Open-access ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM PERIOPERATÓRIA AO ADOLESCENTE: SCOPING REVIEW

RESUMO

Objetivo:  mapear a produção científica da enfermagem perioperatória voltada para o adolescente.

Método:  revisão de escopo baseada nas orientações do JBI e recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Review and Meta-Analyses for Scoping Reviews. A busca ocorreu entre os meses de fevereiro e março de 2023 em 05 bases de dados e na literatura cinzenta.

Resultados:  foram incluídos 19 estudos, sendo 13 artigos e 6 trabalhos da literatura cinzenta. Os resultados demonstraram a importância de sistematizar a assistência de enfermagem ao adolescente com ações que visem incluí-los no cuidado e prepará-los para sua trajetória cirúrgica com vistas à redução da ansiedade e respeito às individualidades. Ações como uso de terapias integrativas e complementares, inserção de tecnologias educativas e adequação do ambiente para adolescentes neuroatípicos também foram identificadas. Como lacuna observa-se a escassez de estudos voltados especificamente para o público adolescente, englobando o cuidado deste à população pediátrica.

Conclusão:  a revisão de escopo mapeou os estudos produzidos pela enfermagem acerca da assistência perioperatória ao adolescente, e indicou uso de estratégias para individualizar o cuidado, reduzir a ansiedade perioperatória e favorecer o engajamento e envolvimento do paciente cirúrgico. Faz-se necessário ampliar a realização de estudos e intervenções que sejam específicas ao público adolescente.

DESCRITORES:
Saúde do adolescente; Assistência perioperatória; Enfermagem médico cirúrgica; Individualização do paciente; Centro cirúrgico

ABSTRACT

Objective:  To map the scientific production of perioperative nursing aimed at adolescents.

Method:  A scoping review based on JBI guidelines and recommendations from the Preferred Reporting Items for Systematic Review and Meta-Analyses for Scoping Reviews. The search took place between February and March 2023 in 05 databases and in gray literature.

Results:  Nineteen studies were included, 13 articles and 6 works from gray literature. The results demonstrated the importance of systematizing nursing care for adolescents with actions that aim to include them in care and prepare them for their surgical trajectory with a view to reducing anxiety and respecting individualities. Actions such as the use of integrative and complementary therapies, insertion of educational technologies and adaptation of the environment for neuroatypical adolescents were also identified. As a gap, there is a lack of studies specifically aimed at adolescents, encompassing their care for the pediatric population.

Conclusion:  The scoping review mapped studies produced by nursing on perioperative care for adolescents and indicated the use of strategies to individualize care, reduce perioperative anxiety and promote engagement and involvement of surgical patients. It is necessary to expand the number of studies and interventions that are specific to adolescents.

DESCRIPTORS:
Adolescent health; Perioperative care; Medical-surgical nursing; Constitutional diagnosis; Surgicenters

RESUMEN

Objetivo:  Mapear la producción científica de enfermería perioperatoria dirigida a adolescentes.

Método:  Revisión de alcance basada en las pautas y recomendaciones del JBI de los Preferred Reporting Items for Systematic Review and Meta-Analyses for Scoping Reviews. La búsqueda se realizó entre los meses de febrero y marzo de 2023 en 05 bases de datos y en literatura gris.

Resultados:  Se incluyeron 19 estudios, 13 artículos y 6 trabajos de literatura gris. Los resultados demostraron la importancia de sistematizar los cuidados de enfermería a los adolescentes con acciones encaminadas a incluirlos en el cuidado y prepararlos para su trayectoria quirúrgica, con miras a reducir la ansiedad y respetar las individualidades. También se identificaron acciones como el uso de terapias integradoras y complementarias, inserción de tecnologías educativas y adaptación del entorno para adolescentes neuroatípicos. Como brecha, faltan estudios dirigidos específicamente a adolescentes, abarcando la atención a la población pediátrica.

