Muito oportuna essa homenagem a Erving Goffman. A coletânea, organizada pelos professores Carlos Benedito Martins e Édison Gastaldo, é resultado de pesquisas, debates, encontros, aulas e ciclos de conferências organizados entre especialistas da obra do autor. Homenagem que evidencia as diferentes dimensões e as inúmeras frentes de trabalho abertas por esse sociólogo sui generis, criador de um sofisticado aparato teórico e de um método bastante flexível para estudar as interações sociais que ocorrem sempre em uma situação específica. Seja em rituais que se desenrolam em espaços formais, seja nas ocasiões informais do cotidiano, as trocas entre os indivíduos se dão em um espaço e são mediadas por uma moldura institucional que define as primeiras regras das interações possíveis. Goffman capta uma espécie de átomo da sociedade, sua unidade mínima, o nível micrológico, onde é urdida a vida social. Trocas materiais e trocas simbólicas – representações – irremediavelmente mediadas por signos. Goffman praticou uma metafísica do banal, conforme expressão de Bennett Berger em prefácio a Frame Analysis (1986)
O conjunto de artigos que compõem a coletânea foi dividido pelos organizadores em três blocos. O primeiro abarca aspectos biográficos relevantes para a compreensão do itinerário intelectual de Goffman. O artigo de abertura, escrito por Leeds-Hurwitz, trata de sua formação intelectual em Chicago, seus professores mais influentes, os grupos de que participou, as publicações que promoveu, os colegas com os quais manteve diálogo intenso nas várias universidades por onde passou, sobretudo na Universidade da Pensilvânia, onde esteve vinculado ao departamento de Antropologia de 1960 até 1982, ano de sua morte. A escolha de seus pares mostra um pesquisador inquieto, em peregrinação por diferentes centros de estudos, por diversas áreas disciplinares: psicologia, sociologia, antropologia, filosofia, comunicação, linguística, com um único objetivo: defender suas ideias, ampará-las com o conhecimento teórico, criar conceitos consistentes que pudessem servir ao entendimento do que há de mais pedestre na vida social: o cotidiano, as conversas, as expectativas e os riscos que correm os atores quando estabelecem relações face a face.
Os dois artigos seguintes tratam da recepção da obra de Goffman no Brasil e na França. Luiz Fernando Duarte estuda a introdução de Goffman e da Escola de Chicago no curso de Pós- graduação em Antropologia do Museu Nacional (UFRJ), com forte ênfase em Antropologia Urbana, área de estudos liderada por Gilberto Velho. Duarte aponta a importante contribuição do antropólogo brasileiro para que isso acontecesse. Inúmeras teses e dissertações resultaram da perspectiva introduzida por Velho, que encontrou no interacionismo simbólico, em Becker e Goffman, principalmente, ferramentas teóricas e metodológicas, além do respaldo interdisciplinar para tratar temas sensíveis, patologias sociais, desvios, estigmas, instituições totais, entre outros conceitos recorrentes na produção acadêmica daquele centro de formação e de pesquisa. Já Yves Winkin, empenhado na escrita de uma biografia intelectual de Goffman, profundo conhecedor de sua obra, trata da recepção de Goffman na França e da importância de Luc Boltanski e de Pierre Bourdieu para que ele fosse reconhecido naquele ambiente acadêmico de tanto prestígio. Bourdieu não somente editou e publicou obras de Goffman como escreveu artigos e deu entrevistas que reforçaram o interesse das suas ideias e sua contribuição para a Sociologia.
