Open-access Estudo de caso entre cartografia e conversa: possibilidades metodológicas em psicologia à luz da fenomenologia hermenêutica1

Case study between cartography and conversation: methodological possibilities in psychology in the light of hermeneutic phenomenology

Estudio de caso entre cartografía y conversación: posibilidades metodológicas en psicología a la luz de la fenomenología hermenéutica

Une étude de cas entre la cartographie et la conversation: des possibilités méthodologiques en psychologie à la lumière de la phénoménologie herméneutique

Resumo

A investigação do presente artigo visa apontar caminhos de reflexão sobre a modalidade de acesso ao fenômeno (ou metodologia de pesquisa) na tradição da Psicopatologia Fenomenológica de “Estudo de Caso” em diálogo com noções da Fenomenologia Hermenêutica e da Hermenêutica: conversa de Gadamer, situação hermenêutica de Heidegger e cartografia fundamentada na Filosofia Hermenêutica. Para tanto, utilizamo-nos de artigos que encontramos sobre Estudo de Caso na tradição fenomenológica, de Tonus (2021) e Naudin (2012/2021), que abordam a temática através de grandes autores da Fenomenologia, tais como Jaspers, Tatossian, Minkowski e Binswanger, colocando-os em diálogo com os conceitos da Hermenêutica acima citados, compreendendo que tais conceitos podem contribuir muito em aspectos pouco explorados no Estudo de Caso: o pesquisador, o mundo e o movimento.

Palavras-chave
Estudo de caso; Psicopatologia Fenomenológica; Fenomenologia hermenêutica; cartografia


Abstract

The research in this article aims to point out paths for reflection on the modality of access to the phenomenon (or research methodology) called “Case Study” in the tradition of Phenomenological Psychopathology in dialogue with notions of Hermeneutic Phenomenology and Hermeneutics: Gadamer’s conversation, Heidegger’s hermeneutic situation and cartography based on Hermeneutic Philosophy. To this end, we used articles that we found on Case Study in the phenomenological tradition, by Tonus (2021) and Naudin (2012/2021), which address the theme through great authors of Phenomenology, such as Jaspers, Tatossian, Minkowski and Binswanger, placing them in dialogue with the concepts of Hermeneutics mentioned above, understanding that such concepts can contribute greatly to aspects little explored in the Case Study: the researcher, the world and the movement.

Keywords
Case study; Phenomenological Psychopathology; Hermeneutic phenomenology; cartography


Abstract

L’investigation de cet article vise à indiquer des pistes de réflexion sur la modalité d’accès au phénomène (ou méthodologie de recherche) appelée dans la tradition de la Psychopathologie Phénoménologique “Etude de Cas” en dialogue avec les notions de Phénoménologie Herméneutique et d’Herméneutique: discours de Gadamer, la situation herméneutique et la cartographie de Heidegger basées sur la philosophie herméneutique. Pour ce faire, nous avons utilisé des articles que nous avons trouvés sur Case Study dans la tradition phénoménologique, de Tonus (2021) et Naudin (2012/2021), qui abordent le sujet à travers de grands auteurs de phénoménologie, tels que Jaspers, Tatossian, Minkowski et Binswanger, en plaçant en dialogue avec les concepts d’herméneutique mentionnés ci-dessus, sachant que de tels concepts peuvent beaucoup contribuer à des aspects peu explorés dans l’étude de cas : le chercheur, le monde et le mouvement.

Mots-clés
Étude de cas; Psychopathologie phénoménologique; Phénoménologie herméneutique; cartographie


Resumen

La investigación de este artículo tiene como objetivo señalar caminos de reflexión sobre la modalidad de acceso al fenómeno (o metodología de investigación) denominado en la tradición de la Psicopatología Fenomenológica “Estudio de Caso” en diálogo con nociones de Fenomenología Hermenéutica y Hermenéutica: hablar de Gadamer, situación hermenéutica de Heidegger y cartografía basada en la Filosofía Hermenéutica. Para ello, utilizamos artículos que encontramos sobre Estudio de caso en la tradición fenomenológica, de Tonus (2021) y Naudin (2012/2021), que abordan el tema a través de grandes autores de la Fenomenología, como Jaspers, Tatossian, Minkowski y Binswanger, colocando en diálogo con los conceptos de la Hermenéutica antes mencionados, entendiendo que tales conceptos pueden aportar mucho en aspectos poco explorados en el Estudio de Caso: el investigador, el mundo y el movimiento.

Palabras clave
Estudio de caso; Psicopatología Fenomenológica; Fenomenología hermenéutica; cartografía


A investigação do presente artigo se originou em seminário apresentado na disciplina “Prática de Pesquisa em Psicologia: possibilidades metodológicas a partir da perspectiva da fenomenologia hermenêutica”, ministrada pela Profª Drª Laiz Chohfi, no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

Sem a pretensão de esgotar a temática ou abarcá-la em absoluto, visamos aqui apontar caminhos de reflexão que pudemos trilhar ao nos debruçarmos sobre o estudo daquilo compreendido no âmbito da pesquisa enquanto “Estudo de Caso” dentro, especialmente, da Psicopatologia Fenomenológica e, posteriormente, em diálogo com noções da Fenomenologia Hermenêutica e da Hermenêutica: conversa de Gadamer, situação hermenêutica de Heidegger, e cartografia fundamentada na Filosofia Hermenêutica, já que compreendemos que tais conceitos podem, além de dialogar, enriquecer as possibilidades de pesquisa na Psicologia através do estudo de caso.

Encontramos dificuldades na busca por produções contemporâneas que tematizassem o próprio estudo de caso dentro da Fenomenologia, produções estas que são escassas; no entanto, são incontáveis os exemplos de trabalhos acadêmicos que utilizam o estudo de caso como forma de acesso ao fenômeno em pesquisas de cunho fenomenológico. A princípio, não nos propusemos a ler especificamente artigos da área de Psicopatologia Fenomenológica e sim da Fenomenologia de forma geral, porém encontramos produções apenas nessa área (importante sublinhar que a busca realizada foi breve, não objetivando dar conta de uma revisão bibliográfica sistemática).

Estudo de caso na tradição fenomenológica

De início, debruçamo-nos em dois artigos encontrados sobre Estudo de Caso, um de Tonus (2021) e outro de Naudin (2012/2021), ambos referentes à área da Psicopatologia Fenomenológica (defenderemos, posteriormente, que o valor do estudo de caso está muito além desta área especificamente), como referido acima. Para começarmos a conceber a relevância do estudo de caso no âmbito da pesquisa, precisamos evidenciar as diferenças entre as formas de acesso ao fenômeno (ou “coleta de dados”, na linguagem usual, ainda que estejamos em desacordo com essa expressão) nas ciências naturais e nas ciências humanas; mais especificamente, na psicopatologia fenomenológica. Para tanto, Tonus (2021) evoca Karl Jaspers (1883-1969), filósofo e psiquiatra alemão-suíço e precursor do diálogo da filosofia fenomenológica com o campo da psicopatologia, que tematizou a questão do estudo de caso.

Segundo Jaspers (s/d., p. 29), querer reduzir a vida psíquica a alguns axiomas universais e assim dominá-la, em princípio é um falso propósito, por ser impossível (apud Tonus, 2021, p. 162). Diferentemente das ciências naturais, que se estruturam em teorias amplas, bem fundamentadas que fornecem ao entendimento dos fatos uma base uniforme (Tonus, 2021, p. 162) e que podem tomar seu “objeto de estudo” de forma fragmentária, isolando seus vários elementos para a compreensão de um todo, o ser humano não é passível de ser apreendido como se fosse algo estático e regido por regras constantes e universais, nem como se fosse um todo que é a somatória de elementos fragmentáveis.

