Resumo
Apresentação: A busca por respostas e a reflexão contínua sobre como mobilizar esforços para o bem comum na vida cotidiana levaram à inter-relação de três perspectivas.
Epistêmica: saúde mental coletiva e sua promoção.
Metodológica: pesquisa-intervenção; e estratégica: comunicação e rádio/podcast.
Objetivo: Descrever a experiência plurianual de um grupo de professores-pesquisadores universitários na promoção da saúde mental coletiva por meio de produções em áudio. O processo é apresentado em três etapas. Baseado em uma metodologia de pesquisa-intervenção, um processo espiral de idas e vindas entre diferentes áreas do conhecimento, que visa ampliar a construção do conhecimento sobre fenômenos humanos complexos, muitas vezes considerados de forma linear ou dicotômica.
Resultados e discussão: 43 episódios de programas de rádio/podcast e 40 cápsulas de áudio. Resultado de conversas dialógicas em grupo, cuja análise subsidiou um segundo momento conversacional em estúdio de gravação com indivíduos profissionalmente ou academicamente reconhecidos, repensando os saberes disciplinares desafiados pela experiência dos primeiros interlocutores.
Conclusões: Na promoção da saúde mental, o rádio/podcast pode contribuir para o engajamento individual e coletivo, desencadeando processos de transformação cultural em prol de uma boa vida em comum.
Palavras-chave:
Rádio/Podcast; Promoção da Saúde Mental; Saúde Coletiva; Pesquisa-Intervenção.
Resumen
Presentación: La búsqueda de respuestas y la reflexión permanente acerca de cómo movilizar esfuerzos para el bienestar común en el entorno cotidiano, condujeron a la interrelación de tres perspectivas: epistémica: salud mental colectiva y su promoción; metodológica: intervenir-investigando; y estratégica: comunicación y radio/podcast.
Objetivo: Describir la experiencia de varios años de un grupo de investigadoras docentes universitarias en la promoción de la salud mental colectiva mediante producciones sonoras.
Proceso: Se expone en tres momentos. Basado en una metodología de intervenir-investigando, un proceso en espiral de ida y vuelta entre distintos saberes, que apunta a ampliar la construcción del conocimiento sobre fenómenos humanos complejos considerados, frecuentemente, de manera lineal o dicotómica.
Resultados y discusión: 43 programas de radio/episodios podcast y 40 cápsulas sonoras. Producto de conversaciones grupales dialógicas cuyo análisis sustentó un segundo momento conversacional, en un estudio de grabación, con personas reconocidas profesional o académicamente, en una vuelta a pensar los saberes disciplinares puestos en cuestión por la experiencia de los primeros interlocutores.
Conclusiones: En la promoción de la salud mental la radio/podcast puede contribuir a la implicación individual y colectiva para suscitar procesos de transformación cultural en pro de la buena vida común.
Palabras-clave:
Radio/Podcast; Promoción de la Salud Mental; Salud Colectiva; Intervenir-investigando.
Abstract
Presentation: The search for answers and the continuous reflection on how to mobilize efforts for the common well-being in the daily environment, led to the interrelationship of three perspectives: epistemic: collective mental health and its promotion; methodological: intervening-researching; and strategic: communication and radio/podcast.
Objective: To describe the multi-year experience of a group of university teaching researchers in promoting collective mental health through sound productions.
Process: Presented in three stages. Based on a methodology of intervention-investigating, the process followed a spiral path, moving back and forth between various forms of knowledge, aiming to expand the understanding of complex human phenomena, often considered in a linear or dichotomous manner.
Results and discussion: 43 radio programs/podcast episodes and 40 audio capsules. These were the result of dialogical group conversations, whose analysis supported a second round of conversations in a recording studio with individuals recognized for their professional or academic standing. This led to a reevaluation of disciplinary knowledge brought into question by the experiences of the first set of interlocutors.
Conclusions: In the promotion of mental health, radio/podcasts can contribute to both individual and collective involvement, fostering processes of cultural transformation in favor of the common good and well-being.
Keywords:
Radio/Podcast; Promotion of Mental Health; Colective Health; Intervening-researching.
