RESUMO
O presente trabalho busca resgatar o processo de construção e valorização do espaço urbano de Cataguases/MG, a partir de uma perspectiva geohistórica, tendo como pano de fundo o movimento cultural iniciado na década de 1920, que projetou a cidade no cenário nacional: o modernismo. Este movimento deixou marcas indeléveis na paisagem urbana de Cataguases, consubstanciados em literatura, artes plásticas, arquitetura e urbanismo.
Palavras chave:
Geohistória; Cataguases; Movimento Modernista
ABSTRACT
This work seeks to rescue the process of construction and valorization of Cataguases’ urban space from a geo-historical perspective. Emphasis is placed on the cultural movement initiated in 1920, which projected the City nationwide: the modernism. This movement left profound landmarks in the urban landscape of Cataguases, materialized in its literature, arts, architecture and urbanism.
Keywords:
Geohistory; Cataguases; Modernism Movement
INTRODUÇÃO
A cidade de Cataguases guarda em sua paisagem, marcas indeléveis de um significativo patrimônio cultural literário, artístico e arquitetônico, destacando-se de outras cidades brasileiras do mesmo porte, com um legado assentado no movimento modernista, que estabeleceu e desenvolveu sua "vocação" para a modernidade. Dessa forma, o presente trabalho busca conhecer, discutir e entender como ocorreu a construção, bem como a valorização de seu espaço urbano, tendo como pano de fundo um processo cultural que projetou a cidade no cenário nacional.
As modificações ocorridas nas décadas de 1920, 1930 e 1940 na cidade, por certo que se efetivaram repercutindo na sociedade e na economia; questiona-se então até que ponto a lavoura cafeeira, a industrialização e naturalmente o movimento modernista tiveram influência nas marcas que a cidade inscreveu em seu espaço, participando efetivamente do processo de ocupação e valorização do meio urbano. Ressaltar sobre sua planta urbana ou seu patrimônio literário, artístico ou arquitetônico poderia explicar e justificar nosso interesse pelo presente trabalho, mas nos chama a atenção justamente o fato de seu efervescente passado cultural, destacando-se dos demais municípios do mesmo porte. Assim, poderá servir não só como diagnóstico de uma fase, mas um subsídio, um degrau para posteriores estudos, que possam vir a trazer um pouco mais de luz sobre o espaço urbano de Cataguases, seja em função de sua sociedade ou de sua economia.
A dinâmica cultural é extremamente diversa, desde sua origem, à sua difusão e evolução no tempo e no espaço; ela é, sem dúvida, resultante da ação transformadora do homem sobre a natureza. Proporciona um conjunto de formas materiais, dispostas e articuladas no espaço, com padrões e variedades de estilos e cores, compreensível no tempo, dependendo da própria cultura que a originou.
CORRÊA (2001), afirma que a paisagem cultural é uma vitrine permanente de todo o saber, expressando a cultura em seus diversos aspectos, possuindo uma faceta funcional e outra simbólica. Conseqüentemente, por ser um produto da apropriação e transformação da natureza, cabe ao geógrafo, a decodificação e leitura de tais significados. Por sua vez, o espaço também é um campo de representações simbólicas, rico em signos que cumprem a função de expressarem as estruturas sociais em suas mais diversas dimensões, onde o simbolismo ganha materialidade. Dessa forma, tais estruturas tendo como matriz a própria sociedade de classes e seus processos, constata-se ser o espaço urbano simultaneamente fragmentado e articulado, quando num terceiro momento de apreensão do espaço urbano: o de ser um reflexo da sociedade, provoca desigualdades, que se traduz em ambientes desiguais.
Segundo CORRÊA (2001: 148):
"É conveniente lembrar, contudo, que o espaço urbano é um reflexo tanto de ações que se realizam no presente, como também daquelas que se realizaram no passado e que deixaram suas marcas impressas nas formas espaciais presentes. Nesse sentido o espaço urbano pode ser o reflexo de uma sequência de formas espaciais que coexistem lado a lado, cada uma sendo originária de um dado momento.”
MORAES (1999), explica essa evolução histórica que nos ajuda a compreender o processo de valorização do espaço, seus impactos e reflexos na sociedade, na economia e também no meio cultural; oportunamente cita o geógrafo Milton Santos que ensina: "produzir é produzir espaço." A sociedade como força produtiva, aliada aos meios por ela mesma criados, é o agente da transformação; seja travestida de arquitetos ou poetas, operários ou comerciantes, não deixam de participar efetivamente do processo, seja ele perene ou transitório, dentro da relação espaço-sociedade.
Entre os processos sociais e a organização espacial, existe um elemento mediador que são os processos espaciais, responsáveis imediatos que viabilizam forças que atuam ao longo do tempo, permitindo localizações, relocalizações e permanência das atividades e população sobre o espaço urbano. Naturalmente que tais processos são postos em ação pelos atores que dão forma à organização do espaço; sejam eles os proprietários dos meios de produção, proprietários de terras, associados ou não ao Estado. Cada um com sua estratégia gerando conflitos em maior ou menor grau, normalmente mediados pelo Estado. Para SANTOS (1979), o modo de produção, a formação social e o espaço, são interdependentes, pois juntos formam o modo de produção, como produção propriamente dita, circulação, distribuição e consumo; histórica e espacialmente determinados num movimento de conjunto, e isto através de uma formação social.
