Open-access Os motivos da hesitação vacinal no Brasil: uma análise a partir da percepção dos profissionais de saúde que atuaram na pandemia da COVID-19

Resumo

O fenômeno da hesitação vacinal é complexo e multifacetado. Nesse sentido, este artigo analisa os motivos da hesitação vacinal percebidos pelos profissionais de saúde na interação com os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) na vacinação contra covid-19. Realizado entrevistas com 86 profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) em quatro municípios de diferentes estados e no Distrito Federal. Os resultados apontam complacência, conveniência, confiança, comunicação e contexto como determinantes da hesitação vacinal reconhecidos pelos profissionais de saúde. Na categoria complacência, foram identificadas as subcategorias “Percepção de baixo risco pelo avanço da vacinação” e “Percepção de baixo risco por menosprezar a pandemia”. Na categoria conveniência, foram mapeadas as subcategorias “Falta de acesso à informação”, “Localização geográfica do local de vacinação” e “Funcionamento do local de vacinação”. Na categoria confiança, são identificadas as subcategorias “Marcas das vacinas”, “Desconfiança da velocidade do desenvolvimento das vacinas” e “Medo dos efeitos das vacinas”. Na análise da categoria comunicação, foram identificadas as subcategorias “Informações falsas comunicadas por profissionais de saúde”, “Informações falsas que circulam em redes sociais”, e “Informações falsas comunicadas por diferentes autoridades políticas”. E, por fim, na categoria contexto, foram identificadas as subcategorias “Estar alinhado com lideranças políticas”, “Estar alinhado a questões religiosas” e “Condições socioeconômicas”.

Palavras-chave:
Hesitação Vacinal; Vacina, Covid-19; Atenção Primária à Saúde; Profissionais de Saúde

Abstract

The phenomenon of vaccine hesitancy is complex and multifaceted. In this context, the present article analyzes the reasons for vaccine hesitancy perceived by healthcare professionals in their interaction with Brazilian National Health System (SUS) users during COVID-19 vaccination. Interviews were conducted with 86 primary healthcare professionals in four municipalities from different states and the Federal District. The results point to complacency, convenience, confidence, communication, and context as determinants for vaccine hesitancy recognized by healthcare professionals. In the category of complacency, the subcategories “Perception of low risk due to vaccination progress” and “Perception of low risk by downplaying the pandemic” were identified. In the category of convenience, the subcategories “Lack of access to information,” “Geographical location of the vaccination site,” and “Operation of the vaccination site” were mapped. In the category of confidence, the subcategories “Vaccine brands,” “Distrust in the speed of vaccine development,” and “Fear of vaccine side effects” were identified. In the analysis of the communication category, the subcategories “False information communicated by healthcare professionals,” “False information circulating on social media,” and “False information communicated by various political authorities” were identified. Finally, in the category of context, the subcategories “Alignment with political leaders,” “Alignment with religious issues,” and “Socioeconomic conditions” were identified.

Keywords:
Vaccination Hesitancy; Vaccine; COVID-19; Primary Health Care, Health Personnel

Introdução

A pandemia da covid-19 reavivou o debate sobre a importância da vacinação para o controle de doenças imunopreviníveis. Historicamente, o Brasil deu lugar de destaque ao seu programa de imunização dentro do sistema de saúde (Maciel et al., 2022). Caracterizado como um dos maiores e mais completos programas de vacinação do mundo desde sua criação, em 1973, nos dias de hoje, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) é reconhecido por promover a vacinação gratuita de mais de 15 imunógenos (Domingues; Teixeira, 2013). Além disso, o PNI foi determinante para a diminuição significativa de casos e óbitos por doenças imunopreveníveis no país e pelo aumento da expectativa de vida no Brasil (Domingues; Teixeira, 2013). A partir da década de 1990, as coberturas vacinais infantis avançaram e chegaram a patamares acima de 95% (Domingues; Teixeira, 2013), dados que indicam boa adesão da população à vacinação. No entanto, essas coberturas têm declinado desde 2016 (Sato, 2018; Fernandez; Matta; Paiva, 2022).

