Resumo
A maternidade atravessa as trajetórias de pesquisadoras e pessoas que gestam na sua escolha por ser ou não mãe, passa pelas intervenções sobre nossos corpos na gestação e parto e produz implicações no exercício da parentalidade. Neste artigo exploro três cenas em que o contexto de pesquisa, docência e autobiográfico se cruzam para explorar engajamentos, desconfortos, conflitos e a centralidade de pautar a maternidade como um direito sexual e reprodutivo a ser garantido. Inspirada nos conceitos de enactment (Mol), objetos dobráveis (M’chareck) e simpoiese (Haraway), convido as leitoras para fazer juntas e ficar com o problema que é maternar, fazer ciência e lutar pelos direitos das mulheres.
Palavras-chave:
maternidade; materialidade; direitos sexuais e reprodutivos; pesquisa engajada; feminismo
Abstract
Motherhood permeates the trajectories of researchers and people who become pregnant in their choice to be or not to be mothers. It involves interventions on our bodies during pregnancy and childbirth and produces implications for the exercise of parenthood. In this article, I explore three scenes in which the contexts of research, teaching, and autobiography intersect to examine engagements, discomforts, conflicts, and the centrality of considering motherhood as a sexual and reproductive right to be guaranteed. Inspired by the concepts of enactment (Mol), foldable objects (M'charek), and sympoiesis (Haraway), I invite readers to join me in taking on the problem of motherhood, doing science, and fighting for women's rights.
Keywords:
motherhood; materiality; sexual and reproductive rights; engaged research; feminism
Resumen
La maternidad permea las trayectorias de las investigadoras y las personas que se embarazan en su elección de ser o no ser madres. Implica intervenciones sobre nuestros cuerpos durante el embarazo y el parto, y genera consecuencias en el ejercicio de la parentalidad. En este artículo exploro tres escenas en las que se entrecruzan los contextos de la investigación, la docencia y la autobiografía para examinar los compromisos, los malestares, los conflictos y la centralidad de considerar la maternidad como un derecho sexual y reproductivo que debe ser garantizado. Inspirada por los conceptos de enactment (Mol), objetos plegables (M'charek) y simpoiesis (Haraway), invito a las lectoras y lectores a acompañarme en la tarea de asumir el problema de la maternidad, hacer ciencia y luchar por los derechos de las mujeres.
Palabras clave:
maternidad; materialidad; derechos sexuales y reproductivos; investigación comprometida; feminismo
Introdução
Muitas vezes, quando pesquisadoras falam sobre direitos sexuais e reprodutivos e acionam a categoria da maternidade, ocorre uma simplificação na escuta que resume a discussão sobre ser ou não mãe. No entanto, há muitas camadas que complexificam a experiência da maternidade. São atravessamentos que perpassam as trajetórias de pesquisadoras, mães cientistas, pessoas adotantes, pessoas que gestam ou não na sua escolha por ser ou não mãe, pelas intervenções sobre nossos corpos na gestação e parto, o silêncio em torno do puerpério, dificuldades do retorno ao trabalho e implicações no exercício da parentalidade, entre outros.
Este artigo tem como objetivo problematizar tensões e atravessamentos entre maternidade, docência e pesquisa e contribuir com uma discussão feminista sobre os estudos das ciências e das tecnologias, questionando as posições e privilégios através dos quais fazemos ciência. Quero tratar a maternidade aqui como não reduzida ao seu exercício ou em uma ordem cronológica que coloque a vida como antes e depois dos filhos. Acredito que seja importante aproximar a maternidade de um construto material, torná-la um objeto, como nos instigam construtos teóricos dos estudos sociais das ciências e das tecnologias.
A maternidade, e não o somente o cuidadob, é uma técnica passada para as crianças que brincam de “mãe e filho/a”, por exemplo. Ela é valorada nas habilidades e adjetivos com os quais hierarquizamos as boas e más mães. Ela ainda é materializada nas bonecas de brinquedo, na construção do desejo de filhos, nos lenços verdes que simbolizam a luta pela descriminalização do aborto e nas tecnologias de preservação da fertilidade, entre outros. Inspirada por Glaucia Maricato (2022), acredito que possamos pensar a maternidade como um objeto dobrável nos termos de Amade M’Charek (2014).
Aqui me refiro à discussão realizada pela autora quando retoma os amplos debates sobre objetos e suas agências no campo da ciência (Mol e Law 1994; Barad 2007; Ingold 2013; Latour 2014; M’Charek 2013; Pérez-Bustos 2016). A autora irá dialogar com Serres (1996) na sua famosa descrição do lenço, aberto, esticado e plano – sem pontos de encontro – e o mesmo lenço, dobrado, amassado e guardado em um bolso com muitos pontos de contato. Nessa última situação, pontos que não se encontravam, que estavam distantes, agora estão próximos e até mesmo unidos.
É com essa percepção que quero convidar as leitoras a mergulhar nas cenas que apresento aqui. Eu sou uma mulher branca cis, mãe de duas meninas, professora universitária. Sou filha de uma professora estadual, mãe “solteira”, nasci e cresci nos anos 80 no interior do Rio Grande do Sul. Migrei para a capital do estado para fazer faculdade e iniciei ali a minha formação e carreira acadêmica. Meus privilégios de raça e classe hoje não me permitem perder de vista o preconceito que minha mãe e eu vivemos ao encarar uma maternidade solo e ter/ser filha de um pai não reconhecido.
