RESUMO
Objetivo Foi analisado o papel do nutricionista nas áreas de fitoterapia, alimentos brasileiros com alegações de propriedades funcionais e saúde e compostos bioativos.
Método Revisão narrativa baseada em artigos científicos recentes foi realizada, bem como em resoluções e leis que regulamentam essas práticas. O trabalho foi estruturado em quatro seções. A primeira abordou a atuação do nutricionista na fitoterapia, regulamentações para a prescrição e os cuidados necessários devido à toxicidade de algumas plantas. A segunda explorou conceitos sobre alimentos funcionais, destacando a importância de priorizar alimentos integrais e naturais para reduzir o consumo de ultraprocessados e o risco de doenças crônicas. A terceira enfatizou os alimentos regionais e brasileiros, incluindo as plantas alimentícias não convencionais, e seus compostos bioativos. Por fim, a quarta seção discutiu os efeitos de compostos bioativos na saúde, doenças e atividade física.
Resultados Um conjunto de informações foi organizado, voltado à prática clínica do nutricionista nas áreas mencionadas. Foram abordadas as legislações pertinentes à atuação profissional em fitoterapia, conceitos teóricos, discussões sobre a utilização de compostos isolados em comparação à matriz alimentar, bem como um compilado de alguns bioativos de alimentos brasileiros e suas ações fisiológicas.
Conclusão Diante dos dados apresentados, encontra-se uma vasta oportunidade para explorar dados brasileiros que fortaleçam o entendimento sobre a prática dos nutricionistas nessas áreas, além de incentivar o desenvolvimento de estudos que orientem prescrições seguras pelos profissionais. Com um dos biomas mais ricos do mundo, a diversidade ambiental brasileira pode ser aproveitada para melhorar as condições nutricionais da população.
Palavras-chave
Alimentos, dieta e nutrição; Alimento funcional; Compostos fitoquímicos; Fitoterapia; Nutricionistas
Abstract
Objective This study aims to analyze the role of nutritionists in the fields of phytotherapy, Brazilian foods with claims of functional and health properties, and bioactive compounds.
Method A narrative review was conducted based on recent scientific articles as well as resolutions and laws that regulate these practices. The study was structured into four sections. The first addressed the role of nutritionists in phytotherapy, prescription regulations, and the necessary precautions due to the toxicity of certain plants. The second explored concepts related to functional foods, highlighting the importance of prioritizing whole and natural foods to reduce the consumption of processed items and the risk of chronic diseases. The third emphasized regional and Brazilian foods, including non-conventional food plants and their bioactive compounds. Finally, the fourth section discussed the effects of bioactive compounds on health, diseases, and physical activity.
Results A set of information was organized for nutritionists’ clinical practice in the mentioned areas. A relevant legislation regarding professional activities in phytotherapy, theoretical concepts, discussions on the use of isolated compounds versus the food matrix, and a compilation of key bioactive compounds from Brazilian foods and their physiological actions, were addressed.
Conclusion There is a significant potential to explore Brazilian data that strengthens the understanding of nutritionists’ practices in these fields, in addition to encouraging the development of studies that guide safe prescriptions by professionals. With one of the richest biomes in the world, Brazil’s environmental diversity can be leveraged to further improve the population’s nutritional conditions.
Keywords
Diet, food, and nutrition; Functional food; Nutritionists; Phytochemicals; Phytotherapy
INTRODUÇÃO
No Brasil, o nutricionista ocupa o papel como profissional da área da saúde e coletividade desde o final da década de 1930 [1]. Na mesma época, ocorreu a implementação dos primeiros quatro cursos de graduação em nutrição em universidades do país [2]. Isso aconteceu a partir da necessidade de produção e difusão de estudos e trabalhos abordando a composição química e valor nutricional dos alimentos, caracterização de consumo e hábitos alimentares e estado nutricional dos brasileiros, que iniciou com os médicos alguns anos antes. A formação do nutricionista foi fortalecida em meados da década de 70 por conta da implementação de programas federais de Alimentação e Nutrição e a necessidade da criação de novos cursos. Nesse período, ocorreu uma ampliação e diversificação no mercado de trabalho iniciando a exploração de outros nichos [1-3].
