Open-access ATENÇÃO ÀS INFECÇÕES SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS ENTRE MULHERES EM SITUAÇÃO DE RUA: PERSPECTIVAS DE ENFERMEIRAS(OS) DO CONSULTÓRIO NA RUA

RESUMO

Objetivo:   Analisar as práticas de cuidado às mulheres em situação de rua de enfermeiros(as) do Consultório na Rua frente às infecções sexualmente transmissíveis.

Método:   Estudo descritivo, qualitativo, analisado à luz do conceito de vulnerabilidade. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas, por via remota, no período de outubro de 2022 a junho de 2024, com 12 enfermeiras(os) que atuavam no Consultório na Rua na região Norte do Brasil.

Resultados:   A vulnerabilidade perpassa o cuidado da(o) enfermeira(o) em todas as suas dimensões. Na atuação nas ruas, utilizam-se diferentes estratégias de prevenção, promoção da saúde, diagnóstico e tratamento de infecções sexualmente transmissíveis, encaminhamentos e intervenções no território. Evidencia-se contexto de vulnerabilidade programática no cuidado em rede de atenção às mulheres em situação de rua.

Conclusão:   As práticas de cuidado às mulheres em situação de rua na prevenção de infecções sexualmente transmissíveis é desafiadora e perpassa as dimensões da vulnerabilidade. As ações realizadas por enfermeiras(os) in loco no território contribuem para a acessibilidade ao cuidado dessa população.

DESCRITORES:
Atenção primária à saúde; Infecções sexualmente transmissíveis; Enfermagem; Saúde da mulher; Pessoas mal alojadas; Vulnerabilidade em saúde

ABSTRACT

Objective:  To analyze the care practices provided to women experiencing homelessness by Street Clinic nurses in the context of sexually transmitted infections.

Method:  Descriptive, qualitative study analyzed in light of the concept of vulnerability. Remote semi-structured interviews were conducted between October 2022 and June 2024 with 12 nurses working in the Street Clinic program in the Northern region of Brazil.

Results:  Vulnerability permeates nursing care in all its dimensions. In street-based practice, nurses employ different strategies for prevention, health promotion, diagnosis and treatment of sexually transmitted infections, as well as referrals and territorial interventions. A context of programmatic vulnerability is evident within the networked care provided to women experiencing homelessness.

Conclusion:  Care practices aimed at women experiencing homelessness for the prevention of sexually transmitted infections are challenging and traverse multiple dimensions of vulnerability. The actions carried out by nurses in loco within the territory contribute to improving access to care for this population.

Descriptors:
Primary health care; Sexually transmitted infections; Nursing; Women’s health; Homeless people; Health vulnerability

RESUMEN

Objetivo:  Analizar las prácticas de cuidado brindadas a mujeres en situación de calle por enfermeras de los Consultorios na Rua en el contexto de las infecciones de transmisión sexual.

Método:  Estudio descriptivo y cualitativo, analizado a la luz del concepto de vulnerabilidad. Se realizaron entrevistas semiestructuradas de forma remota entre octubre de 2022 y junio de 2024 con 12 enfermeras que trabajan en el programa Consultorio na Rua en la región Norte de Brasil.

Resultados:  La vulnerabilidad atraviesa el cuidado de enfermería en todas sus dimensiones. En la práctica realizada en la calle, las enfermeras emplean diferentes estrategias de prevención, promoción de la salud, diagnóstico y tratamiento de infecciones de transmisión sexual, además de derivaciones e intervenciones territoriales. Se evidencia un contexto de vulnerabilidad programática dentro del cuidado en red dirigido a mujeres en situación de calle.

Conclusión:  Las prácticas de cuidado dirigidas a mujeres en situación de calle para la prevención de infecciones de transmisión sexual son desafiantes y atraviesan múltiples dimensiones de vulnerabilidad. Las acciones realizadas por las enfermeras in loco en el territorio contribuyen a mejorar el acceso a la atención para esta población.

Descriptores:
Atención primaria de salud; Infecciones de transmisión sexual; Enfermería; Salud de la mujer; Personas en situación de calle; Vulnerabilidad en salud

INTRODUÇÃO

No Brasil, 1 em cada 1.000 pessoas encontra-se em situação de rua, e as mulheres representam aproximadamente 13% deste contingente populacional1. A vida nas ruas expõe as mulheres a situações desafiadoras que envolvem a integridade de seus corpos, sua sexualidade e sua saúde2.

Ao comparar as mulheres em situação de rua com a população geral, estas apresentam piores condições de saúde física e mental e, consequentemente, maior risco de morte prematura2-4, além de maior risco de aquisição de infecções sexualmente transmissíveis (IST), problemas ginecológicos, gravidez indesejada e aborto inseguro2-3,5.

Nessa perspectiva, as mulheres em situação de rua apresentam necessidades diferenciadas de saúde sexual e reprodutiva, que se constituem como desafios para os serviços e o sistemas de saúde4. O uso consistente de métodos de prevenção tem o potencial de reduzir a transmissão de ISTs. No entanto, persistem barreiras no acesso aos serviços de saúde e às medidas de prevenção para a população em situação de rua (PSR)6-9.

