RESUMO
Objetivo: Estimar a prevalência e os fatores associados às violências psicológica, física e sexual nas mulheres vítimas de violência perpetrada pelo parceiro íntimo residentes do município de Vitória, Espírito Santo.
Método: Estudo transversal, de base populacional, realizado no município de Vitória, no Espírito Santo, de janeiro a maio de 2022, onde foram entrevistadas 1086 mulheres de 18 anos e mais. Para o rastreio dos desfechos foi utilizado o instrumento da Organização Mundial de Saúde sobre violência contra a mulher. Foi calculada a prevalência de violência (psicológica, física e sexual) e realizada análise bivariada com características sociodemográficas, comportamentais, história familiar e de vida da mulher. Posteriormente, procedeu-se ao modelo de regressão de Poisson, com variância robusta, inserindo as variáveis de interesse que obtiveram valor de p<0,20 na bivariada, sendo que, no modelo ajustado, permaneceram aquelas com p<0,05.
Resultados: As prevalências observadas foram: psicológica 45,2% (IC95%: 42,3-48,2); física 25,6% (IC95%: 23,1-28,3) e sexual 17,2% (IC95%: 15,1-19,6). Após ajustes, as características comuns que permaneceram associadas à violência (psicológica, física e sexual) foram: escolaridade, situação conjugal, religião católica, história materna de violência e histórico de abuso sexual na infância.
Conclusão: As violências psicológica, física e sexual apresentaram alta prevalência entre as mulheres residentes do município de Vitória. Fatores sociodemográficos, comportamentais e experiências pessoais e materna de violência estão associados ao fenômeno.
DESCRITORES:
Violência contra a mulher; Maus-tratos conjugais; Violência por parceiro íntimo; Violência doméstica; Relações familiares; Fatores socioeconômicos; Estudos transversais
ABSTRACT
Objective: To estimate the prevalence and factors associated with psychological, physical, and sexual violence among women victims of violence perpetrated by their intimate partners residing in the municipality of Vitória, Espírito Santo.
Method: This cross-sectional, population-based study was conducted in the municipality of Vitória, Espírito Santo, from January to May 2022, where 1086 women aged 18 and over were interviewed. The World Health Organization's instrument on violence against women was used to track outcomes. The prevalence of violence (psychological, physical, and sexual) was calculated, and a bivariate analysis was performed using the woman’s sociodemographic, behavioral, family history, and life history characteristics. Subsequently, a Poisson regression model with robust variance was performed, including the variables of interest that obtained a p-value<0.20 in the bivariate analysis, while in the adjusted model, those with p-value <0.05 remained.
Results: The observed prevalences were: psychological, 45.2% (95% CI: 42.3-48.2); physical, 25.6% (95% CI: 23.1-28.3); and sexual, 17.2% (95% CI: 15.1-19.6). After adjustments, the common characteristics that remained associated with violence (psychological, physical, and sexual) were: education level, marital status, Catholic religion, maternal history of violence, and history of childhood sexual abuse.
Conclusion: Psychological, physical, and sexual violence were highly prevalent among women residing in the municipality of Vitória. Sociodemographic and behavioral factors, as well as personal and maternal experiences of violence, are associated with the phenomenon.
DESCRIPTORS:
Violence against women; Spouse abuse; Intimate partner violence; Domestic violence; Family relationships; Socioeconomic factors; Cross-sectional studies
RESUMEN
Objetivo: Estimar la prevalencia y los factores asociados a la violencia psicológica, física y sexual entre mujeres víctimas de violencia perpetrada por sus parejas íntimas residentes en el municipio de Vitória, Espírito Santo.
Método: Se trata de un estudio transversal, de base poblacional, realizado en el municipio de Vitória, Espírito Santo, de enero a mayo de 2022, donde se entrevistaron 1086 mujeres de 18 años o más. Para hacer el seguimiento de los resultados se utilizó el instrumento de la Organización Mundial de la Salud sobre la violencia contra la mujer. Se calculó la prevalencia de violencia (psicológica, física y sexual) y se realizó un análisis bivariado utilizando características sociodemográficas, conductuales, antecedentes familiares e historia de vida de la mujer. Posteriormente se realizó un modelo de regresión de Poisson con varianza robusta incluyendo las variables de interés que obtuvieron un valor p.<0,20 en el análisis bivariado, mientras que en el modelo ajustado se mantuvieron aquellos con p.<0.05.