Com o aumento do número de profissionais ao longo dos anos, em 1978 foi criado o Conselho Federal de Nutrição (CFN) por meio da Lei no 6.583, de 20 de outubro de 1978 e regulamentado pelo Decreto nº 84.444, de 30 de janeiro de 1980. Essa entidade tem a missão de contribuir para a garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável, normatizando e disciplinando o exercício profissional do Nutricionista e do Técnico em Nutrição e Dietética, para uma prática pautada na ética e comprometida com a Segurança Alimentar e Nutricional, em benefício da sociedade [4].
Em 2002, em uma análise sobre a história da Nutrição no Brasil, Vasconcelos discorreu sobre algumas conquistas da área, como a sensível ampliação dos campos de atuação profissional alcançado por um processo de especialização ascendente, culminando em um avanço em habilidades técnico-científicas do nutricionista [1]. Atualmente, a profissão encontra-se em crescimento exponencial, permitindo que diversas especificidades fossem exploradas. No segundo semestre de 2023, havia um total de 202.903 nutricionistas registrados nos 11 conselhos regionais do país, representando um aumento de aproximadamente 94% de registros em relação a 2014 [5]. As seis grandes áreas de atuação da Nutrição são classificadas em: Nutrição em Alimentação Coletiva, Nutrição Clínica, Nutrição em Esportes e Exercício Físico, Nutrição na Cadeia de Produção, na Indústria e no Comércio de Alimentos e Nutrição no Ensino, na Pesquisa e na Extensão [6]. Um levantamento realizado pelo CFN em 2016 indicou que os nichos de trabalho do nutricionista se aplicam em: alimentação coletiva (30,8%), nutrição clínica (30,4%), saúde coletiva (17,7%), docência (11,4%), indústria (2,6%), nutrição esportiva (2,5%), marketing (1,3%) e outros (3,3%) [7].
Em relação ao reconhecimento de especialidades pelo sistema CFN/CRN (Conselho Regional de Nutrição), a regulamentação para as áreas de Nutrição e Fitoterapia, e Nutrição e Alimentos Funcionais aconteceu em 2021 [8,9]. Sendo assim, a fitoterapia, os alimentos funcionais e os compostos bioativos têm ganhado cada vez mais destaque nas estratégias nutricionais, devido aos seus potenciais benefícios fisiológicos. A fitoterapia utiliza plantas medicinais para tratar e prevenir doenças, enquanto os alimentos com alegações de propriedades funcionais e saúde e os compostos bioativos oferecem, além de seu valor nutricional, efeitos positivos para a saúde [10,11].
Tais fatos e a alta adesão profissional a área da Nutrição Clínica mostram a popularização do trabalho nutricional e um interesse entre as pessoas em ter acesso a um serviço focado na sua alimentação para buscar mais saúde, tratamento de doenças, performance esportiva, entre outros motivos. Sendo assim, a expansão do mercado de trabalho contribuiu para mais estudos, a solidez da profissão e a explorar novos segmentos, abrindo caminho para a utilização de diversas estratégias nutricionais como, por exemplo, a fitoterapia e a prescrição de alimentos com propriedades funcionais e compostos bioativos [8,9]. Entretanto, os levantamentos do número de profissionais trabalhando nessas especialidades ainda são escassos devido ao curto período de tempo de regularização do exercício dessas funções no Brasil.
Por meio da exploração de resoluções e leis e uma busca bibliográfica de trabalhos publicados, este artigo caracterizado como uma revisão narrativa tem como objetivo analisar a atuação do nutricionista na prescrição de fitoterápicos e na área de Nutrição e Alimentos Funcionais, e sintetizar os alimentos brasileiros com alegações de propriedades funcionais e saúde, seus respectivos compostos bioativos e as suas ações fisiológicas que podem se encaixar em condutas nutricionais.
