Resumo
O artigo analisa a ocorrência de brigas frequentes e a piora nos relacionamentos nas casas dos jovens de Guarulhos/SP durante a pandemia de covid-19. Com dados de um survey, foram construídos modelos de regressão logística para identificar fatores socioeconômicos e comportamentais associados a esses conflitos. Entre os resultados da pesquisa, destaca-se que a ausência de espaço adequado no domicílio, alterações na rotina e ter sido coagido a fazer algo aumentaram as chances de brigas e de piora nos relacionamentos. Também houve brigas mais frequentes entre mulheres, mais jovens e dependentes financeiramente. Juntos, conflitos familiares e vulnerabilidades juvenis se agravaram durante a pandemia.
Palavras-chave:
Conflitos; Família; Juventude; Pandemia.
Abstract
This article examines the prevalence of frequent conflicts and deteriorating relationships in the homes of young people from Guarulhos, SP, during the COVID-19 pandemic. Using survey data, logistic regression models were built to identify the socioeconomic and behavioral factors associated with these conflicts. Lack of adequate space in the home, changes in routine, and being coerced into doing something increased the chances of conflict and worsened relationships. Conflicts were more frequent among women, younger people, and those who were financially dependent. Taken together, family conflicts and youth vulnerabilities worsened during the pandemic.
Keywords:
Conflicts; Family; Youth; Pandemic
Introdução
Com o advento da pandemia de covid-19 (2020-2022), os jovens reduziram muito a frequência aos seus mais importantes locais de sociabilidade e expressão cultural, entre eles as escolas e outros espaços públicos e de convivência. Em contrapartida, o espaço da casa e das relações familiares tornaram-se mais intensos e quase que exclusivos para muitos que estavam entrando, justamente, em uma fase da vida marcada pela abertura para o mundo público.
Diante disso, como os relacionamentos entre jovens e suas famílias foram afetados? O artigo analisa os relatos de brigas frequentes e piora nos relacionamentos dos jovens dentro de casa durante a experiência inédita de isolamento social imposto pela pandemia de covid-19, com intuito de identificar fatores socioeconômicos e comportamentais associados a esses conflitos na visão dos próprios jovens moradores do município de Guarulhos, estado de São Paulo. As hipóteses sugerem que as discussões e o agravamento das relações familiares ocorrem entre os jovens mais socialmente vulneráveis, com piores condições de renda e moradia e que tiveram suas rotinas mais alteradas durante a pandemia.
Para tanto, utilizaram-se os dados obtidos pelo survey “Retratos das juventudes de Guarulhos e os efeitos da pandemia de Covid-19”, realizado pelo Observatório de Direitos Humanos de Guarulhos (2021), cuja coleta ocorreu entre os dias 29 de abril e 15 de maio de 2021, com a participação de 843 jovens entre 15 e 29 anos moradores do município de Guarulhos. Trata-se do período imediatamente posterior ao auge da pandemia no Brasil, quando a média móvel dos últimos 7 dias variou entre 2.500 e 1.900 mortes por covid-19 entre o primeiro e o último dia de coleta dos dados. Sobre o recorte espacial, Guarulhos é o 12º município mais populoso do país e o segundo no Estado de São Paulo, ficando apenas atrás da capital paulista (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], Censo de 2022). Sua população era de 1.351.275 habitantes em 2020 e os jovens representavam 24% desse total, correspondendo a 330.060 moradores entre 15 e 29 anos, segundo as projeções populacionais da Fundação Seade (2021). No enfrentamento da pandemia, o município adotou medidas alinhadas ao Plano São Paulo, do Governo do Estado, com restrições à circulação das pessoas, de acordo com os indicadores epidemiológicos.
O artigo está dividido em quatro partes, além desta breve introdução. A primeira delineia uma abordagem teórica sobre o comportamento social dos jovens e suas transformações durante a pandemia, buscando apontar caminhos analíticos para a compreensão de como ela afetou seus estilos de vida, suas redes de sociabilidade e potencializou conflitos dentro de casa, especialmente naquelas em piores condições de habitabilidade. A segunda parte demonstra a metodologia utilizada para a coleta e análise dos dados, por meio de estatísticas descritivas e da construção de dois modelos de regressão logística. Os resultados são apresentados na terceira parte, destacando os fatores socioeconômicos e comportamentais que aumentam ou diminuem as chances de brigas frequentes e de piora no relacionamento dos jovens dentro de casa durante o período de pandemia. Na quarta parte, realizou-se a discussão dos resultados obtidos em diálogo com a literatura. Por fim, as considerações finais indicam as limitações do estudo e como os resultados obtidos podem subsidiar políticas públicas para as juventudes.
A vida social dos jovens, a pandemia e seus efeitos como potencializadores dos conflitos
Na pandemia, os jovens tiveram sua vida social profundamente afetada, principalmente pela restrição dos contatos sociais com os seus pares de idade, em função do fechamento das escolas e das restrições às atividades de cultura, esporte e lazer (Vazquez et al., 2022). Essa complexidade é maior quando também tratamos dos jovens mais pobres, cujo espaço doméstico pode ser bastante diminuto e precário. Ao analisar relatos de jovens universitários sobre suas experiências de confinamento, Schritzmeyer (2022) destaca novas percepções e emoções em relação aos espaços de suas casas, onde passaram a permanecer por mais tempo, com novas atividades realizadas nesse espaço (Araújo, 2020).