Conclusión:  La revisión del alcance mapeó los estudios producidos por enfermería sobre los cuidados perioperatorios para adolescentes e indicó el uso de estrategias para individualizar los cuidados, reducir la ansiedad perioperatoria y favorecer el compromiso y la implicación de los pacientes quirúrgicos. Es necesario ampliar la realización de estudios e intervenciones específicas para el público adolescente.

DESCRIPTORES:
Salud de los adolescentes; Atención perioperativa; Enfermería médico-quirúrgica; Diagnóstico constitucional; Centros quirúrgicos

INTRODUÇÃO

Os adolescentes simbolizam uma grande parcela da população mundial. Na Europa apesar da crescente diminuição da percentagem de pessoas nesta faixa etária, estes ainda representam uma parte importante da estrutura populacional. Na região das Américas estima-se que em 2030 teremos cerca de 230 milhões de adolescentes1-2.

Aproximadamente 5 a 20% da população pediátrica mundial passará por uma cirurgia antes de se tornar adulta3. Os adolescentes submetidos a cirurgia possuem em sua maioria condições crônicas de saúde ou foram vítimas de lesões acidentais ou induzidas4. Destaca-se ainda um aumento de procedimentos cirúrgicos estéticos nesta população5.

A adolescência é uma fase em que ocorrem alterações físicas, cognitivas e sociais que se correlacionam com a consolidação das noções de autocuidado e da busca de identidade6. Na trajetória cirúrgica o adolescente perde temporariamente o autocontrole e autonomia, uma vez que dependerá do auxílio de outras pessoas para realizar as atividades de vida diária, como higiene, alimentação e movimentação7. Tal situação é fonte de estresse e preocupação para esta clientela, que se vê compelida a renunciar à independência que tanto almeja. Além disso, ressalta-se que 80% dos pacientes adolescentes que serão submetidos à cirurgia apresentam ansiedade, o que impacta ainda mais na sua recuperação e experiência de cuidado8.

Os adolescentes desejam se engajar em seu tratamento, receber informações sobre sua cirurgia, anestesia, benefícios e possíveis complicações, contudo, nem sempre são inseridos nesta perspectiva. Por estarem na transição entre a infância e a idade adulta, muitas vezes seus desejos e necessidade de autonomia são desconsiderados pelos profissionais de saúde, incluindo enfermeiros3.

A enfermagem perioperatória é uma das responsáveis por preparar e assistir estes pacientes e neste contexto, há que se considerar que comportamentos de risco fazem parte desta fase, o que acrescenta uma maior complexidade à assistência ofertada6. Importante destacar o aumento de adolescentes com transtorno mental que fazem uso de psicotrópicos, de pacientes neuroatípicos, além do risco de gravidez, doenças sexualmente transmissíveis e dependência de drogas ilícitas6.

O cuidado do enfermeiro perioperatório de forma generalizada é amplamente discutido nos periódicos nacionais e internacionais, contudo considera-se importante identificar como se dá a assistência cirúrgica ao adolescente diante da existência de necessidades distintas da clientela adulta. Desta forma, compreende-se ser relevante mapear a produção científica da enfermagem perioperatória voltada para o adolescente, por acreditar que o levantamento destas informações indicará o caminho percorrido no cuidado a este público e possibilitará identificar os desafios existentes e potencialidades a serem desenvolvidas para assistir a esta população.

Não foram encontrados estudos ou protocolos publicados semelhantes a presente revisão em busca realizada nas bases de dados: Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Medline via PubMed, Cochrane, Scopus, Web of Science.

Portanto, este estudo pretende mapear a produção científica a respeito da assistência de enfermagem perioperatória ao adolescente.

MÉTODO

Trata-se de um estudo de revisão de escopo, com base nas recomendações do JBI e do Preferred Reporting Items for Systematic Review and Meta-Analyses for Scoping Reviews8-9, com protocolo registrado no Open Science Framework (https://osf.io/vgjbd). O estudo seguiu cinco etapas: identificação da questão de pesquisa; dos estudos relevantes; seleção dos estudos; análise dos dados; agrupamento síntese e a apresentação dos achados9.

