RESUMO
Objetivo: elaborar um instrumento informatizado para a estratificação do autocuidado de pessoas com Hipertensão Arterial Sistêmica e/ou Diabetes Mellitus.
Método: estudo metodológico para o desenvolvimento e validação de um instrumento para estratificar o autocuidado de pessoas com Hipertensão Arterial Sistêmica e/ou Diabetes Mellitus. O estudo foi desenvolvido em cinco etapas, por meio do modelo metodológico de Pasquali: 1) fundamentação teórica dos instrumentos; 2) construção da primeira versão de dois instrumentos; 3) validação e recrutamento dos especialistas mediante à aplicação do Índice de Validade de Conteúdo, aceitando-se o valor de >0,8 por item; 4) validação de conteúdo e aparência pelos juízes especialistas; 5) teste piloto após a adequação do instrumento pelos juízes. O instrumento para estratificação foi estruturado por meio de uma escala, tipo Likert.
Resultados: a validação de conteúdo do instrumento se deu por meio de 13 juízes especialistas sendo todos enfermeiros. O instrumento elaborado foi validado em seu conteúdo e aparência, apresentando um S-IVC/Avg acima de 0,80 (0,93 para Hipertensão Arterial Sistêmica e 0,94 par Diabetes Mellitus). Os instrumentos na sua versão final apresentam aplicabilidade em todas as consultas na Atenção Primária à Saúde para assim identificar o padrão de autocuidado dos pacientes com Hipertensão Arterial Sistêmica e/ou Diabetes Mellitus.
Conclusão: os instrumentos apresentaram Índice de Validade de Conteúdo na maioria dos critérios de avaliação, com exceção na sua estética, sendo corrigido. A partir deste estudo, pode-se fomentar a estratificação do autocuidado de pessoas com HAS e DM, podendo ser aplicada em todas as consultas conduzidas na Atenção Primária à Saúde.
DESCRITORES:
Hipertensão; Diabetes mellitus; Autocuidado; Promoção da saúde; Psicometria; Estudo de validação
ABSTRACT
Objective: To develop and validate a computerized instrument for stratifying self-care among individuals with Systemic Arterial Hypertension and/or Diabetes Mellitus.
Methods: A methodological study was conducted following Pasquali’s psychometric framework. The development process comprised five stages: (1) theoretical grounding of the constructs; (2) construction of the first version of two instruments; (3) expert validation using the Content Validity Index (CVI), adopting >0.80 as the minimum acceptable value per item; (4) content and face validation by specialist judges; and (5) pilot testing after adjustments recommended by the experts. The final instrument was structured using a Likert-type scale.
Results: Thirteen expert judges, all nurses, participated in the content validation process. The instrument demonstrated strong content and appearance validity, with S-CVI/Ave values of 0.93 for the hypertension instrument and 0.94 for the diabetes instrument. The final version showed applicability in Primary Health Care consultations, enabling the identification of self-care patterns among individuals with Systemic Arterial Hypertension and/or Diabetes Mellitus.
Conclusion: The instruments achieved high content validity across most evaluation criteria, with aesthetic aspects corrected during the validation process. The study supports the use of these tools for self-care stratification in routine Primary Health Care, contributing to improved assessment and management of individuals with hypertension and diabetes.
DESCRIPTORS:
Hypertension; Diabetes mellitus; Self-care; Health promotion; Psychometrics; Validation study
RESUMEN
Objetivo: Desarrollar y validar un instrumento informatizado para la estratificación del autocuidado de personas con Hipertensión Arterial Sistémica y/o Diabetes Mellitus.
Métodos: Se realizó un estudio metodológico basado en el marco psicométrico de Pasquali. El proceso de desarrollo incluyó cinco etapas: (1) fundamentación teórica de los constructos; (2) construcción de la primera versión de dos instrumentos; (3) validación por expertos mediante el Índice de Validez de Contenido (IVC), adoptando >0,80 como valor mínimo aceptable por ítem; (4) validación de contenido y apariencia por jueces especialistas; y (5) prueba piloto después de los ajustes recomendados por los expertos. El instrumento final fue estructurado con una escala tipo Likert.