O segundo bloco é composto por quatro artigos que tratam de aspectos teóricos e de método. Gisèle Sapiro segue na comparação entre Goffman e Bourdieu, ressaltando afinidades, mas principalmente a grande distância epistemológica e teórica que os separa. O primeiro vinculado à Hermenêutica e à Fenomenologia e o segundo ao Estruturalismo. Apesar das diferenças, ambos compartilham a ideia de que a identidade dos atores é mutável e não homogênea e que a realidade não possui uma substância ou uma essência e sim é tecida no próprio rolamento da experiência social. Rod Watson explora, em alentado e brilhante ensaio, um aspecto pouco estudado na obra de Goffman: o seu método descritivo. A constatação do talento e da busca explícita de bem escrever de Goffman não impede um escrutínio minucioso do uso de metáforas, todas elas relacionadas ao campo semântico da dramaturgia. Da primeira à sua última obra, Goffman esteve às voltas com questões de linguagem – linguagem verbal, mas também corporal, expressiva –, questões que vão se refinando à medida que progride em suas pesquisas e em suas etnografias. As metáforas teatrais, herdadas de Kenneth Burke e exploradas em muitas dimensões ao longo da obra de Goffman, constroem um quadro analítico que permite a compreensão e a interpretação do campo social em sua complexidade. A performance dos atores, os bastidores, a presença de um público em um cenário particular, seus movimentos e suas trocas verbais são a matéria-prima para a descrição, superficial ou densa, da situação. A linguagem usada pelo sociólogo também merece a atenção de Watson, que realça em seus escritos o estilo pontilhista e a extrema cautela para fugir do que ele mesmo chamava de “linguagem afiliativa”, isto é, a linguagem que adere ao discurso dos entrevistados ou aos documentos. O discurso sociológico, embora nunca vá se afastar da língua natural, encontra em Goffman alguém capaz de lidar com diferentes vozes, criando um jogo complexo de pontos de vista, um estilo que Watson diz ser uma prática ativa comparável ao giro de um caleidoscópio.
Hugh Miller traz sua atenção – bastante precocemente, pois escreve nos anos 1990 – para os desafios que se apresentam com o advento da sociedade em rede, dos novos aparatos que permitem a comunicação virtual. Como vai se organizar o novo Self eletrônico? Que novas formas de apresentação do “eu” se tornam possíveis em ambiente digital? O autor do artigo faz um primeiro apanhado dessas possibilidades de o ator se apresentar seja como indivíduo, seja como membro de uma organização ou de uma família. Os estilos de apresentação também variam, alguns mais assertivos e agressivos, outros mais moderados ou tímidos, mas que, de qualquer forma, criam situações bastante análogas às formas tradicionais de apresentação do “eu”, os meios de se exibir e de fazer observações sobre si mesmo. Nesse sentido, os conceitos goffmanianos, pensados para a análise da interação face a face, mesmo se sujeitos a alguns ajustes, mantêm seu valor heurístico. A revolução digital a que assistimos atualmente, as redes sociais e afins definem as novas formas de sociabilidade assim como os modos de ser da subjetividade, em que o espaço do “eu” (self) passa a cumprir novas exigências, já sob o domínio da mercantilização. O enorme valor atribuído à aparência feliz, ao corpo sadio e sedutor, a prática da exibição da intimidade são ações que detêm o poder de ampliar o domínio do narcisismo. Mais do que nunca, o aparato conceitual de Goffman – com um pilar na sociologia/antropologia, outro na psicologia social, outro ainda nas ciências da linguagem – parece ser capaz de fazer ressaltar e elucidar alguns aspectos patológicos que se naturalizaram na sociedade contemporânea. Em “Entrelaçamentos espaciais entre região, território e frame na obra de Erving Goffman”, Fraya Frehse discute os conceitos ligados ao lugar, mostrando o quanto eles funcionam como três escalas necessárias para que ocorra uma interação social. A autora discute como esses são conceitos metodológicos que, de tão versáteis, permitem a compreensão da performance dos indivíduos em situação. Esta, por sua vez, se caracteriza por uma dinâmica de comunicação que envolve a natureza social do self do ator e a expressividade que ele põe em ação no momento da interação. Selecionar e explorar esses conceitos, mostrando seu entrelaçamento e sua importância como ferramenta e método, permite à autora considerar Goffman um sociólogo do espaço.
O terceiro bloco traz textos que comprovam o rendimento teórico dos conceitos goffmanianos e as sugestões de abordagem dos mais diferentes objetos empíricos. A ordem da interação, conceito que pressupõe a relação presencial, representa um desafio quando trazido para pensar a relação em ambiente digital. Esta questão é abordada por dois artigos que apontam para uma necessidade de atualização da sociologia da informação. Andrew Carlin constata a enorme importância de Goffman e sua contribuição para essa área de estudos; já Gastaldo, após longa discussão, sobre as categorias teóricas trabalhadas por Goffman, analisa um caso de interação imprópria, quando a expectativa é rompida e a relação entre ator e plateia se acha desencontrada: uma reunião acadêmica on-line, no início da pandemia de Covid-19, na qual um professor diz palavras grosseiras, achando que tinha seu microfone mudo. A confusão que se cria, a tentativa inútil de se explicar (de mudar o footing), as consequências graves que se sucedem a essa interação infeliz são tomadas pelo autor como exemplos de análises possíveis a partir do aparato conceitual deixado por Goffman.
