Open-access Masoquismo: o corpo como objeto do desejo do Outro

Masochism: the body as an object of the Other’s desire

Masoquismo: el cuerpo como objeto del deseo del Otro

Masochisme: le corps comme objet du désir de l’Autre

Resumo

Este estudo aborda o masoquismo para além da concepção patologizante dos manuais psiquiátricos do século XIX, compreendendo-o como uma dimensão constitutiva do sujeito. Freud desloca o conceito do campo da perversão, inserindo-o na estruturação do aparelho psíquico e distinguindo três formas: erógeno, moral e feminino, sendo esta última marcada pela oferta do corpo ao desejo do Outro. Lacan amplia a discussão ao situar o sujeito como efeito da linguagem, alienado ao campo do Outro, onde o corpo se torna resposta simbólica e erotizada à demanda alheia. A leitura de A vênus das peles, de Sacher-Masoch, evidencia a erotização da submissão, na qual o corpo se oferece não como anulação do Eu, mas como via de satisfação e pertencimento. Assim, o masoquismo se apresenta como operação psíquica que transforma sofrimento em linguagem do desejo e possibilita o laço com o outro.

Palavras-chave
Masoquismo; desejo; corpo; psicanálise


Abstract

This study addresses masochism beyond the pathologizing conception of 19th-century psychiatric manuals, understanding it as a constitutive dimension of the subject. Freud shifts the concept from the field of perversion, placing it within the structuring of the psychic apparatus and distinguishing three forms: erogenous, moral, and feminine, the latter being marked by the offering of the body to the desire of the Other. Lacan broadens the discussion by situating the subject as an effect of language, alienated in the field of the Other, where the body becomes a symbolic and eroticized response to external demand. The reading of Venus in Furs, by Sacher-Masoch, highlights the eroticization of submission, in which the body is offered not as the annulment of the Self, but as a pathway to satisfaction and belonging. Thus, masochism is presented as a psychic operation that transforms suffering into the language of desire and enables the bond with the other.

Keywords
Masochism; desire; body; psychoanalysis


Abstract

Cette étude aborde le masochisme au-delà de la conception pathologisante des manuels psychiatriques du XIXᵉ siècle, en le comprenant comme une dimension constitutive du sujet. Freud déplace le concept du champ de la perversion, l’insérant dans la structuration de l’appareil psychique et distinguant trois formes: érogène, morale et féminine, cette dernière étant marquée par l’offrande du corps au désir de l’Autre. Lacan élargit la discussion en situant le sujet comme effet du langage, aliéné au champ de l’Autre, où le corps devient une réponse symbolique et érotisée à la demande d’autrui. La lecture de La Vénus à la fourrure, de Sacher-Masoch, met en évidence l’érotisation de la soumission, dans laquelle le corps s’offre non pas comme annulation du Moi, mais comme voie de satisfaction et d’appartenance. Ainsi, le masochisme se présente comme une opération psychique qui transforme la souffrance en langage du désir et rend possible le lien avec l’autre.

Mots-clés
Masochisme; désir; corps; psychanalyse


Resumen

Este estudio aborda el masoquismo más allá de la concepción patologizante de los manuales psiquiátricos del siglo XIX, entendiéndolo como una dimensión constitutiva del sujeto. Freud desplaza el concepto del campo de la perversión, insertándolo en la estructuración del aparato psíquico y distinguiendo tres formas: erógena, moral y femenina, siendo esta última marcada por la oferta del cuerpo al deseo del Otro. Lacan amplía la discusión al situar al sujeto como efecto del lenguaje, alienado en el campo del Otro, donde el cuerpo se convierte en respuesta simbólica y erotizada a la demanda ajena. La lectura de La Venus de las Pieles, de Sacher-Masoch, evidencia la erotización de la sumisión, en la cual el cuerpo se ofrece no como anulación del Yo, sino como vía de satisfacción y pertenencia. Así, el masoquismo se presenta como una operación psíquica que transforma el sufrimiento en lenguaje del deseo y posibilita el lazo con el otro.