Para Jaspers, a base experimental da psicopatologia é constituída de casos singulares, o que é possível através da descrição de casos e do histórico dos pacientes, desde a exposição de fenômenos particulares até uma biografia completa (Tonus, 2021). Neste ponto, começamos a adentrar o valor do estudo de caso para a compreensão do fenômeno humano. Questionamos, desde já, se a importação de metodologias das ciências naturais para as ciências humanas, tal como questionários, escalas e entrevistas estruturadas, não só falham em acessar o fenômeno humano (segundo Jaspers, um “falso propósito”), como acabam por perder aquilo de mais precioso e fundamental que pode surgir na pesquisa que se propõe a investigar o existir humano.

Infelizmente quase cem anos após estas importantes observações [de Jaspers] nos encontramos diante de uma sobrevalorização dos métodos estatísticos epidemiológicos que compõem, entre outros, o paradigma da quantificação e objetivação das ciências naturais. (Tonus, 2021, p. 163)

Jaspers, no campo da psicopatologia, critica justamente aquilo que chamamos hoje de paradigma criteriológico-sintomatológico, segundo o qual um quadro psicopatológico equivale à somatória de sintomas e, portanto, a forma de acesso a este quadro é de equivalente formato — ou, em suas palavras,

(...) se os fenômenos constituíssem formações rígidas, sempre idênticas, poder-se-iam considerar os quadros nosológicos formações mosaiciformes, variadamente compostas de pedras individuais, sempre idênticas. Importaria, apenas, nomear estas pedrinhas sempre iguais. (Jaspers, s/d., p. 683, apud Tonus, 2021, p. 164)

Jaspers defendeu, ao longo de sua obra, que a atividade essencial no campo psicopatológico ainda é a análise do caso particular (Tonus, 2021).

Tomemos como ponto de partida as considerações de Jaspers acerca da noção de estudo de caso, que já nos aponta que, dada a complexidade do fenômeno humano, a forma de acesso a este em pesquisa deve se propor a abarcar tal complexidade (ou possibilitar seu mostrar-se) da forma mais rigorosa o possível, ao invés de aniquilar essa complexidade em um esforço reducionista, tal como o fazem as metodologias importadas das ciências naturais.

Outro autor da psicopatologia fenomenológica que aponta para o valor do estudo de caso na pesquisa é Arthur Tatossian (1929-1985), psiquiatra francês de origem armênia. Para esse autor, a fenomenologia tem por ambição mostrar que há em cada experiência mais do que o empirismo comum reconhece (Tonus, 2021). Em outras possíveis palavras, que a pesquisa fenomenológica tem como pretensão o fazer ver/ desocultar-se/ mostrar-se dos fenômenos em toda sua complexidade e multiplicidade, olhando tanto para o dado imediato e cotidiano quanto para as grandes questões do existir humano, tais como experiência, intersubjetividade, temporalidade e espacialidade. Uma possibilidade de tal empreitada ser realizada com rigor é, em nosso entender, o estudo de caso.

Tatossian fala que a experiência fenomenológica é, portanto, uma experiência dupla, ao mesmo tempo empírica (no sentido comum) e apriórica (Tonus, 2021), utilizando-se da noção de “estrutura eidética” ou essência do fenômeno. Ou seja, que, na experiência investigada no estudo de caso, vislumbra-se algo do singular, porém também algo de essencial da experiência humana que só é passível de ser visto tendo como ponto de partida o singular. Dado que o propósito do presente artigo não é debater a questão eidética e a diferença desta com a hermenêutica, peguemos aquilo que faz sentido para nosso propósito aqui: a compreensão de que, no estudo de caso de uma pessoa (ou seja, a partir do singular), é possível se investigar não apenas aquele ser em específico, mas também a existência humana e o mundo humano (afinal, toda pessoa encontra-se radicalmente no mundo; ser-no-mundo), dado justamente a profundidade que o estudo de caso possibilita e aquilo que ele pode revelar. Nesse mesmo sentido, Gilberto Safra fala da condição ontológica humana, de que estamos todos entrelaçados por uma “comunidade de destino”, sob a mesma condição existencial. Sobre isso, Figueiredo (2005) coloca que:

Gilberto Safra, Donald Winnicott, nossos “pacientes difíceis”, os feridos em Sobórnost, os sem passado e sem futuro, os desaparentados e sem-esperança, e de carona todos nós que sofremos e clinicamos nos dias e nas condições ético-ontológicas contemporâneas, eis-nos todos reunidos em comunidade de destino. Este termo, emprestado de Ecléa Bosi e redimensionado por Gilberto Safra no contexto da Sobórnost, indica tanto uma meta como um meio da clínica psicanalítica contemporânea, a que se compromete com a restauração das condições ético-ontológicas da existência. (p. 171)

Em coletas de dados tecnicistas, o sujeito fica obscurecido e quase não aparece, e o que aparece de singular é entendido como um erro que deve ser descartado, já que estaria atrapalhando a suposta objetividade dos dados e universalidade dos resultados (ou a possibilidade de generalizá-los). Ou seja, nas ciências naturais, o singular é algo que atrapalha a apreensão do universal, e, na fenomenologia, o singular é justamente o que temos de mais rico para compreender o fenômeno na sua real complexidade. Assim, compreendemos: um estudo de caso pode dizer mais da experiência humana do que um questionário respondido por mil pessoas.

Enquanto grandes expoentes da utilização do estudo de caso para pesquisas fenomenológicas debruçadas sobre o existir humano, Tonus (2021) traz Ludwig Binswanger (1881-1966) e Eugène Minkowski (1885-1972). Binswanger afirma que, na fenomenologia, diferentemente das ciências naturais, o que importa não é o acúmulo tão grande quanto possível de exemplos ou fatos, mas a apresentação ou rememoração “exemplar” de fatos humanos singulares (Binswanger, 1977, p. 80, apud Tonus, 2021, p. 166).

Já Minkowski traz algo bastante interessante para pensarmos a investigação a partir do estudo de caso: a importância de se conceder grande valor ao que o clínico/pesquisador experimenta com o paciente/sujeito da pesquisa. Em uma passagem célebre do seu livro O tempo vivido, Minkowski fala das próprias reações dos clínicos na presença do doente como meio de investigação dos problemas mentais (Tonus, 2021). Colocado em nossas palavras: dado que não trabalhamos com a compreensão usual de “neutralidade”, entendemos que a forma como o pesquisador é afetado pelo outro no estudo de caso não é um dado “subjetivo”, que atrapalharia a pretensa objetividade do estudo. Ao contrário — aquilo que o pesquisador sente é um dado que deve ser cuidado e olhado, pois é um dado que revela muito sobre o fenômeno que se busca investigar e sobre a forma como esse fenômeno está sendo acessado. Um estudo rigoroso só é possível se a afetação do pesquisador for considerada e não descartada como se fosse algo que “suja a pureza” do objeto de estudo.

Os exemplos de estudos de caso de Binswanger e Minkowski são incontáveis, porém não nos compete aqui entrar nas minúcias desses casos clínicos, e sim apontar o valor que ambos os autores atribuíam a essa forma de se acessar o fenômeno. O olhar minucioso ao mostrar aquela pessoa em particular, em toda sua biografia, sentidos e idiossincrasias, possibilitava, a esses autores, o acesso à existência humana com a devida profundidade.