Instituição total permanece como um conceito de enorme relevância para o estudo de todas as sociedades fechadas, como a instituição militar, objeto de pesquisa de Celso Castro, ou uma casa de repouso de idosos, conforme o trabalho realizado por Susana Durão. O conceito ganha cada vez mais consistência à medida que vai sendo testado e mostra seu rendimento analítico para pensar diferentes objetos empíricos e, no dizer de Susana Durão, representa uma incontornável contribuição de Goffman para o estudo da vida social em meios institucionais.
O conceito principal do autor, Ordem da Interação, é o título de seu discurso de posse como presidente da Sociedade Americana de Sociologia (1982). O processo para sua elaboração deixa claro que Goffman perseguiu a vida toda um modelo e um método para construir uma teoria que servisse ao objeto de pesquisa que estava em construção. A partir de fragmentos da sociologia clássica, no limiar das ciências, da filosofia e da literatura, o sociólogo amplia e enriquece a sociologia, inventando a microssociologia. Os diálogos que estabelece com os autores que elegeu como interlocutores revelam sua busca intelectual eclética, sempre marcada pela interdisciplinaridade dentro das ciências humanas, buscando escapar a todo dogma teórico, a todos os modelos grandiosos. Goffman faz parte de uma geração que buscava superar ou desviar-se da sociologia oficial estadunidense, que tinha em Parsons e Merton seus principais representantes. Goffman não estava sozinho. Sua biografia intelectual mostra como o ambiente acadêmico no qual viveu, como aluno, como professor e pesquisador, passava por um momento de viragem, inspirado pela fenomenologia, por métodos qualitativos, pela etnologia, pelos estudos de linguagem. Uma variedade de protocolos de leitura foi posta à disposição dos cientistas sociais pelos linguistas que passaram a pensar o discurso em ação, como um ato performático, em seu poder de criar realidades (como Austin e Searle ); outros pensadores dos discursos, na trilha aberta por Saussure, cunharam conceitos para estudar a linguagem para além do nível verbal, mostrando os códigos culturais e as figuras de retórica que presidem todas as interações possíveis, os gestos, as posturas, todo o jogo de sinais emitidos pelo ator a fim de controlar sua imagem, para se apresentar no espaço público.
Como fica claro, uma sociologia que tem como foco a interação entre os atores não poderia prescindir de uma consciência da mediação dos signos e de que tudo o que diz respeito à vida social é uma construção simbólica, representação. Essa ancoragem teórica e metodológica na linguagem permite à sociologia aprofundar os estudos do ator enquanto self, conceito apropriado da psicologia social e que designa um sujeito voltado para fora, que atua para uma plateia e assim adquire um physique du rôle, constrói sua experiência nas aquisições de marcas corporais e expressivas.
Inúmeras referências têm sido feitas sobre as afinidades entre a obra de Goffman e a de Michel Foucault. Ambos podem ser considerados importantes metodólogos, o que se evidencia nas etnografias minuciosas, simples ou densas, de Goffman e nas percucientes análises de textos e documentos de Foucault. Embora tenham como ponto de partida pressupostos epistemológicos distintos, os dois pensadores pesquisam e escrevem suas principais obras nas décadas de 1960 e 1970, momento em que a Linguística havia se tornado uma ciência ancilar, propondo métodos, conceitos e estratégias teóricas para todas as ciências humanas. Outro ponto em comum entre os dois autores é o interesse de pesquisa focado nas instituições, sobretudo no que Goffman denominou instituição total e Foucault, instituição austera. Ambos se interessam pelo estudo das relações de poder que se estabelecem nesses espaços fechados e regrados, em que os internos são permanentemente vigiados e, em caso de qualquer infração, punidos. O ator goffmaniano e o sujeito foucaultiano, emaranhados na malha dos discursos, em permanente confronto com as instituições, constroem sua experiência, no entanto, com alguma margem, maior ou menor, de liberdade para moldar situações, para alterar o rumo das interações dependendo do poder e do prestígio que lhes são concedidos. A palavra ordem, presente nos textos mais icônicos dos dois autores, traz um significado duplo: refere-se tanto a ordenamento, consenso normativo, quanto à imposição, ao poder em ação. Ordem da interação (Goffman, 2019) e A ordem do discurso (Foucault, 2003) referem-se aos constrangimentos, contratos e consensos que regem o mundo social. Molduras que enquadram a busca dos significados da experiência, pois o sentido não é dado a priori, não está atribuído aos fatos e acontecimentos senão pela mediação da linguagem.