Resultados: Las prevalencias observadas fueron: psicológica, 45,2% (IC 95%: 42,3-48,2); física, 25,6% (IC 95%: 23,1-28,3); y sexual, 17,2% (IC 95%: 15,1-19,6). Después de los ajustes, las características comunes que permanecieron asociadas con la violencia (psicológica, física y sexual) fueron: nivel educativo, estado civil, religión católica, historia materna de violencia e historia de abuso sexual infantil.
Conclusión: La violencia psicológica, física y sexual fue altamente prevalente entre las mujeres residentes en el municipio de Vitória. Factores sociodemográficos y comportamentales, así como experiencias personales y maternas de violencia, están asociados al fenómeno.
DESCRIPTORES:
Violencia contra la mujer; Maltrato conyugal; Violencia de pareja; Violencia doméstica; Relaciones familiares; Factores socioeconómicos; Estudios transversales
INTRODUÇÃO
Questões culturais e históricas profundas permeiam a maior vulnerabilidade e exposição à violência entre o público feminino em suas diversas formas. A cultura do patriarcado e machismo justificam atitudes violentas cometidas por homens contra a figura da mulher como forma de punição, correção e dominação1. De modo a tentar superar tal situação, a igualdade de gênero vem sendo amplamente discutida a nível global, sendo incorporada como um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Agenda 2030 definida pela Organização das Nações Unidas (ONU)2.
Dados de 2018 mostram que 31% das mulheres de 15 a 49 anos no mundo já sofreram, pelo menos uma vez ao longo de sua vida, episódios de violência física ou sexual, correspondendo a cerca de 852 milhões de mulheres3. No Brasil, entre os anos de 2009 e 2017, a prevalência da violência contra a mulher subiu mais de 8,5%4. Somado a isso, as mortes violentas de mulheres sem registro de causa aumentaram em 21,6% entre os anos de 2018 e 2019 no Brasil, chamando a atenção e trazendo o questionamento quanto à identificação dos casos de feminicídio no país5.
O estado do Espírito Santo, entre 2009 e 2017, apresentou prevalência de 78,6% de violência contra a mulher, sendo o estado com maior prevalência da região sudeste, ocupando também o quarto lugar entre todos os estados brasileiros4. Na capital do Espírito Santo, Vitória, a violência psicológica foi a mais frequente entre as mulheres, com prevalência de 25,3%, seguida pela violência física (9,9%) e violência sexual (5,7%)6. Este estudo também identificou os fatores mais frequentes ao evento, como a escolaridade e renda da vítima, situação conjugal, histórico materno de violência por parceiro íntimo e o uso de drogas ao longo da vida. Estes dados demonstram como fatores socioeconômicos, sociais e de experiência de vida influenciam na maior exposição à violência, devendo ser considerados quando da criação e instituição de medidas de prevenção e cuidado de forma ampla6.
Destaca-se que a pandemia de COVID-19 exacerbou ainda mais a necessidade de discussão desta temática, à medida que houve o agravamento e aumento da prevalência de violência contra as mulheres, que se viram mais expostas ao agressor devido ao isolamento social. Acrescenta-se a isso o fato de que o parceiro íntimo é um dos principais agressores, e a residência é o principal local de ocorrência do evento, trazendo maior dificuldade na identificação e notificação dos casos7.
Neste contexto, a violência pode ser conceituada como um agravo de saúde pública onde se utiliza de forma intencional a força física ou poder de forma real ou sob ameaça, contra si próprio, outra pessoa, um grupo ou uma comunidade e que tenha possibilidade de resultar ou resulte em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento e privação8. Se tratando da violência contra a mulher, o parceiro íntimo e/ou ex-parceiros se apresentam como um dos principais violadores, através de, principalmente, atos de violência física, sexual e psicológica. A violência por parceiro íntimo é uma forma de violência marcada por dinâmicas de poder e controle, muitas vezes invisibilizadas, podendo ocorrer em diferentes contextos socioculturais e expondo também crianças e adolescentes no ambiente doméstico e familiar1,3.