Palabras clave
Masoquismo; deseo; cuerpo; psicoanálisis


Introdução

As investigações que surgem a partir da noção de masoquismo nos levam, antes de tudo, às reflexões em torno dos cruzamentos e implicações que o termo em si carrega mesmo antes das ideias de Freud para desmistificá-lo como uma errância sexual e enquadrá-lo dentro dos processos comuns à gênese do desenvolvimento psicossexual. Ou seja, abordar o masoquismo como objeto de pesquisa requer visitar e conhecer sua origem, contradições e estigmas.

É importante, desde já, esclarecer que o termo masoquismo não surge com Von Sacher-Masoch, mas, sim, do olhar patologizante de uma época que buscava, grosso modo, encarcerar o que pudesse ser caracterizado como desvio de conduta própria da moral e dos bons costumes. Essa sanha acusatória ocorre juntamente com a visão psiquiátrica, que pretendia categorizar aquilo que se apresentava como excesso para os padrões de saúde nos meados do século XIX.

Krafft-Ebing (2017), ao categorizar as ações autobiográficas de Sacher-Masoch como perversões sexuais, encerra o escritor, literário e artista no quadro de um pervertido, diagnóstico que o prende dentro de signos clínicos em uma proposta de universalizar o que seria a normalidade e o que seria errado dentro da prática sexual, sujeitada à lógica do biopoder.

A psiquiatrização do masoquismo liga para sempre o nome de Masoch a uma prática que deturpa totalmente o que expressava o autor em suas obras, que transformava sua vida em arte. Sacher--Masoch foi, sobretudo, um artista que se permitiu viver distante dos padrões e normas de controle. A literatura de Masoch é o seu modo de vida, que mantém, sim, um alto grau de eroticidade e sensualidade. Sendo assim, sua arte transita dentro de um manifesto de liberdade artística, sobretudo de uma experiência singular e humana.

Em sua principal obra, A vênus das peles (2000), que carrega todos os signos que fizeram com que Krafft-Ebing (2017) os denominasse como sintomas do masoquismo, Sacher-Masoch evidencia o tom que o levou a ser caracterizado como masoquista. Na trama, vemos Severin, que narra sua experiência com Wanda, mulher pela qual se encantou em uma de suas viagens. Severin coloca-se, então, em posição de submissão ao desejo da dama, idealizada enquanto alvo do que considera amor. Wanda, aos poucos vai apresentando características de crueldade e dominação. No entanto, esses traços surgem na dama ao longo da narrativa, são elementos atiçados mediante a conduta de Severin, que acredita ser isso que Wanda almeja dele.

Na proposta de um acordo que satisfaça a ambos, Severin busca servir ao que considera ser aquilo que atenderia o desejo de sua dama, e busca servir a partir de si, como objeto. É consigo e através de si que Severin serve aos ditames de sua dama, mas não se trata de se colocar vazio, há o Eu ali que goza com esse corpo, um Eu sobretudo corporal, erotizado. Atravessado pelo que deseja e o que o outro possa desejar, esse corpo se inscreve na dinâmica entre o amor e sua amada.

Para Deleuze (2009), Sacher-Masoch está para além do aprisionamento proposto pela psiquiatria do século XIX; ele foi um artista que soube experimentar da melhor maneira todos os seus desejos e, por isso mesmo, sua criatividade, individualidade e sensibilidade devem estar à frente de qualquer selo patologizante. Apesar disso, o autor acabaria por ficar mais conhecido pela designação psiquiátrica do que por conta de sua arte. “Sacher-Masoch foi um escritor reconhecido e brilhante do século XIX, até o momento em que seu nome foi usado para designar uma patologia: masoquismo. Passou-se, então, a conhecer a doença e se esquecer do escritor” (Pietro, 2012, p. 17).

Mesmo que o termo masoquismo tenha rompido o tempo e tenha se cristalizado como um “transtorno sexual”, com Freud (1905/2016) o masoquismo é apresentado como sendo o termo cunhado por Krafft-Ebing para representar uma perversão sexual. Freud, assim como um dos objetivos deste trabalho, não tentava trazer justiça a Masoch, mas via aquela subversão da prática sexual como uma fase comum ao desenvolvimento psicossexual. Apesar de ter ganhado ênfase em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905/2016), menções a práticas masoquistas já haviam aparecido na obra de Freud desde A interpretação dos sonhos (1900/2019a).

