RESUMO
OBJETIVO Identificar as variáveis sociodemográficas e clínicas que influenciaram os custos diários de crianças e adolescentes que ficaram em acolhimento noturno em Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenis tipo III ou em internação na referência hospitalar ou de emergência e urgência na perspectiva da sociedade no ano de 2023.
MÉTODOS Trata-se de uma análise de custos retrospectiva. Foram coletados os custos diretos e indiretos. Para mensuração dos custos, foi empregada técnica mista, priorizando a abordagem de microcusteio e, para valoração, o método bottom-up. Fatores que influenciaram os custos foram avaliados com modelos estatísticos univariados.
RESULTADOS O estudo incluiu 399 usuários. O custo médio total foi de R$ 6.704,38 (US$ 1.149,99) e o custo médio diário foi de R$ 1.097,97 (US$ 188,33). Houve significância estatística na correlação entre custo diário e idade, raça, subgrupo diagnóstico, encaminhamento para o serviço de atendimento e motivo de busca por cuidado. A variável com maior variação positiva no custo diário foi buscar o serviço por uso de drogas (R$ 125,82; US$ 21,58), enquanto a com maior variação negativa no custo diário foi ter sido encaminhado por outro serviço (R$ 139,86; US$ 23,99).
CONCLUSÕES A fim de usar de forma mais eficiente os recursos disponíveis, cabe à rede de cuidados em saúde mental infantojuvenil investir no cuidado precoce de crianças e adolescentes, especialmente os mais vulnerabilizados e que possam ter problemas com o uso de drogas, além de incentivar cada vez mais a articulação entre serviços.
DESCRITORES
Saúde Mental; Custos e Análise de Custo; Criança; Adolescente; Intervenção em Crise
ABSTRACT
OBJECTIVE To identify the sociodemographic and clinical variables that influenced the daily costs of children and adolescents who stayed overnight in Type III Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSij - Child and Adolescent Psychosocial Care Center) or in hospital reference or emergency and urgent care from the perspective of society in the year 2023.
METHODS This is a retrospective cost analysis. Direct and indirect costs were collected. A mixed technique was used to measure costs, prioritizing the micro-costing approach and the bottom-up method for valuation. Factors influencing costs were evaluated using univariate statistical models.
RESULTS The study included 399 users. The average total cost was R$ 6,704.38 (US$ 1,149.99) and the average daily cost was R$ 1,097.97 (US$ 188.33). There was statistical significance in the correlation between daily cost and age, race, diagnostic subgroup, referral to the service, and reason for seeking care. The variable with the greatest positive variation in daily cost was seeking care for drug use (R$ 125.82; US$ 21.58), while the variable with the greatest negative variation in daily cost was being referred by another service (R$ 139.86; US$ 23.99).
CONCLUSIONS To make more efficient use of available resources, it is up to the child and adolescent mental health care network to invest in the early care of children and adolescents, especially those who are most vulnerable and who may have problems with drug use, and to increasingly encourage coordination between services.
DESCRIPTORS
Mental Health; Costs and Cost Analysis; Child; Adolescent; Crisis Intervention
INTRODUÇÃO
O cuidado em crise de saúde mental de crianças e adolescentes é um tema que vem sendo mais estudado nos últimos anos, mas ainda é bastante subestimado1. Apesar de haver dados sobre a importância do cuidado de saúde mental de crianças e adolescentes de forma precoce, visando um futuro mais saudável, ainda pouco se sabe sobre o tema na literatura2. As situações de crise, por serem momentos de extrema vulnerabilidade, têm potencial danoso ao deixar o usuário mais frágil e com traumas que o seguirão no resto da vida3. Urge, então, pensar em maneiras de cuidar destes períodos da melhor forma possível4, ainda mais por saber que a carga de doença em saúde mental apresenta-se maior em países de baixa e média renda5, como o Brasil.
