Open-access Estudos de avaliação em promoção da saúde na atenção primária: uma revisão de escopo

RESUMO

Este estudo investigou avaliações de promoção da saúde na Atenção Primária à Saúde (APS) em sistemas públicos. A busca foi conduzida em oito bases de dados e literatura cinzenta, seguindo as diretrizes do PRISMA-ScR e do JBI Manual for Evidence Synthesis. A seleção seguiu um processo duplo-cego, com análise independente de títulos e resumos, seguida da leitura completa dos textos. Foram identificados 2.726 estudos, dos quais 517 foram excluídos por duplicidade, 2.179 na triagem inicial e 22 após leitura integral, resultando na inclusão de oito artigos publicados entre 2013 e 2022, em português, inglês e espanhol. Cinco utilizaram métodos qualitativos, dois abordagens mistas, e um utilizou método quantitativo. As avaliações abordaram programas específicos, como amamentação, prevenção do diabetes, atividade física, assistência nutricional e saúde bucal. Os estudos analisaram diferentes dimensões: três avaliaram apenas o processo, dois focaram nos resultados, enquanto os demais combinaram estrutura, processo e/ou resultado. O estudo revelou que, embora as avaliações abordem dimensões estruturais, processuais e de resultados, destacando a necessidade de fortalecer a capacidade individual e comunitária, os benefícios das intervenções em promoção da saúde variam. Entretanto, a escassez de estudos avaliativos de promoção da saúde na APS evidencia uma lacuna de conhecimento significativa.

PALAVRAS-CHAVES
Promoção da saúde; Atenção Primária à Saúde; Pesquisa em sistemas de saúde pública; Estudo de avaliação; Revisão de escopo

ABSTRACT

This study investigated health promotion evaluations of Primary Health Care (PHC) in public systems. The search was conducted across eight databases and gray literature, following the PRISMAScR guidelines and the JBI Manual for Evidence Synthesis. The selection process was double-blind, with an independent analysis of titles and abstracts, followed by a full-text review. A total of 2,726 studies were identified, of which 517 were excluded due to duplication, 2,179 during the initial screening, and 22 after full-text review, resulting in the inclusion of eight articles published between 2013 and 2022, in Portuguese, English, and Spanish, from four countries. Five studies used qualitative methods, two applied mixed approaches, and one used quantitative method. The evaluations focused on specific programs, such as breastfeeding, diabetes prevention, physical activity, nutritional assistance, and oral health. The studies analyzed different dimensions: three assessed only the process, two focused on outcomes, while the others combined structure, process, and/or outcomes. The study revealed that although evaluations address structural, process, and outcome dimensions highlighting the need to strengthen individual and community capacity, the benefits of health promotion interventions vary. However, the scarcity of evaluative studies on health promotion in PHC highlights a significant knowledge gap.

KEYWORDS
Health promotion; Primary Health Care; Public health systems research; Evaluation study; Scoping review

Introdução

A promoção da saúde, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS)1, é um processo de capacitação com participação comunitária, baseado no empoderamento e na ação social2. Vai além do enfoque técnico3 ao fortalecer capacidades para lidar com os determinantes da saúde. Com abordagem ampla e integrada, busca melhorar o bem-estar geral, e não apenas tratar doenças. Atua sobre os macrodeterminantes sociais, reconhecendo as desigualdades como construções históricas que exigem ações interdisciplinares e intersetoriais4.

A complexidade da promoção da saúde reflete tanto a amplitude de seus objetivos quanto a diversidade dos contextos em que se insere4. Nesse sentido, a pesquisa em promoção da saúde busca produzir conhecimento e promover a transformação social, guiada por um sólido quadro ético5. O conhecimento proveniente de obras científicas em constante evolução contribui para aprimorar a prática profissional, delineando abordagens para avaliação de intervenções específicas, populações-alvo e contextos programáticos6.