A estratégia Consultório na Rua (CnaR), instituída em 2011 pela Política Nacional de Atenção Básica, visa a ampliação do acesso dessas pessoas à rede de atenção e oferta de cuidado em saúde por meio da construção de vínculos, escuta qualificada, relação dialógica, intersetorialidade, trabalho interdisciplinaridade e compartilhamento do cuidado3,10. Constitui-se por equipes multiprofissionais que têm como diferencial o trabalho in loco, no contexto das ruas, com o desafio de atender às necessidades de saúde e promover cuidados e ações de saúde para a PSR3,10. No contexto da equipe multiprofissional, especificamente, o trabalho da enfermagem compreende o cuidado integral aos indivíduos, às famílias e à comunidade, com a realização de atividades assistenciais, gerenciais, educativas e investigativas para promoção, manutenção e recuperação da saúde individual e coletiva11.

Uma revisão de escopo destaca que os conhecimentos, atitudes e práticas das(os) enfermeiras(os) contribuem de forma significativa para o acesso da PSR aos serviços de saúde, especialmente no contexto da educação, promoção da saúde sexual e reprodutiva e prevenção das IST12. Identificam-se estudos brasileiros que tomam por objeto o cuidado à PSR no âmbito do CnaR. Entretanto não abordam as questões de gênero e concentram-se nas capitais da região sudeste10,13. O presente estudo tem como objetivo analisar as práticas de cuidado às mulheres em situação de rua de enfermeiros(as) do CnaR, frente às ISTs, no contexto da região Norte do Brasil.

MÉTODO

Trata-se de um estudo qualitativo que seguiu as diretrizes estabelecidas pelo Critério Consolidado de Relato de Pesquisa Qualitativa (COREQ)14. A fundamentação teórica foi embasada no conceito de vulnerabilidade, no qual a chance de exposição das pessoas ao HIV e adoecimento pela aids resulta de conjunto de aspectos individuais, coletivos e contextuais que acarretam maior suscetibilidade à infecção e ao adoecimento. Na dimensão individual da vulnerabilidade, incluem-se os aspectos biológicos, comportamentais e afetivos que aumentam a suscetibilidade aos desfechos adversos de saúde. O componente social relaciona-se à interferência do contexto socioeconômico e cultural. Já o programático refere-se à maneira como as políticas, os programas, serviços de saúde e a distribuição de recursos para prevenção e controle influenciam no enfrentamento das IST/HIV15. Entende-se que o cuidado realizado pelas(os) enfermeiras(os) do CnaR é um elemento da vulnerabilidade das mulheres em situação de rua às IST/aids em sua dimensão programática16.

A pesquisa foi conduzida nos serviços de CnaR da região Norte do Brasil, em oito municípios de seis estados: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Tocantins. Esses serviços têm como objetivo atender à PSR, profissionais do sexo, migrantes, indígenas da cultura Warao e outros grupos em situação de vulnerabilidade, considerando as suas especificidades regionais.

Participaram enfermeiras(os) com atuação no CnaR por mais de seis meses e com experiência no cuidado primário de mulheres em situação de rua. Foram excluídos profissionais que estivessem sob licença saúde ou férias. A seleção dos participantes seguiu o critério de amostragem por conveniência, e a coleta de dados ocorreu entre outubro de 2022 e junho de 2024.

O recrutamento das(os) potenciais participantes foi realizado por meio do envio de e-mails para as secretarias estaduais e municipais de saúde dos estados da Região Norte, solicitando o contato dos coordenadores dos Consultórios na Rua. Após o retorno institucional, foi solicitado o contato das(os) enfermeiras(os) atuantes em cada equipe e, em seguida, encaminhado o convite individual, por via eletrônica. Adicionalmente, foi realizado o envio do convite para participar da pesquisa nas páginas das equipes de CnaR nas redes sociais (Instagram® e Facebook®). A mensagem para as(os) potenciais participantes continha a apresentação da equipe de pesquisadores, o nome da instituição a qual estavam vinculados, o objetivo da pesquisa, a menção de que haveria entrevista online, o comprometimento com o sigilo dos dados, bem como o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Após a manifestação de interesse e assinatura digital do TCLE, foi agendado o dia e o horário da entrevista, conforme a disponibilidade da(o) participante. No total, foram enviados convites para 19 potenciais participantes, dos quais 14 enfermeiras(os) aceitaram participar. No entanto, em três situações não houve um retorno dos participantes, resultando em um total de 12 entrevistas realizadas. Uma das pesquisadoras procedia ao agendamento da entrevista semiestruturada, realizada de forma remota e gravada via Google Meet®. As entrevistas foram conduzidas por duas pesquisadoras enfermeiras, ambas com títulos de doutora, e uma acadêmica de enfermagem treinada para esta atividade. Destaca-se que as entrevistadoras não possuíam prévio contato com os serviços ou com as(os) participantes. Cada entrevista teve duração média de 50 minutos e foi realizada uma única vez com cada participante.

A coleta de dados foi encerrada quando as temáticas trazidas pelos participantes durante as entrevistas começaram a se repetir e na ausência de novos pronunciamentos, mediante a percepção do pesquisador, durante o processo contínuo de análise dos dados. A saturação do conteúdo indicou suficiência do material empírico para atender aos objetivos da pesquisa17. O instrumento de coleta de dados consistiu em roteiro semiestruturado dividido em duas partes: a primeira incluiu as variáveis sociodemográficas, como idade, autodeclaração racial, nível de formação (especialização, mestrado, doutorado) e tempo de atuação no CnaR. A segunda parte foi composta por questões abertas relacionadas ao cuidado do enfermeiro às mulheres em situação de rua relacionadas às IST, com questões norteadoras como: "Como é realizada a abordagem às IST no CnaR?" e "Como é a prática de cuidado da(o) enfermeira(o) às mulheres em situação de rua diagnosticadas com IST?". Foi realizado teste piloto com dois participantes com o objetivo de verificar a clareza, pertinência e sequência do instrumento. O teste permitiu avaliar a adequação das perguntas à realidade dos entrevistados. Não foram identificadas dificuldades de entendimento ou necessidade de ajustes. Diante disso, as respostas obtidas no teste piloto foram mantidas e incorporadas ao corpus analítico do estudo.