A pergunta de pesquisa foi delineada a partir da estratégia PCC, onde “P” refere-se aos Participantes (adolescentes na faixa etária de 10 a 19 anos), “C” ao Conceito, isto é, assistência perioperatória de enfermagem ao adolescente e “C” ao Contexto, o período perioperatório. Assim, a questão a ser respondida pela presente revisão foi: Qual a produção científica de enfermagem sobre a assistência perioperatória ao adolescente entre 10 e 19 anos de idade? A faixa etária foi delimitada a partir do conceito de adolescência definido pela Organização Mundial de Saúde1.

Foram incluídos estudos originais e da literatura cinzenta que abordam a assistência de enfermagem perioperatória ao adolescente, em qualquer idioma, produzidos a partir de 1990. O recorte temporal foi proposto baseado na data de publicação da “Convenção sobre os Direitos da Criança” adotada pela Assembleia Geral da ONU em 20 de novembro de 1989. Trata-se de acordo internacional que visa proteger os direitos das crianças e dos adolescentes10.

Foram excluídos estudos do tipo editoriais, anais, revisões narrativas, entrevistas ou estudos que não abordassem diretamente o tema de pesquisa, haja vista que editoriais e entrevistas representam opiniões de especialistas ou não sobre alguma temática, a revisão narrativa pode oferecer uma visão enviesada da literatura produzida e anais não são avaliados por pares, o que também pode gerar um olhar enviesado. Além disso, excluiram-se estudos que não abordavam a atuação da enfermagem na assistência específica ao adolescente e que apresentavam uma avaliação geral por meio de uma abordagem em conjunto com a população adulta.

As buscas foram realizadas entre os meses de fevereiro e março de 2023 e ocorreram nas bases de dados: Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Medline via PubMed, Cochrane, Scopus, Web of Science. A busca na literatura cinzenta incluiu os repositórios de teses e dissertações: Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações - BDTD, Catálogo de Teses e Dissertações da Capes, Networked Digital Library of Theses and Dissertations - NDLTD, E-Theses Online Services - Ethos, Red de Repositório Latino Americano, Repositório Científico de Acesso aberto de Portugal - ACAAP e Google Scholar, sendo que nesta última foram visitados os cem primeiros trabalhos disponibilizados.

Em uma primeira etapa procedeu-se à identificação de palavras chaves e descritores que contemplassem a temática abordada por meio de busca nas bases de dados indexados. Em seguida realizou-se uma consulta bibliotecária para a definição das estratégias de busca e bases que fariam a composição da revisão.

No Quadro 1 são apresentadas as estratégias de busca nas bases de dados.

Quadro 1-
Expressões das buscas nas bases de dados. Divinópolis, MG, Brasil, 2023.

Os descritores na literatura cinzenta utilizados foram: Adolescência e Cirurgia com seus respectivos correspondentes em inglês, adolescence AND Surgery.

O processo de seleção, extração e revisão dos dados foi realizado por dois investigadores de forma independente. As seguintes informações foram extraídas dos manuscritos: título do artigo, ano de publicação, país, tipo de estudo, especialidade cirúrgica e principais desfechos. Foi realizado um teste piloto em cinco artigos para verificar a adequação do instrumento, mantendo-se a versão inicialmente idealizada.

A busca e extração dos dados dos estudos incluídos na revisão foi realizada por dois revisores de forma independente e desacordos foram resolvidos por um terceiro revisor. Para o gerenciamento de duplicatas utilizou-se o Rayyan do Qatar Computing Research Institute.

Os resultados foram agrupados de acordo com as informações extraídas dos estudos e apresentados de forma descritiva por meio de quadros.