Durante a pandemia da covid-19, com a ampliação do debate sobre as vacinas, intensificou-se em todo o mundo a discussão sobre a hesitação vacinal. Os indivíduos hesitantes podem aceitar todas as vacinas e continuar preocupados depois de recebê-las; alguns podem recusar ou atrasar um tipo de vacina e aceitar outros; e alguns indivíduos podem recusar todas as vacinas disponíveis. Assim, podemos definir hesitação vacinal como um atraso na aceitação ou recusa de vacinas, apesar da disponibilidade das mesmas nos sistemas de saúde (MacDonald et al., 2015).

O fenômeno da hesitação vacinal é complexo e acontece em contextos específicos, variando de acordo com o tempo em que sucede, com o lugar onde ocorre e com o tipo de vacina em questão (Sato, 2018). Embora não seja um fenômeno novo (Riedel, 2015), uma variedade de fatores influenciou o aumento da hesitação vacinal durante a pandemia da covid-19: preocupações com o rápido processo de produção das vacinas, o uso das novas tecnologias de RNA mensageiro (mRNA) e possíveis efeitos colaterais (Leong et al., 2022); a propagação de desinformação e informações distorcidas pelas mídias sociais, acesso a informações deturpadas sobre o tema da imunidade natural, sobre a eficácia das vacinas contra covid-19 e sobre a necessidade de aplicação de diversas doses da vacina (Zhong et al., 2021); além da posição oficial de governos que estimularam a hesitação vacinal durante a covid-19 (Wise, 2021).

Pesquisas apontam diferentes fatores e apresentam modelos explicativos com possíveis determinantes da hesitação vacinal. Temas como: (i) complacência, que diz respeito à baixa percepção individual do risco e do valor atribuído às vacinas; (ii) conveniência, que envolve a disponibilidade, a acessibilidade geográfica aos serviços de vacinação, o acesso à informação e a capacidade de compreensão; e (iii) confiança, que é o conhecimento e as percepções sobre segurança e eficácia das vacinas, do sistema que as fornece incluindo os serviços e profissionais de saúde e a motivação dos formuladores de políticas para recomendá-las, são amplamente reconhecidos nesse debate (Sato, 2018; MacDonald et al., 2015). Com o avanço dos estudos na literatura internacional, reconhece-se mais dois elementos que podem incidir sobre a hesitação vacinal: (iv) comunicação, que diz respeito a fontes de informação e à infodemia, consubstanciada no excesso de informações e na difusão de informações falsas (MacDonald et al., 2015; Razai et al., 2021) e (v) contexto, que diz respeito à etnia, religião, ocupação e fatores socioeconômico como temas estruturais que podem levar a uma baixa adesão à vacina em alguns grupos (Razai et al., 2021). Portanto, os determinantes da hesitação vacinal podem ser apresentados por meio do modelo dos cinco Cs (Complacência, Conveniência, Confiança, Comunicação e Contexto).

No cenário do debate sobre hesitação vacinal, os trabalhadores de saúde representam um grupo especialmente importante para a investigação dos fatores vinculados ao processo de vacinação e à confiança nas vacinas (Nobre; Guerra; Carnut, 2022). No Brasil, durante a emergência sanitária gerada pela covid-19, os trabalhadores que atuaram no Sistema Único de Saúde (SUS), na linha de frente e em contato direto com a população, desempenharam papel determinante nos processos de vacinação, fato que já ocorria no contexto de pré-pandemia (Bortoli et al., 2023).

O SUS acumula bastante experiência em campanhas de vacinação em massa. Anualmente esses profissionais se envolvem em diversas campanhas. Nesse contexto, as campanhas de vacinação são implementadas geralmente pela Atenção Primária à Saúde (APS) (Brasil, 2014) e têm como protagonistas, principalmente, os profissionais de enfermagem (Nerger, 2010), responsáveis pela organização e qualificação do trabalho em saúde e pela organização e funcionamento das salas de vacina em todo o país (Lanzoni; Meirelles; Cummings, 2016). Portanto, as campanhas de vacinação dependem de diversos profissionais que dão suporte ao processo, seja na busca ativa da população, seja nas atividades administrativas relativas à vacinação (Brasil, 2014).

