Open-access Mulheres, ciências e guias epistêmicas insurgentes

Women, sciences, and insurgent epistemic guides

Mujeres, ciencias y guías epistémicas insurgentes

Resumo

Mulheres plurais protagonizam a ciência antropológica desde agrupamentos de pesquisa em Abya Yala? A pergunta inicial resulta de estudos sobre gênero, raça e sexualidade no contexto do Pindoba - Grupo de Pesquisa em Narrativas da Diferença, que discute essa presença/ausência no Brasil desde 2011. O presente texto traz resultados preliminares de uma pesquisa mais ampla e em andamento que tem a intenção de buscar convergências entre ciências, tecnologias e sociedades com as antropologias feministas em Abya Yala. Resultados futuros prevêem a proposição de um panorama que sirva de guia para uma ciência que reoriente epistemes, tecnologias e pertencimentos na Antropologia. Do lugar de mulheres, negras, indígenas e lésbicas que fazem ciências, busca-se legitimar uma Antropologia plural. Assim, será possível propor metodologias, tecnologias, escritas e narrativas assumidamente atravessadas pela presença seletiva e pela ausência compulsória de agentes de produção científica.

Palavras-chave:
antropologia; ciência; tecnologia; mulheres; feminismos

Abstract

Do plural women play a leading role in anthropological science from the perspective of research groups in Abya Yala? This question arises from studies on gender, race, and sexuality within the context of Pindoba - Grupo de Pesquisa em Narrativas da Diferença, which has mapped this presence/absence in Brazil since 2011. This text presents preliminary results of a broader investigation that seeks convergences between science, technology, and society with feminist anthropologies in Abya Yala. For the future, a framework will be constructed to serve as a guide for a science that reorients epistemes, technologies, and belongings in Anthropology. From the perspective of Black, Indigenous, and lesbian women who practice science, we seek to legitimize a plural anthropology. Thus, it will be possible to propose methodologies, technologies, writings, and narratives that are undoubtedly permeated by the selective presence and enforced absence of agents of scientific production.

Keywords:
anthropology; science; technology; women; feminisms

Resumen

¿Desempeñan las mujeres un papel protagónico en la ciencia antropológica desde los grupos de investigación en Abya Yala? La pregunta surge de estudios sobre género, raza y sexualidad en el contexto de Pindoba - Grupo de Pesquisa em Narrativas da Diferença, que ha debatido esta presencia/ausencia en Brasil desde 2011. Este texto presenta resultados preliminares de una investigación más amplia y en progreso que busca convergencias entre ciencia, tecnología y sociedad con las antropologías feministas en Abya Yala. Para el futuro se construirá un panorama que sirva de guía para una ciencia que reoriente epistemes, tecnologías y pertenencias en la Antropología. Desde la perspectiva de las mujeres negras, indígenas y lesbianas que hacen ciencia, buscamos legitimar una Antropología plural. Así, será posible proponer metodologías, tecnologías, escrituras y narrativas que estén, sin duda, permeadas por la presencia selectiva y la ausencia obligatoria de agentes de producción científica.

Palabras clave:
antropología; ciencia; tecnología; mujeres; feminismos

Introdução

Dois países em todo o mundo, em pleno século XXI, aglutinam de forma destacada centros de inovação e tecnologia e são reconhecidos como lugares de excelência para uma discussão sobre ciência e produção do conhecimento. Estados Unidos, na América do Norte, e Singapura, na Ásia, de acordo com Silva et al. (2023), são os epicentros geográficos de empresas gigantescas de diferentes setores, como software, hardware, serviços online, comércio eletrônico e mídia social. Paralelamente, os povos que ocupam outras zonas do mundo são constantemente compreendidos, na melhor das hipóteses, como meros consumidores destes conhecimentos e tecnologias. Em situações mais preocupantes, esses povos ocupam áreas geográficas chamadas zonas de sacrifício (Bravo 2021), onde são expostos a riscos ambientais e à própria saúde em consequência da concentração de indústrias poluentes ou atividades que provocam degradação ambiental.

Tal cenário desenha um mundo marcado pela desigualdade ambiental, social e epistêmica em que os interesses econômicos são priorizados e o bem-viver é encoberto por uma nuvem de fumaça que dificulta e, às vezes, impossibilita o seu alcance. Esta distribuição geográfica - ou a ausência dela - conduz até um pensamento social de que o conhecimento legitimado, contemporâneo e que carrega o status de verdade do ponto de vista do que o senso comum chama de desenvolvimento também se localiza nesses dois lugares privilegiados. Ou seja, há uma compreensão reproduzida de forma apressada de que ciência, tecnologia e conhecimento estão exclusivamente aí alocados.

Essa concentração do que se entende por ciência e tecnologia em espaços geográficos tão restritos gerou um passivo histórico quanto ao necessário reconhecimento de outros lugares que estão fora do eixo imposto pelo capital financeiro como também produtores de conhecimento. Tal passivo histórico não atinge somente os espaços físicos, mas também e especialmente prejudica agentes de produção científica que estão fora dos lugares considerados adequados para a produção do conhecimento e da tecnologia. Um panorama mundial que evidencia a importância de garantir visibilidade às ciências desenvolvidas em outros lugares e por cientistas que afirmam por seus corpos a diferença, a distinção.

