Open-access ENSINO DE GEOGRAFIA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL: DESAFIOS DA PRÁXIS COTIDIANA

GEOGRAPHY TEACHING AND ENVIRONMENT EDUCATION: CHALLENGES TO OUR LIVES

RESUMO

Somos fruto de uma cultura que tem como mito de desenvolvimento o crescimento ininterrupto e ilimitado. Vivemos uma crise, mas não somente de caráter econômico, social ou moral e ela não se restringe a um país ou a uma determinada classe social. Encontramo-nos diante de um desafio, o de saber decidir e discernir, o de superar de modo criativo esse momento para que possamos alcançar um novo patamar de pensamento e ação, uma outra maneira de experienciar o mundo. A escola tem importância primordial, pois a sociedade requer indivíduos com capacidade de intervenção na realidade global e complexa. Teremos que adequar a educação, em seu conjunto, aos princípios do paradigma da complexidade, pois o procedimento analítico fundamentou por mais de século todo o ensino. Com uma visão mais abrangente, o todo é além da soma das partes.O conhecimento das partes não é suficiente para conhecer o todo e o conhecimento do todo, não pode ser isolado do conhecimento das partes. A tarefa da Geografia juntamente com Educação Ambiental perpassa pela necessidade urgente da tomada de consciência, pois somos componentes de uma mesma comunidade, desde o organismo mais simples ao mais complexo.

Palavras chave:
Educação; meio ambiente; desenvolvimento; Geografia

ABSTRACT

The culture of human beings has a myth: the development of the growth in a way that it is continuous and unlimited. The crises that is presented in the type of life men take part, but not only the economical, social or moral aspect and this crisis isn’t related to a single country or to a certain social class. It is presented to the world the knowledge of the challenging which relate to decision and distinction in order to overcome, using creativity this moment to become reality a new type of thinking and action, a new way of facing the world. The school has fundamental importance, since the society requires people able to make interventions in the global and complex reality. It is necessary to adequate the education in its group the origin of the paradigm of the complexity, so the analytical process were used as basis for more than a century in the teaching. With the vision more wide, everything is beyond its amount of parts. Knowledge the part is not enough knowing everything and the knowledge of it, can not be isolated of the knowledge of the parts. Men are members of the same community.

Keywords:
Education; environment; development; Geography

INTRODUÇÃO

Cabe à Geografia apropriar-se do seu papel, estudo do homem, do meio e das relações estabelecidas no espaço geográfico, para evidenciar a importância de cada indivíduo no contexto social em que está inserido. Assim, poderemos formar cidadãos conscientes e capazes de atuar no presente e ajudar a construir o futuro, pois exercer a cidadania é ter o sentimento de pertencer a uma realidade em que as relações entre a sociedade e natureza formam um todo integrado, do qual fazemos parte. Portanto, precisamos nos perceber como participantes, responsáveis e comprometidos historicamente com os valores humanísticos.

Infelizmente, a Geografia durante um longo período teve como objetivo a descrição e a localização dos lugares. Somente a partir do século XIX, as perguntas do tipo: onde? e o quê?, ou seja, a localização e a descrição deixaram de ser tarefas essenciais dos geógrafos que se concentraram na busca dos princípios gerais para explicar a organização do espaço e das sociedades. Enfim, os aspectos humanos passaram a ser tema de interesse para a ciência geográfica.

No momento presente, a Geografia, devido a sua dimensão investigadora, tem um forte desenvolvimento e uma grande pluralidade de campos. Ela constitui uma matéria básica dentro do sistema educativo, pois a dimensão espacial dos processos socioeconômicos é a contribuição que a Geografia outorga à formação da cidadania.

Ora, o desafio da ciência geográfica é conseguir atuar como mediadora e esclarecedora para despertar na sociedade, por meio da prática educativa, a sensibilização para a preservação da natureza e sua utilização com responsabilidade, pois trata-se de uma comunidade planetária. Nesse sentido, o Ensino de Geografia contribuirá para que o educando compreenda que a sociedade se fundamenta na construção do social sobre o natural. A Geografia deve assumir ativamente o seu papel é oferecer à sociedade todo o seu potencial, objetivando integrar os seres humanos e a natureza para utilização dos recursos de forma democrática, numa dinâmica que se revele sustentável, que permita aos homens de hoje satisfazer suas necessidades sem comprometer as gerações futuras.

