Open-access Tempo excessivo diante da televisão e sua influência sobre o consumo alimentar de adolescentes

Excessive television-viewing time and its influence on adolescent food intake

RESUMO

Objetivo  Investigar a associação entre o tempo diante da televisão e o consumo alimentar de adolescentes.

Métodos  Trata-se de estudo transversal com 815 adolescentes de ambos os sexos, de escolas públicas de Piracicaba, São Paulo. Foram obtidos dados sociodemográficos e antropométricos, bem como sobre o tempo despendido em frente à televisão e o consumo alimentar habitual. Este último foi obtido mediante aplicação do Questionário de Frequência Alimentar, avaliando-se a adequação do consumo (porções/dia) de sete grupos alimentares conforme recomendação do Guia Alimentar Brasileiro. O tempo de televisão foi obtido a partir do total de horas diárias dedicadas a assistir à televisão, sendo classificadas duas categorias: <2 horas/dia e >2 horas/dia. Utilizou-se o teste t de Student para avaliar a diferença de médias entre as variáveis contínuas. A relação entre variáveis independentes e tempo de televisão foi testada pela regressão de Poisson.

Resultados  Os adolescentes que permanecem mais tempo em frente à televisão consumiram mais leite e derivados (p=0,03), açúcares e doces (p=0,01) e refrigerante (p=0,02). Observou-se que o baixo consumo de frutas, assim como o consumo excessivo de doces, açúcares e refrigerantes e a menor idade, estavam associados ao maior tempo de televisão. Na análise multivariável, hábitos alimentares não saudáveis, como a baixa ingestão de frutas (p=0,014) e o consumo elevado de doces e açúcares (p=0,041), permaneceram independentemente associados ao tempo de televisão.

Conclusão  O tempo excessivo em frente à televisão se associou a hábitos alimentares inadequados. Os adolescentes que permanecem tempo excessivo em frente à televisão devem ser incentivados a adotar uma prática alimentar mais saudável, já que a alimentação inadequada e o sedentarismo, sobretudo em associação, aumentam o risco de doenças crônicas ainda na adolescência.

Palavras-chave:
Adolescente; Comportamento; Consumo de alimentos; Obesidade; Televisão.

ABSTRACT

Objective  To investigate the association between television-viewing time and adolescent food intake.

Methods  This cross-sectional study included 815 male and female adolescents from public schools in Piracicaba, São Paulo. The following data were collected: sociodemographic and anthropometric data, television-viewing time, and habitual food intake. The latter was obtained by a food frequency questionnaire to assess the intake adequacy (servings/day) of seven food groups according to the Brazilian Food Guide. Television-viewing time regarded the total number of hours per day dedicated to watching television, which was then classified into two categories: £2 hours/day and >2 hours/day. The Student's t test measured the difference between the means of the continuous variables. The relationship between the independent variables and television-viewing time was tested by Poisson regression.

Results  Adolescents with higher television-viewing time consumed more milk and dairy products (p=0.03), sugars and sweets (p=0.01), and soda (p=0.02). Low fruit intake, high sweet, sugar, and soda intakes, and lower age were associated with higher television-viewing time. In multivariate analysis unhealthy food habits, such as low fruit intake (p=0.014) and high sugar and sweet intakes (p=0.041), remained independently associated with television-viewing time.

Conclusion  High television-viewing time was associated with poor eating habits. Adolescents with high television-viewing time should be encouraged to make healthier food choices, since poor eating habits and physical inactivity increase the risk of chronic diseases already during adolescence, especially when combined.

Keywords:
Adolescent; Behavior; Food intake; Obesity; Television.

INTRODUÇÃO

O maior tempo dedicado a atividades de baixa intensidade, como assistir à televisão, jogar videogame e usar o computador, é reconhecido como um fator de risco para a obesidade entre crianças e adolescentes1,2.

Alguns mecanismos têm sido propostos na tentativa de explicar como a Televisão (TV) influen-cia o ganho de peso. Nesse contexto, a redução do gasto energético pode ser destacada, tendo em vista que se trata de uma atividade sedentária, que, além disso, reduz o tempo dedicado a outras atividades físicas ativas. Outro mecanismo é o efeito que a televisão exerce sobre o consumo alimentar3.

