Open-access PERCEPÇÃO DE MULHERES IDOSAS COM DOENÇA RENAL CRÔNICA SOBRE SUAS VIVÊNCIAS E REDES DE APOIO SOCIAL

RESUMO

Objetivo:   desvelar a percepção de mulheres idosas com Doença Renal Crônica sobre suas vivências e redes de apoio social.

Método:   Estudo qualitativo descritivo realizado com 21 mulheres idosas em tratamento conservador para DRC, atendidas em ambulatório. Os dados foram coletados por meio de entrevistas individuais, utilizando um questionário semiestruturado composto por três partes: informações sociodemográficas e econômicas; a questão norteadora “Como é viver com a Doença Renal Crônica?”; e a questão “Como é sua rede de apoio?”. As entrevistas foram gravadas, transcritas e analisadas no software Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires, por meio da Classificação Hierárquica Descendente e da análise de similitude. O estudo foi aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa.

Resultados:  As participantes apresentaram baixa escolaridade e renda, e relataram sentimentos de conformismo, instabilidade emocional e dificuldade de adaptação diante das restrições impostas pela doença. A rede de apoio revelou contrastes entre solidão, falta de suporte e presença de apoio familiar permeado pela dependência. As falas evidenciaram que a percepção negativa da doença influencia a capacidade de viver com bem-estar e qualidade de vida.

Conclusão:  O estudo desvela os desafios vivenciados por mulheres idosas com DRC em tratamento conservador e contribui para a melhoria do autocuidado, oferecendo subsídios à (re)formulação de estratégias de educação em saúde voltadas a esse público.

DESCRITORES:
Percepção; Mulheres; Pessoa idosa; Doença renal crônica; Apoio social

ABSTRACT

Objective:   to investigate the perception of older women with chronic kidney disease regarding their experiences and social support networks.

Method:   A descriptive qualitative study was conducted with 21 older women undergoing conservative treatment for CKD, followed at an outpatient clinic. Data were collected through individual interviews using a semi-structured questionnaire comprising three parts: sociodemographic and economic information; the guiding question “What is it like to live with chronic kidney disease?”; and the question “What is your support network like?” The interviews were recorded, transcribed, and analyzed using the Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires software, through Descending Hierarchical Classification and similarity analysis. The study was approved by a Research Ethics Committee.

Results:  The participants had low levels of education and income and reported feelings of resignation, emotional instability, and difficulty adapting to the restrictions imposed by the disease. The support network revealed contrasts between loneliness, lack of support, and the presence of family support marked by dependence. The statements showed that a negative perception of the disease affects the capacity to live with well-being and quality of life.

Conclusion:  The study uncovers the challenges experienced by older women with CKD undergoing conservative treatment and contributes to improving self-care by providing input for the (re)formulation of health education strategies targeting this population.

DESCRIPTORS:
Perception; Women; Older adults; Chronic kidney disease; Social support

RESUMEN

Objetivo:   revelar la percepción de mujeres mayores con Enfermedad Renal Crónica sobre sus vivencias y redes de apoyo social.

Método:   Estudio cualitativo descriptivo realizado con 21 mujeres mayores en tratamiento conservador para ERC, atendidas en consulta externa. Los datos fueron recolectados mediante entrevistas individuales, utilizando un cuestionario semiestructurado compuesto por tres partes: información sociodemográfica y económica; la pregunta orientadora "¿Cómo es vivir con la Enfermedad Renal Crónica?"; y la pregunta "¿Cómo es su red de apoyo?". Las entrevistas fueron grabadas, transcritas y analizadas en el software Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires, mediante la Clasificación Jerárquica Descendente y el análisis de similitud. El estudio fue aprobado por un Comité de Ética en Investigación.

