RESUMO
Este estudo investigou as experiências de discriminação racial vividas por estudantes uni-versitários negros e seus impactos nas trajetórias acadêmicas e no bem-estar psicossocial. Trata-se da segunda fase de uma pesquisa sequencial, cuja etapa quantitativa inicial envolveu 829 estudantes de 5 instituições de ensino superior no estado do Ceará. Nessa fase qualitativa, realizada entre janeiro e março de 2024, participaram 37 estudantes que relataram vivências recorrentes de discriminação na escala utilizada previamente. As entrevistas semiestruturadas foram conduzidas virtualmente e analisadas por meio da Classificação Hierárquica Descendente, com o apoio do software IRaMuTeQ. A análise revelou cinco categorias principais: Contexto social e político; Impacto na saúde mental; Respostas e reações individuais; Experiências acadêmicas e contextos de discriminação; e Experiências recorrentes e familiares. Os resultados evidenciam que o racismo e a discriminação racial repercutem negativamente na autoestima, na saúde mental e na permanência dos estudantes, gerando sentimentos de insegurança, desvalorização e exclusão. Apesar da adoção de estratégias de enfrentamento, observa-se necessidade de suporte institucional efetivo. O estudo reforça a necessidade de políticas antirracistas no ensino superior, que promovam ambientes acolhedores e equitativos para garantir não apenas o acesso, mas também a permanência, com dignidade e saúde, dos estudantes negros.
PALAVRAS-CHAVE
Racismo; Discriminação percebida; Estudantes; Universidade.
ABSTRACT
This study investigated the experiences of racial discrimination faced by Black university students and their impacts on academic trajectories and psychosocial well-being. It represents the second phase of a sequential research project, whose initial quantitative stage involved 829 students from five higher education institutions in the state of Ceará, Brazil. In this qualitative phase, conducted between January and March 2024, 37 students who had previously reported recurrent experiences of discrimination on the scale used were interviewed. Semi-structured interviews were conducted virtually and analyzed using Descending Hierarchical Classification, supported by the IRaMuTeQ software. The analysis revealed five main categories: Social and political context; Impact on mental health; Individual responses and reac-tions; Academic experiences and contexts of discrimination; and Recurring and family experiences. The findings highlight that racism and racial discrimination negatively affect students’ self-esteem, mental health, and academic persistence, generating feelings of insecurity, devaluation, and exclusion. Although students adopt coping strategies, there is a clear need for effective institutional support. The study un-derscores the importance of anti-racist policies in higher education that foster inclusive and equitable environments, ensuring not only access but also the dignified and healthy retention of Black students.
KEYWORDS
Racism; Perceived discrimination; Students; Universities.
Introdução
O racismo estrutural está profundamente enraizado em processos históricos como a colonização e o desenvolvimento do capitalismo, os quais instituíram hierarquias raciais que ainda hoje sustentam desigualdades sociais, econômicas e simbólicas1. A discriminação racial, enquanto expressão concreta desse racismo, refere-se a comportamentos diferenciados dirigidos aos sujeitos pertencentes a determinados grupos étnico-raciais, podendo se manifestar de maneira direta ou indireta. A forma direta envolve atitudes explícitas de hostilidade ou exclusão com base na raça, como a recusa de atendimento a pessoas negras em estabelecimentos comerciais. Já a discriminação indireta ocorre quando normas ou práticas aparentemente neutras produzem efeitos desproporcionais sobre grupos racialmente minorizados, muitas vezes passando despercebidas pela ausência de uma intenção explícita de discriminar2. Essa forma sutil de exclusão, frequentemente silenciosa e invisível, provoca impactos significativos na saúde mental e no bem-estar daqueles que a vivenciam, revelando a complexidade e a persistência das desigualdades raciais em diversos espaços sociais, inclusive na educação superior.
Historicamente, o modelo de produção e validação do conhecimento nas universidades esteve pautado por lógicas excludentes, marginalizando grupos étnico-raciais e sociais. Contudo, a luta por direitos civis e o fortalecimento das pautas em defesa da diversidade e da equidade provocaram mudanças significativas nesse cenário. A implementação das políticas de cotas na educação superior, iniciada no Brasil a partir dos anos 2000, representou e ainda representa um marco nesse processo. Essas ações afirmativas contribuíram para romper com o padrão histórico de segregação étnico-racial nas Instituições de Ensino Superior (IES), ampliando o acesso de estudantes negros, indígenas e oriundos das classes populares3.
