Open-access AVALIAÇÃO DA USABILIDADE DO APLICATIVO SAÚDEKIDS PARA ACOMPANHAMENTO DA SAÚDE INFANTIL NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE

RESUMO

Objetivo:   Avaliar a usabilidade do aplicativo SaúdeKids para acompanhamento da saúde infantil na perspectiva de especialistas da área da saúde e da tecnologia da informação e dos enfermeiros da APS.

Método:  Pesquisa quantitativa. A coleta de dados aconteceu entre os meses de abril e julho de 2024 e foi realizada em duas etapas: a primeira, participaram 8 especialistas: 4 da área da saúde e 4 da tecnologia da informação. A segunda etapa foi composta por 9 enfermeiros da ESF. Para tal, os participantes baixaram o aplicativo em seus celulares e responderam ao instrumento de avaliação da usabilidade (System Usability Scale) de forma on-line, que possui metodologia própria para aferição dos resultados. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Resultados:  Os especialistas da área da saúde e da tecnologia da informação avaliaram o aplicativo com média 82,18, e os 09 enfermeiros atuantes na assistência com 76,0 pontos, indicando um valor de excelência para sua patente e para uso nos serviços de saúde. O aplicativo apresentou alta usabilidade (média de 78,97 pontos) indicando um excelente índice na usabilidade.

Conclusão:  A implementação do aplicativo pode fortalecer a prática da puericultura, trazendo uma abordagem mais integrada e colaborativa na gestão em saúde.

DESCRITORES:
Criança; Atenção Primária à saúde; Aplicativos móveis; Sistema Único de Saúde; Saúde Digital

ABSTRACT

Objective:   To evaluate the usability of the SaúdeKids application for monitoring children's health from the perspective of health and information technology specialists and Primary Health Care nurses.

Method:  Quantitative research. Data collection took place between April and July 2024 and was carried out in two stages: in the first stage, 8 experts participated: 4 from the health field and 4 from information technology. The second stage consisted of 9 nurses from the Family Health Strategy (FHS). To do this, participants downloaded the application to their cell phones and answered the usability evaluation instrument (System Usability Scale) in an online format, which has its own methodology for measuring results. All participants signed the Free and Informed Consent Form.

Results:  Experts in the health and information technology fields rated the application with an average score of 82.18, and the 9 nurses working in patient care gave it 76.0 points, indicating an excellent rating for its patent and for use in health services. The application demonstrated high usability (average of 78.97 points), indicating an excellent usability rating.

Conclusion:  The implementation of the app can strengthen the practice of childcare, bringing a more integrated and collaborative approach to health management.

DESCRIPTORS:
Child; Primary Health Care; Mobile applications; Brazilian Public Health System; Digital Health

RESUMEN

Objetivo:   Evaluar la usabilidad de la aplicación SaúdeKids para el seguimiento de la salud infantil desde la perspectiva de expertos en salud y tecnologías de la información, así como de enfermeros de atención primaria.

Método:  Investigación cuantitativa. La recopilación de datos tuvo lugar entre abril y julio de 2024 y se llevó a cabo en dos etapas: en la primera etapa participaron 8 expertos: 4 del ámbito de la salud y 4 de las tecnologías de la información. La segunda fase contó con la participación de 9 enfermeros de la Estrategia de Salud Familiar (ESF). Para ello, los participantes descargaron la aplicación en sus teléfonos móviles y respondieron al instrumento de evaluación de usabilidad (System Usability Scale) en formato online, que tiene su propia metodología para medir los resultados. Todos los participantes firmaron el formulario de consentimiento informado.

Resultados:  Los expertos en los campos de la salud y la tecnología de la información calificaron la aplicación con una puntuación media de 82,18, y los 9 enfermeros que trabajan en la atención al paciente le otorgaron 76,0 puntos, lo que indica una excelente valoración para su patente y para su uso en los servicios de salud. La aplicación demostró una alta usabilidad (un promedio de 78,97 puntos), lo que indica una excelente calificación de usabilidad.

