RESUMO
OBJETIVO Avaliar a prevalência de fatores de risco e proteção para doenças crônicas não transmissíveis entre estudantes universitários brasileiros.
MÉTODOS Foram utilizados dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2013 e 2019 para avaliar estudantes de graduação (≥ 18 anos). Fatores de risco incluíram consumo de alimentos não saudáveis, comportamento sedentário, atividade física insuficiente, consumo de álcool e de tabaco, excesso de peso e obesidade, enquanto fatores de proteção envolveram consumo de alimentos saudáveis e atividade física no lazer. Prevalências e intervalos de confiança foram descritos para cada ano, estratificadas por sexo, ocupação profissional, raça/cor da pele e faixa etária.
RESULTADOS A prevalência de consumo regular de refrigerantes (homens: 27,9% para 12,5%; mulheres: 22,8% para 10,7%), de doces (homens: 27,1% para 17,6%; mulheres: 33,2% para 20,4%) e de atividade física insuficiente (homens: 37,6% para 22,7%; mulheres: 57,7% para 37,3%) diminuiu, enquanto a prevalência de consumo regular de frutas e hortaliças (homens: 16,1% para 27,2%; mulheres: 22,6% para 34%) e de atividade física no lazer (mulheres: 28,3% para 37,3%) aumentou. O consumo de feijão (65,1% para 55,8%) e a prática de atividade física no lazer (32,4% para 42,9%) aumentaram entre estudantes com ocupação. A prática de atividade física no lazer (37,2% para 46,4%) aumentou e o consumo de doces (33,7% para 17,5%) reduziu entre estudantes brancos/amarelos, enquanto o consumo de feijão diminuiu entre estudantes negros/indígenas (69,9% para 57,1%).
CONCLUSÃO A prevalência da maioria dos fatores de risco diminuiu. As prevalências de consumo de frutas e hortaliças e prática de atividade física seguem baixas, mas tiveram aumento.
DESCRITORES
Estilo de vida; Doença Crônica; Inquéritos Epidemiológicos; Universidades
ABSTRACT
OBJECTIVE To assess the prevalence of risk and protective factors for non-communicable diseases among Brazilian university students.
METHODS Data from the 2013 and 2019 National Health Survey were used to assess undergraduate students (≥ 18 years). Risk factors included consumption of unhealthy foods, sedentary behavior, insufficient physical activity, alcohol and tobacco consumption, overweight, and obesity, while protective factors involved consumption of healthy foods and leisure-time physical activity. Prevalences and confidence intervals were described for each year, stratified by sex, professional occupation, race/skin color, and age group.
RESULTS The prevalence of regular consumption of soft drinks (men: 27.9% to 12.5%; women: 22.8% to 10.7%), sweets (men: 27.1% to 17.6%; women: 33.2% to 20.4%), and insufficient physical activity (men: 37.6% to 22.7%; women: 57.7% to 37.3%) decreased, while the prevalence of regular fruit and vegetable consumption (men: 16.1% to 27.2%; women: 22.6% to 34%) and leisure-time physical activity (women: 28.3% to 37.3%) increased. Regular consumption of beans (65.1% to 55.8%) and leisure-time physical activity (32.4% to 42.9%) increased among students with jobs. Leisure-time physical activity (37.2% to 46.4%) increased and sweet consumption (33.7% to 17.5%) decreased among white/Asian students, while regular consumption of beans decreased among Black/indigenous students (69.9% to 57.1%).
CONCLUSION The prevalence of most risk factors decreased. The prevalence of fruit and vegetable consumption and physical activity remained low but increased.
