Resumo
Nas ciências sociais, a categoria “juventude” tem um notável percurso teórico marcado por diferentes abordagens. Como construção social, é possível problematizar as relações entre os jovens e a sociedade à luz de variadas perspectivas. Este artigo tem por objetivo propor o entendimento da noção de “juventude” por meio da reconstrução da memória. Os caminhos teóricos aqui explorados passam pela literatura dedicada aos estudos da juventude, da memória e das representações sociais. Como corpus da pesquisa, foram analisados oito relatos de vida que fazem parte do acervo do Museu das Juventudes Cariocas (MuJuCa). Como resultado, concluímos que é possível acrescentar, às diversas perspectivas possíveis, a de que juventude é memória.
Palavras-chave:
Juventude; Memória; Representação; História de vida; Museu das Juventudes Cariocas
Abstract
In Social Sciences, the category “youth” has a notable theoretical trajectory marked by different approaches. As a social construction, it is possible to problematize the relationships between young people and society in the light of different perspectives. This article aims to propose an understanding of the notion of “youth” through the reconstruction of memory. The theoretical paths explored for this purpose include literature dedicated to the studies of youth, memory and social representations. As a research corpus, there were analyzed eight life stories that are part of the collection of the Museu das Juventudes Cariocas (MuJuCa). As a result, it is concluded that it is possible to add, to these different possible perspectives, that one of youth as memory.
Keywords:
Youth; Memory; Representation; History of life; Museu das Juventudes Cariocas
INTRODUÇÃO
De acordo com convenções das sociedades modernas contemporâneas, a vida é dividida em fases. De todas elas, apenas a infância, a adolescência e a juventude podem ser retomadas pela memória. Afinal, não é possível construir uma narrativa do tipo “quando eu era adulto” ou “quando eu era velho”. Infância, adolescência e juventude são condições destinadas a um tempo passado, pelo menos para quem já atravessou as três.
Na tradição das ciências sociais, a noção de juventude já foi tomada como rito de passagem, problema social, subcultura, representação, entre outras articulações. Ao expandir a perspectiva representacional, as histórias de vida fazem emergir mais uma forma de compreensão da noção de juventude por meio da ideia de memória.
O objetivo deste artigo é introduzir a noção de que juventude é memória, premissa que decorre dos resultados de uma pesquisa que está sendo realizada no âmbito do Museu das Juventudes Cariocas (MuJuCa). Para tanto, serão analisados trechos de oito histórias de vida de pessoas de diferentes idades, as quais fazem parte de seu acervo1.
A interlocução entre memória e juventude é amplamente discutida nas ciências sociais e no campo da comunicação. Estudos como os de Rosa Maria Bueno Fischer (2008), C. Lee Harrington e Denise D. Bielby (2016), Angela Pryston (2008), José Machado Pais (2016), Monica Rebecca Ferrari Nunes (2012), entre outros autores, são alguns bons exemplos. Esses trabalhos, em geral, partem dos jovens contemporâneos como informantes, ou como objeto central da investigação, para compreender como atua a memória nas dinâmicas culturais, sociais e midiáticas que fazem parte de suas vidas cotidianas. Na maioria das vezes, trata-se de uma abordagem etnográfica e, portanto, localizada no tempo presente. Este artigo propõe algo diferente, que é a reconstrução da memóia de juventudes localizadas no tempo passado, o que se faz possível por meio do método da História de Vida. A hipótese de que “juventude é memória”, no sentido estrito do termo que aqui é defendido, ainda não foi encontrada na literatura até o momento explorado.
É importante frisar que o objeto desta discussão é a “juventude” como categoria homogênea, e não as “juventudes” como práticas, valores e crenças, aquelas que são plurais e que devem ser investigadas do ponto de vista do jovem em seu contexto social e cultural.
BREVE PERCURSO TEÓRICO DA NOÇÃO DE JUVENTUDE
A adolescência e a juventude vêm sendo estudadas pelas ciências sociais desde a primeira metade do século XX. O interesse pelo tema variou de acordo com os contextos pelos quais o mundo atravessava de forma desafiadora. Começa com o advento das duas grandes guerras mundiais, quando a convocação para as frentes de batalha fez os jovens ganharem relevância social. Depois, a juventude foi percebida como consumidora de produtos culturais da cultura de massa e, ao mesmo tempo, uma ameaça à ordem estabelecida, com ações desviantes de grupos de pares, movimentos subculturais e contraculturais emergentes. Nos últimos quarenta anos, com a globalização, a revolução tecnológica e a vida digital, as questões se complexificaram, tomaram rumos que, às vezes, eclipsam as juventudes; elas mesmas, de objeto de pesquisa central, são relegadas a um lugar muitas vezes secundário, de informantes ou recorte de pesquisa. Trata-se de uma estrada sinuosa e às vezes errática, o que confere à noção de juventude um caráter ao mesmo tempo escorregadio e de livre apropriação. Como ensina Regina Novaes (2009: 10),
[…] as definições de juventude não estão isentas de contradições históricas presentes nas sociedades capitalistas, com suas disputas políticas, velhas e novas desigualdades sociais. Os limites etários e as características de cada uma das “idades da vida” são produtos históricos, resultados de dinâmicas sociais mutantes e de constantes (re)invenções culturais. Ou seja, em cada tempo e lugar, diferentes grupos e sociedades definem o que é “ser jovem” e o que esperar de suas juventudes.
Para efeito de análise, nesta seção buscamos delimitar esta categoria de pensamento. Longe de esgotar todas as possibilidades, assumimos que há pelo menos três tipos de abordagem relacionados ao papel social dos jovens neste percurso teórico: a transitiva, a culturalista e a pluralista.
Na abordagem transitiva, podemos situar os primeiros estudos antropológicos sobre a adolescência nas ciências sociais, quando o aspecto da transitoriedade a definia como uma fase da vida social. Van Gennep (2011 [1909]) e Victor Turner (1974 [1969]), além de Margaret Mead (1928), em suas obras sobre a adolescência nas sociedades simples, contribuíram para a compreensão de que a adolescência é uma construção simbólica e que, como tal, exerce o papel de marcador de mudança de status social.
Para Pierre Bourdieu (1983), a juventude também é uma construção social, porém usada por uma dominação adulta. Para o sociólogo francês, esta noção serve a um controle social que estabelece uma divisão de poder, separando jovens e velhos para manter uma ordem na qual cada um ocupa seu lugar, respeitando limites sociais invisíveis. Aos adolescentes, é atribuída uma “irresponsabilidade provisória”, que os faz oscilar entre a condição de adultos e crianças, dependendo da situação. Assim, o efeito mais poderoso da adolescência decorre dessa separação, que os coloca “socialmente fora do jogo” (Bourdieu, 1983: 114).
Esta perspectiva transitiva acaba por atribuir aos mais jovens um caráter de work in progress, ou seja, grupos ou indivíduos liminares, e, portanto, incompletos, a caminho de uma plenitude adulta.