A partir dessa percepção, a pesquisa que guia a presente escrita propõe a defesa de uma ciência orientada pela polifonia, pela complexidade e pela multiespacialidade. Uma ciência emergente capaz de reconfigurar as injustiças e reconhecer a horizontalidade do saber. A proposta, que está em execução, é investigar ciência e tecnologia desde uma Antropologia-Mulheres praticada em Abya Yala para evidenciar que o conhecimento também é plural, antirracista, anticapacitista e feminista. As metodologias das ciências humanas, as tecnologias do corpo, as teorias trabalhadas em centros de pesquisa de países que ocupam o sul global são produções que ainda precisam ser reconhecidas como importantes para a conquista do bem-viver. Vale destacar que o bem-viver, de acordo com Gunther (2014), é o que sustenta a prática de povos afro-ameríndios e está amparado pelos princípios da reciprocidade e da convivência multiespécies.

A América Latina, assim nomeada pelo projeto de dominação colonial, é tratada aqui pelo nome de Abya Yala como forma de destacar a importância de nomear. Para os estudos antropológicos, nomear é classificar e, mais que isso, de acordo com Alcida Rita Ramos, “em sociedades que enfatizam ação grupal em detrimento da identidade individual” (Ramos 1976, 35), encontrar uma nomeação que expresse adequadamente a especificidade é uma necessidade, uma urgência. A importância da nomeação para a Antropologia está no fato de que esta revela informações relevantes sobre culturas, sociedades e indivíduos, bem como sobre a compreensão de mundo de distintos povos.

O termo Abya Yala, utilizado pelo povo Kuna, do Panamá, e ainda de forma política por diversos movimentos sociais organizados, busca romper com o ofuscamento imposto aos povos deste lugar, como explica Lorena Cabnal (2010). Para esta pesquisadora, toda a integralidade da vida dos chamados povos originários tem suas raízes em filosofias plurais uma vez que “son varias cosmovisiones, aunque tienen hilos en común a partir de prácticas que se reconocen o se conectan em todo el territorio de Abya Yala, incluso con pueblos muy alejados de otros continentes” (Cabnal 2010, 14).

Sendo assim, Abya Yala não é uma simples tradução do nome América Latina ou uma substituição por uma palavra que carrega os mesmos significados. Abya Yala pode ser compreendida como a agência de produção de um conhecimento específico que, historicamente, tem sido negligenciado pela produção científica hegemônica. Sistematizar o conhecimento desde Abya Yala é uma estratégia para garantir o reconhecimento de que ciência e tecnologia são plurais. A defesa aqui é pela multiplicidade de lugares e agências como caminho possível para o bem-viver.

Abya Yala joga luz forte sobre os pertencimentos locais, na presente investigação diretamente relacionados a mulheres negras, indígenas e lésbicas que se dedicam ao saber-fazer antropológico. Esta é a forma utilizada para nomear a multiespacialidade e a multiagência da produção do conhecimento. O termo Abya Yala significa, assim, essa “terra em plena madurez” ou “terra de sangue vital”, de acordo com Diana Correal et al. (2014). É por concordar com tal perspectiva que a investigação que agora ganha seu primeiro estrato de escrita segue a nomeação ressignificada das territorialidades que são acionadas como também produtoras de conhecimento.

A escassez de mulheres cisgênero, brancas e heterossexuais ocupando os espaços de produção do conhecimento é perceptível. Esse fosso aumenta sobremaneira se consideradas as especificidades das mulheres negras, lésbicas, trans, indígenas, empobrecidas, com deficiência e as que habitam regiões fora do eixo de poder financeiro. Uma análise superficial já indica que, quando identificadas, é recorrente que as mulheres sejam colocadas em lugares limitantes, como o de objetos de pesquisa ou ainda o de quem apresenta uma produção pouco ou nada legitimada.

Tal condição fortalece um ethos que, ainda hoje, alimenta a ideia de que há uma propensão para que homens, brancos, cisheteronormativos e que habitam as regiões consideradas ricas do ponto de vista financeiro, desenvolvam as melhores pesquisas, haja vista a proeminência científica estar marcadamente sob a condução desses homens. Com estas preocupações, o projeto Antropologia-Mulheres, que está no escopo de uma pesquisa de pós-doutorado da autora, se justifica por potencializar uma Antropologia posicionada e prospectiva, além de polissêmica e multilocalizada.

O que o presente texto oferece é uma discussão inicial de pesquisa em desenvolvimento e que tem o propósito de, futuramente, construir um levantamento dos agrupamentos de investigações feministas, antirracistas e dissidentes do ponto de vista da sexualidade cisheteronormativa. Caso seja conquistado este propósito, será possível reconhecer e fortalecer as produções científicas e tecnológicas desde Abya Yala. Embora este projeto ainda esteja em execução, já é possível afirmar a existência de uma grande quantidade de pesquisas desenvolvidas com foco em uma Antropologia-Mulheres. Assim, busca-se perceber inicialmente – e de maneira qualitativa – as metodologias e as bases conceituais distintas e que merecem um debruçar investigativo.