Por meio de um trabalho interdisciplinar, a Geografia contribuirá para estimular um trabalho pedagógico de transformar a realidade, bem como desenvolver um saber geográfico a partir de um processo em que possa efetivamente construir uma outra visão de mundo, objetivando a construção da cidadania, de modo que o educando possa compreender o espaço em que vive, ou seja, em âmbito local e global, com o intuito de contribuir para a construção de um novo paradigma.

A educação ambiental deve ser enfocada pelo ensino da Geografia e também pelas demais ciências como algo a ser pensado e trabalhado para que as gerações futuras venham a ter condições de sobreviver, utilizando os recursos da natureza. Por isso, Reigota (1995, p. 10) defende que:

a educação ambiental é uma proposta que altera profundamente a educação como a conhecemos, não sendo necessariamente uma prática pedagógica voltada para a transmissão de conhecimentos sobre ecologia. Trata-se de uma educação que visa não só à utilização racional dos recursos naturais (...), mas basicamente à participação dos cidadãos nas discussões e decisões sobre a questão ambiental.

A Geografia constitui, portanto, um conhecimento que a ser utilizado como instrumento de ação, reflexão e de um saber pensar o espaço. Para Lacoste (1988), a razão de ser dessa ciência é melhor compreender o mundo para transformá-lo. Ela deve deixar de ser simplesmente a ciência dos dirigentes e das elites, e efetivamente, passar a ser uma ciência a serviço da humanidade para garantir a vida no planeta, confirmando-se, assim, a sua razão de ser, que é a de tomar conhecimento da complexidade das configurações do espaço terrestre. Assim, os indivíduos conhecerão o seu meio ambiente e sentirão-se responsáveis por ele. O compromisso de cada um dos habitantes do planeta Terra é essencial e insubstituível para a implementação das mudanças urgentes e necessárias que o momento exige. Essa é a contribuição deste artigo: refletir sobre o papel da Geografia e sua interface com a educação ambiental a fim de revermos a crise ambiental pela qual passamos, fruto de valores impostos pelo paradigma vigente.

1 - O MEIO AMBIENTE, A EDUCAÇÃO AMBIENTAL E O ENSINO DE GEOGRAFIA

O meio ambiente e suas sérias implicações são objetos de estudo da Educação Ambiental, cabe à Geografia tratá-lo de modo interdisciplinar e conduzir os educandos à construção do conhecimento complexo, superando assim a compartimentação herdada pelo Positivismo. A manifestação dessa filiação positivista está na redução da realidade ao mundo dos sentidos, isto é, circunscreve-se o trabalho científico ao domínio da aparência dos fenômenos, e os estudos restringem-se aos aspectos do real, mensuráveis e palpáveis.

A Geografia Tradicional limitou-se à apreensão dos fatos referentes ao espaço descrevendo-os, enumerando-os como se cumprissem com a tarefa de um trabalho científico. Por esta razão, a Geografia tão almejada pelos geógrafos, na prática, sempre se restringiu aos compêndios enumerativos e exaustivos de triste memória para os estudantes.

Nessa concepção, ficou evidenciada a ideia da existência de um único método de interpretação, comum a todas as ciências, tanto para as humanas como para as naturais. O homem iria aparecer como um elemento a mais da paisagem, como um dado do lugar, como um fenômeno da superfície da Terra.

A Geografia é a única entre as ciências humanas a ter em conta os aspectos físicos do planeta (quadro natural). Aí surge a grande problemática epistemológica e metodológica desta ciência. Analisar os processos que se desenvolvem na natureza e na sociedade, individual e conjuntamente, é tarefa árdua e exige grande competência. Analisar ou trabalhar somente os fenômenos sociais, esquecendo-se do espaço físico sobre o qual eles se desenvolvem, é tão incompleto do ponto de vista geográfico, quanto analisar ou trabalhar o quadro físico de um lugar sem considerar as ações e relações humanas em seu contexto.

O empírico, valorizado pelo Positivismo, traduziu-se de diversas formas na Geografia, dentre as quais, os vários procedimentos como a observação, a classificação e a generalização. O problema era que não se questionavam tais procedimentos, e o pesquisador descrevia os fatos a priori tidos como objetivos. Era essa objetividade que deveria ser apreendida pelo geógrafo sob a forma da descrição.