Historicamente, a noção de adolescência como conhecemos hoje passou a ser percebida pelas civilizações ocidentais a partir do século XIX (Ariès, 1981). Centenas de anos se passaram, portanto, sem que, primeiro, se diferenciasse a fase intermediária entre a idade infantil e a adulta e, depois, entre a adolescência e a fase adulta. Somente depois das duas grandes guerras mundiais que a “juventude”, tal qual como a conhecemos hoje, passou a ser vista como um ator social, dada a sua efetiva e fundamental participação nas frentes de batalha, e posterior negação ao status quo. É nessa esteira que se sustenta a segunda abordagem proposta, a culturalista. Nela, os jovens são tomados menos por sua transitoriedade e mais pelos aspectos identitários que assumem em sociedade. Um marco importante é o artigo “Subcultures, cultures and class”, de John Clarke et al. (2006), que teve sua primeira publicação em 1975. O Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCS), da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, foi o centro de pesquisa que fundou os Estudos Culturais Britânicos, uma abordagem teórico-metodológica que visava compreender, sobretudo, as classes trabalhadoras a partir de sua cultura. É nesse contexto que as denominadas “subculturas juvenis” britânicas foram analisadas sob a ótica da resistência (gramsciana) que apresentavam frente à sociedade estabelecida, ou ao mainstream. Conforme Clarke et al. (2006: 8, tradução nossa), a “Cultura Juvenil”, grafada em letras maiúsculas, representa a maneira pela qual o senso comum e o jornalismo descreviam o “fenômeno da juventude” emergente no pós-guerra, diretamente ligado ao surgimento de um mercado direcionado a essa “classe” que, aparentemente, passou a existir naquele momento histórico. No entanto, o que guiava o olhar dos Estudos Culturais Britânicos era a complexidade subjacente a esse fenômeno, ou seja, as inter-relações entre a cultura “espetacular” da juventude e a sociedade, sua condição de classe, e as desigualdades sociais - buscando, assim, desconstruir o conceito universalizante e homogêneo.
Antes, nos Estados Unidos, o livro Sociedade de esquina, de William Foote Whyte (2005 [1943]), destacou-se como obra seminal da Escola de Chicago para as pesquisas sociológicas e antropológicas que observavam os jovens no contexto urbano, como atores sociais e como parte de uma ordem cultural, produtora de significados.
No mesmo ano de 1975, Edgar Morin lançava o segundo volume da obra O espírito do tempo - necrose (Morin, 2006), em que estabelecia uma relação direta entre a “cultura juvenil” e a emergência dos meios de comunicação de massa. O crescimento da sociedade de consumo abria espaço para uma nova e jovem classe de consumidores. A própria figura do jovem, aliás, ganhou contornos mais nítidos na década de 1950, gerando a impressão de que, anteriormente, ele não possuía um lugar definido no mundo. Jon Savage (2009), por sua vez, sugeriu uma forma “pré-histórica” da adolescência, ao investigar arquivos, diários, cartas, reportagens e outros documentos que revelam manifestações comportamentais e culturais de uma adolescência que teria existido entre 1875 e 1945. Contudo, talvez não seja possível atribuir a essas evidências levantadas por Savage a categoria de “cultura juvenil”, se a considerarmos, como fazem Clarke et al. (2006) e Morin (2006), um fenômeno fundamentado em um sentimento cultural coletivo.
O sociólogo e antropólogo José Machado Pais, em 1993, introduziu as “culturas de lazer” como “culturas juvenis” (Pais, 1993). Segundo o autor, as culturas juvenis se diferenciam não apenas pelo estrato social, mas principalmente pelas semelhanças que compartilham, especialmente no que concerne às culturas de lazer ligadas à música, ao uso de drogas, à dança e às experiências coletivas, nas quais “matam o tempo”. As culturas de lazer configuram formas específicas de organização do tempo e do espaço entre os jovens, constituindo-se como espaços sociais autônomos e repletos de significado, alicerçados em práticas comunicacionais.
Podemos, também, ainda dentro da perspectiva culturalista, compreender a “juventude” como um estilo de vida, conceito alinhado à visão de Giddens (2002), para quem a globalização e a disseminação da mídia eletrônica expõem os indivíduos a uma multiplicidade de escolhas. Para o autor, a escolha de um estilo de vida ultrapassa o consumismo superficial, sendo um conjunto integrado de práticas que dão forma material a uma narrativa de autoidentidade. Esse estilo de vida é adotado seguindo um padrão, proporcionando uma “continuidade da segurança ontológica” dentro da sociedade (Giddens, 2002: 79). Dessa forma, tanto o indivíduo quanto seus pares exercem um controle sobre o que é “adequado” ou “inadequado” dentro do estilo de vida escolhido.
A terceira abordagem, a pluralista, acompanha Hermano Vianna (1997) e Regina Novaes (2009), entre outros, que enfatizam a diversidade cultural criada pelos jovens e rejeitam a noção de uma juventude homogênea, apontando para a existência de “juventudes”, plurais. Trata-se, portanto, de um olhar que se afasta das duas primeiras perspectivas, que conferem à “juventude” um caráter universal, quando é uma fase da vida, ou identidade cultural ou subcultura, ou ainda um estilo de vida a ser adotado.
Rossana Reguillo (2013: 46) defende estudos acadêmicos que compreendam a “juventude” não como um sujeito empírico “monopassional”, que possa ser “etiquetado simplesmente como um todo homogêneo”. A antropóloga mexicana propõe uma discussão sobre as disputas entre a noção de “juventude” como construção social e o papel dos jovens na sociedade, destacando, neste processo, o trabalho das instituições. De acordo com a autora, o modo como classificamos os jovens no mundo contemporâneo deve-se a três condições centrais: o sistema de formação e socialização para o mercado de trabalho, o discurso jurídico e a “indústria cultural”. Dessas três condições, as duas primeiras acabam por estabelecer limites e normas que reduzem o campo de possibilidades dos sujeitos jovens. Segundo Reguillo (2013: 41), as indústrias culturais favorecem suas expressões éticas e estéticas, abrindo um espaço de inclusão e diversidade.
As três abordagens teóricas aqui sugeridas - a transitiva, a culturalista e a pluralista - fazem parte de um conjunto representacional que sustenta “a juventude” também como senso comum. Ao narrarmos fatos de nossa própria juventude, podemos escolher o caminho transicional, quando a vida adulta é o ponto de partida cujo destino são os tempos em que ainda estávamos em “processo de construção”. Podemos, também, escolher a abordagem culturalista, quando descrevemos o modo como nos vestíamos ou aspectos distintivos que assumíamos para fazer parte de algum grupo de pares. Mais difícil, na reconstrução de nossas lembranças, é nos enxergamos claramente em nossas aproximações com um dado tipo de juventude, com os padrões de uma geração, isso por força do caráter coletivo da memória, como veremos mais adiante. As abordagens transicionais e culturalistas ajudam a sedimentar tais memórias coletivas (Halbwachs, 1990). Somente quando relatos de vida de diferentes pessoas são comparados entre si, dentro de um mesmo recorte temporal ou geracional, ou entre contextos sociais diferentes, é que se faz revelar a pluralidade das juventudes.
