Open-access Agendas de pesquisa e desafios metodológicos para a antropologia feminista da ciência e tecnologia na América Latina: experimentando intervenções com podcast

Research agendas and methodological challenges for the feminist anthropology of science and technology in Latin America: experimenting with podcast interventions

Agendas de investigación y desafíos metodológicos para la antropología feminista de la ciencia y la tecnología en América Latina: experimentando intervenciones con pódcast

Resumo

Como comunicar resultados de pesquisa, disputar significados, falar sobre as pesquisas feministas realizadas na América Latina com um público mais amplo do que o científico? Neste artigo, apresentamos alguns dos resultados da pesquisa "Um mundaréu de histórias: antropologia feminista da ciência e da tecnologia na América Latina" (Fapesp 2022/05943-0). Produzimos 25 episódios de podcast, entrevistando antropólogas brasileiras, argentinas e colombianas, e pessoas com quem elas trabalham. Como parte do processo para a produção dos episódios, nossa equipe mapeou pesquisas no campo da antropologia da ciência e tecnologia produzidas nos três países, com perspectivas feministas antirracistas, interseccionais e decoloniais. Apresentamos os principais temas, agendas de pesquisa e desafios metodológicos que encontramos e divulgamos através do podcast Mundaréu, a partir das indagações propostas na pesquisa.

Palavras-chave:
feminismo; antropologia da ciência e tecnologia; podcast; América Latina; transmidialidades

Abstract

How to communicate results, dispute meanings, talk about feminist research carried out in Latin America with a wider audience than the scientific one? In this article, we present some of the results of the research “A World of Stories: feminist anthropology of science and technology in Latin America” (Fapesp 2022/05943-0). We produced 25 podcast episodes, interviewing Brazilian, Argentinian and Colombian anthropologists and the people they work with. As part of the process for the production of the episodes, our team mapped research in the field of anthropology of science and technology produced in the three countries, with anti-racist, intersectional and decolonial feminist perspectives. We present the main themes, research agendas and methodological challenges that we found and disseminated through the Mundaréu podcast, based on the questions proposed in the research.

Keywords:
feminism; anthropology of science and technology; podcast; Latin America; transmedia

Resumen

¿Cómo comunicar resultados de investigación, disputar significados y hablar sobre las investigaciones feministas realizadas en América Latina con un público más amplio que el científico? En este artículo, presentamos algunos de los resultados de la investigación “Un mundaréu de historias: antropología feminista de la ciencia y la tecnología en América Latina” (Fapesp 2022/05943-0). Producimos 25 episodios de podcast, entrevistando a antropólogas brasileñas, argentinas y colombianas, así como a personas con quienes trabajan. Como parte del proceso de producción de los episodios, nuestro equipo mapeó investigaciones en el campo de la antropología de la ciencia y la tecnología realizadas en los tres países, con perspectivas feministas antirracistas, interseccionales y decoloniales. Presentamos los principales temas, agendas de investigación y desafíos metodológicos que encontramos y difundimos a través del podcast Mundaréu, a partir de las preguntas planteadas en la investigación.

Palabras clave:
feminismo; antropología de la ciencia y la tecnología; podcast; América Latina; transmedialidades

It matters what stories we tell to tell other stories with; it matters what concepts we think to think other concepts with. (Haraway 2016, 118).

Eu diria, então, que mesmo se houver um sujeito e um objeto, o que se cria é um novo vínculo. É esse o papel da experimentação. Criar um vínculo é o que faz os cientistas dançarem. Até que eles param de dançar quando pensam em “possíveis interessados” e em “quem pode dar dinheiro” [risadas]. De todo modo, existe alegria na criação do vínculo, e é essa alegria que deve ser protegida. (Stengers, apud Pinheiro Dias et al. 2016, 165).

Contar histórias pode abrir para que imaginemos outros futuros. Como nos provoca Donna Haraway (2016), importa quais histórias a gente conta, para poder contar outras histórias juntas. Foi com essa inspiração que começamos a desejar uma antropologia da ciência e da tecnologia que pudesse falar sobre pesquisas e desafios enfrentados por mulheres e outras populações minoritárias em seus cotidianos de atuação na universidade. Embora o campo de estudos de gênero tenha se consolidado como um campo autônomo e legítimo das ciências sociais e humanidades, os anos 2010 logo vieram para mostrar que retrocessos são possíveis, direitos conquistados podem ser revogados ou invalidados, e que o mundo não é um espaço seguro.

O ambiente acadêmico, que poderia ser um espaço para experimentação e amplificação da equidade, foi se mostrando ainda mais permeável e ressonante das diversas formas de violência de gênero e misoginia presentes em outros espaços sociais. Os diversos e silenciosos mecanismos de exclusão - como a competitividade quantitativista, a hostilidade ao trabalho de cuidado familiar e doméstico, a dificuldade para pesquisadoras mães se consolidarem e serem reconhecidas, sem falar nos episódios de assédio moral e sexual, e casos de misoginia escancarada, que ainda hoje acontecem - foram se tornando mais e mais evidentes e incômodos.

As pesquisas sensíveis às temáticas de gênero, raça e outros marcadores foram precursoras de abordagens teóricas e metodológicas inovadoras no campo dos estudos sociais das ciências e das tecnologias. Estas abordagens, a partir de perspectivas feministas antirracistas, interseccionais e decoloniais, foram mais recentemente se consolidando nas diferentes disciplinas que o compõem: a situacionalidade do conhecimento (Harding 1986, 2015; Haraway 1995; Anzaldúa 1987); a importância das materialidades na abordagem crítica sobre as ciências (Barad 2007; Mol 2002; Butler 1993); a produção criativa e politicamente situada a partir da América Latina, e diante de contextos de precariedade (Vessuri 1987; Roca e Versino 2010; Medina et al. 2014; Pérez-Bustos 2017; Rohden e Monteiro 2019; Gonzalez, 2020; Anigstein Vidal et al. 2023).