De um lado, perderam-se espaços públicos importantes de constituição dos modos de a juventude expressar-se e relacionar-se; por outro, houve a inserção compulsória em casa por um período muito maior do que os jovens e suas famílias estavam acostumados, o que pode ter gerado conflitos domésticos mais frequentes.
No debate sobre a relação entre espaço público e privado no Brasil, a casa é tomada como o espaço do privado, das relações pessoais e da segurança, em contraposição à rua, espaço da impessoalidade, dos imprevistos e da insegurança, conforme a já célebre discussão de Roberto DaMatta (1997). No entanto, em muitos contextos sociais, a casa pode apresentar-se, na verdade, como um lugar bastante perigoso para os jovens, a depender de suas condições econômicas, identidade de gênero e orientação sexual. Muitos trabalhos têm mostrado como pessoas ligadas à família, portanto, da casa, aparecem, em muitos momentos, como perpetradores de violências físicas, verbais e psicológicas contra os jovens (Maia et al., 2017; Antoni; Koller, 2000). Assim, ao contrário da expectativa comum que considera a casa um refúgio, ainda mais em tempos de isolamento social, para alguns jovens a vulnerabilidade e exposição à violência pode ter se potencializado ainda mais nessa intensificação forçada do contato com familiares durante o período de isolamento social.
Considerando as alterações na rotina dos jovens e nas atividades típicas dos espaços da rua e do lar em função da pandemia, deixar de fazer coisas de que gostam e ser obrigado ou coagido a fazer coisas de que não gostam podem explicar os conflitos familiares e suas consequências na vida dos jovens. Tal hipótese será testada nesta pesquisa. Há um esforço da literatura especializada em compreender as influências da violência no desenvolvimento dos jovens, com pesquisas demonstrando que brigas frequentes no âmbito familiar possuem um potencial de risco para a saúde mental (Poletto; Koller, 2008) e que levam à falta de perspectiva futura (Siqueira, 2006; Abramovay et al., 2002).
A suspensão das aulas presenciais e o fechamento das escolas potencializam os conflitos em casa. Isso se dá porque a escola, por um lado, representa, na vida de muitos jovens, um espaço de ampliação das relações sociais, ou seja, de abertura para a vida pública. Na escola, é que muitos têm contato com experiências de vida diferentes da sua, com novas culturas juvenis e mesmo com as lógicas da organização burocrática do Estado e das políticas públicas (Pereira, 2016). Como afirmam Masschelein e Simons (2015), a escola é onde o conhecimento e as demais coisas do mundo tornam-se abertas à experimentação pública. Ao mesmo tempo, o caráter institucional da escola confere à juventude certa garantia de direitos, que vão desde a alimentação à proteção contra violências, inclusive as que ocorrem no âmbito doméstico.
Outro agravante dos conflitos é a crise econômica, agravada pela pandemia da covid-19, que gerou maior dificuldade para o ingresso dos jovens no mercado de trabalho, ainda que de forma informal e precarizada. O primeiro emprego é um dos marcadores sociais da juventude contemporânea, com profundo impacto na formação de identidade. Sua importância, no entanto, se manifesta de diferentes formas: pode representar a conquista de autonomia financeira pessoal, uma contribuição essencial para a renda familiar ou, frequentemente, uma combinação de ambos os objetivos. Para jovens em situação de vulnerabilidade econômica, a pressão por contribuir com a família é geralmente mais imediata e imperativa, sem necessariamente excluir o desejo de autonomia. Para Dubar (2005), as dificuldades de inserção profissional dos jovens são uma das características das sociedades contemporâneas, atrelado ao aumento das exclusões sociais. O emprego na sociedade atual contribui para a formação da identidade do indivíduo, sobretudo aos indivíduos jovens que estão se autoafirmando na sociedade.
Portanto, a dimensão profissional como processo de socialização no que se refere à construção e reconstrução de identidades ganha centralidade dentro de um cenário em que o emprego está escasso, sobretudo durante a pandemia da covid-19. Para agravar, a lógica atual do mercado de trabalho tem como aspecto central a ideia de que a responsabilidade pelos sucessos ou fracassos é somente dos próprios indivíduos, orientados a construir um modo de vida como empreendedores de si (Dardot; Laval, 2016).
A pandemia também revisitou a questão habitacional como agravante dos conflitos, por não garantir a privacidade ou espaços adequados para os estudos, por exemplo. Spink et al. (2020) abordam a perspectiva da denominada psicologia da habitação, que visa compreender a reação dos moradores a fatores específicos da habitualidade, tais como: o uso dos espaços e a garantia da privacidade, a influência da luz e dos barulhos nos estados emocionais e os valores estéticos para a moradia. No auge do isolamento social, a convivência familiar tornou-se mais ou menos difícil, a depender das condições de habitabilidade das moradias dos jovens e suas famílias.