No atual estágio da pesquisa, levado a cabo junto a investigadoras do Chile, já é possível perceber a priorização de metodologias ativas e do movimento permanente de cuidado em campo no sentido de garantir qualidade de vida para todos os sujeitos envolvidos na pesquisa, inclusive as pessoas institucionalmente implicadas. Da mesma forma, os levantamentos já realizados pelo Pindoba evidenciam a priorização de ações coletivas para fortalecer os grupos pesquisados. Um exemplo importante é a luta para garantir a participação de lideranças indígenas e negras na edição 2024 do Acampamento Terra Livre, que reúne milhares de povos indígenas em Brasília todos os anos.

Em termos metodológicos, a coerência é buscada pela adoção de etnografia multisituada desde agrupamentos de pesquisa em Antropologia nas cinco regiões do Brasil e em outros núcleos de pesquisa em Abya Yala. Este enfoque de investigação da Antropologia estuda fenômenos sociais ou culturais que ocorrem em múltiplos lugares interrelacionados, sendo esta interrelação compreendida como redes já identificadas a partir do trabalho de um grupo no Brasil e iniciada em outro na Colômbia. No exato momento desta escrita é feito trabalho de campo também no Chile.

A etnografia defendida converge para o que Rita Segato (2021) explicita como uma teoria-prática ancorada no alcance de um projeto histórico alternativo e disfuncional ao capitalismo. O procedimento metodológico persegue a complexificação necessária entre a chamada colonialidade do saber e as provocações às noções de justiça, direito, gênero, raça, etnia, sexualidade, história, diferença e relações sociais. Ainda segundo Rita Segato (2021), é fundamental confrontar a prática antropológica e o que esta antropóloga chama de “Antropologia por demanda”.

Desde a década de 1980, a Antropologia se percebe situada e assume que a reflexão sobre as teorias e categorias de análise também são importantes em seus processos de produção de conhecimento local. Tal movimento conduz ao reconhecimento e à politização como características importantes no saber/fazer antropológico. A etnografia, por sua vez, pode oferecer vias sustentadas pela atenção às demandas do próprio grupo estudado, incluindo todas as agências na pesquisa. A Antropologia proposta é litigante e profundamente contestatória, no sentido de caminhar contra a “colonialidade do poder” e a “colonialidade do saber” (Segato 2021). O empenho permanente é não reproduzir o poder hegemônico nas relações estabelecidas.

Contribui para a discussão o que Donna Haraway chama de “humusidades” no livro Staying with the trouble. Ao ponderar que “somos compostagem, não pós-humanos; habitamos as humusidades, não as humanidades” (2016, 35 - tradução livre), esta pensadora oferece a oportunidade para que pesquisas sejam propostas a partir da multiagência e que o campo seja o lócus desta multiagência. Provocar metodologicamente esse campo como “humusidades” resgata a proposição da mesma Donna Haraway (2009) de que a pesquisa feminista e ativista buscou insistentemente responder o que é a objetividade científica exatamente para fugir deste modelo. Sendo assim, a metodologia também obedece ao movimento que o próprio campo deverá apresentar na busca pelo lugar de enunciação.

O cuidado enquanto trabalho, mas também enquanto algo que supera a noção de trabalho, necessita alcançar a metodologia de investigação. Por isso, nos trabalhos de campo é acionado o procedimento metodológico de pesquisa que prioriza e propõe participação em oficinas e vivências. Em acordo com Tania Pérez-Bustos (2014), para quem no trabalho de investigação podem ser acionadas práticas pedagógicas que produzam ciência e tecnologia, se busca criar vínculo emocional em campo, ainda que a pesquisa seja realizada em contextos diferentes do contexto de quem a conduz. Para a presente investigação, esse cuidado está sendo observado, o que a caracteriza como profundamente qualitativa.

Nesta produção, o foco está na observação atenta a questões como uma possível feminização de práticas educativas em contraponto com uma masculinização das pesquisas acadêmicas. Essa observação atenta e participante possibilita responder a questões basilares. Entre estas questões está a tentativa de compreender quais mulheres são encontradas em campo e ainda que lugar ocupam na produção de saberes mulheres que carregam marcadores sociais da diferença em termos de raça, sexualidade, etnia, condição física, idade.

A intenção, ao final, é trazer para a superfície da discussão acadêmica a forma como mulheres cientistas se relacionam com a produção da ciência e como suas outras práticas acompanham a produção e reprodução do conhecimento. Situar mulheres plurais no campo científico deve contribuir para propor uma ciência relacional e elevar o cuidado para todo o saber-fazer. Não se trata somente de números, mas de um giro com potencial para reorientar narrativas.

Os caminhos percorridos até aqui demandam cuidado

Uma das possibilidades de leitura é a de que presença de mulheres negras, indígenas e lésbicas nas pesquisas redefine trajetórias e possibilita a construção de novos laços. Mas também é possível encontrar possibilidade epistêmica na proposição de uma Antropologia-Mulheres. Por ocupar a encruzilhada, a prática desta pesquisa prevê caminhos possíveis ao invés de impossibilidade de continuidade.