DESCRIPTORS
Life Style; Non-communicable Disease; Health Surveys; Universities
INTRODUÇÃO
O ingresso na universidade pode acarretar mudanças nas relações sociais, distanciamento familiar e alterações comportamentais, resultando em hábitos de vida não saudáveis, que constituem fatores de risco para doenças crônicas não transmissíveis (DCNT)1. Estas doenças, compreendidas como um conjunto de condições de início gradual, de longa ou indefinida duração, constituem a principal causa de mortes e morbidades no Brasil2. Grande parte das DCNT desenvolve-se a partir de fatores de risco modificáveis, como alimentação não saudável, prática insuficiente de atividade física, consumo de bebida alcoólica e tabagismo3.
No Brasil, inquéritos de saúde nacionais têm se constituído como ferramentas indispensáveis para o monitoramento desses fatores de risco4, principalmente entre população adulta e idosa. No entanto, são escassos estudos que identifiquem fatores de risco em amostra nacional de estudantes universitários. Com a sanção da Política Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes)5 em 2024, tornou-se ainda mais necessária a compreensão do perfil de saúde e estilo de vida dessa população, a fim de contribuir para o planejamento de ações que priorizem as necessidades mais urgentes e justifiquem a alocação de recursos para a implementação da Política. Adicionalmente, a análise de fatores de risco e proteção à saúde pode permitir a avaliação do impacto da Pnaes ao longo do tempo, além de desempenhar um papel crucial na vigilância dos fatores de risco para DCNT, conforme recomendado no Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos não Transmissíveis no Brasil (Plano de DANT)3.
Portanto, tendo como motivação o monitoramento dos aspectos relacionados à saúde de estudantes universitários, o objetivo deste estudo foi descrever a prevalência e a evolução dos fatores de risco e proteção para DCNT entre estudantes de graduação brasileiros.
MÉTODOS
Estudo transversal desenvolvido com dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) realizada nos anos de 2013 e 2019. A PNS é um inquérito de base domiciliar e âmbito nacional realizado no Brasil pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em parceria com o Ministério da Saúde e a Fundação Oswaldo Cruz. Informações detalhadas sobre a estratégia de amostragem e coleta de dados da PNS podem ser acessadas em relatórios da pesquisa4,6,7. A PNS teve aprovação da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa para Seres Humanos do Ministério da Saúde sob o número 328.159 para a edição de 2013, e sob o número 3.529.376 para a edição de 2019.
A população pesquisada corresponde a moradores selecionados (com 18 ou mais anos de idade, em 2013, e com 15 anos ou mais de idade, em 2019) de amostra de domicílios particulares permanentes do Brasil6,7. No presente estudo, foi realizado um recorte das amostras da PNS incluindo apenas indivíduos adultos (≥ 18 anos de idade) que responderam ao questionário individual, de forma a harmonizar a idade dos respondentes das duas edições, e com foco naqueles que estavam matriculados em curso de graduação6,7. A amostra correspondeu a 3.246 indivíduos adultos em 2013 e 3.618 em 2019. Embora a amostragem da PNS não tenha sido projetada para representar especificamente estudantes universitários, a escolha de focar neste grupo se justifica pela importância de investigar comportamentos de saúde em uma fase crítica do ciclo de vida.
Para analisar os fatores de risco e proteção para DCNT, foram utilizadas questões referentes à antropometria, a hábitos alimentares, ao consumo de bebida alcoólica, à prática de atividade física e ao uso de tabaco.
As características sociodemográficas e geográficas da população de estudo foram analisadas por meio das variáveis: sexo (homem, mulher), faixa etária (18–23 anos, 24–29 anos, ≥ 30 anos), região geográfica (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste, Sul), área de residência (capitais, não capitais), raça/cor da pele e ocupação profissional. A variável raça/cor da pele, a partir das cinco categorias originais (brancos, pretos, pardos, amarelos e indígenas), foi categorizada em brancos/amarelos e negros/indígenas8, considerando que o segundo grupo poder ser alvo de cotas raciais para ingresso na universidade e pela proximidade desses grupos em termos de desigualdades estruturais. A ocupação profissional foi verificada com base na resposta positiva à pergunta: “Na (semana de referência), trabalhou ou estagiou, durante pelo menos uma hora, em alguma atividade remunerada em dinheiro?” As respostas negativas foram classificadas como ausência de ocupação. Dado que não há informação sobre o tipo de universidade (pública ou privada), a modalidade de ensino (presencial ou remoto) e o turno de estudo do indivíduo, a informação sobre ocupação profissional teve como objetivo contribuir para a caracterização das condições de estudo.