Apesar dos avanços, o ambiente universitário ainda é palco de múltiplas formas de discriminação racial, que reproduzem desigualdades historicamente impostas à população negra. Esses processos discriminatórios refletem um legado estrutural de exclusão social, manifestando-se em barreiras ao acesso, à permanência e ao reconhecimento de estudantes negros. Além disso, as desigualdades socioeconômicas persistem de forma evidente, com uma parcela significativa dessa população vivendo em condições precárias. Tal realidade evidencia a presença do racismo estrutural, naturalizado e, muitas vezes, invisibilizado, que sustenta e perpetua injustiças ao longo do tempo4.
A promulgação da Lei nº 12.711/2012, conhecida como Lei de Cotas, representou uma conquista histórica dos movimentos sociais na luta pela equidade racial no acesso à educação superior5. Essa medida foi impulsionada por pressões crescentes da sociedade civil organizada, resultando na implementação de ações afirmativas voltadas à promoção da justiça social e à democratização do ingresso de estudantes negros, indígenas e de origem popular nas universidades brasileiras5.
Apesar desse importante avanço legal, persistem inúmeros desafios que dificultam a permanência e o sucesso acadêmico da população negra no ensino superior. Dentre os principais obstáculos enfrentados por esses estudantes, destacam-se a necessidade de conciliar os estudos com as atividades laborais, a escassez de políticas institucionais de apoio e a vivência cotidiana de microagressões raciais. Essas últimas, embora muitas vezes sutis, configuram expressões da violência estrutural e reforçam o racismo sistêmico, mantendo desigualdades dentro de instituições que deveriam ser espaços de inclusão6.
As microagressões raciais, enquanto formas veladas de discriminação, exercem impactos significativos sobre o bem-estar acadêmico. Tais experiências afetam negativamente a satisfação com a vida universitária e reduzem as expectativas de graduação, sobretudo por seu efeito sobre o afeto acadêmico dos estudantes, mais do que sobre o desempenho acadêmico em si7. Esses achados reforçam a importância de considerar não apenas o acesso, mas também as condições de permanência e vivência subjetiva dos estudantes negros na universidade.
Embora as políticas de inclusão tenham ampliado o acesso e a diversidade nas universidades, episódios de preconceito e discriminação continuam sendo frequentes8. Pesquisas demonstram que a população negra é especialmente afetada por desafios psicológicos ao longo da vida, como ansiedade, medo e sensação de não pertencimento9,10, o que impacta diretamente sua saúde mental. Esses efeitos refletem o racismo estrutural, que perpassa múltiplos domínios sociais, incluindo o mercado de trabalho, a habitação e o sistema educacional11.
O racismo, nesse contexto, configura-se como um fator estressor de elevada magnitude, capaz de gerar profundo sofrimento mental, comprometendo a saúde física e emocional das vítimas. Em casos extremos, pode culminar em quadros graves de adoecimento e até em desfechos fatais. A opressão cotidiana, a violência simbólica e as agressões diretas afetam negativamente o bem-estar dos sujeitos discriminados. Por isso, torna-se urgente implementar estratégias efetivas de combate ao racismo, visando assegurar a dignidade e o bem-estar de toda a sociedade4.
A persistência da discriminação racial no ensino superior é um reflexo de estruturas sociais desiguais. Estudantes pertencentes a grupos raciais minorizados vivenciam situações discriminatórias que comprometem sua saúde mental, sua motivação e seu desempenho acadêmico. Nesse sentido, o crescente interesse em investigar a relação entre racismo e saúde mental no contexto universitário busca compreender esses impactos e fomentar estratégias para a construção de ambientes mais inclusivos e acolhedores12.
A relevância desse debate se intensifica diante da escassez de publicações e discussões sistemáticas sobre a temática racial nas universidades, que, muitas vezes, restringem-se a abordagens pontuais em sala de aula ou disciplinas isoladas. Essa lacuna contribui para a invisibilização das vivências de estudantes negros, que frequentemente enfrentam episódios de racismo, cujas marcas são profundas e, em alguns casos, irreversíveis. Essas experiências afetam diretamente sua autoestima, sua saúde mental e sua trajetória acadêmica13.