Para alcançar um panorama do saber-fazer antropológico, com a especificidade das mulheres plurais, especialmente mulheres negras, indígenas e lésbicas, foi feita etnografia junto ao Pindoba - Grupo de Pesquisa em Narrativas da Diferença, que atua a partir da Universidade Federal de Goiás (UFG), no Brasil, desde 2011.

Nesse momento, está sendo organizada etnografia junto à Escuela de Estudios de Género, que em 2001 foi convertida em unidade acadêmica da Facultad de Ciencias Humanas, da Universidad Nacional de Colombia, em Bogotá. Também está em andamento uma etnografia junto ao Departamento de Antropología da Facultad de Ciencias Sociales da Universidad de Chile, em Santiago.

O Pindoba - Grupo de Pesquisa em Narrativas da Diferença iniciou suas atividades na UFG em 2011 com o propósito de fortalecer agências em pesquisas sobre ciência, tecnologia e sociedade desde uma perspectiva antirracista, feminista e anticapacitista. Na contramão das defesas de uma ciência que ordena o que deve ser feito e como deve ser feito, o Pindoba nasce pela formação de três pessoas interessadas em dar início às ações na UFG. Assim é que sua primeira ação foi a participação, entre 5 e 9 de dezembro de 2012, no Curso de Extensão Pedagogia Griô e Produção Partilhada do Conhecimento, na Universidade de São Paulo (USP).

Após reuniões de planejamento durante todo o ano de 2011, a participação nesse curso em 2012, e a presença marcante de mulheres negras, indígenas e lésbicas no Pindoba evidenciou a necessidade da institucionalização de um grupo que se propusesse a implementar ações e pesquisas desde dentro, situadas e engajadas. O curso em São Paulo foi organizado pela Pós-Graduação Humanidades, Direito e Legitimidades, mas a perspectiva griô teve suas primeiras discussões no Brasil ainda em 2004, com a Ação Griô, em Lençóis, no estado da Bahia.

De acordo com a pesquisadora Líllian Pacheco, griôs são “mestres” e mestras, pessoas mais velhas que ensinam para a vida “contando, pintando, costurando; desenhando, cantando, dançando, reciclando e registrando sua história de vida” (2006, 30). Este foi um conceito importante para consolidar a existência do Pindoba, uma vez que a compreensão de griô remete aos enfrentamentos a um modelo de produção do conhecimento que hierarquiza e categoriza corpos e espaços como passíveis ou não de agência para a ciência, a tecnologia e a sociedade.

Após aglutinar especialmente mulheres negras indígenas e lésbicas em torno das discussões, o Pindoba realizou, em setembro de 2013, o I Colóquio Jornalismo e Diferença, na Faculdade de Informação e Comunicação da UFG, com o objetivo de acolher estudantes que ingressaram naquele curso pelo sistema de cotas chamado UFGInclui. Depois de quatro anos de implantação do UFGInclui, essa foi a primeira vez que ocorreu uma ação específica para estudantes cotistas no curso de Jornalismo.

O Colóquio é explorado neste artigo para evidenciar a horizontalidade do conhecimento. O evento encaminhou, em uma plenária final, um documento para orientar a elaboração de políticas de acompanhamento que garantissem formação para profissionais da Instituição de Ensino preparando os mesmos para lidar com as diferenças. O documento foi entregue à coordenação do curso de Jornalismo e apresentado no Seminário Programa UFGInclui 2013, evento que era realizado anualmente pela UFG para promover discussões e divulgar o programa. As demandas do documento envolviam necessidade de institucionalizar atenção às especificidades de estudantes cotistas, a exemplo da má qualidade do ensino que receberam na escola pública de ensino médio, o baixo acesso aos aparelhos sociais de cidadania e as dificuldades profissionais diante de um mercado de trabalho racista e sexista.

As demandas foram acatadas e, atualmente, esta Instituição de Ensino formou comissões permanentes de acompanhamento. Tais comissões acolhem e acompanham toda a vida acadêmica de estudantes cotistas. Esse resultado evidencia que políticas públicas resultam de atuação coletiva e cuidado em todas as etapas da passagem de estudantes cotistas pela universidade. Esta primeira atividade do Pindoba evidenciou que, desde a formação inicial para a ciência e a tecnologia, é preciso reconhecer que as coletividades são acionadas a partir de pertencimentos étnico-raciais, socioeconômicos e de gênero, além de outros fatores socioculturais. Uma vez feito este reconhecimento por parte de quem é agente da ciência, formam-se as “comunidades de aprendizado” estudadas por Bell Hooks (2013) e que são capazes de conduzir a um movimento crescente e definitivo de afirmação identitária e autorreconhecimento também na ciência.

Com uma escrita especialmente orientada para a experiência de mulheres negras, Luíza Bairros também nos ajuda a ampliar o sentido de pertencimento na produção do conhecimento quando afirma que a “[...] experiência de ser negro (vivida através do gênero) e de ser mulher (vivida através da raça)” (Bairros 1995, 459) localiza essa agência no não-lugar da encruzilhada. Daí a relevância de tomar a palavra e estabelecer o ato comunicativo pela experiência vivida desde marcadores sociais da diferença em uma academia que é o epicentro da produção do conhecimento, mas está ancorada em um modelo único e hegemônico, inclusive do ponto de vista geográfico, de conduzir seus processos científicos.