MÉTODOS
Trata-se de uma revisão narrativa, a qual foi composta por quatro seções: 1) atuação do nutricionista na área de fitoterapia; 2) atuação do nutricionista com alimentos com alegações de propriedades funcionais e saúde e compostos bioativos; 3) alimentos brasileiros e regionais e seus compostos bioativos para a prescrição do nutricionista; 4) efeitos dos compostos bioativos na saúde, doença e atividade física.
Para as seções 1, 2 e 3 foram realizadas buscas bibliográficas relacionadas à temática em websites e legislações pertinentes da Organização Mundial da Saúde (https://www.who.int/), Ministério da Saúde (https://www.gov.br/saude/pt-br e https://bvsms.saude.gov.br/), e Conselho Federal de Nutrição (https://www.cfn.org.br/). Para tal, foram utilizados termos de busca como “fitoterapia”, “fitoterápicos”, “propriedade funcional”, “substâncias bioativas” e “compostos bioativos”, além dos sinônimos e palavras-chave relacionados. Foram excluídas as informações duplicadas e considerados para o trabalho os principais conceitos e marcos históricos relacionados às temáticas em questão, sendo devidamente contextualizados e referenciados ao longo das seções.
Dentro desta seção, algumas Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) foram descritas através de buscas nas bases de dados PubMed, Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Scopus com os seguintes termos encontrados em leituras preliminares: taioba OR “Xanthosoma sagittifolium”; beldroega OR “Portulaca oleracea”; bertalha OR “Basella alba”; baru OR “Dipteryx alata”. Os estudos priorizados foram os de intervenção e revisões sistemáticas e narrativas mais atuais, com período dos cinco anos anteriores. Foram descritos os compostos bioativos e os indícios de benefícios à saúde.
Para a seção 4, a pesquisa foi conduzida nas bases de dados PubMed, SciELO, e Scopus. A busca foi realizada com restrição de período de cinco anos, e abrangeu publicações até o momento da coleta de dados. Para identificar os estudos relevantes, foram identificados os compostos bioativos de alimentos brasileiros por meio dos seguintes termos de busca: “abacaxi OR “Ananas comosus”; açaí OR “Euterpe oleracea”; atemoia ”Annona Atemoya”; avocado “Persea americana”; cacau “Theobroma cacao”; camu-camu “Myrciaria dubia McVaugh”; goiaba “Psidium guajava”; guaraná “Paullinia cupana”; juçara “Euterpe edulis”; mangaba “Hancornia speciosa”; pequi “Caryocar brasiliense”, bem como sinônimos e palavras-chave sobre a temática. Na sequência, com base na listagem de compostos bioativos identificados, cada substância bioativa foi utilizada como termo de busca para a investigação sobre as propriedades funcionais. As estratégias de busca foram ajustadas conforme a especificidade de cada base de dados. Para inclusão no estudo, deu-se preferência para revisões sistemáticas (com ou sem meta-análise) sobre os efeitos dos compostos bioativos na saúde, doença e atividade física, sendo utilizados os filtros destes delineamentos de estudos nas bases de dados mencionadas.
A partir da devida identificação dos compostos bioativos e mecanismos de ação, foram estruturadas tabelas no Microsoft Office Word® (v. 2019) contendo as informações mais relevantes para o estudo, sendo: nome popular e científico do alimento, regiões do Brasil onde são mais frequentemente encontrados, compostos bioativos presentes nos respectivos alimentos e efeitos na saúde. Os efeitos na saúde citados foram extraídos das seções de resultados e conclusões dos artigos científicos identificados.