Após a coleta dos dados, as entrevistas foram transcritas. Para garantir o sigilo e a confidencialidade dos participantes, cada entrevista foi identificada com a letra "E" seguida de um número cardinal correspondente à ordem de realização das entrevistas. Os dados foram apresentados a partir da análise de conteúdo, conforme o modelo descrito por Morse e Field18, desenvolvida em etapas sequenciais: apreensão, síntese, teorização e recontextualização. Os resultados foram interpretados à luz do conceito de vulnerabilidade15, o que possibilitou compreender como fatores individuais, coletivos e estruturais interferem no cuidado. Por meio da análise de conteúdo, foram definidas três categorias: “Percepção das(os) enfermeiras(os) frente a vulnerabilidades de mulheres em situação de rua quanto às IST e HIV”, “Práticas de cuidado na prevenção e enfrentamento das IST”, e uma terceira categoria intitulada “Desafios no cuidado da(o) enfermeira(o) no Consultório na Rua: reflexos da vulnerabilidade programática”.

A pesquisa foi aprovada por Comitê de Ética em Pesquisa. Todos os procedimentos éticos foram rigorosamente seguidos conforme as diretrizes da Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde para pesquisas realizadas com seres humanos, garantindo a confidencialidade, o anonimato e o direito de desistência a qualquer momento, sem prejuízo aos participantes. O acesso aos dados foi limitado exclusivamente à equipe de pesquisadores do estudo, sendo vedado o compartilhamento com terceiros. Os arquivos digitais foram armazenados no computador e mantidos em pasta institucional criptografada durante todo o processo de análise. Dessa forma, foram assegurados todos os princípios éticos, conforme a resolução vigente e a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei número 13.709/2018), garantindo o respeito à dignidade e aos direitos dos participantes.

RESULTADOS

Participaram do estudo 12 enfermeiras(os), com média de idade de 35 anos, sendo nove do sexo feminino. Sete participantes se identificavam como pardas(os), quatro brancas(os) e um(a) preta(o). Em relação ao estado civil, sete estavam casadas(os) ou em união estável. O tempo médio de graduação foi de 10 anos. Dez enfermeiras(os) tinham especialização em diferentes áreas da enfermagem, sete delas(es) em saúde pública/coletiva, e duas(os) com mestrado.

Os resultados da análise de conteúdo das entrevistas são apresentados considerando-se três categorias, a saber: “Percepção dos enfermeiros frente a vulnerabilidades de mulheres em situação de rua quanto IST e HIV”, “Práticas de cuidado na prevenção e enfrentamento das IST” e “Desafios no cuidado do enfermeiro no Consultório na Rua: reflexos da vulnerabilidade programática.

Percepção das(os) enfermeiras(os) frente a vulnerabilidades de mulheres em situação de rua quanto às IST e HIV

Participantes dos diferentes municípios fizeram menção à alta incidência de IST na PSR, especialmente sífilis e HIV, de forma indistinta - homens e mulheres, jovens e pessoas idosas, e mencionaram preocupação crescente com o aumento no número de casos de HIV:

A gente tem uma alta incidência de sífilis e não é num grupo específico: homem, mulher, jovem, pessoas mais maduras (E3).

(...) temos um grande índice de IST [entre a PSR], a maioria delas é sífilis e HIV e faz acompanhamento inclusive na rede especializada (E4).

Aqui no Estado a gente tem uma incidência muito grande de infecções sexualmente transmissíveis, principalmente de HIV (E8).

Destaca-se a particularidade da região Norte: a atenção aos povos originários e imigrantes, em especial procedentes da Venezuela, constituindo grupos que se deslocam em fluxos em direção a diferentes capitais:

A maioria dos imigrantes na rua vem da Venezuela, indígena. Acho que 90% são da etnia Warao. Inclusive, a gente tem uma equipe [de CNaR] que foi criada especialmente para eles (...) (E1).

Alguns vão para Roraima. De Roraima para Manaus. De Manaus para Belém. Depois, Maranhão. Daí seguem para outras cidades do Nordeste e Sudeste. E vão e voltam (E4).

As/Os enfermeiras(os) destacaram a questão de múltiplas parcerias sexuais e a dinâmica das relações de gênero. As pessoas em situação de rua se deslocam, muitas vezes dos abrigos, para o contexto das ruas, onde praticam a mendicância e atividades sexuais, mesmo podendo ter parceria fixa, seja na rua ou seja no abrigo.

Acredito que elas [parcerias sexuais] possam ter um impacto muito grande na questão sexual, da saúde da mulher. Porque muitas vezes os homens saem ‘pra’ trabalhar, que é pra pedir na rua e eles acabam tendo relações [sexuais] por fora (E8).

E a gente verificou que os homens ficam em casa ou fica um local de base ali. E as mulheres vão fazer a coleta na rua (E11).

Acho que realmente a maioria das mulheres, elas têm sempre um companheiro e eles sempre dominam. Então assim, ‘pra’ gente conseguir chegar nela, tem que chegar primeiro, né? (E12).