REPRESENTAÇÃO E MEMÓRIA
O processo narrativo de reconstrução das lembranças da juventude leva a um movimento de distanciamento com relação a papeis sociais assumidos no presente, ao mesmo tempo em que promove um reencontro com identidades deixadas no passado. É um investimento da ordem do afeto e da razão, já que, na elaboração deste passado, o distanciamento e o reencontro atuam dialogicamente. Nesta dinâmica, atuam referências externas e cotidianas, como, por exemplo, as das indústrias culturais: a televisão, o rádio, o cinema, a novela, a campanha publicitária, as marcas de roupa, a peça de teatro, o ator, a atriz, o cantor, a cantora, a banda, o rock, o samba, enfim, produtos midiáticos que fazem parte dos contextos temporais e sociais vividos. Do mesmo modo, e numa medida muito importante, atuam lugares, bem como indivíduos e grupos de pessoas que fizeram parte desta juventude.
Serge Moscovici (2011) retoma Émile Durkheim para compreender de que modo as construções de ideias e imagens compartilhadas em sociedade se formam a partir da interação social. Sua abordagem coloca a comunicação no centro do que ele denomina “fenômeno das representações sociais”. Pessoas e grupos constroem representações por meio da comunicação e da cooperação. Essas representações, evidentemente, não são obra de um indivíduo isolado. Uma vez geradas, contudo, elas ganham autonomia, circulam, encontram-se, atraem-se e repelem-se, dando origem a novas representações, enquanto antigas representações se extinguem. Por essa razão, para compreender e explicar uma representação social, é necessário partir daquelas que a precederam (Moscovici, 2011: 41). Ao propor essa busca pelas representações que fundamentam outras, o autor se ancora na ideia de que as representações sociais buscam “[…] tornar familiar algo não familiar, ou a própria familiaridade” (Moscovici, 2011: 54). Segundo Moscovici, os “universos consensuais” proporcionam um sentimento de segurança e harmonia no plano do conhecimento, consolidando-se pela repetição de situações, gestos e ideias. A dinâmica das relações se dá por meio do processo de familiarização, no qual pessoas, ambientes, acontecimentos e objetos são compreendidos em referência ao que já lhes precede, aos encontros anteriores. Assim, “[…] a memória prevalece sobre a dedução, o passado sobre o presente, a resposta sobre o estímulo, e as imagens sobre a ‘realidade’”. (Moscovici, 2011: 55).
Uma representação social é uma construção coletiva, edificada nos diferentes espaços disponíveis, sobretudo no meio midiático, consolidando o tecido social, reafirmando a memória e promovendo a familiaridade.
Este artigo concebe a memória como coletiva, isto é, interessam os processos pelos quais imagens, ideias, histórias, enfim, representações são negociadas, editadas e cristalizadas ao longo do tempo - não como algo fixo, mas como parte integrante da vida social.
Maurice Halbwachs (1990 [1950]), que introduziu uma teoria da “memória coletiva”, a define, de modo geral, como um trabalho de representação elaborado sob a influência dos grupos sociais pelos quais transitamos ao longo da vida. O primeiro deles, segundo o teórico, é o da família. É nesse primeiro núcleo social, em que as figuras materna e paterna são fundamentais, que começam a se fixar as lembranças vividas, ainda que pareçam ter sido esquecidas pelo indivíduo, pois é por meio dos testemunhos dos outros que elas se estabelecem como uma “memória individual”. Os diversos outros grupos com os quais se realizam interações, da mesma forma, colaboram para a construção da memória.
Michel Pollak (1992) indica os elementos irredutíveis que fazem parte do processo de solidificação da memória. São eles: os acontecimentos vividos e os acontecimentos vividos por tabela (“memória herdada”); pessoas, personagens (“vividas” e por tabela); e lugares da memória (ligados a uma lembrança pessoal, mas também sem cronologia).
Pollak (1992) avança no debate com Halbwachs, ao problematizar alguns aspectos da teoria da “memória coletiva”, como quando a relaciona com a identidade. Para o autor, há uma ligação estreita entre a memória e o sentimento de identidade: a primeira é parte constituinte do segundo. Memória e identidade são valores disputados. A memória é também herdada e é continuamente reelaborada, reconstruída, disputada. A memória familiar, por exemplo, pode provocar conflitos, se ameaçar a continuidade moral e material herdadas.
Ainda segundo o sociólogo austríaco, a memória é flutuante e seletiva. Memória e identidade podem ser negociadas, não são essência da pessoa ou do grupo, e o testemunho ou a memória do Outro modifica a autoimagem individual (Pollak, 1992).
As histórias de vida narradas para o MuJuCa evocam memórias coletivas que forjam juventudes cariocas em diferentes contextos. Como será demonstrado na próxima seção deste artigo, o movimento de distanciamento do que somos no tempo presente com relação àquilo que já fomos no passado acontece em momentos de estranhamento e quando achamos graça dos fatos e descrições narradas. Já o movimento de reencontro com o jovem de outros tempos se dá quando são rememorados fatos marcantes, bons e ruins, bem como iniciativas pessoais, práticas ou escolhas que apontam para um determinado traço de personalidade que persiste ou que foi, às vezes a contragosto, abandonado pelo caminho. Esta dinâmica dá vida à relação entre memória e identidade: é na reconstrução da memória individual, ou coletiva, que a pessoa reafirma aspectos identitários que fazem parte de sua biografia.
O vai-e-volta proporcionado pelo distanciamento e pelo reencontro nos relatos de vida sobre a juventude denota o que Pierre Bourdieu (2006) busca ao problematizar a história de vida como método. Para o sociólogo, há uma “ilusão biográfica” em tais narrativas, já que as biografias não são lineares, elas mais se assemelham, segundo ele, a uma malha metroviária, com desvios de trajeto no caminho.
Ela [a análise crítica dos processos sociais] conduz à construção da noção de trajetória como série de posições sucessivamente ocupadas por um mesmo agente (ou um mesmo grupo) num espaço que é ele próprio um devir, estando sujeito a incessantes transformações. Tentar compreender uma vida como uma série única e por si suficiente de acontecimentos sucessivos, sem outro vínculo que não a associação a um “sujeito” cuja constância certamente não é senão aquela de um nome próprio, é quase tão absurdo quanto tentar explicar a razão de um trajeto no metrô sem levar em conta a estrutura da rede, isto é, a matriz das relações objetivas entre diferentes estações (Bourdieu, 2006: 189-191, grifo do autor).
