Open-access COERÊNCIA, CRIATIVIDADE E AUDÁCIA NAS DECISÕES METODOLÓGICAS

As formas de conhecimento de Carper (por exemplo: a forma empírica, a estética, a ética e a pessoal) sem dúvida, deixaram sua marca na geração e compreensão do conhecimento da Enfermagem1, posicionando a área como uma profissão autônoma e independente da Medicina. Embora Chinn e Kramer2 tenham acrescentado conceitos a essas formas de conhecimento para incluir o conhecimento emancipatório, atualmente há chamadas1,3 para incluir a forma política do conhecimento nesta lista, a fim de reformar as metodologias de pesquisa em enfermagem para gerar conhecimento socialmente relevante que possa responder às demandas de justiça social e equidade em saúde. Filosofias não colonialistas, ações em defesa dos direitos humanos e o desenvolvimento de políticas antidiscriminação devem orientar genuinamente a pesquisa em enfermagem considerando os determinantes sociais da saúde1. A descolonização do conhecimento de enfermagem legitima filosofias não colonialistas que promovem os objetivos de justiça social universal e humanização3. Para atingir esses objetivos, as agendas de pesquisa, prática e educação devem incluir estruturas, padrões de conhecimento e culturas de indivíduos diversos3. Isso informará melhor as revisões e o desenvolvimento de políticas.

Para compensar os traços deixados pelas filosofias colonialistas sobre a epistemologia do Sul4-5 Santos propôs o paradigma do conhecimento prudente para uma vida decente5. Seus princípios referem-se ao conhecimento científico-natural em suas diversas formas: social, local e senso comum. Consequentemente, o redesenho de modelos para mobilizar todos os atores sociais, tecnológicos e instrumentais3 para melhorar o recrutamento e a participação de grupos populacionais de difícil acesso (por exemplo, residentes de locais remotos, em risco de isolamento social, exposição limitada ou reduzida a pesquisas) usando a tecnologia, demonstra ousadia e liberdade para integrar um grande número de abordagens e métodos6. Por exemplo, o design centrado no ser humano incorpora processos colaborativos e procedimentos de coleta de dados sobrepostos em projetos de e-Saúde7-8. Outro exemplo é a inovação determinada em pesquisa imposta pelo Modelo de Inovação Iceberg9 e suas camadas interconectadas: ferramentas de pesquisa inovadoras e seu uso, e os princípios orientadores de métodos inovadores. Este último é de particular interesse, pois destaca o compromisso com a inovação holística, o desenvolvimento conjunto da teoria e do método, a necessidade de ser ponderado em métodos inovadores e a necessidade de ser meticulosamente claro na apresentação do método9.

O aumento do número de pesquisas durante a pandemia impôs aos pesquisadores a necessidade de adaptar, recriar e redesenhar os procedimentos de coleta de dados. Ao fazê-lo, eles expuseram as desigualdades digitais da sociedade, principalmente quando são empregados métodos on-line e telefônicos para coletar dados. Os pesquisadores enfrentaram desafios para tornar a coleta remota de dados um procedimento metodologicamente rigoroso, sabendo que os potenciais participantes poderiam estar ansiosos para compartilhar suas histórias e experiências. Esse contexto possibilitou situações como as seguintes: acesso desigual, disponibilidade de tecnologias, observação rigorosa do risco de imaterialização, segurança e vulnerabilidade10. No entanto, graças à maior facilidade de acesso à comunicação social on-line, as abordagens de pesquisa on-line poderiam ampliar a inclusão social dos participantes menos privilegiados e a capacidade de pesquisa na assistência social11-12. Temas sensíveis (por exemplo, vitimização, questões relacionadas à saúde ou sexualidade) podem ser abordados virtualmente por meio da coleta de dados ricos em conteúdo diante da dificuldade de interpretação de sinais visuais13. Além do mais, a inclusão de pessoas com doença mental como participantes de pesquisas poderia permitir que depoimentos digitais e em vídeo fossem coletados, por exemplo, como forma de arte baseada na narrativa13. Essas abordagens dão voz às experiências dos participantes e promovem o empoderamento entre os participantes e o fortalecimento deste grupo populacional.

Se a inovação e a criatividade continuarem a atrair a pesquisa em enfermagem, deve-se notar que a transferência de evidências para a prática pode ser problemática. A tecnologia e a tradução do conhecimento para o avanço da prática de enfermagem (em todos os contextos) podem representar obstáculos impossíveis de serem superados para os pesquisadores de enfermagem residentes em países de baixa e média renda. A incorporação da tecnologia no ciclo de produção do conhecimento é questionável. Por exemplo, estudiosos sul-americanos de enfermagem têm apontado que a pesquisa sobre questões da prática contemporânea requer colaboração intelectual com outras disciplinas, a fim de melhorar as iniciativas de tradução de conhecimento para a profissão14. Os esforços colaborativos dos usuários e adotantes de tecnologia devem superar os obstáculos existentes relacionados à incorporação da tecnologia na prática15. Várias estratégias colaborativas, como ser uma equipe de pesquisa multidisciplinar, podem expandir o acesso a métodos e teorias de pesquisa menos conhecidas. Por exemplo: o estudo do acesso da população à informação sobre e-Saúde e alfabetização eletrônica em saúde pode ser beneficiado graças ao conhecimento sobre rastreamento de dados digitais (por exemplo: uso de mídias digitais)16. À medida que o interesse em saúde digital cresce na região, torna-se possível entender a capacidade de resposta dos usuários às iniciativas de saúde digital a partir da perspectiva de teorias correlacionadas com a inteligência artificial (por exemplo, teoria unificada de aceitação e uso de tecnologia; teoria dos jogos; comportamento planejado; raciocínio comportamental; teoria evolutiva)17.

Os pesquisadores de enfermagem poderiam prever benefícios em tal abordagem para inspirar o design de propostas de pesquisa coerentes, ousadas e criativas. Até mesmo a sofisticação metodológica necessária18 para revolucionar o futuro das agendas de pesquisa em enfermagem pode ser alcançada.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Maio 2023
  • Data do Fascículo
    2023

Histórico

  • Recebido
    22 Nov 2022
  • Aceito
    02 Dez 2022
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