RESUMO
Objetivo: analisar as hospitalizações pediátricas segundo os determinantes sociais da saúde.
Método: estudo exploratório, descritivo e observacional, realizado entre maio e outubro de 2024, com 100 crianças internadas em unidade pediátrica de média complexidade de um hospital regional do interior do Piauí, Brasil. Os dados foram obtidos por entrevistas estruturadas com os responsáveis e por análise de prontuários, contemplando variáveis sociodemográficas, econômicas e clínico-epidemiológicas. Os determinantes sociais da saúde foram analisados segundo o modelo de Dahlgren e Whitehead, por meio de estatística descritiva.
Resultados: verificou-se predomínio de crianças menores de cinco anos (51%), do sexo masculino (67%), pardas (64%), e que frequentavam escola ou creche (65%), indicando vulnerabilidade biológica e social na primeira infância e sugerindo maior exposição a infecções comuns. No nível intermediário, observaram-se baixa escolaridade parental (37% das mães e 36% dos pais com ensino médio completo), ocupações informais (dona de casa 45%; lavrador 22%; pedreiro 19%) e renda familiar inferior a dois salários-mínimos (54%), revelando condições de vida que limitam o acesso a cuidados contínuos. Territorialmente, 83% residiam na macrorregião Cerrado, marcada por menor oferta de serviços. As hospitalizações concentraram-se em setembro (34%), período de seca e piora das doenças respiratórias, com febre (15%) e pneumonia (25%) como principais causas, refletindo a interação entre fatores biológicos, socioeconômicos e ambientais.
Conclusão: as hospitalizações pediátricas refletem a influência dos determinantes sociais da saúde em múltiplas dimensões, evidenciando a interação de fatores biológicos, socioeconômicos, geográficos e políticos na determinação dos resultados de saúde.
DESCRITORES:
Saúde da criança; Hospitalização; Perfil de saúde; Determinantes sociais da saúde; Desigualdades de saúde
ABSTRACT
Objective: to analyze pediatric hospitalizations according to the social determinants of health.
Method: this is an exploratory, descriptive, and observational study conducted between May and October 2024 with 100 children hospitalized in a medium-complexity pediatric unit of a regional hospital in the interior of Piauí, Brazil. Data were obtained through structured interviews with caregivers and by analyzing medical records, including sociodemographic, economic, and clinical-epidemiological variables. The social determinants of health were analyzed according to the Dahlgren and Whitehead model, using descriptive statistics.
Results: a predominance of children under five years of age (51%), male (67%), mixed-race (64%), and attending school or daycare (65%) was observed, indicating biological and social vulnerability in early childhood and suggesting greater exposure to common infections. Low parental education was observed at the intermediate level (37% of mothers and 36% of fathers with completed high school education), as well as informal occupations (housewife 45%; farmer 22%; bricklayer 19%) and family income below two minimum monthly salaries (54%), revealing living conditions which limit access to continuous care. Territorially, 83% resided in the Cerrado macro-region, marked by a lower supply of services. Hospitalizations were concentrated in September (34%), a period of drought and worsening of respiratory diseases, with fever (15%) and pneumonia (25%) as the main causes, reflecting the interaction between biological, socioeconomic and environmental factors.
Conclusion: pediatric hospitalizations reflect the influence of the social determinants of health in multiple dimensions, highlighting the interaction of biological, socioeconomic, geographic and political factors in determining health outcomes.
DESCRIPTORS:
Child health; Hospitalization; Health profile; Social determinants of health; Health inequalities
RESUMEN
Objetivo: analizar las hospitalizaciones pediátricas según los determinantes sociales de la salud.
Método: se realizó un estudio exploratorio, descriptivo y observacional entre mayo y octubre de 2024 con 100 niños hospitalizados en una unidad pediátrica de mediana complejidad de un hospital regional del interior de Piauí, Brasil. Los datos se obtuvieron mediante entrevistas estructuradas con cuidadores y análisis de historias clínicas, incluyendo variables sociodemográficas, económicas y clínico-epidemiológicas. Los determinantes sociales de la salud se analizaron según el modelo de Dahlgren y Whitehead, utilizando estadística descriptiva.