A violência física consiste no uso intencional da força com o objetivo de causar dor, lesão ou sofrimento, por meio de agressões como tapas, empurrões, chutes, queimaduras ou ferimentos por armas. Já a violência psicológica ou moral envolve ações que afetam a saúde emocional e a dignidade da mulher, como humilhações, ameaças, desvalorização, controle excessivo, discriminação e isolamento. A violência sexual, por sua vez, refere-se a qualquer ato sexual imposto sem consentimento, com o uso de força física, coerção, intimidação ou manipulação, incluindo estupro, abuso intrafamiliar, assédio sexual, práticas eróticas forçadas e restrições aos direitos sexuais e reprodutivos da mulher, como o impedimento ao uso de contraceptivos, a imposição da gravidez, do aborto ou do casamento9. É importante destacar que, independentemente do tipo de violência sofrida, as consequências da exposição reverberam de forma negativa na saúde da mulher e de seus filhos, que merecem proteção e acolhimento7.
Vale ressaltar que mulheres vítimas de violência têm mais chances de vivência de sintomas depressivos, bem como de ansiedade e estresse, desenvolvimento de doenças cardíacas, dores crônicas, disfunções intestinais e disfunções sexuais, aumento de infecções sexualmente transmissíveis, gravidez indesejada e complicações durante a gestação, parto e pós-parto1,10.
Apesar da existência de legislações normativas robustas no Brasil voltadas para o enfrentamento da violência contra a mulher, a efetividade dessas políticas ainda encontra sérias limitações na prática, necessitando de um melhor direcionamento para que as ações se tornem mais efetivas. No âmbito da saúde, a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM) propõe um modelo de atenção integral que inclua a prevenção e o acolhimento de vítimas de violência, reconhecendo a violência de gênero como um determinante social da saúde11. Paralelamente, a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) destaca o papel estratégico da atenção primária nas ações de detecção precoce, encaminhamento de casos, fortalecimento de ações preventivas e promoção da cultura de paz12.
Os profissionais de saúde são protagonistas na identificação de casos de violência nos serviços de saúde e podem além de acolher e assistir a mulher, contribuir na geração de informações a partir do adequado preenchimento da notificação de violência, bem como encorajá-la a denunciar seus agressores, permitindo a realização dos encaminhamentos a serviços de apoio e o direito de escolha a respeito de sua própria vida. Sabe-se que a saúde pública, na maior parte das vezes, é a porta de entrada das vítimas de violência, que podem se ver sozinhas e extremamente vulneráveis aos seus agressores13.
Diante do exposto, este estudo contribui para a compreensão das características e fatores associados à violência contra a mulher em Vitória, fornecendo informações que podem subsidiar o aprimoramento das estratégias de prevenção, identificação e cuidado integral, fortalecendo as políticas públicas e o preparo dos profissionais de saúde. Seu objetivo é estimar a prevalência e os fatores associados às violências psicológica, física e sexual nas mulheres vítimas de violência perpetrada pelo parceiro íntimo residentes do município de Vitória, Espírito Santo.
MÉTODO
Trata-se de um estudo transversal, analítico, de base populacional, realizado no município de Vitória, Espírito Santo, Brasil. O município de Vitória, capital do estado do Espírito Santo, possui uma população estimada para 2021 de 369.534 pessoas, um território de 97,123 Km2 e um Índice de Desenvolvimento Humano municipal de 0,845. O município possui 79 bairros e seis regiões de saúde14. Segundo dados do último censo, a população feminina representava 49,98% da população total (163.853 mulheres)15. As diretrizes do STROBE foram utilizadas para redigir a seção de métodos16. Importante destacar ainda, que durante a preparação deste artigo, as autoras não utilizaram qualquer ferramenta, modelo ou serviço de inteligência artificial.
A população em estudo foi composta de mulheres com idade de 18 anos ou mais, que tiveram ou tinham parceiro íntimo nos últimos 24 meses anteriores à entrevista. Neste estudo, o parceiro íntimo foi definido como o companheiro ou ex-companheiro e/ou namorado atual, desde que mantendo relações sexuais e independentemente de ser ou não união formal. Foram excluídas as mulheres que não tinham capacidade de compreensão ou comunicação devido a déficit intelectual ou sensorial e que, portanto, não tinham condições de responder aos instrumentos de coleta de dados da pesquisa. A coleta de dados ocorreu entre janeiro e maio de 2022 e foi realizada por uma equipe de entrevistadoras devidamente treinadas, sendo todas do sexo feminino. A equipe de pesquisa contou ainda com supervisores de campo. O estudo piloto ocorreu em dezembro de 2021. Os dados coletados não fizeram parte da amostra final da pesquisa, sendo que o trabalho de campo se iniciou após a análise dos dados obtidos no estudo piloto. As entrevistas foram realizadas nos domicílios, em local reservado, respeitando-se a privacidade e o sigilo das mulheres17.
