabaco e outras drogas12 e do Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20), aplicado para identificação de sofrimento mental13. O ato de sofrer ou cometer violência foi considerado, a partir do início que o indivíduo passou a estar em situação de rua. O sofrimento mental foi avaliado a partir das quatro dimensões específicas do instrumento: humor ansioso e depressivo; sintomas somáticos; decréscimo de energia; e pensamentos depressivos14.

Os dados foram tabulados no Microsoft Excel 2016 com dupla digitação para correção de erros e limpeza do banco de dados. Posteriormente, os dados foram exportados para o Statistical Package for the Social Science (SPSS), versão 22.0, para análise. Na análise estatística descritiva, para as variáveis categóricas foram calculadas frequências absolutas e percentuais, e para as variáveis quantitativas foram realizadas médias, medianas, desvio-padrão, valores mínimos e máximos. Na análise inferencial, foram realizados os testes de associação Qui-quadrado e Exato de Fisher, considerando significativo o valor de p<0,05.

O estudo obedeceu aos preceitos éticos da resolução no 466, de 2012, do Conselho Nacional de Saúde (CNS), sendo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Piauí. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Ressalta-se que não houve utilização de ferramentas de Inteligência Artificial na produção deste manuscrito.

RESULTADOS

Em relação às características sociodemográficas e econômicas das PSR, a idade variou de 19 a 72 anos, prevalecendo o sexo masculino (85 %), a situação conjugal solteira (59,1 %) e a cor parda (60,6 %). A maioria possuía ensino fundamental incompleto ou completo (58,2 %), 38,6 % não tinham renda e 54,3 % possuíam filhos. A respeito das condições de vida, grande parte era natural da capital do Piauí (41,7 %). Os conflitos familiares foram a principal motivação para morar ou viver na rua (39,4 %), seguido do consumo de álcool e outras drogas (24,4 %). Além disso, a maioria relatou que viver na rua é um fator predisponente para o consumo de substâncias psicoativas (69,3 %). O tempo das pessoas vivendo em situação de rua variou de 1 a 2 anos (Tabela 1).

Tabela 1 -
Caracterização sociodemográfica, econômica e condições de vida das Pessoas em Situação de Rua. Teresina, PI, Brasil, 2020. (n=127).

A prevalência de sofrimento mental nas PSR foi de 63 % (n=80). Na Tabela 2, a respeito dos sintomas relacionados ao humor depressivo e ansioso, 52,8 % relataram que se assustavam com facilidade, 70,1 % sentiam-se nervosos, tensos e preocupados e 78,7 % sentiam-se tristes ultimamente. No que tange aos sintomas somáticos, a maioria relatou que dormia mal (63 %). Na avaliação do decréscimo de energia vital, a maioria referiu sentir cansaço o tempo todo (54,3 %) e com facilidade (51,2 %). Em relação aos pensamentos depressivos, 39,4 % destacaram perda de interesse pelas coisas.

Tabela 2 -
Caracterização dos grupos de sintomas do Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20) nas Pessoas em Situação de Rua. Teresina, PI, Brasil, 2020. (n=127).

Entre os tipos de violências, 36,3 % das PSR autorreferiram ter sofrido violência psicológica, 32,7 % violência física, 20,2 % violência patrimonial e 5,4 % violência sexual ou outro tipo de violência. A violência sexual apresentou associação com o sofrimento mental entre as PSR (Tabela 3).

Tabela 3 -
Classificação do sofrimento mental (SRQ-20) e situações de violências autorreferidas por Pessoas em Situação de Rua. Teresina, PI, Brasil, 2020. (n=127)

O consumo de tabaco apresentou associação com outros tipos de violência, enquanto o uso de álcool teve associação com a violência física e patrimonial. Além disso, a maconha apresentou associação com outros tipos de violência (Tabela 4).

Tabela 4 -
Associação entre os tipos de violência e a classificação do Alcohol, Smoking and Substance Involvement Screening Test (ASSIST) nas Pessoas em Situação de Rua. Teresina, PI, Brasil. 2020. (n=127).

Houve associação entre a violência autodirigida com a violência física, sexual e o sofrimento mental. Não foi evidenciada associação entre o uso de substâncias psicoativas e a violência autodirigida entre as PSR segundo a Tabela 5.

Tabela 5 -
Associação entre os tipos de violência sofridas, sofrimento mental e uso de substâncias psicoativas com a violência autodirigida em pessoas em situação de rua (n=127). Teresina, PI, Brasil, 2020.

