Resumo
Este artigo investiga as transformações históricas e epistemológicas que moldaram a concepção da histeria e das neuroses entre os séculos XVIII e XIX, analisando as contribuições fundamentais de Robert Whytt, William Cullen e Philippe Pinel. Partindo da transição do modelo humoral para uma neurologia emergente, o estudo demonstra como esses autores redefiniram as doenças nervosas: Whytt estabeleceu uma fisiologia baseada no sistema nervoso, Cullen propôs uma classificação nosológica pioneira, e Pinel introduziu o critério da ausência de lesão orgânica como marco das neuroses. Metodologicamente, o artigo combina análise histórica e reflexão epistemológica, examinando tratados originais e sua contextualização no pensamento médico da época. Os resultados revelam a histeria como uma categoria paradoxal — simultaneamente estabilizada por esquemas científicos e resistente à categorização definitiva —, refletindo tensões entre corpo e mente que ecoariam na psicogênese de Charcot, em Paris, e na psicanálise freudiana, em Viena. Conclui-se que a histeria, mais que um diagnóstico obsoleto, representa uma questão permanente e em constante transição epistemológica.
Palavras-chave
Histeria; neurose; história da medicina; epistemologia; Whytt; Cullen; Pinel
Abstract
This article investigates the historical and epistemological transformations that shaped the conception of hysteria and neuroses between the 18th and 19th centuries, analyzing the fundamental contributions of Robert Whytt, William Cullen, and Philippe Pinel. Starting from the transition from the humoral model to an emerging neurology, the study demonstrates how these authors redefined nervous diseases: Whytt established a physiology based on the nervous system, Cullen proposed a pioneering nosological classification, and Pinel introduced the criterion of the absence of organic lesions as a defining feature of neuroses. Methodologically, the article combines historical analysis and epistemological reflection, examining original treatises and their contextualization within the medical thought of the time. The results reveal hysteria as a paradoxical category — both stabilized by scientific frameworks and resistant to definitive categorization — reflecting tensions between body and mind that would later resonate in Charcot’s psychogenesis in Paris and Freudian psychoanalysis in Vienna. The conclusion is that hysteria, rather than an obsolete diagnosis, represents a permanent issue in constant epistemological transition.
Keywords
Hysteria; neurosis; history of medicine; epistemology; Whytt; Cullen; Pinel
Abstract
Cet article examine les transformations historiques et épistémologiques qui ont façonné la conception de l’hystérie et des névroses entre les XVIIIe et XIXe siècles, en analysant les contributions fondamentales de Robert Whytt, William Cullen et Philippe Pinel. En partant de la transition du modèle humoral vers une neurologie émergente, l’étude montre comment ces auteurs ont redéfini les maladies nerveuses : Whytt a établi une physiologie fondée sur le système nerveux, Cullen a proposé une classification nosologique pionnière et Pinel a introduit le critère de l’absence de lésion organique comme marqueur des névroses. Méthodologiquement, l’article combine une analyse historique et une réflexion épistémologique, en examinant les traités originaux et leur contextualisation dans la pensée médicale de l’époque. Les résultats révèlent l’hystérie comme une catégorie paradoxale — à la fois stabilisée par des cadres scientifiques et résistante à une catégorisation définitive —, reflétant des tensions entre corps et esprit qui résonneraient dans la psychogenèse de Charcot, à Paris, et dans la psychanalyse freudienne, à Vienne. Il en ressort que l’hystérie, loin d’être un diagnostic obsolète, représente une question permanente et en constante transition épistémologique.
Mots-clés
Hystérie; névrose; histoire de la médecine; épistémologie; Whytt; Cullen; Pinel
Resumen
Este artículo investiga las transformaciones históricas y epistemológicas que moldearon la concepción de la histeria y las neurosis entre los siglos XVIII y XIX, analizando las contribuciones fundamentales de Robert Whytt, William Cullen y Philippe Pinel. Partiendo de la transición del modelo humoral hacia una neurología emergente, el estudio demuestra cómo estos autores redefinieron las enfermedades nerviosas: Whytt estableció una fisiología basada en el sistema nervioso, Cullen propuso una clasificación nosológica pionera y Pinel introdujo el criterio de la ausencia de lesión orgánica como marca distintiva de las neurosis. Metodológicamente, el artículo combina análisis histórico y reflexión epistemológica, examinando tratados originales y su contextualización en el pensamiento médico de la época. Los resultados revelan la histeria como una categoría paradójica: simultáneamente estabilizada por esquemas científicos y resistente a una categorización definitiva, reflejando tensiones entre cuerpo y mente que resonarían en la psicogénesis de Charcot en París y en el psicoanálisis freudiano en Viena. Se concluye que la histeria, más que un diagnóstico obsoleto, representa una cuestión permanente y en constante transición epistemológica.
Palabras clave
Histeria; neurosis; historia de la medicina; epistemología; Whytt; Cullen; Pinel
A histeria, enquanto categoria nosográfica, atravessa séculos de história médica como um enigma que desafia as fronteiras entre o orgânico e o psíquico, entre a neurologia e a psiquiatria. Seu percurso, marcado por transformações epistemológicas radicais, reflete não apenas a evolução do pensamento médico, mas também as tensões culturais e científicas de cada época. A proposta deste artigo é desvelar as bases históricas que alicerçaram a concepção moderna das neuroses e da histeria, examinando as contribuições fundamentais de Robert Whytt, William Cullen e Philippe Pinel — figuras capitais que, entre os séculos XVIII e XIX, redefiniram o entendimento das doenças nervosas. Objetiva-se, com isso, não apenas mapear a transição do modelo humoral para uma neurologia incipiente, mas também demonstrar como essas reformulações conceituais ecoaram nos séculos subsequentes, influenciando desde a anatomia patológica de Charcot até a psicanálise freudiana.