As cenas não estão apresentadas cronologicamente, mas são parte de uma mesma vivência que se atualiza, se aproxima e se distancia daquilo que se acredita ser ou dever ser a maternidade na sua materialidade cotidiana. Quero convidar as leitoras a imaginar a maternidade como os objetos de Serres, internos e externos, andando em órbitas e completamente envolvidas socialmente.
Este texto é dividido em três partes, que seguem as três cenas. A primeira parte evidencia a experiência de construção de projetos, submissão de editais e sua negociação com o retorno ao trabalho, e a exaustão física de uma lactante. A segunda parte aborda, a partir de experiências de orientação e docência, a dificuldade de falarmos abertamente sobre violência obstétrica sem revitimizar as pessoas que passaram por essa experiência. A partir dessas interações, questiono o modo como produzimos ciência e nossa posicionalidade. A terceira parte explora diferentes expectativas em torno da maternidade e a construção do desejo de filhos entre docentes e discentes.
Vale tudo para fazer pesquisa?
Cena 1
Depois que Olívia nasceu comecei em parceria com Nádia Meinerz e Telma Low Junqueira a construir uma agenda de pesquisas voltadas para o cenário de parto e nascimento em Alagoas.
Era o meu jeito de me engajar para transformar a realidade hostil que havia vivido.
Nós estávamos juntas na audiência pública sobre violência obstétrica em 2019.
Telma esteve na mesa de abertura falando da importância de enfrentarmos a violência obstétrica enquanto um representante do Conselho Federal de Medicina dizia que a violência obstétrica não existia.
Para essa audiência, nos reunimos na minha casa, eu, Nádia, Larissa Lages e Bárbara Oliveira para pensarmos em como poderíamos contribuir como núcleo de pesquisa para a audiência pública e começar a desenhar nossos interesses de pesquisa nesse campo que viria a ser algum tempo depois o projeto “Desafios e estratégias no campo da saúde materna-infantil em Alagoas”.
Lembro de Bárbara compartilhar que nenhuma pesquisa que tivesse violência obstétrica no título passaria pelos hospitais e seria muito difícil de ser financiada.
Ali começamos a ajustar nosso projeto e muitas outras colegas que passaram por ele trouxeram a mesma preocupação com o engajamento feminista e a militância pró-humanização. No título, suavizamos temas, substituímos termos.
Ele se tornou mais saúde, mais SUS.
Interprofissional.
Mas ainda falava sobre violência...Violência de gênero. Violência e racismo obstétrico.
Esse projeto foi submetido a alguns editais regionais. Parcerias robustas entre FAP’s e iniciativas voltadas para saúde como o PPSUS.
Um desses editais deveria ser submetido num novo portal.
Lembro de voltar para casa depois de dar aula à noite. Olhava a página aberta do sistema e não conseguia ver onde estava o erro. Por que não conseguia ir adiante?
Felipe estava com Olívia que tinha acordado. Meus seios estavam cheios e doloridos. Ligo pra Nádia. Ela vem para minha casa já passando das 23h. Tínhamos até a meia noite.
Amamentei Olívia. Ela voltou a dormir.
Me sentei com Nádia em frente ao computador e descobrimos juntas um botão transparente no canto esquerdo do formulário.
Conseguimos submeter o projeto!
Nossa busca por financiamento foi longa e infrutíferac. O que isso tem a ver com maternidade? Tudo. Pesquisadoras recebem “não” todos os dias. Seus artigos são recusados, seus projetos não recebem fomento, suas apresentações não são aceitas em congressos e isso faz parte da rotina de quem se dedica à vida acadêmica. Essa não é uma simples reclamação por termos recebido recusas, mas uma tentativa de jogar luz para os impactos desiguais dessas recusas para a carreira de mulheres e cientistas mães. Trata-se de jogar luz sobre a desqualificação das questões que nos são caras e que são muitas vezes tomadas como pouco “científicas”.
O estudo conhecido por “penalidade materna” que analisou dados da pesquisa de emprego e desemprego de 2013 e perguntou sobre o impacto de filhos para ingresso e continuidade no mercado de trabalho demonstrou que “a presença de um filho em idade pré-escolar aumenta em 33,1% a chance de a mulher encontrar-se num trabalho precário e dois filhos nesta faixa etária refletem em chance 78,2% maior de ser observada a precariedade” (Guiginski e Wajnman 2019, 16). O estudo ainda aponta que ao contrário das mulheres, os homens parecem se beneficiar no mercado de trabalho quando tem filhos tendo um significativo aumento de sua presença quando tem dois ou mais filhos. Esse estudo também destaca a sobrecarga do trabalho do cuidado e das responsabilidades domésticas recaem sobre as mulheres. Embora o estudo utilize os marcadores de raça, suas análises se centram nas desigualdades de gênero, mas como demonstram pesquisas além do trabalho formal, mulheres assumem o trabalho do cuidado, o que o torna marcado por gênero e raça (Fernandes 2021, 2023; Hirata 2016). Nesse sentido, a interseccionalidade possibilita que estudos percorram caminhos que alargam a compreensão e impactos da maternidade, embora ainda seja preciso explorar de forma mais acentuadas as maternidades “outras” em diferentes contextos. Estamos falando de maternidades LGBTQIAPN+, crianças e mães neurodivergentes, racializadas, entre outras e em grupos mais e menos privilegiados.