No Brasil, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) é composta por serviços em diversos níveis de atenção a fim de proporcionar cuidado nos diferentes momentos de vida. Para crianças e adolescentes, o cuidado é ofertado em serviços que devem ter equipe e estrutura adequadas para suas finalidades6. Na crise, crianças, adolescentes e seus familiares, a depender do seu vínculo com os serviços territoriais e demandas, podem recorrer a diferentes serviços, como o Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSij), hospitais gerais ou Unidades de Pronto Atendimento (UPA), sendo estes últimos estratégicos para o cuidado imediato e de caráter mais clínico6. Os CAPSij são os serviços de referência em saúde mental e os do tipo III têm camas para acolhimento noturno7 quando o usuário necessita de cuidado mais intensivo, sendo assim possível evitar uma internação e fortalecendo o vínculo entre serviço, usuário e família. Há CAPSij III em baixíssima quantidade, e só na cidade de São Paulo há regulamentação sobre seu funcionamento8.
Diante desta gama de serviços e possibilidades, é importante compreender como o cuidado é ofertado nos serviços e qual o custo de cada um, já que o orçamento para a saúde é único e está sempre em disputa, predominando a escassez de recursos9. A avaliação econômica em saúde mostra-se como importante método para apresentar dados financeiros do campo da saúde10. A análise de custos é uma avaliação econômica parcial, por não haver comparação de desfechos, e de suma relevância ao apresentar os custos de diferentes serviços e fornecer dados para que futuras avaliações econômicas completas sejam realizadas10.
Portanto, o objetivo deste estudo foi identificar as variáveis sociodemográficas e clínicas que influenciam os custos diários de crianças e adolescentes que ficaram em acolhimento noturno em CAPSij III ou na internação na referência hospitalar ou de emergência e urgência na perspectiva da sociedade no ano de 2023.
MÉTODOS
Desenho do Estudo
Trata-se de um estudo de avaliação econômica parcial10 com modelo de análise estatística transversal com dados retrospectivos sobre os custos do acolhimento noturno em CAPSij III e em serviço de internação (hospital geral ou UPA). A perspectiva adotada por esta pesquisa é a da sociedade. O horizonte temporal da pesquisa é os 12 meses do ano de 2023; a escolha se deu por ser um ano com as internações por covid-19 já estarem estáveis e por permitir acompanhar as possíveis oscilações mensais, além de favorecer uma quantidade robusta de dados. O plano de análise econômica desta pesquisa está disponível em https://repositorio.usp.br/item/003186572.
População, Fonte de Dados de Custos do Estudo
Os dados coletados em prontuários referem-se a crianças e adolescentes, de zero a 18 anos, com questões de saúde mental que ficaram pela primeira vez na vida no acolhimento noturno em CAPSij III ou em internação em serviços de urgência e emergência. Adotou-se este critério para evitar possível viés nas ações de cuidado que as equipes pudessem realizar para usuários reincidentes11 e que demandam outros cuidados e articulações.
Esta pesquisa utilizou técnica mista para identificação e mensuração dos custos10, priorizando a abordagem de microcusteio12, que foi utilizada na obtenção dos custos diretos médico-hospitalares e não médico-hospitalares. Para os custos indiretos, foi necessário utilizar o macrocusteio. Para a valoração dos custos, a abordagem bottom-up foi utilizada10. O Quadro apresenta todos os dados identificados, coletados, mensurados e valorados.
Descrição dos custos diretos e indiretos e abordagem de identificação e mensuração utilizada.
A coleta de dados sociodemográficos, procedimentos (ações de saúde) e materiais utilizados durante o período de cuidado de cada usuário foi realizada em análise em prontuário individual nas unidades de saúde. Os valores referentes aos custos diretos sobre recursos humanos, trabalho administrativo, contas dos serviços e transporte foram obtidos junto às organizações gestoras dos serviços e análise de contratos de serviços. O Painel de Preços do governo brasileiro foi utilizado para os medicamentos e materiais e o Sistema de Gerenciamento da Tabela de Procedimentos, Medicamentos e OPM (Sigtap) do Sistema Único de Saúde (SUS) para exames. Não há valores de diárias de internação ou de acolhimento no Sigtap.
Os valores referentes aos custos indiretos correspondem: à evasão escolar, que foi valorada com base na literatura13; à permanência dos usuários em instituições sob tutela do Estado, como Serviço de Acolhimento Institucional ou serviços de execução de medidas socioeducativas, valorada com dados disponíveis para acesso público (Secretarias Municipais de Assistência Social e Desenvolvimento de São Paulo, Curitiba e Campo Grande e Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública do Mato Grosso do Sul); e aos dias perdidos de trabalho pelos responsáveis, informação obtida dos prontuários dos usuários e calculados conforme a abordagem do capital humano10.