Atuação do nutricionista na área de fitoterapia
A fitoterapia é considerada uma terapêutica caracterizada pelo uso de plantas medicinais em suas diferentes formas farmacêuticas, sem o uso de substâncias isoladas. O uso mais tradicional geralmente preserva a composição original e integridade da planta de origem, podendo ser usada inteira ou partes minimamente processadas, como folhas, flores, rizomas, dentre outras [10,12]. Também é comum a utilização de plantas medicinais como medicamentos fitoterápicos, produtos tradicionais fitoterápicos e preparações magistrais de fitoterápicos, nos quais incluem-se extratos, tinturas, óleos, dentre outros. No Brasil, para que um medicamento seja considerado fitoterápico, este não deve ter em sua composição apenas a presença de substâncias ativas isoladas, mesmo que de origem vegetal. As substâncias bioativas isoladas de plantas comestíveis são classificadas como suplemento alimentar e aquelas originadas de plantas não comestíveis são consideradas como fitofármacos e ambas possuem uma legislação diferente [11-14].
Embora as legislações que regulamentam a prática da fitoterapia no Brasil tenham surgido nas duas últimas décadas, o uso de plantas medicinais com finalidade terapêutica é muito antigo. É possível encontrar relatos de uso de plantas terapêuticas por civilizações antigas há milhares de anos, como na Medicina Tradicional Chinesa ou na Ayurveda. Esse uso sempre esteve muito presente nas populações de diferentes regiões do planeta, muitas vezes cercado de conhecimentos de sabedoria popular. Porém, atualmente, é crescente o número de publicações científicas na área da fitoterapia e o interesse da indústria também acompanha esse crescimento, com projeções de que esse mercado movimente bilhões de dólares globalmente no ano de 2024 [10,13,15,16].
A utilização de plantas medicinais no Brasil se torna pertinente devido à grande diversidade vegetal e ao baixo custo dessa terapêutica. Esse interesse cresceu a partir de 2006, quando o Ministério da Saúde publicou a Portaria nº 971, incluindo o uso de plantas medicinais e da fitoterapia como prática da assistência à saúde no Sistema Único de Saúde (SUS), através da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares à Saúde. Ainda em 2006, o governo brasileiro aprovou a Política e o Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, com o objetivo de garantir à população brasileira o acesso seguro e o uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos, seguindo o que foi recomendado pela Organização Mundial de Saúde [10,16-18].
Para os nutricionistas, a primeira regulamentação veio em 2007, com a Resolução do Conselho Federal de Nutrição (CFN) nº 402, que regulamentou a prescrição fitoterápica pelo nutricionista, assegurando o direito de poder incluir os fitoterápicos em suas prescrições dietéticas [19]. Essa legislação sofreu atualizações em 2013, 2015 e 2021 e, desde essas mudanças na resolução iniciadas em 2013, a prescrição de fitoterápicos e preparações magistrais fitoterápicas passou a ser permitida apenas por nutricionistas considerados habilitados para essa indicação [20-22].
Atualmente, a Resolução do CFN nº 680 de 2021 informa que a prescrição de plantas medicinais in natura e drogas vegetais, na forma de infusão, decocção e maceração em água, é permitida a todos os nutricionistas, ainda que sem habilitação em fitoterapia. Porém, a prescrição de qualquer outra substância, ou seja, de drogas vegetais ou derivados vegetais em formas farmacêuticas, de medicamentos fitoterápicos, de produtos tradicionais fitoterápicos e de preparações magistrais de fitoterápicos, é permitida somente aos nutricionistas habilitados em fitoterapia, com registro no seu respectivo conselho regional. Para essa habilitação, o nutricionista precisa ter um certificado de pós-graduação lato sensu em fitoterapia, em instituição credenciada pelo Ministério da Educação e com no mínimo 200 horas de disciplinas de fitoterapia na grade curricular, ou então um título de especialista em fitoterapia, como, por exemplo, o título emitido por prova pela Associação Brasileira de Nutrição. Uma vez que o profissional nutricionista possua esse certificado, ele precisa registrá-lo junto ao CFN e a autorização é emitida, tornando-o habilitado para a prescrição de fitoterápicos [22].
