RESUMO
Objetivo: analisar os fatores sociolaborais predisponentes para o desenvolvimento da síndrome de burnout em policiais militares brasileiros lotados no estado de Pernambuco.
Método: estudo transversal, observacional com abordagem quantitativa, realizado em dois batalhões da polícia militar localizados na Zona da Mata e Agreste no interior de Pernambuco, no período de setembro de 2023 e março de 2024 com a participação de 118 policiais militares. Aplicou-se dois instrumentos para a coleta de dados, sendo o primeiro um questionário com perguntas sobre o perfil sociodemográfico, laboral e hábitos de vida, e o segundo, um instrumento que avalia a síndrome de burnout utilizando o Oldenburg Burnout Inventory (OLBI).
Resultados: a maioria dos policiais militares possuem o cargo de praça (89 %), prestando trabalho operacional (59 %) com mais de seis anos de atuação profissional (70,3 %) e se sentem realizados com a profissão (80,5 %). Evidenciou-se que os policiais militares classificados com Burnout representam (54,2 %) e com distanciamento e esgotamento (24,6 %), dessa forma, (78,8 %) dos policiais militares apresentam sinais de adoecimento relacionados ao campo profissional. Dentre os fatores associados ao adoecimento profissional, estão a quantidade e a qualidade de sono por noite insuficiente, exercer atividade operacional no cargo de praça e ter tempo de atuação profissional entre seis a 20 anos.
Conclusão: de acordo com o estudo realizado, foi possível verificar altos índices de burnout entre os policiais e analisar os fatores relacionados à Síndrome de Burnout, ao distanciamento e esgotamento entre os policiais militares de Pernambuco.
DESCRITORES:
Policiais; Saúde ocupacional; Saúde mental; Burnout; Enfermagem
ABSTRACT
Objective: to analyze the socio-occupational factors predisposed to develop burnout syndrome in Brazilian military police officers stationed in the state of Pernambuco, Brazil.
Method: this is a cross-sectional, observational study with a quantitative approach conducted in two military police battalions located in the Zona da Mata and Agreste regions of rural Pernambuco, Brazil, between September 2023 and March 2024, with the participation of 118 military police officers. Two data collection instruments were administered: the first, a questionnaire with questions about sociodemographic profiles, work experience, and lifestyle habits; and the second, an instrument which assesses burnout syndrome using the Oldenburg Burnout Inventory (OLBI).
Results: most military police officers hold enlisted positions (89 %), perform operational work (59 %), have more than six years of professional experience (70.3 %), and feel fulfilled in their profession (80.5 %). It was found that 54.2 % of military police officers classified as having burnout and 24.6 % as having disengagement and exhaustion. Thus, 78.8 % of military police officers exhibit signs of professional illness. Factors associated with professional illness include insufficient quantity and quality of sleep per night, performing operational duties as enlisted personnel, and having worked for six to 20 years.
Conclusion: the study found high burnout rates among police officers and analyzed the factors related to burnout syndrome, disengagement, and exhaustion among military police officers in Pernambuco, Brazil.
DESCRIPTORS:
Police officers; Occupational health; Mental health; Burnout; Nursing
RESUMEN
Objetivo: analizar los factores sociolaborales que predisponen al desarrollo del síndrome de burnout en policías militares brasileñas destacados en el estado de Pernambuco, Brasil.
Método: se realizó un estudio observacional transversal con enfoque cuantitativo en dos batallones de la policía militar ubicados en las regiones de Zona da Mata y Agreste, en el área rural de Pernambuco, entre septiembre de 2023 y marzo de 2024, con la participación de 118 policías militares. Se administraron dos instrumentos de recolección de datos: un cuestionario con preguntas sobre perfiles sociodemográficos, experiencia laboral y hábitos de vida, y un instrumento que evalúa el síndrome de burnout mediante el Oldenburg Burnout Inventory (OLBI).