Resultados: Participaron 13 jueces especialistas, todos enfermeros. El instrumento presentó elevada validez de contenido y apariencia, con valores de S‑CVI/Ave de 0,93 para el instrumento de hipertensión y 0,94 para el de diabetes. La versión final mostró aplicabilidad en las consultas de la Atención Primaria de Salud, permitiendo identificar los patrones de autocuidado de personas con Hipertensión Arterial Sistémica y/o Diabetes Mellitus.
Conclusión: Los instrumentos alcanzaron altos índices de validez de contenido en la mayoría de los criterios evaluados, con excepción de los aspectos estéticos, que fueron corregidos durante el proceso de validación. El estudio respalda el uso de estas herramientas para la estratificación del autocuidado en la práctica rutinaria de la Atención Primaria de Salud, contribuyendo a una mejor evaluación y manejo de personas con hipertensión y diabetes.
DESCRIPTORES:
Hipertensión; Diabetes mellitus; Autocuidado; Promoción de la salud; Psicometría; Estudio de validación
INTRODUÇÃO
As condições crônicas consistem em quadros de saúde que precisam de um seguimento mais ou menos longo ou per manente, que exigem respostas e ações contínu as, proativas e integradas do sistema de atenção à saúde, dos profissionais de saúde e das pesso as usuárias para o seu controle efetivo1.
Cabe ressaltar que as condições crônicas não são análogas às doenças crônicas não transmissíveis (DNCT). Apesar de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes mellitus (DM), hipertensão arterial sistêmica (HAS), problemas respiratórios e musculoesqueléticas, se configurarem como condições crônicas, há outras condições, tais como os fatores de risco individu ais biopsicológicos, as doenças transmissíveis como HIV/aids, tuberculose, hanseníase e certas hepatites virais, que se caracterizam como crônicas, dado o seu longo curso e demanda das pessoas afetadas, profissionais e serviços de saúde2-3.
Estima-se que, por ano, as DCNT sejam responsáveis por 41 milhões de óbitos em todo o mundo4. No Brasil, 30% da população com idade superior a 18 anos, possui pelo menos uma DCNT5 e até 76% dos óbitos são consequências das DCNT6. Estudo realizado nas capitais brasileiras, identificou que a HAS e o DM destacaram-se como as principais DCNT que afligem a população, distribuindo-se de modo homogêneo por todo o território nacional7. Juntamente, a maior parte das condições crônicas progridem com o aumento da idade, em pessoas da cor branca, com baixa escolaridade e residentes da área urbana5.
As DCNT têm consequências que excedem os indivíduos acometidos, abarcando as famílias e a comunidade, além de sobrecarregar os sistemas de saúde4,8.O princípio fundamental para a concretização da assistência em conformidade com as necessidades e demandas de saúde das pessoas e enfrentamento das DCNT se refere à oferta do cuidado que promova informação oportuna, apoio e monitoramento, favorecendo a adesão, a corresponsabilização do cuidado e o autocuidado, e, consequentemente, resultando em melhor qualidade de vida das pessoas9.
Nessa perspectiva, a assistência às condições crônicas deve ser pautada na individualidade e na especificidade de cada indivíduo, destacando o cuidado centrado na pessoa, o qual tem como um dos princípios, incorporar o indivíduo como parte e partícipe do seu processo de saúde-doença10.
O manejo das condições crônicas deve ocorrer em todos os pontos da Rede de Atenção à Saúde (RAS), no entanto, cabe enfatizar o papel atribuído à Atenção Primária à Saúde (APS). A APS configura-se como o serviço mais acessível à comunidade, além do manejo clínico, engloba elementos relacionados à prevenção, promoção e educação em saúde como componentes do seu processo de trabalho uma vez que as DCNTs continuam sendo a principal causa de morte e incapacidades10.