Dados recentes mostram que existem em torno de 1550 nutricionistas no Brasil que estão habilitados em fitoterapia, dados obtidos em consulta realizada no mês de abril de 2024 junto ao CFN. A Associação Brasileira de Nutrição, responsável por fornecer o título de especialista em Fitoterapia, informa que um pouco mais de 100 nutricionistas receberam o título até abril de 2024. Esse baixo número de nutricionistas habilitados chama a atenção, uma vez que a fitoterapia é uma área de especialidade dentro da nutrição e também é estudada e utilizada em outras áreas, com aplicações em nutrição clínica, esportiva, gerontologia, gastroenterologia, estética, dentre outras. O número de habilitados é pequeno diante do número grande de instituições acadêmicas que oferecem pós-graduação lato sensu em fitoterapia e um dos motivos pode ser o desconhecimento da legislação, especialmente no que diz respeito ao registro do certificado no CFN [9,22].
A lista de plantas disponíveis para prescrição pelos nutricionistas é muito extensa e envolve plantas brasileiras e de outros países, desde que autorizadas para comercialização no Brasil [12]. Para produtos industrializados, a indústria farmacêutica pode usar apenas plantas registradas ou notificadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), porém os prescritores ainda têm a possibilidade de indicar fitoterápicos em farmácias de manipulação, que possuem uma quantidade de ativos ainda maior do que é usada pela indústria. O Ministério da Saúde no Brasil apresenta uma relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS, que contém atualmente 71 espécies [23]. Nessa lista encontram-se plantas comumente prescritas pelos nutricionistas, como, por exemplo, a Curcuma longa, conhecida por suas propriedades anti-inflamatórias e estudada em diferentes áreas que vão desde tratamento de síndrome metabólica até recuperação muscular no exercício [24,25]. Outras plantas bastante prescritas pelos nutricionistas são: Camellia sinensis, Zingiber officinale, Matricaria recutita, Melissa officinalis, Pimpinella anisum, Peumus boldus, Casearia sylvestri, Allium sativum, Paullinia cupana, Ilex paraguariensis, dentre outras. Ressalta-se que é importante que essa prescrição seja embasada por estudos científicos na área. Alguns fitoterápicos são pouco estudados, o que requer cuidado na prescrição, e, embora algumas plantas sejam comumente estudadas, os estudos podem ser insuficientes, o que limita a prescrição [15].
Destaca-se que o uso clínico dos fitoterápicos pelos nutricionistas necessita de atenção. Na população em geral, existe culturalmente a ideia de que o uso de plantas medicinais não oferece riscos à saúde. Porém, o uso de fitoterápicos precisa ser embasado cientificamente e prescrito de forma individualizada [10]. A utilização indiscriminada da fitoterapia pode comprometer o funcionamento de órgãos importantes, como fígado, rins, coração, dentre outros [26-28]. Os estudos de toxicidade demonstram que algumas plantas medicinais, quando usadas em doses erradas ou por longos períodos, podem estar associadas a efeitos colaterais e sobrecarga de órgãos. Para o profissional nutricionista que deseja prescrever fitoterápicos em sua prática clínica, é necessário o entendimento de que uma planta medicinal deve ser indicada de forma ética e responsável, definindo o momento de início e término do uso, doses individualizadas e com atenção a possíveis interações entre a planta e nutrientes, alimentos ou medicamentos usados pelos pacientes [10,27,29,30]. É importante salientar que, pelo fato de algumas plantas possuírem poucos estudos científicos, especialmente pesquisas de interação com outras substâncias ou plantas, o cuidado com a individualização dessa prescrição deve ser reforçado, o que inclui o uso em algumas populações específicas, como por exemplo gestantes, lactantes e crianças [10,31]. A legislação vigente em fitoterapia e o Código de Ética da profissão reforçam que o nutricionista é responsável por aquilo que ele prescreve e, portanto, a indicação de um fitoterápico na sua prática clínica precisa ser ética, embasada cientificamente e realizada quando houver benefícios ao paciente, sem oferecer riscos.