DISCUSSÃO

A maioria das PSR eram pardas, com baixa escolaridade e sem renda. Assim, a baixa escolaridade e renda são fatores que contribuem para que essas pessoas vivam em situação de rua, uma vez que o desemprego neste estudo foi a terceira principal motivação para morar na rua e a baixa escolaridade, associada à reduzida qualificação, dificultam a conquista de um emprego formal. Nesse aspecto, destaca-se a importância de políticas públicas inclusivas visando à reinserção social dessa população, no intuito de melhorar as suas condições de vida e de saúde.

Os conflitos familiares e o consumo de álcool e outras drogas foram os principais motivos que levaram as pessoas a viverem na rua. Cabe ressaltar que tais conflitos podem ocasionar sofrimento mental, o que pode ser um fator preditivo para o consumo abusivo de substâncias psicoativas. Nessa perspectiva, estudo realizado na Espanha identificou que acontecimentos traumáticos na vida de PSR, como a presença dos pais na prisão, doenças, deficiências e problemas de álcool na família ou neles próprios, são fatores de risco para o consumo de álcool15. Isso reforça a importância da identificação oportuna do sofrimento mental, bem como a ampliação e acessibilidade dos serviços de saúde mental a toda a população, objetivando prevenir e tratar o adoecimento mental e os transtornos decorrentes do uso abusivo de substâncias psicoativas, além de contribuir para que essas pessoas consigam ressignificar as suas vidas.

Ter sido vítima de violência também foi um dos motivos que levaram uma parcela significativa dos participantes do estudo a viverem em situação de rua. Além disso, evidenciou-se que as PSR são vulneráveis a vários tipos de violência, com destaque para as violências psicológica e física. Em Minas Gerais, estudo identificou que a prevalência geral de violência foi de 62,3 %, sendo mais elevadas em mulheres (76,2 %) e em não brancos (66,7 %), sendo que, para as mulheres, os tipos de violência mais relatados no período diurno foram a agressão verbal (57,1 %) e física (38 %), enquanto, entre os homens, prevaleceram a agressão física (25 %) e as ameaças (20,3 %). Isso evidência que a problemática da violência enfrentada pelas PSR é comum em vários cenários pela exposição frequente, porém não deve ser normalizada ou tratada como algo invisível - por isso, são necessárias políticas públicas efetivas tanto para gerar melhores oportunidades de vida às pessoas, a fim de reduzir o quantitativo da população em situação de rua, quanto para atuar nas causas estruturais da violência16-17.

Em relação ao sofrimento mental, identificou-se elevada prevalência de sintomas depressivos e ansiosos, pois a maioria das PSR sentia-se triste ultimamente, nervosa, tensa, preocupada e se assustava com facilidade, o que pode ser justificado pelo cenário de incertezas, discriminação, preconceitos e vulnerabilidades vivenciado por essa população. Revisão sistemática demonstrou taxas de prevalência consideravelmente mais altas de sintomas depressivos (46,72 %), distimia (8,25 %) e transtorno depressivo maior (26,24 %) em PSR, tendo uma prevalência mais elevada de sintomas depressivos nas pessoas mais jovens (menores de 25 anos de idade). Essas taxas são notavelmente superiores às relatadas na população geral, o que reforça a necessidade de estratégias adequadas de prevenção e tratamento de saúde mental para esse grupo populacional18.

Dessa forma, corroborando com estes resultados, pesquisa constatou que as PSR apresentaram elevados níveis de comprometimento da saúde mental e evidenciou que, aproximadamente, metade dos participantes sofreram discriminação e violência quando desabrigados, sendo que as experiências de discriminação estiveram associadas a níveis mais elevados de comprometimento da saúde mental e do estado geral de saúde dos participantes19.

Na Inglaterra, observou-se a problemática da violência autoprovocada, pois 1,1 % das vítimas de suicídio foram de PSR, além de constatar que essa população apresentou significativamente mais propensão a ter histórico de pensamentos suicidas, tentativas e divulgação de intenções suicidas20. Nesta pesquisa, a perda de interesse pelas coisas e as ideias suicidas foram relatadas por uma parcela considerável dos participantes, o que ratifica a existência de sofrimento mental nessa população, ressaltando a importância da integração entre os serviços de assistência social e da rede de atenção psicossocial, no intuito de proporcionar mais dignidade e cuidados oportunos em saúde mental às PSR.