Além disso, foi utilizado uma análise com base na estratégia PAGER: Padrões, Avanços, Lacunas, Evidências para a prática e Recomendações de pesquisa. A estrutura PAGER fornece uma abordagem consistente para a análise e o relato das descobertas da revisão11.

RESULTADOS

Foram encontrados 350 estudos nas bases de dados avaliadas. Posteriormente a revisão e detecção de duplicatas, permaneceram 260 manuscritos para avaliação de título e resumo. Após a leitura do título e resumo, 47 trabalhos seguiram para leitura na íntegra. Ao final foram incluídos 19 estudos na presente revisão, sendo 13 artigos e 6 trabalhos da trabalhos de literatura cinzenta conforme apresentado na Figura 1.

As principais causas de exclusão foram: não abordar diretamente o tema de pesquisa (1), não se enquadrar na faixa etária estabelecida (15), anais e entrevistas (2), tempo de publicação (3), ou ainda artigos que foram perdidos mesmo com a tentativa de acesso (5). No que tange a literatura cinzenta, foram excluídos 165 trabalhos que não abordaram a temática de pesquisa, sendo Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações - BDTD (69), Catálogo de Teses e Dissertações da Capes (18), Red de Repositório Latino-Americano (6), Repositório Científico de Acesso aberto de Portugal - ACAAP (42) e Google Scholar (30) conforme apresentado.

Figura 1 -
Fluxograma Preferred ReportingItems for Systematic Reviews and MetaAnalyses (PRISMA) do processo de inclusão dos estudos

Os países com maior número de publicação foram Portugal12,24,26-29,30 (7; 33,3%), Brasil13,17,22-25 (6; 28,5%) e EUA19-20,31 (3; 14,3%). As especialidades cirúrgicas mais frequentes foram cirurgia geral15-18,21,23 (6; 28,6%), neurocirurgia29,32(2; 9,5%) e cirurgia plástica25,27 (2; 9,5%), e, nove14,19,20,22,24,26,28,30,31 (47,3%) não especificaram a especialidade cirúrgica. A maior parte dos estudos foi publicada nos últimos cinco anos14-18,20,23-25(9; 42,8%), seis19-21,26,29,32 (31,57%) há mais de uma década e quatro22,27-28,30 (9,5%) de cinco a dez anos. A maioria contemplou todo período perioperatório14-15,18,21,23-24,26-27,29-32 (12; 57,14%), em que para o pré-operatório17,19-20(3; 14,28%), e pós-operatório16,25,28 (3; 14,28%), embora um22 (5,26%) não definiram o período.

A maioria dos estudos aborda intervenções que englobam além da adolescência a faixa pediátrica 01 a 18 anos14-27 e apenas seis (28,6%) abordaram a assistência somente ao público adolescente28-33.

Os principais achados serão apresentados de forma descritiva conforme Quadro 2.

Quadro 2-
Quadro síntese dos principais resultados e indicações dos artigos analisados, tipo de estudo e faixa etária (Divinópolis, MG, Brasil, 2024).

Os avanços, gaps na literatura, as evidências para a prática e as recomendações de pesquisa, foram apresentadas segundo a estratégia PAGER (Quadro 3).

Quadro 3-
Estrutura PAGER para revisão de escopo (Divinópolis, MG, Brasil, 2024).

DISCUSSÃO

O adolescente que passará por uma cirurgia sofre impacto em todas as áreas de sua vida, o que gera ansiedade, medo e estresse. Ele se encontra fora de seu ambiente familiar e social, além de ficar dependente de cuidados, o que pode significar um retrocesso em sua autonomia32.

Uma das formas de se reduzir este impacto é por meio da oferta de uma assistência individualizada que pode ser alcançada pela aplicação do Processo de enfermagem, identificado na área da enfermagem médico cirúrgica como Sistematização da Assistência de Enfermagem Perioperatória (SAEP), ferramenta metodológica prevista nos órgãos reguladores da profissão no Brasil33. Esta foi objeto de estudo das referências avaliadas e sua incorporação mostra-se fundamental para realizar uma intervenção adequada, com base científica, que atenda às necessidades de cada paciente e que permita avaliar os resultados da assistência prestada34.