Diante desse contexto, o presente estudo tem como objetivo analisar as experiências de discriminação racial vividas por estudantes universitários negros e seus impactos nas trajetórias acadêmicas e no bem-estar psicossocial.
Material e métodos
Este artigo apresenta a segunda fase do estudo intitulado ‘Discriminação racial e saúde mental nas universidades’, financiado pelo Programa de Bolsa de Produtividade em Pesquisa, Estímulo à Interiorização e Inovação Tecnológica (BPI) da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap).
A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, de natureza exploratória e compreensiva, fundamentada na perspectiva epistemológica das Ciências Sociais aplicadas à Saúde, conforme propõe Minayo14. Essa abordagem busca compreender a complexidade dos fenômenos sociais a partir das vivências, dos sentidos e das percepções dos sujeitos, reconhecendo o valor do discurso como expressão da experiência15.
A primeira etapa do estudo, de caráter quantitativo, foi realizada entre setembro de 2023 e janeiro de 2024 e envolveu 829 estudantes de 5 IES, públicas e privadas, localizadas em Sobral, noroeste do Ceará: Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA); Universidade Federal do Ceará (UFC); Universidade 5 de Julho (F5); Faculdade Luciano Feijão (FLF); e Faculdade IEducare (Fied). Utilizou-se a Escala de Experiências de Discriminação (EED), instrumento validado, para mensurar a frequência e o impacto de vivências discriminatórias entre os estudantes universitários.
Com base nos resultados da EED, foram identificados 235 estudantes que relataram episódios recorrentes de discriminação racial (duas ou mais ocorrências). Esses estudantes foram convidados a participar da fase qualitativa, sendo realizado o contato via WhatsApp®, utilizando os dados fornecidos na primeira etapa. Um total de 40 estudantes aceitou participar, sendo descartadas 3 entrevistas por não apresentarem relatos efetivos de discriminação, resultando em 37 entrevistas válidas que compuseram o corpus final.
As entrevistas foram realizadas remotamente, por meio da plataforma Google Meet®, entre janeiro e março de 2024. Essa estratégia foi adotada em virtude da greve nas universidades, garantindo acessibilidade, segurança e flexibilidade aos participantes. As entrevistas foram conduzidas por pesquisadores previamente capacitados, com base em um roteiro semiestruturado com cinco questões abertas sobre vivências de discriminação racial em diferentes contextos acadêmicos e sociais. A participação foi voluntária, e os horários de entrevista foram acordados individualmente com os estudantes, com opções de agendamento de segunda a sábado, entre 8h e 20h. A média de duração das entrevistas foi de 20 minutos. Entrevistas-piloto foram realizadas previamente para aprimorar o instrumento, sendo posteriormente desconsideradas da análise.
Antes de cada entrevista, foi solicitada autorização para gravação, garantindo a fidedignidade na transcrição e interpretação dos relatos. As gravações foram integralmente transcritas, compondo o corpus textual submetido à análise16.
A análise dos dados foi realizada com o suporte do software Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires (IRaMuTeQ), que permite a análise estatística de dados textuais, integrando aspectos quantitativos e qualitativos. Utilizou-se a técnica da Classificação Hierárquica Descendente (CHD), que segmenta o corpus em classes textuais homogêneas, possibilitando a identificação de padrões léxicos e temáticos. As categorias resultantes da CHD foram interpretadas à luz da análise temática de conteúdo proposta por Minayo14, em articulação com os referenciais teóricos que fundamentam a discussão sobre racismo estrutural, saúde mental e desigualdades sociais.
O estudo seguiu rigorosamente os preceitos éticos da Resolução nº 466/201217 do Conselho Nacional de Saúde. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), sob o parecer nº 6.279.258 (CAAE nº 64750522.7.0000.5053). Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), assegurando a compreensão e anuência quanto à participação e aos procedimentos da pesquisa.