Wang et al. (2020) demonstraram que o isolamento de aproximadamente 220 milhões de crianças e adolescentes chineses causou impactos psicológicos severos, tais como: medo de infecção, frustração e tédio, falta de contato pessoal com colegas, amigos e professores, falta de espaço pessoal em casa e a perda financeira da família. Estes dois últimos elementos são potencialmente mais relevantes no caso dos adolescentes e jovens de baixa renda no Brasil, por conta das enormes desigualdades sociais historicamente construídas.
As restrições às atividades de lazer e à rotina escolar implicaram a suspensão das atividades de que gostam e, concomitantemente, os jovens podem ter sido obrigados a fazer atividades menos agradáveis no âmbito doméstico, provocando conflitos dentro de casa. As consequências econômicas da crise sanitária também levaram jovens e suas famílias a lidar com uma maior dificuldade em obter trabalho e renda, o que normalmente provoca desarmonia familiar. Ademais, a convivência forçada devido às restrições impostas pelas medidas de isolamento social pode ser motivo de desentendimentos, especialmente nos domicílios mais precários, sem espaço suficiente ou condições adequadas para o lazer, o estudo e a privacidade dos jovens. Diante disso, este artigo busca verificar se as alterações na rotina dos jovens, a dependência financeira e as condições de moradia, combinadas a outros marcadores sociais, fatores econômicos e comportamentais, estiveram associadas à ocorrência de brigas e à piora nos relacionamentos dos jovens dentro de casa, com o intuito de compreender melhor essas situações de conflito entre jovens e suas famílias durante a pandemia.
Metodologia: desenho do survey, seleção das variáveis e análise dos dados
Osurvey “Retratos das juventudes de Guarulhos e os efeitos da pandemia de covid-19” foi realizado por meio de questionário autoaplicável online, respondido por jovens de 15 a 29 anos, moradores de Guarulhos, sob coordenação do ODH (2021). A pesquisa foi divulgada pelas redes sociais da Prefeitura e pelos jornais locais, como também foi enviada por e-mail e WhatsApp aos estudantes, por meio da colaboração de escolas, faculdades e universidades, públicas e particulares, sediadas no município. Ao todo, o questionário estruturado contemplou 75 questões. A coleta foi realizada com auxílio da ferramenta Google Forms. A escolha da ferramenta se deu pela facilidade de utilização, gratuidade e por garantir a acessibilidade às pessoas com deficiência.
No total, o questionário foi respondido por 935 pessoas. Desse total, 843 casos foram validados por preencherem os requisitos da pesquisa, ou seja, ter entre 15 e 29 anos e morar em Guarulhos. Do total de casos válidos, 47% tinham entre 18 a 24 anos, 30% entre 15 a 17 anos e 23% entre 25 a 29 anos de idade. Considerando que o método aplicado foi não probabilístico de caráter exploratório sobre os comportamentos e as percepções dos jovens em relação à pandemia, a pesquisa não teve preocupação de levantamento amostral. Contudo, considera-se satisfatória a quantidade de respostas e a sua distribuição, abrangendo todas as regiões da cidade e em proporção à distribuição espacial da população.
Neste estudo, temos duas variáveis dependentes. A primeira corresponde à questão sobre a ocorrência de “brigas frequentes dentro de casa” durante a pandemia, cujas respostas possíveis eram sim ou não. A segunda é resultante da avaliação dos jovens sobre os “impactos da pandemia nos relacionamentos dentro de casa”, tendo três alternativas possíveis: não houve alteração, melhorou ou piorou. Vale frisar que as respostas não eram obrigatórias nos dois casos, o que resultou em casos ausentes (missing), iguais a 13 na variável “brigas”, e 15, na “relacionamentos”.
Ao todo, 11 variáveis independentes foram selecionadas e agrupadas em 3 dimensões:
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Marcadores sociais - englobam as variáveis gênero, cor/raça, idade e prática religiosa. Em relação ao gênero, além de homem e mulher, a pergunta forneceu as opções não binário e outro (aberta), contudo a baixa incidência (sete casos, ambas somadas) impediu que estas últimas categorias fossem incluídas em um estudo quantitativo. O mesmo ocorreu com os amarelos (oito casos) e indígenas (apenas um) no tocante à cor/raça e, assim, optou-se por apenas três grupos: brancos e amarelos juntos, pretos e pardos, enquanto o caso indígena foi considerado como missing. A prática religiosa é uma variável dicotômica (sim ou não), que identifica os praticantes, independentemente da religião. Por fim, a idade é a única variável quantitativa, cujos valores estão entre 15 e 29, conforme os anos completos de cada respondente.