Apresentação
No âmbito de vários projetos voltados ao desenvolvimento de intervenções em saúde mental, o grupo de pesquisadores, utilizando a abordagem de pesquisa-intervenção, configurou e implementou uma experiência coletiva de promoção da saúde mental por meio de rádio/podcasts. Essa experiência foi informada por reflexões contínuas sobre as noções de promoção e o papel do rádio e dos podcasts na mobilização, na vida cotidiana, do que se chama de saúde mental como transformação pessoal e cultural em busca de uma vida coletiva boa. Essas reflexões examinaram criticamente posições convencionais, que por sua vez orientaram as práticas e a produção de rádio/podcast. No processo de reflexão recorrente sobre essas preocupações, realizaram-se múltiplas conversas dialógicas (Anderson, 1997) com diversas pessoas e grupos, buscando resgatar suas experiências e aprendizados com as vicissitudes da vida, com depoimentos de diferentes lugares: casas de encontro para pessoas deslocadas, locais de encontro para grupos de ação coletiva, lares, universidades, centros de memória, empresas, escolas, parques ou cafés, e alguns depoimentos individuais que foram reveladores em si mesmos. A perspectiva de intervir-investigar tornou-se uma forma de “humanizar os problemas, encarnar os conflitos em personagens de carne e osso, transformá-los em ação, em história, em relato” (Torres; Escudero de Santacruz, 2011, p. 80), e a opção rádio/podcast tornou-se uma possibilidade de mostrar a realidade sob diferentes ângulos, e colocá-la em diálogo com o conhecimento acadêmico para contribuir para uma análise mais aprofundada e problematizar.
Os fundamentos
Perspectiva epistêmica: saúde mental coletiva e sua promoção
Uma ampla análise documental da concepção de saúde mental (307 documentos revisados, 141 examinados e discutidos) destaca sua transmutação em uma ênfase nos transtornos mentais. Quando abordada como tal, predomina o prefixo “auto” em sua definição; a busca pelo bem-estar e pela felicidade; e as relações interpessoais limitadas e próximas; algumas referências ao meio ambiente sem considerar as desigualdades geradas pelos estilos de vida e condições, e poucas aproximações à sua contribuição comunitária como prática social transformadora (De Santacruz et al., 2016). A medicalização do conceito de saúde mental na vida privada a individualiza subsume e simplifica no sentido biológico: comer, dormir, praticar exercícios e descansar; na prática de pesquisa, reduz-se a fatores de risco ou proteção para a patologia e sua evolução; e, na vida pública, vincula-se à “econometria neoliberal do gasto” (De Santacruz et al., 2017).
Assim, a concepção de Saúde Mental Coletiva configura um campo paradigmático original para pensar a saúde em geral, e no caso do presente trabalho, a saúde mental e sua promoção, considerando novas categorias, processos e proposições. Embora as orientações epistêmicas do que se convencionou chamar de “nuova scienza” (Nova ciência) estejam em desenvolvimento por diversos pensadores (Attinger, Castellanos, Almeida-Filho, Morin, Lewin), há elementos que nos permitem pensar e construir outras formas de abordagem, entre elas, os princípios da “(...) permeabilidade e porosidade entre saberes diversos, o reconhecimento do sujeito e de suas experiências, a importância do contexto na determinação da saúde e o valor da vida cotidiana e das práticas sociais como âmbito de produção da saúde mental, como capacidade de relação e produção de projetos vitais” (Hernández-Holguín; López; Martínez-Hernáez, 2023, p. 9).
Atualmente, diferentes posicionamentos têm surgido em relação à promoção da saúde. Franco-Giraldo (2022), em uma revisão de experiências, modelos e abordagens teóricas, abrange desde modelos clássicos de saúde pública, modelos contra-hegemônicos, modelos salutogênicos, modelos comunitários, modelos de educação popular e atenção primária à saúde (APS), até psicologia positiva, modelos ecológicos, modelos cognitivos e modelos socioecológicos, entre outros, destacando duas tendências: determinantes comportamentais e sociais. Ele aponta o uso limitado da promoção e da prevenção nos sistemas de saúde latino-americanos e a necessidade de pesquisar e aprofundar suas ligações com a proteção social, a determinação e os determinantes sociais (Franco-Giraldo, 2022).