Os lugares não são iguais, portanto, suas diferenças são o resultado do arranjo espacial e dos modos de produção, sendo que o "valor" de cada local depende de níveis qualitativos e quantitativos daqueles modos de produção e da maneira como eles se combinam. Dessa forma, o geógrafo analisa o processo de produção, porquanto o ato de produzir é produzir também o espaço. Assim, determinado historicamente o processo de produção do espaço, terá sua produção determinada pela formação econômica daquele espaço, ou seja, o processo de produção da existência será diverso, há que se refletir do ponto de vista do sujeito, que é o agente do processo. Em qualquer época, em qualquer lugar a sociedade valoriza o espaço e o modo de produção entra como mediação particularizadora; cada modo de produção tem seu modo particular de valorização.
MORAES (1999) aponta que qualquer processo social explica-se no âmbito da discussão sobre valor e trabalho e suas categorias fundamentais. O processo de valorização tem aí seu nódulo explicativo: a relação sociedade / espaço é a relação do valor espaço substantivada pelo trabalho humano, portanto a apropriação, construção, perenização e as modificações no espaço, representam criação de valor. Tal processo de produção, no entanto, limita o acesso ao consumo, incluindo aí o consumo do próprio espaço, o direito à habitação, aos bens de consumo, aos gêneros de primeira necessidade, enfim o direito à cidadania e tudo o que a sociedade produz, tornando desigual.
Enquanto o processo de produção é coletivo, o de consumo é privado. A apropriação privada e desigual do espaço geográfico, produzido pelo trabalho da sociedade, pode ser percebido no espaço urbano. O processo de apropriação do espaço será, portanto, estabelecido pela posição que o indivíduo ocupa na sociedade. De uma maneira ou de outra, desigual e diferenciadamente, cada indivíduo ou parcela da população apropria-se de um espaço socialmente produzido.
Portanto, o espaço é resultado desse movimento, que se desfaz e renova continuamente, simultaneamente com a sociedade. Imediatamente nem todos os lugares do espaço são atingidos, quando destes movimentos sociais, ao menos diretamente.
Entretanto, na realidade, todos o são porque o fato de que um ponto do espaço conheça uma nova definição, através do impacto de variáveis novas, mudam as hierarquias e impõe-se uma nova ordem espacial que concerne ou não, à totalidade dos lugares. Os movimentos sociais dão condições de reação aos lugares, desse modo obrigam-nos a modificar-se, conduzindo a modificações mais ou menos grandes, rápidas ou imediatas, da totalidade dos lugares.
SANTOS (1979: 45), ensina:
"Quando uma atividade nova se cria em um lugar, ou quando uma atividade já existente aí se estabelece, o "valor" desse lugar muda; e assim o "valor" de todos os lugares também muda, pois o lugar atingido fica em condições de exercer uma função que outros não dispõem e ganha, através desse fato, uma exclusividade que é sinônimo de dominação; ou, modificando a sua própria maneira de exercer uma atividade preexistente, cria, no conjunto das localidades que também a exercem, um desequilíbrio quantitativo e qualitativo que leva a uma nova hierarquia ou, em todo caso, a uma nova significação para cada um e para todos os lugares."
O espaço é condição geral da produção e possui valor intrínseco, uma riqueza natural, não necessariamente produto do trabalho humano. Daí o espaço ser considerado o receptáculo fundamental e geral do chamado "trabalho morto" através de seu desenvolvimento histórico numa progressiva e desigual acumulação de trabalho. A acumulação por sua vez gera uma complexização, tendo em vista as desigualdades espaciais, mais as desigualdades do trabalho, o que por sua vez determinará o valor do espaço que também se expressa na qualidade, quantidade e variedade dos recursos naturais disponíveis, uma preocupação clássica da Geografia.
A espacialidade, não pertence à esfera deste ou daquele espaço concreto, é uma característica imanente de qualquer processo, seja ele social ou natural. Enquanto atributo estará contida em todo processo de criação de valor. Segundo MORAES (1999: 128) a espacialidade é: "um elemento de concreção, uma mediação necessária para a compreensão de uma manifestação histórica concreta. " Nesse sentido, ESTRADA (1986: 72) não deixa de ressaltar a importância do sujeito como parte do processo em discussão:
"Se o espaço resulta da intervenção do homem e dos interesses que nele se acham em conflito, fica evidente que a função do geógrafo deve ultrapassar o nível de constatação e descrição desses fenômenos. Faz-se necessário mostrar que o espaço não é apenas um lugar que está sendo transformado, mas o lugar incorporado na forma e no processo de ocupação."
O homem se depara com certas condições de realidade social e de espaço e, diante das condições gerais de produção e existência, define um ciclo permanente de apropriar para trabalhar e vice-versa, num movimento ininterrupto com a submissão ao seu processo de trabalho de todas as forças disponíveis; escraviza ou compra força de trabalho, domina as forças naturais, desenvolve forças produtivas e organiza processos de produção. Produz riqueza, pobreza, espaços periféricos, centrais, espaços inertes, transforma espaços e reproduz todo o ciclo.
BARRIOS (1986), acrescenta:
"Esse movimento compreende não apenas a produção de bens materiais como também a adequação do meio ambiente circundante às necessidades individuais, familiares, comunitárias e das formações sociais em seu conjunto. Em consequência, as formas espaciais adquirem diferentes escalas de configuração, como: l. a dos objetos de consumo; 2. a dos fatos arquitetônicos; 3. a dos fatos urbanos e 4. a da organização territorial; cada uma das quais constituindo-se de próprio objeto de estudo."