A literatura aponta para a necessidade de mapear as percepções desses profissionais sobre a imunização (Nobre; Guerra; Carnut, 2022; Souto et al., 2024). Isso se deve ao reconhecimento da influência exercida por eles na decisão individual por se vacinar, dada a relação de confiança entre profissionais e usuários do sistema de saúde (Sato, 2018). Podemos, portanto, reconhecer o papel-chave dos profissionais de saúde no processo de compreensão dos motivos da hesitação vacinal. Nesse sentido, este artigo visa analisar os motivos da hesitação vacinal reconhecidos pelos profissionais de saúde na interação com os usuários do SUS durante o processo de vacinação contra covid-19.

Métodos

Desenho da pesquisa e coleta de dados

Este é um estudo qualitativo, em que foram realizadas entrevistas com 86 profissionais de saúde em quatro municípios brasileiros (Rio de Janeiro (RJ), Rondonópolis (MT), Feira de Santana (BA) e São Paulo (SP)), e em Brasília, no Distrito Federal. A escolha dos municípios foi feita por conveniência, sem intenção amostral e procurando contemplar cidades de diferentes estados brasileiros. Além disso, a escolha foi guiada pela necessidade de capturar uma variedade de contextos locais e urbanos/rurais para proporcionar uma visão diversificada das práticas e percepções relacionadas à vacinação.

O recrutamento dos entrevistados e a coleta de dados ocorreram entre janeiro e dezembro de 2022. Foram entrevistados profissionais de saúde que atuavam na APS nesse período, por meio de uma amostragem por conveniência de unidades de saúde nas diferentes localidades estudadas. A seleção de participantes foi feita por meio da indicação do gestor da unidade selecionada, considerando os critérios de inclusão indicados pela pesquisa. A partir disso, a seleção prosseguiu por amostragem “bola de neve” para ampliar o alcance da pesquisa e capturar narrativas diversificadas sobre a percepção do fenômeno da hesitação vacinal. O critério de inclusão era ser profissional de saúde e ter trabalhado pelo menos seis meses entre 2020 e 2022. Neste estudo não se objetivou obter uma representatividade amostral dos profissionais de saúde brasileiros. Ainda assim, a inclusão de participantes de diferentes estados possibilitou a diversidade das respostas e a ampliação da análise realizada.

A coleta de dados foi feita por meio de entrevistas semiestruturadas, presenciais e remotas, com questionário dividido em quatro blocos temáticos: (1) perfil sociodemográfico; (2) experiência na vacinação contra covid-19 e a hesitação vacinal; (3) desigualdade em saúde nos territórios; e (4) desafios da vacinação e experiências e opinião sobre vacinação da covid-19. As entrevistas duraram, em média, 45 minutos.

Sobre o perfil sociodemográfico e a distribuição dos participantes segundo o município em estudo, observamos que 29 (33,7%) participantes eram do Rio de Janeiro (RJ); 22 (25,6%) de Rondonópolis (MT); 20 (23,3%) de Feira de Santana (BA); 8 (9,3%) de São Paulo (SP); e 7 (8,1%) de Brasília (DF). Dos 86 participantes, 70 (81,4%) se definiram como do gênero feminino, a maior parte (41,9%) tinha entre 37-56 anos e 39,5% se autodeclararam brancos, seguido dos pardos com 36%. No que se refere ao dado sobre profissão, enfermeiros, agentes comunitários de saúde e técnicos de enfermagem foram as profissões com maior número de entrevistados (25, 21 e 20 respectivamente), totalizando 66 pessoas (76,8% do total de entrevistados). Médicos, odontologistas e outros somam 20 pessoas (23,2% do total de entrevistados).

Organização e análise dos dados

O estudo realizou uma análise qualitativa que contou com a sistematização dos dados e aprofundamento da questão de pesquisa e dos objetivos em consonância com aspectos teóricos presentes na literatura. As 86 entrevistas foram transcritas e posteriormente codificadas com o auxílio do software Dedoose para a realização de análise temática das percepções compartilhadas pelos profissionais de saúde entrevistados (Miles; Huberman; Saldaña, 2018).

A codificação das entrevistas foi feita em duas etapas. A primeira, a partir da perspectiva dedutiva, identificou cinco categorias apontadas pela literatura como determinantes da hesitação vacinal, ou seja, (i) complacência, (ii) conveniência, (iii) confiança, (iv) comunicação e (v) contexto. A segunda, a partir da perspectiva indutiva, identificou-se subcategorias para cada uma dessas categorias com base nas narrativas. O Quadro 1 apresenta as categorias e suas respectivas subcategorias.