Resultados: la mayoría de los policías militares ocupan puestos de tropa (89 %), realizan trabajo operativo (59 %), tienen más de seis años de experiencia profesional (70,3 %) y se sienten realizados en su profesión (80,5 %). Se encontró que el 54,2 % de los policías militares presentaron síndrome de burnout y el 24,6 %, desapego y agotamiento. Por lo tanto, el 78,8 % de los policías militares presentan signos de enfermedad profesional. Los factores asociados con esta enfermedad incluyen la falta de sueño, el desempeño de funciones operativas como personal alistado y haber trabajado de seis a veinte años.
Conclusión: el estudio detectó altas tasas de burnout entre los policías y analizó los factores relacionados con el síndrome de burnout, el desapego y el agotamiento en los policías militares de Pernambuco.
DESCRIPTORES:
Policías; Salud laboral; Salud mental; Burnout; Enfermería
INTRODUÇÃO
A síndrome de burnout foi definida como um transtorno psicológico desencadeado pela exposição crônica ao estresse laboral. Tanto a identificação de seus sintomas quanto sua definição foram descritos na década de 1970 por Freudenberger e Maslach. Recentemente classificada como doença ocupacional, esta é sempre danosa às vidas profissional e pessoal do indivíduo que sofre, visto que este trabalhador se sente infeliz e insatisfeito com a sua realização no trabalho1-2.
Habitualmente, caracteriza-se por três dimensões, expressas como: exaustão emocional, despersonalização e a baixa realização profissional. Pode ser detectada em diferentes categorias profissionais, porém sendo mais frequente entre os profissionais que trabalham com outras pessoas, sobretudo, naquelas atividades em que há prestação de serviços, como saúde, educação e segurança pública2-4.
Fundamentados em evidências empíricas, alguns autores consideram que o desengajamento e a exaustão são dimensões centrais do burnout, enquanto a redução da realização pessoal desempenha uma função menos importante, sendo uma faceta que apresenta resultados mais fracos comparados às outras dimensões do burnout5-6.
O convívio com situações de estresse constante torna os policiais militares uma classe trabalhadora distinta das demais devido a maior exposição a fatores extremos, que afetam a saúde e a qualidade de vida dessa população, tais como: a exposição recorrente a ocasiões de angústia e dor, a exigência de controlar as emoções quando provocados, a natureza inconclusiva do trabalho policial, a responsabilidade em portar uma arma de fogo, além da responsabilidade de proteger a vidas dos cidadãos7-10.
Relatórios do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023, da Saúde na segurança pública (2022) e do Plano estadual de segurança pública de Pernambuco 2023-2030 expõem categoricamente a conjuntura da violência e letalidade da tarefa do policial na sociedade. No estado de Pernambuco, a violência está distribuída de forma heterogênea, apresentando elevados índices de criminalidade, inclusive no interior. Registrou-se entre 2018 e 2023 uma média superior a 100 pessoas mortas por ano decorrentes de intervenção policial, além de ocupar o quarto lugar no país na taxa de mortes de policiais na ativa11-12.
Conforme dados do Atlas da Violência, este cenário de violência ocorre há décadas em Pernambuco, que se destaca negativamente no tocante à taxa de homicídios, figurando de forma recorrente entre os cinco estados mais violentos do país13. Devido a suas especificidades, a saúde ocupacional dos policiais é uma preocupação, juntamente com a necessidade de identificar de forma precoce situações críticas que sem intervenção podem desencadear situações mais perigosas14-15.
Sendo assim, compreender os fatores estressantes que geram a síndrome de burnout permitirá conscientizar os gestores sobre a importância dos serviços de saúde ocupacional para a prevenção e recuperação de seus servidores e investir em ações de promoção à saúde a fim de atenuar as taxas de adoecimentos e proporcionar qualidade de vida a esses profissionais. Desta forma, é oportuno descrever e analisar os fatores sociolaborais predisponentes para o desenvolvimento da síndrome de burnout em policiais militares brasileiros lotados no interior do estado de Pernambuco.