Resultados: se observó un predominio de niños menores de cinco años (51%), varones (67%), mestizos (64%) y que asistían a la escuela o guardería (65%), lo que indica vulnerabilidad biológica y social en la primera infancia y sugiere una mayor exposición a infecciones comunes. En el nivel intermedio, se observó baja escolaridad parental (37% de madres y 36% de padres con educación secundaria completa), ocupaciones informales (ama de casa 45%; agricultor 22%; albañil 19%) e ingresos familiares inferiores a dos salarios mínimos (54%), lo que revela condiciones de vida que limitan el acceso a la atención continua. Territorialmente, el 83% residía en la macrorregión del Cerrado, caracterizada por una menor oferta de servicios. Las hospitalizaciones se concentraron en septiembre (34%), período de sequía y agravamiento de enfermedades respiratorias, con fiebre (15%) y neumonía (25%) como principales causas, lo que refleja la interacción entre factores biológicos, socioeconómicos y ambientales.
Conclusión: las hospitalizaciones pediátricas reflejan la influencia de los determinantes sociales de la salud en múltiples dimensiones, destacando la interacción de factores biológicos, socioeconómicos, geográficos y políticos en la determinación de los resultados en salud.
DESCRIPTORES:
Salud infantil; Hospitalización; Perfil de salud; Determinantes sociales de la salud; Desigualdades en salud
INTRODUÇÃO
A infância constitui uma etapa crucial do ciclo vital, marcada por transformações biológicas, emocionais e psicológicas1. Nesse período, as condições de saúde assumem papel determinante no crescimento e desenvolvimento, com repercussões que podem se estender por toda a vida2. Apesar dos avanços na atenção infantil, as hospitalizações pediátricas ainda refletem de forma inequívoca as desigualdades sociais3 e as fragilidades persistentes dos sistemas de saúde4.
No contexto atual, em que as transições demográficas e epidemiológicas coexistem com a persistência de doenças infectocontagiosas e o surgimento de condições crônicas na infância5, compreender os determinantes das hospitalizações vai além da análise de saúde, uma vez que exige a consideração de fatores políticos, socioeconômicos, culturais e ambientais6. Crianças em situação de vulnerabilidade, por exemplo, estão mais expostas a riscos ambientais, a falhas na continuidade do cuidado e ao acesso desigual a cuidados e serviços de saúde resolutivos, o que resulta em maior frequência de hospitalizações evitáveis e desfechos clínicos adversos4.
Nesse panorama, destaca-se o modelo de Dahlgren e Whitehead (1991), como um dos referenciais mais robustos para compreender os Determinantes Sociais da Saúde (DSS). O modelo ilustra a influência integrada de múltiplos estratos sobre o processo saúde-doença, representados em camadas concêntricas: fatores biológicos, estilos e comportamentos de vida, redes sociais de apoio, condições de vida e trabalho e, externamente, políticas públicas, estruturas econômicas e aspectos culturais. Essa perspectiva demonstra que a saúde não resulta apenas de características individuais, mas das experiências e oportunidades desigualmente distribuídas no território e no tempo7.
Aplicado à saúde infantil, esse marco conceitual permite compreender como os contextos sociais e econômicos que afetam adultos também repercutem no bem-estar das crianças, ao moldar os ambientes em que se desenvolvem, dada sua maior vulnerabilidade às iniquidades socioeconômicas6. Nessa perspectiva, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) ampliou essa compreensão ao propor o Modelo de Distúrbios Sociais da Saúde e da Infância, que posiciona a criança no centro de três esferas interdependentes: o seu mundo (fatores biológicos, emocionais e relacionais); o mundo ao seu redor (serviços de saúde, escola, família, comunidade, proteção e suporte social); e o mundo em geral (políticas macroeconômicas, legislações e condições estruturais de desigualdade)8.
Com sua aplicação, é possível compreender que adoecimento infantil é um fenômeno essencialmente social, cuja etiologia transcende o corpo da criança e decorre das interações entre determinantes proximais e distais, englobando desde aspectos biológicos e comportamentais até o contexto familiar, comunitário e estrutural, influenciado por políticas sociais, econômicas e de saúde6-7.