O processo de amostragem adotado foi por múltiplos estágios. A unidade primária de amostragem foram os setores censitários do município de Vitória, fornecidos pelo Censo 2010 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)15. O número total de domicílios na zona urbana de Vitória em 2010 (108.515 domicílios) foi dividido pelo número de setores a serem visitados (100 setores) para obter o pulo sistemático (1.085 domicílios), respeitando-se a probabilidade proporcional ao número de domicílios e mulheres dentro de cada setor. Em seguida, ordenou-se a lista por nível socioeconômico e sorteou-se, de modo aleatório, o número 513 (entre 1 e 1.085), por meio do Excel®, correspondendo ao número pertencente ao primeiro setor definido. A seleção dos demais setores (99) ocorreu por meio da soma do pulo sistemático do setor inicial (184) e, assim, sucessivamente até o término da listagem. Após a seleção dos setores censitários, a seleção dos domicílios ocorreu de forma aleatória a partir da listagem disponível na plataforma on-line do IBGE. Em cada domicílio foi feita uma listagem de mulheres elegíveis, ou seja, que atendiam aos critérios de inclusão do estudo, e, após, sorteou-se uma das mulheres para responder à entrevista. Para o cálculo do tamanho da amostra, levou-se em consideração a estimativa de prevalência de violência por parceiro íntimo na população estudada de 50%, de modo a maximizar a amostra, com nível de confiança de 95% e erro aceitável de 5%. Para estudar a associação dos fatores de risco, considerou-se um nível de 95%, poder de 80% e razão exposto/não exposto de 1:1. A esse valor foram acrescidos 10% a título de perdas e 30% para fatores de confusão, chegando a um tamanho de amostra necessário de 1100 mulheres17.
Os três tipos de violência contra a mulher (psicológica, sexual ou física) praticada pelo parceiro íntimo ao longo da vida foram as variáveis dependentes neste estudo. Cada uma foi considerada presente quando a mulher respondeu sim a qualquer um dos itens para cada tipo violência (psicológica, física ou sexual), identificadas por meio do instrumento World Health Organization Violence Against Women (WHO VAW STUDY), traduzido e validado no Brasil18.
As variáveis independentes referentes às características sociodemográficas das mulheres foram: faixa etária (18 a 29; 30 a 39; 40 a 49; 50 a 59; 60 ou mais); cor da pele autodeclarada (branca; não branca); anos de estudo completos (0 a 8; 9 a 11; 12 ou mais); renda familiar em tercis (1º - mais pobres; 2o; 3º - mais ricas); situação conjugal (casada; união consensual; solteira; divorciada); católica (não; sim); evangélica (não; sim). No que tange às experiências familiares e de vida sobre violência, as mulheres foram questionadas com as seguintes perguntas: “Sua mãe já apanhou de algum parceiro íntimo?” e “A senhora sofreu violência sexual na infância?”, com as opções de resposta dicotômica (não; sim). Quanto às variáveis comportamentais, foram analisadas a frequência média de uso de bebida alcoólica (nunca; mensalmente ou menos; de 2 a 4 vezes por mês; de 2 a 3 vezes por semana; 4 ou mais vezes por semana) e tabagismo (nunca fumou; fumante atual; já fumou, mas parou).
A análise descritiva foi feita apresentando a frequência bruta e relativa. Os testes qui-quadrado de heterogeneidade e exato de Fisher foram usados na análise bivariada conforme pressupostos.
A regressão de Poisson com variância robusta foi utilizada para calcular as razões de prevalência (RP) brutas e ajustadas e seus respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%). Na análise multivariada, foi adotado o modelo hierarquizado com quatro níveis.