Conclusión:  La implementación de la aplicación puede fortalecer la práctica del cuidado infantil, aportando un enfoque más integrado y colaborativo a la gestión de la salud.

DESCRIPTORES:
Niño; Atención primaria de salud; Aplicaciones móviles; Sistema Público Brasileño de Salud; Salud digital

INTRODUÇÃO

O quarto Objetivo de Desenvolvimento do Milênio (ODM) para 2015 correspondia à redução da taxa de mortalidade infantil. Meta esta que foi alcançada pelo Brasil, apresentando uma diminuição de 77%, uma das maiores do mundo. Todavia, o país vem enfrentando outros entraves, tais como a identificação de novos agentes infecciosos, o ressurgimento de doenças, a obesidade infantil e o aumento de óbito por causas externas (acidentes e violência)1.

A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança (PNAISC) tem como objetivo promover e proteger a saúde da criança e o aleitamento materno, por meio da atenção e cuidados integrais e integrados, englobando ações de cuidados em rede estruturada, desde o pré-natal ao seguimento na Estratégia Saúde da Família (ESF), com ênfase na primeira infância1,2.

O Ministério da Saúde (MS) recomenda que sejam realizadas na Atenção Primária à Saúde (APS) ao menos nove consultas de puericultura para crianças de zero a dois anos de idade. A puericultura engloba um conjunto de medidas e cuidados preventivos, como a vigilância do crescimento e desenvolvimento infantil, capazes de reduzir eficazmente a morbimortalidade infantil3. A ferramenta para registro das informações é a Caderneta da Criança (CC)4.

Considerada como passaporte da cidadania infantil, a CC é de extrema importância e se configura como uma potente ferramenta para o acompanhamento do crescimento e desenvolvimento infantil e para o diálogo entre os profissionais da equipe multidisciplinar e dos familiares, devido à riqueza das informações e orientações que são imprescindíveis para o cuidado e vigilância em saúde4.

Apesar da sua relevância, estudo realizado com 40 profissionais sobre o preenchimento da CC evidenciou que 59,3% não tiveram treinamento sobre o uso da CC, 47% não possuem o hábito de preencher o instrumento e que 90,6% informaram que precisam de treinamento para o uso da CC5. Outro estudo evidenciou que 54,5% das cadernetas avaliadas não tinham registro no item de vigilância do desenvolvimento de crianças menores de um ano e 90% de um a três anos6.

Contudo, a falta de adesão a um instrumento de acompanhamento da saúde infantil, não ocorre apenas no Brasil. Em Gana, apenas 27% dos prontuários infantis foram completamente preenchidos nas clínicas de acompanhamento infantil7. No Quênia, os resultados do monitoramento do desenvolvimento da criança também são preocupantes. Dos 78 instrumentos avaliados, nenhum possuía registros sobre os marcos do desenvolvimento8.

A utilização de instrumentos de registros traz implicações que perpassam a assistência individual à saúde infantil, pois são considerados ferramentas estratégicas para as políticas de informação em saúde9. Desse modo, o não preenchimento pode trazer prejuízos à integralidade do cuidado, perda de informações relevantes para a vigilância em saúde infantil, além de dificultar o processo de trabalho dos profissionais que atuam na Atenção Primária à Saúde.

Portanto, o adequado manejo da CC, com o registro correto e completo das informações, por todos os sujeitos participantes no cuidado à criança, é fundamental para que esta ferramenta possa alcançar de forma efetiva seu papel de comunicação, educação, vigilância e promoção da saúde infantil4.

Diante desse contexto, é necessário criar estratégias para que haja uma maior adesão dos profissionais e usuários ao uso CC, a exemplo de um aplicativo digital com uso de tecnologia da informação e comunicação (TIC), com o objetivo de melhorar o processo de trabalho dos profissionais no cuidado da saúde da criança na ESF.