Atuação do nutricionista com alimentos com alegações de propriedades funcionais e saúde e compostos bioativos
O padrão alimentar ocidental atual está associado ao aumento da incidência de diversas doenças, incluindo obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e câncer. Nesse cenário, adotar uma alimentação reduzida em alimentos processados e com a maior oferta de alimentos naturais pode ocasionar efeitos positivos à saúde e reduzir o risco de doenças crônicas [32].
Com a busca de uma alimentação mais natural e um consumo menor de produtos ultrapro-cessados, os alimentos com propriedades funcionais se destacam por conterem características antioxidantes e anti-inflamatórias que podem melhorar distúrbios metabólicos [33]. Esses alimentos são caracterizados por fornecerem efeitos fisiológicos benéficos à saúde quando consumidos regularmente como parte da dieta habitual [33]. Podem ser naturais ou industriais, quando elaborados de modo a prover benefícios específicos além das necessidades nutricionais básicas [33-35].
No Brasil, a legislação não conceitua o termo alimento funcional. De acordo com a portaria nº 398 de 30 de abril de 1999, a ANVISA define alegação de propriedade funcional e alegação de propriedade de saúde para esse tipo de alimentos [36]. Esses domínios necessitam ser plenamente reconhecidos por evidências científicas para cada alimento ou produto que comprovem suas ações [37]. Os produtos industrializados devem ser formulados a partir da combinação de produtos comestíveis ou alimentos naturais ricos em nutrientes como fibras alimentares, fitoquímicos, antioxidantes, probióticos, compostos bioativos, entre outros, que exercem um efeito benéfico no organismo [35,37]. Além disso, é necessário que sejam registrados pela ANVISA, seguros para consumo humano e possuam características tecnológicas que permitam sua inclusão na dieta habitual de forma eficaz [36,37].
De acordo com o CFN, a especialidade “Nutrição e Alimentos Funcionais” é reconhecida no Brasil, permitindo ao profissional aprofundar seus conhecimentos sobre as características dos alimentos com propriedades funcionais e aplicar na prática clínica [9]. Diante disso, o nutricionista tem em mãos importantes ferramentas de prescrição nutricional tanto no planejamento dietoterápico, como em programas de educação nutricional para contribuir com a saúde da população.
Em relação aos compostos bioativos, a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC nº 243/18) da ANVISA define substância bioativa como nutriente ou não nutriente normalmente consumido como componente de um alimento, que exerce ação metabólica ou fisiológica específica no organismo humano [14]. As substâncias bioativas podem incluir: macronutrientes (carboidratos, lipídios e proteínas), micronutrientes (vitaminas e minerais), fitonutrientes (terpenos, alcaloides, fenólicos e compostos organossulfurados) e reguladores do microbioma intestinal (probióticos, prebióticos, simbióticos e pós-bióticos) [38], que possuem propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias, anticancerígenas, antibacterianas, antivirais e neuroprotetoras [39,40]. Uma dieta bem balanceada contendo uma variedade de grãos, vegetais, legumes e frutas fornece micronutrientes suficientes para a saúde [38].
O nutricionista, por sua vez, tem a permissão de prescrever compostos bioativos aprovados pela ANVISA, de acordo com a Resolução RDC nº 2, de 7 de janeiro de 2002 [41]. Entretanto, um fator importante a ser avaliado nas estratégias nutricionais é sobre a escolha entre a prescrição dos compostos ativos isolados e o alimento íntegro para consumo, considerando a matriz alimentar como estratégia nutricional. A matriz alimentar se refere não somente aos componentes químicos e físicos dos alimentos, mas também às suas relações moleculares que afetam como o alimento é digerido e metabolizado [42]. Dessa forma, considerá-la como opção de escolha nas atuações nutricionais garante que o alimento terá funcionalidades e mecanismos de ação que são diferentes daquelas exibidas pelos componentes isolados. A bioconversão, a bioatividade e a bioeficácia estão relacionadas com as transformações bioquímicas dos componentes alimentares liberados em conjunto da matriz alimentar e com as respostas fisiológicas e de saúde específicas no corpo [43].