Quadro 1
Categorias e subcategorias

Em todas as etapas do estudo foram cumpridas as recomendações éticas para pesquisas envolvendo seres humanos (Resolução nº 466/2012, Resolução nº 510/2016 e Resolução nº 580/2018). Além disso, o estudo foi aprovado pela Comissão de Ética em Pesquisa da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca/Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz), nº 5.430.488.

Resultados

A partir das entrevistas feitas, analisamos os principais motivos de hesitação que emergiram das narrativas apresentadas neste estudo. Eles estão organizados apoiando-se no modelo dos cinco Cs, ou seja, observando as categorias complacência, conveniência, confiança, comunicação e contexto. Cada uma dessas categorias está conformada por subcategorias que detalham a percepção dos profissionais de saúde e expressam as especificidades da compreensão do fenômeno pelos profissionais de saúde.

Complacência

A categoria “Complacência”, que diz respeito à baixa percepção individual do risco e do valor atribuído às vacinas, possui duas subcategorias: “Percepção de baixo risco pelo avanço da vacinação” e “Percepção de baixo risco por menosprezar a pandemia”.

Segundo os profissionais de saúde, a hesitação vacinal pode estar vinculada ao próprio avanço da vacinação. À medida que a vacinação avança, as pessoas se sentem menos expostas ao risco da covid-19 em função das mudanças que a vacinação traz para o cenário epidemiológico. Nesse sentido, um profissional afirma: “Pela minha experiência, a partir do momento que teve uma grande vacinação em massa e as pessoas começaram a ver que diminuíram os casos de morte, […] começou a liberar a questão das regras, de ficar isolado, de ficar 15 dias tudo fechado, então já acharam que não precisa vacinar” (Enfermeiro/a, Rondonópolis, MT).

Outro profissional afirma que “[…] as pessoas se acostumaram com a vacina, perderam o medo, porque acabou aquela fala de ‘morreram não sei quantas mil pessoas’, as pessoas não estão mais ficando internadas, hoje as pessoas estão tendo mais sintomas leves, é uma gripe, como todo mundo tá levando” (Enfermeiro/a, Feira de Santana, BA). Portanto, para os profissionais, há uma percepção de baixo risco em função do avanço do processo de vacinação.

No contexto da Complacência, identificamos também na fala dos profissionais de saúde a percepção de baixo risco em função do menosprezo à pandemia por uma parcela da população. Nesse sentido, um profissional afirma: “Eu acho que é uma falsa sensação de que não tem problema nenhum acontecendo, que essas vacinas, boa parte é desnecessário, essa é a real, eles acham desnecessário. […] Mas acho que é mais essa falsa sensação de que não tem nada acontecendo e que não precisa de vacinar” (Agente comunitário/a de saúde, Rondonópolis, MT).

Conveniência

A categoria “Conveniência”, que envolve a disponibilidade, a acessibilidade geográfica aos serviços de vacinação, o acesso à informação e a capacidade de compreensão, pode ser discutida a partir de três subcategorias: “Falta de acesso à informação”, “Localização geográfica do local de vacinação” e “Funcionamento do local de vacinação”.

Profissionais apontam que a hesitação vacinal está atrelada à falta de acesso à informação: “Acho que é falta de informação. Geralmente os pais não levam as crianças para as unidades de saúde para dar vacina e fica assim, não sabem o risco da doença e não levam” (Técnico/a de enfermagem, Feira de Santana, BA). Além disso, a localização geográfica da sala de vacina é vinculada à hesitação em se vacinar: “Imagina vir à unidade, eu digo pelo meu local de trabalho, ou pela minha área, a minha área já é uma área mais distante, então pra algumas pessoas virem para cá, é meia hora andando” (Enfermeiro/a, Feira de Santana, BA).

E, por fim, os profissionais apontam o esquema de funcionamento do local de vacinação, que pode levar a um grande tempo de espera em filas, como algo relacionado à hesitação em se vacinar.

Essa questão do acesso a gente tem que caracterizar melhor hoje em dia, acho que o tempo de espera para vacina, essas etapas burocráticas são barreiras de acesso. O paciente tem que aguardar 2 horas, 3 horas, 4 horas para tomar uma vacina, isso é uma barreira de acesso física […], de dinâmica de vida, tem que faltar o trabalho, tem que faltar outra atividade, não é uma coisa simples (Médico/a, Brasília, DF).