O processo de trabalho em saúde deve priorizar o trabalho vivo, realizado no momento do cuidado e norteado pela utilização de tecnologias em saúde, auxiliando no estabelecimento de estratégias de atendimento, que envolve os diferentes sujeitos do cuidado: trabalhadores, gestores e usuários10. Na saúde infantil, a utilização de aplicativos por profissionais de saúde pode ser efetiva, por serem considerados indutores de efeitos positivos e possuírem boa receptividade, automatização de resultados e incorporação de elementos lúdicos a temáticas específicas11.

Nesse contexto, foi desenvolvido um aplicativo para acompanhamento da saúde infantil, denominado SaúdeKids, para smartphones com sistema operacional Android, com o perfil de acesso para profissionais de saúde que realizam o acompanhamento da saúde da criança na Atenção Primária à Saúde. O SaúdeKids possui a área para o profissional de saúde registrar a consulta de puericultura, incluindo os resultados da triagem neonatal, a vigilância do crescimento e desenvolvimento infantil, alimentação, vacinação, preenchimento automático dos gráficos de peso, índice de massa corpórea (IMC), perímetro cefálico e altura/comprimento, além de possibilidade de aprazamento de consultas e vacinação. Configura-se, como uma ferramenta tecnológica inovadora para o acompanhamento da saúde da criança, com potencial para transformar o cuidado no que tange ao acesso rápido e fidedigno às informações, bem como à segurança na obtenção de dados, evitando perdas. Outrossim, essa medida visa garantir a melhora do processo de trabalho na ESF e fortalecimento da transversalidade da gestão do trabalho no SUS.

Entretanto, a avaliação da usabilidade do SaúdeKids torna-se fundamental, pois constitui-se um dos principais fatores de implementação bem-sucedida de aplicativos na área da saúde. A avaliação da usabilidade é realizada como uma forma de assegurar que as tecnologias em saúde sejam adequadamente projetadas e direcionadas às necessidades dos usuários finais12.

Desta forma, foi levantada a seguinte questão norteadora: qual a avaliação de usabilidade de especialistas da área da saúde, da tecnologia da informação e dos enfermeiros da APS sobre o SaúdeKids? Assim, objetivou-se avaliar a usabilidade do aplicativo SaúdeKids na saúde da criança e no processo de trabalho de profissionais da Atenção Primária à Saúde.

MÉTODO

Pesquisa quantitativa, com objetivo de avaliar a usabilidade do aplicativo SaúdeKids. Foram convidados especialistas da área da saúde e da tecnologia da informação, assim como os enfermeiros da Estratégia Saúde da Família (ESF) que participaram da capacitação sobre o uso da Caderneta da Criança realizada na pesquisa intitulada: “vigilância do desenvolvimento na caderneta da criança: efeito de uma intervenção com enfermeiros”.

O aplicativo SaúdeKids foi desenvolvido por meio de diversas ferramentas e linguagens como o figma - sistema de prototipação de aplicação; Python e Django REST para Backend; JavaScript e React Native no frontend; PostgreSQL e Postman para o banco de dados, e Digital Ocean, para o serviço de armazenamento da nuvem. Atualmente, o aplicativo dispõe de 95 telas (excluindo-se as repetições) e seu arquivo pode ser compartilhado via WhatsApp para download.

A seleção dos participantes aconteceu em duas etapas, sendo a primeira para a escolha dos especialistas da área da saúde e da tecnologia da informação, e a segunda, para a seleção dos enfermeiros da ESF.

A seleção dos especialistas teve como objetivo agrupar um número de profissionais com experiência na área da saúde da criança e na área da tecnologia da informação, a fim de possibilitar uma avaliação qualificada e profunda sobre o aplicativo. Foram adotados os seguintes critérios de inclusão: 1) ser enfermeiro, possuir titulação na área da saúde da criança (especialização e/ou mestrado) e/ou comprovação da atuação acadêmica e/ou assistencial à criança com tempo mínimo de dois anos; 2) para a área da tecnologia da Informação: atuação na área, com, no mínimo, dois anos de experiência. Foram excluídos os participantes que não continham smartphone com sistema operacional Android.