Assim como o Estado, a Ciência, produzida principalmente em universidades no Brasil e na América Latina, pode ser um espaço violento para as pesquisadoras, especialmente quando elas estão em situações de poder (Pereira 2017; Grossi e Rea 2020). Na pesquisa "Um mundaréu de histórias: antropologia feminista da ciência e da tecnologia na América Latina" (FAPESP 2022/05943-0)1, produzimos um mapeamento de pesquisas na área da antropologia da ciência e da tecnologia, com perspectivas feministas antirracistas, interseccionais e decoloniais. Levantamos temas, questões e problemas que vêm sendo trabalhados por pesquisadoras desta área em diferentes estados e regiões do Brasil (de universidades centrais, às mais recentes e localizadas fora dos eixos urbanos usuais), e nos dois países das pesquisadoras colaboradoras do projeto, Argentina e Colômbia.

O mapeamento resultou em um conjunto de mais de 280 pesquisadoras, nos três países, trabalhando nas interfaces entre ciência e tecnologia (ou outros modos de conhecimento) e perspectivas feministas. Atualmente, e por iniciativas vinculadas a este projeto, muitas dessas pesquisadoras se reúnem na Rede Latinoamericana de Antropologia Feminista das Ciências e das Tecnologias, a RAFeCT2. O levantamento de pesquisadoras serviu para embasar as escolhas de quais pesquisadoras seriam visitadas em suas universidades e entrevistadas por nós, para veiculação e divulgação de suas pesquisas pelo podcast Mundaréu.

Esses dados serão apresentados e discutidos em outro artigo. Mas, resumidamente, levantamos pesquisadoras brasileiras a partir dos dados de Programas de Pós-Graduação em Antropologia e Ciências Sociais e nos principais eventos da área, no Brasil. Nos países parceiros, esse levantamento foi feito através dos sites das universidades, e das redes das duas pesquisadoras da equipe.

O objetivo da pesquisa foi experimentar a multimodalidade como metodologia de pesquisa, e as diferentes possibilidades de produzir afetos e intervenções a partir de linguagens criativas e inovadoras. Neste artigo, discutimos os resultados a partir dos episódios e séries que foram produzidos entre 2023 e 2025. Apresentamos aqui os principais temas, agendas de pesquisa e desafios metodológicos que encontramos ao mapear e entrevistar as pesquisadoras brasileiras, argentinas e colombianas.

Ao trazer essas discussões que experim entam a potencialidade do som, da mídia sonora, pudemos amplificar vozes e problemas que são coletivos e compartilhados por diversas mulheres pesquisadoras latinoamericanas. O podcast é uma boa linguagem para fazer ouvir vozes que foram silenciadas e para a mobilização política na direção de uma transformação das estruturas de desigualdade (Hack 2023). Além disso, se tornou um campo de produção midiática e de pesquisa consolidado em diversas áreas, inclusive a antropologia (Luiz 2014; Quintana Guerrero et al. 2017; Linares et al. 2018; Kwok 2019; Lundström e Lundström 2021; Parreiras e Lacerda 2021; Lindgren e Loviglio 2022; Fleischer e Manica, 2021; McHugh 2022; Cook 2023; Euritt 2023; Sullivan 2024; Beckstead et al. 2024).

O podcast tem a especificidade de poder trazer sonoridades locais, sensibilidades que se tornam palpáveis através das vozes das entrevistadas, permitindo uma outra forma de se afetar pelas histórias de pesquisa (Manica et al. 2022; Euritt 2023; McHugh 2022). Contar outras histórias do que aquelas que normalmente são escolhidas como exemplares na divulgação e no jornalismo científico nos permite, entre outras coisas, dar visibilidade às pesquisas minoritárias de mulheres em diferentes localidades.

A pesquisa nos permitiu conhecer histórias de pesquisa de Norte (Belém, Boa Vista) a Sul (Porto Alegre) do Brasil, cruzando também Nordeste (São Luís, Maceió) e Centro-Oeste (Goiânia), sem deixar de passar pelo Sudeste (Campinas, Rio de Janeiro). Também nos permitiu saber os desafios, atualmente, ainda maiores, das nossas colegas argentinas e encontrar similaridades e diferenças com as pesquisadoras colombianas.

Para cada uma dessas histórias, as vozes das pesquisadoras entrevistadas em conversa com as nossas vozes formam um repertório variado de outras formas de referências sobre as pessoas que fazem a ciência no Brasil. Uma forma ainda aberta à imaginação imagética, por entregar apenas o som. Ao ouvir o episódio, a/o ouvinte é guiada/o a imaginar o que está sendo dito. Um convite à fabulação através do som das cenas de nossa narração. Por exemplo, de como será, fisicamente, a pesquisadora entrevistada e como será a universidade que visitamos e que descrevemos, com sua ambiência sonora. Pelo sotaque, expressões e emoções, a/o ouvinte vai construindo outras formas de percepção sobre a pesquisadora que está escutando, imaginando-a como uma personagem. E essa imaginação de como essa pesquisadora “pode ser" é aberta, uma vez que as fotografias das participantes do episódio não são imediatamente entregues pelo áudio. O Mundaréu é um podcast de áudio exclusivamente, não um videocast.

O som, diferente do audiovisual, abre espaço para a/o ouvinte imaginar a partir do que estamos narrando. Cada experiência é única, permeada pela individualidade, referências e particularidades de quem está nos ouvindo. Ao mesmo tempo, vamos construindo juntas um novo repertório de quem são as cientistas brasileiras e de como elas fazem ciência. Nesse sentido, o podcast promove um tipo similar de abertura imaginativa ao da literatura. Se a/o ouvinte não quiser ver as pesquisadoras, acompanhando fotos e vídeos que as divulgam nas redes sociais, pode só conhecer suas vozes, sotaques e ideias. Isso permite desenhar universidades e pesquisadoras com imaginação e criatividade.

Experimentações com podcast: contando outras histórias

O Mundaréu é um projeto de pesquisa, ensino e extensão, no campo da divulgação científica e cultural, e dedicado a falar sobre a pesquisa em Antropologia Social3. Começamos a gravar entrevistas e produzir episódios de Campinas, Brasília e outras cidades brasileiras em 2019. De início, foi feito em colaboração com Soraya Fleischer, professora da Universidade Nacional de Brasília, parceria que durou até 2024. Atualmente, segue sediado no Labjor/Unicamp, sob coordenação de Daniela Manica. Em nossos episódios, sempre entrevistamos uma antropóloga e alguém com quem essa antropóloga fez pesquisa, uma interlocutora, uma amiga ou outra pesquisadora. Nossas conversas envolvem mais do que apenas a pesquisadora, são sempre dialógicas. Não publicamos a entrevista na íntegra, trabalhamos a edição e o roteiro, intercalando com trechos sonoros e comentários nossos.