Se, em um primeiro momento da teoria freudiana, o masoquismo já se apresentava como um problema dentro dos processos reguladores do psiquismo, com o passar do tempo Freud vai dando mais espaços para incluí-lo, para além de uma manifestação legítima da sexualidade, como um dos processos fundamentais da formação psíquica (Buchaúl & Câmara, 2016).

Os avanços metapsicológicos, a partir de 1914, com a teoria do narcisismo, permitiram que o masoquismo pudesse novamente entrar em evidência desde sua apresentação na psicanálise em 1905. A obra “As pulsões e seus destinos” (1915/2019b) traz o masoquismo para ainda mais perto da metapsicologia e da aproximação com a ação ativa e passiva da pulsão. Por sua vez, o texto “Batem em uma criança: contribuição ao conhecimento da gênese das perversões sexuais” (1919/2010a) aborda a fantasia masoquista infantil para pensar a gênese das neuroses. Ambas acarretam em avanços significativos que levam Freud a centralizar, anos depois, o masoquismo como importante dentro da formação da segunda tópica.

Seguindo essa lógica, é com “O problema econômico do masoquismo” (1924/2011c) que Freud trouxe novas perspectivas para a gênese desse conceito, chegando a propor que o masoquismo é anterior ao sadismo. Nessa obra, são apresentados três tipos de masoquismo, ou melhor, três momentos, sendo o primeiro, o masoquismo erógeno, como base para as outras duas formas — feminino e moral. É nesse momento que a teoria freudiana abre espaço para pensar o masoquismo dentro de outros processos que constituem o sujeito.

Com Lacan, podemos pensar maneiras a partir das quais o masoquismo se faz presente na constituição do psiquismo. Um desses momentos seria então pela via do corpo simbólico. Ou melhor, a via em que o sujeito, alienado ao Outro desde sua inserção no campo simbólico, por via do laço social, manifesta seu corpo como resposta ao laço. Dessa forma, propomos pensar aqui com Freud, a partir da noção de masoquismo, e com Lacan, por sua contribuição na compreensão do sujeito e sua alienação ao Outro, como podemos trazer luz à questão que norteia este artigo. Ou seja, a questão pela qual buscamos nos orientar é: como o masoquismo simboliza a alienação do sujeito ao grande Outro?

É preciso, em vista disso, percorrer o movimento que estabelece o corpo como um objeto que surge no processo de identificação e alienação. A ideia de um Eu corporal, amplamente discutida ao longo das obras freudianas, é ampliada pela visão de Lacan ao apresentar o estádio do espelho. É possível ver, em ambos os teóricos, como esse momento é crucial para o processo de simbolização e alienação do sujeito.

Identificação e o processo de alienação ao Outro

Em 1921, ao tentar alcançar uma compreensão sobre o funcionamento das massas, Freud aborda o processo de identificação. Relacionado com o apresentado em “Introdução ao narcisismo” (1914/2010b) e “Luto e melancolia” (1917[1915]/2010c), “Psicologia das massas e análise do Eu” (1921/2011a) investiga a constituição psíquica nessa nova fase de elaboração da sua teoria ao destacar o processo de identificação como “a mais primordial forma de ligação afetiva a um objeto” (Freud, 1921/2011a, p. 65), pois ela é capaz de moldar o Eu através da introjeção de um modelo identificatório. Ou seja, esse modelo surge como escolha amorosa que regride para a identificação, o que molda o Eu por conta desse mecanismo, levando-o a assumir as características do modelo objetal através da introjeção total ou parcial do objeto.

A identificação é, portanto, tomada por Freud como processo constitutivo do psiquismo. Para Lacan (1953-54/2009) esse processo é o que dá origem ao estádio do espelho e a constituição no campo simbólico. O espelho é usado, nesse sentido, como metáfora, capaz de edificar, através da identificação, a imagem do Eu da criança, que recebe características do meio em que vive, especialmente na imagem de seus progenitores.