Segundo MORAES (1999), o processo foi se implementando gradativamente; as sociedades humanas, para reproduzirem as condições de sua existência, estabelecem suas relações com o seu espaço procurando fixar-se, concomitante apropriarse do espaço, com o intuito de produzir, acumular, expandir e ao mesmo tempo concentrar. Tais são as palavras chave que o autor utiliza: fixação, apropriação, acumulação, expansão e concentração. Essa evolução histórica, com sucessivos processos de apropriação (e desapropriação) implica em diferentes formas de valorização correspondendo aos avanços das forças produtivas da sociedade. Fixação implica em efetiva produção do espaço com acumulação "m situ". Segundo o autor, o excedente de trabalho de sucessivas gerações, sociedades e modos de produção, incorporam-se sucessivamente ao solo; significando o que SANTOS (1986) chama de "herança espacial".
Para MORAES (1999), a apropriação, fixação e acumulação de trabalho ao espaço, estão na origem do processo de constituição dos territórios e sua materialização dos limites de fixação com formas complexas de organização, sendo o Estado a sua institucionalização e promotor de expansão. No momento seguinte da valorização do espaço e consequentemente, na maioria das vezes, à sua expansão, acontecem várias implicações decorrentes e inerentes às sociedades e territórios em questão, sendo que cada um desses processos acontece como história territorial distinta.
O movimento de expansão acontece, decorrente de um processo de concentração, ou seja, a concentração de população, trabalho e recursos que é a condição geral e fundamental para a expansão. Já a concentração está na origem do comércio e dos mercados, da acumulação de capital, com a intensificação de fluxos e também do domínio privado dos meios de produção, gerando com isso a expansão e concentração, fundamentos do desenvolvimento do capitalismo. MORAES (1999), ressalta sobre a forma de valorização intensa do espaço, que é a cidade, o espaço urbano, com uma gigantesca soma de tempos de trabalho aplicados num mesmo lugar; sendo a metrópole o seu caso de exacerbação.
Existem duas qualidades específicas da valorização do espaço: a perenização e a transitoriedade do valor. As relações da sociedade e espaço envolvem sempre uma certa capacidade de geração de excedente que pode ou não ser incorporado ao espaço, o espaço construído então pode vir a se confundir com o próprio espaço de produção. O espaço pode receber um dinamismo, de certa forma contraditório, de incorporação de valor, tal como, certas condições que tornam possíveis certas formas predatórias de valorização. A dilapidação do patrimônio natural sem a devida incorporação de valor (trabalho) ao espaço ilustra o processo, como é o caso de uma mineração.
A relação perenização/transitoriedade nos remete à dialética, valor do espaço- valor no espaço, recompondo a circularidade do processo. A perenização está na intensificação da criação de valor no espaço. A compreensão da relação espaço-sociedade, entendida como processo de valorização do espaço, não considerando as questões relativas à valorização subjetiva do espaço. As ideologias espaciais são articuladas com as formas materiais de valorização do espaço.
A guisa de conclusão, podemos afirmar perante o que foi examinado, que os processos sociais produzindo forma, movimento e conteúdo sobre o espaço urbano, origina a organização espacial da cidade, com o consequente processo de valorização do espaço. E um movimento permanente e contraditório, quando negando o espaço, o destroi e sucessivamente o reconstroi, fragmenta-o tornando desigual, concomitante articula-se dentro de suas próprias contradições.
CATAGUASES
As informações necessárias à materialização dos objetivos do presente estudo foram levantadas durante o que chamamos de fase compilatória, quando fontes secundárias disponíveis foram consultadas sobre dados e fatos ocorridos entre 1920 e 1949. Partiu-se, então, para a fase investigatória, quando foram utilizadas fontes primárias, através de entrevistas com um grupo de informantes-chave do processo; selecionados com base em conhecimento informal; da capacidade de julgamento, conhecimento e discernimento sobre o processo ocorrido na cidade. Para a entrevista, utilizamos um roteiro investigativo, que, aplicado teve como objetivo principal, conhecer e inteirar-se junto ao grupo selecionado, suas opiniões e valores a respeito do tema proposto. O resultado das entrevistas serviu para a análise e organização dos resultados e considerações finais, compondo assim um mosaico, onde se verificaram unanimidades e eventualmente diferenças de pensamento, servindo à consecução da análise.
Cataguases é um município da Zona da Mata no Estado de Minas Gerais, localizado na Depressão do Paraíba do Sul, às margens do Rio Pomba, a 167 metros de altitude com as coordenadas geográficas de longitude de 42º41'30"W e latitude de 21º23' 10" S. 42º41'30" W e latitude de 21º23'10" S, ocupando 483,60 Km2 da região Sudeste do Estado, limitando se ao Norte com Guidoval e Mirai; a Leste com Santana de Cataguases e Laranjal; ao Sul com Leopoldina e a Oeste com Itamarati de Minas e Dona Euzébia (Figura 1).