Com o financiamento que tivemos da FAPESP em 2022, desenhamos um projeto que envolveu a tentativa de responder questões através da produção dos episódios de podcast. Ao longo do artigo, vamos elencar e procurar responder algumas delas. Estamos especialmente interessadas em projetos de pesquisa que trabalhem para repensar o nosso papel como cientistas (sociais) em práticas de dominação e opressão, reavaliando os nossos privilégios, repensando as explicações que construímos para o mundo e como viver melhor nele, coletivamente.

Dentre os objetivos da pesquisa estiveram: o mapeamento de pesquisas em socioantropologia da ciência da ciência e da tecnologia com perspectivas feministas decoloniais e antirracistas sobre as tecnociências produzidas na América Latina; gravação e divulgação de entrevistas com algumas das pesquisadoras encontradas; reflexões de pesquisa sobre a linguagem em áudio no formato podcast; experimentar movimentos de transmidialidades entre o suporte usual de comunicação científica (o artigo científico) e suas traduções possíveis, seu rendimento e suas transformações no suporte de mídia sonora (podcast, arquivo de áudio, web rádio); investir no trabalho coletivo, interdisciplinar, interinstitucional e internacional como metodologia de formação de pesquisadores e processos de profissionalização; capacitar e treinar estudantes, pesquisadores e profissionais nas habilidades de produção de podcasts e a pesquisa na área de Antropologia da Ciência e da Tecnologia, com enfoque internacional e regional; e disseminar as pesquisas científicas desenvolvidas com perspectiva feminista na América Latina, costurando suas potencialidades a partir de uma perspectiva que prioriza as transmidialidades e a divulgação científica.

Procuramos pesquisadoras vinculadas a universidades públicas brasileiras, que trabalhassem na área de antropologia ou tivessem uma forte ligação com a antropologia, e cujo curriculum vitae tivesse um vínculo atual com pesquisas que dialogassem com ciência e tecnologia, ou técnicas e modos de conhecimento, e que demonstrem algum diálogo com teorias feministas. Chegamos inicialmente a 128 pesquisadoras através da seguinte metodologia: buscamos nomes nos sites de Departamentos e Programas de Pós-graduação de Antropologia e outras disciplinas relacionadas (Ciências Sociais e interdisciplinares); procuramos por autoras nas bases de repositórios de artigos (Scielo e Jstor) com artigos que tivessem as seguintes palavras-chave: antropologia, ciência, tecnologia, feminismo, gênero; buscamos por participantes de mesas redondas e painéis fechados ou proponentes/debatedoras de grupos de trabalho ou grupos temáticos, minicursos e oficinas nos principais eventos do campo: ReACT, Esocite.br; Esocite Latinoamericana. A intenção inicial desse levantamento era construir um mapa que nos ajudasse a decidir quais seriam os episódios das temporadas 4, 5 e 6 do podcast Mundaréu.

Procuramos, ao selecionar as entrevistadas, compor um mosaico que contivesse: diversidade regional (entrevistamos pesquisadoras das cinco regiões do Brasil); diversidade temática (privilegiando abordar temas e objetos de pesquisa diferentes em cada episódio); e representatividade ampliada (escolhendo pesquisadoras negras e indígenas, em etapas iniciais ou intermediárias da carreira, e/ou menos conhecidas nacionalmente). As escolhas também passaram pela facilidade em estabelecer contato (algumas mensagens que enviamos nunca tiveram resposta) e disponibilidade da pesquisadora na semana de gravação (algumas gravações que desejávamos fazer não foram possíveis por incompatibilidade de agenda).

Queríamos criar uma primeira imagem contextual e localizada desse campo, abrindo também possibilidades de costurar uma rede. Em 2023, publicamos a quarta temporada (Mundaréu 2026b), com cinco episódios produzidos no Brasil, e em 2024 foram mais cinco episódios na quinta temporada (Mundaréu 2026c). Também publicamos em 2024 uma série a partir das gravações na Argentina (Mundaréu 2026e), com quatro episódios, e fizemos o mesmo com a Colômbia em abril de 2025, com cinco (Mundaréu 2026f). A sexta temporada foi ao ar com seis episódios no segundo semestre de 2025, o último deles republicando uma mesa redonda cujos textos compõem, em parte, este dossiê (Mundaréu 2026d).

Como experimentar a transmidialidade do som, do texto e da imagem através de podcasts?

A partir do nosso levantamento inicial de pesquisas na área, entramos em contato com algumas das pesquisadoras, a fim de gravar as entrevistas e produzir os episódios. Como nossa produção envolve roteirização, edição, produção musical, e trabalhamos com uma equipe de estudantes em formação acadêmica, desde a graduação até o pós-doutorado, conseguimos produzir, no máximo, cinco ou seis episódios das temporadas regulares, e de uma a duas séries temáticas por ano, com quatro a seis episódios em média.

Para além do mapeamento de pesquisadoras e as gravações de episódios, procuramos também ocupar estrategicamente eventos da área das ciências sociais e estudos sociais de ciências no Brasil e na América Latina, com discussões sobre Antropologia Feminista da Ciência e da Tecnologia (Manica 2023).

Algumas dessas intervenções foram publicadas também em formato de áudio. Na quarta temporada (2023), fizemos quatro episódios temáticos e um episódio final gravado na Reunião de Antropologia do Mercosul de 2023, durante uma mesa redonda que propusemos sobre o tema da Antropologia Feminista da Ciência e da Tecnologia4 [Episódio 25] (Mundaréu 2023d, episódio #25). Na quinta temporada (2024), reproduzimos um fórum intitulado "Perspectivas feministas sobre ciência e tecnologia: experiências de troca e mobilização a partir da antropologia"5 [Episódio 26] (Mundaréu 2024a, episódio #26). E, finalmente, a sexta temporada conta com uma mesa redonda ocorrida no encontro da Anpocs de 2024, que se perguntava, “É possível fazer uma ciência feminista no Brasil do século XXI?”, cujo áudio está sendo publicado conjuntamente com o presente dossiê [Episódio 366] (ANPOCS 2024).