Priscila Perazzo (2015) considera que a memória não é a história e nem o vivido: “Eis que o passado não existe. Só existe em nossas representações, só existe em nossa memória. Só se expressa se houver uma forma de relato. É o sujeito da ação quem pode relacionar-se ao seu passado” (Perazzo, 2015: 128). Nesse sentido, a autora se debruça sobre o que denomina de “narrativas orais de história de vida”:
Nas Narrativas Orais a linguagem falada pela pessoa a obriga a buscar vocabulário próprio, organizar seu discurso de acordo com seus valores, sua forma de ver o mundo, sua constituição cultural (crenças, valores, hábitos) e sua história de vida (de onde veio, como se formou, quais suas trajetórias, por onde passou e com quem conviveu). Enfim, após a elaboração de todos esses elementos, o sujeito que conta a história se remete ao passado, ao que foi e ao que fez, à sua história de vida. E nessa relação entre a narrativa do passado e a lembrança do mesmo, se dá e se encontra a sua memória (Perazzo, 2015: 128).
A memória, na perspectiva da autora, é tomada com um mecanismo da representação fundamental para operar a narrativa a partir de uma “rede de sentidos” (Perazzo, 2015: 128).
A construção das narrativas dos entrevistados pelo MuJuCa, ao acompanhar esta ideia, se constrói no solo das representações que sustentam suas crenças, valores e hábitos compartilhados em sociedade, os quais elaboram, no presente, o relato de uma trajetória a partir de sua relação com o passado. São narrativas flutuantes, em disputa, reelaboradas, produto de uma “memória coletiva” (Halbwachs, 1990; Pollak, 1989) que pode adotar ora uma abordagem (transitiva, culturalista ou pluralista), ora outra, e que toma a juventude como um objeto a ser observado à distância ou em reencontros.
JUVENTUDE É MEMÓRIA: HISTÓRIAS DE VIDA DO MUJUCA
Na área da museologia, está sendo debatida uma revisão de sua epistemologia e de seu papel social, estabelecendo com a comunidade, como consequência, uma relação diferente daquela anterior ao advento da internet e do ambiente “virtual” . Ora denominado “cibermuseologia” , ora “nova museologia” , respeitando, nos dois termos, as suas particularidades, o movimento que vem se estabelecendo no campo leva pesquisadores e teóricos a retomarem conceitos basilares para a sua própria constituição, promovendo espaços museais caracterizados por uma maior diversidade em sua forma e em seus objetivos. Segundo Magaldi et al. (2018: 151),
Na Cibermuseologia, assim, não se vêem alterados apenas os meios de comunicação ou as tecnologias utilizadas pelos museus contemporâneos; o que muda é a própria finalidade do Museu no mundo atual, que deixa de ser uma instituição de produção e disseminação de um conhecimento predefinido, para ser uma instituição voltada para os processos compartilhados de produção de sentidos e constituição de conhecimento válido no presente, e sempre provisório na medida em que está em constante atualização.
Da mesma forma, Magalhães e Dias (2017: 238) apontam para esta mudança de perspectiva na direção da formação de um campo que se vê instado a mudanças fundamentais:
Segundo os teóricos da “nova museologia”, os museus devem assumir a sua função eminentemente social e superar os limites de uma concepção de cultura restrita à produção e circulação de bens culturais da elite, projetando-se assim como instituições afinadas com uma sociedade democrática. O “museu tradicional” seria elitista e voltado para si mesmo, distanciado do cotidiano dos indivíduos e dos grupos que compõem as modernas sociedades.
É nesse contexto, então, que surgem terminologias e definições que acompanham a diversificação de tais espaços museais inseridos em um ambiente tecnológico: museu virtual, museu eletrônico, hipermuseu, museu digital, cibermuseu, webmuseu, museu on-line são algumas expressões criadas para contemplar os modos como a tecnologia e a virtualidade passam a modificar a relação entre as coleções, os espaços e os visitantes, assim como a correspondência ou não com um museu “físico” preexistente.
O corpus da pesquisa aqui apresentado é parte de um espaço totalmente virtual, onde são reunidos, preservados, explorados e divulgados relatos de vida de juventudes vivenciadas em períodos e contextos diferentes. O Museu das Juventudes Cariocas consiste em um acervo de memória composto por histórias de vida de pessoas de diferentes faixas etárias registradas em vídeo e editadas para o formato de até 15 minutos com algumas de suas lembranças de quando eram jovens, relacionando-as com a cidade do Rio de Janeiro. Do mesmo modo, o MuJuCa reúne anúncios publicitários e matérias jornalísticas que ajudam a compor os contextos dentro dos quais as representações sociais da noção de “juventude” se davam, naquele momento. Até a presente data, foram gravados 19 relatos: três da década de 1960, três dos anos 1970, quatro dos anos 1980, três dos anos 1990, três da década de 2000 e três da década de 2010. Os entrevistados são selecionados a partir de três critérios fundamentais: (i) cariocas de nascimento ou ter vivido suas juventudes na cidade do Rio de Janeiro; (ii) ter residido, no passado, em bairros bem distribuídos pela cidade; (iii) gênero, raça e orientação sexual diversos. A partir desses critérios, os informantes são convidados a participar. Outros aspectos como profissão, estilo de vida e visibilidade midiática também são considerados no recrutamento. O objetivo é alcançar a pluralidade.
Para os fins deste artigo, foram selecionadas oito entrevistas. A seguir, serão apresentados os entrevistados, considerando as idades que tinham à época das entrevistas.
Os nomes foram suprimidos neste texto, embora os vídeos sejam públicos e disponibilizados na página do MuJuCa: S.P, 80 anos, mulher branca, nunca trabalhou formalmente; D.F., 73 anos, homem preto, produtor cultural e ativista, fundador de um cineclube; C.A., 68 anos, mulher branca, jornalista; M.B., 54 anos, homem branco, publicitário, professor universitário; G.S., 56 anos, mulher branca, publicitária, trabalha no terceiro setor; S., 55 anos, mulher preta, fã da música dos anos 1980; C.S., 41 anos, mulher preta, produtora cultural, moradora da Cidade de Deus; T.C., 38 anos, homem preto, músico, referência do carnaval.
A seguir, serão destacados e analisados, à luz dos objetivos deste artigo, alguns trechos das entrevistas.
S.P., 80 ANOS
Criada no bairro de Marechal Hermes quando criança, moradora de São Cristóvão depois que fez 18 anos, S.P. era fã de Elvis Presley e conta que se reunia com os amigos adolescentes para dançar rock’n’roll.
Era uma casa [em Marechal Hermes] até boa […]. Eu tinha o meu jardinzinho, tirava as flores, botava, eu gostava dessa coisa de casa, né? Chegava do colégio, eu gostava de ficar na minha casa, mamãe trabalhava o dia inteiro, né, então ficava brincando ali. Com férias, aí a gente ficava brincando com os amigos do lado, tinha muitos rapazes, meus amigos, a maioria eram rapazes, né? […] E tinha os amigos desde criança (S.P., 80 anos, informação verbal).