Nesse contexto, a adesão da pessoa ao autocuidado auxilia a oportunizar ações que qualifiquem o cuidado de acordo com o perfil e as particularidades de cada um, promovendo ações individuais (método clínico centrado na pessoa, projeto terapêutico singular, entrevista motivacional) e em grupo (compreensão, problematização, grupos operativos, grupos terapêuticos), utilização de recursos educativos no auxílio e aderência às medidas de controle farmacológico e não farmacológico para orientar, motivar e educar a pessoa e a família11.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define o autocuidado, como a habilidade de indivíduos, famílias e comunidades para promover saúde, prevenir doenças, manter a saúde e lidar com condições incapacitantes, com ou sem o suporte de um profissional de saúde4. Refere-se à capacidade do próprio indivíduo em realizar ações que visam à preservação de sua saúde, ao seu desenvolvimento e bem-estar, ou seja, é uma ação da pessoa, desenvolvida em situações concretas da vida, para si mesmo ou para regular os fatores que afetam o seu próprio desenvolvimento, atividades em benefício da vida, saúde e bem-estar12.
O autocuidado de indivíduos em condições crônicas de saúde costuma implicar em mudanças de estilo de vida que são necessárias para minimizar complicações e promover melhora na sintomatologia, como manter uma alimentação adequada e saudável, praticar atividade física regularmente, utilizar de modo regular os medicamentos prescritos, dentre outras ações12. Entretanto, a literatura mostra que a adesão terapêutica para as condições crônicas no Brasil é baixa (45,5%)13.
Diversos métodos de avaliação do autocuidado são mencionados na literatura, porém muitos desses métodos não consideram todos os aspectos da doença, atentando-se para a adesão ao tratamento farmacológico e não levando em conta a importância da equipe multiprofissional, o conhecimento sobre a doença e os efeitos colaterais do tratamento, assim como a aceitação da condição de saúde pelo próprio indivíduo14-17.
O autocuidado apoiado é a abordagem que promove o empoderamento das pessoas, oferecendo informações e orientações para que possam gerir a sua saúde e qualidade de vida de forma independente. O autocuidado apoiado envolve os pacientes no manejo de sua própria condição, engajando-os na discussão sobre o diagnóstico e opções de tratamento, desenvolvendo conjuntamente um plano de autocuidado, direcionado através da estratificação do autocuidado18, por meio da avaliação do estado de saúde, elaboração de planos de cuidado e monitoramento contínuo, utilizando-se dos recursos das organizações de saúde e da comunidade para fornecer esse apoio19.
Destarte, este estudo visa desenvolver um instrumento para a estratificação do autocuidado de indivíduos com HAS e DM. Para tanto, realizou-se o seguinte questionamento: Como a construção e validação de instrumentos informatizados para a estratificação do autocuidado auxiliará os profissionais de saúde no manejo das pessoas com HAS e DM? Então, objetivou-se elaborar um instrumento informatizado para a estratificação do autocuidado de pessoas com HAS a e/ou DM.
MÉTODO
Local e participantes do estudo
O estudo contou com a participação de profissionais de saúde que atuavam na APS nos municípios pertencentes a 15ª Regional de Saúde do Paraná (RSPR) que está localizada no norte central do Estado. A 15ª RSPR é composta por 31 municípios e por aproximadamente 850 mil habitantes20. Durante a preparação desta pesquisa os autores não utilizaram ferramentas de Inteligência Artificial.
Os profissionais, enfermeiros, pertencentes as APS da 15ª RSPR, atuaram como avaliadores (juízes) do instrumento desenvolvido. Foram selecionados apenas enfermeiros como avaliadores, visto que o atendimento inicial na APS é realizado por esses profissionais. Após essa avaliação inicial, com as necessidades identificadas, os pacientes são encaminhados aos demais profissionais.
Os critérios de elegibilidade adotados foram: inclusão - ser enfermeiro, atuar na APS há pelo menos um ano ou ter experiência de pelo menos um ano na APS; excluíram-se os indivíduos que estavam de férias e/ou licença no momento da coleta de dados.
Protocolo do estudo
Trata-se de um estudo metodológico para o desenvolvimento e validação de um instrumento para estratificar o autocuidado de pessoas com HAS e/ou DM. O estudo foi desenvolvido em cinco etapas, por meio do modelo metodológico de Pasquali (2010)21, divididos em três grandes pólos, denominados de procedimentos teóricos (1 - teoria e 2 - construção dos itens do instrumento), empíricos (3 - processo de validação) e analíticos (4 - validação do instrumento e 5 - normalização)21.