O Positivismo analisava a sociedade a partir de um método de fora, que era o método das ciências naturais, separando o sujeito e objeto do conhecimento, e privilegiando os fatos. Na Geografia, a natureza passou a ocupar o lugar da sociedade, o que caracterizava a inversão da realidade (VLACH, 1991).

Por um longo período, a Geografia revestiu-se de neutralidade explicando apenas os aspectos físicos e o homem era visto de maneira separada, pois não era considerado como participante e responsável pelas ações. Enfim, a concepção positivista reforçava a ideia da existência de um único método de interpretação, comum a todas as ciências, tanto para as humanas como para as naturais. O homem só apareceria como um elemento a mais da paisagem, como um dado do lugar, como um fenômeno da superfície da Terra.

Fica evidente dessa maneira que a Geografia, nesse contexto, não respondia às exigências da sociedade, pois o seu o ponto de partida deveria ser a sociedade em que vivemos, ou seja, as relações sociais que os homens estabeleceram/estabelecem entre si e com a natureza.

Para a garantia de um ambiente saudável em nossa sociedade precisamos de uma educação que repense os valores que regem o agir humano em sua relação com a natureza. É preciso resgatar alguns valores que foram reprimidos ou até mesmo deixados de lado pela tradição dominante do racionalismo cartesiano.

O atual período técnico-científico da história da humanidade interfere para além do econômico na organização da sociedade, confere novos significados aos indivíduos e à vida social, produz novas formas de ver e sentir o espaço. As mudanças vivenciadas no contexto da sociedade globalizada têm influenciado o ensino de Geografia nas escolas, pois esta disciplina tem a preocupação de fornecer subsídios para que o aluno possa entender o mundo e inserir-se nele, e assim dar sentido ao seu dia-a-dia.

Novos valores e atitudes devem ser gerados. Precisamos assim, nunca é demais repetir, despertar em cada indivíduo o sentido de pertencer, participar e ser responsável na busca de respostas locais e globais para a crise que enfrentamos.

Uma das principais causas da degradação ambiental tem sido identificada no fato de vivermos sob a égide de uma ética antropocêntrica. No sistema de valores formado em consonância com essa ética, o Homem é o centro de todas as coisas. Tudo o mais no mundo existe unicamente em função dele. O Homem é o centro do mundo... (GRÜN, 1996, p. 23)

A grande tarefa da Geografia, ciência que estuda as relações dos homens entre si e com o meio ambiente, o que lhe traz um grande compromisso e responsabilidade, é devolver à sociedade respostas para a questão dos problemas sócio ambientais decorrentes da ação dos seres humanos em seu espaço de vivência. Disso decorre a exigência de sua interface com a educação ambiental, concebida como

“A Educação Ambiental é uma práxis educativa e social que tem por finalidade a construção de valores, conceitos, habilidades e atitudes que possibilitem o entendimento da realidade de vida e a atuação lúcida e responsável de atores sociais individuais e coletivos no ambiente. Nesse sentido, contribui para a tentativa de implementação de um padrão civilizacional e societário distinto do vigente, pautado numa nova ética da relação sociedade-natureza.” (LOUREIRO, 2002, p. 69)

Dessa maneira, o ensino de Geografia deve priorizar os momentos para análise da (re) organização espacial, bem como as transformações concretas e visíveis produzidas no meio ambiente, tais como crescimento acelerado, desorganizado das cidades, ampliação das fronteiras agrícolas, desmatamentos, enfim todas as modificações provocadas por uma sociedade. Essa proposta que tem como intuito trabalhar as categorias da Geografia e também partir da realidade do educando, prioriza o seu espaço de vivência, o que consequentemente dará significado ao seu dia a dia e até mesmo levando-o a pensar globalmente e agir localmente.

Vale enfatizar a importância do papel da Educação Ambiental, que evidencia a sustentabilidade sob uma ótica crítica voltada para uma prática transformadora com o intuito de buscar uma sociedade calcada em novos paradigmas.