Em relação à amostra, Pasquali13 sugere que seja composta de no máximo vinte e mínimo três participantes em cada grupo de experts selecionados. Neste estudo, o número mínimo estipulado foi de quatro especialistas em cada área e a escolha se deu por meio de pesquisa ao sítio eletrônico da plataforma Lattes e pela plataforma digital LinkedIn® Brasil. Foi enviado um convite com o objetivo da pesquisa, características do aplicativo e a data limite para aceite de dez dias para 35 especialistas. Destes, oito participaram da avaliação do aplicativo, sendo quatro da área da saúde (enfermeiros) e quatro da área de tecnologia da informação. Após aceite, foi solicitado que assinassem o formulário do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) que foi desenvolvido na plataforma da Google Forms.

No tocante à participação dos enfermeiros da ESF, foram convidados 24 profissionais atuantes nas Unidades de Saúde da Família (USF) do Distrito Sanitário III (DS) de João Pessoa-PB. Esse distrito conta com 37 unidades, sendo seis delas integradas, possuindo mais de equipe no mesmo espaço físico, e 31 unidades com apenas uma única equipe, assim, totalizando, 53 equipes de saúde da família14.

A escolha desses enfermeiros considerou a participação prévia na capacitação sobre o uso da CC pelos membros do Grupo de Estudo em Saúde da Criança na Atenção Primária à Saúde (GESCAAP) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Foram considerados elegíveis: Ser enfermeiro de uma Equipe de Saúde da Família do DS III, ter participado da capacitação sobre uso da Caderneta da Criança; possuir smartphone com sistema operacional Android e com acesso à internet e participar do treinamento sobre o aplicativo SaúdeKids. Foram excluídos aqueles profissionais que estavam de férias ou licença médica no período da coleta de dados.

Dos 24 enfermeiros da ESF convidados, 16 compareceram para o treinamento para o uso do aplicativo SaúdeKids, que ocorreu de forma presencial em abril de 2024, na sede do DS III. Desses participantes, nove testaram o aplicativo e finalizaram a pesquisa após a realização dos testes de usabilidade. Dos sete profissionais que não concluíram a pesquisa, uma entrou de licença médica, uma estava de férias e as demais preferiram não continuar na pesquisa. Todas as participantes que concluíram o estudo assinaram o TCLE em duas vias.

Para coleta de dados, solicitou-se aos participantes (especialistas e enfermeiros da ESF) que baixassem o aplicativo em seus celulares e que o utilizassem para, posteriormente, responder ao instrumento de coleta de dados. Para realização da avaliação da usabilidade, utilizou-se o System Usability Scale.

O System Usability Scale (SUS) é um método validado no Brasil por Tenório et al.15, que tem como objetivo avaliar a efetividade, eficiência e satisfação de sistemas. Esta escala foi escolhida por já ter sido aplicada em avaliações de aplicativos móveis na área da Enfermagem16.

A primeira parte do instrumento possuía perguntas para a caracterização sociodemográfica dos respondentes. Dentre as variáveis que compuseram o formulário, estão: dados de identificação (gênero, idade), titulação, anos de experiência profissional e área de atuação.

A segunda parte do formulário incluía o System Usability Scale, composto por 10 questões fechadas para os enfermeiros da APS: se gostaria de utilizar este aplicativo com frequência; se considerou o sistema mais complexo do que o necessário; considerou o sistema fácil de utilizar; achou que necessitaria de suporte técnico para conseguir utilizar o sistema; considerou que as várias funcionalidades do sistema estavam bem integradas; se supõe que a maioria das pessoas aprenderia a utilizar rapidamente o sistema; o sistema é muito complicado de utilizar; sentiu-se confiante ao utilizar o sistema; se precisou aprender uma série de coisas antes que pudesse utilizar o sistema.