Nos Estados Unidos, as crianças perma-necem mais tempo assistindo à televisão do que engajadas em qualquer outro tipo de atividade, exceto dormir4. Crianças e adolescentes com ida-de entre 2 e 17 anos assistem em média a 22 ho-ras de televisão por semana5. No Brasil, alguns estudos também têm revelado um tempo exces-sivo de exposição à TV entre os adolescentes6,7. Durante o tempo dedicado a assistir televisão, os adolescentes não apenas reduzem seu gasto ener-gético8, mas são expostos a inúmeros comerciais e anúncios que podem influenciar suas prefe-rências alimentares e seu consumo em curto prazo2,9.

No Brasil, assim como em outros países, a maioria dos comerciais veiculados na televisão aberta é relacionada aos alimentos ricos em açú-car, gordura e sal. Uma análise das propagandas veiculadas por meio das três principais emissoras de televisão brasileira que detinham, em 2001, 90% da audiência, mostrou que 44% das propa-gandas de alimentos voltadas ao público infantil eram de alimentos ricos em açúcar e gordura10.

Estudos comprovam que o hábito de as-sistir à TV está associado à adoção de padrão ali-mentar não saudável entre crianças e adolescen-tes, incluindo o consumo de alimentos industriali-zados com elevado teor de sódio, açúcar e gor-dura, além do baixo consumo de frutas, legumes e verduras11-14.

Os resultados sugerem que, ainda que a TV seja um importante meio para a difusão de informação, ela é capaz de exercer uma influência negativa sobre as escolhas alimentares de jovens.

Nesse sentido, o objetivo deste estudo foi investigar a associação entre o tempo de TV e o consumo alimentar de adolescentes escolares.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo transversal, vincu-lado ao projeto intitulado "Determinantes do risco de obesidade entre adolescentes a partir de inqué-rito de escolares com amostra mista: transversal e longitudinal". Foram entrevistados 815 adoles-centes de ambos os sexos, com idade entre 10 e 19 anos, selecionados probabilisticamente em escolas públicas de Piracicaba (SP). Para o cálculo da amostra do projeto original, foi considerado o universo de escolas públicas do município, distri-buídas em 6 regiões, incluindo as áreas rurais. Foram sorteadas 33 escolas, porém somente 27 autorizaram a realização da pesquisa. A amostra de cada unidade escolar foi porporcional ao número de alunos matriculados. O sorteio dos alu-nos dentro de cada classe foi aleatório, com início sistemático. Considerou-se prevalência de excesso de peso de 21%, com base em estudos com po-pulação semelhante15, erro tipo 1 de 5% e erro tipo 2 de 10%. No total, 1.908 alunos receberam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), porém somente 842 devolveram o do-cumento assinado. Destes, 27 não integraram a amostra por não participar da entrevista ou por falta de dados. Pesquisadores treinados realizaram as entrevistas, usando um questionário estrutu-rado com perguntas sobre os aspectos sociode-mográficos, consumo alimentar habitual, estilo de vida e maturação sexual. Ao final da entrevista, procedeu-se a uma avaliação clínica que incluiu medidas antropométricas (peso corporal, estatura e circunferência da cintura).

O projeto ao qual o presente estudo está vinculado foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo sob o registro 02546612.5.0000.5421. Participaram do estudo somente os adolescentes que devolveram o TCLE assinado pelos pais ou responsáveis.

O peso foi aferido em balança eletrônica calibrada, do tipo plataforma e com precisão de 100 g. A altura foi medida em estadiômetro portátil com precisão de 1 mm. A circunferência da cintura foi obtida no ponto médio entre o último arco costal e a crista ilíaca, com fita métrica flexível e inelástica, sem comprimir os tecidos16. Todas as demais medidas antropométricas seguiram os procedimentos preconizados por Lohman et al.17 e foram realizadas em duplicata, sendo utilizadas as médias dos valores. Nos casos em que a diferença entre as medidas era superior a 0,3 cm, realizou-se uma nova aferição e des-cartou-se a medida mais discrepante. O estado nutricional dos adolescentes foi avaliado a partir do Índice de Massa Corporal (IMC) [(IMC=peso (kg)/altura2(m))] e classificado segundo as curvas de referência da Organização Mundial da Saúde18. Foram calculados os valores de escores-Z de IMC para idade, utilizando-se os seguintes pontos de corte: ³ escore-Z -2 e ? escore-Z +1 para eutrofia; > escore-Z +1 e ? escore-Z +2 para sobrepeso; e > escore-Z +2 para obesidade. Em seguida os adolescentes foram categorizados em eutróficos e com excesso de peso (sobrepeso + obeso). A adiposidade abdominal foi obtida a partir da circunferência da cintura. O ponto de corte utili-zado para a classificação da circunferência da cintura foi o recomendado por Taylor et al.16, que definem obesidade abdominal como circun-ferência da cintura ³ percentil 80, ajustado para idade e sexo.