Por volta de 1813 chegaria à Zona da Mata o francês Guido Tomaz Marliêre, que mais tarde ganharia reconhecimento por sua disciplina e seus princípios de defesa da civilização indígena. Em 1828, Marliàre chegou ao lugar chamado Porto dos Diamantes, onde havia um arraial de brasileiros, além dos índios Coroados, Coropós e Puris. Sob o orago de Santa Rita de Cássia. Marliàre aceitou os terrenos doados pelo Sargento de Ordenanças Henrique de Azevedo, onde traçou os limites e fundou a povoação, determinando ainda um traçado que serviria de plano pioneiro para a ocupação do terraço e fundou a povoação, que tornou-se o Arraial do Meia-Pataca, por causa da meia pataca de ouro encontrada em um ribeirão.
A cidade, por ocupar um fundo de vale, estabeleceu sua ocupação urbana preferencialmente pelas áreas mais planas, ocasionalmente com pequenas elevações. Esta zona de terraço dos dois principais cursos d'água que cortam a cidade, por não oferecer obstáculos, facilitou sobremaneira a ocupação central da cidade, destacando-se a elevação onde estão localizadas as principais praças. Com exceção da área central, e, ainda sem o necessário planejamento urbano, as demais edificações dos núcleos urbanos seguiam um modelo de agrupamento linear, delineado ao redor de alguma colina, porquanto o relevo é bastante movimentado, contrastando com a baixada aluvial, com morros a um nível de 350 a 400 metros.
O arraial, atual Cataguases, num efeito de transmigração de espaço, recebeu colonos oriundos da região mineradora, ora esgotada, e estabeleceu ligações familiares importantes, entre os Vieira de Resende, os Dutra, os Junqueira, os Ferreira, dentre outros. Esses passam a dominar a economia local, através da lavoura cafeeira, como forma de recuperação da decadência mineradora. Posteriormente, novos migrantes aportam ao local em função daquela economia. Em 1877 chegavam os trilhos da Estrada de Ferro Leopoldina, que, como meio de comunicação eficiente, servia não só ao transporte, mas também como ponto de encontro. Imediatamente o café permitiu o enriquecimento de alguns grupos, simultaneamente criando um proletariado urbano, concorrendo para estruturar as classes sociais.
CONSIDERAÇÕES SOBRE OS ASPECTOS HISTÓRICOS
Baseado em nossa averiguação, é consenso que a economia cataguasense tem seu princípio sustentada pela lavoura cafeeira, fundamental ao processo ora em discussão. Entretanto, as opiniões divergem quanto ao melhor momento econômico que a cidade atravessou no período em questão, seja pela distensão temporal ou pela própria ausência de dados em que se apoiar. Curiosamente, o relato nos aponta para um quadro cronológico iniciado com uma colônia portuguesa na cidade, dominando toda a economia e assumindo o comando político cataguasense, quando, segundo depoimento, cerca de duzentos portugueses chegam a estabelecer um consulado em Cataguases.
Antecipando-se ao Relatório de Carlos Prates, de 1906, que prenunciava a crise cafeeira, instala-se na cidade em 1905 a primeira fábrica de tecidos, a Companhia de Fiação e Tecidos de Cataguases. No ano seguinte, 1906, instala-se a primeira usina de energia hidroelétrica da região, em terras do atual município de Itamarati de Minas. A instalação da Companhia Força e Luz Cataguases Leopoldina, seria outra iniciativa fundamental para a reorganização da economia, financiada com recursos locais. A energia hidroelétrica, antes que um luxo para a época, seria de notável utilização para o desenvolvimento de diversas atividades e, principalmente, para o crescimento urbano.
O empresariado cataguasense, alavancado pela economia cafeeira, conseguiu de forma eficiente redirecionar o capital acumulado para a indústria, iniciando uma passagem para o modo de vida urbano, isso ocorrendo desde a primeira década do século XX, com ênfase na segunda década, quando o café dava sinais de declínio produtivo. Cataguases empreendia assim uma ação urbana bastante vigorosa, com a implementação na década de 30 de nova unidade fabril, inclusive, com a ocupação da margem sul do Rio Pomba havendo portanto, um deslocamento da ocupação do espaço e sua consequente urbanização.
Simultaneamente, as atividades camponesas estavam em crise, fazendo com que boa parte da população rural demandasse o emprego nas fábricas da cidade, incrementando seu grau de urbanização. Ainda que estivessem afastados da educação escolar, que não dispunha de horários ou programas especiais que os favorecesse, essa população industriária, por outro lado, contava com as vilas operárias construídas por ideia de Francisco Inácio Peixoto.
Culturalmente Cataguases pode experimentar, no período estudado, dois momentos profícuos, sendo de certa forma a década de 40, resultado da década de 20, considerados determinados aspectos do processo. Há consenso em afirmar que a década de 20 é a mola propulsora dos demais movimentos, todavia o processo é amplo. Ainda em 1923, o cinema protagonizado por Humberto Mauro, encontrou em Cataguases, as condições que deram suporte ao pioneiro do cinema nacional, contemporâneo do movimento literário. O surgimento do cinema contribui com mais um vetor na construção do processo que transformaria Cataguases no exemplo atípico de uma cidade, marca indelével no cenário cultural brasileiro. O cinema foi meio eficiente, vez que provocou a busca por espaços e produziu.