Entre os tipos de violências autorreferidas pelas PSR, a violência sexual apresentou associação com o sofrimento mental. Esse tipo de violência também foi evidenciado em Madrid, na Espanha, onde as mulheres sem abrigo sofreram mais eventos estressantes ao longo da vida que os homens, com destaque para a violência sexual na infância, abuso sexual na idade adulta e abuso por parte do cônjuge ou parceiro. Isso reforça a necessidade de intervenções para promover a inclusão social, bem como ações dirigidas às mulheres para superação dos traumas e do sofrimento mental decorrentes do abuso sexual, que podem levar a problemas psiquiátricos, se não forem tratados adequadamente21.

Apesar do fato de ter sofrido violência não ter apresentado associação com o consumo de substâncias psicoativas nas PSR, estudo realizado em Gana identificou que sobreviventes de violência física ou emocional e violência sexual tiveram maior probabilidade de envolvimento no uso de alto risco de substâncias psicoativas, especialmente álcool, cocaína e cannabis. Além disso, a probabilidade de envolvimento no uso de substâncias foi mais prevalente em homens e naqueles de baixa renda, destacando que o uso de substâncias pode ser influenciado por fatores sociodemográficos e situações traumáticas, a exemplo das violências sofridas22.

Houve alta prevalência do uso problemático de tabaco entre as PSR, bem como apresentou associação com outros tipos de violência. A elevada prevalência do uso de cigarro pode ser explicada pelos índices consideráveis de sintomas ansiosos e depressivos evidenciados, em que o consumo de cigarro pode ser uma estratégia de fuga dessas emoções. O uso de alto risco ou problemático de tabaco também foi identificado na literatura, em que 11,3 % das PSR apresentaram alto risco para uso dessa substância22.

O uso problemático do álcool teve associação com a violência física, o que pode ser explicado pelo fato dessa substância gerar desinibição e euforia no início da ingestão, podendo encorajar a realização de atos violentos, ou pelo fato de ser uma droga depressora, o que diminui a capacidade de pensar, planejar e se defender, aumentando a suscetibilidade à violência. O uso problemático de álcool também foi retratado em outro estudo em que 68 % das PSR se quadraram na classificação de provável dependência, enfatizando a importância de intervenções, como ações de educação em saúde, no intuito de reduzir danos, contribuir para a autopreservação da saúde e possibilitar o encaminhamento dos casos problemáticos para a atenção especializada23.

A violência patrimonial, que consiste em qualquer conduta que retenha, subtraia, destrua parcial ou totalmente seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo aqueles destinados a satisfazer as próprias necessidades24, também teve associação com o consumo de álcool. Desse modo, a violência patrimonial pode levar as pessoas viverem em situação de rua, além de ocasionar sofrimento mental e contribuir para o uso de substâncias psicoativas, a exemplo da bebida alcoólica.

Na Nicaragua, foi observado alto nível de abuso de substâncias psicoativas entre as PSR, sendo que as drogas mais consumidas em algum momento da vida foram a maconha, a cola inalável e a cocaína. Além disso, essas pessoas apresentavam estados de saúde e incapacidades muito negativos quando comparadas a outros grupos socialmente excluídos25, reforçando que as PSR vivenciam diversas vulnerabilidades, inclusive são mais expostas às situações de violência. No presente estudo, o uso de maconha apresentou associação com outros tipos de violência, e essa relação do uso da maconha com outras violências pode ser justificada pelo fato dessa substância psicoativa ser uma das mais consumidas por essa população, que vivencia diariamente diversas situações de violência.

A associação entre a violência autodirigida e a violência física autorreferida pode ser explicada devido esse tipo de violência sofrida ocasionar traumas psicológicos e sofrimento mental. Nessa perspectiva, estudo identificou que as mulheres em situação de rua relataram sofrer violações de direitos e violência que, em longo prazo, geram sofrimento, desesperança, esgotamento físico e psicológico26. Em Sydney, estudo constatou que 36,7 % das mortes em PSR eram de causas não naturais, que incluíram overdose de droga (24,1 %), suicídio (6,8 %) e outras lesões (5,9 %)27, enfatizando que o uso abusivo de substâncias psicoativas, juntamente com a violência autoprovocada e a violência física, são algumas das principais causas de mortalidade nessa população.