As respostas eram avaliadas segundo a escala de Likert de cinco pontos, distribuídas na seguinte proporção de valores: Concordo plenamente (5 pontos); Concordo (4 pontos); Nem concordo, nem discordo (3 pontos); Discordo (2 pontos); e Discordo totalmente (1 ponto).

Para a análise dos resultados obtidos, o System Usability Scale possui metodologia própria que determina as seguintes regras17:

4- Para perguntas ímpares (1,3,5, 7 e 9) foi subtraído o valor “1” da pontuação atribuída pelo avaliador;

5- Para perguntas pares (2, 4, 6 e 8), subtraiu-se o valor “5”, ou seja, caso o avaliador tenha atribuído a nota 4, realizou-se a subtração 5-4= 1 e considerou-se o valor “1”.

6- Os valores que resultaram das operações de subtração devem ser somados e para obter-se a média final, multiplicou-se o valor encontrado por 2,5.

O valor da pontuação final da escala pode variar de 0 a 100 pontos. Ferramentas tecnológicas avaliadas por meio do questionário SUS são classificadas entre: 0 e 25 pontos - pior alcançável; de 26 a 39 - ruim; 40 a 52 - aceitável; 53 a 74 - bom; 75 a 85 - excelente e de 86 a 100 - melhor alcançável18.

Os formulários de avaliação foram respondidos entre os meses de abril e julho de 2024, envolvendo os oito especialistas e nove enfermeiras da ESF. Após aplicação do instrumento de coleta de dados, realizou-se o cálculo das respostas seguindo a metodologia preconizada e os resultados foram tabulados e analisados por meio da discussão com a literatura relevante ao tema.

Vale salientar que não foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial para a preparação deste artigo e que a pesquisa atendeu à Resolução CNS Nº 466/12 do Ministério da Saúde, que regulamenta a realização de pesquisas envolvendo seres humanos. Realizou-se a submissão no Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Paraíba e todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Os resultados deste estudo são frutos da tese de doutorado intitulada “SaúdeKids: avaliação de um aplicativo para o acompanhamento da saúde da criança.

RESULTADOS

Compuseram o estudo 17 (100%) participantes, destes, 4 (23,5%) são especialistas da área da tecnologia da informação, 4 (23,5%) especialistas da área da saúde e 9 (53%) enfermeiros que atuam na ESF. Dentre as características dos especialistas da TI, todos os participantes eram homens, com média de idade de 37 anos, desenvolviam atividade profissional como analista de sistemas. Dos 4 participantes, 2 (50%) possuem graduação, 1 (25%) é especialista e 1 (25%) possui doutorado. Quanto aos especialistas da área da saúde, 4 (100%) eram mulheres de idade média de 39 anos. Todas são enfermeiras com pós-graduação, sendo 2 com mestrado (50%) e 2 com doutorado (50%) e todas possuem experiência na área da saúde da criança.

Em relação às enfermeiras da ESF, todas eram mulheres, com média de idade de 50 anos; 6 (66%) possuem o título de especialista, 1 (11%) tem o título de doutora e 2 (22%) não possuem títulos de pós-graduação. A média de experiência profissional foi de 21 anos e todas trabalham na ESF do DS III do município de João Pessoa.

Em relação à avaliação da usabilidade pela escala SUS, médias entre 40 a 52 são consideradas aceitáveis, 53 a 74 avaliadas como boas e 75 a 85 padrão de excelência e 86 a 100 como melhor alcançável18. De acordo com a avaliação dos especialistas da área da saúde e da tecnologia da informação, o SaúdeKids obteve nota média de 82,18, classificado como valor de excelência (Tabela 1). Percebe-se nas avaliações das especialistas da área da saúde que a média da pontuação foi de 86,25, indicando a classificação do aplicativo como “melhor alcançável” pelo usuário.