A seguir, são apresentados os fatores de risco e a proteção analisados. Todas as variáveis foram analisadas de forma dicotômica (sim/não), com base em pontos de corte previamente estabelecidos na literatura ou nas categorias de resposta disponíveis na PNS.
Alimentação
Os marcadores de alimentação saudável avaliados foram o consumo regular de frutas e hortaliças e o consumo regular de feijão, considerando para ambos o consumo em cinco ou mais dias na semana. Os marcadores de alimentação não saudável avaliados foram o consumo regular de refrigerantes e o consumo regular de alimentos doces, referente a cinco ou mais dias da semana, e percepção do consumo excessivo de sal7. A análise da percepção da ingestão de sal pelas pessoas foi feita com base na pergunta “Considerando a comida preparada na hora e os alimentos industrializados, o(a) Sr(a) acha que o seu consumo de sal é”. As categorias de resposta originais foram agrupadas e classificadas como Alto e Adequado/baixo.
Atividade Física
As recomendações de atividade física no lazer foram atingidas quando a soma dos minutos despendidos para a prática de atividades físicas totalizaram 75 minutos ou mais por semana – para atividades vigorosas – ou 150 min ou mais por semana – para atividades físicas leves ou moderadas, categorizadas pela PNS6,7. A prática insuficiente de atividade física foi considerada quando a soma de minutos despendidos em atividades físicas no tempo livre, no deslocamento para o trabalho/escola e na atividade ocupacional não alcançou o equivalente a pelo menos 150 minutos semanais de atividades leves ou moderadas ou pelo menos 75 minutos semanais de atividades vigorosas. O tempo gasto com comportamentos sedentários foi avaliado pelo dispêndio de três ou mais horas diárias do tempo livre vendo televisão, considerado como tempo de tela prolongado.
Consumo de Bebida Alcoólica
Foi considerado consumo habitual de bebidas alcoólicas a ingestão de bebida alcoólica por homens ou mulheres nos últimos 30 dias, independentemente da dose. Para o indicador de consumo abusivo de álcool, os critérios de classificação foram mantidos conforme definidos em cada edição da PNS. Em 2013, consumo abusivo foi considerado como a ingestão, em uma única ocasião, de cinco ou mais doses para homens e quatro ou mais doses para mulheres nos últimos 30 dias6; em 2019, o critério foi padronizado em cinco ou mais doses para ambos os sexos7.
Tabagismo
Foi considerado tabagista o indivíduo que, independentemente da frequência e/ou do número de cigarros, referiu o uso de cigarros ou outros produtos do tabaco, caracterizado por variável binária Sim e Não.
Estado Nutricional
A partir dos dados de peso e altura referidos, foi calculado o Índice de Massa Corporal (IMC) (kg/m2) dos indivíduos para avaliação do estado nutricional. Foram avaliados os indicadores de excesso de peso (IMC ≥ 25 kg/m2) e obesidade (IMC ≥ 30 kg/m2).
Análise dos Dados
Foi realizada análise descritiva com apresentação das prevalências e dos intervalos de confiança de 95% (IC95%) das variáveis sociodemográficas, geográficas e fatores de risco e proteção para DCNT. A prevalência dos indicadores foi descrita para cada ano do inquérito e estratificada por sexo, ocupação profissional, raça/cor da pele e faixa etária.