Essa relação com o Outro no processo do estágio do espelho é uma continuação do processo de identificação descrito por Freud em 1921 e mais explorado após a elaboração da segunda tópica, a partir de 1923. Tanto para Lacan quanto para Freud, a identificação é o momento de constituição do Eu. Porém, os acréscimos no campo do estádio do espelho avançam para se pensar, em um campo simbólico, o quanto o sujeito se torna “refém” do olhar do outro, mas também como o sujeito é objeto de um processo de alienação. Assim:

O olhar não se situa simplesmente ao nível dos olhos. Os olhos podem muito bem não aparecer, estar mascarados. O olhar não é forçosamente a face de nosso semelhante, mas também a janela atrás da qual supomos que ele nos espia. É um “x”, o objeto diante do qual o sujeito se torna objeto. (Lacan, 1953-54/2009, p. 253)

O reconhecimento que se dá através da imagem espelhada das figuras externas é o início do percurso de se fazer parte do contexto. Essa relação no processo de identificação só é possível por haver a mediação do mundo pela linguagem, uma vez que a criança “é um ser humano, de que nasceu num estado de impotência, e que, muito precocemente, as palavras, a linguagem, lhe serviram de apelo, e de apelo dos mais miseráveis, quando era de seus gritos que dependia sua comida” (Lacan, 1953-54/2009, p. 182). Dessa forma, o que Lacan aponta como o estádio do espelho gira em torno da constituição subjetiva a partir de uma falta e de um movimento de alienação.

Em seu seminário 11, Lacan (1964/2008) toma o sujeito como um efeito do campo simbólico, ou seja, como efeito da linguagem, o que o leva a pensar que o sujeito, sempre evanescente, é resultado de duas operações — alienação e separação. A alienação, a qual desdobramos aqui, marca o sujeito como dividido, por efeito da sua inserção no campo do simbólico, já que não é causa de si mesmo, mas efeito do significante.

Por efeito do significante o sujeito surge como e pelo processo de alienação, já que “a alienação reside na divisão do sujeito que acabamos de designar em sua causa” (Lacan, 1964/1998, p. 855). Para Leite (2017), o efeito do significante é o que marca o sujeito para a psicanálise, diferenciando-o da noção usada pelas ciências sociais, tais como psicologia, sociologia, antropologia etc. O sujeito nasce, portanto, em um universo simbólico alheio de si, por conta e a partir disso, aprende a se reconhecer em um campo de valores e normas determinadas pelo grande Outro.

Ainda no seminário 11, Lacan (1964/2008) apresenta o grafo da alienação, o que nos permite ter a noção do espaço entre o ser, sendo o campo do sujeito, e o sentido, proveniente do Outro:

Figura 1
O grafo da alienação

Esse grafo possibilita pensar o espaço (o não senso) onde o sujeito se torna alienado ao sentido do Outro. Leite (2017), em acordo com esses argumentos, colabora para pensar que é através desse processo que se inaugura o desejo:

O sujeito do inconsciente, é preciso marcar que se trata do sujeito do desejo inconsciente, articula-se no lugar do Outro. Dissemos que Isso fala ao nos reportarmos ao sujeito do inconsciente — este sujeito sem qualidades — e podemos agora completar que Isso fala no Outro — lugar onde o sujeito encontra sua morada, mas ao preço de uma divisão, uma fenda. (p. 35)

Dessa forma, a inscrição do sujeito pelo efeito da linguagem passa pelo sentido que o Outro serve às suas demandas. A dependência da criança pelo Outro passa pela ação do significante, isso quer dizer que a criança, desde o início, é dependente dos cuidados desse Outro, cuidados esses exercidos primeiramente por aquele que desempenha a função materna. Essa relação não é apenas física, ela se estrutura fundamentalmente pela linguagem. O significante é esse elemento da linguagem que busca nomear e organizar a experiência entre a criança e o Outro.

Essa relação é, portanto, desde o início uma relação de dependência, entendida não apenas no plano biológico, mas principalmente no campo simbólico. É por meio desse simbolismo fornecido pelo significante que o Outro interpreta o que a criança quer ou precisa, mesmo antes que ela possa falar. Quando o infans não consegue expressar diretamente o que sente ou precisa, então, o Outro interpreta o que pode ser o seu desejo: “se ela chora, deve ser fome”, ou “sente dor”. Assim, o desejo da criança é lido a partir da linguagem do Outro.