Na prática, a conjunção de promoção e prevenção levou-os a serem considerados conceitos contíguos em seu significado e ação. São referidos por uma única sigla, “p e p”, e, em última análise, restringem-se ao campo da doença, onde a prevenção é o tema central e a promoção, um tema secundário que fomenta a saúde com o objetivo de evitar a patologia. Isso está longe de seu propósito em prol da vida e de sua complexidade, o que levaria a um deslocamento da noção de risco e seu controle para modelos de “imprevisibilidade dos eventos, incorporados na ciência como emergência e na filosofia como contingência” (Almeida-Filho et al., 2009).
Pensar a saúde mental como um objeto complexo, que não pode ser explicado por meio de determinações lineares, contraria a pretensão de predição e o uso de tecnologias prefiguradas ou gerais, dados os múltiplos estados de existência que operam em diferentes níveis de realidade. A multiplicidade presente no campo da saúde mental convoca perspectivas de diversas disciplinas e saberes; é justamente essa multiplicidade que lhe confere seu grande dinamismo e capacidade criativa. É sua variedade que se considera rica, pois aponta para situações ou experiências que não são vividas nem pensadas, mas que são possíveis e compreensíveis. O reconhecimento destas aponta para a busca de uma vida boa que deve ser coordenada a cada momento e requer nutrir-nos da diversidade e da inclusão do outro como igual.
Na Colômbia, a legislação e as políticas vincularam a saúde mental a recursos individuais e coletivos, à solidariedade, à participação comunitária e aos determinantes sociais, uma visão que abre possibilidades, embora estas tenham apresentado limitações em termos de agência. Especificamente para a última Pesquisa Nacional, buscando situar a abordagem, uma concepção de saúde mental orientada para o “bem viver” foi proposta pelos autores. Esse adjetivo “coletivo” para a saúde mental considera a dimensão ética, o cuidado nas relações e a exploração da capacidade de reconhecimento do outro e de responsabilidade para com os outros e o meio ambiente como elementos centrais (De Santacruz et al., 2016). Essa abordagem busca fomentar um senso de envolvimento pessoal e social, visando reorganizações permanentes que promovam bem-estar, riqueza relacional e beleza. Assim, a proposta relacional, análoga à da saúde mental coletiva, fratura a ideia de conhecimento final, com resoluções imediatas e prescrições efetivas, com discursos últimos, especialmente quando se trata de trocas humanas.
Perspectiva estratégica: comunicação e rádio/podcast
Em sua totalidade e origem, o termo “comunicação” implica compartilhamento bidirecional, troca de experiências e participação. O rádio tem a capacidade de promover a mobilização social; processos liderados pela mídia geram significados que vão além da informação; no espaço radiofônico, as demandas sociais coexistem com aquelas que emanam do poder (Lalinde Posada, 1988); ele desempenha um papel de liderança como ferramenta de mudança social e fortalecimento cultural (Obregón, 2002). A escolha do rádio (Momento 1) baseou-se na coerência entre as vantagens que esse meio oferece e esses propósitos comunicativos. Na Colômbia, como em outros países onde a comunicação oral é altamente valorizada e a alfabetização não está disponível para todos, o rádio desempenhou um papel social preponderante de diversas maneiras. Em nosso país, o consumo de rádio continua sendo enormemente influente, mesmo considerando os avanços significativos no uso de novas tecnologias, embora, como é consistente com as práticas atuais de comunicação de massa, o rádio esteja intimamente ligado às mídias sociais.
O uso do rádio não foi concebido para alcançar o público com pretensões hierárquicas ou com discursos abstratos, mas sim a partir das experiências de pessoas comuns, considerando que “a decodificação da mensagem dependerá muito do ouvinte, de suas habilidades, de sua história e do que ele queira imaginar, colocando-o, assim, em um papel mais ativo” (Godinez Galay, 2015, p. 13). A intenção de dar conta do papel do cotidiano, das experiências, do vivido, das crenças, como elementos dinamizadores da conquista do bem-estar coletivo (saúde mental), pode muito bem encontrar espaço para ser registrado e comunicado em um meio em que seja possível falar ao “ouvinte de outro lugar, o lugar da cumplicidade”, ou, em nossos termos, o lugar do envolvimento pessoal e coletivo.