O consumo habitual foi avaliado por meio de um Questionário Semiquantitativo de Fre-quência Alimentar Simplificado para Adolescentes (QFASA). O questionário original (expandido) foi validado por grupos alimentares19, apresentando resultados satisfatórios. O QFASA inclui perguntas relativas à frequência usual de consumo de 58 itens alimentares referente a um período de três meses. Os adolescentes foram solicitados a indicar com que frequência consumiam cada um dos itens alimentares de acordo com sete categorias de frequência, variando de nunca a mais de duas vezes por dia. As porções apresentadas no QFASA representam o consumo médio, em gramas, de cada alimento. Os itens alimentares presentes no questionário foram classificados em sete grupos de interesse. Os grupos alimentares utilizados para esta análise, com o seu consumo recomendado segundo o Guia Alimentar para População Bra-sileira20, foram os seguintes: verduras e legumes (³3 porções diárias); frutas (³3 porções diárias); leite e derivados (³3 porções diárias); açúcar e doces (?1 porção diária); refrigerante tradicional (?1 porção diária); sucos industrializados ado-çados (?1 porção diária); salgados e fast food (?1 porção diária). A opção por tais grupos de alimen-tos justifica-se na medida em que eles estão pre-sentes com muita frequência na alimentação dos jovens e podem ser considerados marcadores de alimentação saudável e não saudável. Foram considerados outliers valores de calorias totais <500 kcal e ³7,500 kcal /dia.

Com o propósito de quantificar a prática de atividades recreativas de baixa intensidade, os adolescentes foram questionados quanto ao tem-po despendido diariamente (em horas) assistindo à TV durante a semana e nos finais de semana. Para tanto, os adolescentes responderam às se-guintes perguntas: "Quanto tempo por dia você costuma assistir à TV nos dias de semana?", "E nos finais de semana (sábado e domingo)?". Com base nessas informações, foi calculada a média de horas diárias dedicadas a esse tipo de atividade [(horas totais no final de semana + horas na se-mana x 5)/7]. Em seguida, os adolescentes fo-ram classificados em duas categorias: <2 horas/dia e >2 horas/dia21. Tempo de TV >12 horas/dia foi considerado outlier.

A avaliação da maturação sexual foi reali-zada por autoclassificação, com base na proposta de Marshall & Tanner22,23. Nessa proposta, apre-sentavam-se para os meninos cinco figuras ilus-trando a distribuição de pelos pubianos e o desen-volvimento da genitália para que eles pudessem indicar com qual dos estágios seu corpo mais se assemelhava. Entre as adolescentes do sexo femi-nino, cinco figuras eram apresentadas, ilustrando cinco estágios de desenvolvimento das mamas e distribuição de pelos pubianos.

A classificação socioeconômica foi feita com base nos critérios da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisas24, que leva em conside-ração características domiciliares (presença e quantidade de alguns itens domiciliares de con-forto) como presença de TV, rádio, máquina de lavar, computador, carros, número de banheiros, etc., e grau de escolaridade do chefe da família. Esse instrumento utiliza uma escala de pontos, obtidos a partir da soma dos pontos referentes à posse de itens domésticos e ao grau de instrução do chefe da família, de modo a classificar a popu-lação nas classes econômicas A1, A2, B1, B2, C1, C2, D e E, em ordem decrescente de poder aqui-sitivo.

As variáveis contínuas foram testadas quanto à normalidade da distribuição pelo teste de Kolmogorov Smirnov. Foram calculadas esta-tísticas descritivas (médias e desvio-padrão) e esti-madas as frequências para os principais indica-dores antropométricos e de consumo. As médias foram comparadas pelo teste t de Student. As possíveis relações entre o tempo de TV e as cova-riáveis de interesse foram analisadas por meio da regressão de Poisson bivariada, e todas as cova-riáveis com significância inferior a 0,20 (p<0,20) foram incluídas no modelo final. As variáveis foram ajustadas por meio de regressão de Poisson multivariável passo a passo. A Razão de Preva-lência (RP) e o seu respectivo Intervalo de Con-fiança de 95% (IC95%) foram calculados para determinar a força de associação entre uma cova-riável e o tempo de TV. As análises estatísticas fo-ram realizadas no Stata (Stata Corporation, College Station, Texas, Estados Unidos) versão 12.0, e o nível de significância foi estabelecido em 5%.