A avaliação na promoção da saúde é um processo meticuloso que busca esclarecer as características distintivas de intervenções envolvendo a análise detalhada de ações e interações entre diversos agentes7. Métodos lineares não se aplicam a esses programas, e estabelecer relações causais para fenômenos sociais é um desafio8. Avaliar políticas e iniciativas intersetoriais requer abordagens inovadoras, especialmente metodologias qualitativas que considerem contextos culturais. Os princípios de investigação devem orientar tanto métodos quantitativos quanto qualitativos8.

A promoção da saúde na Atenção Primária à Saúde (APS) é fundamental para a reestruturação do modelo de atenção, priorizando abordagens baseadas nos determinantes sociais da saúde9. Embora haja várias iniciativas de monitoramento e avaliação na APS, muitas adotam uma abordagem normativa, usando indicadores convencionais de processo e resultado10. Isso contrasta com a complexidade da avaliação das intervenções em promoção da saúde, destacando a necessidade de considerar os contextos de implementação e compreender o significado da participação nas ações11. A avaliação de iniciativas de promoção da saúde deve utilizar modelos quanti-qualitativos que abranjam a participação dos envolvidos e a amplitude das práticas, indo além dos indicadores tradicionais de morbimortalidade ou produção de serviços12.

A condução de revisões de escopo e sistemáticas emerge como uma etapa de primordial relevância no arcabouço metodológico, essencial para a determinação de métodos de intervenção. Nesse contexto, duas revisões foram identificadas, abordando diferentes facetas da promoção da saúde. Uma revisão de escopo13 focalizou especificamente intervenções relacionadas ao uso exclusivo de álcool e tabaco, enquanto uma revisão sistemática14 explorou a promoção da saúde na saúde pública, embora não tenha se concentrado na avaliação de intervenções. A análise dessas revisões revelou a carência de evidências referentes ao objeto da presente investigação.

Identificando, portanto, uma lacuna na literatura no que tange às revisões de estudos avaliativos de promoção da saúde na APS, decidiu-se realizar uma revisão de escopo. Esta revisão concentra-se na investigação de estudos de avaliação da promoção da saúde na APS de sistemas públicos. O propósito é fornecer uma perspectiva mais abrangente do conhecimento existente, mapear a literatura atual, analisar a condução da pesquisa nesse campo, identificar lacunas de conhecimento e sugerir direções para pesquisas futuras. Dessa forma, visa-se a contribuir para o avanço do entendimento e da prática da promoção da saúde nesse contexto específico.

Material e métodos

As revisões de escopo representam uma modalidade refinada de síntese de conhecimento, sendo caracterizadas por uma abordagem sistemática que mapeia de maneira abrangente as evidências relacionadas a um tema específico. Esse método não apenas identifica os principais conceitos, teorias e fontes pertinentes, mas também delineia minuciosamente as lacunas existentes no corpo de conhecimento15,16.

Durante a fase inicial da investigação, constatou-se a ausência de artigos de revisão sistemática ou de escopo relacionados à avaliação da promoção da saúde na atenção primária no banco de dados Cochrane. Adicionalmente, foram realizadas buscas em repositórios de protocolos, como PROSPERO (The Internacional Prospective Register of Systematic Reviews Administered by the University of York’s Centre for Reviews and Dissemination) e OSF (Open Science Framework), sem que qualquer registro contemplasse estudos avaliativos referentes a intervenções gerais de promoção da saúde na atenção primária ou em serviços públicos de saúde. Diante dessa lacuna, optou-se pelo desenho da Revisão de Escopo (ScR), a qual se destacou entre outros tipos de revisões, por entendermos que, embora valiosas por si só, as revisões de escopo também se mostram úteis como precursoras de revisões sistemáticas17.

Esta revisão de escopo foi baseada no JBI Manual for Evidence Synthesis18, e o relatório seguiu as diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR)16.

Protocolo e registro

Foi elaborado um protocolo fundamentado nas diretrizes para Preferred Reporting Items for Systematic Review and Meta-Analysis Protocols (PRISMA-P)19, juntamente com a lista de verificação PRISMA Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR)16. O referido protocolo foi registrado na OSF em 31 de julho de 2023, DOI: 10.17605/OSF.IO/DWVS4.

