EDITORIAL
Faringotonsilite estreptocócica: necessidade do uso de testes microbiológicos para diagnóstico preciso
Maria Isabel de Moraes-Pinto
Professora Livre Docente do Departamento de Pediatria; Chefe do Laboratório de Pesquisas da Disciplina de Infectologia Pediátrica da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), São Paulo, SP, Brasil
Faringotonsilite aguda é uma infecção comum na faixa etária pediátrica, facilmente reconhecida por meio da anamnese e exame físico. É de etiologia viral, na maioria dos casos, sendo causada pelo estreptococo beta-hemolítico do grupo A (EBHA) somente em 20 a 30% dos quadros que ocorrem em crianças(1,2).
Devido à baixa sensibilidade e especificidade da avaliação clínica no diagnóstico etiológico de infecção pelo EBHA, diversas entidades médicas, tais como a Sociedade Brasileira de Pediatria e a Academia Americana de Pediatria, recomendam atualmente que o diagnóstico de faringotonsilite em pacientes com suspeita clínico-epidemiológica de infecção pelo EBHA seja confirmado por meio do uso de técnicas microbiológicas(3,4).
Esta necessidade é claramente demonstrada em estudo prospectivo publicado neste número da Revista Paulista de Pediatria, por Cardoso et al(5). Avaliando 650 crianças e adolescentes, os autores mostram que o diagnóstico etiológico de faringotonsilite causada pelo EBHA, se baseado unicamente em dados clínicos, tem baixa sensibilidade e especificidade, diferentemente do que acontece com o diagnóstico realizado por meio da prova rápida para pesquisa de EBHA em secreção de orofaringe(5).
Cardoso et al (2012) demonstram que, também em nosso meio, e à semelhança de outro trabalho realizado no Brasil(6), as técnicas microbiológicas têm utilidade para determinar a conduta frente a um caso de faringotonsilite aguda(5). Como se sabe, o tratamento com antibióticos visa à prevenção da febre reumática aguda, de complicações supurativas, como abscesso peritonsilar e linfadenite cervical, além de diminuir o tempo de doença e o período de transmissão para os contatos próximos(4). Por outro lado, o tratamento inapropriado da faringotonsilite aguda com antibióticos é um dos fatores que contribuem para o aumento da incidência de resistência antimicrobiana(7,8).
O estudo de Cardoso et al(5) está sendo publicado no momento em que a Sociedade Americana de Doenças Infecciosas acaba de lançar uma atualização da sua orientação de conduta para o diagnóstico e tratamento de faringite estreptocócica do grupo A, em que se reforça o uso do teste rápido e/ou da cultura de secreção de orofaringe para o correto diagnóstico etiológico da faringotonsilite estreptocócica(9).
Ao comentarem o uso indiscriminado de antibióticos em nossos dias, Gonzáles et al(10) sugerem que isto seja o resultado da falha em colocar uma evidência em prática. No caso da faringotonsilite estreptocócica, as evidências tanto fora do Brasil quanto em nosso meio(5,6) parecem apontar para a necessidade do uso de testes microbiológicos para a realização de um diagnóstico mais preciso.
Recebido em: 19/11/2012
Conflito de interesse: nada a declarar
Referências bibliográficas
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- 3. Nascimento-Carvalho CM, Marques HH. Recomendação do departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria para conduta de crianças e adolescentes com faringoamigdalites agudas. J Pediatr (Rio J) 2006;82:79-80.
- 4. American Academy of Pediatrics. In: Pickering LK, Baker CJ, Kimberlin DW, Long SS, editors. Group A streptococcal infections. Red Book: 2012. Report of the Committee on Infectious Diseases. 29th ed. Elk Groove Village: American Academy of Pediatrics; 2012. p. 668-80.
- 5. Cardoso DM, Gilio AE, Hsin SH, Machado BM, De Paulis M, Lotufo JP et al. Impacto do uso da prova rápida para estreptococo beta hemolítico do grupo A no diagnóstico e tratamento da faringotonsilite aguda em Pronto Socorro de Pediatria. Rev Paul Pediatr 2013;31:4-9.
- 6. dos Santos AG, Berezin EN. Comparative analysis of clinical and laboratory methods for diagnosing streptococcal sore throat. J Pediatr (Rio J) 2005;81:23-8.
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- 9. Shulman ST, Bisno AL, Clegg HW, Gerber MA, Kaplan EL, Lee G et al Clinical practice guideline for the diagnosis and management of group a streptococcal pharyngitis: 2012 update by the infectious diseases society of america. Clin Infect Dis 2012;55:e86-e102.
- 10. Gonzales R, Ackerman S, Handley M. Can Implementation Science help to overcome challenges in translating judicious antibiotic use into practice? Arch Intern Med 2012;172:1471-3.