Voltando-se especificamente para o contexto acadêmico, o movimento iniciado por cientistas da área de exatas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, conhecido como Parent in science, um dos principais agentes que atuou para inclusão da licença maternidade no curriculum lattesd, publicou uma série de avaliações sobre os impactos da maternidade para a carreira acadêmica. Numa de suas primeiras publicações, o movimento mostra um survey com mais de 2 mil respostas, das quais 81% das respondentes destacam o impacto negativo da maternidade para a carreira de cientistas mulheres, a ponto de comprometer mais do que sua produtividade, mas sua própria continuidade nessa carreira (Machado et al. 2019).
Mais recentemente, esse movimento tem analisado os resultados de editais de fomento, como bolsas de produtividade em pesquisa e chamadas para financiar grandes projetos como o histórico financiamento de Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia. No relatório preliminar publicado nas suas redes sociais é possível ver que
[...] das 651 propostas submetidas, 174 foram lideradas por mulheres (26,7%). No entanto, entre as 121 aprovadas, apenas 24 têm coordenação feminina (19,8%). A taxa de sucesso foi de 13,8% para mulheres e 20,3% para homens. Em termos de recursos, apenas 8,1% da demanda financeira das mulheres foi atendida, contra 13,9% da dos homens (Parent in Science 2025).
Quero chamar atenção aqui como um projeto liderado e composto por mulheres, feministas, problematizando um grave problema de saúde pública que recai sobre o corpo e vida das mulheres é visto como “não prioritário”. Cada recusa recebida foi um não à importância da vida das mulheres que gestam e morrem de causas evitáveis. Esse não financiamento fala diretamente com a cena, mulheres e ativistas passaram uma tarde elencando e denunciando as formas e cores da violência obstétrica em Alagoas. O representante do CFM esteve lá apenas para dizer que isso não existe.
Embora nosso projeto tenha cedido às pressões externas e nunca tenha carregado no título palavras como “violência” e “racismo obstétrico”, suas potencialidades foram repetidamente não priorizadas. Temos elementos para falar de escolhas e hierarquias quando recebemos os pareceres desses projetos e há comentários do tipo “Não tem pontos fracos”. Ora, como um projeto que não tem pontos fracos falha em receber recursos? Parte dos processos de construção de hierarquias da ciência passa por uma “construção prática, rotineira, disciplinada, incentivada, financiada que reforça expectativas a respeito de como a ciência deveria ser e do que ela deveria produzir” (Neves 2020, 1).
Como mãe e pesquisadora, eu vivi corporalmente a exaustão de tentar encaixar a escrita e construção de redes para projetos como esses. Quando falo dos meus seios doloridos ao chegar em casa e não poder amamentar e descansar, estou fazendo eco aos impactos da volta ao trabalho de todas as pessoas que gestaram e amamentam. A cobrança para performar sua atividade profissional como se jamais tivesse tido um filho é difícil de descrever. Aqui a maternidade como objeto dobrável aproxima pontos que parecem distantes. O corpo, a exaustão, uma tela de computador, um novo sistema, uma boa oportunidade de financiamento, uma mobilização em horas improváveis, deslocamentos para bater a hora de envio fazem os bastidores de um longo processo de construção de um projeto. Todos os eventos narrados materializam a maternidade e se encontram nesse momento de submissão. A sensação de missão cumprida pós envio vai se estender até o dia seguinte quando há prorrogação do edital por motivos técnicos sem nenhum aviso prévio. Aparentemente outras pessoas tiveram dificuldade de submeter a proposta. Na obtenção do resultado da avaliação comentários elogiosos e positivos não se traduzem em financiamento. Será que vale a pena fazer tudo isso e morrer na praia? Vale a pena continuar tentando financiamentos num cenário hostil?
As implicações dessas negativas de financiamento e melhores condições de trabalho nos impactam diretamente como pesquisadoras. Apesar de não termos financiamento para realizar a pesquisa, nossa escolha, como pesquisadoras feministas engajadas, foi tocar a pesquisa nas nossas melhores condições. Os primeiros passos foram dados ainda em 2019, num edital PIBIC, iniciando a pesquisa documental e submissão da pesquisa ao CEP. Em meio a pandemia de COVID-19, aproveitamos a virtualidade dos encontros para realizar o treinamento de pesquisadoras voluntárias e o recrutamento de profissionais de saúde. Realizamos 34 entrevistas e construímos um banco de dados com 399 categorias. Ainda 2025e, enquanto escrevo essas linhas, estamos tentando encontrar fôlego para finalizar um dos produtos dessa pesquisa que é uma série de episódios de podcasts voltada para educação permanente das profissionais de saúde de Alagoas.
Nossas primeiras reflexões dos dados obtidos foram publicadas no artigo “Escutando histórias para construir estratégias de educação permanente em saúde materno-infantil em Alagoas” (Allebrandt et al. 2024). Nele discutimos um aspecto que gostaria de retomar aqui: o silêncio acerca da violência e racismo obstétrico desde a formação profissional até sua prática cotidiana. Em maio de 2019, quando minha filha, Olívia, tinha apenas 4 meses de vida, o Ministério da Saúde (MS) publicou um despacho no qual afirma que a expressão “violência obstétrica” é imprópria porque acredita que “tanto o profissional de saúde quanto os de outras áreas, não tem a intencionalidade de prejudicar ou causar dano”. Segundo o MS, a expressão “violência obstétrica” não agrega valor. Na mesma semana, o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou uma nota em que oferece seu “apoio integral” ao despacho do MS. Neste documento, argumentam que o uso do termo violência obstétrica é “inadequado, pejorativo e estimula conflitos entre pacientes e médicos nos serviços de saúde” (Allebrandt 2023).