Resultados:   Las participantes presentaron bajo nivel de escolaridad e ingresos, y reportaron sentimientos de conformismo, inestabilidad emocional y dificultad de adaptación frente a las restricciones impuestas por la enfermedad. La red de apoyo reveló contrastes entre la soledad, la falta de soporte y la presencia de apoyo familiar permeado por la dependencia. Los testimonios evidenciaron que la percepción negativa de la enfermedad influye en la capacidad de vivir con bienestar y calidad de vida.

Conclusión:   El estudio revela los desafíos experimentados por mujeres mayores con ERC en tratamiento conservador y contribuye a la mejora del autocuidado, ofreciendo insumos para la (re)formulación de estrategias de educación en salud dirigidas a este público.

DESCRIPTORES:
Percepción; Mujeres; Persona mayor; Enfermedad renal crónica; Apoyo social

INTRODUÇÃO

A Doença Renal Crônica (DRC) é caracterizada pela presença de dano estrutural ou funcional nos rins, ou pela redução da filtração glomerular por período igual ou superior a três meses, independentemente da causa. Trata-se de um grave problema de saúde pública que acomete milhões de pessoas em todo o mundo, com impacto negativo sobre a qualidade de vida e elevados custos relacionados a tratamentos e internações1.

A DRC em estágio avançado ocorre com maior frequência em mulheres após a idade fértil. Estima-se que 195 milhões de mulheres no mundo apresentam algum grau da doença, sendo evidente a desigualdade no acesso ao tratamento adequado. Entre as mulheres idosas, destacam-se desafios como a dificuldade de diagnóstico precoce e a ausência de rastreamento sistemático nos serviços de atenção primária à saúde, especialmente entre aquelas com hipertensão arterial e diabetes mellitus - principais condições associadas ao desenvolvimento da DRC 2,3,4.

A literatura científica concentra-se, majoritariamente, em estudos sobre a fase dialítica e em mulheres em idade fértil1,2,5,6, havendo escassez sobre tratamento conservador em mulheres idosas no contexto brasileiro⁶. O tratamento conservador compreende intervenções clínicas, uso de medicamentos, modificações na dieta e mudanças no estilo de vida, com o objetivo de retardar a progressão da doença, reduzir sintomas e prevenir complicações. Embora a DRC seja progressiva e irreversível, sua evolução pode ser desacelerada ou estabilizada com esse tratamento, favorecendo a sobrevida e a qualidade de vida dos pacientes⁷.

Durante o tratamento conservador, as pessoas vivenciam mudanças significativas em seu cotidiano e necessitam do apoio de uma equipe multiprofissional para atender suas necessidades biopsicossociais. Por se tratar de uma condição limitante, é comum a resistência à aceitação do diagnóstico, o que pode desencadear experiências emocionais negativas e comprometer a qualidade de vida, tornando indispensável o suporte familiar e emocional8.

A escuta qualificada e a relação de proximidade entre profissionais de saúde e pacientes são fundamentais para compreender o processo de adoecimento e promover vínculos terapêuticos. Cabe ao enfermeiro identificar, compreender e contextualizar os sentimentos expressos pelos pacientes, de modo a favorecer o enfrentamento e o desenvolvimento do autocuidado9,10. Nesse contexto, o enfermeiro exerce papel essencial na promoção da autonomia e na adesão ao tratamento, ao oferecer explicações sobre a doença e orientações para o manejo conservador, estimulando a participação ativa das mulheres idosas.

As vivências relacionadas à DRC estão profundamente conectadas à rede de apoio social, que influencia tanto o enfrentamento quanto a adesão às orientações terapêuticas. O suporte familiar, emocional e comunitário contribui para ressignificar a experiência do adoecimento e fortalecer a capacidade de viver com melhor qualidade de vida¹¹.

Diante do exposto, ressalta-se a importância de ampliar o olhar para além da função renal, valorizando o acolhimento integral, o fortalecimento do autocuidado e a rede de apoio social como dimensões essenciais do cuidado à mulher idosa com DRC. Essa perspectiva coaduna-se com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 3 - Saúde e bem-estar que propõe assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades. Assim, este estudo teve como objetivo desvelar a percepção de mulheres idosas com Doença Renal Crônica sobre suas vivências e redes de apoio social.