A observação minuciosa, a escrita etnográfica, os diálogos, os relatos são as etapas e o estofo da construção do objeto científico. Goffman propõe um olhar sociológico e semiótico ao mesmo tempo. Os indicadores sociais mais importantes emergem dos mínimos detalhes. O olhar focado em toda gama de sinais que entram em jogo no processo de comunicação é descrito. A situação (região, território, palco ou moldura) é o primeiro parâmetro, o que define a própria interação possível ou esperada; os sinais, voluntários ou involuntários, emitidos pelos atores através de seu vestuário, postura, emoções expressas no rosto, no tom de voz; as trocas verbais, diálogos, palavras, tudo o que dizem os atores dentro das regras de adequação à situação e em sua capacidade de alterá-la. Goffman ampliou o olhar sociológico introduzindo nele o mundo dos signos. Talvez inspirado por seu professor Birdwhisteel, o inventor da Cinésica e um dos primeiros antropólogos a teorizar sobre as formas não verbais de comunicação, Goffman levava seus alunos a bares, sapatarias e outros ambientes para treinar o olhar, para desenvolver seus dons de observação, para uma visão inicial do que se apresentava como realidade. Ali, em situação, no próprio palco, era possível identificar as marcas de classe, raça, gênero; ali, in loco, aprendia-se a ler os signos ocultos, riscos, estratégias, estigmas, relações de poder. O sociólogo como um detetive, decifrando sinais que vêm do corpo, dos cheiros, da voz, dos gestos, das palavras, atento aos detalhes que podem levar ao desvendamento do crime ou a importantes descobertas sociológicas. Goffman reafirma, com a sociologia que praticou, a afirmação de Mauss e Durkheim sobre a primazia da linguagem como classificador fundante da sociedade (Mauss e Durkheim, 2017). Reafirma ainda a convencionalidade dos signos e seu modo de funcionamento, regulado por uma gramática da ação. Goffman afirma “a ideia de que a realidade é uma convenção frágil, um tecido de pressupostos ao mesmo tempo semiconscientes e quase-inconfessáveis, um acordo coletivo assinado por ninguém, que pode se romper a qualquer momento”, como sintetizou Viveiros de Castro em entrevista a Duarte (2025).
Para além do teatro do mundo dos poetas barrocos ou do mundo como um palco de Shakespeare, a teoria dramatúrgica de Goffman, em todas as suas variações e no refinamento que adquiriu, desvenda o que há de impalpável na realidade, enfatizando sua dimensão construída. Assim também põe a nu, ao mesmo tempo, a fragilidade dos sujeitos submetidos aos papéis sociais, sua identidade fragmentada e a inconsistência e arbitrariedade das regras que regem a sociedade. A realidade perde um pouco de seu peso, enredada na teia dos signos; os signos ganham mais consistência quando referidos à experiência e à realidade.
Referências
- BERGER, B. Foreword. Em: Frame Analysis Pennsylvania: Northeastern University Press, 1986.
- DUARTE, L. F. D. A presença de Erving Goffman no pioneiro Programa de Antropologia Social do Museu Nacional. Em: GASTALDO, É.; MARTINS, C. B. (Eds.). Erving Goffman – 100 anos Rio de Janeiro: Ateliê de Humanidades Editorial, 2025. p. 39–61.
- FOUCAULT, M. A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970 São Paulo: Edições Loyola, 2003.
- GOFFMAN, E. A ordem da interação: discurso presidencial da American Sociological Association, 1982. Dilemas: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social, v. 12, n. 3, p. 571–603, 2019.
- MAUSS, M.; DURKHEIM, É. De quelques formes primitives de classification Paris: Presses Universitaires de France, 2017.
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Editoria:
Eduardo Dimitrov