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Aspectos econômicos - são as variáveis faixa de renda, situação no mercado de trabalho, dependência financeira e espaço adequado no domicílio. Optou-se por 3 faixas de renda familiar: até um Salário Mínimo (SM), de um a três SM e acima de três SM. Quanto ao mercado de trabalho, as situações são: trabalhando, procurando emprego e fora do mercado, que são os jovens que não estavam trabalhando nem procurando. A dependência financeira é uma variável dicotômica que identifica aqueles que não contribuem financeiramente em casa, nem mesmo para seu autossustento. Por fim, os jovens também avaliaram se possuem ou não um espaço adequado para estudo ou trabalho em casa.
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Fatores comportamentais - verificam se aumentou o consumo de álcool e/ou drogas, se o jovem foi coagido a fazer algo que não queria e se houve alteração na rotina, considerando o período de pandemia. As duas primeiras variáveis são dicotômicas, enquanto a alteração da rotina possui três categorias: não houve alteração no estilo de vida, deixou de fazer parte das coisas de que gosta, deixou de fazer todas as coisas de que gosta.
Primeiramente, foram calculadas as frequências de todas as variáveis. Em seguida, buscou-se mensurar a associação entre as duas variáveis dependentes, ou seja, as brigas frequentes estão relacionadas positivamente com a piora nos relacionamentos dos jovens dentro de casa. Para tanto, utilizou o teste do qui-quadrado. Em função dos resultados observados, optou-se por destacar a piora nos relacionamentos em casa como efeito adverso da pandemia, o que levou à transformação desta variável em dicotômica, na qual foi atribuído o valor 1 aos relatos de piora nos relacionamentos e 0 para os casos em que houve melhora ou sem alteração.
Para identificar os fatores explicativos relacionados às brigas frequentes e à piora nos relacionamentos em casa, foram construídos dois modelos distintos de regressão, um para cada variável dependente. De acordo com Lattin, Carroll e Green (2011), a análise de regressão é utilizada para explorar a relação entre um conjunto de variáveis independentes e uma única variável dependente, que será diferente em cada modelo. Como as duas variáveis dependentes são dicotômicas, utilizaram-se os modelos de regressão logística binária. Os resultados serão interpretados pela significância estatística (valor p) e pelo odds ratio (OR), que mede os impactos das variáveis independentes (X) sobre a chance (odds) do evento (Y) ocorrer. Os procedimentos para a construção dos modelos de regressão logística binária e interpretação dos seus resultados estão sintetizados em Fernandes et al. (2020).
Para a definição dos modelos, foram realizadas regressões simples, com todas as variáveis independentes separadamente, a fim de verificar o efeito isolado de cada uma delas. Em seguida, foram construídos os dois modelos de regressão múltipla, os quais consideram a influência das variáveis independentes concomitantemente, com o objetivo de verificar os fatores associados à avaliação dos jovens, quando esses estão controlados pelas demais covariáveis. Nas análises multivariadas, todas as variáveis independentes foram consideradas inicialmente nos modelos múltiplos de regressão logística. Os modelos finais foram definidos pelo método de inclusão (stepwise forward) de variáveis significativas, no qual as variáveis independentes são inseridas automaticamente, uma por vez, pela ordem de maior significância (menor valor de p), permanecendo no modelo final caso sua significância estatística se mantenha, após a inserção das demais. Como critério, adotou-se p<0,05. Para verificação de ajuste dos modelos, foi utilizado o VIF (variance inflation factor) de modo a garantir que não houvesse multicolinearidade, complementada pela análise gráfica e numérica dos resíduos. Foi utilizado o software SPSS versão 21.0 para a análise estatística.
Resultados
Primeiramente, faremos uma análise descritiva das duas variáveis dependentes - brigas frequentes e relacionamentos dentro de casa - e da associação existente entre elas. A hipótese é que as brigas afetam os relacionamentos e vice-versa, tal como apontam Pratta e Santos (2007). Considerando as respostas originais, a Tabela 1 abaixo mostra os valores percentuais totais e do cruzamento entre as duas variáveis.
Resultados do cruzamento entre brigas e relacionamentos em casa, em valores percentuais (N=815)*, jovens moradores de Guarulhos, 2021
As brigas frequentes ocorreram em 39% das casas dos jovens participantes, enquanto os relacionamentos pioraram durante a pandemia em 22,6% dos casos, melhoraram em 26,3% e se mantiveram inalterados em 51,2% do total, conforme destacado na Tabela 1. O cruzamento entre as duas variáveis revela forte associação entre elas, com elevada significância estatística medida pelo teste do qui-quadrado. Nota-se que, entre os jovens que relataram brigas frequentes, 50,3% apontam que o relacionamento piorou durante a pandemia; sem brigas, o registro de piora é inferior a 5%. Complementarmente, observa-se que onde houve piora nos relacionamentos, ocorreram brigas frequentes em 87% dos casos. Quando os jovens relataram que os relacionamentos dentro de casa melhoraram ou se mantiveram iguais, a ocorrência de brigas foi de 22% e 26,6%, respectivamente.