MÉTODO

Trata-se de um estudo descritivo, exploratório, de método qualitativo12 e guiado pelo Consolidated criteria for reporting qualitative research (COREQ)13. Foi realizado em um ambulatório de Nefrologia pertencente a um hospital público de referência em tratamento conservador, hemodiálise e transplante renal, localizado na cidade do Recife (PE), Brasil. O serviço é vinculado ao Sistema Único de Saúde (SUS) e oferece consultas ambulatoriais, internações em enfermaria de Nefrologia e atendimentos em unidade de diálise. A equipe multiprofissional é composta por nefrologistas, enfermeiros, técnicos de enfermagem e conta com o suporte de nutricionista e assistente social, além de residentes das áreas de fisioterapia, farmácia, terapia ocupacional e enfermagem. O ambulatório realiza, em média, 30 atendimentos diários, de segunda a sexta-feira.

A coleta de dados ocorreu entre janeiro e julho de 2023. Inicialmente, a pesquisadora realizou um período de imersão no campo, estabelecendo contato com a coordenação e a equipe do ambulatório, a fim de apresentar o projeto, solicitar apoio e conhecer os potenciais participantes. Posteriormente, foi realizado um teste piloto com nove mulheres idosas, o que possibilitou o reconhecimento do cenário, a observação da rotina do serviço e os ajustes necessários no instrumento de coleta.

A população-alvo foi composta por 21 mulheres idosas com Doença Renal Crônica em tratamento conservador, atendidas ambulatorialmente e selecionadas por conveniência no dia da consulta com o nefrologista. Os critérios de inclusão foram: ser mulher com idade igual ou superior a 60 anos e com diagnóstico de DRC em tratamento conservador. Foram excluídas as mulheres idosas que tinham diagnóstico de demência no prontuário.

A coleta foi conduzida por uma pesquisadora enfermeira, doutoranda em Enfermagem, mestre em Gerontologia e com experiência em pesquisas sobre DRC. Ressalta-se que a pesquisadora não possuía vínculo profissional com o setor de estudo.

As entrevistas individuais ocorreram em sala reservada no próprio ambulatório, com duração média de 30 minutos, e foram gravadas em áudio mediante autorização das participantes. Utilizou-se um roteiro semiestruturado dividido em três partes: dados sociodemográficos e clínicos (idade, autodeclaração étnica, estado civil, número de filhos, escolaridade, renda, tempo de acompanhamento e estágio da DRC), tratados de maneira descritiva; a segunda explorou as vivências das participantes em relação à DRC, guiada pela questão: “como é viver com a DRC?”; e a terceira investigou a rede de apoio, com a pergunta: “como é sua rede de apoio?”. O tamanho da amostra seguiu os critérios de saturação, ou seja, suspensão de inclusão de novos participantes quando as respostas se tornaram repetidas14.

As entrevistas foram gravadas por meio de gravador de voz do tipo mp4 e aparelho de smartphone, sendo posteriormente transcritas na íntegra, pela própria pesquisadora, de forma manual e com dupla checagem do conteúdo transcrito. As participantes foram identificadas como Pessoa idosa, seguidas da ordem de realização das entrevistas (Pessoa Idosa 01, Pessoa idosa 02, ..., Pessoa idosa 21). Além das entrevistas, utilizou-se um Diário de Campo (DC) para registrar impressões e observações relevantes, contribuindo para a contextualização e a consistência analítica12.

As transcrições foram organizadas em corpus textuais e processadas no software Iramuteq ® - Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires, sendo utilizada a versão 0.7 alpha 2. Esse programa permite a codificação e inferência de temas presentes nos discursos, evidenciando crenças, conceitos e explicações mobilizadas pelas participantes15.