Assim, o consumo dos alimentos na sua forma íntegra deve ser estimulado, visto que são ricos em nutrientes e compostos bioativos com reconhecidos efeitos à saúde, contribuindo para uma alimentação mais diversa e natural, reduzindo o risco de desenvolvimento de doenças crônicas a longo prazo [42].
Alimentos brasileiros e regionais e seus compostos bioativos para a prescrição do nutricionista
A biodiversidade do Brasil abriga 20% do total mundial e tem um dos biomas mais ricos do mundo, incluindo a Mata Atlântica, grande parte da Floresta Amazônica, o Cerrado, a Caatinga, o Pantanal e o Pampa [44-46]. Em 2022, dados da Food and Agriculture Organization mostraram que o Brasil estava entre os 10 maiores produtores de frutas tropicais (5º lugar) [47] e nos últimos anos tem crescido o número de pesquisas sobre o potencial das espécies frutíferas nativas brasileiras. Algumas espécies frutíferas nativas brasileiras, sua composição bioativa e seus benefícios à saúde estão listados na Tabela 1.
Compostos bioativos e benefícios à saúde de algumas frutas brasileiras e regionais. Florianópolis (SC), Brasil, 2025.
Outros vegetais ricos em compostos bioativos, fontes de comida sustentável e encontrados com variedade no Brasil são as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) que não fazem parte do conjunto de plantas comumente consumidos, que por muitas vezes não estão inseridas na cultura do indivíduo por desconhecimento ou não. Incluem frutas, folhas, raízes, sementes, caules e/ou flores de espécies que crescem espontaneamente na natureza e são fontes alimentares acessíveis, sustentáveis, de alto valor nutricional, e compostos bioativos [67].
A utilização de PANCs na alimentação pode incentivar a diversificação cultural, especialmente na agricultura familiar, pois fazem parte da tradição de muitas comunidades. O seu cultivo e consumo valoriza e preserva as tradições alimentares, diversifica a oferta alimentar, reduz a dependência de culturas convencionais, fortalece a segurança alimentar e nutricional e garante o direito humano à alimentação adequada e saudável. Por conta desses fatores, as PANCs são estimuladas a fazerem parte de soluções inovadoras para alternativas ricas em nutrientes, agricultura sustentável e tecnologias industriais avançadas, explorando as suas propriedades benéficas para o desenvolvimento de produtos alimentares mais seguros. Este tema enquadra-se na Agenda de Desenvolvimento Sustentável 2030, impulsionado por fatores sociais, econômicos e ambientais, para eliminar a fome mundial e pobreza [67,68].
Na Tabela 2 são mostradas algumas PANCs brasileiras e seus compostos bioativos, seus indícios de benefícios à saúde, estruturada de acordo com os achados em estudos de intervenção e revisões mais atuais.
Características de quatro Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) brasileiras e efeitos na saúde. Florianópolis (SC), Brasil, 2025.
Efeitos dos compostos bioativos na saúde, doença e atividade física
Conforme demonstrado na Tabela 1, os compostos bioativos das frutas brasileiras apresentam diversos efeitos benéficos à saúde humana. Dentre esses efeitos destacam-se as atividades antiglicêmica, anticarcinogênica e quimiopreventiva, atividade antioxidante e redução do estresse oxidativo. Alguns compostos bioativos específicos, como a Persea americana, demonstram melhora nos parâmetros do perfil lipídico, o que pode potencialmente contribuir para a redução da incidência de doenças cardiovasculares [53,54; outros compostos, por sua vez, atuam mais diretamente na supressão de sintomas, como dor (Ananas comosus), diarreia, gengivite e úlceras orais (Psidium guajava), o que pode ser útil na prática clínica [49,50,58-61]. Atividades antimicrobiana e anti-inflamatória são identificadas no uso de algumas substâncias (como Annona Atemoya, Euterpe edulis e Hancornia speciosa, por exemplo), que podem ter relevância clínica na dietoterapia para diversas patologias [51,52,63-65].