Nesse ínterim, é fundamental distinguir os DSS da Determinação Social da Saúde, conceitos relacionados, mas com fundamentos teóricos distintos. Enquanto os DSS focalizam fatores sociais mensuráveis que influenciam o estado de saúde, a Determinação Social da Saúde compreende o processo saúde-doença como produto das formas de organização social, das relações econômicas e das estruturas de poder. Assim, a avaliação dos DSS orienta intervenções e políticas voltadas à redução de vulnerabilidades e à promoção da equidade na saúde infantil9.
Os DSS, definidos como as condições em que as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham e envelhecem7, são responsáveis por 30% a 55% dos desfechos de saúde10. Evidências internacionais demonstram que fatores sociais como cor da pele, baixo nível socioeconômico11, educação materna12 e profissão dos pais10 associam-se ao aumento das hospitalizações infantis. Essa relação é particularmente evidente em países de baixa e média renda3 e em regiões marcadas por iniquidades históricas, como o Nordeste brasileiro13.
Ao considerar que a adequada abordagem dos DSS é fundamental para melhorar os indicadores de saúde e reduzir desigualdades em longo prazo10; que esses fatores ainda são pouco explorados na pesquisa em serviços hospitalares11; e que compreender suas influências sobre as hospitalizações pediátricas constitui base essencial para subsidiar políticas públicas mais equitativas e intersetoriais, capazes de articular ações preventivas e de promoção da saúde no território, estabeleceu-se a seguinte questão de pesquisa: quais os determinantes sociais da saúde influenciam as hospitalizações pediátricas em um hospital regional localizado em um município do interior do Piauí?
Diante desse cenário, o presente estudo tem como objetivo analisar as hospitalizações pediátricas segundo os determinantes sociais da saúde, buscando contribuir para o debate científico e para o fortalecimento das estratégias de cuidado à saúde da criança em contextos de vulnerabilidade social.
MÉTODO
Trata-se de um estudo exploratório, descritivo e observacional, elaborado conforme o checklist STrengthening the Reporting of OBservational studies in Epidemiology (STROBE®)14, e realizado na enfermaria pediátrica de um hospital regional de média complexidade, localizado em um município do interior do estado do Piauí, entre os meses de maio e outubro de 2024. O setor é dividido em pediatria cirúrgica e clínica com, respectivamente, três e oito leitos hospitalares. Segundo informações coletadas no serviço, a oferta de atendimento ocorre 24 horas por dia, para crianças com idades entre 30 dias e 11 anos, 11 meses e 29 dias, que são acompanhados por uma equipe multiprofissional composta por médicos, enfermeiros, nutricionistas e psicólogos, entre outros profissionais. O serviço recebe crianças de várias cidades circunvizinhas, com problemas de saúde diversos.
As participantes foram selecionadas por amostragem não probabilística por conveniência. Foram incluídas crianças na faixa etária acima referida, internadas por, no mínimo, 24 horas na unidade pediátrica. Excluíram-se casos com prontuários ilegíveis ou incompletos que inviabilizassem a obtenção dos dados clínicos.
O objetivo da pesquisa, os procedimentos de coleta e o tempo estimado foram explicados aos responsáveis e, quando possível, às próprias crianças capazes de assentir, especialmente em idade pré-escolar. Nesses casos, empregou-se linguagem adaptada e exemplos concretos para favorecer a compreensão e a decisão autônoma sobre a participação.
A coleta de dados ocorreu no período diurno, após anuência institucional e aprovação ética. Uma pesquisadora assistente, previamente treinada e sem vínculo com o cuidado direto das crianças, conduziu as etapas da coleta. Inicialmente, realizou-se reunião informativa com a gerência de enfermagem e coordenadores de turno para detalhar critérios de inclusão, instrumentos e procedimentos de consentimento informado.
O processo de coleta iniciou-se com uma entrevista semiestruturada, aplicada ao responsável legal (mãe, pai ou cuidador principal), utilizando formulário adaptado de estudo anterior15, que abrangeu dados sociodemográficos e econômicos (idade, sexo, etnia, escolaridade da criança e dos pais, ocupação parental, número de moradores, renda familiar e procedência). Informações clínico-epidemiológicas - como motivo e mês da hospitalização, diagnóstico médico, comorbidades, necessidade de suporte ventilatório e tempo de internação - foram extraídas dos prontuários, mediante autorização dos responsáveis e, quando pertinente, assentimento da criança. O salário-mínimo vigente em 2024 era de R$ 1.412,00 e o valor médio do benefício Bolsa Família, R$ 685,61, utilizados como parâmetros para contextualizar as condições socioeconômicas das famílias.