Os episódios temáticos das temporadas regulares apresentam uma edição da nossa conversa de gravação com a antropóloga e uma interlocutora de pesquisa. A entrevista é gravada in loco e incorporamos no episódio uma ambientação da universidade, com a paisagem sonora gravada e uma audiodescrição dos laboratórios e grupos de pesquisa, a partir do nosso encontro. Os episódios sempre começam com a trilha sonora composta por uma música que selecionamos previamente, de artistas independentes que tenham um estilo e produção musical afinados a nossa perspectiva estético-política. Nas três temporadas que compuseram o projeto, trabalhamos com a artista brasileira Janine Mathias e a música "Já foi" (YouTube 2025).

O podcast é uma mídia em áudio, que circula pelas plataformas de streaming, e que pode ser escutada sem nenhum recurso adicional além do acesso à plataforma (ou ao nosso site) e alguma caixa de som ou fone de ouvido. Nossa produção está situada em um servidor próprio mantido pelo Labjor, Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A distribuição do áudio acontece via “rss”, uma tecnologia que permite a entrega do arquivo em diversos agregadores e tocadores de podcast acessados pelo público ouvinte, além de manter informações textuais e imagéticas adicionais na página do podcast.

Nas páginas em que veiculamos o episódio, acrescentamos diversos elementos: fotografias tiradas nas cidades e universidades visitadas como imagens de destaque, construindo uma metalinguagem imagética sobre o tema do episódio; uma breve descrição das principais questões abordadas no episódio; referências aos currículos das pesquisadoras e demais profissionais entrevistadas; sites de movimentos sociais, ONGs e demais iniciativas que participaram da discussão; publicações acadêmicas e não-acadêmicas, relacionadas ao tema pesquisado; créditos da equipe e trabalhos desempenhados para a produção do episódio.

O texto, resultado mais usual do trabalho científico, não está, portanto, ausente do produto que fazemos, mas aparece como uma camada adicional de informação possível de ser acessada. As pesquisadoras fazem menção às suas pesquisas de pós-graduação, livros ou artigos publicados, e a/o ouvinte pode facilmente acessar esse material enquanto escuta, ou mesmo depois. Esta é uma forma mais aberta e criativa de estimular a divulgação científica: o conhecimento aparece contextualizado a partir de uma conversa que circula por áudio, e está a ela relacionado. Para quem gosta mais do “visual”, as fotografias e vídeos da gravação com as pesquisadoras visitadas são veiculadas em nosso site e em nossas redes sociais.

Assim, fotos, textos, imagens e vozes se entrecruzam em uma conversa feita entre muitas pessoas, em geral, mulheres: nós da equipe, entrevistadoras e interlocutoras, as pesquisadoras e as pessoas que elas convidaram para participar da gravação. Nos cortes produzidos para as redes sociais, essas vozes viram fotos, vídeos curtos, links para os perfis das pesquisadoras em redes sociais. Como trabalhamos com edição, nossos vídeos são compostos por gravações de vídeo feitas com celular, e editadas para terem um trecho em destaque do episódio, em áudio e legendado, como som de fundo.

No episódio que gravamos em Goiânia, por exemplo, o episódio 29, “Entre fissuras e cortinas: modos feministas de habitar a memória” (Mundaréu 2024d, episódio #29), o vídeo que produzimos para o Instagram dá corpo, entre outras coisas, ao “Monumento às três raças” (Mundaréu Podcast 2024f). O monumento ocupa uma praça central da cidade, materializando os discursos colonialistas e androcêntricos que estão sendo problematizados no episódio. Ao mesmo tempo em que escutamos um trecho da fala da entrevistada, Camila Wichers, vemos um pouco da visita que a equipe do Mundaréu fez ao MIS, Museu de Imagem e Som; e também ao Ser-Tão, Núcleo de ensino, extensão e pesquisa em gênero e sexualidade da Universidade Federal de Goiânia; além de conhecermos a própria Camila, ao vê-la sendo entrevistada e gravada pela equipe.

Assim, a prerrogativa do podcast (o áudio) abre perspectivas para fotos, vídeos e referências importantes para pensar, no caso exemplificado, os dispositivos museológicos de perspectivas feministas antirracistas e decoloniais. As/os pesquisadoras/es nos indicam seus trabalhos de pesquisa e mais referências bibliográficas para aprofundarmos a discussão sobre o tema. E acrescentamos à página informações sobre espaços, instituições e pessoas que são citadas no episódio. Atualmente, os principais tocadores legendam automaticamente os episódios em áudio, visando a acessibilidade. Mas, desde o início, no Mundaréu, incluímos nas páginas a transcrição completa e acessível do roteiro, que pode ser baixada e lida também em pdf.

Como comunicar resultados, disputar sentidos, falar sobre as pesquisas feitas na América Latina com um público mais amplo que o científico?

Com o golpe parlamentar de 2016 e toda a agenda misógina e antigênero que se sucedeu, estabelecer alianças políticas feministas dentro e fora da universidade se tornou um imperativo de sobrevivência. Facchini e Sívori (2017) discutem a ameaça da resposta conservadora frente às conquistas e a visibilidade dos movimentos sociais. No debate político, como Almeida (2017) coloca, grupos conservadores e religiosos, em destaque os evangélicos, se articulam em interesses específicos. Há uma forte mobilização contrária aos direitos sexuais e reprodutivos (Vaggione 2017).

Muitos ataques surgiram de todos os lados às pesquisadoras que discutem temáticas de gênero, raça e sexualidade, e à aplicação de seus conhecimentos para fora da academia: projetos de extensão em direitos humanos foram sendo perversamente atribuídos à "ideologia de gênero", intelectuais feministas passaram a ser perseguidas, virtual e fisicamente. Segundo Luna (2017), "ideologia de gênero" se torna uma acusação e sua censura, por meio de criminalização de condutas, manejo de pânicos morais e distorção de argumentos científicos, bloqueando os avanços nos direitos de gênero e sexualidade. Esse processo evoca a dupla necessidade de trabalhar melhor o sentido público do conhecimento antropológico (sobre gênero, inclusive), e de humanizar e fortalecer as pesquisadoras da área diante da opinião pública e também internamente, nas universidades e instituições de pesquisa.