A questão do horário de funcionamento das unidades de saúde também foi apontada como capaz de diminuir o acesso à vacinação: “Acho que o horário da vacina tinha que ser aberto, horário de almoço, tinha que ser horário estendido à noite, tinha que funcionar sábado e domingo, mas eles conseguiram fazer isso por um bom tempo com o centro de vacinação, que eles chamaram” (Médico/a, Rondonópolis, MT).

Confiança

A categoria “Confiança” diz respeito ao conhecimento e às percepções sobre segurança e eficácia das vacinas, do sistema que as fornece, incluindo os serviços e profissionais de saúde, e à motivação dos formuladores de políticas para recomendá-las. Identificamos três subcategorias no debate sobre Confiança: “Marcas das vacinas”, “Desconfiança da velocidade do desenvolvimento das vacinas” e “Medo dos efeitos das vacinas”.

Sobre desconfiar das marcas das vacinas, os profissionais apontam que as fake news sobre fabricantes específicos de vacina impactaram na busca pelos imunizantes. “No começo eles estavam com essa dúvida: ‘ah, tem qual vacina?’ ‘Tem a astrazeneca?’ ‘Ah não, eu quero a CoronaVac, porque disseram que tá fazendo melhor efeito’. Tinha essas situações” (Agente Comunitário/a de Saúde, Rio de Janeiro, RJ).

Outra desconfiança apontada tem relação com a rapidez no desenvolvimento das vacinas. Um profissional de saúde afirmou: “Eu tenho incontáveis pacientes que não tomaram nenhuma dose, não foram poucos, e eles diziam assim: ‘não, porque eu ainda vou ver quê que vai acontecer e tal’, então acho que tem uma desconfiança com a velocidade com que a vacina foi disponibilizada, que não foi tão rápido assim” (Enfermeiro/a, Brasília, DF).

Por fim, ainda no debate sobre confiança, os profissionais de saúde apontam o medo dos efeitos das vacinas - efeitos de longo prazo e reações adversas - como um fator relevante para a hesitação vacinal. Outros relatam o medo de maneira mais difusa: “Então eles não explicam exatamente o medo, o porquê, mas falaram que tem receio, que não queria, que só vai fazer porque precisa tirar um documento, ir em algum local que estão exigindo” (Enfermeiro/a, Feira de Santana, BA).

Comunicação

A categoria “Comunicação” trata sobre o excesso de informação e a difusão de informações falsas. Nessa categoria identificamos três subcategorias: “Informações falsas comunicadas por profissionais de saúde”, “Informações falsas que circulam em redes sociais”, e “Informações falsas comunicadas por diferentes autoridades políticas”.

Muitos entrevistados relatam a dificuldade em lidar com as informações divergentes nas redes sociais ao serem questionados por pacientes e familiares: “[…] eu achava difícil. Então muitas vezes a gente tinha que ir pesquisar ou ir atrás do instrutivo, do resuminho que nós tínhamos das vacinas também pra tirar dúvida, pra mostrar que era informação falsa” (Enfermeiro/a, São Paulo, SP).

Excesso de informação, profissionais declaradamente contra a vacina e que circularam informações falsas foram frequentemente citados como motivos para o aumento da hesitação vacinal: “[…] então a gente viu também profissionais da saúde propagando informação falsa, eu acho que esse é um dos motivos” (Enfermeiro/a, São Paulo, SP).

Além disso, foi apontada como questão vinculada à hesitação em virtude da circulação de informações falsas em redes sociais: “Muita gente não tomou, principalmente por conta de boatos das redes sociais, de mentiras dizendo que a vacina dava AVC, a vacina paralisava, a vacina trazia outras doenças, matava” (Enfermeiro/a, Brasília, DF).

Os profissionais identificaram o uso dos aplicativos de mensagens como um meio importante de circulação de informações falsas sobre as vacinas. “Em relação ao pessoal do outro lado das fake news, é ‘pá pum’, que eles se comunicam com muita facilidade, comunicação muito rápida em grupos de WhatsApp, por exemplo” (Médico/a, Brasília, DF).