Os formulários de coleta de dados foram organizados e, em seguida, digitados na planilha do software Microsoft Excel versão 2010 (dupla entrada para posterior validação). Logo após, a planilha foi importada para software Statistical Package for Social Sciences for Windows (SPSS) (2009) versão 20.0 para geração dos resultados. As variáveis foram expressas em frequências absolutas e relativas.
De posse dos dados, realizou-se a elaboração de uma representação do modo de ação dos DSS sobre os resultados de saúde das crianças hospitalizadas que permitiu a visualização gráfica da sua dimensão estrutural. Seguiu-se o modelo de Dahlgren e Whitehead, a partir de três referenciais - em suas versões clássica7 e atualizadas8,16. O diagrama ilustra a disposição em camadas dos determinantes: proximais, relacionados a características individuais (idade, sexo, etnia e frequência escolar); intermediários, referentes à família, comunidade e redes sociais (escolaridade parental, ocupação, número de moradores, renda e procedência); e distais, associados às condições socioeconômicas, culturais, ambientais e políticas.
O estudo atendeu às Resoluções nº 466/2012 e nº 580/2018 do Conselho Nacional de Saúde. A participação de responsáveis foi condicionada à assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, e às crianças aptas foi apresentado o Termo de Assentimento Livre e Esclarecido. Todos os participantes foram identificados por códigos alfanuméricos para preservação do anonimato.
RESULTADOS
Foram avaliadas 100 crianças admitidas na unidade pediátrica de um hospital de médio porte localizado no interior do Piauí, Brasil. A análise, fundamentada no modelo de Dahlgren e Whitehead (Figura 1), evidencia a influência articulada dos DSS em múltiplos níveis (individual, familiar, comunitário e estrutural) sobre o perfil das hospitalizações pediátricas.
Ilustração do modo de ação dos determinantes sociais da saúde sobre os resultados de saúde das crianças hospitalizadas. Piauí, Brasil, 2024. (n=100).
No nível proximal (mundo da criança), referente às características individuais e comportamentais, observou-se predomínio de menores de cinco anos (51%), do sexo masculino (67%) e autodeclaradas pardas pelos responsáveis (64%). Esses achados reforçam a vulnerabilidade biológica e social associada à primeira infância. A maioria frequentava escola ou creche (65%), o que, embora represente um indicador positivo de inserção social, também aumenta a exposição a infecções comuns nessa idade (Tabela 1).
Distribuição dos determinantes sociais da saúde proximais das crianças participantes do estudo. Piauí, Brasil, 2024. (n=100).
No nível intermediário (mundo ao seu redor), relativo às condições familiares e socioeconômicas, destacou-se a baixa escolaridade dos pais - concentrada no ensino médio completo (37% das mães e 36% dos pais) - e a predominância de ocupações informais e de baixa renda, como donas de casa (45%), lavradores (22%) e pedreiros (19%) (Tabela 2). A renda familiar inferior a dois salários-mínimos em mais da metade dos domicílios (54%) e a dependência de programas de transferência de renda (33%) refletem vulnerabilidades estruturais que comprometem o acesso a bens e serviços essenciais, como alimentação adequada, moradia segura e transporte para unidades de saúde. Tais condições situam essas famílias nas camadas intermediárias e externas do modelo de Dahlgren e Whitehead, evidenciando como as condições de vida e trabalho determinam, de forma indireta, o risco de hospitalização infantil.
A concentração das crianças na macrorregião Cerrado (83%), especialmente no território Vale dos Rios Piauí e Itaueira (44%), com o município mais distante situado a 633 Km do serviço de saúde (média 152 km), representa desigualdades territoriais típicas de regiões interioranas, marcadas por menor disponibilidade de serviços especializados e por barreiras geográficas de acesso ao cuidado contínuo. No nível distal (mundo em geral), que expressa os efeitos acumulados das condições de vida sobre os desfechos em saúde, observou-se maior número de hospitalizações em setembro (34%), coincidindo com o período de secas e baixa umidade do ar na região (Tabela 2). Essas desigualdades espaço-temporais configuram componentes estruturais dos DSS, que interagem de modo não linear com fatores familiares e comunitários.