O Mundaréu e a pesquisa que desenvolvemos se desdobram do desejo de produzir ciências sociais atentas aos diálogos mútuos (Sanjek 2015), ao compromisso de "contar outras histórias" (Haraway 2016; Manica, 2019), envolvidas com sua vocalidade pública (Vogt 2012; Fleischer e Manica, 2021), e inventando formatos e metodologias criativas, críticas e experimentais (Anigstein Vidal et al. 2023; Ballestero e Winthereik 2021; Baines e Costa 2022). O projeto aposta em diferentes recursos verbais, com seus sotaques e formas de explicação, com o caráter informal e a cadência da oralidade.

Aposta também no encontro entre a antropóloga e sua interlocutora para uma reflexão conjunta - o "falar com"-, evitando formatos mais convencionais de falar “sobre”, ou falar “de” outrem. E aposta na história, vivida junto ou testemunhada coletivamente, como principal maneira de narrar sobre o mundo. O áudio permite que se conheça, a um só tempo, a voz em primeira pessoa, a polifonia de vozes e a emoção do recontar. Para disputar o sentido público da temática de gênero, das questões feministas e das pesquisas desenvolvidas nas universidades latinoamericanas que buscamos com o projeto divulgar, é preciso encontrar uma forma de atrair interesse e atenção. Os formatos “aula”, “palestra”, “seminário” e “artigo” são e podem, também, cumprir essa função, embora estejam, de partida, voltados em sua linguagem e público-alvo para os próprios pares acadêmicos. Ao trazer a pesquisa e suas histórias para um formato de conversa, narrado e intercalado por passagens musicais, esperamos abrir o formato para outras possibilidades afetivas, que produzem outras formas de engajamento público, para além do acadêmico.

Assim, as/os ouvintes são convidadas/os nos episódios a nos acompanharem na visita de gravação, chegam junto conosco à universidade ou ao local onde gravamos. Descrevemos em narrativa o espaço que encontramos. Por exemplo, no episódio 27, “As mães que, sim, existem: amamentação e perspectivas feministas” (Mundaréu 2024b, episódio #27), gravamos no consultório de Bianca Balassiano, que atende mães e pessoas que amamentam em suas dificuldades e problemas durante o período da amamentação. O episódio discute perspectivas feministas para a amamentação, um tema bastante carregado de expectativas e ideais de dedicação, muitas vezes inatingíveis. Começamos a ambientação solicitando à Marina Nucci, antropóloga e professora do IMS/UERJ, cuja pesquisa estávamos conhecendo, que descrevesse a sala de Bianca, dando também à ouvinte o contexto dos sons de fundo que seriam escutados durante o episódio, como buzinas, ambulâncias, e as várias presenças dos “peitos” em formato de decoração, no consultório de Bianca (Mundaréu 2024b, episódio #27, minuto 2'55’’).

Os dilemas do puerpério e dificuldades com processo de amamentação, desmame e outras situações da maternidade são questões absolutamente comuns ao cotidiano das pessoas, e uma conversa com uma consultora de amamentação é uma forma de atrair esse público às contribuições que a antropologia feminista tem para dar. Essa perspectiva é trazida por Marina ao falar, junto com Bianca, sobre esses ideais de maternidade que “não existem”, e trazer a discussão para as mães que, sim, existem, as experiências reais de maternidade. Os resultados da pesquisa de Marina e de outras autoras, que ela referencia verbalmente no episódio, são trazidos, portanto, a partir de uma questão concreta, e indicados como referências para pensar sobre os problemas enfrentados pelas mães em suas experiências com a amamentação.

Da mesma forma, o episódio, subsequente, 28, “Outubro mais-que-rosa: críticas feministas antirracistas e o câncer de mama” (Mundaréu 2024c, episódio #28), traz o dilema da reconstrução mamária pós-câncer para um enquadramento feminista e antirracista, a partir das experiências de pesquisa da antropóloga Waleska Aureliano, também professora da UERJ, e de ativismo de Jacqueline Faria com a ONG “Mulheres de peito e cor”. Ambas problematizam, de um ponto de vista feminista, a preocupação com a manutenção de um corpo tendo em vista expectativas exógenas sobre a feminilidade e a sensualidade, que pouco tem a ver com os dilemas e dificuldades de uma mulher que está passando pelo processo do câncer. Além disso, discutem também como as desigualdades de raça e classe prejudicam mais as mulheres negras no acesso menor à detecção precoce do câncer.

Como é negociada a perspectiva feminista no contexto da pesquisa?

No campo e nas interfaces CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade), a antropologia é, talvez, a primeira área a relativizar a questão da neutralidade e impessoalidade na escrita e na autoria científica (Harding 1986, 2015; Haraway 1995). O campo de estudos de gênero e sexualidade consolida a historicidade e o androcentrismo na produção acadêmica e científica, entre outros processos políticos que constituem o conhecimento científico (como a colonialidade e o capitalismo). Assim, esperávamos encontrar nas antropólogas entrevistadas uma atuação segura e favorável a pesquisas politicamente situadas. Contudo, nas diversas entrevistas que fizemos, foram muitos os relatos de constrangimentos, limitações e oposições encontradas por elas em suas atuações na universidade. O artigo de Tania Pérez-Bustos, que compõe este dossiê, sistematiza e atualiza essa discussão no campo da pesquisa latinoamericana contemporânea.

Algumas das temáticas que encontramos são especialmente sensíveis e difíceis de desenvolver. Começando pelo episódio 22, “Nos rastros das mulheres na Antropologia Visual” (Mundaréu 2023b, episódio #22), com a professora Fabiene Gama, do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e sua equipe do laboratório Navisual, partimos do silêncio ensurdecedor sobre as contribuições de mulheres à Antropologia Visual. Elas recuperam, com suas pesquisas, histórias de mulheres que produziram registros etnográficos no início do século XX no Brasil. Histórias apagadas, não contadas, com desafios metodológicos imensos que envolvem: como rastrear nomes e sobrenomes em registros pouco sistemáticos; organizar os dados a partir de indexadores não padronizados; acessar arquivos e fontes de pesquisa; adivinhar a autoria em fotografias sem registros claros ou confiáveis; enfim, navegar entre indícios deixados por essas mulheres em um momento em que a autoria não era algo reconhecido e reservado para mulheres. É um episódio sobre uma pesquisa voltada à recanonização da Antropologia, em uma direção feminista. Mas, que parte de enfrentar tecnicamente o silenciamento historicamente produzido sobre as mulheres como produtoras de conhecimento e pesquisa.