Uma Antropologia-Mulheres deve estar pautada no desejo de interferir na própria matriz de formação, com propostas antirracistas, feministas e anticapacitistas, uma vez que está disposta a considerar sempre o contexto no qual quem agencia a produção científica se insere, bem como suas origens histórico-culturais. Tal consideração torna-se um caminho metodológico e epistêmico para a construção do ato narrativo entre grupos historicamente subalternizados. Conceição Evaristo faz a mesma defesa a partir da literatura quando afirma que “há um comprometimento entre o fazer literário do escritor nessa experiência pessoal, singular, única, ele se faz enunciar enunciando essa vivência negra, marcando ideologicamente o seu espaço, a sua presença, a sua escolha por uma fala afirmativa” (Evaristo 2010, 136).

As existências vividas nos espaços de produção científica são capazes de conduzir ao fomento de escuta e fala, ampliando suas possibilidades de questionar e transformar contextos. Isso equivale afirmar uma ciência viva, orgânica e profundamente insurgente considerando que a história da ciência e da tecnologia evidencia um alijar-se do corpo e do vivido por parte de quem agencia as práticas de pesquisa.

Compreender ciências, tecnologias e sociedades de forma orgânica, em uma mutualidade de experiências, convivendo e contaminando-se em todas as suas etapas, sedimenta um caminho reflexivo até a interseccionalidade enquanto categoria de análise que busca alcançar a não dissociação das questões de raça, classe, sexualidade e gênero, além da pessoa com deficiência e determinantes geracionais. “Os corpos existem e transitam, ou não, pelo que são, mas a forma como as instituições tomam as decisões pode provocar maior ou menor potencial de enfrentamento na elaboração das políticas afirmativas” (Dias 2019, 34).

Enquanto lente metodológica e categoria de análise, a interseccionalidade possibilita que sejam considerados os agentes de produção do conhecimento como sujeitos integrais, o que reverbera na busca por uma ciência também integral, sendo que tudo isso não significa ausência de conflitos. Uma rápida leitura sobre uma cartografia de mulheres, negras, indígenas e lésbicas cientistas, como a realizada por Dias (2019), já sinaliza racismos e misoginias cotidianas que se iniciam com a graduação e se estendem por toda a vida profissional das mesmas.

Uma produção científica integral requer reorientações epistêmicas que passam pela ênfase aos pertencimentos locais. Neste sentido, a Escuela de Estudios de Género, da Universidad Nacional de Colombia, é outro centro de referência para provocar as buscas. Isso porque ciências, tecnologia, saberes e conhecimentos encontram um lugar totalmente inovador de experimentação, com atuação acadêmica a partir dos feminismos e antirracismos compreendendo o gênero e raça como construções de dominação articulada a outras matrizes dominantes.

A Escuela de Estudios de Género insurge na produção científica e inova com um jeito de fazer ciência marcado por um dentro/fora que questiona os pertencimentos, buscando visibilizá-los desde Abya Yala. Conhecer e reconhecer, de maneira sistematizada, as técnicas, tecnologias, metodologias e teorias antropológicas que são acionadas e propostas por mulheres plurais desde esta Escuela é o empenho etnográfico. Resultados iniciais mostram que mulheres negras, indígenas e lésbicas priorizam a formação de redes de produção acadêmica, como o Negrocentricxs e as Juntas de Vecinos com suas hortas comunitárias, no Chile, o Pindoba, no Brasil e outros que estão sendo identificados.

O estudo já realizado no Brasil pelo Pindoba, agora encontra lugar na Escuela de Estudios de Género, o que pode provocar, ainda, uma atualização necessária na noção de interseccionalidade. Isso porque essa noção chega primeiramente com um caso concreto apresentado por Kimberle Crenshaw (1991) em seu estudo sobre violência contra mulheres negras nos Estados Unidos, alcança complexificações localizadas na sociedade brasileira com Carla Akotirene (2018) e pode se expandir com o reconhecimento de uma ciência gendrada e racializada em seu saber-fazer. Nesse sentido, a pesquisa tem se mostrado inédita e prospectiva exatamente porque busca evidenciar que a Antropologia também produz conhecimento gendrado e racializado. O caminho proposto já sinaliza a insurgência de um eixo de produção de ciências e tecnologias sustentado por práticas de cuidado e de reconhecimento.

Desse modo, torna-se fundamental que cientistas tomem a palavra e anunciem que estão efetivamente fazendo ciência e tecnologia. Por isso, pesquisas como a que está sendo feita requerem uma apresentação dos grupos, núcleos, centros ou cátedras de pesquisa, mas fundamentalmente - e isso está sendo feito agora - há que se evidenciar quais são os coletivos que estão agenciando essas produções e como o estão fazendo. Por isso, o foco em ações e na forma como são realizadas. É possível, feito este investimento, que até mesmo os recursos das agências de fomento à pesquisa sejam reorientados desde que haja o reconhecimento desses lugares e agências outras.