Critério de elegibilidade

PARTICIPANTES, CONCEITO E CONTEXTO

O acrônimo PCC (População, Conceito e Contexto) foi empregado para formular a questão de pesquisa: ‘Quais são os estudos de avaliação conduzidos sobre promoção da saúde na Atenção Primária à Saúde?’. Nessa formulação, a População refere-se às intervenções de promoção da saúde; o Conceito abrange estudos de avaliação; e o Contexto se relaciona à APS em serviços públicos de saúde. A APS é reconhecida como um lócus privilegiado para a implementação de estratégias de promoção da saúde que englobam não apenas ações voltadas aos fatores de risco, mas, também, iniciativas relacionadas ao empoderamento, participação social e outros aspectos20.

Os critérios de inclusão proporcionam diretrizes essenciais para a compreensão da proposta pelos revisores, desempenhando um papel crucial como guia nas decisões dos próprios revisores quanto às fontes a serem incorporadas à revisão de escopo15. Essa metodologia estabelece uma estrutura robusta para delimitação e análise criteriosa dos estudos, facilitando uma abordagem sistemática na identificação, avaliação e síntese de evidências relevantes na área da promoção da saúde na atenção primária.

TIPOS DE ESTUDOS

Os critérios de inclusão foram delineados para abranger estudos avaliativos, sejam qualitativos ou quantitativos, que apresentassem dados primários relacionados a intervenções de promoção da saúde na atenção primária, dentro do contexto do sistema público de saúde. Não houve restrição quanto ao idioma ou ao período de publicação. Foram considerados apenas estudos que empregassem metodologia de avaliação.

Os critérios de exclusão englobaram estudos centrados em doenças transmissíveis, investigações voltadas para assistência ou intervenção clínica, ensaios clínicos randomizados, estudos quase experimentais, pesquisas de coorte, bem como estudos que não especificaram o tipo de intervenção. Também foram excluídos projetos e protocolos de pesquisa que não forneceram resultados avaliativos tangíveis.

Fontes de informação e busca

As autoras contaram com a colaboração de uma bibliotecária na concepção da estratégia de busca, que incluiu termos MeSH, DeCS, palavras-chave e sinônimos. A sintaxe inicial do modelo foi formulada em 13 de abril de 2023 para a base de dados PubMed. Em seguida, essa sintaxe de busca foi adaptada de forma personalizada para cada base de dados, levando em consideração suas particularidades.

As seguintes bases bibliográficas foram empregadas na estratégia de busca eletrônica, realizada em 16 de junho de 2023: PubMed/Medline, Cinahl/Ebsco, Cochrane Library, Embase/Elsevier, Lilacs, SciELO, Scopus, Web of Science/Clarivate Analytics. Pesquisas suplementares foram conduzidas na literatura cinza, abrangendo o ProQuest Dissertations & Theses Global e o Google Scholar.

Para aprimorar a estratégia de busca, uma complementação foi aplicada durante a etapa de seleção dos estudos incluídos. Nesse processo, as referências textuais desses estudos foram minuciosamente analisadas visando à possível inclusão manual de bibliografias que não haviam sido inicialmente contempladas na seleção final.

Seleção das fontes de evidência

Todos os estudos recuperados das bases de dados e da literatura cinza foram importados para o gerenciador de referências on-line Mendeley Cite v1.64.0 e, posteriormente, carregados no Rayyan® (Qatar Computing Research Institute), onde os estudos duplicados foram identificados e excluídos. Um teste piloto foi realizado por duas autoras responsáveis por essa fase do estudo, utilizando os primeiros cinco artigos. No Rayyan®, adotou-se o método duplo-cego, e a seleção ocorreu em duas etapas. Na primeira, duas revisoras analisaram independentemente os títulos e resumos de todas as referências identificadas. Na segunda fase, essas mesmas revisoras procederam à leitura completa dos textos, e os critérios de inclusão e exclusão nortearam a etapa de seleção dos estudos. Quando houve discordância, uma terceira revisora atuou como mediadora, e as decisões foram alcançadas por meio de discussões até que se chegasse a um consenso. Os estudos que não preencheram os critérios de elegibilidade foram excluídos.