A comparação dos indicadores foi feita entre os dois anos da pesquisa para avaliar as possíveis mudanças no período, mas também dentro de cada ano da pesquisa para avaliar as possíveis diferenças entre os grupos no mesmo período. Com base na comparação entre os IC95% e da ausência de sobreposição entre os intervalos, foi assumida a diferença significativa, considerando o nível de significância de 5%.
De forma complementar, foi realizada análise de sensibilidade considerando o subgrupo de indivíduos que referiu ter recebido diagnóstico médico de ao menos uma das seguintes DCNT: acidente vascular cerebral, hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus, doença pulmonar obstrutiva crônica e doença renal crônica. Essa etapa foi conduzida considerando que o diagnóstico prévio de uma condição crônica pode levar à modificação de comportamentos relacionados à saúde.
As análises foram feitas utilizando o software Stata SE versão 15 (Statacorp. College Station), no modo de análise de survey que considera a amostragem complexa da PNS.
RESULTADOS
A Tabela 1 apresenta a distribuição das características sociodemográficas da população estudada segundo ano da pesquisa e sexo. Observou-se o predomínio de estudantes do sexo feminino, com idade entre 18 e 23 anos, residentes na região Sudeste e que exerciam alguma ocupação profissional em 2013 e 2019.
Entre os anos, o percentual de estudantes que não atingiam as recomendações para atividade física reduziu (homens: 37,6% para 22,7%; mulheres: 57,7% para 37,3%) e também houve redução no tempo de tela prolongado (homens: 20,2% para 7,5%; mulheres: 23,5% para 9,8%). O consumo regular de refrigerantes reduziu (homens: 27,9% para 12,5%; mulheres: 22,8% para 10,7%), bem como o consumo regular de alimentos doces (homens: 27,1% para 17,6%; mulheres: 33,2% para 20,4%). O consumo regular de frutas e hortaliças aumentou em ambos os sexos (homens: 16,1% para 27,2%; mulheres: 22,6% para 34,0%). O consumo regular de feijão diminuiu de 60,5% para 51,2% entre as mulheres, em contrapartida, a prática de atividade física no lazer aumentou de 28,3% para 37,3% nesse grupo (Tabela 2).
Entre estudantes com ocupação profissional, houve redução expressiva no percentual de indivíduos insuficientemente ativos entre 2013 e 2019, de 53,2% para 29,4% e, no tempo de tela prolongado, de 19,7% para 7,3%. Entre aqueles sem ocupação profissional, a redução no tempo de tela foi de 27,3% para 11,3%. O consumo regular de refrigerantes diminuiu entre estudantes com e sem ocupação profissional (de 24,8% para 12,2% e de 23,9% para 9,2%, respectivamente), sendo mais expressiva entre aqueles sem ocupação. O consumo regular de alimentos doces diminuiu de 31,7% para 19,4% entre estudantes com ocupação e de 30,6% para 19,2% entre os sem ocupação. O consumo regular de frutas e hortaliças aumentou, de 17,3% para 31,6%, entre estudantes que não tinham alguma ocupação e de 20,7% para 31,7% entre aqueles que relataram exercer ocupação profissional. O consumo regular de feijão reduziu entre os estudantes com alguma ocupação, passando de 65,1% para 55,8%. Em contrapartida, a prática de atividade física no lazer aumentou de 32,4% para 42,9% neste grupo (Tabela 3).
Tabagismo, consumo abusivo de álcool e consumo excessivo de sal, assim como as prevalências de excesso de peso e obesidade, não apresentaram variações significativas entre os anos entre sexo e ocupação (Tabelas 2 e 3).
Em relação a raça/cor da pele, observou-se que a prática de atividade física no lazer aumentou entre os estudantes brancos/amarelos, passando de 37,2% para 46,4%, e houve redução no consumo de doces nesse grupo (33,7% para 17,5%). Por outro lado, a redução no consumo de feijão ocorreu apenas entre os estudantes negros/indígenas, com uma diminuição de 69,9% para 57,1%. Os demais indicadores apresentaram prevalências semelhantes entre os grupos no período (Tabela 4).