As falas dos participantes do estudo evidenciam que as mulheres em situação de rua enfrentam violência não só dos parceiros, mas de outros grupos.

Tanto a violência quanto a riscos de violência física, violência sexual, risco mesmo de encontrar alguém que elas não tenham bom convívio, a gente tem pessoas, inclusive mulheres que ficam num território mas não podem ir pra outro. Elas não podem passar para outro território porque são marcadas (E3).

Mulheres que sofrem múltiplas violências na rua. E é muito comum, tanto relacionada a sexual, física e moral por parte inclusive de agentes públicos (E4).

No atendimento no CNaR, enfermeiras(os) do estudo identificaram mulheres em situações distintas, como trabalhadoras do sexo e mulheres transexuais e relataram diferentes estratégias de assistência em saúde sexual e de prevenção de IST, tanto para identificar as particularidades de cada grupo quanto singularidades de cada pessoa.

(...) as [mulheres] que se prostituem, elas têm a consciência do uso da camisinha, (...) as que trabalham como profissionais do sexo dentro das boates aqui de X [cidade] e as meninas que se prostituem na esquina. E também as travestis (E3).

A gente anda com caixas de preservativos no carro, a gente chega distribuindo quando essa mulher aceita, e para os homens. As mulheres se interessam mais pelo preservativo do que os homens (E4).

A gente as orienta: “Olha, vocês tem que usar camisinha”. A gente disponibiliza, toda rota que fazemos levamos o preservativo e distribuímos (E8).

Os principais métodos que utilizamos são os de barreira, tanto masculino como feminino, só que tem mais procura pelo preservativo masculino (E9).

Buscam disponibilizar tanto preservativos internos quanto externos, sendo que a PSR atendida tem preferência pelo externo.

Eles [os homens em situação de rua] só usam camisinha masculina. Eles não aceitam a feminina de jeito nenhum, nem as mulheres. Diz que não é legal, que é desconfortável (E1).

A gente trabalha mais com o preservativo masculino, porque o feminino elas não gostam. (...) o [preservativo] masculino elas saem levando de montão. Muitas têm a preocupação de se prevenir, não só pela questão da contracepção, mas a prevenção de IST (E2).

A camisinha feminina não tem tanta saída, a gente tem grande quantidade, mas elas não gostam. Elas falam que é muito grande, que é feia, que é muito difícil. Mesmo a gente oferecendo, preferem pegar a masculina (E3).

Elas pegam quando a gente passa com preservativo, pegam bastante preservativo masculino. A gente tem o feminino também, mas as mulheres não gostam de usar (E6).

Ressaltaram dificuldades enfrentadas pelas mulheres na negociação do uso do preservativo com as parcerias sexuais como estratégias de prevenção.

Todas elas têm a noção da importância do uso do preservativo, mas às vezes, por uma imposição do homem acabam não usando. (...) que se ela não fizer o que ele está falando ele não vai pagar [o programa sexual] e aí ela não vai receber o dinheiro, sendo que ela precisa daquele dinheiro. Então ela acaba cedendo. (...) Outras falam que até usariam, mas o parceiro não quer (E3).

A gente acaba distribuindo para a mulher, na mão da mulher. Isso foi uma estratégia para efetivação de cuidados, porque a gente via que, da forma como a gente trabalhava [entregavam caixas de preservativo para a responsável pelo território] a mulher não tinha o acesso. (...) havia a reutilização de preservativos. (E4)

Elas usam preservativo masculino, falam que os parceiros preferem (E8).

Práticas de cuidado na prevenção e enfrentamento das IST

O aconselhamento foi uma das principais ferramentas utilizadas por enfermeiras(os), momento que aproveitavam a interação com as mulheres em situação de rua e podiam realizar estratégias de redução do risco de transmissão das IST, abordar conhecimento sobre transmissão e enfatizar a importância da adesão às medidas de prevenção. Na rua, referiram à possibilidade de realizar consultas e fazer testes rápidos de diagnóstico de HIV, sífilis, hepatites B e C, e o encaminhamento para serviços especializados em caso de resultado reagente. Durante os atendimentos, também eram realizadas ações de promoção da saúde e prevenção de doenças com mulheres em situação de rua.

A gente orienta com relação ao preventivo, com relação a exames de rotina, testagem de HIV, sífilis, hepatites. (E2)

A gente faz a testagem, distribui os preservativos e faz as orientações com elas. (E5)

Quando a gente sai ‘pra’ rota, a gente oferece todos os serviços de saúde que tem disponíveis. Oferece testagens rápidas; consulta com a médica, que é clínica geral; curativo; atendimento psicológico. Nessas ações, a gente acaba identificando pessoas soropositivas, e aí quando a gente identifica, encaminha ‘pro’ centro de especialidade. (E7)

Elas sempre solicitam ‘pra’ gente fazer teste rápido das IST. A gente trabalha com HIV, sífilis, hepatite B e hepatite C. (E8)

A oferta da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) às mulheres trabalhadoras do sexo foi outra ação destacada pelas(os) participantes. Estas ações incluíam a realização de intervenções em boates com o objetivo de dialogar com elas, informá-las e engajá-las na utilização da PrEP como medida preventiva contra o HIV/AIDS. As(os) enfermeiras(os) ressaltaram que essas intervenções faziam parte de processo contínuo, com várias etapas, desde a explicação inicial até a identificação das interessadas, enfatizando a importância do respeito à vontade das mulheres neste processo. Também destacaram o sucesso na oferta da PrEP nas Unidades Básicas de Saúde (UBS).