Em uma de nossas entrevistas, a enfermeira Renata relata um caso que acompanhou quando ainda estava em formação:
[…] [a gestante] tinha levado um plano de parto dizendo que não queria a vitamina K quando o filho dela nascesse e não queria que praticasse a episiotomia. E tava a enfermeira e ela chamou a médica porque o bebê estava demorando na fase expulsiva dele e quando o bebê saiu, saiu só a cabeça, eles não esperaram sair as outras partes do corpo e fizeram a episiotomia. E disseram a ela que ia botar a anestesia nela e que ia ter coisar porque se não fizesse isso, era capaz do bebê dela entrar em óbito. E fizeram a episiotomia, depois suturaram ela, e como ela era uma gestante menor de idade, tinha 15 anos, e era leiga e a acompanhante também era leiga. Eu parei e fiquei sem reação na hora e depois eu falei com a médica porque eu simplesmente não podia falar pra gestante na hora do pós-parto porque eu estava lá como estagiária. Eu conversei com a médica depois e ela veio dar uma explicação dizendo que não era violência obstétrica porque estava fazendo no fim pela saúde do bebê, sendo que eles não esperaram o tempo do bebê, de acontecer a expulsão completa e aconteceu isso.
Neste caso, fica evidente que a profissional acredita que está seguindo aquela conduta para salvar a vida do bebê - o que coaduna com a lógica enunciada pelo CFM em sua nota. Salvar a vida da mãe e do bebê é um tipo de argumento de autoridade e urgência que acoberta uma série de negligências, erros e desrespeitos. Esse tipo de atuação ressalta também a ampla falha na formação, atualização e capacitação profissional. Ora, como já discuti em outras ocasiões (Allebrandt 2023; Allebrandt et al. 2024), não há evidência científica que embase a utilização de episiotomia. E, no entanto, esse procedimento é feito rotineiramente e ainda quando há o expresso desejo de que ele não seja realizado.
Embora a articulação do MS e CFM de 2019 não seja a mesmaf, o cenário desta ocasião é bastante emblemático do modo como falar de violência obstétrica causa resistência. Não nos surpreende notar que, entre nossas entrevistadas, a maioria absoluta relatou que não teve nenhum tipo de formação nos serviços em que atuam ou na sua formação de base sobre violência obstétrica. A maioria dessas profissionais também fala que tenta orientar as pessoas gestantes sobre seus direitos, dando exemplos de condutas violentas e alertando-as a reagir diante dessas situações. Segundo Flor, enfermeira,
[...] No serviço, em si, eu nunca vi [o tema da violência obstétrica ser tratado]. E aí a gente começa a conversar, e aí eu começo a dizer, ó, isso aí é um tipo de violência. Daí eu começo a abrir os olhos delas, por acaso ela via acontecer, né? Por acaso ela já tá ciente de que aquilo é uma violência. Fazer um alerta, né? [...] O trabalho de educação em saúde, ele também, ele é maravilhoso, mas não é fácil. Porque nem todo profissional tá disposto a trabalhar saúde, a educação em saúde, né? Alguns gostam, outros não, então às vezes por conta da demanda, a gente não consegue. Quem gosta realmente não consegue abranger os temas como deveria, né? O que seria interessante era que todos os profissionais gostassem de trabalhar educação em saúde. Principalmente porque eles trabalham numa unidade básica. E a gente tem que prevenir que é onde se previne, entendeu? Ali é onde a gente trabalha educação em saúde, e não é a realidade. Infelizmente não é a realidade de todos os profissionais.
Aqui é preciso destacar que não se trata de uma ausência de materiais e condutas que possam promover protocolos de educação em saúde. Muitas iniciativas da Rede Cegonha visaram a produção de manuais, guias, diretrizes para conduta humanizada. O que parece haver é, como afirmam Klujsza e Ferreira (2023), uma resistência que reside e se embasa no saber misógino e reproduz uma violência de gênero.
Sensibilidades de uma ciência posicionada
Cena 2
Depois de anos trabalhando com maternidade recebo o pedido de orientação de uma estudante gestante que queria fazer seu TCC sobre o tema. Gisele estava nos primeiros meses da gravidez e vai até a minha sala usando um vestido de uma delicada estampa floral que deixava a barriguinha em destaque.
Parecia uma grávida de comercial de TV.
Feliz, radiante.
Eu fiquei muito contente em receber esse pedido de orientação. É sempre difícil, por alguma razão, preencher nossas vagas de Pibic. A maternidade e a saúde parecem muito distantes das nossas estudantes. Ou ainda não reconhecem o potencial de pesquisa dessas áreas das ciências humanas que alguns insistem em tomar como “menos” científicas.
Ela queria explorar o pré-natal e a preparação para o parto.
Acompanhar seus processos numa autoetnografia.
Ela leu alguns textos. Recomendei outros. Entre eles um meu – o das “rotas de fuga”. Expliquei para ela que era sobre violência obstétrica. Que era melhor ela ler logo e não esperar para o final da gestação. Expliquei que o conteúdo poderia ser sensível para uma gestante, mas como falava a partir da perspectiva autoetnográfica era uma referência incontornável.
Duas semanas depois ela volta. No seu caderno, estão as resenhas, escritas cuidadosamente a mão, numa caligrafia caprichada.