Os profissionais indicam também a influência da circulação de informações falsas comunicadas por autoridades políticas para a hesitação vacinal: “E a gente vai chegando até o ponto que ela diz […] o presidente não vacinou, diz que é só uma gripezinha, que todo mundo vai pegar, e a tal da imunidade não sei o quê” (Enfermeiro/a, Brasília, DF); “Realmente teve muita fake news circulando, questões que vieram do próprio presidente” (Enfermeiro/a, São Paulo, SP).

Contexto

A categoria “Contexto” diz respeito aos temas estruturais que podem levar a uma baixa adesão à vacina em alguns grupos. Identificamos no “Contexto” três subcategorias: “Estar alinhado com lideranças políticas”, “Estar alinhado a questões religiosas” e “Condições socioeconômicas”.

As associações entre vacinação e ideologia política foram aspectos significativos que emergiram espontaneamente das narrativas dos profissionais de saúde. As declarações sobre política foram associadas principalmente à postura antivacina do presidente em exercício, Jair Bolsonaro, e de seus apoiadores.

Eu conheço muitos que nem tomaram a primeira [dose] por causa do presidente, […] disse que ficava sem a vacina, e não tomou. Vários que não tomaram por causa disso, política. Mesmo a gente falando que não tem nada a ver, ele disse que não, ‘o presidente não tomou, então a gente também não vai tomar’ (Agente comunitário/a de saúde, Feira de Santana, BA).

No mesmo sentido, os profissionais destacaram que questões religiosas estariam vinculadas à decisão de se vacinar. “Então, eu acho que muitas vezes a religião, ela atrapalha e atrapalhou muito nessa questão da vacinação, sabe?” (Médico/a, Rio de Janeiro, RJ). Afirmaram ainda que “os católicos tomaram, mas as pessoas que eram evangélicos, os crentes, não tinham tomado muito […]” (Agente comunitário/a de saúde, Feira de Santana, BA).

Por fim, profissionais de saúde vincularam características socioeconômicas à questão da hesitação. Esses indicam que encontram mais propensão a hesitar em se vacinar entre pessoas menos vulnerabilizadas socialmente. Portanto, de um lado temos:

[…] uma parte da elite que se acha muito esclarecida, que ela é a favor de tratamentos ditos alternativos, e por aí vai, e que desconfia da medicina hegemônica. […] É uma gente até que se coloca como progressista no geral, mas no fundo é muito conservadora e egoísta porque essas pessoas não topam participar de estratégias de proteção coletiva (Médico/a, São Paulo, SP).

Do outro lado, no atendimento a pessoas em situação de vulnerabilidade social, afirmam que:

Eu não percebi muitas resistências não, em relação ao aspecto político, nessas pessoas que estão em situação de rua. Eu acho que, talvez, porque - eu acho que é uma discussão mais complexa, mas - são pessoas que, para o bem e para o mal, o Estado está presente, considerando que o Estado também é a polícia, também é a guarda municipal que produz muita violência com essas pessoas (Enfermeiro/a, São Paulo, SP).

Discussão

A baixa percepção de risco de adoecimento que emerge como desdobramento do arrefecimento da pandemia e do avanço da imunização nos municípios é uma das formas de complacência identificadas. Outros estudos apontam a complacência como fator importante da hesitação vacinal. Outras pesquisas compartilham achados semelhantes. Uma revisão sistemática realizada a partir de 84 estudos sobre a hesitação vacinal em países da América Latina e em países do continente africano demonstra que as opções “percepção de baixo risco de contrair covid-19” e “o sistema imunológico poderia ser mais capaz de combater a covid-19 do que a vacina” aparecem, respectivamente, como motivos de hesitação vacinal em cerca de 7,4% e 14,8% dos casos analisados nos estudos (Gonçalves et al., 2023).

A complacência associada à percepção do baixo risco por menosprezar a pandemia conflita com a alta mortalidade pela covid-19 no Brasil, que, em 2023, contava com mais de 700 mil mortes (Brasil, 2023). A baixa percepção de risco, em um dos países com maior número de mortes, traz reflexões acerca da desinformação em saúde e seu impacto na população. De acordo com Frugoli e colaboradores (2021), a categoria complacência se relaciona com a desinformação sobre vacinas, tendo em vista que o potencial risco de morte ou sequelas decorrentes dos imunizantes é, por vezes, falso ou em níveis excessivos. Ainda no que tange à complacência, é importante pontuar o elemento de menosprezo à pandemia como uma expressão do fenômeno da desinformação. Outros estudos já correlacionaram a complacência à desinformação e à falsa percepção do baixo risco da covid-19 (Macinko et al., 2021).