Fizemos um cronograma justamente ‘pra’ entrar com esse assunto da PrEP para população de rua, em específico para essas mulheres [profissionais do sexo]. Então a gente vai começar duas ações agora dentro das boates (...). São boates onde só ocorre a prostituição. (...) Será um dia pra explicar, outro dia pra gente começar a pensar em como é que vai ser usada [a PrEP]. Outro dia a gente vai “escolher” as meninas ‘pra’ começar a usar. Na verdade, eu não sei se a palavra é “escolher”, porque elas também têm que querer. (E3)

Oferecemos a PREP, a gente tem interação com as UBS que oferecem, né? E a gente já consegue inseri-las nesse serviço. Tanto é que tem umas pacientes, principalmente as profissionais do sexo, elas já estão inseridas ‘pra’ usar a PrEP. (E8)

As(Os) enfermeiras(os) destacaram a importância da abordagem sindrômica com as mulheres em situação de rua na presença de sintomas como dor, prurido genital, corrimento vaginal, dentre outros. Nestes atendimentos, realizavam testes rápidos, intervenções medicamentosas e encaminhamento para consulta médica. Consideraram que a intervenção imediata na rua é importante, aproveitando a oportunidade para oferecer tratamento in loco sempre que possível.

E quando apresentam uma questão mais de IST “Ah eu estou sentindo dor”, “Estou com uma coceira na minha região genital” ou então “Estou com corrimento”, a gente já entra com os testes [rápidos] e a questão medicamentosa (...) pede para passar por uma avaliação com o médico. (E2)

A clínica é importantíssima nesse sentido, dos relatos dos sintomas. Se eu identificar alguma coisa, alguma outra suspeita, por exemplo, quando está relacionado a gonorreia, a gente tenta levar na unidade, quando é possível, ‘pra’ avaliação de outro profissional, de um médico ou por protocolo, eu oportunizo o tratamento. A gente oportuniza o tratamento na rua mesmo. (...) consigo fazer um exame clínico, quando me permitem, e forneço o tratamento de imediato. (E9)

(...) [entre a PSR] tem bastante IST, muita sífilis. A gente faz muito tratamento de sífilis, teste rápido, identifica e já vamos fazer o tratamento. (E12)

Desafios no cuidado do enfermeiro no Consultório na Rua: reflexos da vulnerabilidade programática

Evidenciaram-se barreiras no acesso aos serviços de saúde e longa espera para o atendimento especializado, com repercussões na morbidade e mortalidade da PSR em decorrência do agravamento da condição clínica.

A própria rede deixa suas falhas, suas lacunas. Falhas administrativas, burocráticas, da impossibilidade de agendar uma consulta especializada, de agendar o exame especializado, uma necessidade de ser urgente esse exame, essa consulta… Porque essa pessoa está hoje comigo, daqui uma semana ela já pode ter até morrido na rua. Então é complicado a gente tentar conseguir uma consulta ou um exame especializado para daqui a seis meses. Daqui a seis meses essa pessoa pode não estar mais entre nós. (E2)

As/Os enfermeiras(os) também relataram as dificuldades de adesão ao tratamento das IST devido a presença de eventos adversos relacionados às medicações. Para as mulheres em situação de rua, a dificuldade de adesão e o abandono do tratamento são ampliadas, dadas as condições de falta de moradia e abrigo que resultam em condições inapropriadas para o cuidado.

O tratamento, do HIV e AIDS, a gente sabe que ele é dificultoso e causa vários efeitos adversos, que machuca, que agride muito a saúde da pessoa. ‘Pra’ elas é mais difícil. Elas não têm onde ficar, elas não têm onde se abrigar quando elas estão nesse momento. Então, a maioria delas, começam a fazer o tratamento e acabam parando por causa disso, porque esse desconforto, danoso, é muito doloroso pra ela passar na rua. (E7)

Tem umas mulheres com HIV e a gente faz esse acompanhamento com elas pra pegar medicação, né? Pra ver se elas tão pegando a medicação, a gente tenta acompanhar elas até o serviço pra ver se elas vão, porque muitas desistem do tratamento. (E8)

Além disso, ressaltaram a dificuldade das mulheres em situação de rua em seguir o tratamento que exige regularidade e cuidados constantes, dado o contexto de vulnerabilidade social em que se encontram, e devido às dinâmicas da rua e território.

Na rua ela não tem hora, ela não tem perspectiva de tempo. Então, como é que uma pessoa que está em situação de rua vai fazer um tratamento que precisa de cuidados, que precisa de hora, que precisa ter uma regularidade? Isso dificulta bastante a participação, o aceite delas no tratamento. Foi aí que a gente já perdeu algumas mulheres para as doenças. (E7)

A gente acompanha elas na rua mesmo, a sífilis e algumas outras IST, a gente faz o tratamento na rua mesmo, até pra gente garantir que seja feito. E nem assim, às vezes, a gente consegue garantir, elas saem muito dos locais com facilidade, são andarilhas e não permanecem naquele local por muito tempo. Mas a gente indo [no território], a gente garante que elas façam o tratamento. Quando elas têm que ir à unidade, é mais difícil. Então, a gente prefere ir até elas para garantir os tratamentos. (E11)

O pior é a gente não ter resultado, quando a gente inicia um tratamento de sífilis e a gente não consegue e não tem resultado. Isso é frustrante. Caça, procura, e na outra semana não acha. Aí vai começar tudo de novo. A gente não conseguia resolver. (E12)

No cuidado com as mulheres em situação de rua, evidencia-se mobilização das(os) enfermeiras(os) para captar recursos da comunidade, com a realização de ações de solidariedade para angariar suprimentos de necessidades básicas não atendidas pelos serviços de saúde e/ou assistência social.