Esse ato de interpretação cria um espaço de desencontro entre o que a criança manifesta e o que o Outro entende. Cria-se, assim, o espaço do “não senso”, que servirá como lugar para instauração do desejo. É justamente nesse vazio do “não senso” onde o sentido não se completa, que se instaura o desejo. A criança passa a desejar a partir da falta que emerge nessa relação com o Outro, e seu desejo será, a partir disso, marcado por uma alienação estrutural: ela deseja algo do Outro, e é este quem determina, por meio do significante, os contornos do desejo. Dessa forma, a afirmação de que “uma vez que o infans é tomado nos desfiladeiros da demanda ele necessariamente estará engajado com o Outro, em uma relação que se faz através do significante” (Leite, 2017, p. 36).

Para pensar, então, em como essa alienação, que se instaura por via da relação de identificação com o Outro, se apresenta na relação com outros, é preciso convocar o fator masoquista presente em uma dimensão da vida. O que propomos aqui é que esse aspecto faz com que o sujeito encontre maneiras, dentro da lógica do masoquismo, de apresentar o corpo como via para o desejo do outro.

Masoquismo: o corpo como objeto do desejo do Outro

A teorização freudiana sobre a inscrição do masoquismo no corpo é apresentada em 1924, no texto “O problema econômico do masoquismo”. O masoquismo não só antecede o sadismo, como ocupa uma função estruturante na constituição do psiquismo. Tal inscrição ocorre no momento da amálgama pulsional, em que a pulsão de morte — elemento ligado ao desprazer no aparelho psíquico — só pode ser experimentada como prazer por meio do componente masoquista resultante da intrincação pulsional.

Esse fator erógeno e estruturante para a vida anímica não apenas suporta o desprazer, mas trabalha para encontrar satisfação no aumento de tensão que ele provoca, o que justifica sua nomeação como masoquismo. Essa dinâmica, por sua vez, permite refletir sobre o papel essencial da sexualidade no processo de constituição psíquica, especialmente no que diz respeito aos investimentos objetais, partindo do que corresponde ao Eu enquanto objeto.

A excitação sexual tem, como coloca Freud (1905/2016), “o caráter de desprazer” (p. 123). Diante disso, Fortes (2007) sugere pensar, a partir dessa conjetura, o fator erótico do masoquismo que leva a “um prazer que, por poder existir simultaneamente à dor, é uma experiência de intensidade e de potência eruptiva” (p. 35). A excitação sexual seria, portanto, um problema se não existisse o masoquismo para suportá-la e retirar desse funcionamento um prazer.

À vista disso, fazemos a seguinte pergunta: como se dá a transformação desse desprazer em prazer? Em “O problema econômico do masoquismo” é sugerido um caminho. Freud (1924/2011c) teoriza que na constituição do aparelho psíquico “a libido se enfrenta com a pulsão de morte ou destruição neles dominante, que procura desintegrar esse ser celular e levar cada um dos organismos elementares ao estado de estabilidade inorgânica (mesmo que seja apenas relativa)” (p. 292).

Nessa articulação, é a libido que torna inofensiva o poder destrutivo dessa pulsão primitiva; faz isso desviando-a para o mundo exterior e utilizando do corpo. O corpo é a via pela qual a libido transforma o poder destrutivo da pulsão de morte “e logo com a ajuda de um sistema orgânico especial, a musculatura — para fora, contra os objetos do mundo exterior. Recebe, então, o nome de pulsão de destruição [Destruktionstrieb], pulsão de apoderamento [Bemächtigungstrieb], vontade de poder [Wille zur Macht]” (Freud, 1924/2011c, p. 292).

Sendo assim, o encontro que a libido faz com a pulsão de morte resulta na transformação dessa força primitiva e destrutiva. Podemos observar aqui que é por via do masoquismo que a pulsão de morte é direcionada por caminhos da pulsão de vida. Como Freud descreve, a respeito dessa projeção da pulsão de morte para o exterior por via do corpo, essa “parte dessa pulsão é colocada diretamente a serviço da função sexual, onde tem um papel importante a desempenhar (...) é nessa parte que temos de identificar o masoquismo erógeno originário” (Freud, 1924/2011c, p. 293).