Já a professora Paula Sandrine Machado, do Instituto de Psicologia da UFRGS em Porto Alegre, e sua equipe de pesquisa nos contam sobre os desafios para abrir um novo campo de pesquisa dentro de um hospital universitário, e também para trabalhar com crianças e infâncias nesses contextos. No episódio 23, “Infâncias e hospitais” (Mundaréu 2023e, episódio #23), trazemos a discussão sobre casos de crianças que não nascem ou não se desenvolvem de acordo com aquilo que é considerado “normal”: crianças intersexo, crianças gordas, crianças transexuais. No contexto das ofensivas antigênero, o corpo das crianças é um espaço de disputa política importante, e a experiência feminista tem sido um campo para a construção de pesquisas e ações políticas no Brasil. As entrevistadas falam, entre outras coisas, das dificuldades de fazer essa agenda minoritária entrar no hospital, um espaço eminentemente dominado pelo discurso biomédico, no qual, as contribuições antropológicas e feministas não têm um lugar seguro para se desenvolverem.

Este é, também, o problema ao se falar sobre parto e obstetrícia no Brasil. No episódio 24, “O parto como travessia” (Mundaréu 2023c, episódio #24), Débora Allebrandt, antropóloga, e Rosiane Oliveira, doula, falam sobre as experiências violentas com parto, as hostilidades do cenário obstétrico no Brasil e as alianças de mulheres para que perspectivas feministas com o cuidado possam ser implementadas nos serviços de atenção ao parto. Elas nos contam os desafios para os direitos reprodutivos no Brasil, e sobre como, no cotidiano hospitalar, doulas e antropólogas são vistas como profissionais menores, menos importantes. Débora desenvolve, também neste dossiê, essa discussão, contando inclusive como a concorrência de projetos com enfoque explicitamente feminista em editais é boicotada e estrategicamente arriscada.

Dois episódios da sexta temporada, produzidos na região Nordeste e Norte (São Luís7 e Boa Vista8), falam especificamente de como a atuação profissional de mulheres na universidade é impactada pelas dinâmicas de assédio, estupro e violências diversas de gênero. Dessa maneira, a agenda de pesquisa dessas cientistas acaba tendo que ser pautada pela (quando não pausada para a) construção de equipamentos e políticas internas à universidade para assegurar que existam mecanismos de letramento, coibição e punição das violências misóginas e racistas na universidade, em especial (mas não apenas), por docentes e funcionários.

Quais são os impactos de ouvir diretamente as vozes, as emoções e os silêncios das próprias acadêmicas feministas?

Há muitas coisas importantes que não cabem no texto. Ao prefaciar a coletânea Feminismos e podcasts (Hack 2023), que reúne uma dezena de experiências com podcasts feministas, Soraya Fleischer defende o podcast como um “lugar para fazer ouvir a sua voz” (Fleischer 2023, 14). Falar em si e poder falar publicamente, é bom lembrar, é uma conquista recente das mulheres e outras comunidades minoritárias. Para além dessa figura metafórica e literal do “colocar a sua voz”, a fala articulada carrega, também, muitas informações que extravasam as potencialidades da escrita em texto: cabem pausas, silêncios, sussurros, gritos, espirros e tosses, vícios de linguagem e sotaques. Cabem formas de falar: aceleradas; lentas; altas; baixas; e as emoções que se expressam através delas: assertividade ou insegurança; empolgação ou desânimo; alegria ou tristeza. Cabe hesitar e chorar, celebrar e gargalhar. Nossos episódios têm um pouco de tudo o que foi listado acima, em doses variadas a cada caso. Risadas com frequência, em algum momento em todos os episódios. Pois, como sugere Isabelle Stengers na epígrafe, é preciso fazer as coisas também com alguma alegria.

No primeiro episódio do projeto, 21, “Todo laboratório é sobre pessoas” (Mundaréu 2023a, episódio #21), entrevistamos Marisol Marini, que é antropóloga, e Sandra Ávila, professora do Instituto de Computação da Unicamp. Falamos de muitas coisas, dentre elas o espaço de trabalho de Sandra, a presença de mulheres na computação, o desenvolvimento de máquinas e de tecnologia. Mas o ponto onde a presença da emoção feminista antirracista mais se expressou foi quando Sandra nos contou como a questão do racismo na ciência atravessou a sua pesquisa.

Na sua rotina de trabalho e pesquisa, ao desenvolver um programa para detecção de câncer de pele, Sandra, um dia, se deu conta de que estava descartando os dados que informam sobre câncer de pele na população negra: imagens das palmas das mãos e dos pés, e unhas. Esses são os locais onde o câncer se manifesta em pessoas negras, e o protocolo sugeria descartar essas imagens. Perguntamos a ela o que ela fez quando se deu conta disso: “Chorei [risos] (...) eu chorei, chorei bastante naquele dia porque pensei bem assim “poxa, tô fazendo tudo que eu não queria fazer, né?” (Mundaréu 2023a, episódio #21, minuto 19'25’')9.

Outro episódio que mobiliza histórias que envolvem violências de gênero e raça, mas também de territorialidades e modos de existência quilombolas é o episódio 31, “Territorialidade e a resistência de mulheres quilombolas no Vale do Jequitinhonha (MG)”, da sexta temporada (Mundaréu 2025a, episódio #31), gravado com Flora Rodrigues Gonçalves, antropóloga e pesquisadora de pós-doutorado na Fiocruz, e Maria Aparecida Machado Silva, liderança do Quilombo Córrego do Rocha, do Vale do Jequitinhonha (Minas Gerais). Cida nos conta dos desafios para conseguir assegurar direitos básicos à população que ela representa como liderança local, como o acesso à água e comida. Fala como foi difícil garantir o mínimo para a sobrevivência durante a pandemia de covid-19, e como o cenário pós-pandêmico é de um triste êxodo da população para as grandes cidades, em busca de melhores condições de vida. São “lágrimas compridas”, parafraseando Cida, que atravessam seus corpos e se materializam na ausência de políticas públicas. No episódio, cabem os sotaques e as múltiplas vozes, também o choro, o lamento, e a alegria de resistência e da amizade. Enfim, uma polifonia criativa das alianças feministas que constituímos com desejo, esperança e ternura.

