Neste momento em que A Igreja Negra, de Du Bois, é traduzida e lançada no Brasil, estão em ebulição análises sobre as escolhas e os esquecimentos que a academia tem produzido ao longo dos séculos. Para o caso das Ciências Sociais e da Sociologia, em particular, esse movimento é especialmente relevante pois, não somente traz impacto para todo o conjunto epistemológico que constituiu o campo, mas, do mesmo modo, altera significativamente o eixo sobre o qual se sustentaram os relatos sobre a organização dos procedimentos para a fundação de uma ciência da sociedade, como costuma-se afirmar.
Essa fervura, na academia brasileira, foi potencializada por dois movimentos que começaram a tomar forma no início deste século: primeiro, o adensamento da recepção, no país, das epistemologias do Sul Global, a princípio com as teorias pós-coloniais, no início dos anos 2000, e, com as perspectivas decoloniais e estudos subalternos, a partir da década seguinte. Tais epistemologias, propondo-se contra-hegemônicas, escrutinaram as narrativas que erigiram o mundo ocidental e encontraram na primazia da ciência, na defesa de um conhecimento eminentemente racional e no fazer científico pretensamente imparcial, parte das sustentações ideológicas para a difusão de uma visão de mundo imperialista e eurocêntrica, racializada (posto que sustentada na branquitude) e androcentrada.
Segundo, o estágio no qual se encontra o debate sobre raça e racismo no Brasil. Até o início dos anos 2000 a literatura sobre teoria das relações raciais dedicava-se a compreender os efeitos da raça para a constituição da nação, a caracterizar as múltiplas dimensões das desigualdades aqui produzidas, ou ainda a inserir raça como categoria definitiva no léxico das relações sociais. Recentemente o campo dos estudos raciais tem dedicado esforços significativos para questionar o próprio conjunto teórico e epistemológico das ciências sociais, levando, por consequência, ao resgate de autores até então esquecidos, cujo exemplo mais notório é Guerreiro Ramos, mas também de Lélia Gonzáles e Beatriz Nascimento.
É nesse cenário, então, que encontramos A Igreja Negra, escrito como relatório de pesquisa no contexto da Escola de Atlanta. Não, o livro não pode ser associado às epistemologias do sul. Ao contrário, é legítima reflexão sobre a sociedade americana produzida no século XIX. Mas, justamente por esse motivo é, indiretamente, a confirmação daquelas perspectivas. Evidencia como a história do fazer científico e, em um limite, os próprios cânones, são produtos intencionais de ativação de memória hegemônica, resultando de um jogo sobre o que e quem queremos lembrar. E, por essa razão, William Edward Burghardt “W. E. B.” Du Bois e sua obra nos colocam diante de mais um elemento na desconstrução das narrativas clássicas sobre a sociologia.
Sob esse ponto de vista, A Igreja Negra pode ser analisada a partir de várias chaves. Entre as possíveis, como: fundadora da Sociologia da Religião; obra inaugural para uma Sociologia Urbana; pioneira na aplicação entre análise qualitativa e quantitativa, precursora para a Teoria Sociológica (e para a Sociologia como um campo de conhecimento científico); e, um exemplar de Sociologia das Relações Raciais.
A mais evidente é, necessariamente, aquela que apresenta como um dos trabalhos fundadores do campo da Sociologia da Religião, visto que sua publicação em 1903, antecede A ética protestante e o espírito do capitalismo (1904), Religião na China (1915) e Religião na Índia (1916), de Weber; e As Formas Elementares da vida religiosa (1912), de Durkheim. Certamente, A Democracia na América (1835), de Tocqueville e A Questão Judaica (1843) de Marx e Engels, anteciparam reflexões sobre religiosidade nas organizações sociais modernas, contudo sem o tom central que configurasse uma sociologia da religião como um projeto, tal como apresentado por Durkheim e Weber.
Mas todas as chaves, em associação, permitem compreender a dimensão dessa obra para além de um trabalho meramente temático. Em A Igreja Negra estão apresentados todos os elementos que a tornaram pioneira em um campo em construção e nos permitem questionar o, até então inquestionável, cânone.