Naquela década, acontecia em São Paulo, uma das maiores manifestações culturais do país: a Semana da Arte Moderna, em 1922. Partícipe ao evento, em 1927, funda-se em Cataguases um grupo literário modernista denominado, "Grupo Verde". Esse movimento conseguiu fazer história e perpetuar-se no meio cultural brasileiro, mantendo vínculo com grupos semelhantes da ex-capital federal, Rio de Janeiro, e de Belo Horizonte. Em 1929, após o sexto número, a revista "Verde" morreu junto com seu poeta maior, Ascânio Lopes. Tal movimento não teria sido possível sem que houvesse um arcabouço, não só que o financiasse, mas também pelo fato de que havia condições intelectuais para tal.
Aqueles "ases", como Mário de Andrade os chamou, fizeram sua parte e deram projeção ao nome de Cataguases, mas em seguida dispersaram-se pelo país: Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre. Contudo as ideias permaneceram, sendo mais tarde reconstituídas sob novas denominações e espaços renovados. Francisco Inácio Peixoto determinado a tornar-se um diplomata, cedeu ao apelo da família, voltou para cuidar dos negócios e fez muito mais. Foi o agente da transformação de Cataguases, que na década de 40 atingiu sua melhor conformação, concluindo aquele processo iniciado na década de 20, principalmente com a criação do Colégio Cataguases, que se tornou o marco divisor entre duas épocas.
Os depoimentos são unânimes, o Colégio Cataguases foi o grande exemplo da arquitetura modernista que definitivamente aportou na cidade. Cataguases incorpora ao seu espaço o risco do arquiteto Oscar Niemeyer, posteriormente transformado em símbolo da arquitetura moderna. Francisco Inácio Peixoto, não por acaso tivesse participado do movimento de 1927, em 1943, convida Niemeyer a projetar sua casa, bem como a outros nomes consagrados para elaborar projetos de mobiliário e paisagismo. Simultaneamente lhe encomenda o projeto para o Colégio Cataguases, que havia adquirido no ano anterior, concluído em 1948, representando o estilo que se perpetuaria na cidade. Neste mesmo colégio, construído no alto de uma colina em meio a densa vegetação, Portinari deixará seu traço e suas cores, com a fantástica obra do mural da Inconfidência Mineira, assim como a escultura de Jan Zach. Principalmente o Colégio trouxe à cidade o gabarito e a qualificação de diversos profissionais do ensino, alunos de outras cidades do país, filhos de pessoas importantes. Essa interação também atraiu elites, trouxe nova mentalidade, tornando Cataguases importante em termos educacionais, causando com isso uma projeção do colégio e da cidade no cenário nacional.
Tal empreendimento partiu da visão cultural de Francisco Peixoto, um literato que influenciou muito mais nas artes plásticas e na arquitetura, do que na literatura, que através de seu conhecimento, convencimento e disponibilidade financeira, conseguiu convergir essas ações em um investimento fabuloso. Não foi mecenato, nem patrocínio; houve um investimento em um acervo fantástico, permitindo, contudo, que a cidade também se beneficiasse dessas ações, visto que tornou-se possuidora de um patrimônio que notabilizado, multiplicou-se pela influência de tais ações, tornando-a um pólo cultural e fazendo com que a cidade passasse a ter um acervo público, uma arte exposta e aberta, influindo diretamente no arranjo urbano, para o qual a arquitetura foi fundamental, porquanto buscava-se a funcionalidade dentro dos padrões modernistas da época.
Segundo depoimento, o modernismo veio para chocar. Foi um choque essa passagem para o modernismo e pode desnudar-se sob a forma arquitetônica de forma irreversível. Entretanto a digestão foi lenta, pois o primeiro choque cultural aconteceu na década de 20; somente duas décadas mais tarde, nos anos 40, aconteceria a consecução dessa passagem. Todavia, esse gosto pelo moderno torna-se também voraz e elimina alguns elementos importantes do patrimônio arquitetônico cataguasense, como o Teatro Recreio. De estilo maneirista italiano foi construído em 1895, tendo sido demolido em 1947, cedendo lugar ao moderno edifício que abriga o atual Cine Teatro Edgar. Tal fato, mais tarde, e segundo depoimento, traria arrependimento a Francisco Inácio Peixoto.
Se a década de 1920 é fundamental, a de 1940 é por sua vez decisiva, na conformação do rico patrimônio que Cataguases construiu, graças aos investimentos realizados pelos principais agentes do processo, o modernismo instala-se definitivamente na cidade. São engolidos os modelos antigos, os espaços são reocupados, doravante por soluções que contemplem a praticidade do moderno, na construção de um conjunto de formas materiais articuladas sobre o mesmo. Portanto, trata-se então que o espaço urbano é um reflexo provocado pelas sociedades e, como as mesmas, para reproduzirem as condições de sua existência, estabelecem relações vitais com seu espaço, tornando-se força produtiva e, aliada aos meios por ela mesma criados, é o agente da transformação do espaço.
CORRÊA (2001), considera a cidade a expressão concreta dos processos sociais na forma de um ambiente físico, construído sobre o espaço geográfico. Contudo, para que os processos sociais possam aplicar e produzir forma, movimento e conteúdo sobre o espaço geográfico, eventualmente urbano, a qualquer tempo é preciso que se sirva de algum vetor. No caso específico, a economia foi imprescindível no primeiro momento, para lhe dar organização citadina e interações próprias da sociedade, como o fluxo de capital, migrações e outros.