Dentro desta ferramenta destaca-se a realização da visita pré-operatória, cuidado que emergiu nesta revisão como fundamental para preparo cirúrgico do adolescente. Na visita pré-operatória faz-se uma avaliação clínica do paciente, considerando aspectos físicos, experiências cirúrgicas anteriores e questões emocionais que podem impactar no ato anestésico cirúrgico. Planeja-se, então, de forma individualizada a assistência que será prestada no período intra e pós-operatório. Em seguida, são ofertadas informações sobre a trajetória cirúrgica e esclarecidas dúvidas35. Portanto, também é um momento para que se crie e fortaleçam vínculos com a família e o adolescente. A visita pré-operatória é capaz de reduzir a ansiedade e as complicações em indivíduos submetidos a diferentes cirurgias36. Pacientes ansiosos são mais propensos a apresentarem agitação, cooperação reduzida, delírio pós-operatório, recuperação lenta e distúrbios do sono37.

Os estudos avaliados nesta revisão demonstraram a importância do preparo perioperatório e o desejo dos adolescentes e familiares em recebê-lo. Ambos valorizam informações relacionadas ao pré e pós-operatório e entendem que cabe aos profissionais de saúde explicar sobre as intervenções que serão realizadas em seus corpos. Apesar de estarem em um momento de negação do pais e formação da identidade, os adolescentes esperam que seus pais sejam envolvidos nos cuidados cirúrgicos, o que traz mais tranquilidade e segurança3. Assim, incluí-los no plano de cuidado perioperatório do adolescente e reconhecer a legitimidade de sua presença e envolvimento é uma ação de enfermagem específica para esta população, que como demonstrado nesta revisão, permite reduzir os impactos do medo e ansiedade cirúrgica.

A tecnologia surge como uma aliada no preparo perioperatório do adolescente. O enfermeiro pode utilizar materiais didáticos e tecnologias educacionais durante o atendimento, tornando este momento mais atrativo e permitindo que as informações ofertadas sejam consultadas sem limites de tempo e espaço. Destacam-se como possíveis intervenções: o uso de serious games que são jogos com interação humano-tecnologia para fins educativos e formativos, garantindo diversão, motivação e valor educativo38.Sua incorporação permite a consolidação do conhecimento, incremento na segurança e desenvoltura do atendimento, gerando impacto positivo na assistência ao paciente39.

Tais evidências indicam que profissionais da saúde, incluindo enfermeiros podem explorar a construção de tecnologias educativas inovadoras e incentivar a postura ativa do adolescente no preparo perioperatório40-41.

O uso de terapias complementares e integrativas, como aromaterapia, arteterapia, acupuntura e meditação e musicoterapia surgiu como cuidado de enfermagem nesta revisão. Tais abordagens são promissoras para o manejo de sintomas perioperatórios e capazes de minimizar os efeitos adversos associados às intervenções medicamentosas, a ansiedade, o estresse pré-operatório e reduzir a pressão arterial e frequência cardíaca42-43. Estudo com uso de aromaterapia em pacientes submetidas à cirurgia de mama foi capaz de reduzir os níveis de ansiedade dos participantes44.

A assistência individualizada reconhecendo as diversidades de desenvolvimento da população, surgiu como um cuidado a ser observado na atenção perioperatória. Atualmente cerca de um em cada 36 crianças são diagnosticadas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA)45. É preciso compreender que estas crianças se tornarão adolescentes e que será preciso personalizar a assistência à saúde para este público, pois quando pacientes com TEA são hospitalizados, as barreiras de comunicação, socialização e comportamento podem ser exacerbadas. Pessoas com TEA apresentam comportamentos que podem se tornar dificultadores no momento perioperatório, como evitar o contato visual ao conversar, estresse por mudança na rotina, dificuldade na compreensão de perguntas ou instruções e insistência em rotinas e rituais, provocando quadros de agitação e ansiedade46.