Tomar a palavra e anunciar que existe uma Antropologia-Mulheres implica ações de conscientização consideradas um instrumento de correção de distorções e preconceitos que existem no debate sobre quem faz ciência, para quem e com que objetivo. Até o presente momento, os espaços estudados que agenciam pesquisas realizam reuniões periódicas, acolhimentos e orientações de novas pesquisas. Contudo, há que se destacar que a principal característica é que ambos se mantêm como lugares de abertura para novas formas de produzir conhecimento.

Esta abertura, que parece estar na contramão de uma ciência que preconiza resultados definitivos e objetivos, é o que fortalece a formação de estruturas e a realização de investigações com forte potencial para a pluralidade de saberes e fazeres. Também é essa abertura que possibilita uma ciência feita em lugares distintos, desde uma praça pública com aulas abertas e conferências colaborativas até as roças de quilombo, o mato das quebradeiras de coco, as aldeias indígenas ou os galpões e quadras escolares, que passam a ser percebidos como férteis laboratórios científicos.

Estes lugares de pertencimento e produção do conhecimento podem ser, na presente escrita, traduzidos como Abya Yala, essa terra fértil e plantada capaz de produzir vida e ciência. Retoma-se, dessa forma, a noção de Antropologia-Mulheres que também está nos lugares especializados, como os coletivos, núcleos e departamentos criados e conduzidos especialmente por mulheres negras, indígenas e lésbicas.

Uma Antropologia que persiga a lógica do cuidado há que estar preparada para reorientações epistêmicas a partir do reconhecimento de existências integrais, que carreguem as marcas da pluralidade e da diferença auto-afirmada. Também na ciência, são as diferenças que demandam aproximação e atenção especial e não a homogeneização de teorias, metodologias e conhecimentos. Antropologia-Mulheres se coloca no plural porque está comprometida com o entendimento de que “a construção de práticas democráticas e não preconceituosas implica o reconhecimento do direito à diferença” (Gomes 2001, 87). A formação de agrupamentos de estudo e pesquisa desde Abya Yala se configura, assim, como uma via de construção positiva e anunciada das identidades lidas pelo pensamento hegemônico como diferentes.

Reconhecer como são feitas as pesquisas, quais os seus resultados, que metodologias utilizam mulheres negras, indígenas e lésbicas desde Abya Yala de Antropologia provoca inovação científica e tecnológica. Do ponto de vista do protagonismo, a relevância está na representatividade ainda hoje profundamente escassa destas agentes de produção do conhecimento e no empenho em fazer uma Antropologia situada e sob demanda.

É essencial que o saber-fazer Antropologia seja protagonizado por diferentes cientistas. Isso reposiciona a ciência enquanto lugar da polissemia e da escrevivência, essa escrita que nasce a partir da experiência de vida de quem escreve, como estabelece Conceição Evaristo (2017). Assim, também é possível resgatar tecnologias e metodologias ancestrais, para além do que é imposto pela reprodutibilidade técnica, acionando as pesquisas e as produções acadêmicas agenciadas pela pluralidade epistêmica, metodológica e teórica. Para a Antropologia, e ainda de acordo com os ensinamentos de Conceição Evaristo (2017), é a oportunidade de ampliar e amplificar “vozes-mulheres”.

Se há pluralidade, há que ter encontros com a insurgência na produção científica e a inovação com um jeito de fazer ciência antropológica situada, que questiona os pertencimentos, inclusive de quem agencia a pesquisa. Essa escrita inicial já admite que é preciso conhecer e reconhecer, de maneira sistematizada, as técnicas, as tecnologias, as metodologias e as teorias antropológicas que são acionadas e propostas pela diversidade.

O devir Antropologia-Mulheres possibilitará construir um amplo e atual panorama do saber-fazer antropológico desde o ponto de vista das mulheres negras, indígenas e lésbicas acadêmicas. De acordo com Luiza Bairros (1995), a teoria do ponto de vista feminista somente é válida se há um empenho cotidiano de combate ao mito da democracia racial, convergindo para o que hoje é trabalhado como antirracismo e para a perspectiva dos feminismos negros de que o pessoal é político.

A antropóloga negra brasileira Lélia Gonzalez (1981) já explicitou em suas produções a relação que mantinha com a Antropologia, priorizando falas e escritas insurgentes. Ela também marca uma Antropologia retomada como disputa epistemológica no contexto das ações afirmativas. O reconhecimento tardio de Lélia Gonzalez como antropóloga a coloca em lugares não tão próximos do rigor e da veracidade da ciência. A condição de mulher, e de mulher negra, a localiza fora da Antropologia em seu sentido stricto. Na atualidade, contudo, ela é reconhecida, especialmente pelos centros de pesquisa brasileiros especializados em negritude, como basilar para o saber-fazer antropológico. Daí surge a intenção desta pesquisa em apresentar panoramas que evidenciem e localizem mulheres, negras, indígenas e lésbicas fazendo ciência em Abya Yala.