A educação ambiental perpassa por uma necessidade da sociedade atual, mas sua continuidade depende da pertinência das nossas respostas aos desafios que surgem nas escolas, nas florestas, nos sindicatos, nas empresas, nas universidades, nos museus, nas ruas etc., para que se torne intrínseca ao nosso dia-a-dia.

As causas da degradação ambiental e da crise na relação sociedade/natureza não se devem apenas pelo uso indevido dos recursos naturais do planeta, mas também, à nossa relação com o ato de produzir e consumir em alta escala. Nesse momento, estamos diante de situações como a necessidade da preservação da biodiversidade, conservação dos recursos naturais por meio de novas tecnologias e políticas compensatórias, tratados internacionais de cooperação e de compromissos multilaterais, ecoturismo, certificação verde de mercados alternativos, e também da superação da miséria, pobreza, uso de drogas, entre outras questões relacionadas à luta cotidiana pela sobrevivência e pela melhoria da qualidade de vida.

O desafio dos educadores e cidadãos é identificar como as questões globais que parecem distantes do nosso dia a dia nos atingem de uma forma ou de outra e como influir politicamente nesse processo. A grande tarefa é transpor para a sala de aula tais questionamentos, não se restringindo apenas à tomada de consciência, em uma cultura que prioriza o ter.

2 - DESAFIO: A CULTURA COMO BASE DE UMA SOCIEDADE PARA A FORMAÇÃO DE PESSOAS EMANCIPADAS

Os filósofos pré-socráticos pensavam o ser a partir da physis e chegaram a uma compreensão da totalidade do real: do cosmos, dos deuses e das coisas particulares, do homem e da verdade, do movi mento e da mudança, da justiça, da sabedoria, enfim procuravam ter uma visão holística.

A visão de mundo vigente é um prolongamento da influência dos séculos XVI e XVII e que está prestes a mudar. Até por volta de 1500, a visão de mundo predominante na Europa era de pessoas que viviam em comunidades pequenas e coesas e tinham uma relação com a natureza bastante harmoniosa que assentava-se na autoridade de Aristóteles e da Igreja que permaneceu inconstante até a Idade Média.

Baseava-se na razão e na fé, e sua principal finalidade era compreender o significado das coisas e não exercerá predição ou o controle. Os sistemas medievais, investigando os desígnios subjacentes nos vários fenômenos naturais, consideravam do mais alto significado as questões referentes à Deus, à alma humana e à ética. (CAPRA, 1982, p. 49)

Estamos diante de um grande desafio, é na natureza que encontramos a principal fonte de nossa sobrevivência, mas por outro lado, ao explorá-la sob o princípio imediato do lucro e do livre mercado estamos assim comprometendo as gerações futuras e a estabilidade dos ecossistemas. Nos deparamos com uma realidade que mostra evidências suficientes de deterioração ambiental consequência do desrespeito ecológico, econômico e político de uma sociedade.

A Cultura é um sistema integrado de valores, crenças e regras de conduta adquiridas pelo convívio social e que determina e delimita quais são os comportamentos aceitos por uma dada sociedade. O sistema de valores e crenças comuns criam uma identidade entre os membros da sociedade baseada na sensação de fazer parte de um grupo maior. Nas diversas culturas é possível perceber que as pessoas têm identidades diferentes porque esposam conjuntos diferentes de valores e crenças. Um só indivíduo pode pertencer a diversas culturas, seu comportamento é moldado e delimitado pela identidade cultural. A cultura se insere e permanece profundamente entranhada no modo de vida das pessoas e essa inserção tende a ser profunda que até se escapa à nossa consciência durante a maior parte do tempo (CAPRA, 2002).

O problema ambiental tem uma grande abrangência, pois vai além do local e trata-se de um fenômeno de deterioração da qualidade ambiental que vem se agravando numa escala cada vez maior, exigindo respostas imediatas e a tarefa da educação é reorientar as premissas do agir humano em sua relação com o meio ambiente. No entanto, não deveríamos estar diante de tal situação, pois desde o nosso nascimento até a morte vivemos em um ambiente. Mas, isto tem uma explicação, pois na educação moderna tudo acontece como se não existisse ambiente, ou melhor tudo acontece como se estivéssemos fora do ambiente. Essa situação pode muito bem ser explicada pelo enraizamento de nossa cultura, no nosso próprio modo de ser e estar no mundo. (GRÜN, 1996)

Infelizmente a modernidade alimenta a ilusão de um presente puro sem raízes históricas. A degradação ambiental é fruto de um conjunto de padrões culturais construídos.