Para tal empreendimento, adota-se uma metodologia que conjuga a análise histórica com a reflexão epistemológica, valendo-se tanto de fontes primárias — como os tratados Observations on the Nature, Causes, and Cure of Those Disorders Which Have Been Commonly Called Nervous, Hypochondriac, or Hysteric (Whytt, 1764), First Lines of the Practice of Physic (Cullen, 1784) e Nosographie Philosophique (Pinel, 1818) — quanto de estudos secundários que contextualizam tais obras no panorama médico e cultural de seu tempo. O artigo estrutura-se em três eixos analíticos: 1) a teoria nervosa de Whytt, que substituiu as explicações humorais por uma fisiologia do sistema nervoso; 2) a classificação culleniana das neuroses, que sistematizou as doenças nervosas em um esquema nosológico pioneiro; e 3) a clínica pineliana, que introduziu o critério da ausência de lesão orgânica como marca distintiva das neuroses.
Este percurso revela um paradoxo fundante: se, por um lado, Whytt, Cullen e Pinel buscaram ancorar a histeria em bases científicas — seja através da localização nervosa, da taxonomia ou da observação clínica —, por outro, sua natureza elusiva manteve-a como um “limbo nosológico” (Mitchell, 1875, p. 94), sempre à margem dos paradigmas dominantes. Ao examinar essa dialética entre estabilização conceitual e resistência à categorização, o artigo não apenas ilumina um capítulo crucial da história da medicina, mas também problematiza as relações entre corpo, mente e cultura que ainda hoje permeiam o estudo das doenças psíquicas. Como veremos, a histeria, longe de ser mero objeto do passado, permanece um testemunho privilegiado das aporias inerentes à prática médica — entre a materialidade do corpo e a intangibilidade da experiência subjetiva.
Doença nervosa como paradigma
A emergência do conceito de neurose no século XVIII representa uma transformação fundamental na epistemologia médica. De acordo com López Piñero (1985, p. 23), essa transformação envolveu uma ruptura com o modelo humoral galênico e a constituição de um novo paradigma baseado no sistema nervoso como centro regulador do organismo. A compreensão moderna das afecções nervosas é resultado de um extenso e complexo processo histórico, no qual o contexto médico britânico assumiu papel de destaque. As diversas contribuições, embora distintas em termos metodológicos e epistemológicos, foram de importância crucial para a formação das bases conceituais e práticas que, em última instância, possibilitaram a formulação das neuroses como categoria clínica.
No cenário médico do século XVIII, poucos trabalhos foram tão determinantes para o entendimento das patologias nervosas e dos princípios de uma iminente neurofisiologia quanto as contribuições de Robert Whytt. Inserido no contexto do Iluminismo escocês, Whytt foi precursor da fisiologia experimental do sistema nervoso e documentou descobertas relevantes, particularmente sobre os mecanismos das respostas reflexas medulares e na explicação do reflexo pupilar à luz. Como observa Rocca (2007, p. 86), suas contribuições foram suficientes para garantir-lhe um lugar como uma das figuras mais importantes na história das neurociências. No entanto, no que concerne à nossa delimitação, nos restringiremos, em larga medida, à obra Observations on the Nature, Causes, and Cure of Those Disorders Which Have Been Commonly Called Nervous, Hypochondriac, or Hysteric, de 1764, que se destaca como a síntese de uma linhagem de tratados britânicos do século XVIII, concretizando o conceito de doença nervosa. A obra demonstrou-se decisiva para as teorias da época sobre os distúrbios nervosos, em particular a histeria e a hipocondria. A principal motivação do trabalho de Whytt era sua insatisfação com as descrições e classificações médicas existentes relacionadas ao poder sensível e simpático dos nervos. O médico escocês expõe suas críticas e objetivos de forma direta já no prefácio.
Os transtornos que são objeto das observações a seguir foram tratados por autores sob os nomes de flatulentos, espasmódicos, hipocondríacos ou histéricos. Ultimamente, também receberam o nome de nervosos; esta denominação, tendo sido comumente atribuída a muitos sintomas aparentemente diferentes e muito obscuros em sua natureza, frequentemente fez com que se dissesse que os médicos aplicaram o rótulo de nervosos a todos os transtornos cuja natureza e causas desconheciam. O objetivo das observações a seguir é remover esse reproche e, ao mesmo tempo, lançar alguma luz sobre as queixas nervosas, hipocondríacas e histéricas. Limpar esta mácula e, ao mesmo tempo, lançar alguma luz sobre as queixas nervosas, hipocondríacas e histéricas é o propósito das seguintes observações; que também pretendem mostrar até que ponto os princípios estabelecidos em meu Ensaio sobre os movimentos vitais e outros movimentos involuntários dos animais podem ser úteis para explicar a natureza de várias doenças e, consequentemente, conduzir ao método mais adequado de cura. (Whytt, 1764, p. III)
A concepção neurológica preconizada por Whytt (1751, pp. 351-352) postula um princípio imaterial como substrato ontológico dos processos nervosos, regente tanto dos movimentos voluntários quanto dos involuntários, estabelecendo uma homologia com um princípio universal da natureza. O autor prescinde da elucidação do nexo psicofísico, fundamentando sua teoria na coextensividade entre o princípio anímico e o substrato corpóreo. A contribuição teórica de Whytt (1751, pp. 5-6) distingue-se do animismo convencional mediante a articulação de um modelo fisiológico que, mesmo preservando fundamentos metafísicos, enfatiza as relações anatômicas entre sistema nervoso central e periférico, estabelecendo uma teoria neural que universaliza o papel do sistema nervoso nas manifestações corporais.
Sob essa perspectiva, é plausível conceber que toda afecção, em sua essência, se liga ao sistema nervoso, uma vez que este permeia a totalidade do corpo humano — assim como, por exemplo, a dor de dente possui uma gênese nervosa. No entanto, a essência da doença nervosa, segundo Whytt (1764), se torna evidente nas perturbações que, “devido a uma sensibilidade atípica ou a uma condição alterada dos nervos, são provocadas por causas que, em pessoas de constituição saudável, não produziriam tais efeitos ou o fariam em grau muito reduzido” (p. 92). Portanto, a ênfase recai em uma sensibilidade particular e a explicação última reside na alteração patológica das simpatias orgânicas; à diferença da tradição, a ação simpática — que, grosso modo, unia e regia a interação do corpo — para o autor era sempre mediada por meio dos nervos.