Tabela 1 -
Avaliação da usabilidade do aplicativo SaúdeKids por especialistas da área da saúde (Esp. Saúde) e da tecnologia da informação (Esp. TI). João Pessoa, PB, Brasil, 2024. (n=8).

Na Tabela 2, encontra-se a avaliação da usabilidade realizada pelas enfermeiras da ESF que obteve a média de 76,0 pontos, indicando um valor de excelência.

Tabela 2 -
Avaliação da usabilidade do aplicativo SaúdeKids por Enfermeiros (Enf.) da Estratégia Saúde da Família. João Pessoa, PB, Brasil, 2024. (n=9).

No que se refere à média global da usabilidade, ou seja, a junção da média de todos os participantes do estudo (n=17), o aplicativo atingiu o valor de 78,97, apresentando a classificação de usabilidade “excelente” (Tabela 3), mostrando o potencial do aplicativo para ser utilizado pelos profissionais. As perguntas que tiveram pontuação mais baixa abordam a complexidade do sistema e a necessidade de suporte técnico para utilizar o sistema.

Tabela 3 -
Nota final da usabilidade do aplicativo SaúdeKids por questão dos Especialistas de saúde*, Especialistas da Tecnologia da Informação e Enfermeiros da Estratégia Saúde da Família. João Pessoa, PB, Brasil, 2024. (n=17).

DISCUSSÃO

O estudo mostrou que a adoção de tecnologias digitais na área da saúde pode gerar contribuições importantes para gerar conhecimento e otimizar os processos de organização dos serviços, favorecendo uma assistência de qualidade por utilizar instrumentos validados como norteadores de condutas em saúde. A elevada usabilidade do aplicativo SaúdeKids o torna funcional e efetivo para fomentar o acompanhamento da saúde da criança na APS, considerando os diferentes cenários brasileiros. Os aplicativos em saúde têm desempenhado um papel crucial em atender às necessidades de saúde da população, possuindo potencial de melhorar consideravelmente a qualidade e a eficiência dos cuidados em saúde19.

No Brasil, a inserção de novas tecnologias na saúde está tão latente que em 2020 foi pactuada na reunião ordinária da Comissão Intergestores Tripartite (CIT) o documento denominado “Estratégia de Saúde Digital para o Brasil 2020-2028 (ESD28)” e publicada pela Portaria GM/MS n° 3.632 de dezembro de 2020. Dentre a prioridade, encontra-se a informatização dos três níveis de atenção à saúde, com a da implementação de políticas de informatização dos sistemas de saúde, acelerando a adoção de prontuários eletrônicos e de gestão hospitalar como parte integradora dos serviços de processos de saúde20.

A avaliação global da usabilidade do aplicativo SaúdeKids revelou a excelência tecnológica do aplicativo e o papel inovador do sistema. Tal achado corrobora resultado de estudos que utilizaram o System Usability Scale - SUS para avaliação de aplicativos em saúde, os quais obtiverem média dos escores de 73,3; 87,3 e 83, respectivamente17-23, evidenciando o potencial da ferramenta.

Em contrapartida, ao observar a avaliação da usabilidade do SaúdeKids, realizada por grupos de participantes isolados, percebe-se que as notas atribuídas pelos especialistas da tecnologia da informação e da saúde obtiveram escores mais altos, atingindo a média de 78,12 e 86,25, respectivamente. Tais valores representam a classificação de “excelente” e de “melhor alcançável”, sendo esta última, a maior classificação do System Usability Scale.

Contudo, a avaliação da usabilidade realizada pelas enfermeiras da ESF apresentou uma pontuação mediana, classificando o aplicativo como “excelente”. Os achados revelam discrepâncias que merecem atenção, em razão da presença de pontuações extremas e maior variação nos escores. Uma das justificativas para essa diferença nas pontuações, mesmo em uma amostra que compartilha o mesmo cenário de atuação profissional, é a variação da faixa etária das participantes, que ficou entre 36 e 62 anos. Essa diversidade etária pode refletir a experiência prévia com o uso de tecnologias e impactar a forma como cada participante avalia a usabilidade do aplicativo, visto que se trata de uma percepção individual, influenciada pela formação e pelas preferências pessoais.