Alavancados pela economia cafeeira, redirecionaram o capital para a indústria, isso ocorrendo desde a primeira década do século XX, com ênfase na segunda década, quando o café dava sinais de declínio produtivo. Num segundo momento, houve a criação da segunda fábrica de tecidos, a Companhia Industrial Cataguases, da cidade, na década de 30 com finalização na década seguinte e a criação da terceira fábrica de tecidos, a Companhia Manufatora de Tecidos de Algodão. Percebe-se aí traços da inquietação que se tornaria uma das características marcantes da sociedade cataguasense, ou seja, ser diferente, reorganizar sua economia, fugir da crise, redirecionar seu capital, tornar-se vanguarda, o que, com certeza constituir-se-ia a base de todo um processo cultural. A década de 40 foi com certeza o coroamento do processo em andamento. Contando com três grandes unidades industriais, especializando-se no ramo dos tecidos, Cataguases recebeu, por essa época, o elemento que a tornou definitivamente contrastante das demais cidades, a criação do Colégio Cataguases, que tornou-se o marco divisor entre duas épocas.
A população, mesmo alijada de boa parte do processo, via naquele movimento algo de grande que acontecia na cidade, traziam consigo um certo sentimento de orgulho e, segundo os depoimentos, Cataguases era uma das cidades mais limpas que se tinha notícia. Os depoimentos enfatizam as repercussões positivas de todo esse processo, e, por outro lado, não são unânimes em ressaltar sobre os aspectos negativos durante o período em questão; as querelas políticas entre as duas principais correntes, foi capaz de desunir e prejudicar a cidade com perdas inclusive sobre o quadro social. Com exceção do operariado que recebia assistência das grandes indústrias, o restante da população de classe baixa permanecia alijada do todo e qualquer processo, encontrando amparo apenas nas obras sociais religiosas.
Na última década do século XX, Cataguases voltou a experimentar novos rearranjos em seu espaço urbano. Por iniciativa de alguns setores privados e com o apoio das leis de incentivo fiscal, alguns espaços culturais foram criados e outros recuperados, permitindo neste segmento uma nova política para a cidade. O complexo cultural atual repete de certa forma o processo modernista de engolir o passado, regurgitando-o como nova forma de expressão. Cataguases tem-se primado por reestruturar sua ocupação espacial, transformando espaços, antes econômicos, em atuais centros catalisadores e difusores de cultura.
ANÁLISE DOS ASPECTOS GEOGRÁFICOS
Os aspectos descritos anteriormente tornaram Cataguases uma cidade diferente, com excelente traçado urbano e rica arquitetura. Curiosamente o primeiro plano urbano para Cataguases, foi feito em 1828, pelo fundador da cidade o francês Guido Marliêre. A preocupação do fundador era de que aquele terraço de forma trilateral, abrangendo de um lado a margem norte do Rio Pomba, de outro o curso do Ribeirão Meia Pataca e por outro uma colina, atualmente lindeira à via férrea, não sofresse uma ocupação desordenada.
Esta zona de terraço dos dois principais cursos d'água que cortam a cidade, por não oferecer obstáculos, facilitou sobremaneira a ocupação central da cidade, destacando-se a elevação onde estão localizadas as principais praças. Todavia, parte dessa área constituindo uma cavidade, principalmente próxima ao curso do Ribeirão Meia Pataca, fosse eventualmente ameaçado por enchentes causadas pelas cheias do Rio Pomba.
Desde sua fundação até o final da década de 1920, na área compreendida pela Praça da Estação e suas adjacências, estabelecia-se o grosso da economia local. Primeiramente com a construção da Estação ferroviária da Estrada de Ferro Leopoldina em 1877, a seguir com o entroncamento da Estrada de Ferro Cataguases, para o escoamento da produção de café, estabelecendo ligação com os atuais municípios de Santana de Cataguases e Miraí, sendo o último, grande cafeicultor. Não por acaso, a primeira indústria de tecidos de Cataguases, a Companhia de Fiação e Tecidos Cataguases, mais tarde, Indústria Irmãos Peixoto, estabelece-se a poucos metros da Estação.
Foi realmente um complexo naquela área da cidade, com a instalação de hoteis, armazéns atacadistas, escritórios para exportação, além de um sem número de atividades ancilares ao processo ora em funcionamento. Ali também existia vida social, pois a estação ferroviária, como meio de comunicação, servia não só ao transporte, mas, também como ponto de encontro; haviam os embarques e desembarques de mercadorias e pessoas.
Tudo isso articulando um espaço que num movimento ganha unidade e origina um conjunto, realizando a gestão das atividades, cujo foco é a centralização dos meios. CORRÊA (2001) ressalta com propriedade, que essas relações espaciais são de natureza social, tendo como matriz a própria sociedade de classes e seus processos.
Tendo em vista o declínio da lavoura cafeeira aliado à instalação de novas unidades industriais na década de 30, a cidade ainda pequena experimentou um certo incremento populacional devido às migrações do campo para a cidade, que foi uma fase de transição das transformações ocorridas na cidade. Cataguases empreendia assim uma ação urbana bastante vigorosa, simultaneamente às atividades camponesas em crise, fazendo com que boa parte da população rural demandasse o emprego nas fábricas da cidade, aumentando ainda mais a massa trabalhadora urbana, consequentemente ampliando e modificando o espaço urbano, o que se tornou reflexo também nas condições de ocupação e concepções arquitetônicas da cidade.