Diante dos resultados observados, optou-se por destacar a piora dos relacionamentos por meio de uma nova variável dicotômica. A associação positiva com as brigas frequentes permaneceu estatisticamente bastante elevada (q=290,5, gl=1, p<0,001). Por parcimônia, portanto, tal mudança se justifica e atende plenamente ao objetivo central do artigo de analisar os fatores explicativos para as brigas frequentes e piora dos relacionamentos dentro de casa. Além disso, diferentemente das brigas que são uma informação factual, a piora nos relacionamentos possui uma base comparativa e é mais subjetiva. No limite, pode ser que os conflitos já eram tão presentes antes e que não representam piora, mas sim a manutenção de uma situação ruim. Portanto, destacar a piora nos relacionamentos é também mais adequado para compreender os impactos da pandemia sobre os relacionamentos em casa, segundo a visão dos jovens.
Na Tabela 2, estão colocados os números de casos válidos e as estatísticas descritivas para variáveis independentes, agrupadas em três dimensões: a) marcadores sociais; b) aspectos econômicos; e c) fatores comportamentais.
Análise descritiva das variáveis independentes (N=834)*, jovens moradores de Guarulhos, 2021
No tocante aos aspectos econômicos, 40,6% dos jovens eram totalmente dependentes financeiramente, mas o número de jovens sem trabalho chega a 52%, com 36,6% procurando emprego e 16,6% fora do mercado de trabalho, pois esse grupo não estava trabalhando nem procurando emprego. Mais de 70% dos jovens vivem com renda familiar de até três SM, sendo 25% com até um SM. Por fim, 40,4% disseram não possuir um local adequado para trabalhar ou estudar em casa. Nota-se que há bastante diversidade na amostra e indicadores que permitem traçar um perfil mais vulnerável: baixa renda, dependência financeira, desemprego e condições de habitabilidade inadequadas. A hipótese é que as brigas frequentes e a piora nos relacionamentos dos jovens dentro de casa sejam mais comuns onde haja piores condições econômicas.
Quanto aos fatores comportamentais, 8,8% dos jovens disseram que não alteraram seu estilo de vida, a grande maioria (69,6%) deixou de fazer parte das coisas de que gostam e 21,6% responderam que deixaram de fazer todas as coisas de que gostaram durante a pandemia. Quando questionados se foram coagidos a fazer algo que não gostariam nesse mesmo período, 15,9% disseram que sim. Um percentual semelhante (16,9%) também declarou que aumentou o consumo de álcool, cigarro e/ou outras drogas na pandemia. A hipótese é que tais fatores - mudanças na rotina dos jovens, situações de coerção, a bebida e as drogas - potencializaram as situações de conflitos em casa com os jovens.
Por fim, foram incluídos na análise alguns marcadores sociais relevantes. Um terço da amostra é de homens e 66% de mulheres. Quanto à cor/raça, 54% são brancos, enquanto pretos e pardos são 9,4% e 36,7%, respectivamente, contemplando 46,1% de população negra. Metade dos jovens possui alguma prática religiosa e outra metade, não. Por fim, utilizamos a idade como única variável quantitativa, cuja escala é limitada pelo perfil do público (entre 15 e 29 anos), com idade média de 20,6 anos. Não há hipóteses prévias relacionadas a essas variáveis, a intenção é controlar melhor a amostra e fazer uma análise exploratória para verificar possíveis associações empiricamente.
Os efeitos isolados e conjuntos desses fatores econômicos, sociais e comportamentais sobre as chances de ocorrência de brigas frequentes e de piora nos relacionamentos dos jovens dentro de casa serão observados por análises bivariada e multivariada. Optou-se pela construção de dois modelos distintos, referentes às duas variáveis dependentes.
Primeiramente, a Tabela 3 mostra os resultados das análises univariadas e multivariadas, quando a variável dependente é a ocorrência de brigas frequentes em casa.
Análises univariadas e multivariadas dos fatores econômicos, comportamentais e sociais associados às “brigas frequentes em casa”. Jovens moradores de Guarulhos, 2021 (*)
Na análise univariada, na qual se capta o efeito isolado de cada variável independente, nota-se que todas elas foram significativas (p<0,05), exceto cor/raça e prática religiosa. A dependência financeira, mudança no estilo de vida, ter sido coagido, aumento do uso de álcool e o fato de ser mulher são fatores que aumentam as chances de as brigas ocorrerem. Por outro lado, ter um ambiente adequado para estudo ou trabalho, maior renda familiar e ter mais idade são fatores que reduzem essa ocorrência. Finalmente, se o jovem estiver trabalhando, as chances de brigas diminuem, enquanto procurar emprego gera um efeito contrário, tendo como referência o grupo de jovens fora do mercado de trabalho.
O modelo de regressão logística múltipla foi bastante significativo (X2(8)=141,14; p<0,001; R2 Nagelkerke = 0,248), revelando uma boa capacidade explicativa, tendo em vista a complexidade e a diversidade de causas dos conflitos no âmbito familiar. Seguindo a ordem dada pelo método stepwise forward, o primeiro fator explicativo é ter um espaço adequado em casa, com associação negativa, capaz de reduzir em 70%, na média, as chances de brigas frequentes (OR=0,30, p<0,001), em comparação com aqueles jovens que não dispõem desse espaço. A dependência financeira está associada positivamente e aumenta em quase duas vezes (ou em 95%) as chances de brigas em comparação com jovens que contribuem financeiramente em casa (OR=1,96, p<0,001). Importante notar que esses dois primeiros fatores são de ordem econômica. Nota-se que a renda familiar e a situação do jovem no mercado de trabalho perderam sua significância estatística quando controladas por outras variáveis no modelo múltiplo. A questão do espaço em casa e a (in)dependência financeira do jovem foram mais determinantes para explicar a ocorrência de brigas frequentes em casa.