Após a experiência de produção radiofônica (Momentos 1 e 2), o processo foi adaptado às necessidades contemporâneas de produção e transmissão, considerando o formato de transmissão e a recepção assíncrona. Assim, os programas de rádio foram produzidos sem um canal de transmissão simultâneo, criando uma série de arquivos de áudio que dariam origem aos podcasts. Um podcast é um conteúdo de áudio digital que vem sendo definido e categorizado desde seu surgimento em 2004. Embora uma grande variedade de podcasts possa ser encontrada hoje, sua definição e profissionalização estão apenas começando a ser padronizadas. A contração de POD (Public On Demand) e broadcast dá origem à palavra “podcast”, que significa transmissão sob demanda pelo público (Parlatore, 2020). Um podcast é, portanto, um arquivo de áudio digital para ser ouvido quantas vezes forem necessárias, por meio de canais de distribuição (plataformas de streaming como Spotify, Apple Podcasts, Google Podcast, entre outras), em dispositivos como computadores, tablets, celulares e assim por diante. Assim, um podcast é um conteúdo de áudio que atualiza e amplia as possibilidades do rádio por ser disponível, atemporal, portátil, podendo ser baixado, reproduzido e compartilhado.
Os podcasts criam um caminho distinto de produção, distribuição e consumo em comparação com o rádio, separando os dois formatos. Os podcasts são autônomos, com características como digitalização, que facilita a produção de áudio; modularidade, ou a serialização do conteúdo e sua independência; automação, que permite a conexão de plataformas e programas que facilitam a criação e edição de conteúdo; propagabilidade, que agiliza a forma como o conteúdo é compartilhado; variabilidade, ou a adaptabilidade das mídias digitais para facilitar o consumo; e interatividade (García-Marín, 2019).
Perspectiva metodológica: intervir-investigando
Essa metodologia, particularmente com grupos, paradoxalmente concebe intervenção e pesquisa simultaneamente, superando as dualidades usuais de pensamento e ação (Torres; Escudero de Santacruz, 2011). Seus princípios e conceituação foram construídos progressivamente; a compreensão do fenômeno abordado foi e continua sendo o resultado de uma aprendizagem experiencial, sempre renovada a cada encontro grupal. A partir da experiência com questões relevantes, essa metodologia cria oportunidades para criar, descobrir e abordar significados e múltiplas compreensões, expandindo construtivamente a visão dos fenômenos humanos em uma organização e desorganização progressiva que resulta em realizações práticas, teóricas e éticas. Assim, cada passo metodológico proposto para explorar e atuar sobre questões cotidianas potencialmente problemáticas, perturbadoras e enriquecedoras para o bem viver torna-se uma jornada na qual algo novo e digno pode emergir. Essa abordagem ocorre em encontros conversacionais com pessoas diversas, com profissionais que se envolvem nesse trabalho, seja de forma contingente ou comprometida, há muitos anos.
O exposto acima alude ao conceito de “paradoxo maturacional” proposto por Winnicott (Roussillon, 1995), no qual a experiência é concebida como um encontro e uma emergência criativa que convoca opostos sem entrar em contradição. Essa abordagem ressoa com os desenvolvimentos do pensamento complexo. Assim, a proximidade e a distância que ocorrem nas relações com os outros tornam-se um movimento importante para estabelecer tanto o que é definido como pessoal quanto o que é percebido como coletivo, oferecendo um lugar de pertencimento, criação e troca. A forma mútua de relações estabelece um elo entre o outro e o eu, no qual a delimitação própria de cada pessoa é mantida, bem como uma conexão de reconhecimento e apreciação intersubjetivos.
Essa abordagem relacional e dialógica com o outro é um elemento central em toda abordagem terapêutica e tem se mostrado o aspecto curativo desse encontro. É claro que não é uma propriedade dos profissionais de saúde mental, mas sim uma qualidade de relacionamentos humanos significativos, infelizmente cada vez mais rara. Genuinidade e benevolência são características que se referem à maneira de falar e à maneira de valorizar as próprias experiências e as dos outros. Genuinidade se refere a enfatizar as emoções para que a natureza verdadeira ou significativa das experiências pessoais possa estar presente; é claro, modulando as intensidades emocionais, facilitando a empatia e os processos de reflexão sobre o ocorrido. Isso requer que, ao ouvir o que está sendo dito, também se reconheça autenticamente ou verdadeiramente a legitimidade ou o valor que uma situação, experiência ou pensamento pode ter.