Como argumenta Porter (1987), no seio da tradição epistemológica do século XVIII, Whytt sintetizou dialeticamente as doutrinas antitéticas do animismo e do mecanicismo. Tal síntese deu origem a uma taxonomia de movimentos vitais de natureza teleológica — evidentes no rubor, na ereção e em vários tiques nervosos —, movimentos que escapavam tanto ao controle consciente quanto aos automatismos somáticos fundamentais, como o batimento cardíaco. Destarte,
tais movimentos “involuntários” dos quais ‘não temos qualquer consciência’ formavam, em vez disso, um estrato comportamental que, talvez originalmente sob o controle imediato da consciência, tornara-se, através dos processos lockianos de associação e aculturação, habitual e, portanto, “desprovido de consciência”. (Porter, 1987, p. 180)
A compreensão dinâmica de Whytt, com suas nuances ontogenéticas, ampliou o escopo das relações mente-corpo ao incluir níveis de atividade que transcendiam tanto reações reflexas quanto decisões conscientes. Esse modelo concebia a mente como capaz de ações intencionais, ainda que inconscientes, implicando uma estrutura de consciência mais diversificada. Naquilo que pode ser descrito como a fisiologia de Whytt, havia espaço para interpretações que abarcavam características da patologia mental, como a perda de memória e compulsões, aliando-se à teoria das associações, que postulava que o hábito, uma vez solidificado pela prática, guiaria as ações sem necessidade de esforço deliberativo.
A amplitude da contribuição de Whytt à história da ciência médica é vasta e multifacetada. Para os objetivos aqui estabelecidos, contudo, interessam-nos sobretudo duas contribuições essenciais de seu modelo: 1) a consolidação de uma teoria dos nervos, como marco fundamental na epistemologia médica, e 2) a introdução de uma nosologia em que a histeria se encontra disposta em coexistência harmônica às demais enfermidades nervosas.
No contexto do século XVIII, a noção de nervo operava tal qual um conceito “guarda-chuva”, sendo empregada por diferentes médicos para fundamentar suas distintas teorias sobre o funcionamento corporal. No entanto, o trabalho de Robert Whytt teve papel decisivo ao favorecer a consolidação de uma doutrina dos nervos, a qual, paulatinamente, complementava e sobrepunha-se ao humoralismo tradicional. Como observa Porter (1987),
A neurologia, portanto, deu uma dimensão científica à conversa comum sobre estar “pra cima” ou “pra baixo”, assim como o humoralismo havia feito o mesmo sobre estar frio, quente, úmido, seco etc. (ou seja, sanguíneo ou fleumático, colérico ou melancólico), ou sofrer de excesso ou deficiência. (p. 181)
Em última análise, situar os nervos sob o controle das experiências humanas conduzia essa vivência ao domínio corporal, separando-a dos signos do fingimento, da vontade e da imaginação. Os nervos, mesmo possuindo um caráter ontologicamente metafísico,1 efetivamente se dispunham como veículos de comunicação sensorial e representavam a essência final (discernível) da sensibilidade humana.
No que se refere à nosologia, o título de seu estudo de 1764 já antecipa as diretrizes de sua concepção, agrupando, de forma quase equidistante, os distúrbios nervosos: a hipocondria e a histeria. É relevante destacar que, desde o século XVII, houve um movimento, mesmo que desigual, de redefinição da origem anatômica atribuída à histeria, transferindo-a do domínio dos órgãos reprodutivos femininos para o cérebro, o sistema nervoso ou a mente. Esse deslocamento conceitual abriu espaço para a formulação de uma interpretação teoricamente neutra de gênero sobre o distúrbio. Whytt argumenta que os distúrbios nervosos se originam de uma extrema sensibilidade do sistema nervoso, predispondo os que a possuem a tremores violentos, palpitações, desmaios e ataques convulsivos, muitas vezes desencadeados por emoções como o medo, a tristeza e a surpresa, ou por estímulos intensos que afetam as áreas mais sensíveis do corpo. Considerada uma afecção tipicamente feminina, a histeria abrange, além dos sintomas previamente mencionados, outras manifestações como “indigestão, flatulência estomacal e intestinal, sensação de nó na garganta, clavus hystericus,2 vertigens, dores migratórias na cabeça, sensação de frio na região posterior, suspiros recorrentes, palpitações, inquietude, salivação ou urina pálida” (Whytt, 1764, p. 101). De modo semelhante ao transtorno nervoso, a hipocondria abarca também sintomas como “indigestão, arroto, flatulência, falta de apetite ou apetite excessivo, prisão de ventre ou diarreia, rubores, vertigens, opressão ou desfalecimento na região precordial, baixo astral, pensamentos desagradáveis, insônia ou sono perturbado” (p. 102).
É notável como a sintomatologia proposta demonstra considerável amplitude e convergência entre as três classificações delineadas. Isso se deve, em grande medida, à importância atribuída por Whytt à teoria nervosa, que serve como base explicativa, facilitando associações etiológicas e sintomatológicas entre as categorias descritas. Com efeito, ainda que Whytt (1764) observe que “nas mulheres, os sintomas histéricos ocorrem mais frequentemente, e são muitas vezes muito mais súbitos e violentos do que os hipocondríacos nos homens” (p. 103),3 o autor sustenta que isso ocorre por uma “estrutura mais delicada, vida sedentária, e condições particulares do útero nas mulheres” (p. 103). Não obstante, de modo algum isso faz com que as duas condições — histeria e hipocondria — sejam de todo diferentes.