Naudin (2012/2021), ao pensar no valor fenomenológico do estudo de caso, entende que “a pessoa que nós encontramos [no estudo de caso], enquanto outro autêntico, conserva irrevogavelmente sua parte de mistério” (p. 4). Compreendemos que essa dimensão de mistério que o outro conserva é bastante importante ao pensarmos fenomenologicamente, já que é impossível esgotar a existência do outro, ou seja, supor que, através do estudo de caso, o outro se desocultará ao pesquisador em absoluto.

Ir em direção ao outro, entendendo esse outro como mistério, é postura que não apenas pode conferir ao pesquisador certa humildade intelectual e respeito perante aquele de quem se aproxima, como também abre o pesquisador para a própria possibilidade do novo e do surpreender-se, além do rigor de aproximar-se do fenômeno sem concepções prévias enrijecidas sobre aquilo que se deve encontrar, possibilitando, assim, que o fenômeno se mostre em suas próprias medidas e em seu próprio mistério.

Naudin (2012/2021) chama tal postura de um esforço de relaxamento por parte do pesquisador ao se aproximar do fenômeno no estudo de caso, permitindo a seu pensamento divagar livremente enquanto observa. No entanto, tal relaxamento envolve também que não olhemos unicamente os fenômenos que visamos acessar, mas também o que já pensávamos acerca do mundo, antes mesmo de os ver (Naudin, 2012/2021). Olhar para si e para aquilo que carregamos é fundamental para a construção do estudo de caso, considerando que, em última instância, este é um fenômeno narrativo, algo que se conta. O pesquisador não é anônimo ou mero receptáculo que apreende fenômenos puros.

Nesta mesma linha de raciocínio, Naudin (2012/2021) aponta que não lidamos com um corpo “anônimo”; o corpo que observamos não é o corpo que o médico examina, corpo que o ato médico “neutraliza”, mas (e consideremos no próximo excerto que Naudin utiliza o termo “psiquiatra” devido a sua área de atuação, porém podemos substituí-lo sem perdas semânticas por “pesquisador”):

(...) um corpo em que os aspectos expressivos, estéticos ou eróticos (numa palavra: a atitude) não podem ser neutralizados sem que haja perda de sentido, já que implicam a própria pessoa no contexto prévio da relação interpessoal. É precisamente o que o ato médico busca neutralizar que constitui o essencial das indicações sobre as quais o psiquiatra se baseia (...): sua biografia, sua história interior, a maneira através da qual entra em contato com o outro e como ele mesmo é tocado pela presença deste outro. O que o psiquiatra observa no encontro, o que tipicamente se lê no olhar e que Lévinas chama de rosto (Contini, 2005), o que se ouve também no discurso é o curso invisível e, entretanto, tão presente de uma biografia interior. (Naudin, 2012/2021, p. 5)

Essa tentativa de neutralizar o corpo, tal como vemos em pesquisas quantitativas ou que trabalham com metodologia estandardizada, justamente esvazia este corpo de seu sentido e de sua atitude e, portanto, impossibilita sua verdadeira compreensão. Compreendemos, assim, que a forma de se olhar muda aquilo que se vê, e não estar ciente disso encerra o pesquisador em uma perigosa ingenuidade. Quando escolhemos a forma de acesso ao fenômeno a ser utilizada em uma pesquisa, escolhemos também o que vamos permitir que apareça. Ao, por exemplo, elaborarmos um questionário, delimitamos de forma irredutível o que poderá se mostrar, já que nada além do visado terá ao menos a chance de aparecer. Algo que consideramos de grande valor no estudo de caso é que, ao menos de início, ele abre mais do que fecha, dado seu próprio formato. Certamente, seu formato não é garantia de que o outro poderá se mostrar, porém não encerra essa possibilidade de antemão.

Outra contribuição de Naudin (2012/2021) para se pensar o estudo de caso na Fenomenologia é a noção de saber expert e saber profano e como ambos se entrelaçam na construção do relato caso. Saber expert diz respeito às teorias que antecedem o acesso ao fenômeno em específico (a pessoa única e irrepetível); todo o saber acumulado sobre determinada temática e que é imprescindível na construção do conhecimento (nunca começamos do zero) e que diz respeito ao lugar científico e profissional que ocupamos (por exemplo, o olhar do enfermeiro, partindo de seus saberes, apreende algo diferente do psicólogo). Já o saber profano se configura como mais prosaico e espontâneo, um saber vivo, feito de crenças e representações sobre aquela pessoa em específico; é o saber que ressitua o sujeito no palco do mundo-da-vida, que é seu ponto de ancoragem originário (Naudin, 2012/2021). O saber expert e saber profano se encontram de forma particular nas ciências humanas, diferentemente das ciências naturais:

É falso, e certamente bastante grosseiro, alegar que, em psiquiatria [ciências humanas], as histórias subjetivas, justamente por serem subjetivas, devem ser eliminadas dos relatos de caso, estudos em que apenas os fatos deveriam aparecer. É muito mais justo considerar, como Howard (Howard, 1991), que esse é o critério pelo qual se pode prejulgar a legitimidade das histórias no que diz respeito às suas diferenças. Se os critérios de legitimidade que prevalecem quando nos remetemos aos fatos científicos são de tipo matemático: fiabilidade estatística, validade, fidelidade preditiva, os que prevalecem nas histórias subjetivas são principalmente de ordem hermenêutica e fundados sobre a compreensão (...) (Naudin, 2012/2021, p. 7)

Assim, quando pensamos na relação dialética entre um corpo de saber que antecede o estudo de caso e a pessoa singular escutada no estudo de caso, podemos entender, de acordo com Naudin (2012/2021), que o relato de caso, em si mesmo, é um tijolo trazido em meio à vida do paciente, que contribui para a construção geral do edifício clínico. Esse edifício se revela imediatamente como uma construção intersubjetiva e é a partir dessa comunhão que se faz emergir, quando possível, numa compreensão mútua, o sujeito.

O edifício clínico, ao qual o autor se refere, é construído por meio de sedimentações sucessivas, no instante mesmo ou retrospectivamente, por rompantes, sobressaltos, choques, corpos e culturas, já que a clínica se faz na intersubjetividade a partir do número e da diversidade dos casos e dos encontros que representam as inúmeras variações dentro das possibilidades humanas (Naudin, 2012/2021). “A clínica repousa sobre o estudo dessas variações e das regularidades que delas surgem”: novamente, aqui aparece a relação dialética entre aquilo que surge na experiência individual que dá notícias da existência humana de forma mais abrangente (que aqui ele chama de “tipo” ou “categorias”), porém sempre conservando o singular e irrepetível de cada um que se mostra nos estudos de caso. Naudin (2012/2021) faz menção à ideia de essência de Husserl, tal como Tonus (2021):

No fundo, os tipos clínicos se parecem um pouco com as essências (eidos) que a redução eidética de Husserl tenta tornar manifestas: eles são o invariável que aparece de maneira flagrante dentre as infinitas variações que nos dão os encontros singulares. (Naudin, 2012/2021, p. 8)

Nessa relação dialética, é justamente a dimensão desse singular e irrepetível que pode fazer aparecer algo de novo. Afinal, o estudo de caso não teria sentido se sua intenção fosse apenas ratificar categorias já sedimentadas. Além disso, seu caráter de profundidade o dota de valor pela sua exaustividade e não pela força estatística (como já exposto, um valor bastante distinto daquele presente em questionários, por exemplo). Naudin (2012/2021) aponta que um único caso publicado, por mostrar algo novo, pode mudar o curso da clínica, basta que ele seja exemplar de um tipo e de uma possibilidade humana para ter sentido. Novamente, o autor traz a dimensão do espanto e do mistério, que irrompe o que até então se mostrava como sedimentado ou “resolvido” —, noções fundamentais para aqueles que se propõem a aventurar pela pesquisa:

Etimologicamente, ele é o que caiu (casus, de cadere, cair), o que acontece fortuitamente, o que é inesperado. O caso é, no fundo, o sentido particular que um fato toma quando nos é revelado por acidente. O caso detém seu valor heurístico por meio do espanto que produz. Ele não é um simples fato, mas um evento. (...) a clínica evolui quando um caso novo manifesta qualquer coisa de inesperado que revela uma contradição nos fenômenos que pareciam, até então, regulados em função de princípios conhecidos e definidos. (p. 9)

Quanto a este espanto, o autor faz um paralelo com a atitude da épochè husserliana, a qual ele chama de “fenomenológica”. Ou seja, cabe a nós, pesquisadores, o esforço de suspender o sedimentado, atitude bastante distinta da natural ratificante, para que o outro possa aparecer fenomenologicamente, espantando-nos com aquilo que ele traz de novo.