Inicialmente, as variáveis com valor de p<0,20 na análise bivariada foram incluídas no modelo, com o propósito de considerar possíveis fatores de confusão. Na etapa de modelagem, as variáveis independentes foram incluídas a partir do nível distal (1º) até o nível proximal (4º), seguindo a ordem: fatores sociodemográficos; experiência familiar; experiência de vida e características comportamentais. A definição dos níveis foi baseada no trabalho de Leite e coautores (2017)6, que foi utilizado como referencial teórico e analítico. O método de seleção backward foi utilizado para exclusão das variáveis. No modelo final, adotou-se o nível de significância de 5% (p<0,05). As análises estatísticas foram realizadas através do programa estatístico Stata® versão 15.1.
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa. Todas as entrevistadas assinaram o Termo de Compromisso Livre e Esclarecido (TCLE) e foram esclarecidos os objetivos da pesquisa e seus eventuais riscos e benefícios.
RESULTADOS
Participaram do estudo 1086 mulheres. A violência psicológica praticada pelo parceiro íntimo ao longo da vida foi a mais frequente (P: 45,2%; IC 95% 42,3-48,2), seguida pela violência física (P: 25,6%; IC 95% 23,1-28,3). A violência sexual teve a menor frequência entre os tipos de violência estudados (P: 17,2%; IC 95% 15,1-19,6) (Dados não apresentados em tabela).
A Tabela 1 mostra a descrição da amostra e a prevalência de violência (psicológica, física e sexual) ao longo da vida de acordo com as características sociodemográficas, experiência familiar e de vida. A maioria das mulheres estavam na faixa etária de 60 anos ou mais (24,1%); cerca de 60% eram não brancas; aproximadamente 49% tinham 12 ou mais anos de estudo; 36,2% estavam no tercil mais pobre (1º); 55,3% eram casadas; e 42,1% eram católicas. No que tange às experiências familiares, 22,1% das participantes relataram que a mãe já tinha apanhado de algum parceiro íntimo, e 11%, aproximadamente, vivenciaram violência sexual na infância. A maioria (50,7%) relatou nunca ter consumido bebida alcoólica e 74% nunca ter fumado (Tabela 1). Ainda, nota-se na Tabela 1, que os desfechos em estudo estiveram relacionados a praticamente todas as variáveis independentes, com exceção para a relação entre a violência sexual e a faixa etária, e a violência física e o uso de bebida alcoólica.
Após os ajustes para os controles de confusão, verifica-se que a violência psicológica cometida pelo parceiro íntimo foi 40% mais prevalente entre mulheres na faixa etária de 40 a 49 anos, quando comparadas às idosas (p<0,05). Aquelas com até oito anos de estudo apresentaram 39% mais prevalência de vitimização do que aquelas com maior escolaridade. As mulheres pertencentes ao tercil mais pobre apresentaram 1,27 vezes mais prevalência de violência psicológica, quando comparadas às mais ricas (3º tercil) (IC95%: 1,05-1,54). Ainda, as solteiras tiveram maior ocorrência desse agravo (RP:1,57; IC95%: 1,31-1,89) quando comparadas às casadas (p<0,05). Mulheres católicas tiveram 20% menos prevalência de violência psicológica do que as não católicas e as participantes com mães que já sofreram violência por algum parceiro íntimo apresentaram 34% mais violência psicológica do que as mulheres sem este histórico. Participantes que sofreram violência na infância apresentaram 42% mais probabilidade de vitimização psicológica do que as que não sofreram o abuso sexual, bem como aquelas que são fumantes atualmente (RP: 1,18; IC95%: 1,01-1,38) (Tabela 2).
Na análise ajustada, mulheres com até oito anos de estudo e do tercil mais pobre (1º) possuíam 48% e 51%, respectivamente, mais prevalência de vitimização de violência física ao longo da vida praticada pelo parceiro quando comparadas às mulheres com 12 anos ou mais e do 3º tercil - mais ricas (p<0,05). Aquelas declaradas solteiras apresentaram 62% mais frequência de abuso físico quando comparadas às casadas (RP:1,61; IC95% 1,23-2,14). Participantes católicas apresentaram uma prevalência quase 30% menor de violência física quando comparadas às não católicas. Condicionando para fatores de confusão, observa-se ainda que aquelas que declararam violência por parceiro íntimo sofrida pela mãe apresentaram mais ocorrência de violência física (RP:1,67; IC95%: 1,36-2,05). A experiência de violência sexual na infância representou 80% mais prevalência de vitimização física praticada pelo parceiro íntimo (p<0,001) (Tabela 3).