Além do trabalho de profissional, a gente consegue também fazer o além. O que é o além: levar uma roupa, dar uma cesta básica, é comprar uma medicação quando não tem na rede. A gente consegue numa rede de apoio de doadores, nos grupos de amigos (...). É isso é ir além do profissional,. É entender que são pessoas que precisam e quando a rede não consegue dar uma resposta ou efetivar esse cuidado integral, a gente procura do nosso jeito efetivar. (E2)

Há questões culturais na realização do cuidado que devem ser consideradas durante a assistência, como a oferta de testes rápidos, ao tratar da especificidade dos povos da etnia Warao.

Eles [Warao] são baseados na magia deles, então é muito complicado até ‘pra’ fazer teste de HIV, aquele teste rápido. Por ter que pegar o sangue, era complicado mostrar que eu não era bruxo! E eles diziam: olha, eu não vou fazer teste, porque eu não tenho mais sangue. (E1)

As(os) enfermeiras(os) destacam o idioma como uma barreira na atenção aos imigrantes e aos povos originários. As estratégias utilizadas por estes profissionais eram o apoio de intérpretes, inclusive crianças Warao, com mais facilidade no aprendizado do idioma português. Em algumas vezes foi necessária a tradução do português para o espanhol e deste para o Warao, exemplificando a dificuldade na comunicação, ponto chave da assistência. Também referiram o uso de outros recursos linguísticos, a exemplo do uso de mímicas e gestos.

Eu acho que a primeira coisa era elaborar uma questão de comunicação. (...) da gente pegar e estudar, pelo menos, as palavras mais conhecidas na linguagem Warao, ‘pra’ gente poder entender, pelo menos, àquelas que se relacionam com a saúde.Pra’ gente poder se comunicar, não somente através de gestos, porque às vezes é complicado. (E1)

É muito complicado porque os mais velhos não falam espanhol, só falam Warao, e, normalmente, é o cacique deles! A comunicação acaba sendo mais complicada, porque é do português para o espanhol e do espanhol para o Warao, e do Warao para o espanhol, e do espanhol para o português, entende? (E3)

Às vezes elas falam que entenderam o que a gente disse, mas quando pedimos para repetir, no caso de uma medicação, elas falam tudo ao contrário do que a gente falou. Então a comunicação é uma grande barreira para a assistência. (E4)

E a metade, digamos assim, consegue falar o espanhol, outra metade fala a língua Warao, que é a língua nativa deles, língua indígena. E quem fala o Warao é complicado de conversar. A gente precisa de um intérprete, que, às vezes, são os garotinhos, os mais novos. Eles já falam um pouco do português. Alguns deles sabem um pouquinho de espanhol. Aí fala, traduzem em muita mímica. (E6)

DISCUSSÃO

As práticas de prevenção e enfrentamento das IST desenvolvidas por enfermeiros no CNaR na região Norte do Brasil demonstraram contextos que perpassam as dimensões da vulnerabilidade individual, social e programática das mulheres em situação de rua à estes agravos. Integrantes das equipes, as(os) enfermeiras(os) têm, na sua formação e processo de trabalho, conhecimentos que agregam conteúdos das áreas básicas da biologia, da psicologia e ciências sociais, potência para a realização de práticas de cuidado diferenciado a esta população. Estudos mostram trabalho diferenciado que considera a diversidade de práticas sexuais que podem acontecer, que reconhece a presença do consumo de substâncias psicoativas em diferentes contextos, e identifica uso inconsistente de métodos de barreira, sexo transacional, além de relações sexuais desprotegidas resultantes de situações de abuso sexual que conferem maior vulnerabilidade dessas mulheres às IST2,5-7,9,19. Enfermeiras(os) do estudo percebem contextos diferenciados nas práticas de cuidado à mulheres em situação de rua na região estudada, onde há grande proporção de povos originários, e ressalta-se que 0,2% destes encontram-se em situação de rua no Brasil, sendo maior na Região Norte (0,5%), região também que tem maior proporção de pessoas em situação de rua naturais de outro país (33%)1.

A Região Norte do Brasil apresenta peculiaridades em relação à PSR, influenciadas por contextos geográficos, sociais e culturais. A vasta extensão territorial e a presença de fronteiras internacionais facilitam fluxos migratórios e a vulnerabilidade de grupos marginalizados20. Essas fronteiras também podem funcionar como corredores para o tráfico humano e a exploração sexual, principalmente de mulheres e adolescentes, propiciando maior vulnerabilidade às ISTs21.

O presente estudo identificou desafios na adesão ao uso de preservativos, sobretudo o interno, o que remete à vulnerabilidade individual, considerando a percepção do risco, adoção de medidas de autoproteção, atitudes pessoais e vivência da sexualidade, além de habilidades de negociar práticas sexuais seguras15. As relações de gênero permeiam a dimensão social da vulnerabilidade15, uma vez que o fato de se encontrar em situação de rua e ser mulher amplia estigmas que são socialmente compartilhados, em que a transversalidade de gênero reforça outras exclusões22. As dificuldades de negociação das mulheres em situação de rua quanto ao uso de preservativos evidencia a desigualdade de gênero, historicamente desfavorável, que dificulta sua autonomia para tomada de decisões, incluindo a negociação do sexo protegido4.