Pergunto o que ela achou, como foi ler e ela me respondeu, sem conseguir me olhar: “Pesado esse seu texto, professora!”.
Eu ri, pensando com meus botões... pesado foi viver isso, escrever foi catarse. Foi cura.
Essa dificuldade de algumas alunas em falar comigo sobre o meu texto, sobre a minha experiência foi algo que notei em outras ocasiões. Certa vez em sala de aula na pós-graduação algumas alunas me contaram que tinham lido meu texto para outra disciplina.
Fiquei animada com a inclusão do texto no programa de métodos e perguntei se queriam comentar algo, trocar ideias. Mais uma vez vi essa dificuldade de me olhar.
Uma cacofonia de sons abafados respondia a minha pergunta.
Não conseguiam falar com “a vítima”.
Eu tampouco não gostava de ser “a vítima”.
Donna Haraway (1995), em seu diálogo com Sandra Harding (1986) sobre o feminismo como ciência sucessora, problematiza a necessidade da posicionalidade para a construção da ciência. A máxima, “quanto mais parcial, mais precisa é a pesquisa” é uma leitura fundamental da escrita feminista. Quando decidi escrever uma autoetnografia sobre a violência obstétrica sofrida no parto da minha primeira filha, Olívia, sabia que estava expondo minha vida privada para escrutínio acadêmico. Parte da motivação para escrever aquele texto veio do modo como fui tratada e objetificada numa apresentação em um congresso de antropologia e está amplamente descrita no texto (2023).
A experiência de escrever uma autoetnografia me ensinou muito metodologicamente, oferecendo um adensamento nas preocupações éticas e cuidados com as descrições (Gama 2020). Falar sobre mim, sobre minha experiência exigiu uma revisão e diálogo intenso com as pessoas que participaram dessa experiência e estavam retratadas no texto. A recepção desse texto foi marcada por alguns processos importantes com as mulheres que me acompanharam e me defenderam no contexto de parto e pós-parto.
Consultei-as antes da publicação e recebi seus comentários e alterei o texto a partir de nossos diálogos. Quando o texto foi publicado, houve mais um momento de trocas importantes: chorarmos juntas, “viver tudo de novo”, conseguir dar um sentido naquilo que faço de melhor – que é a pesquisa - foi uma grande conquista com esse texto. Também tive muita satisfação em saber que meu texto foi lido pela equipe de residentes em formação na época da publicação, no hospital escola em que sofri parte da violência relatada no texto.
Apesar disso, essa (re)vitimização da minha vivência foi uma reação que eu não esperava e sinto que talvez essa escrita seja uma forma de dialogar com e sobre isso. O que torna tão difícil falar com a autora de um texto? É porque estamos olhando para a mulher que sofreu violência obstétrica? É a violência obstétrica ou o sofrimento que nos constrange?
Klujsza e Ferreira (2023) oferecem pistas sobre o modo como antropólogas lidam com a violência obstétrica. Stephania estava cursando o doutorado e pesquisando sobre o tema quando engravidou de sua segunda filha e não conseguiu retomar as entrevistas e analisar aquelas que já havia realizado. No capítulo em que analisam essa experiência, as autoras descrevem a última entrevista feita por Stephania, quando estava grávida de 7 semanas. A brutalidade da violência obstétrica faz com que esse seja um tema realmente difícil de ser estudado, e qualquer pessoa ao ler o relato entende que a missão de analisar essas entrevistas não era possível naquele momento.
Eu fiz parte da banca de mestrado de Bruna Fani Rocha (2021). Uma linda dissertação de leitura duríssima. Não consegui ler sem parar para desabafar e compartilhar com meu companheiro o que estava lendo. Muitas vezes me surpreendi, admirando a força de Bruna para narrar aquelas histórias, tendo ela também sofrido violência obstétrica. Quando falo sobre a minha experiência, ainda me emociono, apesar dos anos que se passaram. Mais do que sermos afetadas (Favret-Saada 2005) pelas narrativas sobre violência obstétrica, Klujsza e Ferreira afirmam que “O saber misógino e a violência de gênero não nos passam indiferentes enquanto pesquisadoras mulheres” (Klujsza e Ferreira 2023, 136).
O androcentrismo parece impor uma regra em que a pesquisadora parece não poder ocupar duas posições ao mesmo tempo: autora e vítima. A pesquisadora parece falhar duplamente, enquanto vítima, por reivindicar o lugar de autora e enquanto autora, por explicitar sua experiência como vítima. Especificamente nessa situação em que as dobras aproximam pesquisadora, autora e vítima a maternidade é materializada.
A leitora pode estar se perguntando também quais razões me levam a resistir tão diretamente à vitimização. Apesar da resposta parecer óbvia, é preciso salientar que o que me causa desconforto nesse constrangimento é o modo como leitoras ao se aproximarem daquela experiência narrada me colocam quase que perpetuamente numa posição de sofrimento (Bibeau 2007; Coelho 2010; Víctora e Coelho 2019). Não se trata de uma questão de vergonha ou desejo de silenciar esses desconfortos. Pelo contrário, eu quero falar sobre, e mais, mas sinto necessidade de fazer entender que, embora eu tenha sido vítima de violência obstétrica e carregue comigo marcas físicas e sociais dessa violência, ela não me define e não está estagnada. Ela orbitag a minha maternidade e se transforma. Tomar esse desconforto como produtivo é uma forma de ficar com o problema como nos inspira Haraway.