Os dados coletados incluíram autor, data de publicação, localização, tipo de estudo e método, população, descrição e duração da intervenção, e desfechos identificados, conforme apresentado nos quadros 1 e 2.

Quadro 1
Resultados das fontes individuais de evidências (n = 8) – PRISMA-ScR
Quadro 2
Síntese dos resultados (n = 8) – PRISMA-ScR

Resumo descritivo

Um resumo qualitativo foi conduzido para agrupar e comparar os dados dos estudos incluídos. O principal resultado desta análise indicou que, de forma geral, as intervenções de promoção da saúde foram benéficas para os usuários, e, em algumas ocasiões, a implementação não atingiu plenamente as expectativas estabelecidas. Foi evidenciada a influência do contexto na implementação da estratégia, destacando a associação entre contextos mais favoráveis e níveis mais avançados de implementação. Os resultados secundários evidenciaram a complexidade do campo da pesquisa em promoção da saúde, ressaltando a necessidade de instrumentos de avaliação para assegurar a qualidade e utilidade dos resultados. Além disso, enfatizou-se a importância da integração entre academia, serviços de saúde e comunidade como sendo fundamental para impulsionar pesquisas alinhadas às demandas do campo da saúde.

Resultados

Seleção das fontes de evidência

Após a exclusão das 517 referências duplicadas, restaram 2209 estudos. Destes, 2179 foram excluídos durante a fase inicial de seleção com base em títulos e resumos. Após a avaliação dos textos completos, 22 estudos foram excluídos, resultando na inclusão de oito estudos (figura 1), sendo que sete foram provenientes de bases de dados convencionais, e um da literatura cinza. Nenhuma obra adicional foi identificada nas listas de referências. Os estudos incorporados foram avaliações publicadas em inglês, espanhol e português.

Figura 1
Diagrama do processo de identificação e seleção de estudos via bases de dados, registros e outras fontes

Característica das fontes de evidência

Oito estudos foram incorporados nesta revisão, apresentando publicações nos idiomas inglês (n=4), espanhol (n=1) e português (n=3). Entre esses estudos, cinco foram conduzidos no Brasil2125, um na China26, um na Espanha27 e outro na Inglaterra28. As publicações abrangem o período de 2013 a 2022 (quadro 2).

Resultado das fontes individuais de evidência

Os dados completos referentes às características individuais dos estudos selecionados estão apresentados no quadro 1.

Síntese de resultados

Entre os oito estudos selecionados, cinco adotaram métodos qualitativos22,24,2628, sendo que dois destes desenvolveram modelo teórico, modelo lógico e matriz de julgamento22,24. Dois estudos apresentaram a combinação de abordagens quantitativas e qualitativas23,25, proporcionando uma compreensão mais abrangente dos processos e resultados29, enquanto um estudo utilizou exclusivamente métodos quantitativos21.

Discussão

A análise dos estudos evidencia que as intervenções de promoção da saúde, embora tragam benefícios relevantes aos usuários, ainda enfrentam desafios quanto à sua plena implementação. A diversidade metodológica empregada, com predominância de abordagens qualitativas e combinações com métodos quantitativos, reflete a complexidade do campo e favorece interpretações mais abrangentes dos fenômenos investigados. A análise qualitativa, crucial para explorar subjetividades e detalhes subliminares, exige rigor na otimização de técnicas, garantindo a credibilidade das pesquisas30.

A sistematização do método na elaboração dos instrumentos de avaliação não foi observada em muitos dos estudos analisados. Além disso, a natureza participativa no processo de construção, discussão e validação do modelo de avaliação das intervenções de promoção da saúde não foi evidenciada nos estudos analisados. Essas são importantes limitações identificadas. Embora haja diferentes formas de realizar estudos avaliativos, a robustez dos resultados de uma pesquisa está diretamente relacionada com o instrumento utilizado31. É preciso que os instrumentos de avaliação sigam um processo adequado de desenvolvimento e validação32. Conforme Coluci, Alexandre e Milani31, para melhorar a qualidade dos instrumentos utilizados, os pesquisadores devem seguir etapas e métodos sistematizados. A literatura científica aponta que os instrumentos de avaliação devem apresentar boas qualidades psicométricas31,3335, como confiabilidade e validade34.