Uma das principais características do meio ambiente diz respeito ao princípio e ao caráter interdisciplinar que a coloca como uma ciência integradora das demais ciências, quando sua principal preocupação é a qualidade de vida do cidadão. É o que realmente importa para uma sociedade estável e pacífica. O mundo científico busca uma consolidação integrada através da ciência do meio ambiente, onde cada ciência individual tem uma importante contribuição para o aprimoramento da qualidade do meio ambiente e, consequentemente, para a melhoria da qualidade de vida. Isso vem confirmar que o esforço do homem para o desenvolvimento científico, seja através das ciências exatas, seja através das ciências biológicas ou das agrárias e humanísticas, etc., tem apenas uma razão de ser. Contribuir para a melhoria de vida e bem estar social do homem. É nesse contexto que cresce a importância do papel da ciência do meio ambiente no esforço do homem de integrar e consolidar o mundo científico para a mais digna aspiração humana. A qualidade do meio ambiente é, portanto, não uma questão exclusiva de ecologistas, biologistas ou conservacionistas. Ela é igualmente importante para o físico, o matemático, o engenheiro, o médico, o agrônomo, o jurista, o sociológico, o político, o economista, etc. Não existem soluções puramente ecológicas, biológicas, jurídicas, agronômicas ou políticas, pois o meio ambiente, além do seu físico (solo, água, ar), também é social e psíquico e está inserido numa estrutura político-econômico-social. O mundo que cerca o homem é um mundo complexo, onde o físico, o social e o psíquico se integram e constituem o ambiente no qual ele se desenvolve. (ELY, 1986, p. 4-5)

Estamos vivendo momentos de grandes mudanças culturais, em que os domínios tecnológicos possibilitam o surgimento de novos modos de vida, que por sua vez são criação humana e consequentemente uma atividade cultural. O ser humano, como ator social, é sujeito de sua própria história e está em permanente transformação. Os valores sociais construídos historicamente estão relacionados com a cultura e o tempo.

Reconhecer como os padrões culturais do cartesianismo influenciam o ensino e como eles, de certa forma, determinam nossos horizontes compreensivos é tarefa imediata e inadiável. Na verdade, críticas radicais têm sido feitas ao caráter antiecológico do racionalismo moderno no âmbito da filosofia. O futuro ecológico não deixa de ser responsabilidade da filosofia. Contudo, essa crítica não é suficiente. Precisamos só estar atentos a todo o conjunto de valores que se formou com base no racionalismo moderno, mas também a todo um corpo de saberes e práticas que foi negado no processo de afirmação desse racionalismo... (GRÜN, 1996, p. 48)

As sociedades criam a sua cultura, e a partir daí inventam, instituem uma ideia de natureza que nada mais é do que uma criação humana. São os pilares que os homens erguem, as suas relações sociais, sua produção material e espiritual a sua cultura. Surge, pois, a noção de como a nossa sociedade concebe a natureza e tudo o que há em nossa comunidade planetária.

Em nossa sociedade, a natureza é um objeto a ser dominado por um sujeito, o homem, mas nem todos os homens são proprietários da natureza. A visão tradicional em que a natureza é vista como objeto e homem como sujeito teve início com Platão e Aristóteles ao desprezarem as pedras e as plantas e darem mais importância ao homem e às ideias.

Nos dias atuais, a natureza se contrapõe ao psíquico, ao anímico, ao espiritual. Com o Cristianis mo, Deus sobe ao céu, Deus é perfeito e o mundo imperfeito. Na Idade Média, ocorre a separação entre espírito e matéria. Com Descartes a oposição entre homem-natureza, espírito-matéria, sujeito objeto passa a influenciar o pensamento, chegando até nossos dias. A Filosofia cartesiana enfatiza que os conhecimentos são úteis à vida, vê a natureza como recurso, meio para se atingir um fim e o homem está no centro, consequentemente, é o possuidor da natureza. O Pensamento cartesiano mostra-se utilitarista e o antropocentrismo não pode ser visto desvinculado do mercantilismo. Na Idade Média, a riqueza dos senhores feudais e da Igreja é a terra, tudo que ela possa oferecer. Em um outro momento, a burguesia vai depender da técnica, a natureza não é mais vista como Deus e assim poderá ser utilizada e até mesmo esquartejada.