Há no desejo de explorar esse exemplo jogar luz sobre o modo como expomos continuamente a maternidade a julgamentos sociais. Como destaca a socióloga Ruha Benjamin (2022) ao explorar sua própria experiência de gravidez como uma jovem mulher negra nos Estados Unidos, a população negra está exposta a mais do que julgamentos sociais, mas ao tratamento cruel e à indiferença. São resultados desses fatores a elevada mortalidade materna e o racismo obstétrico, que atingem no Brasil e nos Estados Unidos de forma desigual as populações pretas e pobres. Benjamin amarra uma complexa discussão sobre acesso à saúde e nos lembra de forma muito potente que a vulnerabilidade é uma condição da vida humana. A necessidade de criar espaços seguros para vulnerabilidade na atenção ao parto e no nascimento é uma demanda urgente. Neste mesmo sentido, desejo que nossas produções acadêmicas, como mulheres, mães e feministas, possam ser situadas e engajadas para que possamos ser/estar vulneráveis, mas não expostas.
Docência: o desejo de filhos
Cena 3
Éramos muitas mulheres e poucos homens numa sala ampla, encardida e quente. Acho que 30 pessoas ao todo.
Era um 8 de março qualquer. Será?
Estávamos mobilizadas porque uma colega havia solicitado a realização de um evento para celebrar o dia das mulheres e havia sido silenciada pela nossa chefia direta que nos dizia que era um dia de trabalho normal e que não poderíamos “parar novamente” – na semana anterior houve uma manifestação de greve.
Começamos a nossa roda de conversa e a primeira pergunta vem de uma estudante de mestrado que queria ter filhos. Ela discorre sobre sua sensação de que era um tema tabu, pouco falado e que não sentia que seu desejo por filhos era acolhido. Acaba sua fala perguntando se “os antropólogos não gostam de crianças?”
Outras falas se seguiram. Nossas estudantes falavam do quanto a menstruação era um tabu e do desconhecimento da endometriose. Compartilharam suas dores e desconfortos dos seus ciclos e, sobretudo sua invisibilidade. Mais tarde uma professora com vínculo temporário questionava as pressões para adiar a maternidade na academia.
E eu me peguei pensando, será que eu estou também adiando a maternidade?
Durante muito tempo pensei em escrever sobre esse evento e suas reverberações. Tomo essa cena para dialogar com o lugar da docência e pensar o quanto a pergunta da minha estudante e colega reverberavam nas minhas escolhas acadêmicas e no meu desejo de filhos.
Essa imagem de uma professora feminista, em início de carreira, vivendo dilemas e construindo seu desejo de filhos enquanto assumia um novo emprego, numa nova cidade traz inúmeros estranhamentos. Ouvir minha estudante perguntar se “os antropólogos” gostam de criançash no contexto de uma roda de conversa no dia internacional da mulher me soava deslocado. Isto se dava por um certo encantamento com a minha própria disciplina, que não era “aquela área mais dura”, em que pipocam exemplos noticiados em que professores mandam alunas acompanhadas de filhos se retirarem da sala de aula.
Aliás, naquela época, uma colega levava sua filha para atividades do departamento e uma estudante de graduação acompanhava as aulas com seu filho. Naquele momento, não notava ou talvez estivesse presa a uma perversa construção que assume que mães e gestantes precisam fazer tudo “como se” nada estivesse mudando. Numa espécie de feminismo combativo que acaba por vitimizar as mulheres na sua busca por igualdade a qualquer custo sem considerar as iniquidades e especificidades de cada contexto. Segundo Espíndula Moreira e Nardi (2009, 573),
A racionalidade neoliberal relaciona-se com a maternidade através da ideia de que cada indivíduo é responsável pelas suas escolhas e de que essas devem estar direcionadas sempre para seu aperfeiçoamento, que, nessa racionalidade, está acessível a todos.
Ademais, sinto que nunca atentei para as especificidades dos ciclos das minhas alunas. Não me lembro de receber queixas ou pedidos de liberação das aulas. Mas talvez, nunca tenha estado aberta para isso. Costa et al. (2024) demonstram, a partir de uma grande revisão das produções sobre menstruação no Brasil o quanto o tema foi continuamente negligenciado e encontrou legitimidade no artigo de Cecília Sardenberg (1994). Produções como as de Costa et al. (2024), vêm se somar à proliferação de estudos nesse campo na última década (Manica 2011, 2020; Manica e Rios 2016; Costa et al. 2024; Menegotto e Ribeiro 2024).
Hoje, nos permitimos falar mais abertamente sobre menstruação e suas implicações para nossa saúde e exercício de tarefas cotidianas. Num fórum intitulado “Perspectivas feministas sobre ciência e tecnologia: experiências de troca e mobilização a partir da antropologia”, que ocorreu no X Simpósio da ESOCITE-BRi, Clarissa Reche Nunes da Costa e sua interlocutora Isabel Santana de Rose compartilharam dimensões do que implica menstruar para suas atividades. Do lugar privilegiado da mesa de exposição, via o encantamento de nossas estudantes no público se identificando com aquela narrativa.
Havia estranhamento também no fato da estudante mencionada na cena expressar tão livremente que queria ter filhos sem nenhuma vírgula explicativa que considerasse ou priorizasse o mestrado. Quando morava no Canadá e cursava o doutorado, uma colega estava grávida de seu segundo filho e me perguntava por qual razão eu esperava tanto para ter filhos. Dentro do meu projeto de carreira acadêmica já estava introjetada a ideia de que filhos acontecem depois da institucionalização. Então, quando minha colega fala da demanda de adiar a maternidade para a academia, consigo ver, por mais que negasse internamente, que eu também estava adiando a maternidade por conta de pressões acadêmicas.
