O presente artigo apresenta uma análise da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) de 2017 como parte de um cenário mais amplo de desconstrução da democracia brasileira. Tendo como núcleo organizador o paradigma liberal da austeridade fiscal, as transformações operadas nas orientações nacionais tiveram como diretriz a desarticulação do poder federal de coordenar a política de Atenção Primária à Saúde (APS). Com a relativização do papel do Ministério da Saúde (MS) na definição de parâmetros nacionais, buscou-se ampliar a autonomia gestora dos municípios na condução dessa política. A partir de um mapeamento dos sujeitos e instâncias políticas envolvidas nesse processo, problematizamos os sentidos das mudanças efetuadas desde a versão da PNAB de 2011. Nesse percurso, apontamos que a PNAB de 2017 favoreceu uma concepção de APS seletiva ao estabelecer incentivos diretos e indiretos para a implantação das equipes de Atenção Básica tradicionais, relativizando o modelo da Estratégia de Saúde da Família (ESF) como estratégia de expansão e consolidação da APS no país. Como conclusão, discutimos que a coordenação federal é uma variável política e programática central para o avanço da autoridade sanitária do SUS. Em sentido contrário, uma agenda liberal conservadora tende a se impor aos preceitos democráticos.
Palavras-chave:
Atenção Primária à; Saúde; Política de Saúde; Teoria Política; Sistema Único de Saúde; Democracia.