A divisão cartesiana entre a mente teve um efeito profundo sobre o pensamento ocidental. Ela nos ensinou a conhecermos a nós mesmos como egos isolados existentes “dentro” dos nossos corpos; levou-nos a atribuir ao trabalho mental um valor superior ao do trabalho manual; habilitou indústrias gigantescas a venderem produtos - especialmente para as mulheres - que nos proporcionam o “corpo ideal”, impediu os médicos de considerarem seriamente a dimensão psicológica das doenças e os psi coterapeutas de lidarem com o corpo de seus pacientes. Nas ciências humanas, a divisão cartesiana redundou em interminável confusão acerca da relação entre mente e cérebro e na física tornou extremamente difícil aos fundadores a teoria quântica interpretar suas observações dos fenômenos atômicos. (CAPRA, 1982, p. 55)

O Iluminismo levou até às últimas consequências, o fato de que se para compreender o mundo é necessário partir do próprio mundo, pois saber é poder. No século XIX, o grande triunfo foi do mundo pragmático, natureza cada vez mais objeto a ser possuído e dominado e ciência subdividida em física, química e biologia e o homem em economia, sociologia, história, psicologia, etc. Assim, a divisão social e técnica faz parte do mundo concreto dos homens e não pensar de modo fragmentado, dicotomizado passa a ser cada vez mais difícil. A ideia de natureza objetiva e exterior ao homem pressupõe a ideia de homem não-natural e fora da natureza.

Vivemos uma situação curiosa e ao mesmo tempo muito difícil. Desenvolvemos uma visão de que tudo existe em função do homem. Para atender às necessidades, aspirações, sonhos e fantasias do ser humano, tudo é possível. Os animais existem para alimentar as pessoas, os rios apenas para fornecer água para nós. É uma visão utilitarista e apropriadora dos recursos naturais, que considera que a natureza não tem valor em si, ela é um valor referido ao homem. A grande contribuição do movimento ecológico foi afirmar que nada existe separadamente, que todas as coisas estão interligadas. O ar que respiro me faz viver, mas também viver todos os outros seres. Isto coloca uma indagação sobre o valor do conjunto das coisas. É preciso criar uma ética que considere todos os seres, na sua diversidade, como parte de um mesmo mundo que precisa ser respeitado. Esta é uma questão nova ainda não devidamente desenvolvida. (FAJARDO, 2003, p. 59)

O rompimento do homem com a natureza tem trazido danos enormes à nossa comunidade planetária. Nos últimos anos os impactos sociais e ecológicos da globalização têm sido um tema recorrente. As atividades econômicas estão produzindo uma multiplicidade de consequências desastrosas como desigualdade social, o fim da democracia, a deterioração rápida e extensa do ambiente natural, o aumento da pobreza e a alienação. Está evidente assim que o modelo econômico adotado, na forma atual, é insustentável. Nós, seres humanos, pertencemos a duas comunidades: todos somos membros da raça humana e todos fazemos parte da biosfera global.

O ser humano criou um “complexo de Deus”. Comportou-se como se fora Deus. Através do projeto da tecnociência pensou que tudo podia, que não haveria limites à pretensão de tudo conhecer, de tudo dominar e tudo projetar. Essa pretensão colocou exigências exorbitantes a si mesmo. Ele não aguenta mais tanto desenvolvimento que já mostra seu componente destrutivo ao ameaçar o destino comum da Terra e de seus habitantes. (BOFF, 1999, p. 21)

O modelo de desenvolvimento adotado em especial pela sociedade ocidental, não considera que a dinâmica da natureza precisa ser compreendida e não apenas dominada.

A Terra grita por socorro, pois a lógica que explora os indivíduos e submete-os aos interesses de poucos é a mesma que depreda a Terra e espolia suas riquezas, sem a menor preocupação com o restante da humanidade e para com as gerações futuras. Essa lógica está quebrando o frágil equilíbrio do universo. Nesses últimos séculos, o ser humano sente-se só, mesmo com inúmeras conquistas, pois se depara com um universo considerado inimigo a ser submetido e domesticado. (BOFF, 1996, p. 11)

Pensava-se até recentemente que os recursos da Terra eram inesgotáveis. Porém, a tomada de consciência da crise leva a crer que esse modelo de riqueza material, de bens e serviços a serem desfrutados, na curta passagem por este planeta já não se sustenta.