No procedimento teórico, a construção e validação seguiu a sistemática: 1) Teoria: para a fundamentação teórica dos instrumentos, na qual utilizou-se como base conceitual as linhas guias de cuidado para HAS e DM do Estado do Paraná e Ministério da Saúde11,22. Para a apresentação e organização, foi utilizado como base o instrumento elaborado e validado, em sua versão traduzida e adaptada para português Summary of Diabetes Self-Care Activities de Toobert, Hampson, Glasgow (2000)23, por Bastos, Severo e Lopes (2007)24, e o instrumento validado por Mendonça e colaboradores (2016)25.
Na segunda etapa, construiu-se a primeira versão de dois instrumentos, um sobre o autocuidado de pessoas com DM e outro com HAS, elaborou-se 25 questões específicas para a estratificação do autocuidado de pessoas com DM, divididos em três grandes constructos: I - Identificação do perfil de autocuidado individual (cinco perguntas); II - Estratificação do autocuidado individual (10 perguntas); III - Perfil individual clínico, bioquímico e antropométrico - nos últimos seis a 12 meses (10 perguntas); e Elaborou-se 23 questões para a estratificação do autocuidado de pessoas com HAS, dispostas nos mesmos constructos supracitados, dividindo-se em: I - (seis questões); II - (nove questões); e III - (oito questões). O instrumento foi elaborado utilizando-se a ferramenta Word®.
As respostas foram do tipo likert, sendo: 1 - Nenhum; 2 - Um a dois; 3 - Três a quatro; 4 - Cinco a seis; e 5 - Todos os dias, indicando a frequência de vezes que determinada ação de autocuidado é realizada (Ex: nunca, raramente, às vezes, muitas vezes, sempre). A partir das respostas, foi realizado um cálculo de escore para indicar se o autocuidado do paciente em relação ao tema de Diabetes ou HAS é Excelente, Bom, Moderado ou Ruim. Para o cálculo de escore, ocorre a soma das pontuações e a estratificação do autocuidado deste indivíduo a partir das seguintes notas de corte conforme Quadro 1.
Após a construção da primeira versão do instrumento na terceira etapa, para o processo de validação, procedimento empírico, foi realizado o recrutamento dos especialistas, seguindo as recomendações de Pasquali21, considerando-se um número mínimo de sete juízes. O contato foi repassado pelo coordenador responsável pelo serviço de educação continuada, da 15ª RSPR. O convite se deu por meio de e-mail, contendo o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), o instrumento elaborado, um questionário de avaliação no formato Word® e instruções de como realizar o processo de avaliação. O convite foi enviado a 52 enfermeiros de diferentes Unidades Básicas de Saúde pertencentes a 15ª RSPR, destes 13 (25% de adesão) aceitaram participar.
Na quarta etapa, que corresponde ao pólo analítico, conduziu-se a validação de conteúdo e aparência pelos juízes especialistas. O questionário de avaliação foi composto por duas partes: 1 - Caracterização do juiz (sexo, idade, formação profissional, titulação, atuação e município); 2 - Avaliação do conteúdo (seis questões). Para o preenchimento do questionário, os juízes deveriam indicar o nível de adequação de cada questão, utilizando-se uma escala do tipo Likert com pontuações que variavam de 1 a 4, sendo: 1-Totalmente adequado; 2-Adequado; 3-Parcialmente adequado; 4-Inadequado. Além de dispor de 12 atributos para cada questão, sendo: Objetividade, Amplitude, Comportamento, Credibilidade, Equilíbrio, Modalidade, Precisão, Relevância, Tipicidade, Variedade, Clareza e Simplicidade21.
Para a análise do instrumento, foi realizada uma estatística descritiva de cada tema, bem como dos atributos direcionados a cada uma das questões. Uma tabela resumo dos atributos foi construída, contendo a frequência e o percentual médio de quantos profissionais apontaram a presença de determinado atributo entre as questões. Já para as perguntas de escala Likert, foram construídas também tabelas de concordância entre os profissionais, bem como o cálculo do IVC-I (Índice de Validade de Conteúdo) e UA (Acordo Universal), de forma a mensurar o quanto o instrumento está adequado pelo ponto de vista dos experts.