Conversa, situação hermenêutica e cartografia em diálogo com o estudo de caso

Conforme exposto acima, há grande riqueza na empreitada da tradição fenomenológica de se acessar o fenômeno através do estudo de caso. Vemos, no entanto, tal tradição bastante marcada por uma fenomenologia das essências, de herança direta husserliana. Pensamos que pode haver grande contribuição de uma fenomenologia hermenêutica à noção de estudo de caso, devolvendo, de certa forma, o estudo de caso radicalmente ao mundo.

Não visamos uma tentativa de conciliação teórica entre fundamentações epistemológicas distintas (ainda que ambas com origem fenomenológica na tradição husserliana), e sim pensar a prática da pesquisa que se propõe a realizar estudo de caso e possíveis diálogos com conceitos outros que podem contribuir para a riqueza de tal pesquisa. Afinal, o estudo aqui se insere no campo da Psicologia e não propriamente da Filosofia: na Filosofia buscamos um “como”, uma inspiração ao nos dirigirmos aos fenômenos concretos do mundo. Segundo Chohfi e Provinciatto (2023), mesmo os estudos teóricos na Psicologia não são completamente abstratos: busca-se sempre lançar luz a alguma questão concretamente enfrentada no mundo. A pesquisa em psicologia à luz da fenomenologia hermenêutica sempre se debruça sobre a experiência do ser humano no mundo.

Assim, nossa tentativa é pensar quais as possíveis contribuições da Hermenêutica gadameriana e da Fenomenologia Hermenêutica heideggeriana ao estudo de caso. Tal como Chohfi (2021), faremos nossa própria interpretação recortada, já que não se trata aqui de reconstruir a obra desses autores por completo — a obra deles vale, para nós, pelo que nelas não coube, pelo que delas nos convoca a refletir para construir um caminho de pesquisa. De forma resumida, compreendemos, sobre a Fenomenologia Hermenêutica, que:

Na origem do termo, Fenomenologia é o dizer daquilo que se mostra. Hermenêutica, por sua vez, é a arte ou ciência da interpretação. O trabalho da Psicologia à luz da Fenomenologia Hermenêutica é o dizer interpretado daquilo que se mostra: aquilo que a mim se mostra no mundo me afeta, marcando-me, e, dessa marca, que é o tecido próprio da compreensão, faço palavra e devolvo ao outro, quem quer que seja, minha interpretação a esse respeito. É dessa forma quando estou atendendo alguém e assim também o é quando pesquiso. Não há método ou técnica a ser aplicado, o trabalho é ser-com e co-construir. Na medida em que não há técnica a ser aplicada, na pesquisa também não se tem um caminho pré-determinado (ou um script) a ser seguido: o caminho se constrói conforme o caminhar, acompanhando as ondulações do próprio terreno que se pesquisa. (Chohfi, 2021, p. 17)

Primeiramente, deter-nos-emos na noção gadameriana de conversa. Para Gadamer (1968/2012), a hermenêutica inclui sempre um encontro com as opiniões do outro, que vêm, por sua vez, à fala. Nesse encontro, Gadamer (2012) destaca o importante papel da autocrítica, já que aquele que compreende não postula uma posição superior, mas deve reconhecer, antes, a necessidade de pôr à prova a verdade que supõe própria. O autor traz, então, a noção de conversa:

O modelo fundamental de todo consenso é o diálogo, a conversa. É um fato evidente que não se pode empreender uma conversa quando uma das partes acredita absolutamente estar numa posição superior em relação à outra, como se ele imaginasse ter conhecimento prévio dos preconceitos a que o outro está enredado. Com isso, ele se fecha em seus próprios preconceitos. Em princípio, é impossível haver consenso dialogal quando um dos interlocutores do diálogo não se coloca inteiramente livre para a conversa. (Gadamer, 1968/2012, p. 115)

A conversa é entendida, nessa modalidade de investigação, como modo privilegiado de se aprofundar no fenômeno que é a experiência do outro (Chohfi, 2021). O ato de perguntar é central ao pensarmos a conversa: partimos muito mais de instigações do que de hipóteses formuladas que queremos comprovar ou defender; nesse sentido, perguntar é infinitamente mais importante do que afirmar (Chohfi, 2021).

A autora destaca três formas de pergunta na conversa dentro da pesquisa: a pergunta de pesquisa, as perguntas pelo caminho e as perguntas para o outro. Segundo Chohfi (2021), a pergunta de pesquisa é a bússola da construção do caminho, o sentido para onde se caminha ao longo da investigação, e não um caminho pré-determinado a ser seguido de forma irrefletida e inflexível. As perguntas que aparecem pelo caminho são aquelas que brotam do contato com o que vai se mostrando em campo e as perguntas ao outro aparecem nos encontros com estes. Neste modelo de pesquisa, trabalha-se com “entrevista aberta”, ou seja, sem uma estrutura enrijecida a ser seguida na conversa (se assim o fosse, não seria conversa) que se utiliza das perguntas como disparadores do conversar.

Sobre essa forma de pesquisar, precisamos ressaltar a relatividade da verdade (Critelli, 1993, citado por L. Szymanski, H. Szymanski, & Fachim, 2019 em Chohfi, 2021): a verdade depende do olhar do pesquisador e do modo como este pode interpretar o que a ele se apresenta, e isso é fundamental para o rigor da pesquisa:

Então, o rigor da pesquisa, conforme L. Szymanski, H. Szymanski e Fachim (2019), reside exatamente nisso: o “dado” é rigorosamente aquilo que se mostra para o pesquisador, levando-se em consideração o fato de que cada pesquisador foi construído historicamente de determinada maneira.(Chohfi, 2021, p. 99)

Nessa direção, segundo Chohfi e Provinciatto (2023), não se trata de um modo de pesquisar que tem em vista a construção de verdades absolutas ou afirmações incontestáveis sobre algo, e sim de um investigar que, partindo de especificidades e particularidades da realidade, pretende fomentar discussões sem a pretensão de generalizar as respostas que encontra.