Castañeda (2016) informa que os anos de 1990 foram marcados pela designação da população indígena como o objeto destacado da Antropologia. Desde então, houve uma problematização que conduziu à admissão de que raça e cultura são nomeações que escondem o racismo na prática antropológica. Estudos em Antropologia já proferem que raça não existe e que o humano não pode ser visto no sentido racial. Quando o tema é a prática científica, é evidente o empenho hegemônico em retirar a relevância do corpo que agencia o saber-fazer ciência, como se esta não fosse conduzida por humanos, mas sim por máquinas ou startups sem humanos em sua agência, sem corpos racializados, gendrados, estigmatizados.

Estudar os processos de racialização/etnicização e de gendramento nas Ciências Sociais e Humanas, de modo geral, e na Antropologia, de modo específico, ainda é uma necessidade que passa, inclusive, por perceber quem são as pessoas que estão fazendo ciência e como estas pessoas estão se portando enquanto acadêmicas. Já podem ser identificadas mulheres lésbicas, indígenas e negras nesse contexto, mas é preciso destacar que ainda há a distinção dessas pessoas a partir de noções que operavam nos séculos XIX e XX.

Encontrar essa complexa identificação é uma das preocupações que marcam as práticas antropológicas contemporâneas. Daí a relevância de sistematizar estudos e pesquisas sobre os processos de racialização/etnicização, gendramento e sexualização no saber-fazer antropológico. De novo, a antropóloga Lélia Gonzalez, e sua admissão de que “o lixo vai falar, e numa boa” (Gonzalez 2018, 193), desafia para a construção de uma ciência antropológica marcada pela presença seletiva e pela ausência compulsória de mulheres negras, indígenas e lésbicas.

Nesse sentido, é não só relevante, mas urgente, sistematizar conhecimentos para que tais produções saiam do ostracismo imposto pelo patriarcado e passem a compor o próprio fazer antropológico. A busca por saber quem são as mulheres lésbicas, negras e indígenas que estão fazendo Antropologia em Abya Yala, bem como o que têm pesquisado transversaliza o empenho aqui proposto e torna-se uma prática de cuidado acadêmico.

Considerações finais

A Antropologia da Ciência e da Tecnologia tem experimentado grande ascensão e enfrentado desafios para redefinir os limites entre ciência, tecnologia e humanidade. Esses desafios empíricos e teóricos não são novidade na Antropologia, considerando que a cultura material, os artefatos técnicos e os circuitos de objetos têm sido focalizados nas pesquisas antropológicas e admitidos como técnica, tecnologia, metodologia, ciência enfim. A agência na produção do saber-fazer é de grande valor científico e seu impacto pode reposicionar e prospectar a ciência. Ao conhecer de que forma a Antropologia lida com tecnociências, humanos e não-humanos, técnicas e saberes, sustentabilidade e mais-que-humanos, e até mesmo raça/etnia, gênero e sexualidade, a própria ciência se movimenta.

Movimentar a ciência identificando uma Antropologia-Mulheres desde Abya Yala pode provocar, além da mencionada atualização necessária na noção de interseccionalidade, uma prática antropológica que produz conhecimento situado. O caminho proposto é que nos encontremos, finalmente, com uma Antropologia-Mulheres insurgente.

No escopo dos estudos já realizados, mas ainda não finalizados, foram identificados centros e grupos de pesquisa focalizados em gênero, ou em gênero e raça, com pesquisas em Ciências Sociais, Humanidades e Antropologia, além das Performances Culturais. Tais iniciativas já contam com produções passíveis de serem interpretadas como uma Antropologia-Mulheres, mas é muito relevante encontrar terreno fértil também em outros centros de referência em Abya Yala e sistematizar tudo isso para ajudar a atualizar a ciência. Uma perspectiva comparada de construção de um panorama interpretativo potencializa ainda a criação de uma ampla rede de mulheres negras, indígenas e lésbicas fazendo ciência a partir de tais centros.

Embora já possam ser identificadas iniciativas de uma Antropologia-Mulheres, ainda paira na ciência legitimada um imenso vazio provocado pelo colonialismo e pelo patriarcalismo e que resulta na ausência perceptível de mulheres negras, indígenas e lésbicas no universo da produção antropológica. Diante desta investida na ciência da ciência, é urgente o despertar para o saber-fazer ciência a partir da responsabilidade social, do antirracismo e do combate ao patriarcalismo. Considerando que a Antropologia é a base de formação em muitas graduações, alcançar uma prática plural e orientada para o combate às fobias sociais é absolutamente imprescindível.

Reconhecer que Abya Yala é lugar de ciência e tecnologia, pode nos conduzir à ruptura com o entendimento histórico que divide o mundo em lugares onde se produz conhecimento e outros que estão completamente alijados desse processo. Importante retomar a concepção de que “el racismo desde mi percepción como mujer indígena, es como una raíz, esta raíz es histórica y estructural de origen patriarcal, que arremetió con la penetración colonialista en la vida de pueblos originarios de Abya Yala, y de las mujeres en particular” (Cabnal 2010, 20). Dessa forma, a pesquisa traz para a superfície da percepção científica a evidência de que ciências e tecnologias também ocupam outros lugares no mundo.