Nem parece mais razoável declarar o transtorno [disorder] histérico de um tipo diferente do hipocondríaco porque o primeiro pode ter sua sede frequentemente no útero, e o último no canal alimentar [alimentary canal]; do que seria distinguir as queixas hipocondríacas em tantas doenças diferentes quantas as causas das quais elas podem surgir; ou dividir os ataques histéricos [hysteric fits], como são chamados, nas mulheres, em nervosos, estomacais e histéricos, porque eles frequentemente procedem de afecções violentas da mente, ou um estado desordenado do estômago, assim como de uma falha no útero. (pp. 103-104)
Embora a teoria ainda fosse marcada por viés marcadamente machista, é relevante destacar que as características femininas e masculinas se encontravam conjugadas por uma teoria dos nervos. Nessa perspectiva, os traços considerados deficitários nas mulheres eram associados a um corpo sensível, característica atribuída igualmente aos homens — no entanto, sem os preconceitos que estigmatizavam o sexo feminino. Essa ótica epistemológica, ainda que sustentada por um pluralismo metafísico — uma vez que a definição e o funcionamento dos nervos variavam conforme a perspectiva de cada médico4 — propiciou a elaboração de uma nosologia que congregava diversas manifestações clínicas sob a noção de enfermidade nervosa, o que fez com que a histeria se tornasse um gênero desta classe de afecções.5
Neurose como classe, histeria como gênero
Na esteira das contribuições de Whytt, outro médico escocês também consolidou seu nome na história da medicina, especialmente por introduzir um termo que perduraria até os dias de hoje: neurose. O conceito, criado por William Cullen, surgiu inicialmente em 1769 na Synopsis nosologiae methodicae, sendo posteriormente reafirmado em sua obra de referência, First Lines of the Practice of Physic (1778-1784).6 A motivação para tanto se sustenta no objetivo de esclarecer definitivamente as chamadas doenças nervosas então em voga.
De certo ponto de vista, quase todas as doenças do corpo humano poderiam ser chamadas de nervosas, mas não haveria utilidade em tal denominação geral; e, por outro lado, parece inadequado limitar o termo da maneira imprecisa e descuidada como tem sido até agora aplicado aos distúrbios histéricos e hipocondríacos, que por si mesmos dificilmente podem ser definidos com precisão suficiente. (Cullen, 1784, v. III, p. 121-122)
Sua elaboração nosográfica concernente às afecções nervosas, fundamentada em princípios neuropatológicos, estabeleceu-se como antítese à concepção whyttiana, postulando uma circunscrição etiológica que vinculava a denominação nervosa estritamente às patologias decorrentes de alterações primárias do sistema nervoso. De acordo com Cullen, doença deve ser definida através de um excesso ou deficiência de sensibilidade; em contrapartida, uma doença nervosa decorre de um desequilíbrio entre sensibilidade e irritabilidade (Rocca, 2007, p. 95). O sistema classificatório proposto trilhou um caminho próprio, afastando-se tanto das amplas generalizações quanto do confinamento aos casos de histeria e hipocondria definido por Whytt, inaugurando assim a classe das neuroses, fundamentada em critérios metodicamente organizados e com alcance superior à concepção de Whytt. Disto, depreende-se uma das maiores diferenças entre os autores, afinal, em contraposição aos estudos fisiológicos de Whytt, Cullen concentrou seus esforços na elaboração classificatória médica, sob influência de Boissier de Sauvages. François Boissier de Lacroix Sauvages é considerado o inaugurador do more botanico no âmbito médico, conforme evidenciado pelo seu Nosologia Methodica (1768), que advém do paradigma estabelecido por Lineu em Systema Naturae (1735). Com efeito, a segunda metade do século XVIII testemunhou a ampla difusão do more botanico, metodologia que atraiu considerável número de estudiosos para sua abordagem nosotaxonômica de fundamentação ontológica, culminando em sofisticados sistemas classificatórios que hierarquizavam as enfermidades em classes, ordens, gêneros e espécies — tal qual uma história natural das enfermidades.7 Assim, em Synopsis Nosologiae Methodicae (1769), a classificação de neurose é acompanhada de outras três classes — Pyrexiae, Cachexiae e Locales8 —, o que é desmembrado em outras 19 ordens e 132 gêneros. É neste sentido que neurose é compreendida como uma classe, a qual Cullen define do seguinte modo:
Neste ponto, proponho compreender, sob o título de neuroses, todas aquelas afecções preternaturais [preternatural affection] de sensação e movimento, que ocorrem sem febre [pyrexia] como parte da doença primária; e todas aquelas que não dependem de uma afecção tópica nos órgãos, mas de uma afecção mais geral do sistema nervoso e daqueles poderes do sistema dos quais a sensibilidade e o movimento dependem especialmente. (Cullen, 1784, vol III, p. 122)
Fica evidente que as neuroses, já com Cullen, recebem critérios negativos de diferenciação com as outras classes e estabelecem uma subordinação etiológica ao funcionamento alterado do sistema nervoso. Não obstante, vale assinalar, conforme observado por López Piñero (1985, p. 33-34), que se deve proceder com cautela ao interpretar a contribuição do escocês, evitando leituras que extrapolem seu contexto histórico. Na época em que Cullen redigiu suas obras, a ausência de lesão anatômica ainda não era reconhecida como um critério crucial, diferentemente do que se estabeleceria posteriormente na medicina, em que a anatomopatologia se tornaria o paradigma predominante. Portanto, apesar de Cullen incluir este índice em sua classificação diferencial das neuroses e outras classes, apenas com a formalização e o estabelecimento paradigmático de uma medicina anatomopatológica é que a prevalência de um critério localizacionista tornou-se crucial no entendimento das enfermidades, o que ocorre apenas algumas décadas após o trabalho de Cullen e vira norma no século XIX.
Quanto à classificação culleniana das neuroses, esta se desmembra em outras quatro ordens e diversos gêneros, citaremos apenas alguns como ilustração.
Comata: estados comatosos; diminuição do movimento voluntário, com sono, ou uma privação dos sentidos. Entre os gêneros, incluem-se apoplexia e paralisias.
Adynamiae: condições de fraqueza; diminuição dos movimentos involuntários, sejam vitais ou naturais. Entre os gêneros, incluem-se síncope, dispepsia e hipocondria.
Spasmi: manifestações convulsivas; movimentos irregulares dos músculos ou fibras musculares. Entre os gêneros, incluem-se convulsões, epilepsia, diabetes, histeria,9 hidrofobia.
Vesaniae: desordens mentais; transtornos do julgamento sem qualquer pirexia ou coma. Entre os gêneros, incluem-se mania, melancolia, amentia.