Nesse sentido, as pesquisas em psicologia, sob o olhar da fenomenologia hermenêutica, são muito mais um mergulho exploratório, descritivo e interpretativo do que conclusivo. Ambiciona-se explorar e apresentar reflexões acerca da experiência que se pôde recolher em campo, sendo esta composta pela experiência do/a próprio/a pesquisador/a e dos/as outros/as com quem estabeleceu contato. (Chohfi e Provinciatto, 2023, p. 58)

Além disso, outro aspecto importante a se ressaltar quanto à conversa é a não neutralidade do pesquisador e a impossibilidade, em última instância, do pesquisador suspender a si próprio ao se aproximar do que se mostra. Conhecemos o lugar o qual pesquisamos, de alguma forma ele nos diz respeito, além de nos dirigirmos a ele sempre a partir da bagagem de conhecimento que já carregamos conosco. Assim, não podemos ter a pretensão de nos apagarmos, de retirarmos nosso corpo do problema ao qual nos dirigimos, já que isso não é nem ao menos possível. Entendemos rigor, aqui, como o deixar em evidência a nossa voz e a voz do outro nessa conversa. Boaventura Sousa Santos (2003) diz algo semelhante ao abordar o que ele chamará de Paradigma Emergente, diferenciando-o do paradigma dominante:

Hoje sabemos ou suspeitamos que as nossas trajetórias de vida pessoais e coletivas (enquanto comunidades científicas) e os valores, as crenças e os prejuízos que transportam são a prova íntima do nosso conhecimento, sem o qual as nossas investigações laboratoriais ou de arquivo, os nossos cálculos ou os nossos trabalhos de campo constituiriam um emaranhado de diligências absurdas sem fio nem pavio. No entanto, este saber, suspeitado ou insuspeitado, corre hoje subterraneamente, clandestinamente, nos não-ditos dos nossos trabalhos científicos. No paradigma emergente, o caracter autobiográfico e autorreferenciável da ciência é plenamente assumido. A ciência moderna legou-nos um conhecimento funcional do mundo que alargou extraordinariamente as nossas perspectivas de sobrevivência. Hoje não se trata tanto de sobreviver como de saber viver. Para isso é necessária uma outra forma de conhecimento, um conhecimento compreensivo e íntimo que não nos separe e antes nos una pessoalmente ao que estudamos. (p. 53)

Quanto à autocrítica na conversa, Gadamer (1968/2012) coloca que o compreender só é possível quando aquele que compreende coloca em jogo os próprios preconceitos. O pesquisador, ou o intérprete do fenômeno, pertence de modo inalienável ao próprio sentido do compreender, o que não significa um relativismo ou subjetivismo, visto que a coisa que está em questão a cada vez — o texto que se quer compreender — é o único critério que deve ter validade. Entendemos isso, em termos gadamerianos, como reabilitação do conceito de preconceito. A interpretação se move sempre em meio à tradição, aos conhecimentos prévios, e perante a isso, enquanto pesquisadores, não podemos nos colocar de forma ingênua ou sonâmbula — cabe a nós evidenciar nossos preconceitos, colocá-los em disputa, conversa, debate. Quanto a isso, uma fértil noção heideggeriana para se pensar essa questão é a de situação hermenêutica, que pode ser entendida como fio condutor da pesquisa.

Segundo Chohfi e Provinciatto (2023):

Se, a partir da Psicologia que se alia à fenomenologia, compreende-se a pesquisa como uma interpretação possível daquilo que se mostra a partir de si mesmo, acompanhando a etimologia da palavra “fenomenologia” (cf. Heidegger, 1967, p. 27-39), então a situação hermenêutica pode ser de interesse para a construção de tais investigações por oferecer contorno e rigor metodológico à prática clínica e à pesquisa em Psicologia. (p. 52)

Para tanto, os autores se utilizam do texto de Heidegger Interpretações fenomenológicas sobre Aristóteles: indicação da situação hermenêutica (1922), mais conhecido como Relatório Natorp (Natorp Bericht), no qual ele caracteriza a estrutura da situação hermenêutica. A situação hermenêutica compreende três características fundamentais: um ponto de vista, uma perspectiva e um horizonte.

(...) a posição do olhar, isto é, o ponto desde o qual se olha, é fundamental para determinar um campo de investigação: “o ponto de vista abarca o ‘a partir de onde’ a interpretação se realiza, ou seja, o respectivo modo de ser-aí [Daseinsweise] da situação de vida [Lebenssituation], na qual a interpretação se motiva” (Heidegger, 2005, p. 345; tradução nossa). Justamente por isso, o conteúdo de uma investigação fenomenológica nunca é neutro e isento de perspectiva, pois já assume uma posição preliminar — um ter prévio (Vorhabe) (...). O ponto de vista, por sua vez, possui uma direção, uma perspectiva, “segundo a qual se determina preconceptualmente o ser captado do objeto da interpretação “enquanto tal [coisa]” e “em que direção” deverá ser interpretado” (Heidegger, 2005, p. 347, tradução nossa). (...) A extensão que é agarrada/captada por esse ponto de vista devidamente perspectivado é o que, na situação hermenêutica, chama-se de horizonte, ou concepção prévia (Vorgriff) (...). Tal horizonte é “algo de que originariamente nós nos apropriamos” (Heidegger, 2011, p. 49), algo em relação ao qual conquistamos uma postura fundamental na qual a própria situação hermenêutica está devidamente implicada. Portanto, a apropriação do horizonte não corresponde a um “ter conhecimento” no sentido de ter recebido uma determinada “formação” específica. Trata-se, na verdade, de algo com o qual o ser-aí, na condição que lhe é própria, se relaciona originariamente. (Chohfi & Provinciatto, 2023, pp. 55-56)

É o olhar de quem interpreta. A perspectiva é o para onde esse olhar olha, a direção do olhar; segundo Chohfi (2021), a perspectiva se trata da direção que persigo, do olhar que vai, a cada vez, se construindo como metodológico, o ângulo de visão, a direção do olhar. O horizonte é aquilo que se pode enxergar a partir desse determinado ângulo, é o que está disponível no mundo; ele está sempre disponível, o que muda é como o olho, a perspectiva com a qual o olho. Em suma: estou aqui em uma posição, em um mundo no qual sou lançado e que não escolhi, o qual me projeto e olho de determinada forma.

A partir da explicitação da situação hermenêutica do pesquisador, é possível conferir rigor, conforme o entendemos, à pesquisa. Ou seja, explicita-se de onde parte o pesquisador e para onde e como ele olha o fenômeno do qual se aproxima. O rigor do qual falamos é bastante distinto daquele presente nas ciências naturais

(...) na direção oposta de determinada concepção de rigor científico, deixa-se abertamente explícita a não-neutralidade de quem pesquisa descrevendo, do começo ao fim, todos os passos da investigação, compreendendo que o campo se apresenta a partir de si mesmo, podendo conduzir a lugares e conteúdos não antes imaginados ou desejados pelo/a pesquisador/a. Nesse cenário, a pesquisa em psicologia à luz do método fenomenológico-hermenêutico, dá/constrói para si um conteúdo de investigação não como sendo algo isento de perspectiva, o que, porém, não implica uma ausência de rigor. O rigor da investigação não deixa de estar vinculado à percepção da posição do olhar e tudo o que ela implica, como se para haver rigor na pesquisa em psicologia houvesse a necessidade de suspender a posição do olhar de quem investiga. (Chohfi e Provinciatto, 2023, p. 59)

Portanto, o rigor que aqui buscamos é de outra ordem e, a partir de nossa perspectiva, tem direta relação com a explicitação da situação hermenêutica, e é justamente essa explicitação que torna possível a conversa. Outra noção que entendemos como pertinente é a de cartografia pela ótica da Fenomenologia Hermenêutica, que auxilia justamente no direcionamento da perspectiva de nosso olhar, no para onde e como olhamos, e, portanto, desvela o que vemos no horizonte.

Segundo Morato (2007), a cartografia é um trabalho pautado num olhar, numa abordagem clínica e cartografar, enquanto método, cumpre uma dupla função: detectar a paisagem, seus acidentes, suas mutações e, ao mesmo tempo, criar vias de passagem através deles (Morato, 2007): diferente do mapa, que contorna territórios já estabelecidos, a cartografia atravessa o tempo, nasce dos movimentos geográficos da terra, acompanha e se faz nas transformações da paisagem, criando história.