Quanto ao comportamento, ter sido coagido a fazer algo que não queria também aumenta em 2,17 vezes a chance de brigas (OR=2,17, p=0,001). Essas chances são quase três vezes maiores entre os que relataram que deixaram de fazer todas as coisas de que gostam (OR=2,75, p=0,008), na comparação com o grupo que não mudou o estilo de vida. Não houve significância estatística se a mudança no estilo de vida foi apenas parcial (p=0,201). Outro fator comportamental associado positivamente às brigas é o aumento do consumo de álcool, cigarro e/ou outras drogas, o que dobra as chances de brigas (OR=2,00, p=0,003).
Por fim, dois marcadores sociais tiveram significância estatística. Entre as mulheres, o relato de brigas frequentes foi 2,14 vezes maior que entre os homens (OR=2,14, p<0,001). A idade foi a última variável inserida no modelo e possui efeito protetivo, reduzindo em 6,7% as chances de ocorrência a cada ano adicional dos jovens (OR=0,93, p=0,003), ou seja, quanto menos jovens, menor o relato de brigas frequentes em casa.
A Tabela 4 apresenta os resultados do segundo modelo de regressão logística binária, com a piora nos relacionamentos dentro de casa como variável dependente.
Análises univariadas e multivariadas dos fatores econômicos, comportamentais e sociais associados à “piora nos relacionamentos dentro de casa”. Jovens moradores de Guarulhos, 2021 (*)
Os efeitos isolados mensurados nas análises univariadas mostram as mesmas associações positivas e negativas obtidas no modelo anterior. De um lado, a piora no relacionamento está diretamente relacionada com deixar de fazer coisas de que gostam, ter sido coagido e ao maior uso de álcool, cigarro e/ou outras drogas, todos são fatores comportamentais. Por outro lado, ter um ambiente adequado em casa e uma renda familiar foram aspectos econômicos protetivos, que evitaram uma piora dos relacionamentos em casa, segundo relatado pelos jovens entrevistados, independentemente da dependência financeira e da situação no mercado de trabalho, pois tais fatores não foram estatisticamente significantes. Quanto aos marcadores sociais, as mulheres relataram mais que os relacionamentos em casa pioraram. Não houve diferença por cor da pele e faixa etária. Uma novidade nesse segundo modelo é que a prática religiosa se tornou significativa e atua como fator protetivo, ou seja, está negativamente associada à piora nos relacionamentos nas casas dos jovens.
Na análise multivariada, esse segundo modelo final teve menor capacidade explicativa (X2(5)=77,94; p<0,001; R2 Nagelkerke = 0,161) em comparação com o primeiro. Também tivemos menos variáveis independentes no modelo final. Ou seja, apesar da elevada associação entre brigas frequentes e piora dos relacionamentos em casa, esta última revelou-se mais difícil de predizer valores e compreender sua variação, o que pode ser explicado em função do seu caráter mais subjetivo.
Entre os aspectos econômicos, novamente o espaço adequado é um fator explicativo importante, capaz de reduzir em 66% as chances de piora nos relacionamentos, em média, em comparação com aqueles jovens que possuem espaço inadequado de estudo e/ou trabalho em casa (OR=0,44, p<0,001), independentemente da renda familiar, que perdeu significância na análise multivariada.
Dois fatores comportamentais contribuem para piorar os relacionamentos em casa: mudança no estilo de vida e ter sido coagido a fazer algo que não queria durante a pandemia. Quando os jovens deixam de fazer parte das coisas de que gostam, as chances de os relacionamentos piorarem são quase 3 vezes mais elevadas (OR=2,91, p=0,046), em comparação com aqueles que não mudaram o estilo de vida. Se os jovens deixaram de fazer todas as coisas de que gostam, essa razão de chance aumenta para quase cinco vezes (OR=4,65, p=0,006). No caso de coerção, as chances de os relacionamentos em casa terem piorado são, em média, mais de 3 vezes maiores (OR=3,19, p<0,001) em relação aos jovens que não foram obrigados a fazer algo que não desejavam. Ainda na dimensão comportamental, vale mencionar que o aumento do uso de álcool, tabaco e/ou outras drogas perdeu significância estatística, quando controlado por outras variáveis no modelo múltiplo.
Quanto aos marcadores sociais, a diferença de gênero também não entrou na análise multivariada. Apenas a prática religiosa obteve significância estatística como fator protetivo, sendo a última variável a entrar no modelo final. Ter uma prática religiosa reduziu em 40% as chances dessa piora nos relacionamentos em casa (OR=0,60, p=0,009) em comparação com os jovens não praticantes.