Destacando as palavras de SANTOS (apud MORAES, 1999): "Produzir é produzir espaço percebe-se que à medida que cresce a economia cataguasense, consequentemente a oferta de empregos, cresce também a demanda por novos espaços, é a sua produção. Aí está o que MORAES (1999) chama de “nódulo explicativo” a relação sociedade/espaço é a relação do valor espaço substantivada pelo trabalho humano, portanto a apropriação, construção, perenização e as modificações no espaço, representam criação de valor dentro do espaço e no arranjo urbano.
Concebido seu primeiro traço, na década de 1920, a arquitetura da década de 1940 daquele século, veio incorporar e através do modernismo ditar o rearranjo do espaço urbano de Cataguases. Novas soluções de ocupação do espaço foram adotadas, com ênfase a largas avenidas de penetração, bem como a ocupação das encostas de maneira ordenada utilizando-se das isolinhas. Concomitante muito se construiu; hotel, colégio, praças, igreja, casas de família, mesmo aquelas mais simples adotavam soluções arquitetônicas modernistas.
O viés da industrialização adotado pelos empresários cataguasenses é que naturalmente permitiu que tal movimento pudesse ser levado a cabo. Note-se que seu principal agente pertencia à família dos grandes industriais da tecelagem, e que utilizaram-se do movimento modernista, segundo depoimento, além de seu aspecto cultural, como investimento, visando um retorno e construindo magnífico acervo. Dessa forma, após ciclo econômico da cafeicultura, a industrialização permitiu também e, principalmente, que Cataguases pudesse alavancar sua economia dando maior impulso ao arranjo urbano. Ela foi fundamental no processo urbano da cidade, pois produzindo mais depressa, permitia que o resultado também fosse mais rápido, mais eficiente, mais moderno.
Ainda que o trabalhador urbano, das indústrias, tivesse seus percalços; trabalhava protegido do sol e da chuva e podia contar com o resultado certo, facilitando inclusive uma vida econômica e social melhor, ao contrário do homem do campo que exposto às intempéries, nem sempre contava com o resultado esperado, tendo em vista inclusive que o solo da região, pela distrofia e sem os recursos atualmente empregados, não se notabilizava por boa produtividade. Por outro lado, o cidadão passa a pensar também diferente, mais rápido. Passa a reclamar e a exigir soluções de atendimento citadino, quer ruas calçadas, quer rede de esgoto, quer água canalizada, quer escolas, quer lazer etc., posturas surgidas da própria industrialização.
A década de 30 foi marcada pela instalação da Companhia Industrial Cataguases, outra fábrica de tecidos que se estabelecerá na margem sul do Rio Pomba. Há, portanto, todo um deslocamento da ocupação do espaço, urbanizando o outro lado do rio, catalisando assim todo um processo que se empreende na urbanização do local e adjacências. Assim, partindo do princípio que a instalação daquela nova unidade buscou um espaço fragmentado do centro, todavia, como medida planejada, demandando um espaço que lhe permitisse trabalhar em outra escala, sua articulação com os demais meios urbanos não ficaria prejudicada.
Temos, portanto, nova apropriação de espaço, produzindo e incorporando-o de valor, num período que o processo social cataguasense busca transformações também na forma de apropriação e construção do espaço. A arquitetura da nova indústria denuncia esse rompimento com o modelo do passado, buscando soluções eficientes que garantam solidez e funcionalidade ao empreendimento. São linhas retas ocupando racionalmente todo o espaço disponível.
A industrialização em Cataguases no período em questão fez mais, construiu casas para seus operários, bairros e vilas operárias surgiram nesse período. Começando com a Indústria Irmãos Peixoto, antiga Indústria de Fiação e Tecelagem de Cataguases, a Vila Peixoto instalada nos fundos da indústria foi o primeiro espaço a ser ocupado por uma categoria. Nota-se entretanto a preocupação também em construir casas menos modestas para funcionários mais categorizados, os mestres e contramestres da indústria. De qualquer forma, categorizando ou não, tal ação foi providencial ao arranjo urbano, pois evitou uma ocupação desorganizada, onde seria mais difícil a prestação dos serviços urbanos, ou, simplesmente ela tardaria a acontecer, a depender do serviço público.
A vila construída, embora com moradias simples, mas de boa qualidade, serviu não só aos operários, mas também a uma articulação do espaço, porquanto mantinha os operários próximos à indústria, o que seria em primeira análise a garantia de tê-lo sempre perto do trabalho e aos olhos dos encarregados. Assim, o espaço urbano das vilas articulava-se diretamente ao espaço das indústrias. Quando da inauguração do segundo bairro industrial da cidade, na margem sul do rio Pomba, concomitante, inaugurando uma nova forma de ocupação, logo acima da instalação da nova indústria, é construído o novo bairro operário. Disposto segundo as curvas de nível, inova-se, portanto, na construção; por ser uma encosta, utiliza-se de técnicas de terraplenagem, contrastando ao modo de ocupação dos terraços aluviais.