No Brasil, Marx, Durkheim e Weber, com suas obras seminais são frequentemente apresentados como pais fundadores de uma Sociologia, nascedoura no século XIX. Contudo, essa eleição não é feita sem obliterações que mantiveram pensadores e pensadoras à margem; em um projeto de esquecimento, perceptível em três dimensões.
A primeira, daqueles autores que sabemos existir, conhecemos a relevância, mas que orbitam entre os considerados clássicos, sem o mesmo protagonismo. Aqui está a frequente desconsideração a Tocqueville como um pai fundador. Na mesma medida, Comte é usualmente mencionado como mentor de Durkheim; e Simmel, contemporâneo a Weber, está longe do triunvirato que organizou o campo da sociologia, não obstante tenha sido o intelectual inspirador da Escola de Chicago, conforme assegurou Becker: “antropologicamente falando, descrevi minha linhagem na seguinte ordem: Simmel, Park, Hughes, Becker. Muito obrigado” (Becker, 1996: 188). Ainda no entorno de Weber é notória a secundarização da obra e atuação de sua esposa, Marianne Weber.
Na segunda estão autores que sabemos existir, mas desconhecemos a relevância, pois são perifericamente mencionados. Eles nunca são apresentados como parte organizadora do campo, apenas como autores de trabalhos temáticos, como Les Ouvriers Européens (1855), de Le Play, e Life and Labour of the People, de Charles Booth (1889). Henry Mayhew, considerado um “precursor da pesquisa qualitativa” (Nunes, 2012), também se inclui nesse grupo. Esses autores utilizaram enquetes, realizaram surveys e produziram dados e teorias para investigar a pobreza na França e na Inglaterra do século XIX.
Por fim, encontramos aqueles que, nem todos sabem que existem, e que, embora sejam mencionados em algumas obras pontuais, foram totalmente esquecidos como formadores do campo científico da Sociologia. Aqui, se encontram a inglesa Harriet Martineau (que vem sendo resgatada no Brasil), o haitiano Anténor Firmin; a indiana Pandita Ramabai; o mexicano Manuel Gamio e, evidentemente, Du Bois, por muito tempo restrito à uma sociologia das relações raciais e citado, sobretudo, por autores pós-coloniais como Appiah (1997) e Gilroy (2002). E, por coincidência, este último grupo tem algo em comum: sua explícita condição dissonante da mística do intelectual fundador “homem-branco-europeu”.
Por essa razão, considerar A Igreja Negra não é meramente iluminar a obra de um autor ou apresentar o trabalho seminal de um intelectual negro, tampouco é apresentar um livro temático escrito e publicado no mesmo momento em que alguns autores construíam um projeto de Sociologia como disciplina científica. Em realidade, é conferir-lhe protagonismo e, em certa medida, pioneirismo na fundação dessa ciência.
Nessa obra está apresentado um esforço de produção de conhecimento racional e científico, não meramente especulativo, que dá substância a uma sofisticada agenda de investigação. Estão ali todos os elementos que organizaram o campo: metodologicamente, A Igreja Negra apresenta uma conjugação entre análises qualitativa (com pesquisa documental e realização de entrevista estruturada) e quantitativa (com surveys e utilização de dados do censo) utilizadas para a realização de pesquisa empírica.
Teoricamente, antecipa as reflexões que inquietaram seus contemporâneos: a preocupação com os efeitos e impasses gerados pela passagem de um modelo de sociedade tradicional para as sociedades modernas, assim como os impactos de uma ordem individualista. Do mesmo modo, estão apresentadas as análises sobre a importância de práticas associativas e sobre os problemas de integração e coesão social, que inquietaram autores como Durkheim, em Da Divisão do Trabalho Social (1893) e n´O Suicídio (1897), e Tocqueville, em A Democracia na América (1835).
Até esse ponto, A Igreja Negra encontra-se no mesmo diapasão que o dos teóricos que fundaram a Sociologia. Sua excepcionalidade (outro, e fundamental, ponto que faz com que a obra seja pioneira em seu tempo) aparece quando promove um disruptivo diálogo com as teorias do determinismo biológico e do racismo científico. Ainda que por vezes adote a categoria “primitivo”, Du Bois não considera a religião essencialmente como uma debilidade, tampouco como uma permanência de formas ultrapassadas e superadas de sociedade. Ao contrário, em A Igreja Negra, a religião é vista como um elemento de integração dos negros em um contexto de modernidade.