Na linha de Whytt, a noção de Cullen de histeria encontra uma continuidade seletiva, que, embora preserve certas correlações fundamentais, desafia a fusão diagnóstica prévia com a hipocondria — ainda que não apresente uma solução satisfatória. Em sua descrição, a histeria configura-se como uma manifestação neurótica não-específica quanto ao gênero, podendo afetar tanto homens quanto mulheres. Não obstante, o autor identifica maior incidência na população feminina, sobretudo entre o período da puberdade e os trinta e cinco anos, correlacionando-a com alguns fatores específicos: variações menstruais, viuvez prematura, labilidade emocional bem como ninfomania, como destaca a seguinte passagem: “os nosologistas identificaram com bastante propriedade uma das variedades da doença pelo título de Histeria Libidinosa” (Cullen, 1784, vol. IV, p. 98).10
Como observa Veith (1965): “As contribuições neurológicas e neuropatológicas de Cullen limitaram-se à sua organização nosológica, pelo menos no que dizia respeito à histeria” (p. 171). Ao fim e ao cabo, o trabalho de Cullen distingue-se não pela proposição de novos entendimentos sobre as causas ou tratamentos da histeria, mas alcança sua notoriedade na história das ciências médicas através de seu esforço sistematizador, prescindindo de qualquer originalidade, seja ela inventiva ou descritiva. Nesse ponto cabe um parêntese metodológico, especialmente a partir de uma das vertentes críticas que a obra foucaultiana sustenta em tensionar. Como nota Arnaud (2014),
A nosologia é apenas um dos gêneros de escrita médica no século XVIII. Longe de se concentrar em diagnósticos e séries de sintomas, os médicos compõem textos que visam manter uma “zona cinzenta” entre patologia e saúde, confundindo emoção, estilo de vida, mito e sintoma em uma mesma interpretação. (p. 291)
Pretendemos chamar a atenção que o legado de Cullen ultrapassa sua aparente vocação classificatória, posto que sua elaboração intelectual e organização cognitiva — esta “mistura”, conforme denomina Arnaud — gerou e consolidou profundas referências paradigmáticas, possivelmente obscuras aos leitores ou pesquisadores não versados na medicina setecentista, mas que possivelmente ressoaram e se reproduziram através da tradição, algo como o potencial semântico que permeia o texto (Koselleck, 2020, p. 330-331). A formulação da neurose como uma categoria abrangente de enfermidades constitui, sobretudo com o advento das descobertas neurofisiológicas no século XIX, uma contribuição de considerável profundidade para a medicina, tornando-se um saber que, ainda que datado em alguns aspectos, permanece subjacente e incorporado ao longo do tempo sob diversos signos. O que gostaríamos de destacar é que este modo de pensar a doença, retratado na obra de Cullen, incorpora não somente a neurose como uma classe que trata das doenças dos nervos que se caracterizam por disfunções do sistema nervoso conjugadas sob critérios de irritabilidade e sensibilidade; mas com todo o caldo com que irritabilidade e sensibilidade tomam forma na letra de Cullen — seja na forma de critérios correlacionados a períodos menstruais ou labilidade emocional, como no caso da histeria. Desse modo, ainda que as contribuições de Whytt e Cullen coloquem sob outra perspectiva a histeria, historicamente falando, não prescindem de noções antiquadas, mas as transpõem a este novo enquadre: tudo se passa tal qual uma gaiola que saiu à procura de um pássaro, como no aforismo de um escritor austro-húngaro.11
Por fim, cabe assinalar que a concepção culleniana das neuroses caracteriza-se pela compreensão destas como estados mórbidos originados de processos patológicos gerais e fisiológicos, estabelecendo sua gênese não em alterações localizadas, mas em perturbações sistêmicas do sistema nervoso, entidade reconhecida como reguladora unitária das funções vitais. Essa premissa epistemológica revelou-se, com o passar do tempo, dissonante dos princípios basilares do paradigma anatomopatológico, o qual sustentava o inexorável vínculo entre enfermidade e alteração orgânica. Afinal de contas, as descobertas neurofisiológicas não auxiliaram a localizar estes transtornos organicamente. No decorrer do século XIX, os critérios anatomopatológicos exerceram progressiva influência restritiva sobre o campo das neuroses, num processo contínuo e inexorável que perdurou por décadas, até que apenas alguns quadros, notadamente a histeria, permanecessem sob tal designação, restaurando assim a compreensão original dos desarranjos nervosos.
A negatividade da neurose
A medicina do final do século XVIII e início do século XIX caracterizava-se por profundas transformações epistemológicas, marcadas pela transição do modelo humoral hipocrático-galênico para uma medicina que se encaminharia para uma anatomopatologia, mas encontrava um meio termo na figura de Pinel. Nesse sentido, como observa López Piñero (1985, pp. 79-80), a obra de Pinel reflete o ideal iluminista de clareza e ordem, baseando-se em três fundamentos: uma taxonomia inspirada na meticulosidade botânica, a interpretação dos fenômenos vivos sob a ótica vitalista, e ao elevado ideal da medicina como ciência natural. Pinel, distanciando-se da ortodoxia naturalista de Sauvages,12 adotou uma abordagem que conjugava as experiências clínicas e a anatomia patológica sem, com isso, ser alheia ao more botanico. Embora não tenha avançado ao detalhamento estrutural que viria a se tornar paradigmático com Bichat e Bayle, sua perspectiva integrava nuances da clínica com investigação anatômica.13 Sua contribuição não é senão reflexo desta ambivalência: por um lado, mantém a noção de forças vitais e sua perturbação com base na patologia; por outro, desenvolve uma metodologia rigorosamente observacional, fundamentada na análise sistemática dos fenômenos mórbidos dentro de um quadro clínico. Esta síntese, original em sua época, permitiu-lhe desenvolver uma nosografia que, embora ainda vinculada a certos pressupostos vitalistas, inaugura uma nova forma de compreender, classificar e promover uma terapêutica para as doenças mentais.
No que tange às neuroses, sua abordagem clínica fez com que se colocasse em evidência algumas características que passaram despercebidas pela tradição.