METODO
Estudo transversal, observacional e quantitativo, que aplicou um questionário com perguntas sobre o perfil sociodemográfico, laboral, hábitos de vida e o instrumento Oldenburg Burnout Inventory (OLBI), que avalia a síndrome de burnout. Participaram 118 policiais militares dos dois maiores batalhões de polícia militar do interior de Pernambuco, sendo um localizado na Zona da Mata e o outro no Agreste do estado.
O período de coleta de dados ocorreu entre setembro de 2023 e março de 2024 e a técnica de amostragem selecionada foi a aleatória estratificada, na qual a população do estudo foi dividida pelos subgrupos conforme categoria hierárquica, ou seja, oficiais ou praças; e pelo sexo, visto que a polícia militar é composta, majoritariamente, por homens.
Utilizou-se o cálculo amostral de intervalo de confiança de uma proporção4, considerando a proporção estimada de 40 % de burnout em policiais com nível de confiança de 95 % e poder de 90 %, para uma população finita de 1100 policiais, chegando a uma amostra de 93 indivíduos.
Os dados foram coletados através de um instrumento estruturado construído para a pesquisa através de entrevista com os policiais militares que, após informados sobre a pesquisa, concordaram em participar, e assinaram o Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE).
A Oldenburg Burnout Inventory (OLBI) foi desenvolvida em 1998, em alemão, por Evangelia Demerouti e validada em diferentes grupos ocupacionais. Foi traduzida e validada para o inglês pela mesma autora e, posteriormente, validada para diversos idiomas16-17. No Brasil, a escala foi adaptada e validada para o português brasileiro6 e, mais recentemente, o português de Portugal14.
A escala OLBI é um instrumento que pode ser utilizado em praticamente qualquer contexto ocupacional. Esta avalia burnout e o divide em dois fatores: exaustão e desligamento do trabalho, sendo composta de 16 questões, mensuradas por meio de uma escala tipo Likert de 4 pontos, variando de 1 (discordo plenamente) a 4 (concordo plenamente) pontos. Cada dimensão (exaustão e desligamento do trabalho) contém oito questões, sendo quatro formuladas em sentido positivo e quatro no sentido negativo6.
Contudo, a versão adaptada para o português brasileiro, após avaliação de análises confirmatórias e de consistência interna, passou a apresentar 13 questões, em que seis avaliam exaustão e sete avaliam o desligamento no trabalho14.
Para avaliação das médias dos construtos Exaustão e Desligamento do Trabalho, inverteu-se os valores das seguintes variáveis EE3; EE5; DT1; DT4 e DT7, caracterizando-se assim como: quanto maior a média, maiores os índices de Burnout6,14-15,17.
Para a classificação do burnout pela OLBI, outros autores18 propuseram que escores médios ≥2,25 na dimensão Exaustão e ≥2,1 na dimensão Distanciamento serão considerados altos e os indivíduos serão classificados conforme apresentado no Quadro 1.
Os dados foram tabulados em dupla entrada em planilhas do programa Excel® da Microsoft Office ® e, em seguida, os dados foram transferidos para o programa IBM SPSS Statistics versão 20.0. Realizou-se a estatística descritiva dos dados sobre o perfil dos policiais militares através de distribuição de frequências para variáveis qualitativas e medidas de tendência central e dispersão adequadas conforme padrão de distribuição da curva dos dados para as variáveis numéricas. A avaliação dos pressupostos de normalidade da curva das variáveis foi realizada através dos testes de Shapiro-Wilk e Kolmogorov-Sminorv.
Em seguida, calculou-se os parâmetros que mensuram o burnout pela OLBI (burnout total, exaustão e distanciamento no trabalho) e comparados com as características do perfil desses trabalhadores através de análise bivariada utilizando os testes de correlações de Spearman, teste t de student para amostras independentes e ANOVA one-way. O pressuposto de homogeneidade de variância foi avaliado por meio do teste de Levene. Para o teste t de Student e ANOVA one-way, realizou-se procedimentos de bootstrapping (1000 reamostragens; 95 % IC BCa) para se obter uma maior confiabilidade dos resultados, para corrigir desvios de normalidade da distribuição da amostra e diferenças entre os tamanhos dos grupos, e para apresentar um intervalo de confiança de 95 % para as diferenças entre as médias19.