Ao rememorar a época em sua casa de Marechal Hermes, S.P. evidencia a importância do lugar na formação da identidade, o que se confirma com aquilo que conta sobre seus amigos:
Ele era mais velho e ele gostava [de rock], então o pai dele viu que ele gostava, comprou uma vitrola, que nem todo mundo tinha vitrola, né, e botou uma vitrola lá para ele. Aí ele começou a comprar os discos […], não era LP, eram aqueles discos, eram menores, né, não tinha, não existia LP. Aí ele voltava lá, “S.P., vamos lá ensaiar?”, ia lá pra casa dele, aí ficava o pai dele e a mãe dele olhando assim, […] e a gente ensaiava, sabe? Eu dançava com ele (S.P., 80 anos, informação verbal).
Para José Machado Pais (1993), o rock é um “signo juvenil geracional”. Para Lawrence Grossberg (1992), no pós-guerra, o rock promoveu, pela primeira vez, uma “aliança afetiva” entre jovens do mundo todo. A memória de S.P. constitui-se também por essa representação do rock, que acaba por definir uma juventude, aquela que ela própria viveu.
Com a mãe costureira, embora sem recursos financeiros, conseguia se vestir de acordo com a moda da época. Os ritos de passagem (Turner, 1974 [1969]; Van Gennep, 2011 [1909]) que marcam a mudança de status na adolescência estão presentes em nossa sociedade moderno-contemporânea. No caso de S.P., ele acontece por meio do consumo. Ao estabelecer o distanciamento de quem era com 15 anos, olha para trás com um olhar crítico a respeito de sua aparência física. Ao mesmo tempo, promove um reencontro com o sentimento da vergonha que sentia das roupas infantis que vestia na época.
Eu era comprida, desengonçada, a mamãe botava vestidinho de babadinho e sapatinho, eu morria de vergonha porque eu já era bem alta, eu morria de vergonha. Aí quando […] eu fiz 15, aí ela liberou, mandou fazer um vestido já de mocinha, comprou sapato, salto brotinho que é desse tamanhinho, aí me liberou (S.P, 80 anos, informação verbal).
As festas de 15 anos dos anos 1950 e 1960 eram também ritos de passagem importantes e distintivos, compondo, juntamente com o rock e as roupas que S.P. usava, uma representação de uma dada juventude naquela época. Para ela, foi marcante a festa tradicional da Tijuca para a qual foi convidada.
[a festa de 15 anos] Foi da prima de terceiro grau, na Tijuca, né? Eu já tinha ali, acho que já tinha 18 anos, eu fui como dama, ela era mais nova do que eu, aí foi muito boa a festa, né? O pai tinha dinheiro naquela época, aí, música ao vivo, aquelas damas, aquelas meninas com a roupa cada uma de uma cor (S.P., 80 anos, informação verbal).
O retrato de Elvis exibido até hoje em seu banheiro é um objeto indelével de memória que estabelece uma relação com o seu melhor passado - ou seja, é uma forma de esquecer o passado que ela não deseja lembrar (Pollak, 1989). Sentir-se jovem e vaidosa é, também, um modo de preservar as boas lembranças de Marechal Hermes.
Eu tenho hoje um retrato do Elvis, porque a minha cunhada trouxe dos Estados Unidos. Sabe onde eu ponho? No banheiro, tá ali, todo mundo ria. […] Eu me sinto jovem, me arrumando (S.P., 80 anos, informação verbal).
D.F., 73 ANOS
Filho de vendedor de automóveis, formou-se em Direito e teve a sua juventude mergulhada em bailes no clube Renascença, no bairro do Andaraí, subúrbio carioca. Ao identificar-se como um jovem negro e da periferia que não tinha ideia de sua condição, D.F. parece se distanciar radicalmente daquela identidade juvenil, já que, até hoje, assume um discurso de consciência racial em várias esferas de sua vida.
Eu participava todos os domingos da missa, […] acabava a aquela missa você ia para jogar o futebol. […] mas naquele momento ali eu não tinha ideia do que era ser um jovem negro, do que era ser um jovem da periferia, né, porque embora eu morando no asfalto, como a gente se definia, eu tinha a minha relação era com morro do Jacaré (D.F., 73 anos, informação verbal).
O relato de vida da juventude de D.F. se confunde com sua luta antirracista e com a difusão da cultura negra nos anos 1970, em plena ditadura militar. Mais uma vez, a exemplo de S.P., os amigos e a música contribuem para construir uma dada identidade juvenil.
Então aí de repente eu começo a receber informações diferenciadas da música afro-americana. A partir de amigos que a gente vai começando conhecer, né? Eu já com 19, 20, já circulando zona norte, zona sul (D.F., 73 anos, informação verbal).
O trecho a seguir do relato de vida de D.F. traduz o tom da entrevista como um todo, que é o discurso quase que “institucional” que ele assume, como ativista que tem um papel importante, ainda hoje, para a luta antirracista. Trata-se de uma lembrança cheia de referências históricas, com fatos e datas que colaboram para a reconstrução de sua memória e de reafirmação de sua identidade (Pollak, 1992). Sua narrativa foi marcadamente ideológica, e pouco revelou sobre sua vida pessoal e familiar, sobressaindo a memória coletiva de um grupo silenciado no passado (Pollak, 1989).
É eu tô dentro da universidade, que é em Madureira, que é lá em Campinho, de Madureira, então ali nessa universidade eu saía dez e meia, acabava, pegava o meu carro que era um Corcel e ia para a zona sul, então praticamente eu chegava todo dia, eu tava lá eu encostava ali e ali você vai se relacionando, né? […] Então o letramento racial chega exatamente nesse período, aí você cai a ficha, estamos falando de plena ditadura, tá falando aí de plena ditadura, naquele período ali de turbulência. […] quando chega 64, a ditadura né, a nossa comunidade, quer dizer, há uma repressão total no Brasil, há uma repressão nos coletivos e há uma repressão maior ainda nessa comunidade negra, porque eu tinha que ter um documento ou uma carteira assinada para não ser preso. […] então isso tudo acendeu uma luz no túnel, olha não, não dá, brother, não dá, isso aí tem que mudar. Aí essa mudança vem com as informações que chegam dos Estados Unidos, com a luta antirracista a partir dos direitos civis, só que eu também estou dentro da Academia, né, eu tô lidando com outros companheiros que também estão fazendo universidade e estão discutindo a questão racial, só que a nossa discussão era clandestina, aonde nós nos reuníamos numa universidade na Zona Sul, onde eles não teriam ideia que estariam ali 20, 30 discutindo a questão racial. Nós nos reunimos em Ipanema, na Cândido Mendes (D.F., 73 anos, informação verbal).
C.A., 68 ANOS
O cotidiano da classe média alta da zona sul carioca, de Copacabana e Ipanema, é parte da entrevista com C.A. Por ser hoje jornalista cultural, seu relato de vida trouxe referências à arte, à literatura, ao cinema e a viagens que ajudam a elaborar a sua juventude.