Para a criação de um ambiente seguro e individualizado, formas de atendimento são apresentadas na literatura, como evitar o uso do jaleco branco, limitar o número de pessoas na sala, fornecer informações sobre cada procedimento antes de realizá-lo, utilizar palavras concretas e distrações - como música, jogos, dispositivos eletrônicos -, e reduzir ruídos no ambiente46. A utilização de medicação ansiolítica pré-operatória, a presença dos pais no momento da indução anestésica, e o uso de uma sala silenciosa também se apresentam como forma benéfica na assistência ao paciente com TEA47.

Pesquisa identificou que apenas 35% dos profissionais apresentavam estratégias adequadas de manejo para cuidar de uma criança com TEA. Portanto, este é um desafio e um avanço a ser incorporado pela enfermagem48.

Além dos pacientes com TEA, outras especificidades relacionadas aos adolescentes também devem ser levadas em consideração, como o risco de suicídio, pois o processo cirúrgico pode ter impacto na saúde mental. Assim, é preciso que cada adolescente seja examinado quanto a este risco durante as consultas que antecedem a cirurgia para melhor avaliação dos cuidados a serem ofertados49.

Além das intervenções citadas até o momento, a adoção do jejum abreviado e alimentação precoce surgiu como uma ferramenta para melhorar o processo perioperatório. A abreviação do jejum com a oferta de líquidos claros no pré-operatório pode proporcionar estabilidade metabólica e diminuir a fome e a sede50. Já a realimentação precoce após a cirurgia acelera a recuperação, evita complicações, reduz o tempo de internação, e a necessidade da infusão de fluidos51.

Esta revisão contribuiu para refletir sobre o processo de cuidado ao adolescente que será submetido à cirurgia. Apontou estratégias a serem utilizadas com o público-alvo, além de ações e condutas de enfermagem a serem adotadas para individualizar o atendimento e reduzir os impactos do período cirúrgico na vida dos adolescentes. Carece atenção o fato de haver poucos estudos voltados especificamente para o público adolescente, englobando-o juntamente às populações pediátricas. A adolescência possui complexidades diferentes das encontradas na infância, portanto sua abordagem deveria ser individualizada. Desta forma, o presente estudo demonstra a necessidade de conduzir cuidados e pesquisas direcionados à esta clientela, que possui uma identidade, mas que na maior parte das vezes é colocada pelos profissionais de saúde entre o limbo da infância e idade adulta.

Dentre as limitações destaca-se a perda e impossibilidade de acesso à artigos que poderiam agregar mais dados à revisão.

CONCLUSÃO

A revisão de escopo mapeou as publicações científicas da enfermagem perioperatória voltadas para o adolescente e identificou estratégias que podem personalizar o cuidado à esta população como : realização de visita pré-operatória, uso de instrumento sistematizado para execução do cuidado, envolvimento dos pais e responsáveis na assistência perioperatória, utilização de terapias não farmacológicas para redução de medo e ansiedade, incorporação de tecnologias educativas na oferta de informações e necessidade de adaptação do plano de assistência para adolescentes neutoatipicos e com comportamento desafiadores.

O uso de ferramentas voltadas ao público adolescente pode ser uma aliado no cuidado ao paciente cirúrgico, ao possibilitar uma interação mais dinâmica com a equipe cirúrgica, contribuir para educação perioperatória e envolver o paciente no seu autocuidado.

Cuidados e pesquisas voltados especificamente a esta população necessitam serem desenvolvidos, sem incorporá-los à população pediátrica.

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Editado por

  • EDITORES
    Editores Associados: Gisele Cristina Manfrini, Maria Lígia Bellaguarda.
    Editor-chefe: Elisiane Lorenzini.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    05 Jul 2024
  • Aceito
    01 Out 2024
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