Para realização das análises bivariadas, estas foram agrupadas em duas categorias: as variáveis escolaridade (ensino médio e superior) e estado civil (casados e não casados). Na interpretação dos dados, considerou-se um nível de significância de 5 % (p<0,05).
O presente estudo respeitou os preceitos éticos da pesquisa envolvendo seres humanos, regulamentado pela Resolução n˚ 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, e foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Complexo Hospitalar HUOC/PROCAPE.
RESULTADOS
Cento e trinta policiais militares elegíveis para o estudo foram convidados a participar, contudo, apenas 118 indivíduos aceitaram o convite. Quanto às características dos participantes, manteve-se as proporções esperadas para o sexo (Tabela 1) e cargo (Tabela 2). Observou-se que a média de idade dos policiais é de 37 anos, a maioria considera-se pardo (54,2 %), casados (75,2 %), possuem alguma religião (90,6 %) e apresentam nível superior completo (78,5 %) (Tabela 1).
Observa-se que a maioria dos participantes apresentam um estilo de vida saudável, exceto em relação ao sono, conforme pode ser visto na Tabela 1.
Em relação às patentes dos participantes, a maioria dos praças é sargento (33,8 %) e a maioria dos oficiais é tenente (6,7 %), a maioria trabalha na parte operacional (59 %), ou seja, atuam diretamente prestando serviços de segurança pública nas ruas, apresentam entre 11 e 20 anos de serviço (48,3 %) e se sentem realizados com a profissão (80,5 %) (Tabela 2).
Dados laborais dos policiais militares de dois batalhões do interior de Pernambuco, Brasil, 2024. (n=118).
O presente estudo utilizou da normatização de Peterson et al. (2008)18 para classificar os escores do OLBI dos policiais conforme apresentado na Tabela 3.
A correlação de Spearman entre as variáveis idade, tempo de serviço e horas de sono com o burnout e suas dimensões (exaustão e distanciamento) demonstrou que apenas a variável horas de sono se correlacionou negativamente de forma significativa entre o burnout (r=-0,275; p<0,01); exaustão (r=-0,261; p<0,01) e desligamento (r=-0,241; p <0,01). Idade (p=0,708) e tempo de serviço (p=0,291) não apresentaram correlação estatisticamente significativa. Considerando o tamanho de efeito entre as variáveis estatisticamente significativas, estas apresentam uma influência de magnitude fraca (r=|0,10| − |0,39|).
O escore geral de burnout e suas dimensões (exaustão e desligamento no trabalho) não apresentaram associações estatisticamente significativas com as variáveis sexo (p=0,293; p= 0,059; p=0,795), tem religião (p=0,456; p=0,639; p=0,385), pratica atividade física (p=0,233; p=0,628; p=0,175), usa bebida alcóolica (p=0,497; p=0,594; p=0,480), fuma (p=0,575; p=0,510; p=0,627), natureza do trabalho (p=0,318; p=0,899; p=0,101) e etnia (p=0,625; p=0,901; p=0,409). A variável cargo não apresentou relação estatisticamente significativa no escore geral e exaustão (p=0,127; p=0,493), estado civil (ser casado ou não) não teve associação estatisticamente significativas com escore geral e desligamento no trabalho (p=0,054; p= 0,094) e escolaridade não teve associação com desligamento do trabalho (p= 0,223).
Identificou-se que praças tiveram escores de ‘desligamento do trabalho’ estatisticamente maiores do que os oficiais. Os policiais com maior escolaridade, ou seja, nível superior completo, apresentaram maiores escores geral e de exaustão do que aqueles que apresentavam apenas o ensino médio. Indivíduos casados apresentaram menores escores de exaustão do que aqueles que não eram casados (solteiros, separados e viúvos) (Tabela 4).
As variáveis ‘percepção que dorme o suficiente’, ‘qualidade de sono’ e ‘sente-se realizado com a profissão’ apresentaram relações estatisticamente significativas com o escore geral de burnout e suas dimensões, conforme apresentado em detalhes na Tabela 4.