Resultados e discussão
Os resultados desta pesquisa evidenciam a complexidade das vivências de discriminação racial entre estudantes universitários autodeclarados negros - pretos e pardos -, evidenciando impactos significativos em sua saúde mental, desempenho acadêmico e inserção social. A partir da análise das entrevistas por meio da CHD no software IRaMuTeQ, emergiram categorias temáticas que permitem compreender as múltiplas dimensões do racismo no cotidiano universitário. Esses resultados são discutidos à luz de referenciais teóricos que abordam o racismo estrutural e seus desdobramentos na vida dos sujeitos, permitindo uma análise crítica sobre as formas sutis e persistentes de discriminação que se perpetuam nos ambientes de ensino superior, muitas vezes naturalizadas e silenciadas.
Análise e interpretação da Classificação Hierárquica Descendente
A CHD, realizada com o auxílio do software IRaMuTeQ, resultou na identificação de cinco classes temáticas principais: ‘Contexto social e político’; ‘Impacto na saúde mental’; ‘Respostas e reações individuais’; ‘Experiências acadêmicas e contextos de discriminação’; e ‘Experiências recorrentes e familiares’ (figura 1), cada uma representando dimensões distintas das experiências de discriminação racial relatadas pelos participantes. A análise foi baseada na frequência e coocorrência de palavras, nos segmentos de texto mais representativos e nas distinções entre as classes.
Dendograma resultante da Classificação Hierárquica Descendente: experiências de discriminação racial entre estudantes universitários: percepções e impactos
Os valores do teste do qui-quadrado (χ2) foram fundamentais para estabelecer a associação entre os termos e as respectivas classes, indicando a relevância estatística das palavras na caracterização de cada categoria temática. Quanto maior o valor de χ2, maior a contribuição da palavra para a composição da classe. As frequências relativas (%) indicaram a representatividade dos termos no interior de cada grupo textual.
Essa abordagem combinada permitiu uma leitura aprofundada dos padrões e significados presentes nas narrativas dos estudantes, oferecendo uma compreensão mais robusta e estruturada das formas como o racismo se manifesta18 no ambiente universitário, seus impactos subjetivos e as estratégias de enfrentamento mobilizadas.
Classe 1 - Contexto social e político
Representando 21,18% do corpus total, a Classe 1 enfatizou as vivências de discriminação racial dentro de um contexto sociopolítico mais amplo. Entre as palavras mais representativas, estavam ‘sociedade’ (x2 = 61,32; 83,33%), ‘impressão’ (x2 = 32,78; 32,78%) e ‘acreditar’ (x2 = 30,33; 72,22%), indicando uma preocupação com a compreensão da discriminação racial como um fenômeno profundamente enraizado nas estruturas sociais e políticas.
A análise de conteúdo revelou que os entrevistados frequentemente mencionaram comentários discriminatórios e atitudes preconceituosas, o que evidencia um sistema educacional e social que reforça desigualdades raciais. O termo ‘educação’ (x2 = 24,87; 100.0%) apontou uma relação entre a percepção da discriminação e o sistema educacional. Como afirmou um dos entrevistados:
Esse é um problema estrutural e antigo em nossa sociedade, profundamente enraizado, que impacta, sobretudo, pessoas negras e em situação de vulnerabilidade (E10).
Classe 2 - Impacto na saúde mental
Compreendendo 16,08% do corpus analisado, a Classe 2 evidenciou a estreita relação entre as vivências de discriminação racial e os impactos na saúde mental dos estudantes. Palavras como ‘saúde’ (x2 = 88,81; 83,33%), ‘mental’ (x2 = 83,93; 80%) e ‘experiência’ (x2 = 64,49; 66,67%) apresentaram alta frequência e forte associação com esta classe, reforçando a centralidade do sofrimento psíquico nas narrativas dos entrevistados.
A análise de conteúdo revelou que os episódios de discriminação racial provocaram traumas emocionais, sentimentos de insegurança e diminuição da autoestima. Expressões como ‘emocional’ (x2 = 47,69; 84,62%) e ‘autoestima’ (x2 = 36,82; 81,82%) ilustram o caráter multifacetado desses efeitos. Um dos relatos exemplifica essa condição:
Se não tivesse vivenciado o que passei, acredito que minha saúde mental não estaria tão afetada. Os traumas que enfrentei têm impactado meus relacionamentos e minha autoconfiança, pois ainda me sinto insegura em certos ambientes devido ao que vivi no passado (E12).