Outro aspecto que merece consideração é a natureza participativa no processo de construção, discussão e validação do modelo de avaliação das intervenções de promoção da saúde. No que se refere ao desenho da pesquisa, o envolvimento dos atores que implementam e gerenciam as intervenções permite o diálogo entre a teoria da intervenção e as convicções, experiências e conhecimentos daqueles que estão envolvidos na sua execução prática36,37. Tal aspecto não foi adequadamente evidenciado nos estudos analisados.

No que se refere aos participantes da pesquisa, os estudos incluídos contemplaram diferentes perfis de stakeholders: alguns envolveram, simultaneamente, usuários e profissionais de saúde22,25,26, enquanto outros se concentraram exclusivamente em usuários27,28 ou em profissionais de saúde21,23,24. A abordagem inclusiva, envolvendo ambos os grupos, visa a proporcionar uma compreensão mais abrangente das intervenções, ampliando a perspectiva e a relevância das análises realizadas. O engajamento colaborativo entre profissionais técnicos e cidadãos desempenha um papel significativo na promoção da saúde, tanto no âmbito individual quanto coletivo. Esse envolvimento é crucial para a formulação e implementação de estratégias direcionadas não apenas a atender às necessidades da população, mas, também, a abranger o contexto em que essa população está inserida38.

A diversidade geográfica e cultural presente em estudos realizados em países como Brasil2125, Espanha27, Inglaterra28 e China26 desempenha um papel crucial na importância dos contextos para a implementação e avaliação de programas de promoção da saúde. Cada país possui características únicas, desde diferenças socioeconômicas até particularidades culturais e sistemas de saúde distintos. Essa diversidade pode ter implicações significativas nos resultados dos programas, pois as intervenções podem ser percebidas e respondidas de maneiras diversas em diferentes contextos11. Portanto, é essencial adotar abordagens contextualizadas que levem em conta as especificidades de cada contexto social, econômico e político, promovendo um diálogo entre as diferentes áreas envolvidas na pesquisa sobre promoção da saúde5.

A predominância de publicações originárias do Brasil2125 nos estudos incluídos pode ser atribuída à significativa iniciativa do Ministério da Saúde brasileiro, a partir do ano 2000, direcionada à consolidação das práticas de monitoramento e avaliação na APS. Adicionalmente, a partir de 2017, dispositivos de autoavaliação foram incorporados como componentes da transferência de recursos financeiros, condicionados ao desempenho e à qualidade dos serviços39. A implementação de práticas institucionais de monitoramento e avaliação por equipes locais impulsionou a qualidade da Estratégia Saúde da Família (ESF) no País, desempenhando um papel vital na redução das desigualdades em saúde40. Nesse contexto, há um amplo consenso no Brasil quanto ao reconhecimento da fundamental importância da APS e da ESF para a efetiva implementação da promoção da saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS)41.

Os artigos incluídos foram publicados no período entre 2013 e 2022. Notavelmente, observa-se um contínuo crescimento nas publicações relacionadas à avaliação de estratégias de promoção da saúde, conforme evidenciado pelo expressivo número de trabalhos encontrados na fase inicial desta revisão (n = 2.209). O aumento de publicações sobre avaliação da promoção da saúde reflete uma mudança paradigmática na abordagem da saúde pública42. A transição de um modelo predominantemente curativo para um enfoque proativo na prevenção de doenças e promoção da saúde tem incentivado a pesquisa nessa área. O aumento das doenças crônicas e a compreensão dos determinantes sociais da saúde ressaltaram a necessidade de estratégias mais alinhadas às demandas populacionais4345.

Os estudos analisados evidenciaram o protagonismo acadêmico nas avaliações realizadas21,23,24,28. Apesar disso, quatro estudos apresentaram uma conexão entre a academia e os serviços de saúde22,2527, com participação de profissionais vinculados aos serviços de saúde avaliados. Essa integração revela-se fundamental para impulsionar pesquisas mais alinhadas às demandas e desafios do campo da saúde. A integração entre a academia, os serviços de saúde e a comunidade tem o potencial de promover a reflexão e a redefinição das práticas investigadas e promotoras da saúde46.