Após os primeiros movimentos para encontrar ciência e tecnologia fora do que é considerado eixo central de produção do conhecimento, é possível afirmar pelos resultados iniciais desta pesquisa que ciências e tecnologias encontram um lugar totalmente inovador de experimentação, uma vez que Abya Yala é um jeito de nomear o território onde se vive e onde mulheres negras, indígenas e lésbicas são interseccionadas pelo saber-fazer ciência e estão apresentando guias epistêmicas insurgentes, sendo muitas vezes elas mesmas estas guias.

A proposta de construir um amplo panorama capaz de evidenciar a necessidade de centros de pesquisa com a especificidade de gênero, raça/etnia e sexualidade a partir de estudos realizados em Abya Yala deve continuar sendo executada. Considerando que mulheres são diversas desde as perspectivas de raça, etnia, sexualidade, classe, idade, localização geográfica, deficiência e outros marcadores, torna-se possível analisar processos de racialização / desracialização / rerracialização, bem como gendramento / desgendramento / regendramento de mulheres que fazem ciência.

A forma como é constituído o saber-fazer antropológico necessita de uma agência que prospecte uma ciência inclusiva, plural e profundamente comprometida com o bem coletivo. Entre os resultados iniciais já é possível vislumbrar a construção de diálogos entre diferentes éticas, estéticas, ecologias e modos de vivenciar a ciência antropológica. Por força do patriarcado e do machismo, bem como do capitalismo, impostos a toda a sociedade, mulheres plurais vivenciam o perigo e habitam mundos em ruínas (Tsing 2019). Aos moldes de muitos outros seres, é preciso criar estratégias de adaptação e resiliência inclusive na prática científica.

A atuação de pesquisadoras, antropólogas lésbicas negras e indígenas pode ampliar um saber-fazer antropológico posicionado e insurgente, situado. De acordo com Angela Davis (2016), tal cenário oferece um excelente campo para que sejam acionadas produções sobre uma nova Antropologia no quesito mulheres, raça e classe, espaço também fértil para o que a ativista estadunidense chama de “tríplice discriminação”.

A correlação entre processos de opressão, a exemplo do racismo, do sexismo, do elitismo e da segregação, tem seu contraponto nos movimentos negros, de mulheres, empobrecidas, lésbicas, trans, com deficiência. A noção de interseccionalidade conta com várias acepções e pode ser entendida como o cruzo entre as diferenças. Marcadores da diferença como idade, raça/etnia, sexo, classe, são reorganizados para categorias de operação como etarismo, racismo, sexismo, lesbotransfobia, classicismo. O compromisso levantado neste texto é para que tais categorias reassumam o seu lugar de identificação feminista e antirracista.

Esta correlação entre as diferenças, entre as opressões e entre as identificações foi proposta inicialmente por Audre Lorde (2019). Já a jurista Kimberle Crenshaw (1991) é reconhecida por ter cunhado o termo “interseccionalidade", utilizando-o para analisar e propor intervenções na situação de mulheres negras diante de vários tipos de opressão. Também é importante manter o foco na “Antropologia por demanda” proposta por Rita Segato (2021) para construir uma pesquisa afetada em prol de outras tantas que ainda podem ser acionadas por esta pesquisa.

Manter um posicionamento interessado diante da vida - mas também pactuado pelo respeito -, contribui para a gestação de novas tecnologias de gênero, novas Antropologias, novas éticas. Adicionalmente, a experiência e a pesquisa já contribuem para alavancar a Antropologia desde Abya Yala. Isso porque a busca pela ruptura é uma das características mais marcantes de mulheres que investem em epistemologias e processos de teorização. Mulheres lésbicas, mães, pretas, indígenas, sem-teto, com deficiência, do campo, das águas, das sementes e das cidades, de Abya Yala ou encarceradas, trans, literatas ou condicionadas, buscam e fazem ciências, imagens, imaginários, artes e tecnologias a partir do perigo (Tsing 2019).

Realizar essa pesquisa consolida diálogo com a proposição de uma etnografia que pode resultar em um redirecionamento para o saber/fazer antropológico. Isso porque propõe encontrar em Abya Yala o lugar e a guia da produção do conhecimento e, seguindo os rastros deixados por Donna Haraway (2016), questionar o legado de destruição do Antropoceno, que ela nomeia também de Capitaloceno, e suas zonas de sacrifício. Combater a noção de avanço na ciência conduzida por uma episteme hegemônica e contornar o evidente fracasso das ideias de progresso do capitalismo é absolutamente necessário para romper de uma vez por todas com a centralidade do poder e do saber.

Por reconhecer tais complexidades, são esperados avanços nas teorias antropológicas e também nos estudos da ciência, da técnica, da metodologia e da tecnologia, além de contribuir para a crítica feminista da ciência. Isso porque há o compromisso com os estudos antropológicos de gênero e com a urgência de reconhecer o caráter situado do conhecimento científico. Com o desenvolvimento da pesquisa é esperado relacionar a Antropologia feita por/com/para mulheres plurais desde uma ciência em movimento.

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Editado por

  • Editor-chefe:
    Sergio Carrara
  • Editora Associada:
    Regina Facchini

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    23 Jul 2025
  • Aceito
    19 Nov 2025
Creative Common - by 4.0
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/), que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.
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