Para este estudo, foram utilizadas duas análises: a Classificação Hierárquica Descendente (CHD), também denominada Método Reinert, e a Análise de Similitude. A CHD foi aplicada à segunda parte do roteiro de entrevistas e possibilitou a organização do conteúdo em classes lexicais constituídas por aproximação semântica. O software gera um dendrograma, ilustrando as relações entre as classes. Essa análise agrupa segmentos de texto (ST) de acordo com o vocabulário - formas reduzidas (palavras lematizadas) -, sendo as associações consideradas significativas quando p < 0,05. Seguiu-se a configuração pré-programada de classificação simples sobre segmentos de texto, utilizando todas as classes morfológicas do corpus textual. Considerou-se o corpus apto para análise quando o índice de retenção foi igual ou superior a 75%¹⁵.

A Análise de Similitude, aplicada à terceira parte do roteiro, permitiu reconhecer coocorrências entre palavras e identificar a estrutura de conexidade do corpus, utilizando as formas ativas (adjetivos, substantivos e verbos)¹⁵. Essa análise favoreceu a visualização dos núcleos de sentido e das inter-relações entre termos.

A partir dos resultados gerados pelo Iramuteq®, procedeu-se à análise de conteúdo temática, de natureza manifesta, com foco na descrição crítica dos dados e na identificação de padrões, recorrências e significados explícitos nos enunciados¹². O processo de categorização ocorreu de duas formas: na CHD, as categorias derivaram das classes textuais geradas automaticamente; na análise de similitude, foram elaboradas a partir dos núcleos de sentido e das conexões lexicais. Essa triangulação metodológica possibilitou uma interpretação ampliada dos discursos, articulando resultados estatísticos e significados simbólicos expressos pelas participantes.

A pesquisa foi iniciada após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa. As participantes foram resguardadas conforme a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, sendo identificadas apenas pelo número de ordem das entrevistas.

RESULTADOS

As 21 mulheres idosas entrevistadas estavam em tratamento conservador para Doença Renal Crônica (DRC) e apresentaram média de idade de 69,3 anos (DP = 4,9). A maioria se identificava como não branca (71,4%), tinha filhos (95,2%), não possuía companheiro (71,4%), contava com renda inferior a um salário mínimo (71,4%) e apresentava escolaridade inferior a quatro anos de estudo (66,7%). O tempo de acompanhamento no ambulatório de Nefrologia foi variado, sendo que 52,4% estavam em tratamento há menos de cinco anos. Quanto ao estágio da DRC, todas se encontravam até o estágio IV da doença.

Na sequência, buscou-se compreender as vivências das participantes diante da DRC, por meio da questão norteadora: “Como é viver com a DRC?” As entrevistas compuseram o corpus textual analisado pela Classificação Hierárquica Descendente (CHD), que foi dividida em 36 segmentos de texto (ST), envolvendo 379 palavras que ocorreram 1.201 vezes. O corpus apresentou 86,11% de aproveitamento, atendendo aos critérios de qualidade analítica recomendados na literatura, e originou seis classes de conteúdo.

Conforme ilustra a Figura 1, o corpus foi inicialmente dividido em dois subcorpus. O subcorpus da esquerda originou as classes 1 e 6, enquanto o subcorpus da direita se subdividiu, dando origem às classes 5 e 4, em oposição às classes 3 e 2. Conforme a figura abaixo:

Figura 1 -
Dendrograma das palavras distribuídas em seis classes. Recife, Pernambuco, Brasil, 2025.

A leitura e interpretação dos ST referentes a cada classe evidenciaram forte semelhança temática entre os pares (1 e 6), (5 e 4) e (3 e 2), o que permitiu o agrupamento em três categorias temáticas:

  1. Sentimento de resignação diante da doença (classes 1 e 6);

  2. Dificuldades de adaptação no enfrentamento da doença (classes 5 e 4);

  3. Instabilidade emocional diante da doença (classes 3 e 2).

Cada categoria expressa dimensões distintas, porém interligadas, das experiências das mulheres idosas sobre o viver com a DRC.