Os julgamentos nessa conversa limitam o diálogo e são ações que visam outros objetivos. Aqui, a partir de uma perspectiva benevolente de todos os participantes, o objetivo é reunir diferentes vozes e, a partir daí, compreender a multiplicidade do que está acontecendo sobre uma questão comum, e garantir que essas vozes sejam verdadeiramente acompanhadas por emoção vivida. Ouvir atentamente, com abertura e contenção de preconceitos é uma tarefa indispensável, especialmente quando contradiz o modo de pensar de quem está na posição de escuta. Essa capacidade de falar e ouvir visa desconfigurar crenças e formas usuais de entender o mundo, abrir, expandir e considerar o que é diferente. O relacionamento, então, evita a subordinação, promove a equidade e a colaboração em questões comuns.
O processo e os Resultados
Momento 1. Série de rádio “Ei! Isso está melhorando!”
“Ei! Isso está melhorando!” foi a chamada escolhida para o primeiro programa de rádio concebido. Cada programa de rádio era precedido por um ou mais grupos dialógicos com a modalidade de intervenção/investigação, convidando as pessoas a discutirem suas experiências em um ambiente garantido de segurança e apoio emocional, falando sem expor a privacidade à intrusão ou à violência do julgamento negativo, ao mesmo tempo em que invocava a intimidade. Dessa forma, o programa de rádio visava estabelecer comunicações significativas que pudessem ser vivenciadas, sentidas e pensadas pelos outros como suas, que ressoassem emocionalmente ao longo do tempo e que não se tornassem exposições momentâneas, descartáveis ou indigestas para aqueles que entrassem em contato com elas.
Cada um dos diálogos foi gravado em formato de áudio e agrupado por conteúdo central emergente. Esses diálogos foram apresentados a especialistas no assunto, convidando-os a ouvir e participar, com os pesquisadores, de uma conversa em sala, buscando incorporar o conhecimento profissional. Um total de 178 pessoas de diversas origens (com consentimento prévio informado) e 34 profissionais participaram da transmissão em sala. Os tópicos abordados durante os 27 programas incluíram, entre outros, infância, aleitamento materno, parentalidade, vida profissional, convivência com a doença, sexualidades diversas, outras formas de exercício da masculinidade, violência, poder feminino, poder coletivo, perdão, trabalho, depressão em jovens, sofrimento, términos, humor, envelhecimento, família e vida urbana.
O resultado foi uma série de rádio composta por programas que entrelaçam conhecimentos diversos, juntamente com músicas que também oferecem elementos para reflexão. Isso demonstra uma abordagem recursiva e espiralada, na qual experiência e reflexão são revisitadas em ciclos de ida e volta, dos quais emergem insights relevantes para os eventos discutidos e vivenciados, sempre com o objetivo de gerar perguntas que levem a novos entendimentos e capturar lições aprendidas em cada etapa do processo, como avanços e não como soluções definitivas. O processo de diálogo é o caminho, no qual a participação baseada em experiências emocionais é o convite, e a reflexão em constante movimento é o resultado.
A série foi ao ar por 27 semanas em um espaço de rádio designado para o programa em uma rádio universitária e está hospedada em um site que permite acesso permanente, o que, de certa forma, acaba conectando programas de rádio a podcasts. Além disso, foram geradas 12 cápsulas de áudio com conteúdo dos programas que foram ao ar em diferentes ocasiões.
Momento 2. Validação da experiência e série de rádio “A Arte de Viver”.
A preocupação com o que havia sido alcançado levou a diferentes abordagens de avaliação, enfatizando que os programas de rádio eram produtos únicos, não regidos por objetivos preestabelecidos e, portanto, sua “validação”, em vez de reunir evidências técnicas e satisfação com o produto, visava explorar possíveis transformações na forma como entendemos, e possivelmente agimos, no cotidiano, bem como encontrar novos espaços para replicar e enriquecer a experiência em outros contextos, com a ideia de saúde mental coletiva. Coerente com essas características e pressupostos, a avaliação qualitativa e participativa utilizou diferentes fontes: mídias sociais, rádios universitárias, grupos focais e um exercício teórico e prático de replicação com uma rádio comunitária, cujos resultados são resumidos a seguir.