Mensagens não tão sutis que me acompanharam desde a graduação diziam em forma jocosa que uma colega que havia ingressado no ensino superior federal como docente “já” estava grávida, sem nem ter “esperado” o final do estágio probatório. Quando uma colega que estava no mestrado engravidou e houve todo um burburinho em torno do “fim” da carreira dela; a gestação de uma colega em outra universidade se tornou pauta departamental; e um colega compartilhou na minha presença para professores convidados de outras instituições que se sentia pessoalmente prejudicado com a minha gravidez já que eu me ausentaria durante a licença maternidade e “alguém” precisaria se ocupar das minhas atribuições. Seu descontentamento não era voltado somente para mim, mas para todas as mulheres que potencialmente engravidariam, deixando trabalho para os colegas. Nessas ocasiões comecei a repetir que minha licença era coberta por um professor ou uma professora substituta. Esses argumentos pouco aplacavam o tipo de fala misógina de meu colega. Essas foram algumas das experiências me fizeram recear, adiar e até mesmo temer a maternidade, que naquele momento de minha vida estava sendo construída como desejo de filhos.
A vasta produção antropológica sobre reprodução assistida nos ajuda a situar o desejo de filhos como uma construção (Vargas e Moás 2010; Nascimento 2011; Heilborn et al. 2010; Thompson 2005; Roberts 2018). Inclusive marcamos conceitualmente nossa abordagem ao falar de “ausência involuntária de filhos”, ao invés do jargão biomédico da infertilidade, para dar ênfase à importância do desejo de filhos para a construção do problema da sua ausência (Colen 1995). Pedro Nascimento (2020) explora de forma precisa como o desejo de filhos é negociado, e na sua tessitura com materializações sobre maternidade e acesso à saúde.
Se há algo que anos de pesquisas na interface da reprodução assistida é que “fertilidade” não pode ser tomada como dado. Nesse sentido, adiar a maternidade priorizando o trabalho é, em última instância, tomar como dado que se é fértil e que se pode ter filhos. Toma-se o desejo, assume-se a fertilidade, e a maternidade se torna um projeto para o futuro. Essa presunção de fertilidade e de acesso às tecnologias reprodutivas têm fomentado um grande mercado de preservação da fertilidade para mulheres. Encampado por celebridades, circulam informações de que congelar óvulos é uma espécie de seguro para fertilidade. Assim, mais do que adiar a maternidade, torna-se responsabilidade das mulheres que reconhecerem seu desejo por filhos a tarefa de preservar sua fertilidade (Allebrandt 2019, 2021).
Quando finalmente decidimos tentar ter filhos, iniciamos uma jornada solitária. Poucas pessoas sabiam que estávamos tentando e a espera pelo positivo nos colocou medicalmente na categoria de inférteis. Foram 16 meses “tentando” e negociei muitas vezes a não realização da maternidade (Allebrandt e Freitas 2020). Quando finalmente a gravidez foi confirmada, ouvir meu colega falando sobre minha gestação como se fosse um golpe pessoal a seus planos acadêmicos me deixou profundamente constrangida. Esse era só o começo de uma série de agressões e represálias.
Colegas mães eram cobradas e expostas por seus atrasos, indisponibilidades e demandas por conta dos filhos de forma implacável. Outras performavam (Mol 2003) tão bem suas maternidades acadêmicas, que mal sabíamos que elas tinham filhos. Eles não estavam na universidade e elas faziam uma gestão perfeita das redes familiares e terceirizadas para estarem sempre disponíveis. Alunas que engravidavam eram cobradas a “dar conta” do mestrado/graduação por todos nós. Por outro lado, eu via na experiência da docência os desafios de acolher estudantes com desejos tão diferentes dos meus, que me fizeram questionar as razões pelas quais estava protelando minha maternidade.
Para Fleischer, na docência, ou como a autora prefere chamar, no professorar, é preciso “[...] simpatia, empatia, paciência e sensibilidade para acolher essas diferenças e [...] criar condições mais confortáveis para elas poderem se enxergar no mundo e se colocarem de modo mais vocal dentro desse mundo” (Fleischer 2023, 44). De certo modo, conseguimos criar aquele espaço, ainda que momentâneo, em que essas diferenças se expressaram, mas desse momento restam muitas perguntas.
É importante salientar o quanto a academia é um espaço de privilégios. Licença de 6 meses, horários flexíveis, um salário, ainda que defasado, acima da média nacional, estabilidade na carreira e as consequências desse cenário. Em meio a esses privilégios, é um cenário em que por mais que as desigualdades de gêneros se manifestem, impera o “pacto da branquitude”, que reverbera também uma lógica cis, heteronormativa e muitas vezes capacitista (Bento 2022). A realidade da maternidade da mulher negra (Collins 2019), das mulheres trans, das lésbicas, das mães de crianças com deficiência precisam ser postas em evidência para que suas especificidades e o tipo de preconceito que enfrentam sejam visibilizados e combatidos. Se nesse contexto ocorre todo tipo de hostilidade em relação à maternidade há pouca esperança que as maternidades sejam acolhidas na nossa sociedade. Como pesquisadora, docente, orientadora e feminista, o desafio que essas situações apresentam para nosso ofício, saliento o quanto é importante nos inquietar com quais maternidades cabem na academia e as violências que produzem esse “encaixe”. Quais são os espaços em que circulam crianças? Como maternar ou paternar são negociados para nossa atuação acadêmica como pesquisadoras, docentes, técnicas e ou servidoras públicas?