Certos gêneros de doenças possuem tantos pontos de conformidade que é interessante aproximá-los e formar ordens naturais, à maneira dos naturalistas. Tal é o caso, por exemplo, dos diversos gêneros de flegmasias das membranas mucosas, etc. Mas não é igualmente instrutivo observar toda a distância que separa certas doenças chamadas nervosas, que deveriam, teoricamente, ter muitos pontos de contato? Que tipo de semelhança se pode observar entre as sensações de visão, audição ou tato, ainda que a potência nervosa pareça ser a mesma nesses casos? E, portanto, como é possível aproximar suas lesões diferentes? Observam-se diferenças semelhantes entre as lesões de sensibilidade e de movimento; e qual relação se poderia fazer entre o tétano, a asfixia, a paralisia, a fúria uterina, a bulimia? Muitas dessas afecções nervosas não podem, inclusive, tornar-se secundárias e manifestar-se como tantos sintomas, em duas ou três classes diferentes de doenças agudas? Uma classificação natural não pode, portanto, ser-lhes aplicada no estado atual de nossos conhecimentos, e assim é necessário limitar-se a uma classificação artificial: fundamento-a na base menos sujeita a variações, nas descrições mais exatas que possam servir para caracterizá-las, e nas lesões de sensibilidade e movimento. (Pinel, 1818, vol. I, pp. 14-15)
No que tange ao escopo das neuroses, Pinel esboça uma definição que não se restringe a categorizações rígidas, mas, ao contrário, ressalta a neurose como uma alteração patológica singular que se exprime na sensibilidade e motilidade, revelando sua natureza isenta de febres primárias, inflamações ou mudanças estruturais.
As neuroses manifestam-se por desordens das funções intelectuais e da contração muscular, por concentrações locais, diminuições ou abolição de sensibilidade e movimento em certas partes, ou ainda por uma espécie de estupor geral, com lesões mais ou menos acentuadas na respiração e nos movimentos do coração e das artérias. Seus fenômenos podem ocorrer nos sentidos, intelecto, funções cerebrais, voz, locomoção, digestão, respiração, circulação, secreções e reprodução; tanto no sistema nervoso cerebral quanto no sistema ganglionar. Suas causas excitantes e evidentes relacionam-se a desvios de regime ou a afecções morais intensas, e ocasionalmente à ação nociva de diversas substâncias sobre o organismo. Por isso, elas constituem uma das partes mais fascinantes e importantes do conhecimento filosófico do ser humano, e sua doutrina se conecta à fisiologia, à higiene e ao estudo do intelecto humano. Quão frívolos são os princípios de seu tratamento se eles se limitam apenas à farmacologia. (Pinel, 1818, vol. III, pp. 7-8)
A fragilidade do modelo clínico vigente, que Pinel soube reconhecer de imediato, não se converteu em um salto fisiopatológico. Ao contrário, a escassez de bases fisiológicas sólidas à época atrasou qualquer avanço, o que explica a relutância de Pinel em propor um modelo anatomopatológico robusto. Desse modo, sua contribuição carrega a característica de se circunscrever ao aspecto diferencial da definição de neurose, ou seja, reside na exclusão do princípio de lesão estrutural. De acordo com López Piñero (1985, pp. 81-82) e Bercherie (2014), a obra de Pinel é a primeira em que se nota a concepção de ausência de lesão nas neuroses. Aspecto que se torna evidente em sua divisão nosográfica, em que a quinta classe, denomina-se lesões orgânicas, enquanto a quarta leva o nome neuroses.14 Ainda que o autor considere a possibilidade de que certas formas de neurose apresentem lesões físicas, essa condição não se configura como norma, sendo tratada como uma exceção característica de neuroses sintomáticas. Assim, as manifestações neuróticas, que afetam a sensibilidade e a motilidade sem evidência de lesões orgânicas visíveis, consolidam-se como alterações notáveis das funções vitais.
Na última edição de Nosographie Philosophique15 sua classificação das neuroses segue as cinco ordens: neuroses dos sentidos; neuroses das funções cerebrais; neuroses da locomoção/mobilidade; neuroses das funções nutritivas e neuroses dos órgãos genitais — nesta última se encontram as histerias. A categorização se assenta sobre dois mecanismos etiológicos principais. Primeiramente, o aspecto “moral” adapta a teoria tradicional das paixões e afeições da alma ao escopo científico de então. Em segundo lugar, o mecanismo “simpático” considera as influências funcionais exercidas sobre o cérebro por sistemas orgânicos, notadamente o gástrico e reprodutivo.
Por mais que essas diversas funções e, por conseguinte, suas lesões apresentem algumas diferenças, elas parecem formar uma classe cujos atributos se relacionam diretamente com o sistema nervoso, cuja origem conhecida está no órgão encefálico e que se distribui por todas as partes do corpo para transmitir sensibilidade e movimento, bem como para ativar as funções orgânicas. (Pinel, 1818, vol. III, pp. 8-9)
Essa proposição dual, referida como causas funcionais, constitui um marco na concepção das neuroses como entidades patologicamente funcionais e desatreladas de alterações estruturais. Na verdade, é justamente devido à falta de manifestações orgânicas que estas enfermidades “morais” são, em última instância, distúrbios funcionais. É digno de nota como este modo de compreender enfermidades não localizáveis marcará o século XIX, sobretudo no que diz respeito às histerias.
O alienista, ao categorizar as neuroses dos órgãos genitais, delineia uma divisão entre os distúrbios associados ao órgão masculino e ao feminino. Entre as neuroses masculinas, inclui condições como a anafrodisia, dispermia, satiríase e priapismo; enquanto, no contexto feminino, identifica a ninfomania e a histeria. Novamente se destaca um aspecto de conotação negativa, com foco na funcionalidade, que assume preponderância no domínio moral ao tratar das neuroses associadas aos órgãos genitais. Pinel abre o tópico asserindo: “Mas, para esclarecer o presente tema, é necessário afastar todos os casos que podem estar ligados a distúrbios físicos ou orgânicos, limitando-se àqueles que estão relacionados a desvios da imaginação, a hábitos viciosos e a afecções morais” (Pinel, 1818, vol. III, p. 268).