A principal causa clínica das hospitalizações pediátricas incluiu febre (15%), sendo o diagnóstico mais frequente a infecção das vias aéreas inferiores/pneumonia (25%). A maioria das crianças internadas não apresentava comorbidades (76%). Observou-se ainda que a maior parte dos pacientes não necessitou de suporte ventilatório (96%) e permaneceu hospitalizada por até 10 dias (92%) (Tabela 3).
A Figura 1 sintetiza o modo de ação dos DSS sobre as hospitalizações pediátricas, demonstrando como fatores individuais (idade, sexo, cor da pele), familiares (escolaridade e ocupação dos pais), comunitários (renda e condições de moradia) e estruturais (políticas públicas e organização dos serviços) se inter-relacionam de forma dinâmica. Esse entrelaçamento evidencia que a saúde infantil resulta não apenas da vulnerabilidade biológica, mas da influência mútua entre contextos sociais e econômicos que moldam o cotidiano das famílias. Observa-se que as interações entre as camadas ocorrem de forma não linear e cumulativa, com retroalimentações contínuas (Δt), nas quais vulnerabilidades em um nível podem potencializar desvantagens em outros.
DISCUSSÃO
A análise das hospitalizações pediátricas evidencia que o adoecimento infantil expressa um processo social e histórico de desigualdade, em que os DSS se articulam não apenas como variáveis explicativas, mas como produtos de formas específicas de organização econômica, política e territorial. Compreender essas hospitalizações sob a ótica da determinação social da saúde implica deslocar o foco da simples associação entre fatores de risco e desfechos clínicos para a análise de como as condições de vida, ocupação dos pais e renda familiar são socialmente produzidas e distribuídas de modo desigual, condicionando oportunidades e riscos desde a infância.
Os resultados reforçam a natureza complexa e multifatorial da hospitalização infantil, marcada pela interação simultânea de determinantes proximais (idade, sexo, etnia e escolaridade da criança) intermediários (escolaridade e ocupação dos pais, renda, número de moradores no domicílio e procedência) e distais (contexto político), que atuam de forma integrada na conformação das trajetórias de saúde7,17.
Sob essa perspectiva, o modelo de Dahlgren e Whitehead oferece um referencial útil para compreender essas camadas de vulnerabilidade, mas sua leitura deve transcender o caráter descritivo, evidenciando as interconexões entre níveis micro e macroestruturais que moldam a saúde infantil. As camadas mais internas (idade, sexo e cor da pele) extrapolam o campo biológico e refletem a hierarquização social dos corpos infantis, conferindo a determinados grupos menor acesso a recursos e proteção6.
Crianças menores de cinco anos foram as mais hospitalizadas, grupo com maior suscetibilidade imunológica a infecções respiratórias, corroborando a predominância da pneumonia como principal diagnóstico e da febre como motivo recorrente de internação18,19. Esses achados são consistentes com dados nacionais, que indicam que as infecções respiratórias agudas representam 20% das hospitalizações infantis, sendo as pneumonias bacterianas responsáveis por mais da metade dos casos20. Todavia, a interpretação desses resultados deve transcender o aspecto biológico e reconhecer que baixos níveis educacionais, renda insuficiente, habitações precárias (DSS intermediários) e acesso restrito à saúde (DSS distais) configuram fatores interdependentes que ampliam a morbimortalidade infantil21.
Outro aspecto relevante se refere à frequência escolar: a maioria das crianças frequentava escola ou creche, espaços essenciais para aprendizado e socialização, mas que também representam ambientes de exposição a agentes infecciosos22. Salas de aula, geralmente dotadas de ventilação natural ou mecânica mista, são frequentemente mal ventiladas e com elevadas concentrações de CO₂, o que favorece a permanência e transmissibilidade de patógenos23. Intervenções estruturais, como ventilação mecânica adequada, podem reduzir significativamente o risco de infecção, reforçando a importância das políticas públicas e da infraestrutura escolar (DSS distais) na proteção da saúde infantil24.