Em que medida o desenvolvimento científico/tecnológico responde a prioridades coletivas, populares e locais, ligadas a perspectivas politicamente situadas?

Conforme vimos nas conversas com nossas entrevistadas e suas interlocutoras, ocupar o campo científico e tecnológico com propostas minoritárias é sempre muito desafiador, quando não arriscado. Sabemos quais são as matrizes políticas da tecnociência (Haraway 1997), ancoradas em projetos colonialistas e misóginos, ainda que sigam travestidas de uma pretensa objetividade, neutralidade e imparcialidade. Ocupar a ciência com uma agenda de pesquisa que responda a prioridades coletivas, populares e locais, ligadas a perspectivas politicamente situadas a partir dos feminismos antirracistas e decoloniais é um movimento que envolve nadar contra a corrente, metáfora que sugere que é preciso fazer muito mais força, pois há outra força operando na direção contrária.

Encontramos, em nossas pesquisas, diversas iniciativas que se ancoram nessa esperança combativa. Vários dos episódios, apresentados anteriormente, o fazem. Mas também, por exemplo, com o episódio 30, “Nosso museu está vivo, nosso conhecimento está no território” (Mundaréu 2024e, episódio #30), trazemos novamente uma discussão sobre museus e memórias, mas partindo de experiências com contra-narrativas e a ocupação de pesquisadoras indígenas em espaços museológicos. Conversamos com Claudia Lopes e Ana Manoela Karipuna sobre o legado da cultura material indígena que habita museus como o Emílio Goeldi, no Pará. Ana Manoela nos fala das perspectivas de mulheres indígenas sobre a universidade e a ciência, aproveitando o espaço que o projeto de uma ciência intercultural, como o que é liderado por Claudia, abre para diálogos e produções em outros formatos. A gente também conversou com a mãe de Ana Manoela, Suzana Karipuna, que cuida da reserva técnica e do acervo do Museu. Descolonizar os museus, guardiões da nossa memória coletiva, é aproximar a ciência das experiências comunitárias, minoritárias e locais.

Da mesma forma, o episódio que gravamos na ilha do Marajó, também na sexta temporada (Mundaréu 2025b, episódio #32), situa o impacto da presença de um campus da Universidade do Estado do Pará na cidade de Salvaterra, e acompanha o “Empodera Marajoara”, um projeto de extensão dedicado à capacitação profissional de mulheres da cidade e da comunidade quilombola Boa Vista. Pautado pelos ideais feministas de empoderamento de mulheres, o projeto leva uma série de serviços de educação e saúde para a comunidade, e, no episódio, discutimos um pouco das diversas complexidades envolvidas nesse processo.

Como essas questões se desdobram nos contextos de nossas vizinhas latinoamericanas?

Para além de mapear a produção feminista brasileira no campo da antropologia da ciência e da tecnologia, nossa pesquisa também circulou pelos dois países parceiros do projeto, Argentina e Colômbia. Em ambos, desenvolvemos séries temáticas entrevistando pesquisadoras mapeadas, principalmente, através das redes das pesquisadoras envolvidas no projeto, Alejandra Roca (UBA) e Tania Pérez-Bustos (UNAL).

Na série “Mundaréu na Argentina” (Mundaréu, Mundaréu na Argentina), publicada em 2024, procuramos trazer as dinâmicas da antropologia feminista no contexto argentino, destacando a produção científica e a atuação política de pesquisadoras vinculadas a quatro instituições acadêmicas: Universidad de Buenos Aires (UBA), Universidad Nacional de Arturo Jauretche (UNAJ), Universidad Nacional de José C. Paz (UNPAZ) e Universidad Nacional de Mar del Plata (UNMDP). Os episódios apresentam o diálogo entre militância feminista e pesquisa acadêmica, evidenciado na trajetória de Mónica Tarducci e na Colectiva de Antropólogas Feministas (UBA). Foram discutidas práticas pedagógicas feministas e a institucionalização de políticas de gênero e direitos humanos na UNAJ, por meio do trabalho das docentes Daniela Losiggio e Mariela Solana.

A série abordou, ainda, pesquisas sobre tecnopolíticas de gênero na reprodução assistida — incluindo fertilização in vitro, barriga de aluguel e doação de óvulos — conduzidas por Alejandra Roca e suas orientandas na UBA, enfatizando as intersecções entre gênero, raça e classe. Por fim, as resistências feministas e os debates em torno das tecnologias médicas e dos direitos humanos de mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ são as temáticas tratadas pelo Grupo de Estudos sobre Família, Gênero e Subjetividades da UNMDP, com as pesquisadoras Cecília Rustoyburu, Melina Antoniucci e Natacha Mateo.

Já a série “Mundaréu na Colômbia” (Mundaréu 2026f), publicada em 2025, apresentou um panorama das investigações em antropologia feminista conduzidas por pesquisadoras colombianas. Os episódios abordam o entrelaçamento entre afetos, teorias e interseccionalidade nas trajetórias de Mara Viveros Vigoya e Franklin Gil Hernández (UNAL), evidenciando os vínculos entre experiência pessoal e prática acadêmica. Destacam-se também as reflexões de Alhena Caicedo, diretora do Instituto Colombiano de Antropologia e História (ICANH), que articula feminismo e antropologia para analisar as dinâmicas sociopolíticas das mobilizações recentes na Colômbia.

A série inclui discussões sobre metodologias feministas sensoriais, com Ana María Ulloa e Sandra Daza Caicedo, que investigam o engajamento do corpo e as percepções sensoriais nas práticas alimentares e produtivas. A trajetória de Mónica Amador foi apresentada como um exemplo de giros epistemológicos sul-americanos, integrando ecofeminismo, estudos decoloniais e justiça social a partir das experiências locais colombianas. E, por fim, as investigações de Tania Pérez-Bustos e Isabel González Arango articulam o feminismo com as tecnologias têxteis, o cuidado e a produção de conhecimento científico, conectando pesquisa e ativismo em coletivos feministas.