Por fim, vale ressaltar que as semelhanças entre os dois modelos - tanto nos previsores significativos como nas capacidades explicativas dos modelos - reforçam a importância de o jovem ter seu espaço em casa, da reação deles quando são coagidos e dos efeitos negativos da pandemia sobre o estilo de vida deles, fortemente afetados pelas restrições ao convívio social, pela falta da rotina escolar e pelas restrições às atividades culturais e de lazer. Esses achados serão discutidos nas considerações finais.
Discussão
Os resultados obtidos revelam que o fator mais fortemente associado aos conflitos dos jovens em casa durante a pandemia foi a ausência de um espaço adequado no domicílio. Ter condições adequadas reduziu significativamente as chances de brigas frequentes e de piora nos relacionamentos em casa, em comparação com os jovens na situação inversa. Considerando que, no auge da pandemia, o isolamento social se fez presente de forma muito intensa, o convívio diário de todos os membros de uma família em um mesmo espaço potencializou os conflitos. Esse dado reforça a importância de políticas habitacionais que priorizem, sobretudo, as condições de habitabilidade digna (Spink et al., 2000).
Na dimensão do comportamento, os jovens coagidos a fazer algo que não queriam e/ou que alteraram o seu estilo de vida tiveram mais chances de brigas frequentes e de piora nos relacionamentos em casa. Ainda que os dados não entrem no mérito do que esses jovens deixaram de fazer ou foram coagidos a fazer, é possível inferir que muitos deixaram de frequentar espaços que promoviam atividades de esporte, cultura e lazer - enfim, espaços de sociabilidades juvenil - com destaque para o papel exercido pela escola na vida deles.
Como demonstra Pereira (2016), as escolas, principalmente as públicas situadas em bairros pobres e periféricos de São Paulo, são importantes espaços de sociabilidade juvenil. Essa instituição ocupa um lugar ambíguo, por um lado, há os conflitos em torno das questões disciplinares, por outro, no entanto, há muito apreço, por parte dos estudantes, em frequentar a escola, encontrar os amigos, namorar, compartilhar gostos e consumos culturais. Para Silva e Borba (2018), a escola é também um território importante de significação das relações de gênero e sexualidade, na qual há a necessidade, nem sempre amistosa, de abertura para as diferenças. Além disso, considerando que, para muitos jovens pobres, como aponta Connell (2016), a escola é o primeiro contato com o Estado, o distanciamento da instituição também priva os estudantes de uma abertura para um mundo mais amplo das coisas públicas.
Complementarmente, chama a atenção que o relato de brigas frequentes foi maior entre as mulheres, os mais jovens e dependentes financeiramente. Esses fatores podem estar ligados, entre outros conflitos, a uma maior subordinação e uma cobrança para que esses jovens assumam responsabilidades - seja na realização de tarefas domésticas, seja na busca pelo autossustento - tendo, assim, sua possibilidade de exercício de uma vida juvenil ainda menor. Outro motivo mais evidente de conflito familiar foi o aumento do consumo de álcool, cigarro e/ou outras drogas durante a pandemia.
A diferença de gênero chama bastante atenção, pois a pesquisa pode ter revelado que na pandemia houve uma intensificação dos conflitos familiares em torno das representações sobre o papel das jovens mulheres no espaço doméstico. Trata-se de um elemento adicional ao sofrimento das jovens que também tiveram sua saúde mental mais afetada durante a pandemia, conforme demonstram estudos realizados no Brasil e no exterior (Vazquez, 2022; Batra et al., 2021), assim como há uma tendência recente de aumento no consumo de álcool mais rapidamente entre as mulheres (Organização Pan-Americana de Saúde [OPAS], 2020).
Em relação aos conflitos em casa durante a pandemia, as diferenças encontradas neste estudo podem ser explicadas, de uma maneira geral, pelas desigualdades no que diz respeito às possibilidades de exercício do que Margulis e Urresti (1996) denominam como moratória social. Segundo esses autores, a noção ocidental de juventude baseia-se na perspectiva da concessão de uma moratória aos jovens, que lhes permite um período de formação, desresponsabilizado de certas obrigações da vida adulta.
Assim, mesmo na faixa etária em que se situa a fase da juventude, que para esta pesquisa foi delimitada entre 15 e 29 anos, as diferenças a partir da idade também se mostram relevantes. Assim, os mais jovens dentro dessa faixa etária estipulada, porque também mais associados a uma maior moratória social, cuja principal marca é a escolarização obrigatória, se tornaram mais vulneráveis quando afastados da instituição escolar e mantidos em maior tempo de convivência com a família durante a pandemia de covid-19. Dessa maneira, comprova-se que, para os mais jovens, a moratória propiciada pela escolarização obrigatória constitui um fator protetivo em relação aos conflitos familiares. Do mesmo modo, a adesão religiosa também apareceu como um fator protetivo importante, o que demonstra a importância das instituições como agentes de socialização dos jovens.