O uso de preservativos é baixo na PSR sexualmente ativa, com 18,4% com relatos de uso frequente em todas as relações sexuais19. A utilização de preservativos internos por mulheres em situação de rua é inferior, chegando a 8%8. Evidencia-se a escassez de conhecimento quanto às formas de transmissão e de prevenção das IST na PSR8 e dos benefícios do uso dos métodos de barreira na prevenção destas infecções9, o que reitera o papel e ações das(os) enfermeira(os) do CnaR na educação em saúde. As(os) enfermeiras(os) podem contribuir com o empoderamento da saúde sexual, com a participação da mulher na tomada de decisões, fortalecimento de seu potencial de negociação sexual e habilidades de comunicação sexual, bem como a compreensão de risco de HIV e IST e o esclarecimento acerca do uso de métodos de prevenção23.

O trabalho in loco dos(as) enfermeiros(as) permitiu o acesso ao cuidado para as mulheres em situação de rua, bem como a realização de intervenções em áreas de maior vulnerabilidade social. Na atuação das equipes de CnaR, o conhecimento do território, o trabalho itinerante e a promoção da acessibilidade aos serviços de saúde, com o desenvolvimento de ações baseadas na promoção da saúde e da equidade, propiciam a integralidade do cuidado10. Faz-se imprescindível entender o coletivo como o comum, compreender como este se constrói com as pessoas em interação nos diversos contextos em que se encontram, nas cenas do cotidiano em que se expõem (ou são expostas) às IST/HIV24. A atuação das(os) enfermeiras(os) in loco no CnaR tem o potencial de propiciar a codificação da dinâmica da cena de exposição, implicada no cenário territorial, que possui características socioculturais e condições programáticas no SUS e no Sistema Único de Assistência Social específicas daquele local24.

Dentre as ações implementadas pelas(os) enfermeiras(os) para a redução do risco de transmissão das IST destacou-se o aconselhamento, a realização de consultas de enfermagem, abordagem sindrômica, e testes rápidos. O aconselhamento é uma ferramenta essencial de escuta, que auxilia no estabelecimento de vínculos e respeita as pessoas de forma equitativa, buscando a continuidade do cuidado e atenção integral à saúde. Entretanto, para que esses objetivos sejam alcançados, é necessário que os profissionais estejam adequadamente preparados para realizar escuta empática e promover a ressignificação positiva em relação à sexualidade25.

A testagem de IST apresentou falhas na atenção à saúde sexual e reprodutiva das mulheres que vivem em regiões de fronteiras amazônicas20. Evidencia-se que existe uma parcela da PSR sexualmente ativa com ausência de testagem por período prolongado, falta de aconselhamento após o teste5, pessoas em situação de rua que não utilizam nenhuma forma de prevenção contra as IST6, além de mulheres em situação de rua nunca receberam testagem para IST, o que reforça a importância das ações das(os) enfermeiras(os) in loco. Destaca-se que, a PrEP e o tratamento antiretroviral para as pessoas que convivem com o HIV são imprescindíveis para a prevenção do HIV e de sua transmissão na PSR5. Evidencia-se a adesão de parte das pessoas em situação de rua à PrEP, bem como o interesse em utilizá-la como estratégia de prevenção5. Logo, a realização de ações de educação em saúde para as pessoas em situação de rua para maior conhecimento e adesão da PrEP5 é uma importante estratégia que pode ser implementada por enfermeiras(os) no CnaR.

Um estudo de intervenção realizado nos Estados Unidos da América identificou o impacto de ações de enfermeiras(os) com a implementação técnicas de entrevistas motivacionais e de estratégias de decisão compartilhadas, com o desenvolvimento de planos de cuidado individuais e metas pactuadas mutuamente com os usuários para prevenção do HIV entre jovens (16-25 anos) em situação de rua. A intervenção focou na promoção de comportamentos de prevenção para o HIV, como a PrEP, testagens para o HIV/IST, em evitar as práticas sexuais sob efeito de substâncias e uso de preservativos. Evidenciou-se após a realização da intervenção maior adesão a PreP, porém sem repercussões quanto ao uso da nPEP, adesão ao uso de preservativos, prática do sexo sem efeito de substâncias e nos casos de HIV e IST19.

No bojo das ações das(os) enfermeiras(os) tem-se o encaminhamento das pessoas que tiveram resultados de diagnóstico reagente para as IST para serviços secundários de assistência. A atenção primária à saúde é a porta de entrada da PSR nos serviços de saúde, por meio do CnaR10. O trabalho do CnaR inclui o matriciamento, referência e contrarreferência para a garantia da integralidade do cuidado, a partir de um trabalho interdisciplinar e em rede para melhor atender as necessidades da PSR, sobretudo para o manejo dos casos de maior complexidade3,10.

Evidenciaram-se, no âmbito da vulnerabilidade programática, barreiras no acesso aos serviços de saúde, no referenciamento para a atenção especializada, na continuidade do cuidado e no acesso a insumos e condições básicas de vida durante os tratamentos, para que possam ter condições de recuperar a sua saúde. Identifica-se escassez de serviços para a PSR, bem como desafios na articulação entre os outros serviços de saúde13. Torna-se pertinente a necessidade de reestruturação dos serviços e articulação com os demais componentes da rede de atenção para avançar na assistência à saúde da PSR, na perspectiva de superar exclusão institucional e estigma vivenciado por essas pessoas26.