Um estudo realizado no interior de São Paulo, sobre a usabilidade da plataforma ConectAPS-CRIE na gestão de imunobiológicos especiais na APS pelos profissionais de enfermagem, apontou que profissionais que apresentaram escores inferiores possuíam dificuldade no manuseio e necessidade de assistência técnica para aprender a utilizar o aplicativo. Além disso, os resultados atribuíram que para sustentar a usabilidade ao longo do tempo é importante considerar a rotina dos profissionais de saúde em diferentes contextos24.

Corroborando esse achado, pesquisa realizada com 682 pessoas idosas no Canadá revelou que apenas 20% dos entrevistados haviam baixado aplicativos digitais25. Esse dado reflete a realidade de que as pessoas com mais idade são menos adeptas a utilizar as vantagens da tecnologia para se conectar de forma mais eficaz. Além disso, a falta de treinamento dificulta a superação dos obstáculos, o que impede a descoberta de novas experiências no uso da tecnologia26.

Neste ínterim, a utilização do SaúdeKids como uma ferramenta para acompanhamento da saúde da criança pode trazer melhorias na gestão e processo de trabalho dos profissionais da ESF, visto que o aplicativo pode facilitar a identificação de agravos, bem como, o acesso à informação de forma rápida, auxiliando o profissional na tomada de decisão.

Nessa diretriz, evidências provenientes de pesquisas sobre o uso de aplicativos na promoção da saúde corroboram o potencial de desenvolvimento de tecnologias digitais voltadas ao enfrentamento de agravos em saúde, bem como ao fortalecimento e à ampliação de estratégias para a saúde pública, a exemplo do Programa Nacional de Imunizações (PNI)27-28.

Nesse contexto, o Ministério da Saúde lançou, no ano de 2025, a versão digital da Caderneta da Criança no aplicativo Meu SUS Digital com o objetivo de ampliar o acesso de pais e responsáveis às informações de saúde das crianças. A ferramenta integra o movimento de transformação digital no Sistema Único de Saúde (SUS), permitindo a consulta de registros importantes, como dados vacinais, informações de saúde e orientações relacionadas ao cuidado infantil. A versão digital surge como um complemento a caderneta impressa, favorecendo o acesso às informações e fortalecendo a comunicação entre usuários e os serviços de saúde29.

Nesse sentido, o aplicativo SaúdeKids diferencia-se da funcionalidade da Caderneta da Criança disponível no “Meu SUS Digital” principalmente quanto à proposta de uso e às funcionalidades voltadas ao acompanhamento clínico da criança. Enquanto a Caderneta da Criança referida tem como finalidade principal disponibilizar aos pais e responsáveis o acesso às informações de saúde registradas no sistema do SUS, o SaúdeKids foi desenvolvido como uma ferramenta de apoio ao processo de trabalho na Atenção Primária à Saúde, permitindo o registro estruturado de consultas de puericultura, dados antropométricos, acompanhamento do crescimento e desenvolvimento infantil e controle do calendário vacinal, ampliando a comunicação entre profissionais de saúde e famílias e fortalecendo o acompanhamento longitudinal da saúde da criança.

O diferencial do presente estudo reside na avaliação da usabilidade por meio da System Usability Scale (SUS), instrumento amplamente validado para a mensuração da usabilidade de aplicativos. Trata-se de uma ferramenta confiável e robusta, que apresenta elevada viabilidade metodológica para avaliar a experiência do usuário e alcançar os objetivos propostos num determinado aplicativo.

Semelhante à situação brasileira, o sistema de saúde da Inglaterra desenvolveu um aplicativo em saúde denominado National Health Service App (NHS App), que oferece recursos relacionados à saúde infantil, incluindo o registro de vacinas e agendamento de consultas médicas30. Contudo, não contempla todos os itens para o acompanhamento do crescimento e desenvolvimento infantil.