Classe 3 - Respostas e reações individuais
A Classe 3, responsável por 21,57% do corpus, abordou as respostas e reações individuais às experiências de discriminação racial. As palavras mais frequentes incluíram ‘gente’ (x2 = 18,55; 100.0%), ‘enfrentamento’ (x2 = 15,00; 48,39%) e ‘entender’ (x2 = 14,94; 58,82%), destacando como os sujeitos lidam pessoalmente com essas vivências.
A análise de conteúdo revelou que as reações variaram entre estratégias de enfrentamento, tentativas de compreensão e respostas diretas às situações discriminatórias. Termos como ‘responder’ (x2 = 14,78; 100.0%) e ‘compartilhar’ (x2 = 14,78; 100.0%) ressaltaram a importância do diálogo e do apoio social entre amigos e conhecidos. Um estudante relatou sua experiência:
Naquele momento, eu realmente não sabia a quem recorrer. Não me sentia confortável em compartilhar essas experiências com meus pais ou outras pessoas. Sempre que enfrentava discriminação, guardava tudo para mim mesmo e tentava seguir em frente. Hoje, percebo que foi um erro não procurar ajuda na época. Reconheço que deveria ter falado com alguém que pudesse entender o que estava passando, mas, naquele momento, achei que era algo comum e não grave. Guardar essas emoções acabou me entristecendo muito, e mesmo hoje ainda carrego um pouco dessa tristeza (E6).
Classe 4 - Experiências acadêmicas e contextos de discriminação
A Classe 4, representando 23,92% do corpus, explorou as experiências acadêmicas e os contextos específicos em que a discriminação ocorre. As palavras mais características incluíram ‘perceber’ (x2 = 18,54; 54,84%), ‘colega’ (x2 = 13,02; 57,89%) e ‘louro’ (x2 = 12,92; 100.0%), evidenciando situações em que estudantes vivenciaram discriminação dentro do ambiente acadêmico.
A análise revelou que os entrevistados frequentemente mencionaram episódios de discriminação praticados por colegas, e a palavra ‘inteligente’ (x2 = 12,92; 100.0%) sugeriu que essa discriminação também esteve relacionada a percepções sobre capacidades intelectuais. Além disso, o termo ‘turma’ (x2 = 11,92; 83,33%) indicou que a sala de aula é um espaço recorrente para essas experiências. Um estudante relatou:
Percebi que um professor favorecia um colega branco e loiro, dando mais atenção ao projeto dele, mesmo sendo menos complexo que o meu. Isso me desmotivou, pois vi projetos de estudantes negros sendo menos valorizados (E9).
Classe 5 - Experiências recorrentes e familiares
A Classe 5, que representa 17,25% do corpus, concentrou-se nas experiências de discriminação racial que ocorreram em contextos familiares e em outras situações recorrentes. As palavras principais foram ‘contexto’ (x2 = 45,35; 53,66%), ‘experimentar’ (x2 = 24,46; 100.0%) e ‘diálogo’ (x2 = 19,49; 100.0%), destacando como a discriminação racial é vivenciada de maneira recorrente em diferentes contextos, incluindo o ambiente familiar.
A análise de conteúdo indicou que essas experiências foram frequentemente relacionadas a interações com pais (x2 = 14,79; 71,43%) e a episódios específicos de discriminação (x2 = 14,79; 71,43%), evidenciando a presença constante da discriminação racial nas várias dimensões da vida dos entrevistados. Um exemplo representativo foi o seguinte relato:
O contexto racial que vivi ocorreu principalmente dentro da minha família, envolvendo minhas tias, avó, pais e padrasto. Sou a única neta negra na minha família materna e, frequentemente, surgiam expressões ou situações que me deixavam desconfortável. Meu padrasto costumava usar expressões racistas no passado, o que me incomodava profundamente. Isso mostra como, mesmo dentro da família, enfrentei discriminação que me afetou emocionalmente (E20).
Os resultados evidenciam que a discriminação racial vivenciada por estudantes universitários negros assume caráter estrutural, atravessando diferentes dimensões da vida social, acadêmica e familiar. A Classe 1 revela que os estudantes compreendem o racismo como um fenômeno historicamente enraizado nas dinâmicas sociais, políticas e educacionais do País, reconhecendo que a própria organização da sociedade e do sistema educacional contribui para a reprodução das desigualdades raciais. Essa leitura amplia a compreensão do racismo para além das experiências individuais, reforçando a necessidade de enfrentamentos sistêmicos e institucionais.