A ocupação dos responsáveis constituiu a informação mais faltante nos prontuários, porém nos registros que continham esta informação, observou-se que 75% dos pais estavam em empregos informais ou autônomos de baixa renda, como empregadas domésticas e garçom/garçonete. Considerando este achado e tendo em vista que a literatura indica baixa renda familiar entre usuários de saúde mental e seus familiares14, optou-se por utilizar o salário mínimo de 2023 como base para os cálculos, evitando assim superestimativas.
Todos os custos, diretos e indiretos, foram calculados por preço unitário, conforme sua fonte de informação, e multiplicados pelo tempo e quantidade de vezes utilizada por cada usuário. Para a extração de dados dos prontuários e dos custos, foram utilizados instrumentos elaborados pelos autores no RedCap®.
Como os dados se referem a um único ano, não foi utilizada taxa de desconto. Todos os custos foram coletados com valores referentes ao mês de dezembro de 2023 em real brasileiro (R$) e foram corrigidos pela taxa do Índice de Preços ao Consumidor Amplo de janeiro de 202515. As análises foram feitas na moeda brasileira, mas, nas seções Resultados e Discussão, os valores são apresentados em dólar americano (US$), cuja taxa cambial era de US$ 1,00 = R$ 5,83, referente também a janeiro de 202515, de forma a tornar os dados mais acessíveis a diferentes contextos.
Contexto do Estudo
Para a seleção dos serviços, foram selecionadas as RAPS que contavam com, ao menos, um CAPSij III no território e um serviço de referência de internação para crianças e adolescentes em crise de saúde mental. Sendo assim, serviços de quatro cidades brasileiras foram incluídos na pesquisa, nomeadamente, Campo Grande (MS), Curitiba (PR), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP). Todas são capitais de estados brasileiros e estão entre as 20 maiores cidades do país16. Para as RAPS com mais de um CAPSij III, foi incluído o primeiro a se tornar tipo III. Para as RAPS que contavam com a referência de internação em hospital geral, o hospital geral incluído foi o com maior número de atendimentos no ano de 2023, segundo o Sistema de Informações Hospitalares do SUS. Para as RAPS com UPA como referência de internação, foi incluída a UPA da região mais populosa da cidade, já que os dados de número de atendimentos não constam no Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS. Neste estudo, como hospitais e UPAs realizaram as mesmas ações de cuidado, foram tratados em categoria única, como “Internação”.
Este trabalho foi aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisa das Secretarias Municipais de Saúde de Campo Grande, Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo e da Universidade de São Paulo sob números CAAE 74548823.0.3004.5162, 74548823.0.3002.0101, 74548823.0.3003.5279, 74548823.0.3001.0086 e 74548823.0.0000.5392, respectivamente.
Análise Estatística
Os dados foram armazenados e exportados do RedCap® e analisados no software Stata (StataCorp 2007), versão 15. Os dados de custo são apresentados como médias e os intervalos de confiança de 95% (IC95%) para a média. Foi utilizado um modelo de regressão múltipla de mínimos quadrados ordinários com erros padrão robustos à heterocedasticidade para testar a correlação entre custo diário e as variáveis independentes. Este tipo de análise foi escolhido por ser ideal para identificar quais fatores estão mais fortemente associados ao custo diário. Foram utilizados erros-padrão robustos à heterocedasticidade para corrigir possíveis problemas decorrentes da variância dos erros entre diferentes grupos, garantindo, assim, resultados robustos17.
Como variável dependente, foi escolhido o custo diário de cada usuário, uma vez que houve grande variação no custo total do tratamento entre usuários e o tempo de permanência influenciou diretamente o custo total. Já o custo diário dos usuários manteve-se similar entre os usuários, independentemente do serviço. Ademais, os custos diários apresentaram distribuição normal e simétrica. Desta forma, o custo diário médio também pode limitar os impactos não observados da heterogeneidade, ao reduzir a assimetria e a leptocurtose, apresentando dados mais diretivos aos tomadores de decisão18.
As variáveis independentes foram idade, gênero, raça, vínculo escolar, subgrupo diagnóstico19 — o grupo “Outros” incluiu diagnósticos relacionados a autoextermínio fora do grupo F —, encaminhamento de outro serviço, motivo de busca pelo tratamento, tempo de permanência (em dias), ter sido cuidado no CAPSij ou em serviço de internação e uso de medicação (em número de vezes durante todo o tratamento). Foram considerados estatisticamente significativos os valores de p < 0,05.