Redes sociais e rádios comunitárias. As redes sociais (em particular o Facebook) nos permitiram acompanhar o que acontecia em cada transmissão, proporcionando um espaço de diálogo com ouvintes regulares, ocasionais e intermitentes. As mensagens, além de aprovação, expressavam preocupações e propostas, e a vontade de redescobrir formas de apoio e troca que beneficiassem a saúde mental. Após oferecer à Rede Universitária Colombiana de Rádio (RRUC) a oportunidade de transmitir um ou mais episódios, cinco emissoras transmitiram a série completa. Mensagens com percepções positivas chegaram do público por meio das redes sociais de algumas dessas emissoras.
Grupos focais. Onze grupos focais (142 pessoas), compostos por alunos, professores, grupos comunitários, estudantes universitários e profissionais, responderam a perguntas abertas sobre a utilidade e o formato dos programas de rádio. Todos os participantes acharam os programas “interessantes e informativos”, identificando os aspectos relevantes que os inspiraram a ouvir. Da mesma forma, a valorização dos depoimentos foi unânime, devido à ampla identificação e mobilização de experiências relacionais, emocionais e coletivas do cotidiano, bem como à sua conexão com a saúde mental. Afirmaram que é possível compreender questões pessoais de forma diferente por meio das experiências dos outros. O rádio está se reconfigurando, em suas palavras, “como um recurso educacional atual com um formato diferente, agradável e bonito”. Os depoimentos, a música e as vozes dos especialistas são características que o tornam único no campo da saúde mental. Os comentários dos participantes foram organizados em categorias descritivas, tais como: ampliação do conhecimento, conscientização e reflexão, identificação com as experiências apresentadas, evocação de valores, consideração do bem comum e da existência do outro, e possibilidades de aplicação na vida cotidiana. Particularidades foram observadas nos diferentes grupos, destacando nuances de seu envolvimento com os programas.
Exercício com uma rádio comunitária. O teste da metodologia, concepção e produção dos programas de rádio foi realizado com uma das rádios comunitárias mais antigas do país. Sua equipe de gestão e produção tem fortes vínculos com projetos comunitários. Após exibirem vários programas da série em seu canal, eles aceitaram o convite para criar sua própria versão, chamada “A Arte de Viver”, com quatro programas em conjunto com os pesquisadores e dois produzidos com uma abordagem própria. O apoio dos pesquisadores resultou em uma expansão do conceito de saúde mental e sua promoção em termos de qualidade relacional, o que se refletiu no conteúdo dos programas. Isso demonstra que a aprendizagem, entendida dessa forma, não se concentra na repetição de discursos, mas sim na realização ou na colocação em jogo do próprio processo de aprendizagem e criação.
Momento 3. Grupo de podcast “La Ye, para onde vamos?”
O grupo de podcast que compõe a série “La Ye, para onde vamos?” baseou seu nome na apresentação de diferentes pontos de vista, diversas opções e caminhos para compreender e confrontar situações da vida. A mesma metodologia dos programas de rádio foi seguida para a criação de cada episódio: discussões em grupo com populações que diferiam em gênero, idade (adolescentes, jovens adultos, adultos), papéis (alunos, professores, pais) e interesses. Por meio de uma pergunta, imagem ou dispositivo audiovisual, uma conversa foi estimulada em torno de um tópico relacionado - neste caso, a saúde mental de crianças e adolescentes - em ambientes educacionais e comunitários, alavancando o método de intervenção por meio de pesquisa descrito anteriormente.