Tais achados estão alinhados com a literatura, que caracteriza a discriminação racial como um problema estrutural e persistente, reproduzido por meio das instituições sociais, especialmente o sistema educaional19,20. A manutenção dessas desigualdades, mesmo diante de avanços tecnológicos e pedagógicos, ressalta a urgência de transformações estruturais profundas nas dinâmicas sociais21.
Nesse contexto, a Classe 2 aprofunda a análise ao demonstrar que essas experiências estruturais se materializam subjetivamente, impactando diretamente a saúde mental dos estudantes. Os relatos dialogam com estudos que apontam a discriminação racial como fator de risco para ansiedade, depressão e sofrimento emocional persistente4. A internalização do racismo, somada à ausência de acolhimento, amplia os danos psicológicos, exigindo a implementação de estratégias institucionais de cuidado e prevenção22.
Somado a isso, pesquisas indicam que a exposição contínua ao racismo durante a vida acadêmica compromete não apenas o bem-estar psicológico, mas também o desempenho acadêmico. A intolerância ao sofrimento tem sido identificada como um importante mediador entre o racismo percebido e a redução no bem-estar23, estando associada a maiores níveis de estresse, sintomas somáticos e depressivos24.
É fulcral destacar que tais impactos não se restringem ao período universitário, estendendo-se às trajetórias profissionais e às perspectivas de futuro dos estudantes negros7,25. Essas consequências tornam-se ainda mais críticas quando vivenciadas em fases sensíveis do desenvolvimento, como a adolescência e o início da vida adulta, períodos marcados pela consolidação da identidade, definição de objetivos e inserção no mundo do trabalho26. A recorrência de experiências discriminatórias nesse período tende a comprometer a autoconfiança, o senso de pertencimento e as expectativas de ascensão social27.
Diante desse cenário, evidencia-se a urgência de medidas institucionais que promovam ambientes universitários mais inclusivos, acolhedores e equitativos do ponto de vista racial. A implementação de estratégias, como espaços de escuta ativa, apoio psicológico qualificado e fortalecimento de políticas antirracistas, mostra-se essencial para mitigar os impactos da discriminação sobre a saúde mental28, favorecendo uma formação acadêmica mais justa e humanizada.
As respostas individuais, apresentadas na Classe 3, revelam estratégias de enfrentamento, muitas vezes marcadas pelo silêncio e pela naturalização da violência. Nesse panorama, a internalização do racismo agrava o sofrimento emocional, configurando um ciclo de vulnerabilidade no qual o indivíduo passa a lidar sozinho.
Esse achado converge com a literatura, que aponta a dificuldade dos sujeitos em compartilhar experiências de discriminação e buscar apoio, muitas vezes devido ao estigma e à ausência de mecanismos adequados de suporte29. A ausência de estratégias eficazes de enfrentamento reforça a importância de construir ambientes seguros, nos quais os estudantes se sintam legitimados a expressar suas experiências e acessar suporte emocional30.
As experiências acadêmicas descritas na Classe 4 evidenciam o racismo operando de forma simbólica e institucional no ambiente universitário, especialmente na relação entre estudantes e professores. A desvalorização das capacidades intelectuais de estudantes negros e o favorecimento de estudantes brancos geram sentimentos de desmotivação e exclusão, ampliando desigualdades históricas.
Esses resultados corroboram os estudos que demonstram como estudantes negros frequentemente enfrentam desafios adicionais no meio acadêmico, incluindo discriminação em avaliações, acesso desigual a oportunidades e baixa representatividade docente31,32. A percepção de injustiça no processo formativo compromete a motivação, a satisfação acadêmica e o desempenho, aumentando, inclusive, a probabilidade de evasão e atraso na conclusão do curso25,33. Tais efeitos se estendem à vida profissional, uma vez que o acúmulo de experiências discriminatórias tende a impactar negativamente as oportunidades de carreira7,25.
O aumento da exposição ao racismo pode elevar os níveis de sofrimento psíquico, indicando uma relação direta entre racismo e comprometimento da saúde mental23. Por outro lado, a participação em atividades extracurriculares e em cursos que promovem o contato com a diversidade contribui para o desenvolvimento do pensamento crítico e da autoconfiança, fatores associados a uma melhor saúde mental e maior engajamento acadêmico34.