O presente estudo evidenciou como barreira a resistência das mulheres na adesão ao tratamento e aproximação com a equipe do CnaR. Mulheres em situação de rua enfrentam desafios significativos para aderir ao tratamento, como falta de moradia estável, falta de recursos financeiros, estigma social, discriminação nos serviços de saúde e dificuldade em manter uma rotina regular de cuidados de saúde27. Ainda, deve-se considerar a mobilidade geográfica da PSR fazendo com que a continuidade do cuidado se torne ainda mais desafiadora19.

A falta de conexão entre a mulher em situação de rua com o profissional de saúde representa barreira para o uso de métodos de prevenção de IST8. O estigma e preconceito culminam no acesso tardio aos serviços de saúde e no agravamento das condições de saúde2-3. Outra barreira refere-se à falta de conhecimento das mulheres acerca da disponibilidade dos serviços de saúde2. Os/As enfermeiros(as) devem reconhecer e apoiar as mulheres em situação de rua enquanto ativas no processo da busca dos serviços de saúde, proporcionando melhorias na experiência do cuidado28.

Torna-se imprescindível a construção de vínculos, relações horizontais de cuidado e oferta de assistência profissional de qualidade, desprovida de estigma e preconceito, com o reconhecimento das singularidades de cada pessoa3,10,13,28. Tal postura é essencial, uma vez que as mulheres só regressarão ao ambiente de cuidados de saúde caso se sintam seguras e protegidas, com a garantia que sua dignidade será preservada28.

Deve-se considerar as especificidades da região Norte e os desafios elencados no cuidado aos povos originários nas áreas urbanas e imigrantes em situação de rua. O fluxo imigratório apresenta repercussões no sistema de saúde, como problemas estruturais relacionados a fragilidades de infraestrutura, carência de profissionais técnicos e sobrecarga do trabalho29, que intensificam as condições de vulnerabilidade programática15. Ainda, deve-se ressaltar os aspectos étnicos-culturais, como a barreira linguística, que contribui como um fator limitante na qualidade da assistência à saúde29.

O maior investimento em serviços para a atenção a PSR pode representar valiosa ferramenta para a melhoria do acesso aos serviços de saúde, para reduzir as barreiras para o cuidado e contribuir para a eliminação das disparidades no cuidado a mulheres em situação de rua8. Ao considerar as iniquidades em saúde no Brasil e a necessidade de maiores investimentos em saúde na Região Norte30, e somando-se a demanda do crescente movimento migratório que a região é imputada, muitas vezes ocasionando a sobrecarga dos sistemas de saúde29, evidencia-se a potencialidade do CnaR na perspectiva da integralidade do cuidado, equidade, na defesa de direitos, com efeito no exercício da cidadania10. Ao identificar as vulnerabilidades em saúde, também estarão presentes desafios e oportunidades para a construção de uma sociedade mais justa e solidária24.

O estudo apresenta limitações, como a realização remota das entrevistas e a impossibilidade da observação dos atendimentos dos(as) enfermeiros(as). Em contrapartida, a realização do estudo remoto possibilitou o conhecimento de distintas realidades no cuidado a mulheres em situação de rua na região Norte. Outra limitação refere-se ao fato de o estudo não avaliar as experiências das mulheres, o que poderia oferecer visão mais abrangente das questões relacionadas à prevenção e ao tratamento de IST. Esta limitação ressalta a necessidade de estudos futuros que incorporem múltiplas perspectivas e incluam a voz das próprias mulheres.

CONCLUSÃO

A atuação das(o)s enfermeiras(os) no CnaR da região Norte na prevenção e enfrentamento das ISTs/HIV das mulheres é desafiadora e perpassa as dimensões da vulnerabilidade individual, social e programática. Identificou-se, no escopo das ações realizadas in loco nos territórios de maior vulnerabilidade, o acolhimento e aconselhamento, as estratégias de educação em saúde que incluem múltiplas formas de prevenção das IST, a oferta de testes rápidos, abordagem sindrômica às IST e o referenciamento para os serviços de maior complexidade da rede de atenção à saúde. Os resultados desta pesquisa possibilitam uma análise crítico-reflexiva sobre a realidade sanitária e social de uma população marginalizada e que requer cuidado específico, possibilitando o desenvolvimento de estratégias para melhorar o acesso à saúde. Sendo necessário considerar que fatores como disparidade em saúde, vulnerabilidade e questões de gênero, interferem nas ações realizadas e devem ser considerados no planejamento destas.

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NOTAS

  • ORIGEM DO ARTIGO
    Extraído do trabalho de conclusão de curso - Práticas de cuidados de Enfermeiros com mulheres em situação de rua no contexto da saúde sexual e reprodutiva, apresentada ao Curso de Bacharelado em Enfermagem, da Universidade Federal de Juiz de Fora, em 2023.
  • FINANCIAMENTO
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001, e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio da Chamada Pública nº 21/2023, Processo nº 445651/2023-7, concedido a N.G.B.
  • APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
    Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Juiz de Fora, parecer n. 5.390.304/2022, Certificado de Apresentação para Apreciação Ética 56604922.3.0000.5147.
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • EDITORES
    Editores Associados: Luciara Fabiane Sebold.
    Editor-chefe: Gisele Cristina Manfrini.

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    23 Jul 2025
  • Aceito
    14 Nov 2025
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