O cartógrafo não pretende estabelecer verdade; “tem a pele marcada por todos os encontros que faz em seu nomadismo” (Rolnik, 1989, p. 10) e vive buscando alimentos para compor cartografias, descobrir afetos e criar linguagem e sentido em redes de expressões mescladas, que percorrem seu corpo no encontro com os corpos que pretende entender. O “cartógrafo participa e constitui realidade. Seu movimento é de entrega para descobrir e inventar. Seu corpo é deixado vibrar nas várias frequências possíveis para encontrar sons, canais de passagem, carona para viver a existência” (Morato, 1999, p. 63). No trançar de corpos, cartografar é dar voz, aquela que parte da reflexividade de nosso olhar com muitos outros. Num tear constante, as instituições e seus atores vão se desvelando em cada gesto, em cada palavra, em cada sensação de incômodo ou constrangimento. (p. 10)

Assim, cartografar significa deixar-se levar por aquilo que se mostra no território ao qual se olha, entendendo território de forma ampla: território é o próprio pesquisador, são as instituições pesquisadas, são aqueles que ouvimos, permitindo-se surpreender com o inesperado que surge, sem a pretensão de tornar o pesquisado estático, e sim seguindo seu movimento. Pois, ao pesquisar, transformamos a nós próprios, revemos concepções e preconceitos prévios que carregávamos de início. A verdadeira conversa implica permitir, enquanto pesquisador, o movimento, e acompanhá-lo, explicitando e seguindo o fio condutor da situação hermenêutica.

Morato (2007) diz também da dimensão ética e política da cartografia: ética e política referem-se a privado e público, intimidade e exposição, cuidado e segurança, identidade e cidadania, saúde e normas, direitos e deveres, interior e exterior (Morato, 2007, p. 11). Ao se compreender a pesquisa necessariamente como interventiva e o pesquisador em sua radicalidade junto ao campo, além dessa relação ser sempre algo que necessita ser explicitado e cuidado, a pesquisa torna-se práxis política.

Considera-se que a interdependência entre o homem e o mundo, apontada pela fenomenologia, aproxima-se de um modo pertinente de compreender tanto o homem quanto o mundo. O homem é mundo e, se é preconizada uma ruptura enquanto condição para a possibilidade de um conhecimento “limpo e verdadeiro”, corre-se o risco de perder tanto o homem quanto o mundo. (Morato, 2007, p. 5)

Portanto, tal como Chohfi (2021), entendemos que a pesquisa em Psicologia, que tem como fundamentação a Fenomenologia Hermenêutica e a Hermenêutica, quando rigorosamente conduzida, favorece a inovação, no sentido de possibilitar espaço para a construção de novas interpretações a respeito de algum fenômeno.

Quando adentramos ao estudo de caso na tradição fenomenológica, sentimos falta de alguns aspectos: do pesquisador, de mundo e de movimento. Não cabe a nós sermos taxativos ao apontar tais questões, pois entendemos a riqueza da tradição e nossa impossibilidade de abarcá-la por completo, tal como a riqueza inesgotável de ambos os artigos, de Naudin (2012/2021) e Tonus (2021). Compreendemos, apenas, que certas concepções da Fenomenologia Hermenêutica e da Hermenêutica podem auxiliar a construção do estudo de caso na pesquisa.

Primeiramente, quanto ao pesquisador: certas pistas surgiram nos artigos lidos sobre estudo de caso na fenomenologia. Por exemplo, Tonus (2021) aponta como Minkowski aborda a importância do clínico olhar suas próprias reações perante o paciente como dados relevantes para compreensão do fenômeno, já que aquilo que o clínico experiencia é necessário de ser olhado a fim de garantir o rigor ao vislumbrar o que se mostra, sendo o afeto inseparável do percebido intelectivamente. Assim como Naudin (2012/2021) diz do esforço de relaxamento por parte do pesquisador para que permita ao seu pensamento divagar livremente ao se aproximar do fenômeno estudado, olhando tanto o fenômeno que visamos acessar, mas também para aquilo que já carregávamos conosco antes do contato com esse fenômeno.

Todos os autores trazidos por Tonus (2021) e Naudin (2012/2021) apontam, de uma forma ou de outra, para a complexidade do fenômeno olhado no estudo de caso e como a tentativa das ciências naturais de simplificação forçada, naturalista e estática de apreensão dos fenômenos acaba por privar a pesquisa justamente da dimensão mais rica e humana, que pode trazer algo de novo para o corpo clínico de conhecimento justamente pela profundidade e liberdade que o estudo de caso possibilita. No entanto, ainda que haja grande ênfase para a complexidade do fenômeno olhado, há pouca ênfase (como no caso de Minkowski e Naudin) ou nenhuma menção ao fato de que o pesquisador constitui necessariamente a complexidade do fenômeno, já que é ele que o olha. Assim, vemos ferrenha crítica às ciências naturais e sua suposta neutralidade, porém ainda se insiste na suspensão do clínico para devidamente se acessar o fenômeno. Quando pensamos na noção de situação hermenêutica, compreendemos que o rigor só é possível quando se considera radicalmente o pesquisador, em seu ponto de vista, perspectiva e horizonte, como constitutivo do fenômeno que se adentra na pesquisa. Naudin aponta que o corpo do sujeito acessado no estudo de caso não é um corpo anônimo, porém é importante se considerar que o corpo do pesquisador também não é anônimo.

Entendemos, assim, que é necessária uma verdadeira conversa, em termos gadamerianos, entre pesquisador e pesquisado no estudo de caso. Conversa esta que implica a autocrítica, a reabilitação do conceito de preconceito, a compreensão da relatividade da verdade sem relativismos e a compreensão de que a pessoa estudada no estudo de caso é o verdadeiro expoente do fenômeno e do conhecimento que pode ser possibilitado (ou seja, não há relação de superioridade e inferioridade na dinâmica entre o pesquisador e o pesquisado, ainda que ocupem lugares diferentes) e na primazia do perguntar sobre o afirmar.

Quanto à relação da pessoa olhada e do mundo, do horizonte, Tatossian dá pistas disso ao pontuar o aspecto duplo da experiência fenomenológica no estudo de caso, empírica (no sentido comum) e apriórica (Tonus, 2021): a empírica comporta o singular e a apriórica diz da existência humana de forma mais basilar e de suas condições de possibilidade. Em diálogo com a Fenomenologia Hermenêutica, compreendemos que, mais do que se objetivar apreender a essência do fenômeno clínico, suspendendo o pesquisador e toda sua bagagem, cabe olhar a relação da pessoa olhada com seu mundo, que notícias essa pessoa dá do mundo, como ela habita este mundo e como o pesquisador se relaciona com ela, com seu problema de pesquisa e com esse mundo que é o nosso. Para tanto, evocamos a importância da cartografia na pesquisa, como forma de se olhar rigorosamente essa radical relação de ser-no-mundo que surge no estudo de caso. Portanto, seguindo essa lógica de raciocínio, entendemos que o estudo de caso, em diálogo com a cartografia, pode abranger para muito além da área da Psicopatologia e da Psiquiatria (área na qual encontramos as produções fenomenológicas sobre a temática do estudo de caso). O estudo de caso pode adentrar quaisquer fenômenos da existência humana, deste ser que somos no mundo, em constante movimento.