A redução da prática insuficiente de atividade física foi observada entre todas as faixas etárias analisadas (18–23 anos: de 43,2% para 29,1%; 24–29 anos: de 50,8% para 32,1%; ≥ 30 anos: de 55,9% para 33,3%), assim como o consumo regular de refrigerantes (18–23 anos: de 27,2% para 15,6%; 24–29 anos: de 28,1% para 8,8%; ≥ 30 anos: de 22,4% para 7,0%). O consumo de alimentos doces diminuiu entre 18–23 anos (de 36,5% para 23,0%) e 24–29 anos (de 33,8% para 14,8%), bem como o tempo de televisão (≥ 3h) (18–23 anos: de 24,6% para 5,6%; 24–29 anos: de 25,9% para 11,3%). Houve redução do consumo regular de feijão em 24–29 anos (de 65,4% para 52,2%) e aumento no consumo regular de frutas e hortaliças entre 24–29 anos (de 14,2% para 24,4%) e ≥ 30 anos (de 23,0% para 37,3%) (Tabela 5).
As análises de sensibilidade mostraram resultados semelhantes aos obtidos para o conjunto de estudantes universitários, reforçando a robustez das estimativas e sugerindo que a inclusão de indivíduos com DCNT não influenciou significativamente os achados (resultados não apresentados em tabela).
DISCUSSÃO
Os principais achados deste estudo revelam uma redução significativa da maioria dos indicadores de risco para a ocorrência de DCNT entre estudantes universitários, sobretudo daqueles relativos à alimentação e à atividade física. Entre os indicadores de proteção, observou-se aumento na frequência de consumo de frutas e hortaliças e atividade física no lazer, contudo, tais indicadores apresentam prevalências aquém do desejável. Ademais, as diferenças observadas entre estudantes brancos/amarelos e negros/indígenas evidenciam desigualdades nos padrões de alimentação e atividade física, que podem refletir barreiras estruturais relacionadas ao acesso a ambientes seguros para a prática de atividades físicas e a alimentos saudáveis.
A redução no consumo de refrigerantes e alimentos doces reflete padrões também observados entre adultos brasileiros9,10, indicando um cenário positivo de diminuição no consumo de alimentos não saudáveis. Esse avanço pode refletir os efeitos das políticas públicas voltadas à melhoria das condições de saúde e alimentação da população brasileira, dentre as quais se destacam a Política Nacional de Alimentação e Nutrição11 e o Guia Alimentar para a População Brasileira12. No entanto, o percentual de indivíduos que consome regularmente frutas e hortaliças ainda se refere a menos da metade da população de estudantes, sendo necessário o monitoramento contínuo destes indicadores nesta população.
O consumo regular de feijão, importante marcador do padrão alimentar cultural e saudável da população brasileira, tem se reduzido ao longo dos anos e estima-se que não aumentará até 203013. Esse fenômeno pode ser atribuído tanto ao enfraquecimento na transmissão de habilidades culinárias entre gerações12, quanto ao aumento na compra de alimentos ultraprocessados devido a praticidade que oferecem14. Entre universitários, a redução no consumo regular de feijão entre mulheres e entre estudantes com ocupação profissional, indica que, além das barreiras já conhecidas, a falta de planejamento e limitações econômicas podem ser fatores adicionais que dificultam a adoção de uma alimentação saudável durante o período estudantil15.
Nesse contexto, a presença de restaurantes universitários nos campis é uma estratégia que pode contribuir para a melhoria das condições de alimentação dos estudantes, por constituir um espaço facilitador da adoção de práticas alimentares saudáveis, como apontado por estudo prévio16. Também é essencial considerar o ambiente alimentar universitário, onde há predomínio da oferta e da publicidade de alimentos ultraprocessados, além do alto custo dos alimentos saudáveis – quando disponíveis17.