RESULTADOS
No ano de 2023, 399 crianças e adolescentes passaram por acolhimento noturno em CAPSij III ou internação em hospital geral ou UPA pela primeira vez na vida, compondo a amostra deste estudo. A caracterização da população estudada encontra-se na Tabela 1. Observa-se que a média de idade é muito parecida entre os serviços e há predominância de meninas cisgênero em ambos os serviços, apesar de essa porcentagem ser significativamente maior nas internações. Chama atenção não haver pessoas transgêneros nas internações. Quanto à raça, a população não negra foi maioria em ambos os serviços, e ressalta-se o percentual significativo da falta de dados sobre raça/cor nos serviços de internação. Referente ao vínculo escolar, é importante notar que 14% do total da amostra não está acessando esse direito.
Quando se considera o subgrupo diagnóstico, os diagnósticos relacionados a alterações de humor foram predominantes nos CAPSij e na internação; sobressaíram-se os diagnósticos relacionados a tentativas de autoextermínio em outros grupos da CID-10. Em relação ao encaminhamento, enquanto os usuários chegam ao CAPSij encaminhados por outro serviço, em sua maioria, os usuários buscam a internação por demanda espontânea. Os usuários moram, no geral, com suas famílias, mas há uma quantidade expressiva de usuários sob tutela do Estado que buscam o CAPSij para o acolhimento noturno.
Quanto ao motivo da busca pelos serviços, o risco de morte foi a principal causa, seguida da crise psicótica. O tempo de permanência tem diferença relevante entre os serviços: enquanto os CAPSij tendem a ter acolhimentos de, na média, quase sete dias, a internação dura, na média, quase quatro dias. A frequência do uso de medicação também teve diferença significativa: nos CAPSij são usadas, em média, 12 vezes e na internação, quase sete vezes.
O custo total e o custo diário são apresentados na Tabela 2. Pode-se observar que os custos totais dos usuários de CAPSij apresentaram média maior, uma vez que o tempo de permanência afeta esse custo diretamente. Já os valores de custo diário variaram menos em torno da média.
Na internação, os custos diretos tiveram maior participação no custo diário médio: 86,96% em custos médicos hospitalares e 7,41% em custos não médico-hospitalares, totalizando 94,17%. Nos CAPSij, os custos diretos também foram majoritários, porém os custos médico-hospitalares foram 88,82% e os não médico-hospitalares, 6,37%. Os custos indiretos foram 4,81% no CAPSij e 5,83% na internação.
A Tabela 3 apresenta como as categorias estudadas por tipo de custo contribuíram para o custo diário por serviço. Há diferenças entre os serviços. O uso de medicações, exames e materiais para procedimentos têm maior porcentagem na internação. Os custos não médico-hospitalares têm maior influência no custo diário da internação, assim como os custos indiretos. Vale ressaltar que a maior diferença de porcentagem entre os serviços nos custos não médico-hospitalares refere-se ao rateio de contas e serviços comuns, o que pode ser explicado pelo maior custo para manter estruturas hospitalares e de urgência e emergência do que serviços de base territorial.
Observa-se que nos custos indiretos há diferenças significativas nas três categorias: mais usuários do CAPSij estavam em serviços sob tutela do Estado, assim como estavam em maior número fora da escola (Tabela 3). E referente aos dias de trabalho perdido pelos responsáveis, esta categoria teve maior participação no custo diário do tratamento na internação, uma vez que todos os hospitais e todas as UPAs têm por protocolo a obrigatoriedade de acompanhamento do usuário durante o tratamento, enquanto no CAPSij essa recomendação pode variar conforme a avaliação do caso e acordos com a família.
A Tabela 4 apresenta a correlação entre os dados sociodemográficos e clínicos da amostra com o custo diário das crianças e adolescentes atendidos. Observa-se que houve significância estatística nas relações entre custo diário e idade, raça, ser do subgrupo diagnóstico F30-F39, F40-F49, ter sido encaminhado por outro serviço e ter buscado atendimento por uso de drogas e por questões de vulnerabilidades.