Categoria 1 - Sentimento de resignação diante da doença

Esta categoria representou 38,7% dos ST e aborda como as mulheres idosas lidam com a realidade de conviver com uma doença crônica, expressando processos de aceitação e adaptação. Os relatos evidenciam uma atitude de resignação e conformidade, em que a doença é percebida como inevitável e o foco passa a ser continuar vivendo dentro das limitações impostas. A ideia de “acostumar-se” à condição e seguir as orientações médicas revela um modo resiliente de enfrentamento, em que a aceitação substitui a resistência.

viver com a doença é o jeito que tem... (Pessoa Idosa 02)

se desse pra pessoa viver liberta era bem melhor, se não dá pra viver... (Pessoa Idosa 20)

tem que viver, se a gente não viver, ninguém vai viver pela gente, se for reclamar ninguém vai dar jeito (Pessoa Idosa 04)

já me acostumei, o que o médico passa eu faço... (Pessoa Idosa 16)

é mal fazer o que, me acostumei com a doença, a gente tem que se acostuma” (Pessoa Idosa 14).

Os depoimentos revelam que a resignação pode emergir tanto como mecanismo de enfrentamento adaptativo quanto como reflexo de impotência diante da cronicidade e da ausência de suporte emocional. Tal postura, embora funcional, pode indicar submissão às limitações impostas pela doença, exigindo atenção dos profissionais de enfermagem para fomentar autonomia e empoderamento no cuidado.

Categoria 2 - Dificuldades de adaptação no enfrentamento da doença

Esta categoria correspondeu a 32,2% dos ST e descreve as restrições alimentares e dores físicas associadas ao tratamento, as quais afetam o bem-estar e a qualidade de vida das mulheres idosas. Os relatos refletem frustração e sofrimento emocional diante da perda de liberdade alimentar e do desconforto físico, agravados por condições associadas, como o diabetes.

é ruim, por que às vezes quer comer uma comida melhor e não pode... (Pessoa Idosa 18)

é muito ruim, quero comer alguma coisa e não posso, quero tomar cerveja e não posso... (Pessoa Idosa 09)

é muita dor que sinto no meu corpo, eu não sei de onde vem, se é da diabete ou o que é (Pessoa Idosa 13)

Essas dificuldades ultrapassam os aspectos biológicos da DRC e revelam implicações psicossociais significativas, que precisam ser reconhecidas pelos profissionais de saúde. A escuta sensível e o acolhimento às demandas subjetivas podem contribuir para a construção de estratégias educativas que fortaleçam o enfrentamento e a adesão ao tratamento.

Categoria 3 - Instabilidade emocional diante da doença

Com 29% dos ST, esta categoria destaca a oscilação de humor e sentimento de insegurança frente à progressão da DRC. As falas demonstram que viver com a doença envolve uma experiência subjetiva complexa, permeada por sofrimento emocional, carência afetiva e necessidade de apoio.

eu levo assim, tomo meus remédios certinho, mas o que mais me incomoda é que eu sou uma pessoa muito carente de carinho ... tem dia que vejo a hora de correr doida e isso influi muito (Pessoa Idosa 02)

eu vivo bem .... tem hora que fico mais alegre, tem hora que fico mais triste e assim vai... (Pessoa Idosa 16)

Observa-se que a instabilidade emocional reflete tanto o impacto da doença na esfera afetiva quanto a fragilidade da rede de suporte social, reforçando a importância de intervenções de enfermagem que integrem dimensões emocionais, relacionais e espirituais ao cuidado.