RESULTADOS

As análises do presente estudo incluíram 815 adolescentes com média de idade de 13,7 anos ±1,8. A maioria dos adolescentes entrevis-tados era do sexo feminino (57,7%) e pratica-mente metade (44,2%) pertencia à classe so-cioeconômica C1.

As principais características antropomé-tricas dos participantes estão apresentadas na Tabela 1. Observa-se que a média de peso e esta-tura foi significativamente maior entre os meninos (p<0,001 e p<0,001) e entre os adolescentes pú-beres (p<0,001 e p<0,001). A média de IMC tam-bém foi maior entre os participantes púberes (p=0,04). Para as demais medidas antropomé-tricas não se observou diferença significativa entre os grupos. Cerca de um terço dos adolescentes tinha excesso de peso e 28,2% apresentaram cir-cunferência da cintura considerada de risco.

Tabela 1
Características antropométricas dos adolescentes segundo sexo e maturação sexual. Piracicaba (SP), 2013.

Na Tabela 2 estão indicadas as porções médias consumidas de cada grupo alimentar segundo o tempo de televisão. Pode-se observar que os adolescentes que permanecem mais tem-po em frente à TV consomem mais leite e de-rivados (p=0,03), açúcares e doces (p=0,01) e refri-gerante (p=0,02). Para os demais grupos de ali-mentos não se observou diferença significativa entre o grupo de adolescentes que permanecia mais tempo em frente à TV. A proporção de ado-lescentes que permaneciam mais de 2 horas/dia assistindo à televisão foi de 55,3%, e o tempo médio foi de 2,7 horas ± 2,1 horas/dia.

Tabela 2
Ingestão alimentar (porções/dia) dos adolescentes segundo tempo de televisão (TV). Piracicaba (SP), 2013.

Conforme indicado na Tabela 3, as cova-riáveis idade, consumo de frutas, consumo de açú-cares e doces e de refrigerantes estavam as-sociadas ao tempo de TV; assim, os adolescentes mais jovens, que consomem menos frutas, mais doces e açúcares e refrigerantes, permanecem mais tempo em frente à TV.

Tabela 3
Variáveis demográficas e grupos alimentares associados ao tempo excessivo de televisão (>2 horas/dia). Piracicaba (SP), 2013.

A Tabela 4 apresenta os resultados da análise multivariável. O baixo consumo de frutas (RP=1,29; IC95%=1,05-1,58) e o consumo exces-sivo de doces e açúcares (RP=1,19; IC95%=0,99-1,43) continuaram associados de maneira inde-pendente com o tempo de TV na análise multi-variada. O consumo excessivo de refrigerantes (RP=1,15; IC95%=1,00-1,31) apresentou uma associação marginal com o tempo de TV.

Tabela 4
Modelo final de regressão de Poisson de variáveis associadas ao tempo de televisão (>2 hora/dia). Piracicaba (SP), 2013.

DISCUSSÃO

No presente estudo investigou-se a as-sociação entre o tempo de TV e os hábitos alimen-tares dos adolescentes. A maioria dos estudos nacionais e internacionais que investigou essa associação priorizou o público infantil, de forma que existem poucos estudos realizados com ado-lescentes no Brasil. Um percentual elevado dos participantes (55,3%) excedeu o limite de 2 ho-ra/diárias em frente à televisão, com tempo médio de 2,7 horas/dia. Esse resultado é comparável a outros estudos realizados na Europa13,14 e nos Estados Unidos5, que também evidenciaram um tempo excessivo de TV entre os jovens.

É importante chamar a atenção para o fato de ter sido considerado no presente estudo so-mente o tempo gasto assistindo à televisão, não sendo computadas as horas despendidas com videogame ou computador, o que possivelmente aumentaria de maneira importante o tempo diário dedicado a atividades sedentárias.

Os resultados deste estudo indicam que o tempo de TV exerce uma influência negativa sobre as escolhas alimentares dos adolescentes. O con-sumo médio de doces e açúcares, de refrigerantes e de leite e derivados foi maior entre os jovens que despendiam mais de duas horas diárias em frente à TV.

Estudo realizado por Manios et al.25 com pré-escolares gregos verificou que as crianças que permaneciam mais de duas horas em frente à TV consumiam mais alimentos marcadores de hábitos não saudáveis, como os ricos em gorduras e açú-cares, resultando em maior ingestão energética. Salmon et al.26 também encontraram associação significativa entre o tempo excessivo em frente à TV e o consumo de bebidas altamente energéticas entre crianças e adolescentes australianos.