Assim, cada encontro foi gravado, transcrito e analisado pela equipe de pesquisa para identificar os temas centrais de discussão em cada edição, priorizando os conhecimentos, as experiências e as vivências relacionadas à parentalidade e ao cuidado apresentados pelos participantes, os quais foram confrontados com a bibliografia, a experiência dos profissionais do grupo de pesquisa e dos especialistas convidados. O pretexto para a discussão de cada episódio e o resultado da análise não foram mais as vozes diretas dos participantes dos grupos de intervenção-pesquisa, mas sim um produto literário construído como uma carta em busca de um interlocutor e apoio, uma carta que condensasse elementos emergentes e significativos dos encontros dialógicos do grupo e iniciasse uma nova conversa sobre o tema com os representantes acadêmicos. Uma situação-problema foi apresentada, apresentada em primeira pessoa, e analisada e discutida a partir das reflexões e questionamentos da moderadora direcionados aos especialistas convidados.
Na ocasião, foram realizados 10 grupos de discussão com os pesquisadores (aproximadamente 70 pessoas) e 12 profissionais convidados no estande. Os 10 podcasts abordaram temas como parentalidade, o papel de pais e avós nela, o cuidado, a sobrecarga que isso acarreta, a identidade juvenil, as sexualidades precoces e os desafios para pais e educadores diante das novas formas de relacionamento que crianças e adolescentes estabelecem, tanto com adultos quanto com a tecnologia. Isso desenvolveu uma conversa reflexiva, apontando caminhos de compreensão e ação que gerarão bem-estar e crescimento.
Aqui também, para a divulgação e promoção da série de podcasts, foram extraídas ideias-chave e fragmentos motivacionais de cada episódio, convidando você a ouvir o episódio completo, totalizando 28 cápsulas curtas. “La Ye, para onde vamos?” faz parte de um portal web voltado para pessoas interessadas na saúde mental de crianças e adolescentes.
Discussão
Enquadrada no conceito de saúde mental coletiva, a produção de um programa de rádio/podcast utilizando a metodologia de pesquisa-intervenção reconheceu a multiplicidade de saberes presentes nas vozes daqueles que vivem as experiências concretas de limitação, angústia, possibilidade, luta, sobrevivência e criatividade, valorizando a unidade múltipla criada em cada encontro dialógico. Essa abordagem demonstra que, longe de perspectivas disciplinares estreitas, os eventos da vida possuem um dinamismo e uma riqueza quase imperceptíveis quando abordados com incerteza, abertura e respeito. Só assim o impensado emerge e os múltiplos determinantes de cada situação se tornam presentes. Da mesma forma, a convergência dessa multiplicidade de fatores e vozes produz um sentido compartilhado que não anula a experiência particular privada, permitindo que ela seja genuinamente expressa em histórias sem exposição desnecessária.
Aqui, o lugar do conhecimento disciplinar torna-se uma expertise para tal escuta, que, no caso da pesquisa-intervenção, permite a geração de processos de pensamento e diálogos bidirecionais, desestruturando e reestruturando experiências, à medida que narrativas de diferentes lugares, perspectivas e conhecimentos são incluídas. São esses processos e a insistência neles que têm o poder de possibilitar a transformação cultural que todos almejamos para lidar com contradições e oposições; de modo que perspectivas reconhecidas e compreendidas tenham a oportunidade de participar e contribuir para o processo de viver melhor coletivamente. A contradição é então percebida como um aspecto da complexidade de situações ou fenômenos, e não como uma influência a ser eliminada da suposta posse de poder ou conhecimento hegemônico. Assim, o conhecimento disciplinado torna-se um tanto indisciplinado; ele é enriquecido na medida em que a presença de pessoas concretas, em situações circunscritas, proporciona uma oportunidade para questionamentos críticos que necessariamente convidam à geração de novas questões, novos conhecimentos e novas formas de trabalhar.
As abordagens críticas transcendem a dimensão puramente instrumental da comunicação e das mídias (Valderrama, 2009). A corresponsabilidade buscada visa à colaboração criativa. A gravação sonora recria o clima, o ambiente relacional em que esse reconhecimento é fomentado, pausando as condições habituais de tensão, imediatismo e excesso, que anulam a capacidade de pensamento. O que foi realizado com os grupos e suas análises foi o ponto de partida para um segundo momento conversacional, no qual indivíduos profissionalmente ou academicamente reconhecidos nos temas discutidos foram convidados a revisitar o que emergiu nos grupos, agora em um estúdio de gravação. Esse convite para debater o que foi discutido propõe um repensar dos saberes disciplinares desafiados pela experiência dos primeiros interlocutores, para que pudessem se retroalimentar mutuamente, não mais presencialmente, mas no próprio produto do programa de rádio ou episódio de podcast.