Rede de apoio e experiências relacionais

Na análise de similitude (Figura 2), referente à questão norteadora “Como é sua rede de apoio?”, emergiram dois núcleos centrais: as palavras “não” e “filho”, que estruturaram dois grandes agrupamentos de sentido. O termo “não” associou-se à palavra “só”, originando a categoria Sentimentos de solidão e falta de apoio; já o termo “filho” associou-se a “morar” e “apoiar”, dando origem à categoria Apoio familiar e dependência.

Figura 2 -
Análise de similitude das palavras associadas à rede de apoio das participantes. Recife, Pernambuco, Brasil, 2025.

Apoio familiar e dependência

Os relatos destacam o papel central da família como principal fonte de suporte, especialmente no acompanhamento médico e nas atividades da vida diária. As idosas expressam gratidão e reconhecimento pelo auxílio recebido, associando-o à manutenção do bem-estar e da qualidade de vida.

minha filha é boa pra mim, que ela tem o filho dela também, mas quando eu vou fazer um exame, vou pra um médico, ela tem que ir comigo...” (Pessoa Idosa 03)

eles apoiam em tudo, meu filho, ele trabalha, mas trocou com o amigo dele pra trazer eu hoje (Pessoa Idosa 05)

Minha família me ajuda demais, andam comigo pra cima e pra baixo, pra todo canto, me ajudam demais... (Pessoa Idosa 11)

Minha filha faz comida pra mim, não deixa fazer as coisas dentro de casa, eu faço o que eu posso (Pessoa Idosa 14)

Eu tenho 3 filhos que são umas bênçãos, o que seria de mim se não fosse meus filhos, me trazem pra consulta, em casa eles trabalham em prol de mim sabe (Pessoa Idosa 08)

Sentimentos de solidão e falta de apoio

Por outro lado, parte das entrevistadas relatou isolamento e ausência de suporte familiar, atribuídos à distância geográfica ou às responsabilidades laborais dos familiares. As falas revelam vulnerabilidade social e emocional, reforçando a importância de políticas públicas e práticas interprofissionais que ampliem o suporte a essas mulheres.

Meu filho mora longe, eu tô sozinha, eu tenho família, tenho muita família, mas eles dizem que não podem (Pessoa Idosa 13)

o médico falou que já era pra ter uma pessoa pra cuidar de mim, não era pra eu fazer nada, mas eu tenho que fazer, as noras tudo trabalham, não tem condições, minha filha também (Pessoa Idosa 12)

o apoio da família é cada um no seu lugar, sabem que eu tenho problema de rins, que eu tenho apenas um rim .... tô até com um filho internado, e o outro mora em São Paulo. (Pessoa Idosa 07)

DISCUSSÃO

As participantes deste estudo, caracterizadas por baixa escolaridade e renda, vivenciam a DRC permeadas por sentimentos de conformismo, instabilidade emocional e dificuldades de adaptação às restrições impostas pela condição. Seus relatos evidenciam forte dependência do apoio familiar, que, por vezes, contrasta com experiências de solidão e desamparo. Essa ambivalência sugere que a percepção negativa da doença pode comprometer diretamente a capacidade de viver com bem-estar e qualidade de vida.

A baixa escolaridade e renda são características frequentes na população idosa com DRC e são consideradas fatores que predispõem ao desenvolvimento da doença, refletindo as condições educacionais e de saúde precárias e menos acessíveis16. Esse contexto limita a vivência das pessoas com DRC, uma vez que a dificuldade em compreender informações de saúde, o acesso restrito a serviços de prevenção e as barreiras para adoção de práticas de autocuidado tornam ainda mais desafiador lidar com as exigências do tratamento no cotidiano.