Até os 15, meu pai era o cara da diversão. Então ele me levava para Ipanema na Praça Nossa Senhora da Paz, tinha uma coisa de patinação no gelo onde hoje é o Fórum de Ipanema. Ali tinha um cinema lindo, Cinema Pax, e tinha essa patinação no gelo e ele sempre me levava. […] Minha mãe era a parte intelectual, então eu me divertia de um lado, e do outro também me divertia. Então minha mãe me dava livros, eu me lembro que ela me deu um livro A vida é feita de escolhas, da Cecília Meireles, que coisa aquele poema, né? Ou você compra o doce ou guarda o dinheiro, ou você bota a luva ou põe um anel. Ou isso ou aquilo, e fico pensando o dia inteiro, né? (C.A., 68 anos, informação verbal).
As inúmeras referências que C.A. fez, não somente neste trecho da entrevista, mas em todo o relato sobre sua juventude, marcam o seu tempo presente. Como ressalta Beatriz Sarlo (2007: 12), “fala-se do passado sem suspender o presente, implicando também o futuro”. Sua memória da juventude é alicerçada naquilo que melhor a define hoje, como jornalista cultural. Livros, cinemas, filmes, poemas, tudo isso ancora as suas lembranças. Ao mesmo tempo que se distancia daquela de quem era, procura um reencontro, buscando aspectos do passado que justifiquem o seu presente.
Eu era muito CDF, muito caxias, e um pouco triste, sabe, eu era meio assim contida, eu não fui uma adolescente, “uau, vamos nessa!”, eu era muito caseira, tinha poucos amigos, bons amigos, eu ia muito à praia, eu morava entre Aníbal e Garcia. Eu ia à praia ali, muito à praia, que era uma coisa importante pra gente de lazer, eu ia ao cinema. Eu sou uma cinéfila enlouquecida desde pequenininha (C.A., 68 anos, informação verbal).
Ao olhar para trás do ponto onde está hoje, C.A. assume representações dominantes dos jovens que se opõem ao que ela afirmava ser: “não fui uma adolescente “uau, vamos nessa!”, ou ir à praia como sendo “coisa importante” para os jovens.
Cinéfila, C.A. assume um discurso sobre si mesma que colabora para a construção da identidade de uma jovem que parecia ser diferente daquilo que se esperava, na época: “Depois, mais tarde, eu já com 20 anos, 21, 22, tinha o Cinema Paissandu, mas eu não fui da turma do Paissandu, a geração Paissandu como a gente chama era anterior à minha, mas o cinema era bacana” (C.A., 68 anos, informação verbal). Além dos cinemas, surge em seu relato também a boemia da zona sul carioca: “E tinha o Antônios, eu esqueci, o Antônios que era o bar um restaurante, bar de boemia na Bartolomeu Mitre, meu primeiro porre eu tomei lá, eu tinha acho que 16 anos, 17” (C.A., 68 anos, informação verbal).
O casamento aos 19 anos aparece como um rito de passagem para a vida adulta, que trouxe para C.A. uma ampliação de seus horizontes, já que foi viver na França:
Eu me casei, veja você, com 19 anos e esse meu marido ele foi fazer doutorado lá [em Paris], era Engenheiro e tal, e lá fui eu e aí me abri, sabe? Aquela menininha de Ipanema, sabe, conectada com coisinhas no cotidiano, com carrões de Ipanema… Cheguei em Paris, eu fiquei chocada porque eu tinha, falava um francesinho razoável, mas o meu choque cultural foi tamanho que eu fiquei muda um mês eu não conseguia falar francês, não dava porque era um mundo espetacular, sabe, de você ver os fluxos migratórios, os africanos das colônias francesas com marcas no pescoço, aquelas roupas lindas, as mulheres árabes, tudo, os museus, os cinemas… (C.A., 68 anos, informação verbal).
M.B., 54 ANOS
O bairro onde cresceu, a escola em que estudou, os lugares que frequentou, a empresa em que trabalhou, a universidade na qual se graduou e em que leciona hoje pontuaram a trajetória de vida narrada por M.B..
Era um grupo [da universidade] de oito pessoas que fazia essas intervenções, assim, no meio da aula, sabe, então era uma coisa mais orgânica, assim. Era muito interessante isso, sabe, assim, as pessoas manifestando os seus interesses, muito espaço para manifestação do interesse pessoal (M.B., 54 anos, informação verbal).
A entrevista revela, também, a importância que confere ao pertencimento aos grupos por onde transitou e a uma dada identidade em sua juventude: “Eu morei em Copacabana, né, na Ladeira dos Tabajaras, eu morava no morro com a minha mãe […], e eu estava numa escola importante, o São Bento, tinha uma bolsa, mas eu convivia com amigos do lado da Tabajara” (M.B., 54 anos, informação verbal). E continua: “Copacabana tinha essa… tinha uma outra pegada em Copacabana, assim, a pegada viva, assim, […] futebol de areia era um esporte que tinha sua identidade própria, né?” (M.B., 54 anos, informação verbal).
A representação da escola tradicional e elitista do Rio de Janeiro elabora, nas memórias de M.B., o espaço privilegiado de uma dada sociabilidade que, sob o olhar do tempo presente, parece ter contribuído para a construção de sua identidade de ontem e de hoje: “São Bento, já mudava de canal já mudava a cabeça, isso me deu muito, assim, flexibilidade de poder falar com vários tipos de pessoas e integrar com vários tipos de pessoas” (M.B., 54 anos, informação verbal).
O rock, também no relato de M.B., surge como um “signo juvenil geracional” (Pais, 1993), como “aliança afetiva” (Grossberg, 1992), como vetor de sociabilidades e construção de identidade: “Eu tive um privilégio assim muito grande ter amigos assim muito ligados a música” (M.B., 54 anos, informação verbal). E continua:
Um dia eu vou tocar aí nesse palco do Circo Voador, e tal, e aí a música era uma coisa meio de redenção, assim, de manifestação da sua identidade, né, de adolescente, e tal. E aí na escola eu conheci uma galera […], eles tinham uma banda e precisavam de alguém para tocar baixo, não sei que, eu fui começar a tocar com eles, e aí eu tocava heavy metal, assim, uma banda de heavy metal é legal para caramba, só que era um cara meio diferente, assim, porque eu tinha cabelo grande, aquela coisa assim.
Eu tinha aquela calça que tinha uma caveira pintada de caneta BIC, porque eu tinha um amigo na escola era ilustrador, ele ilustrou a calça da caveira, e eu desenhei o Garfield na outra perna, muita referência dessas coisas (M.B., 54 anos, informação verbal).
Música e futebol são representações que ajudam M.B. a reconstruir suas memórias juvenis nos anos 1980: “No esporte ou na música, ou enfim onde você quiser, você tinha opções de diferenciação, apesar de ser todo mundo fazer parte de um mesmo grupo, né, que você se entende, você se reconhece naquele grupo” (M.B., 54 anos, informação verbal).