Por fim, a Classe 5 demonstra que o racismo também atravessa o ambiente familiar, afetando a construção da identidade racial e o senso de pertencimento. A presença da discriminação em contextos íntimos reforça sua naturalização social e evidencia a necessidade de estratégias de enfrentamento que incluam o diálogo e a educação antirracista desde os vínculos mais próximos.
A literatura corrobora os relatos dos estudantes, indicando que a discriminação no ambiente familiar pode ser tão prejudicial quanto em outros contextos, impactando negativamente a saúde mental e o desenvolvimento emocional dos sujeitos35. Isso ocorre com influência na formação da identidade e do senso de pertencimento, ressaltando a necessidade de abordar essas questões desde o núcleo doméstico20.
Assim, a discussão dos achados revela que a discriminação racial no ensino superior não se restringe a episódios isolados, mas constitui um fenômeno contínuo e multidimensional, com efeitos duradouros sobre a saúde mental, o desempenho acadêmico e as trajetórias de vida dos estudantes. A implementação de políticas institucionais antirracistas, de espaços de acolhimento e de suporte psicológico qualificado mostra-se fundamental para a promoção de ambientes universitários mais equitativos.
Considerações finais
Os achados deste estudo revelam que o racismo universitário se manifesta de maneira difusa, persistente e multifacetada, atravessando desde os espaços institucionais até as relações interpessoais. Tais vivências impactam profundamente a saúde mental dos estudantes negros, desencadeando sintomas como ansiedade, baixa autoestima, insegurança e sentimento de não pertencimento. Embora os entrevistados acionem estratégias individuais de resistência e enfrentamento, essas respostas frequentemente ocorrem de forma solitária, evidenciando a carência de suporte institucional sistemático e efetivo.
A presente investigação contribui de modo significativo ao dar visibilidade a vozes frequentemente silenciadas nos debates sobre equidade e permanência no ensino superior. A escuta atenta dessas narrativas reforça a urgência de políticas antirracistas que transcendam o ingresso nas universidades, voltando-se à garantia de condições dignas de permanência, cuidado e reconhecimento. Para isso, torna-se imprescindível a implementação de ações concretas, como a formação continuada de docentes e técnicos sobre relações étnico-raciais, a criação de núcleos de apoio psicossocial, o fortalecimento de coletivos estudantis e a transversalização do debate racial nos currículos acadêmicos.
Dentre as limitações do estudo, destaca-se o recorte geográfico restrito ao estado do Ceará, o que pode limitar a generalização dos resultados para outras regiões do País. Ademais, a seleção de participantes com altos escores de discriminação identificados em etapa anterior pode ter enfatizado relatos mais explícitos, deixando de abarcar experiências mais sutis ou internalizadas. Investigações futuras poderão ampliar o escopo territorial, incorporar novas variáveis contextuais e aprofundar a análise das interseccionalidades entre gênero, classe, sexualidade, território e religião.
A persistência da discriminação racial no ensino superior brasileiro reforça a necessidade de repensar o papel da universidade enquanto espaço de emancipação, justiça social e diversidade. Enfrentar o racismo institucional não é apenas um imperativo ético, político e pedagógico inadiável, mas, sobretudo, uma condição essencial para garantir uma universidade verdadeiramente democrática, plural, inclusiva e socialmente referenciada. Dessa forma, a construção desse horizonte exige o compromisso coletivo de toda a comunidade acadêmica - gestão, docentes, técnicos e estudantes - na consolidação de práticas antirracistas e no fortalecimento de uma cultura institucional baseada no cuidado, na equidade e no respeito à diversidade.
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Suporte financeiro:
Programa de Bolsa de Produtividade em Pesquisa, Estímulo à Interiorização e Inovação Tecnológica (BPI) da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap)
Disponibilidade de dados:
os dados de pesquisa estão contidos no próprio manuscrito
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Editora responsável:
Jamilli Silva Santos, Universidade Federal da Bahia (UFBA), Salvador (Bahia/BA), Brasil. Lattes: http://lattes.cnpq.br/5997468854789199 - Orcid: https://orcid.org/0000-0001-8965-0904 - e-mail: jamilli.santos@ufba.br


Fonte: elaboração própria.