A produção latinoamericana entre Argentina, Brasil e Colômbia converge e difere em vários aspectos: a experiência de precariedade institucional, na manutenção financeira e política das universidades públicas é uma constante nos três países. Essa situação vulnerabiliza mais ainda as pesquisadoras dedicadas às temáticas de gênero e feminismo. Além disso, os impactos das políticas neoliberais na precarização do trabalho docente e de pesquisa são visíveis nas trajetórias e temáticas de pesquisa que encontramos. Tensões e desafios políticos locais refletem os problemas regionalmente compartilhados: a ascensão recente dos movimentos de extrema-direita em resposta ao fortalecimento das perspectivas feministas latinoamericanas e suas provocações em relação aos privilégios e opressões trazidas pelo patriarcado. Isso se reflete nas universidades, a partir de temáticas e iniciativas feministas, e nas ruas, com a mobilização por diversas coletivas, que dialogam, nutrem e compõem com as pesquisas que mapeamos.

As intersecções com questões raciais estão mais próximas entre as produções brasileiras e colombianas, enquanto que, na Argentina, a mobilização pela implementação de leis pautadas pelas agendas feministas foi mais robusta e efetiva, com importantes impactos sobre elas no atual governo de extrema-direita (em 2025). Nos três países, as mobilizações feministas da década de 2010 aparecem como temas de discussão, embora nos episódios brasileiros de forma menos explícita e direta.

Desafios feministas e estratégias de sobrevivência na universidade

Divulgar pesquisas é uma forma de agir politicamente na direção do (re)conhecimento de pesquisadoras e suas temáticas de investigação, além de contribuir para a humanização e valorização das cientistas que atuam na Antropologia e áreas correlatas, que foram tão atacadas e injustiçadas pelas políticas conservadoras e de extrema-direita nos últimos anos.

A defesa dos direitos sexuais e reprodutivos; a crítica à violência de gênero nas universidades e a criação de políticas de acolhimento, cuidado e reparação; a crítica ao apagamento de histórias e trajetórias de mulheres cientistas; olhares e perspectivas feministas e sensíveis às diversidades de gênero e raça no campo da saúde e da tecnologia; a marginalidade de projetos de extensão conectados a demandas locais em comparação a grandes projetos de pesquisa com articulações de mercado e industriais; a necropolítica em territórios quilombolas e as múltiplas estratégias de aliança e resistência sendo tecidas; e pesquisas sobre vieses de gênero e raça na produção científica e tecnológica são alguns dos temas que discutimos nas temporadas e séries produzidas. Os episódios permitiram discutir esses problemas trazendo as contribuições que a Antropologia pode dar para complexificar o debate e propor políticas públicas, e políticas científicas e tecnológicas mais justas e eficazes.

Uma ciência que exclui pessoas negras de seu protocolo, apaga o trabalho e as contribuições de mulheres da sua história, patologiza e destitui crianças de processos decisórios relacionados a seus corpos e sua saúde, violenta e infantiliza mulheres em seus processos de gestação, parto e amamentação não é uma ciência que nos interessa. Uma ciência que reduz mulheres às obrigações de maternidade e a padrões irreais de corpo e sensualidade não é uma ciência que nos interessa. Não queremos também mais seguir com narrativas e memórias coletivas aprisionadas em pactos coloniais violentos, genocidas e de exploração desenfreada do nosso povo e território. Desejamos a total reconstrução nas narrativas e museus, na direção de um outro projeto coletivo que tem pouco a ver com o que temos hoje e seu passado centrado em hierarquias e práticas que não cabem mais. Queremos mais políticas de equidade e letramento nas universidades, menos desigualdade de gênero e raça nos espaços de decisão dentro do Estado em geral, universidade também, mais políticas de direitos humanos e de saúde para mulheres e outras populações minoritárias, respaldadas em pesquisas e conhecimento científico politicamente situado, e socialmente referenciado.

As histórias que contamos no Mundaréu, com essas pesquisadoras, nos ajudam a pensar estratégias para essas transformações dentro e fora da universidade, em sentidos que nos possibilitem insistir em estar na ciência e seguir contribuindo para sua produção, com alegria e esperança.

  • 1
    Processo disponível em FAPESP (2023).
  • 2
    A RAFeCT, criada em 2023, é uma coletiva de pesquisadoras engajadas nos estudos das ciências e tecnologia a partir de uma perspectiva parcial, situada, interseccional, ética, e responsável, com foco na promoção de justiça social, equidade de gênero e luta contra opressões estruturais. Saiba mais em RAFeCT (2025).
  • 3
    Veja mais em: Mundaréu (2026a).
  • 4
    A XIV Reunião de Antropologia do Mercosul, que aconteceu na Universidade Federal Fluminense (UFF) em agosto de 2023. Procuramos na ocasião discutir temas, questões e problemas a partir da situacionalidade e trajetória de cada uma das três pesquisadoras palestrantes, Alejandra Roca (UBA), Fabíola Rohden (UFRGS) e Ana Cláudia Rodrigues da Silva (UFPE). Esse episódio também foi publicado em formato de artigo na revista Anthropologicas Visual, da Universidade Federal de Pernambuco (Manica et al. 2024).
  • 5
    Convidamos três antropólogas e pedimos que elas chamassem três interlocutoras para a conversa. Pedimos que elas elaborassem perguntas umas às outras, e o fórum consistiu nessa conversa entre elas. As temáticas foram a menstruação, o parto e experiências com deficiência e gênero, a partir de perspectivas feministas. Captamos o áudio e disponibilizamos o resultado dessa conversa como nosso primeiro episódio da quinta temporada.
  • 6
    Disponível a partir de 31/01/2026 em Mundaréu (2026g), episódio #36, a publicar.
  • 7
    Ver Mundaréu (2025c), episódio #34.
  • 8
    Disponível em Mundaréu (2025d), episódio #35.
  • 9
    A transcrição não dá conta de transmitir as emoções presentes na fala, sugerimos, se possível, o acesso ao áudio.
  • Declaração de dados:
    Todos os dados estão disponíveis no texto.

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Editado por

  • Editor chefe:
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    Regina Facchini

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    10 Jul 2025
  • Aceito
    21 Nov 2025
Creative Common - by 4.0
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/), que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.
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