Temos aqui a relação entre o masoquismo e o corpo, dada por Freud em 1924. É válido destacar que uma relação entre o masoquismo e corpo já havia sido feita em 1919, em “Bate-se em uma criança”. Nas fantasias de espancamento, especificamente na segunda delas, a criança fantasia o ato do pai como um ato de amor; essa característica é descrita por Freud como o componente passivo do masoquismo. Essa fase não possui um caráter real tal como as outras duas. Freud (1919/2010a) a considera uma construção de análise, o que a torna, exatamente por isso, a mais importante:

Essa segunda fase é a mais importante e mais prenhe de consequências. Em certo sentido, no entanto, pode-se dizer que ela não tem uma existência real. Em nenhum caso ela é lembrada, não chegou a tornar-se consciente. É uma construção da análise, mas nem por isso menos necessária. (Freud, 1919/2010a, p. 302)

Devido à sua natureza inconsciente, essa fase evidencia uma relação marcada tanto pelo prazer quanto pelo caráter masoquista e incestuoso do vínculo com o objeto. Nesse contexto, a criança que fantasia é também aquela que se vê punida pela figura paterna, sendo o prazer associado à submissão ao objeto e à experiência do castigo.

Freud (1919/2010a) observa que esse momento, distinto dos anteriores, está relacionado ao recalque do complexo de Édipo, sendo a fantasia de espancamento uma forma substitutiva da fantasia de amor sexual, produzida como efeito do recalque. Essa mudança qualitativa se deve à presença de sentimentos de culpa e ao erotismo implicado na agressividade. A culpa é, assim, “o fator que transforma o sadismo em masoquismo” (Freud, 1919/2010a, p. 307).

A transformação do sadismo em masoquismo dá origem a uma modificação significativa na fantasia infantil: a afirmação “meu pai me ama” é substituída por “meu pai me bate”. Essa mudança reflete uma dinâmica em que a culpa pelo desejo incestuoso proibido se entrelaça com o prazer de ser alvo da atenção da função paterna. A fantasia de espancamento, nesse contexto, constitui uma amálgama de dor e prazer, funcionando como a expressão mais direta do masoquismo. Posteriormente, Freud (1924/2011c) descreve essa forma específica de submissão como uma derivação do masoquismo constitutivo, nomeando-a de masoquismo feminino. Esse masoquismo feminino é a expressão de como o sujeito coloca seu corpo como objeto a serviço do outro em uma lógica fálica. É a partir disto que as contribuições de Lacan são importantes para pensar essa relação ao nível da alienação.

Para Lacan (1958/1998), essa segunda fase da fantasia de espancamento no texto freudiano revela a operação do ato simbólico. Na inscrição fantasiosa de “meu pai me bate porque me ama”, entende-se que o sujeito somente existe para o outro quando é amado, ou melhor, quando esse Outro o deseja como objeto. É a partir dessa lógica que se estrutura a relação do sujeito com o Outro, por isso “o que intervém, acima de tudo, é alguma coisa que risca o sujeito, que o barra, que o abole, alguma coisa de significante” (Lacan, 1958/2003, p. 250). Desta maneira, esta estrutura indica que é o significante que funda o sujeito ao mesmo tempo em que o divide.

É nesse sentido que, ao tornar-se, na fantasia, objeto de amor do outro, o sujeito acredita saber o que o outro deseja, colocando o próprio corpo como meio para alcançar esse objetivo. Retornando a Freud (1923/2011b), quando esse aponta para um Eu corporal, não podemos esquecer que a amálgama das pulsões, o masoquismo erógeno, tem, sobretudo, sua inscrição no corpo. A saída que o aparelho psíquico arcaico encontra para suportar o desprazer se dá através da intrincação pulsional, que usa do próprio corpo como objeto para dominar a pulsão destrutiva (Freud, 1924/2011c). Um de seus efeitos pode ser visto na forma do masoquismo feminino, através da submissão ao outro.