As estimativas de prática de atividade física no lazer entre estudantes universitários superam as da população adulta no período (22,7% em 2013 e 30,1% em 2019)18. Entretanto, essa prática poderia ser ainda maior considerando os benefícios que as atividades proporcionam à saúde e ao bem-estar. Entre os estudantes com ocupação profissional, o aumento no percentual de atividade física recomendada sugere que, embora o acúmulo de estudo e trabalho possa reduzir o tempo disponível para exercício, o deslocamento ativo para o trabalho poderia contribuir para maior prática de atividade física. Esse aspecto, entretanto, carece de estudos futuros para avaliar seu real impacto em comparação com outras formas de atividade física. Ademais, o trabalho resulta em aumento de renda, podendo favorecer o acesso à locais para a prática de exercícios físicos, como academias.
Apesar da redução no tempo diário assistindo à televisão, é importante destacar que não foram avaliadas as questões sobre o tempo gasto com outras telas, como computador, celular e tablet, o que poderia aumentar o tempo gasto com comportamentos sedentários, conforme relatado em estudos anteriores20,21. O uso de telas para o lazer aliado ao uso do computador para os estudos pode intensificar o comportamento sedentário entre estudantes21, configurando um cenário desafiador para a promoção de ações que visem reduzir esse comportamento nesta população.
Neste estudo, o excesso de peso foi maior entre estudantes homens, com elevação observada nas faixas etárias mais avançadas. Esse padrão é semelhante ao descrito na PNS 2019 para o conjunto de indivíduos estudados, no qual a prevalência de excesso de peso aumenta com a idade, sendo ligeiramente maior no sexo masculino (58,3%) em comparação ao feminino (57,0%)22. Além disso, outro estudo realizado com dados da PNS 2013 e 2019 identificou associação positiva entre escolaridade e obesidade em homens, e associação inversa em mulheres, reforçando que fatores socioeconômicos e educacionais podem influenciar de maneira distinta o estado nutricional entre os sexos, com implicações relevantes para estratégias de saúde pública23.
O consumo de álcool entre estudantes manteve-se elevado entre os anos, superando o da população adulta em geral (13,6% em 2013 e 17,1% em 2019)24. Podem colaborar com esta prática as questões psicológicas como o estresse e a má qualidade do sono, vivenciadas por muitos estudantes durante o período acadêmico25. O consumo excessivo de bebidas alcoólicas por estudantes, já relatado em outro estudo26, indica uma vulnerabilidade deste grupo, que aumenta não só a chance de desenvolvimento de DCNT, mas também de outros riscos, como acidentes de trânsito, atos de violência sob influência do álcool, relação sexual desprotegida e prejuízos no desempenho acadêmico27.
A prevalência do uso do tabaco também se manteve estável no período avaliado, acompanhando a tendência nacional de baixa prevalência de tabagismo, observada após a adoção de medidas regulatórias bem-sucedidas nos últimos anos24. Em contrapartida, o uso de dispositivos eletrônicos para fumar vem aumentando, mesmo com a proibição no país, representando o retorno do tabagismo entre os jovens28. Já é conhecido que o uso destes aparelhos está relacionado a lesões pulmonares e outras modificações orgânicas patológicas29, justificando a necessidade de fortalecimento de ações antitabaco e da Política Nacional de Controle do Tabagismo.
Em suma, o baixo percentual de consumo de frutas e hortaliças, o elevado consumo de álcool entre os estudantes e a redução no consumo de feijão entre os anos sugerem a necessidade de criação e de fortalecimento das ações direcionadas à reversão deste cenário. Embora as DCNT sejam uma das prioridades nas agendas globais e nacionais, as estratégias para redução de fatores de risco propostas de forma isolada parecem não ser suficientes para mudar o cenário de todos os fatores de risco de forma significativa. Assim, ainda que muitas ações em saúde não sejam especificamente voltadas ao ambiente universitário, políticas estruturais como a rotulagem nutricional de alimentos, a tributação de alimentos ultraprocessados, bebidas alcoólicas e tabaco, o incentivo à compra da agricultura familiar e local e a instalação de parques e áreas para prática de atividade física podem influenciar positivamente esse contexto, contribuindo para a melhoria da saúde e da qualidade de vida de estudantes universitários.