Para o cálculo do IVC-I, primeiramente há uma recodificação das questões, atribuindo-se 1 quando os profissionais apontaram a questão como Totalmente adequada ou Adequada e 0 quando a questão foi apontada como Parcialmente adequada ou Inadequada. A partir disso, conta-se quantos profissionais estiveram em concordância para cada questão, ou seja, quantas vezes o número 1 apareceu. O cálculo do IVC-I utiliza a quantidade de profissionais em concordância dividida pela quantidade de profissionais utilizados no estudo. Ao final, o S-IVC/Avg consiste na média das pontuações de IVC-I obtidas em todas as questões. Considera-se um índice de concordância a partir de 80% como parâmetro de validade26.
Já a medida de UA é referente à unanimidade entre os profissionais, também chamada de Acordo Universal, calculada do seguinte modo: para cada questão, é indicado o valor 0 ou 1. O valor 1 só pode ser utilizado se todos os profissionais apontaram que a determinada questão está Totalmente adequada ou Adequada, ou seja, os 13 profissionais precisavam ter pontuado a questão dentro destas classificações para que a pergunta receba o valor 1. Para o índice de S-IVC/UA, soma-se quantas questões receberam o valor 1 e divide-se pelo total de questões avaliadas.
O prazo para devolução da avaliação foi de 15 dias corridos, entretanto o retorno ocorreu entre sete e 20 dias. Foram necessárias duas rodadas de avaliações, utilizando-se os princípios da técnica de Delphi27. Reitera-se que os mesmos juízes participaram de ambas as etapas.
Na quinta etapa, após adequação do instrumento com as sugestões dos juízes, conduziu-se um teste piloto, a fim de estruturar o instrumento, com uma amostra composta por 31 pacientes, os quais foram contatados a partir de um agendamento na Unidade Básica de Saúde (UBS) de sua área adstrita. Os critérios de inclusão foram: ter diagnóstico de DM e/ou HAS, idade superior a 18 anos e ser usuário de qualquer UBS pertencente a 15ª RSPR. Excluíram-se os indivíduos que não compareceram no dia agendado. O instrumento foi aplicado pela pesquisadora principal deste estudo, que está em nível de doutoramento, com experiência nesta área do conhecimento.
RESULTADOS
A validação de conteúdo do instrumento se deu por meio de 13 juízes especialistas, todos enfermeiros, sendo 92,3% (n=12) do sexo feminino, a idade variou de 28 a 58 anos (média de 35,5 anos), o tempo de formação foi de 04 a 37 anos (média de 12 anos), 38,5% (n=5) eram doutores e 23,1% (n=3) mestres. Dos especialistas, 46,2% (n=4) eram docentes os demais atuavam na APS.
Após o processo de validação, na primeira rodada, notou-se que o instrumento, em geral, atingiu-se bons índices de IVC-I. Entretanto, ressalta-se que as questões: O instrumento é apresentado de modo claro e objetivo (DM e HAS); O instrumento está bem estruturado em concordância e ortografia (DM) e O instrumento está esteticamente adequado (DM e HAS) apresentaram um índice abaixo de 0,80, sendo corrigido. Apesar de estas questões, o S-IVC/Avg resultou em um valor de 0,81(Tabela 1).
As sugestões dos juízes concentraram-se em 15 questões (31,25%, n=48), os quais tiveram o objetivo de melhorar a compressão dos profissionais e pacientes. Cabe salientar, que todas as sugestões foram acatadas e estão descritas no Quadro 2.
Sugestões realizadas pelos juízes nas perguntas dos Instrumento de estratificação do autocuidado de pessoas com Diabetes Mellitus e Hipertensão Arterial Sistêmica. Maringá, PR, Brasil, 2024. (n= 13)
Após a adequação do instrumento com as sugestões dos especialistas, realizou-se uma segunda rodada de avaliação, obtendo-se 100% de adesão dos 13 juízes que participaram inicialmente do processo de validação. No instrumento referente ao autocuidado de pessoas com HAS, apenas duas questões apresentaram um IVC-I inferior a 0,80. Entretanto, o S-IVC/Avg foi de 0,93, sendo considerado validado em seu conteúdo e aparência (Tabela 2).