As mulheres com até oito anos de estudo apresentaram 71% mais prevalência de violência sexual pelo parceiro íntimo quando comparadas às com 12 anos ou mais. Mulheres solteiras tiveram 80% mais probabilidade desse evento do que as casadas (RP:1,80 IC95%: 1,26-2,57). As católicas tiveram 40% menos probabilidade de violência sexual do que as mulheres não católicas. Ainda, as mulheres com mães que já apanharam de parceiro íntimo apresentaram 89% (RP: 1,89; IC95%: 1,44-2,47) mais prevalência de violência sexual, e as que sofreram violência sexual na infância apresentaram 84% mais frequência de violência sexual quando comparadas às que não sofreram (Tabela 4).
DISCUSSÃO
No presente estudo foram encontradas maiores prevalências de violência do tipo psicológica, resultado em consonância com estudos nacionais e internacionais19-21. Esse achado provavelmente decorre do fato de a violência psicológica ser mais naturalizada socialmente, ocorrendo de forma contínua nas relações, sendo que, muitas vezes, a mulher nem considera que fatos como xingamentos, constrangimentos e humilhações, sejam de fato uma violência18,22. Destaca-se, também, que muitas vezes esse agravo é uma das primeiras manifestações violentas do companheiro, antecedendo outros tipos de violência22.
Globalmente, uma em cada quatro mulheres já sofreram violência física, sexual ou ambas ao longo da vida. No Brasil, esta prevalência encontra-se entre 20 e 24%23. Em nosso estudo, a prevalência encontrada para a violência do tipo física também foi de uma em cada quatro mulheres, enquanto a violência do tipo sexual atingiu 17,2% da amostra estudada. Ambas as prevalências foram superiores àquelas encontradas em outro município brasileiro21 e próximas a alguns países africanos24.
Independentemente do tipo de violência, a presente pesquisa encontrou associação com a escolaridade da vítima, sendo a prevalência maior entre aquelas com menos de oito anos de estudo, como demonstrado na literatura10,20. Acredita-se que isso se deve a uma maior dependência econômica dos seus companheiros e uma maior dificuldade de acesso a serviços de assistência, que possibilitariam a quebra do ciclo violento, considerando que a escolaridade pode ser um proxy para renda25,26. Além disso, desigualdades socioeconômicas são marcantes no país e as mulheres com menor escolaridade, em geral, vivem em regiões com maior nível de violência estrutural, que acabam por refletir nas relações interpessoais e domésticas27.
Quanto à renda familiar, a violência física esteve associada a mulheres pertencentes ao tercil mais pobre. A violência psicológica foi 27% maior entre as mulheres pertencentes ao tercil mais pobre quando comparadas às mais ricas, controlando para fatores de confusão. Mesmo presente em todos os grupos da sociedade, essa relação estreita entre a violência e as variáveis socioeconômicas impacta em maior proporção as mais pobres, expondo os desafios de se romper com o ciclo de agressões quando impera nas relações a dependência financeira26.
Sobre a situação conjugal das vítimas, foram observados maiores valores de prevalência de violências psicológica, física e sexual entre as solteiras quando comparadas às mulheres casadas. Esse resultado, semelhante ao encontrado em outro estudo, aponta para a existência de valores comuns entre parceiros, que não ocorreriam em relações mais frágeis28. No que diz respeito à religião, as violências contra as mulheres apresentaram menores prevalências entre aquelas que se declararam católicas. Esse aparente efeito protetor da religião católica e a maior prevalência entre as mulheres evangélicas vai ao encontro de outros estudos, onde a religião evangélica esteve associada a maior vitimização. Destaca-se que essas mulheres vivenciam a legitimação do patriarcado e dominação masculina, amparados no lugar de culpa, submissão e fragilidade que muitas dessas denominações impõem às vítimas, bem como na procura da religião enquanto rede de apoio para suportar e superar as agressões vividas26-29.
Outro achado importante foi sobre a história familiar de violência, que parece se perpetuar entre as gerações. Os três agravos em estudo foram associados às vítimas com relato de mãe com histórico de violência por parceiro íntimo. Essa relação foi abordada em estudo semelhante, destacando que um ambiente familiar marcado pela violência pode ser celeiro de comportamentos violentos e de repetição e/ou reprodução de vulnerabilidade10,26. Nesse sentido, nota-se ainda que a maior prevalência de vitimização esteve presente entre mulheres com histórico de violência sexual na infância, corroborando com estudo realizado por Barrios e coautores (2015) em que a maioria das participantes relatou exposição à violência física ou sexual quando criança, sendo que 37,3% relataram violência física, 24,3% relataram violência física e sexual e 7,8% sofreram violência sexual na infância30.