Reflexões finais: Qual ciência queremos?
Indagar sobre o lugar da maternidade na academia não é uma discussão nova. Minha contribuição para essa discussão está situada no desejo de reivindicar um espaço de vulnerabilidade para o exercício da maternidade na academia. Busco materializar a maternidade a partir da inspiração e metáfora dos estudos sociais das ciências e das tecnologias que possibilita pensar pontos de encontro e atravessamento (M’Charek 2013), performatividade (Mol 2003) e rompem com a lógica de pragmatismo desenfreado, propondo a necessidade de “ficar com o problema” (Haraway 2019). Ao expor diferentes situações da minha vivência da maternidade, antes mesmo dela existir, quero questionar o quanto o modelo de ciência, sua lógica produtivista e masculinista perpetuam uma tecnologia que tem como produto as imensas desigualdades de gênero na academia. Elaine Brandão e Fernanda Alzuguir discutem as implicações do gênero na produção da ciência e resgatam um velho estereótipo de que o imaginário social que ainda reverbera é de um cientista “[...] homem branco, um tanto excêntrico, com uma mente brilhante e criativa, desinteressada dos acontecimentos mundanos e ocupada com a solução de grandes problemas, enclausurado e absorto em um grande laboratório de pesquisa [...]” (Brandão e Alzuguir 2022, 56).
Essa ciência está, conforme argumenta Neves (2020), construída com base num processo de legitimação de hierarquias na ciência, que ironicamente coproduzem um regime de administração da irrelevância. Quando Donna Haraway (2019) nos convida a ficar com o problema, evitando soluções rápidas ou medidas paliativas, ela nos lembra do quanto somos seres inteiros e fazemos junto. Neste sentido, acredito que esse lugar de vulnerabilidade que rompe com as dinâmicas de opressão e exposição que mães e pessoas que gestam sofrem na academia só poderá começar a se consolidar como uma agenda quando homens exercerem sua paternidade a partir de um lugar de compromisso e respons[habilidade].
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a
Co-líder do Mandacaru – Núcleo de Pesquisas em Gênero, Saúde e Sexualidade – UFAL. Dados apresentados aqui são frutos do projeto de pesquisa financiado por uma Bolsas de Produtividade em Pesquisa - PQ pelo CNPq.
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b
Uma vasta produção antropológica sobre analisa como noções de gênero são transmitidas na infância através das histórias e brincadeiras. As pesquisadoras que problematizam o cuidado trazem uma rica e profícua discussão da relação entre gênero, trabalho e cuidado – que muitas vezes tem sua base/raiz no trabalho do cuidado exercido e invisibilizado na maternidade (Hirata 2016; Mol 2008; Finamori 2015; Fietz 2016; Fernandes 2021).
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c
Posteriormente, um desdobramento desse projeto foi incluído no projeto da REMA, que foi contemplado pelo CNPq. Outro desdobramento desse projeto veio a ser o tema da minha bolsa de produtividade em pesquisa, também financiada pelo CNPq.
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d
Embora movimentos recentes tenham incluído a licença maternidade no curriculum lattes e muitas agências de fomento contabilizem mais tempo a produção das pesquisadoras que são mães em seus editais, este esforço não abrange a dimensão do cuidado na rotina das mulheres. Cuidado, carga mental – trabalho de anos.... não apenas 2 anos.
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e
Em 2024, um colega responsável por verificar se os projetos de pesquisa inseridos pelo programa de pós-graduação do qual faço parte na Plataforma Sucupira me escreveu algumas vezes perguntando se deveria finalizar esse projeto. Essa insistência revelava o fato de que para as agências avaliadoras, um projeto não pode levar cinco anos para ser concluído. No entanto, um projeto que não recebe financiamento e é coordenado por pesquisadoras mães e/ou cuidadoras, sobrecarregadas com suas triplas jornadas de trabalho só pode levar “mais” tempo. Nesse “cálculo” do tempo “aceitável” para conduzir e concluir uma pesquisa, com ou sem financiamento, não estamos considerando o tempo das mães e pessoas que cuidam. Há nessa lógica do tempo linear e visão de uma ciência produtivista, neoliberal e capitalista. Trata-se de um formato que cria hierarquias e reproduz desigualdades.
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f
Avançamos a passos muito lentos no que diz respeito a legislações que garantam os direitos das pessoas que gestam a ter um parto seguro e humanizado. Por um lado, temos um governo federal que acaba de implantar uma nova estratégia de saúde para promoção e prevenção da mortalidade materna – a Rede Alyne - e, por outro lado, governos estaduais passando legislações baseadas em desinformação e conservadorismo com fins de desencorajar e dificultar o acesso ao aborto previsto em lei.
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Como no exemplo utilizado por Serres, o corpo do cão astronauta, “descartado” da sonda espacial não desaparece na imensidão do espaço, mas orbita a sonda continuamente.
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h
Ela estava parafraseando Lawrence Hirschfeld (2016), num artigo que havia sido recentemente traduzido na Revista Latitude.
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i
O fórum foi gravado e pode ser ouvido em Mundaréu (2024).
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Declaração de dados:
Todos os dados estão disponíveis no texto.
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