No instrumento de estratificação do autocuidado de pessoas com DM, também apenas duas questões não alcançaram o IVC-I acima de 0,80, o S-IVC/Avg foi de 0,94, sendo considerado validado em seu conteúdo e aparência (Tabela 3).
DISCUSSÃO
A estratificação do autocuidado para as pessoas com HAS e DM consiste em um pilar para o controle destas condições crônicas e suas complicações. Sabe-se que o autogerenciamento da DM tipo 2 e da HAS possui pontos em comum, ambos requerem a adesão a terapia medicamentosa, manutenção de uma dieta saudável, prática de exercícios regulares, cessação tabágica e do álcool28.
Nesse sentido, estratificar o autocuidado, implica em reconhecer que cada pessoa possui diferentes níveis de vulnerabilidade e, portanto, necessidades diferentes29. A partir da estratificação do autocuidado, pode-se conhecer quem e quantos são os casos de baixo, moderado e alto risco para o autocuidado. Cada nível tem necessidades diferentes, especialmente relacionadas a frequência dos atendimentos. Ao estratificar, pode-se organizar a oferta de intervenções dispensadas pelas equipes de saúde e o fluxo deste indivíduo na Rede de Atenção à Saúde30. Nessa perspectiva, os resultados deste estudo têm potencial para qualificar e ordenar a assistência dispensada a população com HAS e DM, por permitir elaborar planos terapêuticos que são estruturados a partir das reais demandas de cada usuário.
A construção de instrumentos na área da saúde proporciona evolução das competências técnico científicas para a assistência e, consequentemente, para a segurança do paciente à medida que proporciona evidências científicas para o fazer profissional21. Os profissionais de saúde são desafiados a aplicar as melhores evidências disponíveis em seus padrões de prática, o que pode ser um processo complexo. A falta de conhecimento, habilidades, atitudes, autoeficácia e comportamento da prática baseada em evidências consistem em barreiras que devem ser mensuradas por meio de instrumentos válidos e confiáveis para a população em questão31.
Nesse sentido, o instrumento construído e validado configura-se como uma ferramenta estratégica capaz de estratificar o autocuidado de pessoas com HAS e/ou DM. Deste modo, o modelo proposto por Pasquali21 se mostrou adequado para a construção do instrumento, visto que possui metodologia robusta que permite a construção de instrumentos que avaliam o comportamento humano, que muito reflete nas escolhas e atitudes de saúde.
Uma abordagem clínica a partir da estratificação do autocuidado, conduzida pela equipe de saúde, além de centralizar a atenção ao indivíduo e a família, colabora na tomada de decisão com recomendações individualizadas, implicando em condutas mais assertivas32. Nesse contexto, a APS desempenha papel fundamental no manejo da HAS e do DM, por articular diversas ações e serviços disponíveis na rede (referência e contrarreferência), contribuindo para a assistência longitudinal e resolutiva das pessoas com condições crônicas33.
O instrumento pode ser aplicado na rotina de atendimento pelas equipes da APS, seja nas consultas programadas ou espontâneas, pautando-se na estratificação do autocuidado e no controle dos níveis glicêmicos e pressóricos. Ressalta-se a importância do vínculo entre os profissionais e o usuário, a fim de suscitar uma participação ativa e responsável no processo saúde-doença33.
Entretanto, evidencia-se que as condutas relacionadas ao autocuidado ainda são insipientes34. Evidenciando a necessidade de fortalecer os sistemas de apoio aos pares referente às ações de prevenção de doenças e promoção da saúde centradas na pessoa, visando o controle de fatores de risco modificáveis e comportamentais que incidem sob os níveis glicêmicos e pressóricos32,34.
O emprego dos instrumentos elaborados permite detectar, principalmente, a inabilidade do usuário para o autocuidado de indivíduos cujo ponto central para o controle de sua doença, consiste justamente em ações que suscitem a mudança no estilo de vida32. Para tanto, faz-se necessário que os profissionais, a partir dos riscos identificados, orientem os usuários e suas famílias, sobre a doença, complicações e tratamento para que possam assumir um papel ativo na promoção do autocuidado em todas as visitas aos serviços de saúde35-38.