Aqui, Du Bois, ao contrário da alteridade produzida pela Sociologia, e, sobretudo, pela Antropologia da época, apresenta o negro como sujeito não exótico e com capacidade de agência e de organização em congregações que atuariam como legítimas instituições de manutenção de uma “vida racializada”, como apresentado no Relatório da Terceira conferência de Atlanta, em 1898 (Du Bois, 2024: 9). Do mesmo modo, conseguiriam estabelecer práticas associativas diante das interferências de sociedade atravessada por preconceito, discriminação e desigualdade racial.
Igualmente, a religião negra analisada não aparece como exógena e peculiar. E, esse conjunto de considerações, ilumina a presença negra na fundação da modernidade, e não como existência à parte. Nisto, Du Bois não encontra par entre seus contemporâneos.
Assim, neste momento em que Igreja Negra, de Du Bois, é traduzida e lançada, a velha, tradicional e hegemônica forma de apresentar a fundação da sociologia está em ruínas. Esse livro consegue, ao mesmo tempo, inserir um autor negro não europeu entre os fundadores do campo disciplinar; evidenciar que raça esteve na origem de um projeto de sociologia, sem os contornos do racismo científico e, igualmente, apontar as reflexões sobre raça (e a presença de pessoas negras) na narrativa da modernidade. Certamente, Durkheim, Weber e Marx continuarão leituras clássicas, importantes e obrigatórias. Contudo, já não podem figurar como um triunvirato inquestionável a organizar um campo de conhecimento. Entre outros nomes, emerge o de Du Bois com sua Igreja Negra, uma igreja construída ontem sobre as ruínas atuais das antigas narrativas sociológicas.
REFERÊNCIAS
- Alatas, Syed Farid, & Sinha, Vineeta (org.). (2023). A teoria sociológica para além do cânone. São Paulo. Editora Funilaria.
- Appiah, Kwame Anthony. (1997). Na casa de meu pai: A África na filosofia da cultura. Rio de Janeiro: Contraponto.
-
Becker, Howard. (1996). A escola de Chicago. Mana, 2/2, p. 177-188. DOI: https://doi.org/10.1590/S0104-93131996000200008
» https://doi.org/10.1590/S0104-93131996000200008 - Castro, Celso (org.). (2022). Além do cânone: para ampliar e diversificar as ciências sociais. Rio de Janeiro: Editora FGV.
- Du Bois, W. E. Burghardt. (2024). A Igreja Negra. São Paulo: Editora Recriar.
- Durkheim, Emile. (1995 [1893]) Da divisão do trabalho social. São Paulo: Martins Fontes
- Durkheim, Emile. (1995 [1897]) O Suicídio. São Paulo: Martins Fontes .
- Durkheim, Emile. (1996 [1912]) As Formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália. São Paulo: Martins Fontes
- Gilroy, Paul. (2007). O Atlântico Negro. Modernidade e dupla consciência. São Paulo: Editora 34.
- Marx, Karl, & Engels, Friedrich. (2004 [1843]). A questão judaica. São Paulo: Martin & Claret.
-
Nunes, Everardo Duarte. (2012). Henry Mayhew: jornalista, investigador social e precursor da pesquisa qualitativa. História, Ciências, Saúde, 19/3, p. 933-950. DOI: https://doi.org/10.1590/S0104-59702012000300009
» https://doi.org/10.1590/S0104-59702012000300009 - Tocqueville, Aléxis de. (1987 [1835]). A democracia na América. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp.
- Weber, Max. (1967 [1916]) The religion of India: the sociology of hinduism and buddhism. London: The Free Press, Collier-Macmillan.
- Weber, Max. (1968 [1915]). The religion of China: confucianism and taoism. London: The Free Press, Collier-Macmillan.
- Weber, Max. (1994 [1904]) A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Pioneira.