Apesar de se vincular aos órgãos genitais de ambos os sexos, as causas desencadeadoras desses quadros são descritas a partir de hábitos e propriedades imaginativas do indivíduo. A título de exemplo, sensibilidade física e moral, abuso dos prazeres venéreos e privação, emoções intensas frequente e até mesmo “leituras voluptuosas” são causas comuns dos diversos tipos de neuroses. Com efeito, Pinel estabelece quase uma analogia entre os quadros masculinos e femininos, mesmo que mantenha a histeria exclusivamente como uma afecção feminina, neste quadro, há de se notar que a satiríase está para o homem assim como a ninfomania está para a mulher. A ideia de Pinel em relação às histerias é procurar seu caráter próprio — algo que a sistematização da tradição não realizou satisfatoriamente.
A histeria, sobre a qual tanto se escreveu na medicina, ainda é um exemplo da obscuridade e confusão geradas ao considerar uma doença apenas em suas diversas complicações com outras enfermidades análogas, sem primeiro examinar qual é seu caráter próprio. Cullen vê como variedades o que Sauvages considera espécies e reconhece a dificuldade de distinguir com precisão entre dispepsia, hipocondria e histeria. Alguns autores, embora muito esclarecidos, confundem essas duas últimas na enumeração dos sintomas, a ponto de não se poder diferenciar quais se referem a uma ou a outra. Whytt declara expressamente que tratará de todas as doenças nervosas que são resultado de uma constituição fraca, delicada e extraordinária dos nervos, relatando indistintamente todos os sintomas que os médicos chamaram de ventosos [venteux], espasmódicos, hipocondríacos, histéricos e vaporosos. (Pinel, 1818, vol. III, p. 286).
Foi nas mãos de Pinel que a psiquiatria se viu elevada a uma ciência formal, metodologicamente rigorosa e distanciada das práticas gerais de cuidado mental que a precederam. Ao fundar a clínica psiquiátrica como disciplina autônoma, ele formulou hipóteses etiopatogênicas inovadoras e definiu as bases para práticas terapêuticas sistemáticas e observacionais. Nesse sentido, é digno de nota como a prática clínica de Pinel permitiu a identificação de manifestações histéricas até então não reconhecidas. A proliferação de sintomas e perturbações associadas à histeria representava, segundo sua análise, um impedimento substancial ao desenvolvimento de seu estudo. Seus esforços direcionaram-se à determinação da histeria em sua manifestação fundamental e a partir de sua prática clínica, de fato, Pinel conseguiu observar e descrever casos de histeria que passariam despercebidos por outros médicos contemporâneos. Como nota Veith (1965), Pinel nunca deixou de suspeitar de casos histéricos quando se via com um caso de distúrbio de sentidos: desse modo, conseguiu identificar casos de histeria em pacientes que chegavam com sintomas de surdez, cegueira e afasias.
O tratamento moral, principal inovação terapêutica de Pinel e continuada por seu sucessor, Esquirol, fundamenta-se em uma compreensão das paixões como elemento central na gênese e no tratamento das neuroses. Para Pinel, as paixões podiam tanto causar quanto curar as alienações mentais, incluindo as neuroses e, portanto, a histeria. O tratamento moral consistia, entre outras coisas, em uma regulação sistemática das paixões através do ambiente institucional e da relação médico-paciente. Tudo arraigado em um princípio de curabilidade dos distúrbios mentais que não foi alheio à compreensão terapêutica das neuroses. Sua proposta distanciou-se amplamente da dominante perspectiva somática, não pela refutação absoluta dos sintomas físicos como fenômenos materiais, mas pela ênfase singular nos elementos emocionais como fundamentais na origem dos quadros histéricos. Conforme Veith (1965), esse redirecionamento conceitual é particularmente notável na forma como as disfunções menstruais são interpretadas como resultados de desequilíbrios emocionais subjacentes.16
A prática médica conforme concebida por Pinel representa uma fase decisiva na trajetória da psiquiatria, buscando consolidar uma ciência das doenças mentais fundamentada na observação rigorosa, ao mesmo tempo em que preserva influências do vitalismo, do sensualismo e de uma anatomopatologia em formação. Durante o século XIX, a ascensão do paradigma anatomopatológico resultou em uma perspectiva ambígua sobre as neuroses, que, com sua definição diferencial negativa, permaneceram em um campo de disputa, ora sendo ignoradas, ora suscitando a investigação médica. Com a vivissecção e a inspeção post mortem incapazes de revelar anormalidades no sistema nervoso ou nos órgãos genitais, as neuroses, e a histeria em particular, continuaram a ser uma categoria clínica em que os avanços científicos pouco contribuíram, exceto para validar as intuições de pioneiros como Pinel.
Considerações finais
O percurso histórico analisado neste artigo demonstra que a histeria, longe de ser uma categoria estável, constitui-se como um verdadeiro palimpsesto médico, no qual diferentes épocas inscreveram suas próprias interpretações — dos nervos de Whytt ao indício de negatividade de Pinel. Se no século XVIII ela foi objeto de sistematização nosológica, nos séculos seguintes transformou-se em campo de batalha epistemológico, onde se confrontaram neurologia, psiquiatria, psicologia e psicanálise. Este estudo revela que a persistência da histeria como problema médico decorre precisamente de sua natureza liminar: doença sem lesão, sintoma sem organicidade, linguagem corporal sem tradução anatômica. Ao examinar as contribuições de Whytt, Cullen e Pinel, fica evidente que a história da histeria não é apenas a crônica de um diagnóstico, mas um espelho das aporias da própria medicina — entre a materialidade do corpo e a elusividade da mente. Se no passado ela desafiou os limites entre o físico e o psíquico, hoje, em novas roupagens sintomáticas, continua a questionar os paradigmas contemporâneos da saúde mental, comprovando que a histeria repete o que a medicina insiste em esquecer.
Disponibilidade de Dados de Pesquisa:
Não se aplica.