A emissão de um juízo de valor é um importante elemento para definir a natureza de uma avaliação. Este juízo qualitativo, fundamentado em critérios preestabelecidos e conhecimentos específicos, é fundamental para o processo avaliativo, variando conforme a natureza do objeto em análise47. Durante a fase de elegibilidade, a exclusão de uma quantidade considerável de estudos (n = 13) revelou que muitos deles se autodenominavam como avaliação, mas não apresentavam modelos avaliativos, indicadores ou emissão de julgamento de valor. Portanto, não atenderam aos critérios estabelecidos para estudos de avaliação (figura 1). Essa abordagem questionável na condução das avaliações pode comprometer a qualidade e utilidade dos resultados, destacando a importância de uma abordagem mais criteriosa na condução e no relato desses estudos.

Entre os oito estudos analisados, cinco22,2426,28 tiveram como objetivo avaliar a implementação de estratégias de promoção da saúde. Quatro estudos22,25,26,28 demonstraram níveis satisfatórios de implementação, e apenas um indicou uma implementação parcial do programa24, justificada por desafios significativos na dimensão do processo. Enquanto alguns estudos destacam melhorias significativas na implementação25,26 e/ou nos desfechos de saúde2628 associados às intervenções, outros ressaltam desafios substanciais e limitações23,24 nessas estratégias. Esses resultados limitantes abarcam questões nos processos relacionados à articulação multiprofissional e à integração com outros setores ou atores sociais24. Além disso, o desafio associado à falta de colaboração intersetorial também foi evidenciado23, resultando em ações improdutivas e na ausência de diálogo entre os serviços de atenção primária e secundária. A necessidade de reorganização das práticas existentes é um ponto comum entre três estudos21,24,26, especialmente quando os estudos identificam baixo nível de implementação24 e/ou desafios estruturais na execução dos programas avaliados21,24,26.

Entre os estudos incluídos na revisão, três concentraram suas avaliações exclusivamente no processo22,23,25, dois exclusivamente nos resultados21,28, um avaliou estrutura e processo24, outro abordou estrutura e resultado26, enquanto o último se concentrou no processo e no resultado27. Estudos donabedianos propõem a avaliação da qualidade nas dimensões de estrutura, processo e resultado e reforçam que uma boa estrutura facilita um processo eficiente, aumentando as chances de resultados positivos na saúde das pessoas4850. Contudo, embora esse modelo seja amplamente reconhecido e útil para a análise da qualidade em serviços assistenciais, sua aplicação à avaliação de intervenções de promoção da saúde exige cautela. A promoção da saúde pressupõe ações intersetoriais, participação social e abordagens que transcendam o setor saúde, envolvendo determinantes sociais, ambientais, econômicos e culturais51. Essas características demandam enfoques avaliativos ampliados, capazes de captar interações complexas entre setores e dimensões não restritas à lógica assistencial.

Os estudos presentes na análise focalizam tipos específicos de programa de promoção da saúde, abrangendo áreas como estratégias de amamentação22,25, prevenção do diabetes26,28, atividade física24,27, assistência nutricional23 e saúde bucal21. A variedade de programas ressalta a complexidade da promoção da saúde, moldada pelas estratégias das organizações executoras, pelo contexto sociopolítico e pelo ambiente de implementação. Essa diversidade de influências justifica várias perspectivas de avaliação, desde o impacto na melhoria das condições de saúde até a capacidade de instigar processos de mudança social que afetem os determinantes da saúde52. Contudo, a fragmentação das avaliações sobre intervenções específicas acaba por não representar a totalidade das iniciativas de promoção da saúde.

Ao avaliar a promoção da saúde, é essencial considerar o desenvolvimento da capacidade individual e comunitária para lidar com os fatores que influenciam a saúde. A avaliação de eficácia, por exemplo, busca determinar se uma intervenção atinge seus objetivos, abordando não somente aspectos técnicos, mas, também, questões filosóficas sobre saúde, os direitos dos cidadãos e a responsabilidade social dos envolvidos51, conforme delineado nos princípios orientadores da promoção da saúde de empoderamento e participação social2.