Por mais que tenhamos no Brasil o SUS e o PNI que possibilitam o acesso gratuito pela população às vacinas do calendário nacional, a categoria conveniência não deve ser menorizada quando falamos sobre hesitação vacinal. O determinante da conveniência é crucial para entender as barreiras práticas que as pessoas enfrentam ao tentar acessar os serviços de vacinação e como essas barreiras podem contribuir para a hesitação vacinal. O funcionamento dos locais de vacinação, incluindo o tempo de espera em filas e horário de funcionamento das unidades de saúde também é relevante, ao constituírem uma barreira real para muitas pessoas. Portanto, a oferta de horários estendidos, incluindo fins de semana e feriados, pode facilitar o acesso às vacinas.

Faz-se necessário ampliar e democratizar o acesso aos imunizantes. Iniciativas como a vacinação em escolas, por exemplo, se mostram eficazes em diferentes cenários (Viegas, 2019), contribuindo com o cuidado de crianças e adolescentes. No entanto, nossos achados apontam para dificuldades estruturais e de acesso à vacinação. Relatos sobre o funcionamento dos locais de vacinação, associados às dificuldades estruturais, devem ser contextualizados no cenário de austeridade fiscal, acentuado pela Emenda Constitucional (EC) nº 95 de 2016. A EC 95 estabeleceu a limitação constitucional dos gastos públicos por até duas décadas, fortalecendo a redução do Estado e o esvaziamento das políticas sociais no Brasil. Dessa forma, pilares solidários da seguridade social presentes na Constituição de 1988, tais quais o SUS e o PNI, foram gradualmente desfinanciados (Viegas, 2019). Por conta disso, quando da ascensão da pandemia da covid-19, a precarização do SUS era um projeto de governo que demonstrava suas consequências em diversos setores, entre eles os baixos índices de vacinação (Menezes; Moretti; Reis, 2019).

No debate sobre confiança, assim como foi identificado em outros estudos (Gonçalves et al., 2023), o medo dos efeitos colaterais é apontado como um dos principais motivos da hesitação. Uma pesquisa revela que 60% dos indivíduos não planejavam receber a vacina contra a covid-19, devido ao medo dos efeitos adversos (Vizcardo et al., 2022). Da mesma maneira, 53% dos cuidadores de crianças entrevistados em Hospital de Bauru (SP), relataram medo dos efeitos secundários graves da vacina (Martins et al., 2018).

Diante de um cenário pandêmico, permeado de desinformações e disputas narrativas, o aumento da desconfiança é uma realidade. É essencial que os profissionais de saúde que trabalham cotidianamente no processo de vacinação, considerando a importância da atuação desses profissionais em contextos de crise sanitária (Fernandez et al., 2023), estejam preparados para abordar esses temores fornecendo informações sobre as vacinas e destacando que os benefícios da vacinação superam amplamente os riscos. A literatura aponta que profissionais pouco qualificados que atuam na sala de vacina podem comprometer a confiança nas imunizações (Martins et al., 2018). Por meio do fornecimento de informações adequadas, a sala de vacina pode ser um local estratégico para que os profissionais de saúde trabalhem a percepção de risco da população.

Ao analisar o determinante da “Comunicação” no contexto da covid-19, identificamos o surgimento de uma nova barreira para a aceitação e a adesão à vacinação. Nas narrativas sobre comunicação, observamos a visão crítica dos profissionais de saúde sobre os desafios que enfrentamos em um mundo saturado de informações e polarização política. O excesso de informação é apontado como um problema importante. Alguns estudos corroboram com nossos achados, indicando que a hesitação vacinal foi maior em áreas com mais acesso à internet e às mídias sociais (Fares et al., 2021).