Entretanto, essa moratória seria distribuída desigualmente, de modo que fatores como classe social, raça e gênero levariam a uma diminuição das possibilidades de usufruí-la. Por exemplo, Peregrino (2011) discute a situação de alguns jovens que possuem a disponibilidade para experimentar e escolher algumas vivências de autonomia adulta que os “espera”, entretanto esse é um processo que se encurta para outros, já que partem, desde a infância ou pré-adolescência, para o mundo do trabalho. Enquanto aos jovens homens, brancos e de classe média alta, essa moratória é plenamente garantida, para jovens meninas, negras e pobres, ela seria drasticamente reduzida, se não eliminada. Dessa maneira, quanto mais posicionados em marcadores sociais que os vulnerabilizam, mais precocemente os jovens tendem a assumir obrigações da vida adulta, reduzindo, assim, a fruição de sua própria juventude.
Considerações finais
Em suma, os resultados obtidos aqui indicam que a crise sanitária reforçou aspectos das vulnerabilidades juvenis. Jovens de baixa renda, mulheres, dependentes financeiramente, vivendo em habitações inadequadas (sem espaços próprios para os jovens), que foram privados de fazer suas atividades de rotina (lazer e estudos) ou coagidos a fazer algo de que não gostariam, formam os grupos que relataram brigas mais frequentes e/ou piora nos relacionamentos dentro de casa durante a pandemia.
O presente estudo reforça a necessidade urgente de políticas públicas para as juventudes, com ações que articulem diferentes dimensões do bem-estar juvenil. Primeiramente, considerando que um espaço adequado em casa foi o principal fator protetivo em relação aos conflitos, a segurança habitacional deve ser compreendida para além do simples acesso à moradia, incluindo condições de habitabilidade digna, privacidade e espaços para as atividades de estudo e lazer.
A pesquisa mostra que o espaço familiar ou da casa também pode ser bastante conflitivo para os jovens. Por isso, espaços institucionais de sociabilidade e socialização para os jovens mostram-se fundamentais. Principalmente a escola, a qual é o principal local de socialização e sociabilidade dos jovens, deve se apresentar como um espaço afetivo fundamental para o acolhimento, especialmente daqueles em maior situação de vulnerabilidade social. Nesse sentido, como demonstram Santos et al. (2020), apesar de todas as contradições e mesmo de seu papel de reprodutora das relações desiguais da sociedade, a escola também é um lugar privilegiado de proteção social e de afirmação de valores como o respeito à diversidade, por exemplo. Como afirmam Masschelein e Simons (2015), a escola é o espaço fundamental de construção de relações mais iguais e democráticas, de constituição de um mundo comum. Por isso, a importância de fortalecer essa instituição, principalmente no atendimento aos jovens em condição de maior empobrecimento.
Além disso, a pesquisa também revelou que, durante a pandemia, a casa tornou-se um espaço especialmente conflituoso para as jovens mulheres. Para elas, a casa não necessariamente significa lar, como um espaço de convívio harmonioso, mas sim um lugar de exploração do trabalho doméstico e de conflitos variados (Moreira et al., 2020). Tal fato reforça a importância de se considerar a questão das desigualdades de gênero nas políticas públicas para a juventude como um todo.
Instituições públicas de convívio juvenil, principalmente a escola, também cumprem o papel fundamental de romper com ciclos de violência doméstica. Diante disso, torna-se fundamental o fortalecimento de espaços públicos seguros de sociabilidade, de socialização e de acolhimento aos jovens - como escolas, centros culturais, esportivos e comunitários - que funcionem como territórios de pertencimento, proteção e promoção de vínculos positivos. A interrupção do acesso a esses espaços pela pandemia afetou fortemente a rotina dos jovens, o que também está associado ao aumento das brigas frequentes e da piora dos relacionamentos em casa, conforme os resultados obtidos neste estudo.
De uma maneira geral, portanto, as políticas públicas devem considerar as especificidades de gênero, classe e raça, atuando na mitigação das desigualdades que afetam a juventude de forma desproporcional. Essas assimetrias são evidenciadas nos momentos de crises - de caráter sanitário e/ou econômico, como foi na pandemia de covid-19 -, porém suas origens e consequências não se limitam a esses contextos, cabendo ações governamentais permanentes e preventivas, articuladas de forma intersetorial e acessíveis nas diferentes comunidades, por exemplo, por meio da criação de centros de convivência, serviços de escuta e acolhimento, respeitando a liberdade e singularidade dos jovens.
Por fim, cabe alertar para as limitações do estudo, como a amostra não probabilística, o uso de autorrelato e seu desenho transversal, o que dificulta estabelecer causalidade. Tais aspectos devem ser considerados na interpretação dos resultados. Contudo, devem-se ressaltar as condições adversas para a coleta de dados durante o auge da pandemia e o esforço de pesquisa realizado para captar essa situação inédita dos jovens moradores de Guarulhos, em meio ao período de isolamento social. Embora não seja possível generalizar os resultados para outros territórios ou para o país, o fechamento das escolas, o aumento do tempo em casa e as mudanças nas rotinas impostas pela pandemia foram experiências vivenciadas pelos jovens brasileiros como um todo.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
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