Conclusões
Tudo isso demonstra que, por meio do envolvimento individual e coletivo, é possível gerar processos de transformação cultural em prol do bem viver, visto como a promoção da saúde mental que, como sugere Bang (2014), envolve práticas focadas na ação comunitária, nas quais a dimensão subjetiva não se perde ao abordar os problemas sociais. Dessa forma, há um deslocamento da atenção dos diagnósticos e das doenças mentais para a inclusão do desconforto subjetivo e dos problemas comunitários, enfatizando processos que precisam ser visibilizados e compreendidos a partir da perspectiva da saúde/saúde mental em seu sentido de “sanitas”, de possibilidades e recursos psicológicos e sociais atuais e potenciais, referindo-se à capacidade de confrontar o sofrimento e os problemas psicológicos e aprender com eles (De Santacruz et al., 2016).
Falar sobre situações cotidianas, dificuldades ou questionamentos compartilhados por grupos populacionais tem significado um aprendizado constante, que questiona a ordem estabelecida e se abre à complexidade. E é esse questionamento que motiva o processo de transformação contínua, pois questionar continua sendo uma tarefa necessária para que encontremos ou construamos pontes de entendimento e melhores formas de viver, já que a experiência nunca é individual, mesmo que haja resoluções e responsabilidades pessoais. Ela é marcada pela história de pessoas significativas, pela sociedade e pela língua em que se inscreve, pelas crenças sociais, pelo contexto e pelo momento em que ocorre. Tudo isso desloca o foco do indivíduo e aponta para um repensar da responsabilidade pessoal (inevitável), a partir da responsabilidade compartilhada daqueles que fazem parte da matriz cultural.
Do exposto, conclui-se que, para pensar a saúde mental em um dado momento e em um contexto particular, é necessária “uma abertura que inclua o coletivo, o diverso e o histórico na interpretação dos sofrimentos de uma época, que nos permita acolher novas demandas, trabalhar a partir das contradições e construir com os outros na heterogeneidade” (Bang, 2014, p. 111). Da mesma forma, os limites das disciplinas precisam ser apagados para criar com os outros metáforas, compreensões e encontros frutíferos, mas, sobretudo, que paradoxalmente convoquem o cuidado do pessoal (corpóreo e simbólico) e do intersubjetivo. Processos participativos e a geração de espaços criativos são tarefas essenciais nesse contexto.
Portanto, o uso do programa de rádio/podcast foi concebido como uma ferramenta de diálogo com o objetivo de conscientizar e reconhecer as realidades e os problemas associados a um conceito de saúde mental que transcende as concepções tradicionais para se aprofundar na compreensão da saúde coletiva e do pensamento complexo. Isso permitiu a socialização das experiências de diferentes indivíduos e seu impacto coletivo, desencadeando processos de identificação com o público e buscando romper o isolamento e a solidão para atingir um nível que desafia práticas de exclusão e fomenta atitudes de apoio e solidariedade. Assim, cumpriu-se o papel esperado das rádios universitárias na Colômbia: proporcionar um espaço de diálogo e convivência, “com uma pedagogia cidadã, que gere conflitos e proponha soluções; que fale sobre a vida cotidiana e como melhorá-la; uma rádio lúdica, criativa e divertida para todos os públicos” (Zambrano Ayala, 2013, p. 131).
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Financiamento
Programa: Intervenções em Saúde Orientadas pela Atenção Primária à Saúde e Redução da Carga de Transtornos Mentais que Levam ao Aumento da Cronicidade e da Incapacidade. Fase II. Contrato Colciencias 697-14. Pontifícia Universidade Javeriana - Hospital Universitário San Ignacio.Projeto de Otimização - Adaptar a oferta de recursos virtuais e multimídia para a infância, adolescência, juventude e suas questões centrais no campo da saúde mental, em Bogotá, D.C., com base no protótipo do Portal www.mentalpuntodeapoyo Bogotá. Financiamento BPIN 20200000100242 - SGR. Pontifícia Universidade Javeriana - Hospital Universitário San Ignacio.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
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Editores: José Miguel Olivar, Rodrigo Cardoso Bonicenha
