O Brasil é um dos países em mais rápido processo de envelhecimento ao redor do mundo1. Por se tratar da quinta maior população global, o envelhecimento da população brasileira tem repercussões que transcendem as fronteiras do nosso país. Essa mudança demográfica traz oportunidades e desafios ainda não inteiramente compreendidos. A promoção do envelhecimento ativo2 e a construção de sistemas de proteção social que garantam a segurança econômica e a atenção à saúde nas idades mais velhas3 são elementos cruciais.
Estudos longitudinais de grandes bases populacionais sobre o envelhecimento vêm sendo desenvolvidos em diferentes países das Américas, da Europa e da Ásia. Essas pesquisas, genericamente denominadas Health and Retirement Family of Studies4, contemplam os determinantes sociais e biológicos do envelhecimento e as consequências dessa mudança demográfica para o indivíduo e a sociedade. Embora esses estudos sejam independentes, atendendo às demandas e particularidades de cada país, eles buscam adotar uma metodologia comum para permitir comparações internacionais. O Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), conduzido em amostra nacional representativa da população com 50 anos ou mais, é parte desse esforço internacional5. O ELSI é financiado pelo Ministério da Saúde e conta com o apoio de pesquisadores de diversas instituições acadêmicas brasileiras e estrangeiras, assim como de gestores do Sistema Único de Saúde (SUS) nos seus vários níveis. Os artigos apresentados neste suplemento da Revista de Saúde Pública são frutos dessa colaboração proveitosa.
A seleção dos temas foi baseada no marco teórico da Organização Mundial da Saúde para a promoção do envelhecimento ativo, que compreende três pilares: participação, saúde e segurança2. A seguridade social é um importante determinante da segurança em todas as idades, mas a demanda para esse sistema é maior nas faixas etárias mais velhas. Na Constituição Federal do Brasil, a seguridade social é definida como: “um conjunto de ações, de iniciativas dos poderes públicos e da sociedade, destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social”6 . Assim, a seguridade social foi contemplada em diferentes artigos que compõem este suplemento. A saúde perpassou todos os temas.
Os resultados mostram importantes desigualdades sociais na maioria dos temas contemplados, com pior situação entre as pessoas mais pobres ou com nível de escolaridade mais baixo. Essas desigualdades são observadas na prática regular da atividade física7, na saúde oral8, na limitação para realizar atividades básicas da vida diária9, na fragilidade10, no controle adequado da hipertensão arterial11, na subutilização de medicamentos por motivos financeiros12, na atenção à saúde13 e na capacidade para o trabalho14. O ambiente urbano emerge como associado à participação social15 e ao medo de ocorrência de quedas16. A qualidade de vida percebida está associada à sociabilidade e ao suporte instrumental e emocional17. O desempenho nos testes de função cognitiva é pior na região Nordeste18. Os problemas da coluna e a hipertensão arterial ocupam papel de destaque na configuração da multimorbidade19. O cuidado àqueles com limitações funcionais é prestado predominantemente por mulheres; entre as que trabalhavam, um terço deixou de fazê-lo para exercer o papel de cuidadora20. Alguns indicadores de uso e qualidade de serviços de saúde são melhores entre aqueles cobertos pela saúde suplementar, que apresentam melhores condições socioeconômicas13. O acesso à atenção primária é alto para padrões internacionais13, mas muitas hospitalizações poderiam ser evitadas por ações mais efetivas nesse nível de atenção21. São observadas diferenças no desempenho da atenção primária entre usuários do SUS, com melhor performance da Estratégia Saúde da Família em comparação às unidades básicas tradicionais13. A incapacidade para o trabalho14 e o recebimento de aposentadorias ou pensões22 apresentam associações com piores condições de saúde. No entanto, pessoas que recebem aposentadorias ou pensões residem de forma mais autônoma e possuem mais segurança econômica22.
Entre os objetivos da Agenda de Desenvolvimento Pós-2015, apoiada por 193 Estados-membros da Organização das Nações Unidas, estão a garantia de uma vida saudável e a promoção do bem-estar das pessoas de todas as idades23,24. Um balanço das evidências apresentadas neste suplemento indica que essas metas podem ser comprometidas sem investimentos na proteção social, na escolaridade e na saúde, assim como na superação das desigualdades a elas associadas. A Estratégia Saúde da Família necessita ser reforçada e aprimorada para atender às necessidades dos mais velhos. Uma política nacional de cuidado aos idosos com limitações funcionais é premente, tendo em vista que as tendências demográficas apontam para uma diminuição da disponibilidade de cuidadores informais (não remunerados)5. Os resultados também expõem a necessidade de incluir o tema saúde nas discussões, ora em curso, sobre o aumento da longevidade no trabalho e mudanças nas regras para as aposentadorias, uma vez que as condições de saúde estão associadas à aposentadoria precoce e à pior capacidade para o trabalho.
Referências bibliográficas
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11 Firmo JOA, Mambrini JVM, Peixoto SV, Loyola Filho AI, Souza-Junior PRB, Bof de Andrade F, et al. Adequate control of hypertension among older adults: ELSI-Brazil. Rev Saude Publica 2018;52 Suppl 2:13s. https://doi.org/10.11606/S1518-8787.2018052000646
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12 Loyola Filho AI, Firmo JOA, Mambrini JVM, Peixoto SV, Souza-Junior PRB, Bof de Andrade F, et al. Cost-related underuse of medications in older adults: ELSI-Brazil. Rev Saude Publica 2018;52 Suppl 2:8s. https://doi.org/10.11606/S1518-8787.2018052000622
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23 United Nations. United Nations Sustainable Development Summit 2015, 25-27 set 2015; New York. [cited 2018 May 5]. Available from: https://sustainabledevelopment.un.org/post2015/summit
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24 Suzman R, Beard JR, Boerma T, Chatterji S. Health in an aging world: what do we know? Lancet 2015;385(9967):484-6. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(14)61597-X
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Financiamento: A linha de base do ELSI-Brasil foi financiada pelo Ministério da Saúde (DECIT/SCTIE – Departamento de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (Processo 404965/2012-1); COSAPI/DAPES/SAS – Coordenação da Saúde da Pessoa Idosa, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas da Secretaria de Atenção à Saúde (Processos 20836, 22566 e 23700); e Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação.