O esgotamento dos recursos está se dando exatamente porque, em alguns lugares, o modelo de produção que parece infinita deu “certo”. Desse modo, o desenvolvimento e a sustentabilidade são aspectos contraditórios do processo. Onde deu mais certo a produção de mais e mais mercadorias é onde mais se destruiu a natureza (RODRIGUES, 1998, p. 135)

O conhecimento científico afastou a sociedade da natureza, mas o afastamento não é real, pois continua a nos reproduzir e nos produzir, levando em conta as leis biológicas, as leis da natureza. Em um momento se produziu o clone, em contrapartida se produziram homens dos quais foi retirada a capacidade de pensar.

A cisão cartesiana entre a natureza e cultura é a base da educação moderna e é um dos grandes obstáculos para o sucesso de uma educação ambiental profícua. Levar adiante a preservação ambiental permeada pelo paradigma cartesiano é praticamente impossível.

As instituições de ensino não podem ser responsabilizadas pela crise ecológica, mas estão ajudando na sua manutenção uma vez que a degradação ambiental deve-se à incapacidade de elaborar um discurso capaz de superar a distinção criada entre a natureza e cultura.

Estamos, pois diante de um modelo que nos leva a uma maneira de viver “imposta” que por sua vez tem origem na produção capitalista, trata-se da agregação social formalizada por meio de bens culturais fetichizados e sob este domínio a sociedade se converte em objeto. A indústria cultural se opõe ao processo emancipatório, pois os indivíduos são assim induzidos a repetir “modelos” tidos como corretos. A semicultura afirma que a segunda natureza é fruto da dominação e da imposição hegemônica.

A emancipação nos dias de hoje é impossibilitada pelo modo de organização do mundo permeado por semicultura. Hoje, nenhuma pessoa pode existir na sociedade vigente conforme suas próprias determinações, ela vê-se ilhada em situações provocadas por circunstâncias que exigem modelos pré definidos. (ADORNO)

A educação está falida, a violência e alienação social aumentaram, porque, sem perceber, como temos um crime contra a mente de nossas crianças e dos adolescentes. Tenho convicção científica de que a velocidade dos pensamentos dos jovens há um século era bem menor do que a atual, e por isso o modelo de educação do passado, embora não fosse ideal, funcionava. (CURY, 2003, p. 59)

Estamos diante do excesso de informações que leva o indivíduo a não parar de pensar, pois essa avalanche de informações não permite que se elabore um pensamento crítico, e consequentemente, torna-se difícil ser uma pessoa emancipada.

Educação significa emancipação. Emancipação da situação atual onde os homens cada vez mais perdem o contato com a possibilidade do exercício da autoconsciência, e se transformaram em produtos semiculturais. (ZUIN, 1997, p. 122)

Infelizmente, a modernidade alimenta a ilusão de um presente puro sem raízes históricas. A degradação ambiental é fruto de um conjunto de padrões culturais construídos.

A educação só tem sentido quando dirigida a uma auto-reflexão crítica. Educação deve ser a produção de uma consciência verdadeira e não a modelagem de mentalidades. Para que aconteça a democracia necessitamos de pessoas emancipadas. Emancipação significa o mesmo que conscientização, racionalidade, a sua orientação no mundo. (ADORNO, 1995)

Quando olhamos para o mundo à nossa volta, percebemos que não estamos lançados em meio ao caos e à arbitrariedade, mas que fazemos parte de uma ordem maior, de uma grandiosa sinfonia da vida. Cada uma das moléculas do nosso corpo já fez parte de outros corpos - vivos ou não - e fará parte de outros corpos no futuro. Nesse sentido nosso corpo não morrerá, mas continuará perpetuamente vivo, pois a vida continua. ... Com efeito, nós fazemos parte do universo, pertencemos ao universo e nele estamos em casa; e a percepção desse perten cer, desse fazer parte, pode dar um profundo sentido à vida. (CAPRA, 2002, p. 82)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O homem modifica o espaço natural. Trans forma-o de todas as maneiras, causando danos que para muitos parecem ser irreparáveis, pois suas atitudes são as de quem está diante de uma Terra com recursos infinitos. Hoje vivemos uma “crise ambiental”, que se revela nos problemas socioambientais já citados anteriormente e que têm colocado em risco a qualidade e a existência de vida da comunidade planetária. Para minimizar esses problemas, são necessárias mudanças nas práticas de consumo.