De pronto estará confirmada a desigualdade com que se faz a ocupação do espaço, repetindo SANTOS (1979) quando comenta que o valor do espaço dependerá de níveis qualitativos e quantitativos. Repete-se, portanto, determinado historicamente o processo de ocupação do espaço, segundo o ponto de vista do sujeito que é o agente do processo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pelos levantamentos realizados e consequente análise do conjunto do material, depreende-se a condição de Cataguases como um município eminentemente rural, como todos os demais da época, dependente única e exclusivamente da produção agrícola para construir e manter sua estrutura citadina. Assim, através do processo social instaurado, Cataguases conseguiu de forma eficiente, redirecionar seu capital acumulado, iniciando uma passagem para o modo de vida urbano propriamente dito, já no início do século XX. Essa passagem, mesmo que possa ter sofrido algum revés, próprio de qualquer processo, não refluiu, alcançando plenamente seu objetivo e permitindo a Cataguases, tornar-se "sui generis" dentre as demais cidades de seu entorno, uma de suas principais características.
O período em questão, a saber, compreendendo as décadas de 20, 30 e 40 do século XX, foi extremamente fecundo de acontecimentos marcantes sob vários aspectos. Um período entre as duas principais guerras declaradas do século XX, a Semana da Arte Moderna/SP em 1922, o colapso da economia norte-americana em 1929, a Revolução de 1930 e a instauração do Estado Novo no Brasil, a reformulação dos direitos políticos e a consolidação trabalhista brasileira, dentre outros.
Cataguases alavancou sua economia com base na lavoura cafeeira, redirecionando seus investimentos para a industrialização, o que a tornou eminentemente urbana, sedimentando esse aspecto na década de trinta, quando investe na implantação de novas e maiores unidades industriais.
Mas, em meio a toda inquietação do período, isso só não tornaria Cataguases diferente, mas sim, o movimento intelectual modernista, conjugado ao evento do cinema de Humberto Mauro, na década de 20, foi fundamental à questão epígrafe; o levantamento e desenvolvimento do trabalho, baseado nos depoimentos coletados, vem nos confirmar tal fato. Mas, se na década de 20 esse movimento cultural foi fundamental, os depoimentos apontam e confirmam a década de 40 como o coroamento e marco divisor de Cataguases no seu arranjo urbano.
O complexo que se estabelece com arcabouço na economia industrial, aliada a este pano de fundo do movimento cultural modernista foi então essencial para a concepção do arranjo urbano de Cataguases, notabilizando-o pela arquitetura.
Portanto, graças aos investimentos realizados pelos principais agentes do processo, o modernismo instala-se definitivamente na cidade. São engolidos os modelos antigos, os espaços são reocupados, doravante por soluções que contemplem a praticidade do moderno. Se a década de 20 é fundamental, a de 40 é por sua vez decisiva, na conformação do rico patrimônio que Cataguases construiu, seja ele literário, artístico ou arquitetônico.
Na última década do século XX, Cataguases voltou a experimentar novos rearranjos em seu espaço urbano. Sua malha foi modificada, permitindo novos acessos, espaços e naturalmente novos impactos na economia do município e sua sociedade.
Graças à iniciativa de alguns setores privados e, a partir de leis de incentivo fiscal, alguns espaços culturais foram criados e outros recuperados, permitindo neste segmento uma nova política para a cidade. Aquele espaço que era econômico, transformou-se e passou a produzir cultura.
Graças à iniciativa de alguns setores privados e, a partir de leis de incentivo fiscal, alguns espaços culturais foram criados e outros recuperados, permitindo neste segmento uma nova política para a cidade. Aquele espaço que era econômico, transformou-se e passou a produzir cultura.
Tais instituições assumem e aparecem como fonnas robustas, que oferecem a parte da população, a oportunidade de participar e de tornar a florescer sua verve criativa, reacendendo aquele velho poder de inquietação que, aliado às condições econômicas da atualidade, permitem que a população de maneira geral passe a frequentar os espaços culturais oferecidos.
Tal processo de valorização, pelo viés que lhe é próprio, demonstra seu reflexo em parcelas cada vez maiores da população, que participam dessa soma de tempos de trabalho, quantitativa ou qualitativamente incorporando-o ao espaço, perenizado para sua consequente valorização.
O complexo cultural atual repete de certa forma o processo modernista de engolir o passado, regurgitando-o como nova forma de expressão. Cataguases tem-se primado por reestruturar sua ocupação espacial, transformando espaços, antes econômicos, em atuais centros catalisadores e difusores de cultura.
Talvez o momento escolhido para a realização deste trabalho, tenha sido a ideal, pelo fato de estar acontecendo uma revitalização da cultura, bem como do arranjo urbano da cidade. Pensamos que se tal levantamento tivesse sido feito na década de 80, o entusiasmo das respostas dos entrevistados, não seria o mesmo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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- CORRÊA, Roberto Lobato. Trajetórias Geográficas. 2a ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 2001.
- ESTRADA, Maria Lúcia. O processo de produção do espaço urbano-industrial: um exercício teórico-metodológico. In: SANTOS, M.; SOUZA, MA. de. A Construção do Espaço. São Paulo: Nobel, 1986.
- MORAES, A.C.R.; COSTA, W.M. da. Geografia Crítica - A Valorização do Espaço. 4a ed. São Paulo: Hucitec, 1999.
- SANTOS, M.; SOUZA, MA. de. A Construção do Espaço. São Paulo: Nobel, 1986.
- SANTOS, Milton. Sociedade e espaço: a formação social como teoria e método. In: SANTOS, Milton. Espaço e Sociedade. Petrópolis, RJ: Vozes, 1979.