A cada ano de idade do usuário, o custo diário do tratamento é acrescido em R$ 13,68 (US$ 2,35). Ser pertencente à população negra (ser raça/cor preto ou pardo), diminuiu o custo diário em R$ 102,60 (US$ 17,60). Ter recebido diagnóstico do subgrupo F30-F39 teve efeito de R$ 81,30 (US$ 13,94) a menos no custo diário do tratamento e ter recebido diagnóstico do subgrupo F40-F49 proporcionou redução de R$ 100,75 (US$ 17,28) no custo diário. Ter sido encaminhado por outro serviço para o CAPS ou para internação apresentou redução de custos de R$ 139,86 (US$ 23,99) ao custo diário do tratamento.
E por fim, ter buscado tratamento por conta de uso de drogas fez com que o custo diário fosse maior em R$ 125,82 (US$ 21,58) e os casos que buscaram tratamento por conta de vulnerabilidade apresentaram R$ 124,12 (US$ 21,29) a mais no custo médio diário de cuidado. Portanto, as variáveis que apresentaram maior variação no custo foram ter sido encaminhado por outro serviço para tratamento, seguido por ter buscado o serviço devido ao uso de drogas e por vulnerabilidades.
DISCUSSÃO
Os usuários atendidos pelos serviços eram, na média, adolescentes. Nos últimos anos, especialmente após a pandemia de covid-19, houve um aumento na demanda por cuidado em saúde mental nessa faixa etária20. Os diagnósticos relacionados ao autoextermínio e alteração de humor foram os predominantes e têm relação com a adolescência contemporânea21. Cabe ainda ressaltar que, no presente estudo, o custo diário aumentou com a idade do usuário, o que é um dado relevante para que as redes de cuidado apostem na prevenção e promoção de cuidado, tanto para o próprio benefício da população quanto para a economia do país.
As meninas cisgênero foram maioria da amostra, o que parece ser uma tendência mundial22. Ressalta-se aqui a baixa procura de pessoas transsexuais nos serviços estudados, principalmente na internação. A ausência de identificação da identidade de gênero e de protocolos institucionais para atendimento de crianças e adolescentes transexuais, aliados ao baixo conhecimento profissional sobre transexualidade e ambiente pouco acolhedor, são algumas das barreiras de acesso que devem ser resolvidas pelos serviços. A educação continuada de profissionais é uma estratégia interessante para que crianças e adolescentes transexuais possam ser melhor atendidos e criar vínculo com os serviços23.
A população negra deste estudo não refletiu a realidade nacional de maioria na população, e essa diferença pode ser explicada por Curitiba ter sido um dos cenários de coleta, onde a população negra é em menor porcentagem16. De toda forma, salienta-se dois pontos quanto à raça/cor: primeiramente, o número de prontuários sem essa informação não foi significativo na amostra total, porém chama a atenção um dado que é de preenchimento obrigatório em serviços públicos24 estar faltante. E, em segundo lugar, chama a atenção que ser da população negra influenciou a diminuição do custo diário. Ora, seriam os usuários negros menos demandantes de cuidado, visto que a maior participação no custo diário é por recursos humanos? Tendo em vista achados similares sobre a relação entre menor uso de medicamentos e acesso a serviços e raça/cor25,26, para além das violações de direitos humanos, pontua-se que as equipes devem se atentar ao racismo institucional. Ademais, por ser minoria no estudo, ressalta-se que as equipes estejam atentas às barreiras de acesso que essa população aos serviços.
A evasão escolar teve grande contribuição no custo diário, mas é principalmente um problema a longo prazo para o indivíduo e o país. Ter menos possibilidade de acesso a bons empregos e de mudanças sociais afeta negativamente a qualidade de vida, assim como acentua e mantém as desigualdades sociais13.
Considerando os direitos das crianças e adolescentes27, a permanência do responsável durante o período de cuidado é um ponto a ser debatido, tanto clínica quanto politicamente. Clinicamente, pode ser que a presença do responsável não seja indicada pela equipe, o que é previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente27, e a discussão deve ser realizada de forma cautelosa e ética. Politicamente, há a questão de os responsáveis por menores de idade não terem o direito garantido em trabalhos formais de acompanharem os filhos e perderem a renda do dia trabalhado nos trabalhos informais, o que impacta principalmente mulheres, quando são as principais ou únicas cuidadoras28.