O sofrimento mental teve associação com a violência autodirigida. Nesse contexto, estudo realizado em seis capitais brasileiras identificou que a condição de ter morado na rua em algum momento da vida esteve associada a internamentos por problemas psicológicos e psiquiátricos, sintomas depressivos e ideação suicida28. Nos Estados Unidos, 1,1 % de todos os suicídios foram em pessoas em situação de rua, sendo que, do total de vítimas que se conhecia informações adicionais, 40,9 % tinham histórico de pensamentos ou planos suicidas, 29,1 % haviam revelado a intenção de morrer por suicídio e 21,7 % estavam recebendo tratamento para uma condição de saúde mental. Ainda que existam evidências de intervenções efetivas para prevenção do suicídio, como planejamento de segurança, terapia cognitivo-comportamental e uso de psicotrópicos, são necessárias pesquisas para investigar até que ponto essas intervenções podem ser eficazes na redução da taxa de suicídio nas PSR29.

Embora o uso de substâncias psicoativas não tenha apresentado associação com a violência autodirigida, estudo realizado em São Paulo em um Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas (CAPS AD) constatou que 75,3 % dos usuários que buscaram acolhimento no serviço em decorrência de crise viviam em situação de rua e, entre os motivos para o acolhimento de alguns usuários, evidenciou-se a tentativa de suicídio30. Isso reforça a importância dos serviços que integram a Rede de Atenção Psicossocial estarem preparados e articulados para atender essas demandas evidenciadas entre as PSR, de forma humanizada, integral e equânime, no intuito de contribuir para ressignificar a vida e melhorar a saúde mental desses usuários.

Como limitações, destacam-se o método transversal, o qual impossibilita estabelecer relação de causa e efeito; a amostragem não probabilística devido à dificuldade de acesso a esse público, que possui, em sua maioria, perfil itinerante; e a resistência em participar da pesquisa. Nessa perspectiva, ressalta-se a necessidade da realização de estudos adicionais com amostragem probabilística e maior número de participantes, assim como pesquisas longitudinais e de intervenção, a fim de possibilitar melhor compreensão do objeto de estudo e avaliar ações concretas que contribuam para transformar essa realidade, fornecendo evidências aplicáveis para políticas públicas e serviços de saúde e assistenciais voltados às PSR.

CONCLUSÃO

O tipo de violência sofrida por PSR que apresentou associação com o sofrimento mental foi a violência sexual, destacando o impacto desse tipo de violência na saúde mental dessas pessoas. Em relação ao uso problemático de substâncias psicoativas, o uso de tabaco teve associação com outras violências, enquanto o consumo abusivo de álcool apresentou relação com a violência física e patrimonial, e a maconha teve associação com outras violências, enfatizando que o uso de substâncias psicoativas deixa essa população mais suscetível a sofrer ou a praticar atos violentos. Além disso, a violência autodirigida apresentou associação com a violência física e sexual autorreferidas e o sofrimento mental, reforçando que a automutilação com ou sem ideação suicida e a tentativa de suicídio por PSR podem ser resultantes do adoecimento mental decorrente de violências sofridas.

Diante disso, observou-se que a violência apresentou implicações no sofrimento mental, no uso problemático de substâncias psicoativas e na violência autodirigida entre as PSR. Assim, é imprescindível a implementação de políticas públicas voltadas para essas pessoas com o objetivo de reduzir essas vulnerabilidades, no intuito de oportunizar melhores condições de vida, bem como garantir a efetividade dos serviços que compõem a Rede de Atenção Psicossocial para ofertar cuidados adequados para promoção da saúde mental e tratamento e/ou redução de danos decorrentes do uso problemático de substâncias psicoativas nas PSR.

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NOTAS

  • ORIGEM DO ARTIGO
    Extraído da dissertação - Uso de álcool e outras drogas, transtorno mental e violência entre a população em situação de rua, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, da Universidade Federal do Piauí, em 2020.
  • FINANCIAMENTO
    Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)/Brasil. Código de Financiamento 001.
  • APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
    Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Piauí, parecer n. 3.152.268/2019, Certificado de Apresentação para Apreciação Ética 05755119.9.0000.5214.
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • EDITORES
    Editores Associados: Leticia de Lima Trindade.
    Editor-chefe: Gisele Cristina Manfrini.

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    23 Jul 2025
  • Aceito
    22 Set 2025
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