A educação em saúde consiste em um dos determinantes mais importantes para facilitar a mudança nas práticas de autocuidado. O aconselhamento e a educação em saúde dispensada pelos profissionais não apenas melhoram o conhecimento da população, mas representam uma fonte de encorajamento para a mudança no estilo de vida. Estudo qualitativo desenvolvido no Paquistão, identificou que as pessoas com DM reconheceram e valorizaram as orientações recebidas pela equipe de saúde em relação à adesão à medicação e à adoção de uma alimentação mais saudável, sendo mais propensas a modificarem seu comportamento quando o tema foi constantemente abordado nas consultas39.
Como limitação, reitera-se a dificuldade de adesão dos profissionais de saúde para participar do processo de validação. Neste estudo apenas 25% dos juízes contactados compuseram a amostra, sendo necessário o envio de um segundo e-mail solicitando a participação no estudo, o que aumentou o prazo inicial conferido a resposta (15 dias). Também, os instrumentos apresentaram um S-IVC/Avg abaixo de 0,80 no quesito estética, essa divergência pode ter ocorrido, em parte, pelo modo como foi enviado aos juízes, sendo corrigido na segunda rodada, o que refletiu no S-IVC/Avg geral dos instrumentos.
Apesar destas limitações, o instrumento elaborado foi validado em seu conteúdo e aparência, apresentando um S-IVC/Avg acima de 0,80 (0,93 para HAS e 0,94 par DM). Reitera-se que os instrumentos elaborados devem ser aplicados pelos profissionais de saúde, não devendo ser auto aplicados, a fim de favorecer o melhor entendimento pela população e detectar, mais precisamente e precoce possível, o nível do autocuidado. A estratificação do autocuidado de pessoas com HAS e DM contribui para o (re)direcionamento de intervenções que sejam sensíveis as reais necessidades da população atendida, podendo impactar positivamente na melhora da qualidade de vida e bem-estar, além do potencial para reduzir os custos com a saúde por complicações.
CONCLUSÃO
O objetivo deste estudo foi contemplado, os instrumentos foram validados em seu conteúdo e aparência com um S-IVC/Avg superior a 0,80, sendo 0,93 para o risco de autocuidado de pessoas com HAS e 0,94 para o risco de autocuidado de pessoas com DM. Foram necessárias adequações de alguns itens, em concordância com as sugestões dos juízes.
Enfatiza-se que é difícil conduzir políticas públicas, avaliar a diretriz de tratamento, projetar e planejar intervenções para pacientes com condições crônicas quando não se sabe o nível do autocuidado. Assim, a partir dos produtos deste estudo, pode-se fomentar a estratificação do autocuidado de pessoas com HAS e DM, podendo ser aplicada em todas as consultas conduzidas na APS, a fim de estruturar e direcionar as ações no sentido de atender a demanda desta população, evitando-se as agudizações, complicações e internações hospitalares.
Acredita-se que a utilização desses instrumentos por profissionais da APS favorecerá a identificação do padrão de autocuidado, direcionando o manejo do atendimento com foco na ampliação da corresponsabilização, na oferta de cuidado centrado na pessoa e na consequente obtenção de melhores parâmetros de saúde e qualidade de vida. Entende-se, ainda, que no que tange à organização dos serviços de saúde, a implementação dos instrumentos tem potencial de contribuir para a otimização dos recursos pessoais e de tempo, ampliando a capacidade de atuação dos serviços da APS em âmbito individual e coletivo.
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NOTAS
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ORIGEM DO ARTIGO
Extraído da tese- Construção e validação de um instrumento eletrônico para estratificação do autocuidado de pessoas com hipertensão arterial e/ou diabetes mellitus, apresentada ao Programa de Pós-Graduação de Enfermagem, da Universidade Universidade Estadual de Maringá, 2025.
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APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Maringá, parecer nº 4.891.941 de 07 de agosto de 2021, sob CAE 46644321.8.0000.0104.
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DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
Editado por
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