A diferença da participação das categorias nos custos diretos médico-hospitalares pode ocorrer devido à maior utilização de tecnologias leves nos CAPSij, o que demanda mais dos profissionais, enquanto nos serviços de internação as tecnologias leve-duras e duras são mais utilizadas29. A articulação de rede inter e intrassetorial apresentou-se como potente neste estudo, tendo a maior influência na diminuição do custo diário e sendo um recurso que já se mostrou custo-efetivo30. Além de proporcionar um cuidado mais integrado aos usuários, a articulação entre serviços facilita que o usuário e os familiares não fiquem perdidos na rede ou até mesmo deixem de acessar serviços que são necessários31. Vale ainda relembrar que o encaminhamento não garante a articulação cuidadosa da rede de cuidados31, mas é um bom caminho a ser (per)seguido.
Buscar os serviços por risco de morte e por crise psicótica está em consonância com o que a população compreende como motivo de crise32. O menor custo dos transtornos afetivos e de humor e neuróticos condiz com a revisão da literatura feita por Christensen et al.33. O uso de drogas foi uma das variáveis que mais implicou no aumento do custo diário, e a prevenção e a redução de danos poderiam auxiliar em sua diminuição34,35. Quanto às vulnerabilidades, apenas o CAPSij atendeu esta demanda como crise, o que condiz com a definição de Dell’Acqua e Mezzina32, mas que no cuidado hospitalar e de urgência e emergência não cabe. No entanto, as vulnerabilidades apresentaram aumento significativo no custo diário e precisam ser cuidadas não apenas pela rede de saúde, mas por toda a rede de cuidado da infância e adolescência, principalmente a fim de assegurar os direitos desta população27.
Este estudo apresenta algumas limitações. Primeiramente, os custos de medicações dispensadas por farmácia dos serviços não foram contabilizados, pois hospitais e UPAs não tinham esses registros nos prontuários, o que superestimaria os custos dos usuários de CAPSij. As medicações de alto custo não relacionadas ao cuidado em saúde mental também foram desconsideradas da análise a fim de não enviesar os custos. Em segundo lugar, os valores dos custos indiretos precisaram ser estimados por não haver os registros das reais situações, além de apresentarem potenciais impactos futuros, que não puderam ser mensurados, como perda de renda futura de uma profissão não abraçada. Sugere-se investimento na formação e acompanhamento do preenchimento de documentos, como prontuários, para que futuras pesquisas possam ser realizadas com dados de mundo real. Em terceiro, pontua-se que, por se basear em dados de prontuários, algumas informações podem não ter sido registradas. Em quarto, por ser um estudo realizado em cidades do eixo Centro-Sul do Brasil, os resultados podem não ser generalizáveis para todas as regiões. E por último, os custos relacionados a alguns grupos, principalmente os mais vulnerabilizados, podem estar subestimados por conta das barreiras de acesso.
Por fim, este estudo trouxe a inédita contribuição ao identificar, mensurar e valorar os custos que compõem o custo total e diário de duas estratégias relevantes no cuidado da crise de crianças e adolescentes no Brasil, além de identificar fatores que podem estar relacionados à variação do custo diário. Com base nos achados deste estudo e considerando que o cuidado em saúde mental infantojuvenil não acontece apenas na rede de saúde, mas através da garantia de direitos, destaca-se a importância da rede em proporcionar cuidado precoce à essa população, a fim de minimizar sofrimentos futuros e otimizar os custos do orçamento público. Os mais vulnerabilizados e os que possam ter problemas com uso de drogas devem ser acompanhados com maior proximidade. A articulação entre serviços para que ações como encaminhamentos cuidadosos aconteçam deve continuar acontecendo e ser fortalecida. Finalmente, cabe à rede e aos profissionais atentarem-se a como o racismo e situações que podem dificultar o acesso aos serviços podem afetar o cuidado. Sugere-se que avaliações econômicas completas, como avaliações de custo-efetividade e de custo-utilidade, sejam realizadas para auxiliar tomadores de decisão sobre alocação de recursos nos serviços da rede.
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Disponibilidade de Dados:
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Financiamento:
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq – processo nº 408243/2022-8).
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Editor Associado:
Tonantzin Ribeiro Gonçalves https://orcid.org/0000-0003-0249-3358
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