Nesse contexto, o desenvolvimento de iniciativas de promoção da saúde na APS é essencial para reestruturar o modelo de atenção à saúde e implementar abordagens baseadas nos determinantes sociais da saúde. Isso ressalta a relevância da promoção da saúde como estratégia integradora de conhecimentos interdisciplinares no cuidado individual e coletivo9.

Limitações

No contexto geral deste estudo de revisão de escopo, algumas limitações foram identificadas. Uma delas é a heterogeneidade dos estudos analisados. Embora muitos estudos tenham se autodenominado como estudos de avaliação, uma parcela significativa deles se tratava de estudos epidemiológicos, como ensaios clínicos randomizados, estudos quase experimentais e de coorte. Além disso, nos estudos incluídos, não foi realizado um julgamento de valor quanto à natureza das intervenções, se eram de fato direcionadas à promoção da saúde ou à prevenção de doenças. Essas nuances ressaltam a necessidade de uma análise mais cuidadosa e específica na interpretação dos resultados. Por se tratar de uma revisão de escopo, não foi analisada a qualidade dos estudos com base no risco de viés. Apesar de ter sido desenvolvida uma estratégia de busca abrangente, alguns estudos relevantes podem não ter sido incluídos, especialmente aqueles publicados em línguas diferentes das abrangidas (português, inglês e espanhol).

Conclusões

Os resultados desta análise ressaltam a importância da avaliação das intervenções de promoção da saúde, não apenas para identificar seus resultados e impactos, mas, também, para aprimorar sua implementação ao longo do tempo. Destaca-se a complexidade desse campo de pesquisa e a necessidade de abordagens mais integrativas e padronizadas na elaboração e uso de instrumentos de avaliação.

A integração entre academia, serviços de saúde e comunidade, por meio da colaboração entre diferentes atores – como profissionais de saúde, pesquisadores acadêmicos e membros da comunidade –, é crucial para remodelar o modelo de atenção à saúde, com foco nos determinantes sociais da saúde, fortalecendo tanto o cuidado individual quanto o coletivo. Essa integração emerge como um fator primordial para desenvolver, implementar e impulsionar intervenções e pesquisas adaptadas e contextualizadas, capazes de atender de forma eficaz às necessidades específicas de cada população.

Esta revisão de escopo permitiu acessar o volume de estudos disponíveis e examinar sua condução, o que evidenciou uma escassez de estudos avaliativos sobre promoção da saúde na APS. Revelou-se que muitos estudos se autodenominavam como avaliação, porém, não empregavam modelos avaliativos, indicadores ou julgamentos de valor, enfatizando a importância de um processo avaliativo fundamentado em conhecimentos específicos e critérios preestabelecidos.

Além disso, a revisão destacou outra lacuna de conhecimento com relação aos estudos de avaliação sobre promoção da saúde na APS. Ao tentar responder à pergunta de pesquisa ‘Quais são os estudos de avaliação conduzidos sobre promoção da saúde na Atenção Primária à Saúde?’, observou-se que a maioria dos estudos incluídos, embora voltados à promoção da saúde, concentraram-se em avaliações de dimensões de estrutura, processos e/ou resultados, sem considerar o desenvolvimento da capacidade individual ou comunitária para enfrentar os fatores que afetam a saúde, conforme delineado nos princípios orientadores da promoção da saúde de empoderamento e participação social.

Diante disso, ressalta-se a necessidade premente de pesquisas futuras transcenderem essas abordagens segmentadas, explorando estratégias mais abrangentes de promoção da saúde e utilizando instrumentos de avaliação com modelos avaliativos e matriz de análise de julgamento.

  • Suporte financeiro:
    não houve

Disponibilidade de dados:

os dados de pesquisa estão contidos no próprio manuscrito

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Editado por

  • Editora responsável:
    Ingrid D’avilla Freire Pereira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    Nov 2025

Histórico

  • Recebido
    17 Mar 2025
  • Aceito
    15 Set 2025
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