G.S., 56 ANOS
O momento cultural e político de sua juventude no Rio de Janeiro deu o tom do relato de G.S., que reconstruiu uma memória muito relacionada à expressão musical juvenil da época, por meio das bandas de rock nacional que surgiram naquele contexto.
[Uma época] de muita criatividade, de muita possibilidade, sabe, sobre o futuro pro Brasil, pra juventude que a gente era, né, pra minha geração o critério principal era boa música, né? Às vezes, quando não tinha coisa boa, a gente ia só para dançar mesmo, e ouvir DJ, né? Mas o ponto alto eram os shows (G.S., 56 anos, informação verbal).
Suas lembranças trazem de volta muitas pessoas que faziam parte de seu grupo de amigos:
Tinha muita opção né a gente circulava e essa turma da faculdade essa turma que sempre saía, […] quantas pessoas, que memórias que você tem… então a gente passava a vida juntas, né, porque de dia e durante a semana era faculdade, fim de semana era praia, era alguma coisa de tarde, às vezes uma na casa da outra, e à noite saí para dançar, né. E para ouvir música, então éramos assim bem coladas mesmo, uma turma de mais cinco mulheres, cinco meninas, né, que a gente estava sempre juntas (G.S., 56 anos, informação verbal).
O festival de música Rock in Rio, de 1985, é um fato cultural e histórico que pontua a memória dos jovens dos anos 1980. Com G.S. não seria diferente.
Eu quase que fui direto assim da minha festa de 18 anos pro Rock in Rio. Nós fomos juntos de ônibus, né. Eu levei o bolo de aniversário pra gente lanchar lá no meio daquela lama que era o Rock In Rio, tinha sanduíche no papel alumínio das comidas que sobraram da festa. […] A gente foi com uma turma também divertidíssima, chegava lá encontrava mais gente.
Ainda me lembro do Herbert Viana super emocionado meio que com a perna tremendo ali, tocando aquele negocinho, três acordes, né, aquela coisa, e ele falando, né, do quanto ele estava emocionado de estar ali e lembrando de outros grupos que não estavam ali, e aí eu me dei conta, me lembro de ouvir isso e dizer assim, “nossa, é isso, aqui é uma virada de chave para uma geração toda, para quem tá assistindo, mas também para quem tá ali se apresentando, né”. Um capítulo diferente na vida daquelas pessoas, assim como era um capítulo diferente na nossa (G.S., 56 anos).
Seu relato oscila entre a exaltação da diversão e a consciência política tardia - ela se dá hoje, no “olhar para trás” do distanciamento, mas talvez não fosse tão nítida naquele tempo.
Eu me lembro, a gente estava numa festa na casa de um amigo da faculdade quando o Tancredo morreu, né. E aí tinha aquele momento, assim, que era um momento de esperança, de transformação, a gente não sabia, não entendia ainda muito bem o que é que tava acontecendo, mas certamente a nossa celebração da música brasileira, né, do rock brasileiro da música feita pela nossa geração era uma celebração de possibilidade de futuro, era uma celebração de um momento novo, de dizer coisas diferentes, de um jeito diferente (G.S., 56 anos).
Para G.S., os anos 1980, por tudo que representou, definiu a sua identidade juvenil: “Eu acho que eu fui jovem na década de 80, depois dali nada mais foi igual, anos 90 eu virei uma pessoa chata, mas nos anos 80 era muito divertido” (G.S., 56 anos, informação verbal). Para além disso, seu testemunho aponta para uma forte solidariedade entre os integrantes daquela juventude: “A gente tinha também essa coisa de torcer para ver aquilo, para ver aquelas pessoas se expressarem, né, terem voz, expressarem a arte deles, porque dizia muito da gente de quem a gente era, e a gente queria que isso fosse uma parte importante do mundo” (G.S., 56 anos, informação verbal).
S., 55 ANOS
S., que nasceu, cresceu e vive até hoje na zona oeste do Rio de Janeiro, no bairro de Santa Cruz, ao reconstruir as memórias de sua juventude, demonstra como elas ancoram sua identidade no passado, mas também no tempo presente: “Tô presa nos anos 80” (S., 55 anos, informação verbal). S. preserva seus hábitos de juventude: “Eu não gosto de música moderna. […] Minha filha sabe até cantar as músicas dos anos 80 de tanto que eu escuto” (S., 55 anos, informação verbal).
Tais memórias são tão determinantes, que levam S. a comparar, de modo nostálgico, juventudes de tempos diferentes. No limite, para Fredric Jameson (1985), a nostalgia é um sintoma patológico de uma sociedade que não consegue lidar com o tempo e com a história.
Todo mundo conversando, brincando, dentro do baile, era uma coisa diferente que é de hoje em dia, as pessoas se divertiam muito mais naquela época. Eu acho que naquela época as pessoas, eu não sei se que todo mundo era novo, então ninguém tinha preocupação com nada, não tinha hora de acabar, não tinha nada quando acabava, parecia que a gente queria que voltasse o tempo pra gente viver aquilo de novo (S., 55 anos, informação verbal).
Diversos momentos marcaram, na trajetória de S., sua relação com os bens culturais dos anos 1980. Músicas, campanhas publicitárias, artistas, modas, aparelhos portáteis de reprodução de mídias, programas de televisão, tudo serviu de marcadores para revelar uma dada identidade, a qual ainda hoje é reverenciada e preservada, em alguns aspectos.
Tinha Oriente, depois se transformou em Santa Cruz e o Grêmio Procópio Ferreira, aí a gente se dividia, tinha um que bombava mais que outro, levava uma atração, a gente ia ou para um lugar ou pro outro, quando tinha atração.
Léo Jaime ia se apresentar lotado, lotado, lotado, Leo Jaime usava muito, ele usa até hoje, né, All Star preto, ele cantando, aí ele falou assim, eu vou cantar uma música, quando ele entrou no palco, eu segurei no pé dele, ele não tirou.
Os artistas que eu gostava na naquela época, que ainda fazem sucesso, tipo Paralamas do Sucesso, Titãs, e tinha uns grupinhos que não existem mais, tipo eletrodomésticos, tinha o Dr. Silvano e Cia., eu ia pro show, “me dá paleta”, aí uma vez eu fui no show do Barão Vermelho, Cazuza já não tava, eu fiquei pedindo Frejat, “me dá a paleta, me dá a paleta”, no final ele me deu e veio com o nomezinho dele, eu tinha uma relíquia.
A entrevista com S. apontou para o movimento de reencontro com sua juventude.
C.S., 41 ANOS
A juventude de C.S na Cidade de Deus foi rememorada por meio de sua liderança em diversas atividades culturais, a primeira delas ainda na escola:
“Quem quiser, amanhã eu vou pro museu tal”. Quando chegava no dia seguinte, tava as duas turmas me esperando, entendeu? Então era aquela, assim, eu não saía da escola para ir pra praia, pra ir para shopping, não, eu ia pra museu, então conheço tudo quanto é museu (C.S., 41 anos, informação verbal).