Ainda entre os determinantes proximais, destacou-se a predominância de hospitalizações no sexo masculino. A literatura indica maior vulnerabilidade biológica dos meninos a agravos como pneumonia, diarreia e hemorragias25. Estudo espanhol sobre a incidência de hospitalizações e mortalidade intra-hospitalar mostrou que 53% das hospitalizações por pneumonia adquirida na comunidade ocorreram entre meninos26. Entretanto, não há consenso, e fatores socioculturais, como a percepção de que meninos são mais “fortes” e, portanto, expostos a maiores riscos, também podem influenciar os padrões de adoecimento27-28.
Com relação à cor da pele, outros DSS proximal, revelou-se predominância de crianças pardas, achado compatível com dados populacionais29. Embora esperado demograficamente, é essencial reconhecer a interação entre etnia, origem socioeconômica e DSS, pois essa convergência amplia vulnerabilidades entre minorias étnicas11,30. Esse fato foi evidenciado em estudo realizado nos Estados Unidos da América (EUA) durante a pandemia de COVID-19 que mostrou maior frequência de hospitalizações, atendimentos de urgência e atrasos em consultas de puericultura entre crianças não brancas30.
No Brasil, as desigualdades raciais, marcadas por heranças históricas de exclusão, reproduzem iniquidades que se manifestam tanto nas condições materiais - como moradia, saúde e educação - quanto nas dimensões simbólicas e culturais3. Enfrentar essas disparidades exige políticas públicas sensíveis à complexidade racial e baseadas em abordagens críticas, sob risco de perpetuar desigualdades17.
No nível intermediário, a precarização das condições de vida e trabalho das famílias, com predomínio de ocupações informais, baixa escolaridade parental e renda familiar inferior a dois salários-mínimos, reflete um modelo de desenvolvimento desigual que concentra renda e restringe direitos. Esse contexto compromete cuidados preventivos e o acesso oportuno à assistência em saúde6,12. O status socioeconômico dos pais, enquanto DSS intermediário, influencia, portanto, fortemente o risco de hospitalização infantil: famílias com baixa renda, moradia precária e empregos instáveis apresentam maior vulnerabilidade a agravos evitáveis3,21. Esses fatores estruturam um ciclo de vulnerabilidade em que o cuidado à criança é limitado não somente pela escassez desses recursos materiais, mas pela ausência de políticas sociais efetivas de proteção e suporte10.
Ainda entre os DSS intermediários, o território onde as crianças vivem e são atendidas também se impõe como espaço simbólico e material de desigualdade. A concentração das internações na macrorregião Cerrado, especialmente no território Vale dos Rios Piauí e Itaueira, expressa a dimensão geopolítica da determinação social da saúde: áreas extensas (26.514,40 km2, distribuída entre 19 municípios)31 e com baixa densidade de serviços configuram barreiras estruturais que perpetuam desigualdades regionais históricas. O acesso desigual ao cuidado resulta, assim, da forma como o Estado organiza e distribui recursos, mantendo a dependência de longos deslocamentos e comprometendo o cuidado integral32.
Distâncias superiores a 80 km impactam a saúde pública e as famílias33, como observado na região estudada, onde municípios localizam-se, em média, a uma distância de 152 km da unidade hospitalar pediátrica, evidenciando a concentração da oferta de serviços e o papel da geografia como DSS intermediário. Essas barreiras revelam que a hospitalização não decorre apenas de condições clínicas, mas também da distribuição desigual de serviços no território3. Estudo realizado no Paquistão que incluiu 416 crianças, investigou a relação entre a distância dos domicílios infantis e a morbidade por infecções agudas e confirmou que a distância até unidades de saúde aumenta a morbidade por infecções respiratórias e diarreia, reforçando a necessidade de reformas estruturais para ampliar o acesso em regiões remotas32.
Adicionalmente, a concentração de internações em setembro sugere a influência da sazonalidade climática no adoecimento infantil. Nesse período, o Piauí enfrenta temperaturas elevadas e umidade relativa do ar crítica (<30%)34, condições que se associam à exposição à poluição atmosférica - tanto ambiental, decorrente das queimadas realizadas para preparo do solo, quanto doméstica, relacionada ao uso de fogões a lenha pela falta de recursos para aquisição de gás de cozinha. Esses fatores comprometem as respostas imunológicas e aumentam a suscetibilidade a infecções respiratórias4. Diante desse cenário, torna-se essencial fortalecer a infraestrutura e as políticas ambientais voltadas à mitigação dos riscos à saúde infantil associados às variações climáticas, especialmente durante eventos extremos de temperatura e umidade34, que tendem a acentuar desigualdades socioeconômicas preexistentes.