Tonus (2021) coloca que Jaspers, autor tão central e que se encontra nas origens da fenomenologia, já apontava que o ser humano não é passível de ser apreendido como se fosse algo estático, uma somatória de partes e sintomas que resulta em um todo, regido por regras constantes e universais, tal como, na atitude natural, as ciências naturais colocam. Naudin (2021), por sua vez, dá grande ênfase ao caráter de espanto, de singularidade e irrepetibilidade que surge no estudo de caso quando o pesquisador permite-se escutar e surpreender-se. Naudin (2012/2021) fala também do saber profano e do saber expert, sendo o saber profano o mais prosaico e espontâneo, um saber vivo. Em diálogo com esses sentidos, podemos pensar na riqueza que a cartografia fundamentada na Fenomenologia Hermenêutica pode possibilitar para o estudo de caso. Pois é constitutivo da proposta da cartografia o acompanhamento do movimento da pesquisa, seja o movimento do pesquisador, mundo ou do pesquisado. E, neste movimentar-se, tropeçamos no inesperado, no espanto, e também no saber profano que se mostra a nós quando olhamos atentamente o que emerge do mundo.

Vimos com Tonus (2021) e Naudin (2012/2021) o gigante valor que se dá para a apreensão da singularidade e o que de novo pode emergir justamente dessa singularidade no estudo de caso, porém pouca ênfase ao mundo e horizonte que sustentam tal singularidade. Pensamos, assim, que a cartografia, ao reconhecer na pesquisa o caráter radicalmente no mundo, possibilita devolvermos a singularidade ao mundo que a sustenta, evitando um caráter solipsista, ensimesmado e sem mundo no estudo de caso. Assim como esse aspecto dialoga com a constitutiva e incontornável intersubjetividade (condição de possibilidade) que os autores da tradição fenomenológica apresentada evidenciam.

Caso Bernadete

A fim de ilustrar as conceituações expostas até aqui, traremos um exemplo de um estudo de caso orientado pela tradição da Psicopatologia Fenomenológica e somaremos a ele reflexões provindas da fenomenologia-hermenêutica e da cartografia a fim de seu enriquecimento compreensivo. Para tanto, utilizamo-nos de um estudo de caso de Brojato (2014), orientado por Tonus, uma das autoras na qual nos fundamentamos na primeira parte deste artigo. Ressaltamos que não visamos aqui um aprofundamento no caso em questão, não sendo este nosso propósito central, e sim uma tentativa de ilustrar a temática de nosso artigo.

Segundo Brojato (2014), seu trabalho teve por intuito a construção de um diagnóstico estrutural, além de esboçar uma hipótese genética da doença a qual investigou, através da Psicopatologia Fenomenológica enquanto ferramenta. O autor apresenta o caso de Bernadete (nome fictício), no qual a descrição clínica foi realizada por meio de seis atendimentos no período de oito meses em um equipamento da Assistência Social. Em seu estudo de caso, ele buscou compreender a alteração do tempo vivido e do fenômeno obsessivo na melancolia.

A seguir, apresentaremos um resumo do caso e de sua discussão clínica.

Bernadete é uma mulher em situação de vulnerabilidade social e vítima de violência doméstica e chega ao atendimento em 2013 encaminhada por um serviço público. Seu relato inicial demonstra sofrimento intenso, com depressividade marcada, baixa autoestima e grande dificuldade em imaginar uma vida independente do parceiro agressor. Já diagnosticada com transtorno bipolar e com histórico de uso de psicotrópicos, manifesta resistência ao tratamento, temendo o efeito “anestésico” dos medicamentos. Ao longo dos atendimentos, revela sofrimento crescente ligado à morte de um dos filhos, falecido há um ano. Desenvolve pensamentos obsessivos sobre ele estar vivo e apresenta dificuldade em aceitar sua perda, o que domina seu cotidiano e a impede de realizar tarefas básicas. Essas ideias se intensificam com o tempo, e a paciente começa a expressar ideias suicidas e sentimentos de fracasso como mãe, filha e mulher. A possível liberação de um benefício assistencial — que poderia significar autonomia — gera mal-estar e ansiedade, evidenciando o quanto a emancipação é vivida por ela como insustentável. Mesmo tentando romper com o companheiro, retorna para ele, justificando sua atitude com esperanças de mudança e forte dependência emocional. Apesar de algumas atitudes de enfrentamento, como sair da casa do agressor ou buscar ajuda social, sua narrativa é atravessada por sentimentos de impotência, culpa e paralisia existencial. As obsessões com o filho morto continuam, assim como a ideia de que sua vida perdeu o sentido. No último atendimento registrado, Bernadete demonstra preocupação com a possível perda da guarda dos filhos devido à sua escolha de retornar ao companheiro agressor. Sua identidade materna se mostra fragilizada, e ela oscila entre desejos de mudança e a persistente sensação de fracasso, especialmente em relação à maternidade. Mesmo as intervenções terapêuticas não parecem provocar mudanças estruturais em sua forma de existir, marcada por sofrimento crônico, paralisia diante do futuro e retração existencial.

Já na discussão do caso, Brojato (2014) buscou compreender a estrutura psicopatológica do sofrimento de Bernadete por meio da fenomenologia, focando nas categorias de temporalidade e espacialidade, além de discutir uma hipótese genética fenomenológica da melancolia. O autor compreende que Bernadete encontra-se com a sua temporalidade comprometida: há um esgotamento, um tempo paralisado e voltado para o passado, com dificuldade de projetar o futuro, demonstrando também rigidez afetiva e experiência de fracasso existencial. O tempo é vivido como algo que apenas “passa”, sem sentido, e o mundo é percebido como pesado e inacessível. A possibilidade de libertação (ex: benefícios sociais) evoca um colapso de seu eu, pois há uma incapacidade estrutural de se libertar. Sua vida é guiada por um ser-para-os-outros, não por um projeto pessoal. Reforçando a hipótese melancólica, os pensamentos sobre o filho morto não organizam a vida, apenas a paralisam, levando a uma anestesia afetiva e à ideação suicida, sem capacidade de sentir mesmo diante da tragédia. A mobilidade existencial permanece bloqueada, com a temporalidade congelada e o espaço limitado. É proposta a imagem metafórica do “Complexo de Atlas”, como alguém fadado a carregar o mundo, sem poder deixá-lo.

Brojato (2014) defende, enquanto hipótese diagnóstica, que Bernadete apresenta traços do Typus Melancholicus: rigidez moral, julgamento constante, forte orientação ao sacrifício pelos outros, sentimento de culpa e fracasso existencial (especialmente após a morte do filho). A crise é entendida como um rompimento psicótico melancólico, desencadeado pela impossibilidade de sustentar a culpa pela perda do filho, levando ao colapso da estrutura rígida e hipernormativa de sua personalidade. O autor, por fim, compreende que Bernadete apresenta um quadro que pode ser compreendido como melancolia endógena, estruturada fenomenologicamente a partir de uma personalidade do tipo melancólico, cuja temporalidade estagnada e espacialidade vazia levam a uma forma de sofrimento profunda, paralisante e de difícil mobilização afetiva.

Visamos aqui um breve resumo do estudo de caso e da discussão clínica de Brojato (2014). No entanto, ressaltamos que, em nossa tentativa de realizar este apanhado, certamente não foi possível dar conta da riqueza clínica e diagnóstica apresentada pelo autor. Orientado por compreensões da Psicopatologia Fenomenológica, o autor investiga em profundidade as nuances da existência de Bernadete a fim de chegar na essência psicopatológica de seu quadro e, em contrapartida, agrega à compreensão geral daquilo que se entende na tradição por tipo melancólico justamente através de seu estudo de caso, contribuindo para esse corpo de conhecimento. Conforme já colocamos, na experiência investigada no estudo de caso, vislumbra-se algo do singular, porém também algo de essencial da experiência humana que só é passível de ser visto tendo como ponto de partida o singular. Ou seja, através de Bernadete, foi possível se investigar não apenas a ela em específico, mas também a existência humana e o mundo humano de forma geral.