A esse respeito, o corpo, como define Lacan (1953-54/2009), é um corpo imaginário e resultado também do processo da alienação, como apontado anteriormente sobre o estádio do espelho. Dito isso, uma das formas que o sujeito encontra para lidar com a dinâmica de alienação, encontrando saídas para sua angústia, é a de se colocar como lugar ao domínio do outro, acreditando que é desse corpo que o outro precisa para ser completo. Por isso “ele busca incessantemente estar à mercê do outro, custe o que custar. Se assim o faz, é para que tente assegurar que este outro esteja sempre ao seu lado, de modo a lhe dar garantia” (Buchaúl & Câmara, 2016, p. 14). Tal garantia seria, então, a resposta para o desamparo causado pelo distanciamento do outro. O sujeito, por via do masoquismo em uma lógica perversa, coloca-se como o objeto em direção ao outro, nem que seja através da mais completa submissão (Birman, 2016).

Assim lembramos de Severin, em A vênus das peles, “Faz comigo o que bem entender, só não me afaste de ti” (Sacher-Masoch, 2000, p. 65). Esse trecho aponta para o enlace em que Severin busca colocar a dama Wanda, como objeto para que essa o tome como seu, ao mesmo tempo que espera que ela apresente uma espécie de resposta à sua angústia de desamparo. A colocação final de Severin sobre a sua experiência com Wanda: “A moral é que eu fui um burro (...) se ao menos eu tivesse açoitado!” (Sacher-Masoch, 2000, p. 107), pode nos remeter ao imaginário do sujeito, indicando de que outras maneiras esse busca se servir ao Outro na tentativa de dar contorno ao “não senso”.

Considerações finais

O espaço entre um Eu e um outro é capaz de fazer surgir as considerações mais fantasiosas que fornecem borda à angústia de se sentir sozinho, abandonado, como uma criança sem função materna. Esse é o sentimento que a psicanálise nos ensina que é o desamparo, ele “é a marca originária do sujeito. Marca que cria uma dependência radical em relação a outro ser humano, alienação originária que torna a humanização dependente da presença do desejo do Outro” (Leite, 2011, p. 56). A isso, é importante lembrar que o Eu estabelece os ideais capazes de guiar o sujeito para aquilo que o conforte ao menor sinal de incidência da angústia de castração. Esse mesmo Eu, corporal, erotizado, é efeito do processo de identificação e alienação.

O masoquismo, como Freud o estabelece em sua teoria final, em 1924, aponta para uma função capaz de dar conta dessa angústia por via da transformação do desprazer em prazer. Quando isso é posto sob a primazia de perversão da lógica do masoquismo erógeno, temos esse tipo de alienação descrita aqui.

A maneira como o corpo é inscrito dentro da dinâmica de constituição psíquica proposta em 1923, o coloca como um caminho possível para os destinos da angústia de castração, isto é, esse corpo é marcado dentro da dinâmica intersubjetiva, ele é objeto de investimento pulsional. Trata-se, portanto, de responder ao laço social por meio desse corpo. Assim, ao vê-lo como um caminho capaz de contornar a sensação de abandono, diante das demandas pulsionais, é possível tomar o corpo como um meio de responder ao desejo do outro.

Em uma dinâmica masoquista, o corpo serve como uma resposta linguística que convoca o outro para a relação, colocando-se como aquilo que pode preencher o suposto vazio do objeto alvo da pulsão, ao mesmo tempo que, por esse corpo, contorna a sensação de aniquilamento. O masoquismo entra como o funcionamento erótico dessa dinâmica; é por esse corpo, erotizado pelo Eu libidinalmente enquanto objeto, que transforma em prazer o desprazer do sentimento de abandono que traz a sensação de desamparo. É o masoquismo dando borda e servindo à dualidade da dinâmica pulsional através do corpo.

Disponibilidade de Dados de Pesquisa:

Não se aplica.

  • Financiamento/Funding:
    Os autores declaram não terem sido financiados ou apoiados / The authors have no support or funding to report.

Referências

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  • Editores do artigo/Editors:
    Nelson da Silva Junior, Sonia Leite

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    08 Out 2025
  • Aceito
    04 Fev 2026
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