Infelizmente, as questões ambientais não estão limitadas às transformações provocadas pelos seres humanos na natureza, estão relacionadas ao próprio espaço construído, espaço artificial onde as questões sociais, como o desemprego, a desigualdade social, o analfabetismo, são responsáveis pela qualidade de vida da população, espaço esse representado especialmente pelo espaço urbano.

A grande tarefa da Geografia, permeada por uma práxis em que a educação ambiental seja intrínseca, é devolver à sociedade respostas para a questão dos problemas sócio-ambientais, decorrentes da ação dos seres humanos em seu espaço de vivência.

A educação ambiental deve consolidar-se como uma filosofia de educação, presente em todas as disciplinas existentes e possibilitar uma concepção mais ampla do papel da escola no contexto ecológico local e planetário contemporâneo.

No contexto da educação ambiental, a escola, todos os conteúdos e o papel do educador e educandos são colocados em uma nova situação, não apenas relacionada com o conhecimento, mas sim com o uso que fazemos dele e de sua importância para a nossa participação política cotidiana.

As questões ambientais passam a fazer parte do cotidiano e do processo de formação das classes operária e popular, não no sentido de somente preservar a natureza, mas para que todos se conscientizem da importância do meio ambiente saudável, pois considera que todo cidadão tem o direito de trabalhar em condições dignas.

A escola, a ser reinventada, urge contribuir para com as pessoas que sofrem de diferentes formas de exclusão e discriminação encontrem um “espaço” para que possam escrever sua própria história.

Ao construir a realidade, o todo é muito mais do que a soma das partes; para interpretar uma esfera da realidade, se legitimam algumas formas de saber, alguns conhecimentos, alguns indivíduos, enquanto se excluem outros; e se pretendemos compreender um fenômeno, não podemos fazer isto a partir de uma só disciplina ou de um único ponto de vista. (HERNANDEZ, 2000, p. 16)

Em virtude do agravamento da crise ecológica, nas últimas décadas, evidencia-se de forma muito clara que a ação política atual não é mais a ordem existente e cabe ressaltar que os acontecimentos mundiais são cada vez menos uma realidade internacional e cada vez mais uma realidade global.

Está evidente que, se modificarmos o atual modelo de desenvolvimento econômico e não produzirmos uma aproximação entre os critérios ecológicos e processos econômicos, a espécie humana corre sérios riscos de sobrevivência a médio prazo.

Assim, a função da escola não é a transmissão de conteúdos. Ela deve propiciar a construção da subjetividade para que as crianças e adolescentes tenham subsídios para interpretar o mundo no qual vivem e a escrever sua própria história.

Se cada indivíduo fizer a sua parte, o mundo ficará melhor, pensar globalmente, agir localmente é o lema dos ecologistas no mundo inteiro, neste contexto cabe ressaltar a importância de termos pessoas emancipadas.

E à geografia como ciência que estuda, analisa e tenta explicar o espaço produzido pelo homem, cabe a tarefa de levar o educando a perceber-se como participante do espaço que estuda, e os fenômenos ali ocorridos são resultado da vida e do trabalho do homem.

É exigido do homem hoje resguardar a qualidade da biosfera para garantir a própria sobrevivência. No entanto, é possível identificar falhas na ordem econômica vigente pelas profundas falhas do sistema de livre mercado, que refletem nas economias ocidentais, induzindo a instabilidade da vida política, como também afetando a qualidade ambiental. Assim, é preciso que o modelo de oferta do sistema econômico converta-se num modelo de demanda que estruture o sistema de produção em função das necessidades básicas das pessoas; adequação tecnológica e de consumo. Isso só seria possível com um agir de profundo respeito ecológico.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    Dez 2004

Histórico

  • Recebido
    10 Jul 2004
  • Aceito
    28 Set 2004
  • Publicado
    28 Set 2004
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