A natureza mutável do comportamento de aceitação a uma vacina exige novos modelos de análise que capturem diferentes dinâmicas e características sociais, culturais e políticas. Nesse sentido, analisar o contexto local é essencial quando se trata de hesitação vacinal. As incongruências nos discursos e a disseminação de informações falsas e incorretas por profissionais de saúde e pessoas em posições de autoridade também influenciam diretamente na hesitação vacinal. O negacionismo científico institucionalizado acompanhado da disseminação de fake news, informações incorretas sobre as vacinas e críticas às vacinas por autoridades políticas são apontados como importantes fatores incidindo na hesitação vacinal (Maciel et al., 2022). Discursos inconsistentes de chefes de Estado e autoridades políticas baseados no negacionismo científico representam um importante catalisador da desconfiança nas vacinas (Fernandez; Matta; Souto, 2022; Souto et al., 2024).

Além disso, a influência de questões religiosas também esteve relacionada à aceitabilidade das vacinas de covid-19. Conforme outros estudos, esse é um fator propulsor para a hesitação vacinal nos países do chamado Sul Global. Na Venezuela, não religiosos estavam mais dispostos a receberem a vacina contra covid-19 do que católicos e protestantes, sendo os pentecostais venezuelanos os mais hesitantes (Andrade, 2021).

Com relação às condições socioeconômicas, nossos achados corroboram com estudos que identificam uma maior hesitação vacinal entre indivíduos de classes mais privilegiadas. Esses sujeitos geralmente têm maior acesso a informações alternativas sobre vacinas e a grupos antivacinas, e tendem a apresentar maior desconfiança em relação às vacinas tradicionais (Hudson; Montelpare, 2021). Em contrapartida, indivíduos e populações vulnerabilizadas parecem hesitar, principalmente, devido à maior exposição a informações falsas ou pouco confiáveis, além das múltiplas barreiras de acesso aos serviços de saúde, como as barreiras geográficas, organizacionais, econômicas e a qualidade do atendimento oferecido (Matta et al., 2024).

Considerações finais

Este estudo buscou examinar os motivos da hesitação vacinal no cenário pandêmico por meio de entrevistas com os profissionais de saúde com experiência em vacinação. Nesse contexto, os determinantes da hesitação vacinal apresentados a partir do modelo dos 5Cs puderam contribuir para a compreensão do fenômeno da hesitação vacinal durante o período de enfrentamento da covid-19. Complacência, conveniência, confiança, comunicação e contexto são fatores apontados pelos profissionais de saúde como determinantes para a hesitação vacinal.

Compreender o fenômeno da hesitação vacinal é fundamental para a implementação de estratégias de imunização mais eficazes e que contemplem elementos que vão além das estratégias de distribuição, armazenamento e aspectos logísticos da vacinação. É preciso avançar nas estratégias de diminuição da hesitação e ampliação das coberturas vacinais. Nesse sentido, o processo de categorização proposto neste artigo contribui para a identificação das adversidades em políticas e estratégias de imunização e, consequentemente, para pensar estratégias para o seu possível enfrentamento.

O referencial teórico utilizado neste estudo, que organiza os determinantes da hesitação vacinal nas cinco grandes categorias elencadas como estratégia de organização dos dados, é abrangente e dialoga com as narrativas dos profissionais de saúde. No entanto, é preciso apontar algumas lacunas na análise apresentada. Parece ser insuficiente analisar isoladamente cada uma dessas categorias, tendo em vista que cada uma apresenta-se de forma entrelaçada nas experiências relatadas. Além disso, é preciso expandir a análise considerando uma perspectiva interseccional, ou seja, registrando as diferenças que categoria profissional, raça e gênero podem gerar nos resultados analisados. Acreditamos, portanto, que essas são agendas de pesquisa que permanecem em aberto para futuros estudos.

Referências

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  • Financiamento
    Este trabalho integra o projeto “A Covid-19 no Brasil 2: análise e resposta aos impactos sociais da imunização, tratamento, práticas e ambientes de cuidado e recuperação de afetados”, que é desenvolvido pela Rede Covid-19 Humanidades MCTI. Ele integra o conjunto de ações da Rede Vírus MCTI financiadas pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações para o enfrentamento da pandemia (Convênio FINEP/UFRGS 1212/21). A pesquisa também foi parcialmente apoiada pelo projeto “Vaccine Hesitancy and online misinformation consumption and distribution among frontline healthcare workers”, financiado pelo John Fell Fund.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Mar 2025
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    10 Jan 2024
  • Revisado
    17 Set 2024
  • Aceito
    09 Out 2024
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