As causas mais frequentes de internação refletem, portanto, não apenas vulnerabilidades biológicas, mas as condições materiais de existência, como moradias insalubres, saneamento precário e exposição a poluentes ambientais e domésticos. Esses agravos, sensíveis à APS, evidenciam lacunas na efetividade das políticas públicas de atenção à infância. A predominância de casos sem comorbidades e de curta duração hospitalar indica que grande parte dessas internações poderia ser evitada mediante ações preventivas intersetoriais21.
Os DSS atuam, assim, de modo interdependente, exigindo abordagens integradas, equitativas e contextualizadas16. Como limitações, destacam-se que os dados foram obtidos de apenas uma instituição hospitalar e baseados, em parte, em registros clínicos, sujeitos a lacunas e inconsistências. Também não houve inclusão de informações sobre o acompanhamento pós-alta, o que restringe a compreensão dos efeitos de médio e longo prazo dos DSS. Além disso, a figura que representa o modo de ação dos DSS sobre os resultados de saúde ainda requer validação. Apesar dessas limitações, o estudo oferece evidências inéditas para o contexto do Piauí. Recomenda-se, entretanto, que novas pesquisas multicêntricas e com ampliação de variáveis, como ano escolar e sazonalidade, sejam conduzidas para gerar achados mais robustos e aplicáveis.
Implicações para a prática profissional e de enfermagem
No campo prático, o estudo evidencia que as hospitalizações pediátricas não podem ser compreendidas apenas a partir da clínica individual, mas resultam da interação entre fatores biológicos, familiares, socioeconômicos, territoriais e ambientais, conforme ilustrado pelos DSS do modelo de Dahlgren e Whitehead. Compreender a influência desses determinantes sobre os desfechos de saúde e as condições sociais das crianças é essencial para fortalecer a equidade e melhorar os resultados em saúde. A prevalência de baixa escolaridade familiar, trabalho informal e renda insuficiente indica que o cuidado deve ir além do enfoque biomédico, considerando os modos de vida e contextos materiais das famílias. Do ponto de vista assistencial, isso reforça a importância de estratégias preventivas e intersetoriais, do fortalecimento da APS e da melhoria das condições ambientais e habitacionais, pilares essenciais para a promoção da saúde infantil. Os achados oferecem subsídios importantes para políticas públicas e prática clínica, orientando intervenções baseadas em evidências e voltadas à equidade, integralidade e qualidade do cuidado pediátrico.
CONCLUSÃO
A análise evidenciou que as hospitalizações pediátricas estão intrinsecamente relacionadas aos determinantes sociais da saúde, os quais interagem de forma complexa, inter-relacionada e multifatorial, abrangendo dimensões proximais (idade inferior a cinco anos, sexo masculino, cor de pele parda, frequência escolar), intermediárias (escolaridade dos pais ensino médio completo, ocupação materna dona de casa, ocupação paterna lavrador, quatro moradores no domicílio, renda familiar inferior a dois salários-mínimos e procedência Vale dos Rios Piauí e Itaueira) e distais (contexto político).
Verificou-se que fatores biológicos, socioeconômicos, geográficos e contextuais influenciam os desfechos de saúde, resultando em um padrão epidemiológico característico das hospitalizações pediátricas, marcado por febre, pneumonia, ausência de comorbidades, baixa necessidade de suporte ventilatório e curta permanência hospitalar. Entretanto, não foi possível determinar quais DSS apresentam maior peso sobre esses resultados.
Esses achados reforçam que a hospitalização infantil não pode ser explicada unicamente por determinantes biológicos, mas deve ser compreendida a partir da interdependência entre fatores individuais, familiares, sociais e estruturais. Assim, destaca-se a necessidade de políticas públicas e práticas assistenciais que incorporem a perspectiva dos determinantes sociais da saúde no planejamento do cuidado pediátrico, com ênfase em ações preventivas, intersetoriais e equitativas.
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Legendas: *EMC: Ensino Médio Completo; ** < 2: menor que 2 salários-mínimos. Fonte: Dados da pesquisa, 2024. Figura adaptada