Em relação aos compostos bioativos sem efeitos comprovados, o que se encontra na literatura são alguns estudos iniciais que revelam resultados interessantes. A Copaifera langsdorffii, por exemplo, parece ter um efeito dentário benéfico no contexto da pulpotomia de dentes decíduos em crianças [76]. Em um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo envolvendo pacientes com diabetes mellitus tipo 2, a administração de uma mistura de ervas contendo Guazuma ulmifolia, além de Tecoma stans, mostrou redução na circunferência da cintura, glicemia de jejum e HbA1c no grupo intervenção, o que parece ser benéfico para melhorar o controle glicêmico [77]. Efeitos metabólicos desejáveis também parecem ser obtidos por meio do consumo do suco de jabuticaba (Myrciaria jaboticaba) devido ao seu alto teor de polifenóis, como a diminuição de espécies reativas de oxigênio após a execução de exercício excêntrico, causando uma proteção das funções macro e microvasculares sob condições de desequilíbrio na homeostase redox [78].
No entanto, ainda são poucos os estudos que compilam os principais efeitos dos compostos bioativos das frutas brasileiras e regionais, principalmente no contexto da atividade física, o que reflete a necessidade de avanço nas investigações clínicas desses compostos. Ao ampliar a compreensão do impacto fisiológico dos compostos bioativos, novas possibilidades podem ser delineadas para melhorar a saúde e o desempenho humano, contribuindo assim para o avanço do conhecimento científico e das iniciativas de saúde pública.
CONCLUSÃO
De acordo com os achados deste estudo, a integração das áreas de fitoterapia, de alimentos com alegações de propriedades funcionais e saúde e de compostos bioativos à prática nutricional representa um avanço na promoção da saúde e na prevenção de doenças. Contudo, por se tratar de uma revisão narrativa, o mesmo apresenta como limitação a subjetividade inerente a esse método, decorrente da ausência de critérios sistemáticos rigorosos. Essa característica pode introduzir vieses tanto na seleção quanto na interpretação dos trabalhos analisados, uma vez que tais processos dependem diretamente dos autores, o que pode comprometer a reprodutibilidade dos resultados.
Cabe destacar também, que o fortalecimento das evidências científicas sobre as temáticas solidificará a área de atuação do nutricionista, o que favorecerá o reconhecimento profissional, trazendo maiores investigações sobre quem são e como atuam os especialistas. É essencial um mapeamento robusto de dados nacionais que revele o cenário de atuação dos nutricionistas nessas áreas estratégicas, ampliando ainda mais o alcance e a eficácia das práticas.
A expansão dos estudos sobre as propriedades terapêuticas dos alimentos tem enriquecido profundamente o entendimento científico e ampliado as estratégias nutricionais disponíveis. Esse avanço reflete-se na prática clínica, onde a prescrição de dietas personalizadas — com foco na matriz alimentar como fonte de compostos bioativos e de propriedades funcionais e suplementos alimentares quando necessário — tem demonstrado resultados expressivos. Além disso, contribui significativamente para a educação e pesquisa, estabelecendo uma base sólida para inovações e descobertas futuras. Investimentos contínuos em pesquisa e capacitação são essenciais para garantir a segurança nas prescrições dos nutricionistas e explorar plenamente os imensos benefícios dos recursos naturais brasileiros.
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Como citar esse artigo: Vieira LC, Souza JS, Copetti CLK, Souza MLR, Baptistella ABP, Di Pietro PF. Atuação do nutricionista em fitoterapia, alimentos com alegações de propriedades funcionais e saúde e compostos bioativos. Rev Nutr. 2025;38:e240109. https://doi.org/10.1590/1678-9865202538e240109pt
REFERÊNCIAS
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Editado por
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Editor
Francisco de Assis Guedes de Vasconcelos