Pesquisa realizada na Austrália para avaliar o aplicativo denominado My Health Record (MyHR), que proporciona aos usuários a inclusão dos dados da saúde da criança como vacinação e registros médicos, apontou que os usuários se sentem seguros ao utilizar o aplicativo por compartilhar o acesso às informações em saúde em diversos segmentos do cuidado30.

Corroborando as diretrizes da PNAISC que aponta a vigilância do crescimento e desenvolvimento infantil como um componente essencial para garantir o cuidado integral da criança1, a implementação do aplicativo na ESF pode modificar a forma como os profissionais de saúde, familiares e cuidadores interagem durante esse acompanhamento.

Logo, o uso da tecnologia em saúde pode proporcionar uma maior praticidade no processo de trabalho, além de permitir um monitoramento eficaz para os profissionais e cuidadores, registrando de forma sistemática as informações da criança e fornecendo orientações e parâmetros de avaliação que atualmente não existe de forma acessível, como nos casos das crianças prematuras, com doenças crônicas e/ou doenças raras.

Nesse sentido, o desenvolvimento do aplicativo e os resultados apresentados nesta pesquisa podem trazer uma contribuição inovadora para um acompanhamento infantil específico. O aplicativo SaúdeKids não está integrado com os sistemas de informação municipais ou nacionais. Contudo, caso seja de interesse governamental, esta integração é viável de acontecer.

Essas ferramentas tecnológicas possibilitam a oferta de alternativas para sanar fragilidades operacionais e facilitação do uso da informação em saúde de maneira ágil, com ênfase na vigilância epidemiológica do crescimento e desenvolvimento infantil30. Assim, o tempo do profissional pode ser otimizado, facilitando o acesso à informação e trazendo melhorias para o seu processo de trabalho.

Em suma, a integração da tecnologia no processo de trabalho dos profissionais para o acompanhamento da saúde da criança pode fortalecer a prática da puericultura na ESF, trazendo uma abordagem mais integrada e colaborativa na gestão em saúde.

Como limitações do estudo, destaca-se o fato de o aplicativo ter sido desenvolvido, inicialmente, apenas para smartphones com sistema operacional Android, o que restringiu a participação de especialistas que não dispunham desse tipo de dispositivo. Ademais, o funcionamento da ferramenta depende de conexão com a internet, o que pode limitar seu uso em contextos com acesso restrito ou instável à rede.

CONCLUSÃO

Os resultados evidenciaram que a usabilidade do aplicativo alcançou pontuação classificada como excelente, indicando um potencial avanço estratégico no uso de tecnologias em saúde para o fortalecimento do processo de trabalho na ESF. Destaca-se que, aplicativo SaúdeKids possui caráter inovador e está em consonância com o processo de transformação digital no Sistema Único de Saúde brasileiro.

Espera-se que, a partir dos resultados apresentados, gestores das secretarias municipais de saúde sintam-se motivados a investir na integração do aplicativo aos sistemas de prontuário eletrônico em uso, com vistas ao fortalecimento da Estratégia Saúde da Família, à qualificação do acompanhamento dos indicadores de saúde da criança no Brasil e à redução da morbimortalidade infantil.

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NOTAS

  • ORIGEM DO ARTIGO
    Extraído da tese - SAÚDEKIDS: avaliação de um aplicativo para o acompanhamento da saúde da criança, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, da Universidade Federal da Paraíba, em 2024.
  • APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
    Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Paraíba, parecer n. 5.960.404, Certificado de Apresentação para Apreciação Ética 66836423.7.0000.5188.
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Dados não disponíveis.

Editado por

  • EDITORES
    Editores Associados: Camila Xavier Dalcol.
    Editor-chefe: Gisele Cristina Manfrini.

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Set 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    07 Set 2025
  • Aceito
    01 Abr 2026
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