Embora as mulheres idosas expressem conformismo diante da doença, elas reconhecem a importância do tratamento, revelando uma dicotomia em sua percepção da DRC: o tratamento é percebido como incômodo e desconfortável, mas necessário para a manutenção da vida. Pesquisas sobre a vivência de pessoas com DRC indicam que, diante das perdas físicas, sociais e emocionais, muitos pacientes desenvolvem uma postura de resignação. Embora tal conformismo possa funcionar como mecanismo adaptativo, ele frequentemente se associa à queda do humor, apatia e menor motivação para o autocuidado, compreendendo a adesão ao tratamento. Além disso, a percepção negativa da doença contribui para sintomas depressivos e para uma perspectiva limitada sobre o futuro, reforçando a necessidade de intervenções que incentivem a reinterpretação da experiência do adoecimento e promovam o desenvolvimento de estratégias cognitivas mais adaptativas. Essas estratégias podem transformar o conformismo em uma aceitação crítica, resultando em uma melhoria na qualidade de vida. Apesar dos desafios, os pacientes podem ser capazes de ressignificar o processo ao longo do tempo, aprendendo novas formas de viver17,18.

Uma das experiências relatadas pelas participantes deste estudo foi a dificuldade de adaptação ao tratamento, o que está em consonância com pesquisas anteriores¹⁹ que apontam desafios semelhantes desde o início da terapia. Entre os principais, destaca-se a sobrecarga de sintomas no cotidiano, decorrente da função renal comprometida, tais como dor, fadiga, perda de apetite, preocupação constante e sintomas depressivos. Apesar dessas adversidades, os participantes reconheceram que a adesão às restrições alimentares e à limitação da ingestão de líquidos era essencial para o controle da doença, configurando-se como um passo importante na adoção de estratégias de enfrentamento mais eficazes19.

A instabilidade emocional também se destacou nas falas das participantes, apresentando sofrimento emocional permeado por oscilações de humor, que interferem no bem-estar físico, psíquico e social. A instabilidade emocional das participantes revela como a DRC impacta não apenas o psicológico, mas também o bem-estar físico e social. Oscilações de humor, angústia e ansiedade comprometem a adesão terapêutica e a qualidade de vida, confirmando a necessidade de um cuidado integral e interdisciplinar. O reconhecimento desse sofrimento destaca a importância de estratégias de promoção da saúde mental que fortaleçam a resiliência e a rede de apoio das mulheres idosas em tratamento conservador20.

A descoberta do diagnóstico de DRC é um momento perpassado por representações com base em relações de perdas e por insegurança em relação ao futuro. Surgem sentimentos negativos e imagem de sofrimento que costumam permear essa doença objetivada pelo desespero, medo e aproximação da morte, assim, a incerteza em relação ao futuro, o medo e o pânico vão se intensificando, fazendo com que a pessoa perceba a DRC como uma barreira no processo de viver21. Nesse contexto, a descoberta do diagnóstico não apenas desencadeia sentimentos de medo e incerteza, mas também evidencia a relevância da dimensão emocional, cuja partilha e acompanhamento ainda são pouco explorados na prática clínica. As emoções e a sensação de bem-estar dos pacientes podem variar ao longo do tempo, sendo comuns a ansiedade e depressão. Por isso, é fundamental que os profissionais de saúde monitorem e interpretem em conjunto com os familiares, essas instabilidades emocionais18,22.

Os relatos sobre a rede de apoio evidenciam experiências diversificadas, ressaltando a importância do suporte familiar para a qualidade de vida das idosas. Mulheres que recebem ajuda frequente demonstram gratidão e melhor adaptação às suas condições de saúde, enquanto aquelas que enfrentam a ausência de apoio revelam a necessidade de políticas públicas e redes de suporte que assegurem uma vida digna e segura. A análise desses relatos aponta a necessidade de um olhar atento às condições de vida das idosas, considerando tanto o apoio recebido quanto a falta dele, e assim promover a autonomia e bem-estar, com uma abordagem integrada entre família e comunidade.