Mais do que questionários, escalas ou entrevistas estruturadas, a força do estudo de caso de Brojato (2014) está na disponibilidade para deixar Bernadete aparecer, em toda sua singularidade, complexidade e mistério. E a paciente, podendo aparecer em sua inteireza, traz ao saber expert (Naudin, 2012/2021) da Psicopatologia Fenomenológica o saber profano, que possibilita o surgimento do novo na tradição.

Brojato (2014), além disso, dá voz a si próprio enquanto pesquisador-clínico quando aponta para a importância de seus próprios afetos perante Bernadete, sendo fundamental para compreendê-la de fato e realizar um diagnóstico rigoroso, como no seguinte exemplo:

Nesse atendimento, o sofrimento demonstrado por Bernadete não causa empatia em mim. Mesmo o choro, ou os lamentos, ou o desejo de mudar, ressoavam como tentativas malsucedidas de desdobramento existencial para um futuro que, por um movimento de retrospecção, dissesse mais sobre o mesmo, não indo a lugar algum. (p. 15)

O autor faz o mesmo movimento em outros momentos de seu artigo, ainda que timidamente. Descrever a própria afetação é tanto necessário quanto corajoso, já que nem sempre o outro mobiliza em nós afetos fáceis ou simples. Brojato (2014), assim, olha para si enquanto olha para a paciente: o pesquisador constitui necessariamente a complexidade do fenômeno, já que é ele que o olha. Uma verdadeira conversa entre pesquisador e pesquisado. Neste ponto, os conceitos de conversa gadameriana e de situação hermenêutica poderiam trazer ainda mais riqueza à pesquisa. Afinal, quem é este pesquisador que olha para Bernadete e o que sua forma de olhar diz sobre essa Bernadete apreendida? Podemos ver o pesquisador com clareza no seguinte trecho:

Sendo assim, esse Complexo de Atlas, maneira como busco de alguma forma expressar metaforicamente a experiência da paciente, expressa a estruturação de Bernadete. Atlas, titã da mitologia grega, condenado a suportar o peso do mundo em seus ombros por uma determinação que surge de fora, no caso, de Zeus como punição eterna por ter ousado enfrentar seu poderio. Bernadete, ao passo que se esforça para suportar esse peso, permanece paralisada, com a espacialidade restrita àquele lugar de submissão, sem perspectiva de emancipação. (p. 20)

Utilizar a primeira pessoa em um estudo de caso constitui postura bastante fenomenológica e revela o rigor da pesquisa. No trecho em questão, podemos ver certas referências pessoais do autor: por exemplo, a mitologia grega. Referência esta que agrega muito ao caso. O autor bem esclarecido sobre a inescapabilidade de seu olhar pode se utilizar desse olhar para enriquecer a pesquisa, como é possível ver nesta metáfora que Brojato (2014) faz. No entanto, é necessário, justamente, estar bem esclarecido, a fim de não cair em armadilhas e pontos cegos dos próprios preconceitos — aqui, as noções de Gadamer se mostram necessárias: a autocrítica e a reabilitação do conceito de preconceito.

Outro aspecto imensamente interessante desse estudo de caso são as notícias que ele traz de seu mundo e a forma como esse mundo é determinante para o sofrimento dessa mulher em questão. Aqui, a cartografia pode agregar muito em sentido. Bernadete não é um ser em abstrato: ela é uma mulher brasileira, pobre, que necessita utilizar serviços públicos e pleiteia benefício socioassistencial, em uma situação de violência doméstica, que teme perder a guarda de seus filhos, que perdeu um filho, filho esse que já passou pela Fundação Casa. Certamente, uma paciente muito distinta daquelas de Binswanger na Suíça dos anos 1950. Brojato (2014), ao longo de seu artigo, demonstra por diversas vezes a indissociabilidade de Bernadete e seu mundo, relação essa que poderia ter investigação ainda mais aprofundada através do cartografar. Como já colocamos, ao cartografar, olhamos a relação da pessoa olhada com seu mundo, que notícias essa pessoa dá do mundo, como ela habita esse mundo e como o pesquisador se relaciona com ela, com seu problema de pesquisa e com esse mundo que é o nosso. Novamente: a fim do rigor no estudo de caso, é necessário olhar para a radicalidade da relação entre pesquisado e seu mundo, evitando um caráter solipsista, ensimesmado.

Algo interessante que Brojato (2014) faz é descrever os encontros com Bernadete para depois ir para além do explícito e analisar o sentido fenomenológico de cada um desses encontros: nisso, olha para Bernadete em seu movimento, e não enquanto algo estático, pronto. O autor demonstra inclusive o movimento no seu próprio ato de diagnosticar, já que fez e desfez hipóteses diagnósticas de acordo com o que se mostrava. Olhar para o movimento, algo tão caro à cartografia, proporciona ao estudo de caso grande riqueza e clareza quanto ao caminho diagnóstico e raciocínio clínico. Este acompanhar o movimento poderia ser ainda mais enriquecido se fosse possível um cartografar mais literal: conhecer outras pessoas da vida de Bernadete, por exemplo, ou acompanhá-la em outros espaços para além do contexto de atendimento.

Conclusão

Após adentrarmos os artigos que encontramos sobre estudo de caso na tradição fenomenológica, de Tonus (2021) e Naudin (2012/2021), pudemos vislumbrar aquilo que grandes autores da Fenomenologia tinham a dizer sobre a forma de acesso ao fenômeno aqui chamada de estudo de caso, tais como Jaspers, Tatossian, Minkowski, Binswanger, além dos próprios autores dos artigos, que agregaram a estes suas próprias compreensões sobre a temática.

Tal tradição comporta inabarcável complexidade e riqueza, porém, tal como Chohfi (2021), entendemos que suas obras valem, também, pelo que nelas não coube, pelo que delas nos convoca a refletir para construir um caminho de pesquisa dentro da Psicologia. Assim, sem a pretensão de conciliações teóricas entre bases epistemológicas distintas e sim objetivando enriquecer a metodologia de pesquisa do estudo de caso na Fenomenologia, colocamos os autores em diálogo com as noções de conversa de Gadamer, situação hermenêutica de Heidegger e de cartografia fundamentada na filosofia hermenêutica exposta por Morato (2007). Entendemos que tais conceitos podem contribuir muito em aspectos aos quais houve pouca ou nenhuma ênfase nos artigos citados de início: o pesquisador, o mundo e o movimento.

  • 1
    A investigação foi construída no âmbito da disciplina “Prática de pesquisa em psicologia: possibilidades metodológicas a partir da perspectiva da fenomenologia hermenêutica”, ministrada por uma das autoras na pós-graduação do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo – USP.
  • Financiamento/Funding:
    As autoras declaram não terem sido financiadas ou apoiadas / The authors have no support or funding to report.

Disponibilidade de Dados de Pesquisa:

Não se aplica.

Referências

  • Brojato, H. C. (2014). Análise estrutural da alteração do tempo vivido: um estudo de caso em psicopatologia fenomenológica Monografia de especialização, Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.
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  • Chohfi, L. M. S. (2021). A permanência estudantil na Universidade de São Paulo: um estudo da situação hermenêutica. Tese (Doutorado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2021. doi:10.11606/T.47.2021.tde-13072021-173435. Acesso em: 2024-06-25.
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  • Editores do artigo/Editors:
    Paulo Antonio de Campos Beer, Marcelo Ferretti

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    26 Maio 2025
  • Aceito
    23 Out 2025
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