Esse estudo possui algumas limitações. Ainda que a PNS seja uma pesquisa de representatividade nacional, não é possível afirmar que este é um estudo representativo de estudantes universitários, uma vez que a pesquisa não foi projetada para representar este grupo e sim indivíduos maiores de 15 anos ou 18 anos, a depender da edição. As informações foram obtidas por meio do autorrelato dos participantes, estando sujeitas a vieses de memória. No entanto, informações autorreferidas são frequentemente adotadas em grandes inquéritos de saúde e têm precisão suficiente neste contexto30. Também não foi possível diferenciar se os estudantes eram provenientes de instituições de ensino superior públicas ou privadas, o turno de estudo e se o curso de graduação acontecia presencialmente ou na modalidade de educação a distância, fatores que podem propiciar a adoção de comportamentos distintos em razão das diferentes demandas da rotina estudantil. Isto se deu em razão da ausência destas informações nos questionários da PNS. Para lidar com essa limitação, mesmo que parcialmente, utilizou-se a estratificação por ocupação profissional, pois estudantes que trabalham podem passar menos tempo na universidade e ter uma rotina diária mais complexa. Os dados utilizados foram coletados em período anterior à pandemia da covid-19, o que deve ser considerado na interpretação dos achados, dado que o cenário pode ter sido alterado. Houve uma alteração na coleta da informação sobre consumo abusivo de álcool pela PNS, que, em 2013, considerou a ingestão em uma única ocasião de cinco ou mais doses para homens e de quatro ou mais doses para mulheres e, em 2019, considerou cinco ou mais doses para ambos os sexos. Logo, o consumo abusivo de mulheres em 2019 pode estar subestimado em relação à estimativa de 2013.
Em contrapartida, destaca-se como potencialidade a avaliação inédita de dados de uma grande amostra de estudantes universitários brasileiros (quase 7.000 indivíduos) e representativa da população de adultos brasileiros distribuídos em todas as regiões do país. Além disso, merece destaque a oportunidade de avaliar a prevalência e a evolução de indicadores de risco para DCNT entre 2013 e 2019, permitindo a identificação de aspectos que poderão ser continuamente monitorados em pesquisas futuras. Isso se faz ainda mais importante devido à ausência de estudos que avaliem a população universitária brasileira. A construção de evidências voltadas para este público é necessária para subsidiar a implementação bem-sucedida de políticas de assistência estudantil, como a Pnaes5 e contribuir para o monitoramento das metas brasileiras de redução dos fatores de risco para DCNT previstas no Plano de DANT3.
Conclui-se que houve melhora do cenário no período estudado, ainda que as prevalências de alguns indicadores de proteção se mantenham baixas.
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Disponibilidade de Dados:
Os microdados da Pesquisa Nacional de Saúde estão disponíveis publicamente, no site oficial do IBGE: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/saude/9160-pesquisa-nacional-de-saude.html?=&t=microdados
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Financiamento:
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (Capes - Código de Financiamento 001). Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ - processo nº E-26/SEI-260003/017405/2022, Bolsa de Mestrado para MECP; processo nº E-26/201.328/2022, Bolsa Jovem Cientista do Nosso Estado para DSC).
Editado por
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Editor Associado:
Marly Augusto Cardoso https://orcid.org/0000-0003-0973-3908
Os microdados da Pesquisa Nacional de Saúde estão disponíveis publicamente, no site oficial do IBGE: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/saude/9160-pesquisa-nacional-de-saude.html?=&t=microdados