A reconstrução das memórias juvenis de C.S. parece partir deliberadamente do tempo presente, já que atua como produtora cultural. Seu relato parece ancorar-se em aspectos comuns entre o passado e seu tempo presente.
Por conta desses rolés que eu organizava, tinha um ponto final 240 que era a Cidade de Deus-Centro. Quando o fiscal via a quantidade de aluno que tinha, ele falava, olha, leva para onde tem que levar e depois vai pro outro ponto final, porque botar um monte de aluno e ter que vir cobrando passagem é melhor pode ir direto entendeu, então organizava os rolés no ensino fundamental, sempre pra museu. De vez em quando a gente escapava pra Quinta da Boa Vista, porque tinha o Museu Histórico Nacional (C.S., 41 anos, informação verbal).
C.S. foi testemunha do surgimento dos primeiros bailes de funk em sua favela. O relato faz referência à forma como ela própria viveu a influência do funk em sua vida e em seu grupo de pares: “Eu tive uma referência de juventude muito boa, entendeu, a juventude de hoje é completamente diferente da minha” (C.S., 41 anos, informação verbal).
E aí a gente estava sempre lá todo final de semana, a gente viu nascer o Bonde do Tigrão. […] Todo mundo começou a se juntar para fazer bonde e na Cidade de Deus era o berço do funk, né, se se for listar a quantidade de bonde que tinha na Cidade de Deus nessa época… (C.S., 41 anos, informação verbal).
T.C., 38 ANOS
Com infância e adolescência vividas na favela, T.C. desenha a sua trajetória a partir da perspectiva da mobilidade social e da descoberta de outros ambientes sociais.
A minha vida não foi nem um pouco precoce, tudo que eu fiz, aprendi a fazer coisas ilícitas, foi depois dos 21 anos, então a faculdade foi uma descoberta também, assim, sobre essas coisas ilícitas. Eu comecei a beber depois dos 21, 20 e poucos anos (T.C., 38 anos, informação verbal).
Reconstrói sua trajetória como músico e seu ingresso em meios sociais distantes dos amigos com quem cresceu, elaborando sua identidade de hoje a partir das oportunidades não desperdiçadas de quando era jovem: “Tudo que eu reproduzo até hoje é porque eu aprendi na ProArte” (T.C., 38 anos, informação verbal). Segundo T.C., foi na ProArte que conheceu outras infâncias, outras adolescências e juventudes possíveis: “Foi a primeira vez que eu vi a pessoa que nunca apanhou na vida. “Eu falei, ‘como assim tu nunca apanhou?’. Eu tomei um susto” (T.C., 38 anos, informação verbal).
Depois, a universidade foi um outro lugar de mudança em sua vida:
Naquela época com meus 20 anos, e foi momento que eu entrei na faculdade, também eu não queria fazer a faculdade que eu estava fazendo e minha mãe insistiu assim para eu fazer aquela Faculdade de Música. E foi uma mudança assim meio que forte para mim, porque eu não queria ser aquilo, como repito muitas vezes, mas eu já agradeço muito a minha mãe por ela ter insistido eu ser músico (T.C., 38 anos, informação verbal).
O ingresso na ProArte o levou a frequentar o bairro das Laranjeiras, onde residem pessoas de camadas mais altas que a sua. Essa oportunidade o fez viver uma realidade que era inalcançável até então: “O cara tá com a Paulinho da Viola e tá aqui do meu lado, não acreditava, as pessoas que eu via na televisão… eu ia pro Boitatá […] eu não conseguia tocar porque eu ficava tão deslumbrado, ser aquela pessoa, cara, jogador futebol do meu lado (T.C., 38 anos, informação verbal).
Ao reconstruir suas memórias de juventude a partir do tempo presente, T.C. elabora um relato de vida consciente de sua condição social: “Enquanto [o amigo] tava lá escutando Jack Estripador na minha favela, eu tava vendo e estudando Dorival Caymmi, Noel Rosa (T.C., 38 anos, informação verbal).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os oito relatos de vida analisados, por serem parte de uma memória coletiva, e de representações sociais da juventude como categoria, acompanham as abordagens propostas neste artigo.
Das três abordagens sobre a noção de juventude, podemos afirmar que S.P. se aproxima mais da transitiva, já que, em mais de um momento em sua narrativa, faz referência a alguns ritos de passagem. As memórias de juventude de D.F., sedimentadas na identidade negra e na luta antirracista, parecem se acomodar bem na abordagem culturalista. Os anos 1980 foram determinantes para a construção de uma dada juventude, muito marcada pela emergência de espaços de expressão na música e na vida social. Não à toa, portanto, o senso de pertencimento que daí decorre parece conduzir as três narrativas, de M.B., G.S. e S. também para a abordagem culturalista sobre a juventude. Do mesmo modo, ao oscilar entre o distanciamento e o reencontro com sua juventude dos anos 2000, graças ao fato de trabalhar com produção cultural na Cidade de Deus e, portanto, estabelecer pontes com sua identidade juvenil no passado, C.S. constrói muito de sua identidade no universo do funk, o que leva a um enquadramento na perspectiva culturalista. Parece haver, na trajetória de C.A., uma ruptura com a identidade de uma “menininha de Ipanema”. Nesse sentido, a abordagem pluralista aparece aqui, já que, ao se contrastar com outro tipo de adolescente, a entrevistada apresenta a possibilidade de se viver uma outra juventude, e não apenas aquela que a sociedade impõe de modo normativo. A memória de T.C., por sua vez, revela a diversidade dentro de uma mesma experiência entre pares, o que também conduz à predominância da abordagem pluralista da noção de juventude.
Num movimento de distanciamento e de reencontro com uma dada identidade juvenil do tempo passado, a elaboração narrativa das histórias de vida, de um lado, traz à tona lugares, pessoas, bens culturais, fatos, imagens, enfim, referências que reforçam representações cristalizadas; e, de outro, evidencia a diversidade de experiências juvenis atravessadas por contextos específicos.
A juventude é memória porque trabalha como representação nas narrativas presentes nas histórias de vida. Ao remeter a lembranças de quando se tinha 20 e poucos anos, um pouco mais ou um pouco menos, não importa, a memória que aí se reconstrói colabora para a fixação de valores atribuídos à noção de “juventude”, já tão explorada pelas ciências sociais. A juventude como memória promove o confronto e a negociação entre identidades juvenis do tempo passado e do tempo presente.
Disponibilidade de Dados:
Estão disponíveis no corpo do texto.
Agradecimentos:
Nenhum.
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Disponível em: http://www.museudasjuventudescariocas.com.puc-rio.br.
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Fonte de financiamento:
CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - Bolsa de Produtividade em Pesquisa e Faperj - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro - Bolsa Cientista do Nosso Estado.
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Aprovação do Comitê de Ética:
Não se aplica.
