Open-access Nascer no Brasil II: achados e implicações para o estado do Rio de Janeiro

Elaborado com os objetivos de atualizar e ampliar os dados obtidos na Pesquisa Nascer no Brasil I (2011–2012)1, o estudo Nascer no Brasil II (2021–2023)2 incorporou novos temas de grande relevância, como aborto, saúde mental paterna e violência obstétrica, entre outros. Além do avanço temático, a nova edição contou com uma ampliação da amostra no estado do Rio de Janeiro, o que permitiu gerar estimativas representativas para essa unidade da federação — uma possibilidade ainda ausente para os demais estados brasileiros. Com base nessa oportunidade analítica, este suplemento especial da Revista de Saúde Pública reúne sete artigos que exploram, de forma robusta, aspectos centrais da saúde materno-infantil no contexto fluminense.

Os trabalhos publicados cobrem uma ampla gama de temas, que incluem:

  • efeitos de extremos etários sobre desfechos maternos e perinatais;

  • violência obstétrica;

  • transtornos mentais no pós-parto;

  • adequação do pré-natal;

  • práticas hospitalares relacionadas ao aleitamento materno;

  • desigualdades na atenção ao parto;

  • utilização da rede de cuidados conforme o risco gestacional.

Com base em metodologias quantitativas e amostragem probabilística, os estudos oferecem um panorama detalhado dos principais desafios enfrentados pelas mulheres durante a gestação, o parto e o puerpério, no estado do Rio de Janeiro. Seus achados são fundamentais para o monitoramento de iniquidades, a formulação de políticas públicas e o aprimoramento da qualidade da atenção à saúde.

No artigo assinado por Silvana da Gama et al., evidencia-se como a idade materna influencia diretamente a assistência recebida e os desfechos clínicos. Mulheres com menos de 20 anos enfrentaram maior precariedade no atendimento pré-natal e no parto, enquanto aquelas com mais de 35 anos apresentaram maior prevalência de condições como síndromes hipertensivas, diabetes gestacional e morbidade materna grave. Esses resultados indicam a necessidade de estratégias assistenciais diferenciadas ajustadas às especificidades de cada grupo etário.

A violência obstétrica e o sofrimento psíquico relacionado ao parto e ao puerpério são temas de dois outros estudos. Tatiana Leite et al. identificaram prevalência geral de 65,3% de violência obstétrica, com destaque para os toques vaginais inadequados (46,2%), seguidos por negligência (31,5%) e abuso psicológico (21,7%). Tais práticas incidem de forma desproporcional sobre mulheres em situação de vulnerabilidade social. Associando-se a essas experiências, o estudo de Mariza Theme-Filha et al. revelou frequências preocupantes de sintomas de depressão (17,9%), ansiedade (16,3%) e transtorno de estresse pós-traumático (7,7%) no pós-parto, especialmente entre mulheres com menor escolaridade. Juntos, os trabalhos revelam um cenário de sofrimento psíquico que agrava as desigualdades já existentes no campo da saúde reprodutiva. Desse modo, tanto evitar a reprodução de violências no contexto hospitalar quanto fortalecer a atenção em saúde mental no cuidado durante o pré-natal e puerpério são pontos de investimento das políticas públicas.

A análise conduzida por Rosa Domingues e sua equipe destaca a baixa adequação do pré-natal no estado, mesmo com indicadores relativamente satisfatórios de início precoce (78,8%) e número mínimo de consultas (75,5%). Considerando o conjunto de componentes recomendados pelas diretrizes da Organização Mundial da Saúde e do Ministério da Saúde — como exames laboratoriais, imunização, suplementação e orientações —, menos de 1% das gestantes receberam atenção plenamente adequada. A principal lacuna reside, portanto, na qualidade do cuidado, especialmente entre mulheres socialmente mais vulneráveis.

Complementando esse panorama, o estudo liderado por Ana Paula Esteves-Pereira investigou o vínculo entre práticas hospitalares e aleitamento materno. A amamentação foi quase universal nas primeiras 24 horas de vida, mas o aleitamento exclusivo aos dois meses diminuiu para 61,4%, com melhores taxas entre mães de maior escolaridade e que deram à luz em instituições associadas à Iniciativa Hospital Amigo da Criança. A introdução de alimentos pré-lácteos esteve associada à redução da amamentação exclusiva nos primeiros meses de vida. Esses achados reforçam a importância de intensificar-se as ações para promoção, proteção e apoio institucional à prática do aleitamento, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade social.

Dois artigos abordam a organização dos serviços e a adequação da assistência conforme o risco gestacional. Maria do Carmo Leal et al. apontam a baixa prevalência de trabalho de parto (54,4%) e de parto vaginal (41%) no estado. Já o estudo de Sonia Bittencourt et al. revelou que quase um terço (30,5%) das gestantes de alto risco foi atendido em maternidades sem unidades de terapia intensiva materna ou neonatal, evidenciando falhas graves na alocação de recursos e na regulação do cuidado. Ambos os estudos evidenciaram pontos críticos que exigem ação urgente e investimento contínuo.

Em seu conjunto, os artigos reunidos neste suplemento contribuem de forma significativa para o fortalecimento de uma agenda estratégica em saúde materno-infantil no estado do Rio de Janeiro. Embora os estudos reconheçam avanços importantes, os dados apontam para persistentes desafios na oferta de atenção qualificada, equitativa e centrada nas necessidades das mulheres e dos recém-nascidos. A Revista de Saúde Pública tem orgulho de colaborar com a divulgação dessas evidências e de fomentar o debate científico sobre caminhos possíveis para a superação das iniquidades. Boa leitura!

Referências bibliográficas

  • 1 Leal MC, Silva AA, Dias MA, Gama SG, Rattner D, Moreira ME, et al. Birth in Brazil: national survey into labour and birth. Reprod Health. 2012;9:15. https://doi.org/10.1186/1742-4755-9-15
    » https://doi.org/10.1186/1742-4755-9-15
  • 2 Leal MC, Esteves-Pereira AP, Bittencourt SA, Domingues R, Theme Filha MM, Leite TH, et al. Protocol of Birth in Brazil II: national research on abortion, labor and childbirth. Cad Saúde Pública. 2024;40(4):e00036223. https://doi.org/10.1590/0102-311xpt036223
    » https://doi.org/10.1590/0102-311xpt036223

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Out 2025
  • Data do Fascículo
    2025
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