Reconhecida como grave problema de saúde pública, a violência, em especial contra grupos vulneráveis como as mulheres, impacta profundamente na vida dos sobreviventes e seus familiares, sendo os serviços de saúde um local estratégico não apenas para a identificação, mas também para o adequado manejo dos casos26. O acolhimento às vítimas por meio da escuta atenta, seguida da notificação do agravo e da realização dos encaminhamentos necessários para a rede de atenção, figuram como ações indispensáveis aos profissionais na garantia da promoção da saúde e do cuidado integral13.
Uma das limitações deste estudo refere-se ao tipo de delineamento, que não possibilita testar relações de causalidade entre as variáveis de exposição e os desfechos. A informação autorreferida dos desfechos pode ser considerada uma limitação, embora o uso dessa medida seja confiável e recomendado em estudos de base populacional. Visando diminuir o possível viés de informação, coletou-se os dados em local reservado e seguro na residência e sem a presença do parceiro ou outros. Em relação aos aspectos metodológicos, alguns cuidados foram tomados para garantir a qualidade dos dados coletados, como realização de estudo piloto, treinamento de entrevistadores, checagem de questionários e controle de qualidade.
Os achados deste estudo têm implicações práticas importantes para o fortalecimento das políticas públicas de enfrentamento à violência contra a mulher, uma vez que evidenciam tanto a magnitude do problema quanto os fatores associados à sua ocorrência, oferecendo subsídios para a formulação de estratégias intersetoriais de prevenção, acolhimento e cuidado integral. Como ponto forte, destaca-se o fato de se tratar de um estudo de base populacional, em que as mulheres foram entrevistadas em seus domicílios e não em serviços de acolhimento, o que amplia a representatividade dos resultados e possibilita uma visão mais realista da magnitude da violência no contexto urbano. Além disso, a identificação dos fatores associados fornece elementos essenciais para o direcionamento de políticas mais eficazes e focalizadas.
CONCLUSÃO
Cabe ressaltar que o presente trabalho se trata do primeiro estudo de base populacional no estado do Espírito Santo com o objetivo de mensurar a prevalência de violência e seus fatores associados entre mulheres com 18 anos e mais. Os dados apresentados evidenciam uma elevada prevalência das tipologias de violência entre as mulheres residentes em zona urbana, e demonstram que características sociodemográficas, comportamentais, história familiar e de vida da mulher podem torna-la mais vulnerável à violência por parceiro íntimo, sendo reflexo das desigualdades de gênero e social presentes na sociedade.
A identificação das características associadas ao fenômeno e suas tipologias contribui para o planejamento, execução e monitoramento do agravo, possibilitando o desenvolvimento de medidas de prevenção, acolhimento e intervenção no enfrentamento da violência por parceiro íntimo. Espera-se que os resultados aqui apresentados contribuam para a sensibilização e integração de gestores, profissionais, acadêmicos e sociedade civil para um adequado rastreio, identificação, notificação, acolhimento e encaminhamento das mulheres em situação de violência, articulando estratégias e ações permanentes e continuadas entre a rede de serviços de assistência à saúde e dos diferentes setores, como judiciário, segurança pública e a assistência social. Por fim, nesse cenário, é fundamental destacar o importante papel dos profissionais da saúde, em especial da enfermagem, como atores fundamentais na promoção de um acolhimento humanizado, escuta qualificada e cuidado holístico.
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NOTAS
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FINANCIAMENTO
Estudo financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (EDITAL FAPES/CNPq/Decit-SCTIE-MS/SESA Nº 09/2020 - PPSUS) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (303359/2021-8 - Chamada CNPq No 4/2021 - Bolsas de Produtividade em Pesquisa - PQ).
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APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo, parecer n. 4.974.080/2021, Certificado de Apresentação para Apreciação Ética 41628820.6.0000.5060.
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DISPONIBILIDADE DE DADOS
Dados disponíveis mediante solicitação.
Editado por
Dados disponíveis mediante solicitação.
