Há livros que evidenciam como a psicanálise opera com as palavras. O livro recém-lançado de Ricardo Goldenberg, encomendado pela Editora Sinthoma, é um deles.
É possível que o leitor leigo, que da Psicanálise só conhece o bordão “Freud explica”, se espante ao ser dado a ver no livro que, ao contrário do que sugere o bordão, um psicanalista não trabalha a partir de “explicações”. O autor nos convida a pensar sobre as condições, circunstâncias para uma interpretação, questionando a “crença numa extraterritorialidade que daria carta-branca para falar sobre tudo, em todo lugar, (...) a quem for e em quaisquer condições” (p. 173). Diante disso, nunca seria demais lembrar que “todos falamos a partir de um lugar simbólico determinado, e nós psicanalistas não somos a exceção” (p. 172).
Não é que um psicanalista não possa se colocar como um leitor crítico da cultura, mas o que parece grave é quando aquele, que decide ocupar essa função, deixa de lado a compreensão sobre como a psicanálise opera. Cedendo, assim, ao furor interpretandi: verdadeira doença profissional, caracterizado por um “exercício hermenêutico infinito” (p. 173). Goldenberg lembra o fato de Lacan ter escrito no prólogo à primeira tese universitária dedicada aos seus Escritos que “não se prestem à tese, sobretudo universitária” (p. 260).
Afiado, o autor de Desler Lacan afirma que seria irônico constatar, cinquenta anos depois dessa nota de Lacan, que seus Escritos só se prestam a isso. “Tais e tais elucubrações ou servem para fundamentar e dar conta do que fazemos enquanto psicanalistas ou não servem para nada melhor que engrossar, com mais uma tese de doutorado, a biblioteca dos livros não lidos” (p. 260). A crítica parece se justificar pelo fato de que Lacan, segundo Goldenberg, “deixa transparecer desde seus trinta anos um incômodo crescente com os pressupostos epistemológicos e ontológicos da metapsicologia freudiana” (p. 259).
A psicanálise, portanto, “não é uma prática hermenêutica que trata o mundo como grandes narrativas a interpretar” (p. 170). No lugar disso, “a eficácia do método psicanalítico nos ensina algo sobre o que falar quer dizer” (p. 158), não com o propósito de explicar, mas com um propósito ao mesmo tempo mais modesto e poderoso: pensar a fala como um evento atual do discurso.
Falar a um analista, entretanto, não é simplesmente soltar o verbo. “Consiste em uma modalidade de falar à que se chega depois de certo trabalho” (p. 29). Está em jogo uma nova modalidade de escutar. De modo que “criar as condições para se poder falar sem pensar depende menos do analisante do que do seu analista” (p. 30). As consequências clínicas aqui são enormes:
Características semânticas, sintáticas e fonéticas podem parecer irrelevantes preciosismos, mas estão prenhes de um problema, diria ontológico, cuja solução não é indiferente no exercício do método. (...) Conforme se os trate de um modo ou de outro, o discurso mudará, com a consequência de que determinados caminhos se abrirão ou permanecerão fechados para quem fala. (p. 39)
Essa nova modalidade de escuta, podemos pensar, se aproxima muito de uma forma de leitura. Tendo em vista que “não há uma leitura última, mas abertura para o que ainda não foi lido” (Da Silva e D’Agord, 2023, p. 73), o exercício do método psicanalítico permitirá, na melhor das hipóteses, “a reescrita de um passado cuja consequência será mover o futuro” (Goldenberg, 2024, p. 271).
Mas se Freud não explica, o que promete a psicanálise, então? “A promessa, em todo caso, é a de uma verdade a ser revelada” (p. 18). No entanto, atenção, “não se trata de proferimentos vindos do além” (p. 166), nem também vindos das escrituras dos mestres da psicanálise, a iluminarem o paciente com um saber já dado.
Sobre esse segundo ponto, podemos tomar o presente livro de Ricardo Goldenberg, assim como seus anteriores, como um exemplo de método de escrita e leitura pouco praticado no campo psicanalítico. Método que, a fim de valorizar a crítica ao paradigma da representação, não se fecha na reprodução da doutrina. Em vez disso, tal método coloca em cena o diálogo com outros campos. Destaco o diálogo com o campo do cinema.
Há uma semelhança entre cinema e psicanálise, não muito valorizada no diálogo entre ambos, diálogo esse muito marcado pelo furor interpretandis, criticado pelo autor. A saber, “assim como existe uma câmera invisível por trás de cada imagem no cinema, há uma enunciação despercebida detrás de todo enunciado” (p. 166) para a psicanálise. E falar de verdade em psicanálise envolve considerar que essa câmera invisível participa da cena.
No entanto, mesmo que o espaço de uma sala de cinema possa ser tomado como o que veio a ocupar “o lugar do templo onde as pessoas ainda podiam comungar perante a visão de um milagre” (p. 23), “o cinema, fora raríssimas exceções, induz a continuar dormindo, não a despertar” (p. 19). E a psicanálise?
Em seu melhor, “a psicanálise seria um modo de acordar” (p. 17). Com a ressalva de que não se trata de acordar “de uma falsa realidade, como se houvesse outra mais verdadeira, mas da realidade nua e crua. A única que há” (p. 19). Porém, “acordar para realidade”, depois do ensino de Lacan, é algo mais complexo do que soa essa famosa expressão.
Trata-se da constituição da realidade a partir de três registros (real, simbólico e imaginário), sustentada no ensino de Lacan do começo ao fim. Tal constituição é defendida no livro quando o autor faz uma crítica a certa clínica contemporânea que fica reduzida a “um percurso que começa no imaginário da alma, evolui para o simbólico da palavra e conclui no real do corpo” (p. 258). Quando, longe de ser um registro a ser superado, o simbólico é um registro tão importante quanto os outros dois. E o psicanalista é aquele que aposta numa cura pela palavra, considerando que é também por ela que se adoece. Afinal, para Lacan, “as palavras fazem corpo” (Lacan, 1977). Nada menos que isso.
“Há certas frases que se iluminam pelo opaco” (Barros, 1993), diz o poeta Manoel de Barros, no poema Uma didática da invenção. Talvez lembrar disso ajude um psicanalista que venha a se confundir achando que a sua interpretação concerne aos referentes do que o analisante diz, esquecendo que essa concerne à posição do analisante no discurso. Afinal, não é sem levar em conta a opacidade das palavras que um psicanalista pode operar mudanças discursivas. As quais, sem dúvida, são as coordenadas da apreensão do que se chama de realidade.
Que, enfim, seja possível apagar certas luzes — um pouco a sob Freud, por que não? — para então abrirmos outros caminhos.
Referências
- Barros, M. (1993). Livro das ignorãças Record.
- Da Silva, G. O, & D’Agord, M. R. L. (2023). A posição do analista e a escutaleitura do significante. Clínica & Cultura, 9(1), 65-79.
- Goldenberg. R. (2018). Desler Lacan Instituto Langage.
- Goldenberg, R. (2024). Inconscientes Sinthoma, 2024.
- Lacan, J. (1998). Escritos Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em 1966).
-
Lacan, J. (1977). Propos sur l’hystérie Recuperado em 24 de Junho, 2024, de <https://ecole-lacanienne.net/bibliolacan/pas-tout-lacan>
» https://ecole-lacanienne.net/bibliolacan/pas-tout-lacan