Os resultados poderiam ser explicados pela interferência da publicidade relativa a alimentos de baixo valor nutritivo, já que estudos anteriores comprovam maior frequência de consumo de alimentos altamente anunciados27,28. Um estudo também revelou que apenas uma ou duas expo-sições a uma propaganda são suficientes para influenciar as preferências alimentares de crian-ças29. Outra justificativa seria o fato de frequente-mente os jovens consumirem doces, salgadinhos, biscoitos e refrigerantes enquanto assistem à tele-visão30. Nesse contexto explica-se, ao menos em parte, por que um maior tempo de exposição à TV está relacionado a hábitos alimentares não saudáveis.

Outro resultado que merece destaque é a associação encontrada entre o baixo consumo de frutas e o tempo de TV, o que corrobora os dados da literatura12,13,25,31. A falta de associação entre o consumo de legumes e verduras e a exposição à televisão pode ser justificada pela baixa fre-quência de consumo desse grupo alimentar pelos adolescentes investigados.

No estudo de Boynton-Jarret et al.12, a energia proveniente do consumo de frutas e ver-duras apresentou associação inversa com o hábito de assistir à TV, em adolescentes americanos de 10 a 12 anos, mesmo após ajuste para variáveis de confusão.

Assim como no presente estudo, Salmon et al.26 observaram associação significativa so-mente entre frutas e o tempo de TV, sendo menor o consumo desse grupo alimentar entre os ado-lescentes que ficam mais tempo em frente à tele-visão.

A associação entre o hábito de assistir à televisão e a baixa ingestão de frutas, legumes e verduras pode representar um estilo de vida pouco saudável, frequentemente adotado pelos adoles-centes, ou ainda uma consequência da substi-tuição desses alimentos saudáveis por aqueles mais comumente anunciados pelas propagandas.

Os aspectos importantes deste estudo fo-ram a amostra representativa e a utilização de instrumentos validados para coleta de dados. No entanto, algumas limitações devem ser conside-radas ao interpretar os resultados. O desenho transversal do estudo não permite a identificação de causa e efeito e pode levar à causalidade re-versa, embora seja mais provável que o tempo excessivo em frente à TV contribua para uma prática alimentar não saudável, e não o contrário. As informações autorrelatadas sobre consumo alimentar e tempo de TV também podem repre-sentar uma limitação. Isso pela dificuldade que os adolescentes têm em fornecer informações precisas, sobretudo os mais jovens, podendo levar à subestimação das associações entre tempo de TV e qualidade da dieta. Finalmente, sabe-se que outros fatores - como os hábitos de vida dos pais/responsáveis, que não foram incluídos nesta investigação -, também podem influenciar o estilo de vida e os padrões alimentares dos adoles-centes.

CONCLUSÃO

Os resultados do presente estudo eviden-ciaram que uma proporção significativa dos ado-lescentes permanece tempo excessivo em frente à TV, influenciando negativamente seus hábitos alimentares. O consumo excessivo de doces e açú-cares e a baixa ingestão de frutas associaram-se ao maior tempo de TV.

Desse modo, fica clara a necessidade de políticas públicas que regulamentem o marketing de alimentos e garantam que as propagandas inseridas em programas de TV destinados a crian-ças e adolescentes promovam escolhas alimen-tares saudáveis. Algumas iniciativas já foram feitas nesse sentido, como a realização da consulta pú-blica protagonizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária em 2006. No entanto, a reso-lução que regulamentava a oferta, propaganda e publicidade de alimentos não saudáveis foi sus-pensa por liminar da justiça. Dessa forma, consi-derando o conflito de interesses estabelecido entre a indústria de alimentos e setores do go-verno, diante de estratégias governamentais que têm como objetivo promover mecanismos de proteção ao direito à alimentação adequada e saudável, outra medida a ser adotada seria o in-centivo à prática de atividade física entre os jovens, reduzindo seu tempo de exposição à publi-cidade de alimentos considerados nocivos à saúde. São medidas urgentes, considerando-se que a alimentação inadequada e o sedentarismo, sobretudo em associação, aumentam o risco de desenvolvimento de doenças crônicas ainda na adolescência.

AGRADECIMENTOS

À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo pelo apoio financeiro, e aos adolescentes que participaram do estudo.

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  • Apoio:
    Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Processo nº 12/01283-3).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    May-Jun 2016

Histórico

  • Recebido
    30 Out 2014
  • Revisado
    15 Set 2015
  • Aceito
    07 Out 2015
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