DISCUSSÃO
Os valores médios de burnout estimados pelo OLBI nos policiais militares são menores quando comparados a profissionais de saúde, contudo, quando comparados a outros trabalhadores, são maiores para exaustão (2,51) e menores para desligamento do trabalho (2,19).
De acordo com outro estudo que avaliou os trabalhadores nos mais diversos setores de desenvolvimento de atividades laborais, encontrou-se as seguintes médias de exaustão: 2,33 e desligamento do trabalho: 2,4, sendo estes valores classificados como dentro de patamares intermediários, dessa forma, a população da pesquisa apresenta níveis deburnoutque demandam atenção6. Em estudo com médicos brasileiros atuantes na atenção primária à saúde, identificou-se níveis de burnout de 2,7 mensurados pela OLBI15.
A prevalência de burnout dos policiais neste estudo (54,2 %) foi maior que a encontrada na literatura. Na população de profissionais de segurança pública, estima-se uma proporção entre 12,9 a 40 % de sinais de alerta e valores entre 2,77 a 11 % de sinais críticos para a síndrome de burnout, corroborando com o presente estudo e com a literatura, ao demonstrar que a exaustão está entre as dimensões do burnout que apresenta maiores valores nas avaliações das escalas com profissionais de segurança pública4,8,20-21.
Assim como em outros estudos com a OLBI, observou-se que os fatores sociodemográficos não apresentaram relevante impacto sobre a síndrome de burnout6-7,15. Provavelmente, a natureza do trabalho policial e os estressores laborais que os policiais enfrentam, especialmente os de patente baixa, no trabalho diário fazem com que os fatores sociodemográficos sejam irrelevantes para o desenvolvimento da síndrome8.
Neste estudo, a maior escolaridade se apresentou como fator predisponente para exaustão e síndrome de burnout. Possivelmente, isso esteja associado a uma percepção de desvalorização, principalmente por parte dos praças, que apresentam maior escolaridade e não se sentem reconhecidos dentro da instituição, já que os critérios para promoção dentro da polícia militar não estão necessariamente atrelados à escolaridade. Relacionado à falta de reconhecimento e status de algumas profissões, sendo descrito que os indivíduos com maior escolaridade tendem a apresentar escores mais elevados nas dimensões “desgaste emocional” e “despersonalização”21.
Destaca-se que indivíduos casados apresentaram menores médias de exaustão comparado a não casados (solteiros, separados e viúvos), levantando a hipótese de que ter um companheiro fixo configura uma rede de apoio para redução dos níveis de estresse laboral. Evidencia-se também que fatores sociais como casamento e viver em família reduzem a experiência de sintomas de esgotamento/exaustão22.
Outro fator importante atrelado à síndrome de burnout e suas dimensões nos policiais militares foi a qualidade e a quantidade de horas de sono, sendo a relação entre burnout e sono descrita por outros estudiosos. Devido às condições da própria profissão que trabalha em turnos e com alta carga de estresse devido à periculosidade inerente ao trabalho, o sono é um dos pilares mais afetados nestes profissionais23-24.
A percepção de realização quanto a ser policial militar se apresenta como um fator de proteção contra o burnout. Apesar de uma certa variabilidade, a literatura demonstra que a percepção dos trabalhadores sobre o trabalho é de fundamental importância sobre o burnout. Vale destacar que o nível de satisfação é uma avaliação essencialmente subjetiva e tem relação direta com a representação que os próprios trabalhadores têm sobre a importância do seu trabalho25.
Os participantes do estudo apresentaram, majoritariamente, hábitos de vida saudáveis, tais como prática de atividade física regular, não ingerir bebida alcoólica e não fumar. Nas análises, a maioria desses fatores comportamentais, não apresentaram impactos significativos sobre o burnout, diferentemente de outro estudo com profissionais de saúde26.