Redes de apoio auxiliam na satisfação das necessidades básicas, como preparação de alimentos, administração de medicamentos e transporte para consultas, além de fornecerem suporte emocional, essencial frente à carga mental associada à DRC. À medida que a doença progride, a intensidade do cuidado necessário aumenta. Estudos indicam que idosos com DRC percebem menor apoio familiar do que seus pares saudáveis, apresentando maiores níveis de depressão e ansiedade. Embora o apoio familiar possa reduzir medos e sentimentos de culpa, ele também pode intensificar experiências negativas, demonstrando que o suporte não é uniformemente benéfico. Estratégias que equilibrem acolhimento e incentivo à autonomia são essenciais para que a ajuda familiar não se transforme em fator de sofrimento11,23.

Diante das ambiguidades do suporte familiar, a atuação dos profissionais de saúde torna-se ainda mais relevante, pois oferece acolhimento qualificado e orientações que equilibram o cuidado com a preservação da autonomia do paciente. Durante o tratamento conservador, o enfermeiro desempenha papel fundamental nesse acolhimento, atuando como ponto de equilíbrio na tomada de decisões, fornecendo informações sobre a doença e orientando sobre a possibilidade de iniciar terapia renal substitutiva24. O acompanhamento possibilita a realização de uma educação pré-dialítica, possibilitando a desmistificação da doença e fornecendo informações sobre os tratamentos disponíveis, construindo com os pacientes a melhor escolha de método em consonância com seu estilo de vida, desde que não haja contraindicações clínicas e sociais9,25.

A coleta de dados, realizada por meio de entrevistas, pode ter sido influenciada por limitações de memória ou pelo constrangimento das participantes em relatar aspectos relacionados às suas vivências com a doença. Apesar dessas possíveis limitações, o estudo fornece contribuições significativas para a compreensão das vivências e da rede de apoio de mulheres idosas com DRC. Além disso, a profundidade dos resultados obtidos pode ser aplicada a outras pessoas que enfrentam situações semelhantes de doenças crônicas, oferecendo insights relevantes para práticas de cuidado e estratégias de suporte.

CONCLUSÃO

O estudo identificou que para as mulheres idosas, viver com a DRC é desafiador e provoca sentimentos de conformismo, perpassando por instabilidades emocionais e dificuldades de adaptação diante da doença. Em relação a rede de apoio mostrou sentimentos de dependência, falta de apoio e solidão.

Ao desvelar a vivência e a rede de apoio de mulheres idosas com DRC em tratamento conservador, este estudo contribui para o aprimoramento da assistência à saúde dessas pessoas, fornecendo subsídios para a reavaliação das estratégias de educação em saúde.

Ressalta-se a necessidade de mais estudos relacionados à vivência e rede de apoio de mulheres idosas com a DRC, já que o problema necessita de intervenções, principalmente, porque muitos pacientes mantêm o tratamento por longos anos. Dessa forma, é considerado impreterível uma visão holística e individualizada desse público e acompanhamento multiprofissional especializado, baseando-se em uma escuta atenta e qualificada.

AGRADECIMENTO

A publicação deste artigo contou com apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) - Brasil.

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NOTAS

  • ORIGEM DO ARTIGO
    Extraído da tese - Promoção da Saúde de Mulheres Idosas com Doença Renal Crônica em Tratamento Conservador: uma Abordagem Freireana, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, da Universidade Universidade Federal de Pernambuco, em 2025.
  • APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
    Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Das Clínicas Da Universidade Federal De Pernambuco - HC/UFPE, parecer n. 6.045.739/2023, Certificado de Apresentação para Apreciação Ética 68980223.6.0000.8807.
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Dados da pesquisa estão disponíveis mediante solicitação ao autor correspondente.

Editado por

  • EDITORES
    Editores Associados: Glilciane Morceli.
    Editor-chefe: Gisele Cristina Manfrini.

Disponibilidade de dados

Dados da pesquisa estão disponíveis mediante solicitação ao autor correspondente.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    04 Nov 2025
  • Aceito
    05 Mar 2026
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