Associada ao universo ocupacional, a síndrome de burnout tem uma relação íntima com a forma que o trabalho está organizado, assim como com a natureza do trabalho que é realizado. A ocorrência de burnout é influenciada por fatores como o estresse crônico, a pressão excessiva, conflitos no ambiente de trabalho e o baixo reconhecimento1,4,27-28.
O bem-estar dos funcionários no trabalho pode ser impactado tanto pelo nível de exigências quanto pelos tipos de exigências mesmo sob condições de alta demanda de desafios, quando os recursos do trabalho, tais como o apoio dos colegas, autonomia e as oportunidades de desenvolvimento, promovem a afetividade positiva e o engajamento no trabalho. A partir disso, gera-se a percepção de bem-estar laboral, redução dos níveis de estresse e a prevenção do burnout, com potencial para reduzir acidentes de trabalho e aposentadoria antecipada da classe10,29.
Nesse contexto, sugere-se que estudos futuros contemplem os fatores causais para a incidência de burnout em policiais militares, considerando que esta temática seja relevante para a identificação de particularidades e vulnerabilidades para que sejam direcionadas medidas preventivas em saúde. Dessa forma, é de suma importância avaliar as condições que contribuem para a incidência de burnout, pois estudos revelam que essa condição prejudica a execução de autocuidado e autoproteção e, consequentemente, influência aumentando os comportamentos agressivos.
Além de destacar a importância do enfermeiro do trabalho dentro dos serviços de saúde ocupacional, para desenvolver treinamentos em gerenciamento de estresse para os policiais podendo ajudá-los a lidar de forma mais eficaz com a tensão inerente a profissão, desenvolver técnicas pessoais para ajudar a si mesmos a melhorar seu caminho profissional e potencialmente prevenir o futuro esgotamento de grande parte da tropa.
CONCLUSÃO
Distanciamento, esgotamento e síndrome de burnout entre os policiais militares estão relacionados intrinsecamente com o tipo de cargo desempenhado, natureza de trabalho operacional e possuir tempo de trabalho superior a seis anos, contribuindo para as sensações de esgotamento profissional e emocional. Diante desse contexto, torna-se necessário desenvolver medidas de apoio, acolhimento, suporte emocional e psicológico para minimizar os fatores que contribuem para o adoecimento dos profissionais da segurança pública.
Os resultados da pesquisa servem de alerta e reflexão para expressar que os profissionais que atuam realizando a segurança pública e social, assim como exercem atividades de risco e exposição, necessitam políticas públicas inclusivas e eficazes, reforçando a necessidade da saúde ocupacional nos pelotões, para promover estímulos ao autocuidado, acolhimento e suporte emocional, assim possibilitando minimizar os fatores de risco e ofertar atenção à saúde do trabalhador.
AGRADECIMENTO
Agradecemos ao Comando Geral da Polícia Militar de Pernambuco e da Diretoria Integrada do Interior I pela autorização e a todos os policiais militares que participaram da pesquisa colaborando para a realização deste estudo.
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NOTAS
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ORIGEM DO ARTIGO
Extraído da tese - Relação da autoeficácia e do Burnout sobre o absenteísmo do Policial Militar apresentado ao Programa Associado de Pós-Graduação em Enfermagem, da Universidade de Pernambuco e Universidade Estadual da Paraíba, no ano de 2025.
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FINANCIAMENTO
Através da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) com a Universidade de Pernambuco (UPE).
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APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Fundação Universidade de Pernambuco, parecer n. 6.091.891/2023, Certificado de Apresentação para Apreciação Ética - 69587923.6.0000.5192.
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DISPONIBILIDADE DE DADOS
O conjunto de dados que gerou os resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente Angélica de Godoy Torres Lima. Estes dados não estão publicamente disponíveis devido a fazerem parte de uma tese de doutorado, a qual ainda há uma parte dos dados a serem publicados.
O conjunto de dados que gerou os resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente Angélica de Godoy Torres Lima. Estes dados não estão publicamente disponíveis devido a fazerem parte de uma tese de doutorado, a qual ainda há uma parte dos dados a serem publicados.