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Financiamento/Funding:
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Como coloca Whytt (1764), “Mas, embora, nestes assuntos, devamos confessar nossa ignorância; ainda assim, pelo que certamente sabemos sobre a ação dos nervos, podemos ver facilmente que uma alteração neles pode ocasionar muitos dos efeitos produzidos pelas paixões” (p. 61)
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Dor localizada intensa, geralmente na cabeça, como se um prego estivesse entrando na testa.
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Posição similar à de Thomas Sydenham, que também diferencia histeria e hipocondria entre mulheres e homens e compreende que mulheres são mais predispostas à enfermidade.
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É digno de nota que, ao mencionarmos o trabalho de Whytt, o fazemos como um reflexo de um movimento histórico que se instaurava. O autor não se apresenta como o precursor nem como o único responsável pela classificação da histeria nos termos anteriormente expostos. Entretanto, referir-se a ele dessa maneira nos oferece uma excelente base para os nossos propósitos, algo que se alinha com as pesquisas historiográficas consultadas. Afinal de contas, como López Piñero (1985, p. 25) ressalta, a versão francesa do trabalho de Whytt, publicada em 1767, continha um apêndice com 35 referências bibliográficas; ou então como afirma um contemporâneo de Whytt, Adair (1790): “Upwards of thirty years ago, a treatise on nervous diseases was published by my quondam learned and ingenious preceptor Dr. Whytt, professor of physic, at Edinburgh. Before the publication of this book, people of fashion had not the least idea that they had nerves; but a fashionable apothecary of my acquaintance, having cast his eye over the book, and having been often puzzled by the enquiries of his patients concerning the nature and causes of their complaints, derived from thence a hint, by which he readily cut the gordian knot —‘Madam, you are nervous!’ The solution was quite satisfactory, the term became fashionable, and spleen, vapours, and hyp were forgotten” (p. 60).
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Para nossas citações, utilizaremos os quatro volumes da quarta edição da obra, todas publicadas em 1784.
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Respectivamente, estados febris, caquexias e afecções localizadas.
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Nesse sentido a histeria seria um gênero da ordem das Spasmi e da classe das neuroses.
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Trecho que ilustra o more botanico através da nomenclatura binomial: Histeria Libidinosa, herdado de uma diferenciação de Boissier de Sauvages.
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“Ein Käfig ging einen Vogel suchen” (Kafka, 1992, p. 44).
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A longa passagem do prefácio da edição de Nosographie philosophique de 1818 deixa claro seu posicionamento perante a tradição: “Quantos esforços laboriosos e múltiplos não fizeram Sauvages, Lineu, Vogel, Cullen, Sagar, Nietzki, Selle, Vandenheuvell etc., para distribuir todas as doenças conhecidas em classes, ordens, gêneros, espécies, à semelhança dos botânicos! E qual foi o resultado obtido? Uma sobrecarga extrema do quadro, uma classificação arbitrária e vacilante, afecções sintomáticas tomadas como doenças primitivas, uma multiplicação excessiva de umas e outras devido a complicações sem fim de doenças, uma espécie de impossibilidade admitida de obter um conjunto regular que se baseie apenas em alguns pontos fundamentais e que possa ser retido sem esforço e sem confusão na memória. No entanto, deve-se reconhecer a necessidade absoluta de um método semelhante, a fim de poupar ao médico judicioso a incerteza e as perplexidades, ao médico temerário uma decisão precipitada tomada ao acaso, e ao paciente o perigo de um erro de diagnóstico” (Pinel, 1818, vol. I, p. 14-15).
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A anatomoclínica apresenta-se como uma síntese entre observações clínicas e descobertas anatômicas, estabelecendo correlações essenciais entre sintomas e lesões, enquanto a anatomopatologia dedica-se ao estudo específico e detalhado das alterações estruturais dos tecidos, servindo como fundamento técnico para as investigações anatomoclínicas. Pode-se afirmar que a obra de Pinel, ainda que não totalmente alheia ao paradigma anatomopatológico vindouro, sustentava uma medicina com peso maior na clínica — tanto é que Pinel fora objeto de crítica de seus sucessores justamente sob este critério.
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As classes, de acordo com a edição de 1818 são: Febris, flegmasias, hemorragias, neuroses e lesões orgânicas.
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A obra fundamental de Pinel conheceu seis edições (1798, 1802-1803, 1807, 1810, 1813, 1818), apresentando sua evolução conceitual e metodológica. A transição da primeira para a segunda edição constituiu o momento de maior transformação, com reestruturação nosológica significativa. As edições posteriores mantiveram a estrutura fundamental estabelecida na segunda edição, introduzindo modificações pontuais no sistema classificatório e ampliando o repertório de observações clínicas. É importante notar que por sua característica difusa, fundada sobretudo em dois fatores que abrangem uma enormidade de afecções, quais sejam: i) sensório-motor; ii) organicidade e não organicidade; a neurose fora classificada de forma deveras flutuante por Pinel. Assim, se o leitor consultar a Nosographie philosophique, a depender da edição, encontrará diferentes sistematizações (cf. (Postel & Quétel, 1987, pp. 360-365). Dito isto, o argumento que buscamos enfatizar segue em terreno sólido (Bercherie, 2014, pp. 16-24; López Piñero, 1985, pp. 78-84), ou seja, uma nosografia que se atenta ao caráter negativo da neurose e que reconhece sua manifestação clínica de maneira ampla — isto é, exemplificado em seus casos de histeria que apresentam sintomatologia outra e não encontram fundamento orgânico, como as afasias,
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Neste contexto, é relevante destacar um aspecto peculiar da historiografia da histeria. O leitor bem informado sobre as pesquisas atuais, como as de Bronfen (1998) e Scull (2009), perceberá que o nome de Pinel não é mencionado em tais obras. Isso se deve à percepção de que suas contribuições específicas para o estudo e entendimento da histeria são consideradas pouco significativas. Porém, ao adotar uma perspectiva que abarque a definição das neuroses e as possibilidades de tratamento, entende-se que as concepções de Pinel se mostram de grande importância para os séculos vindouros. Dessa maneira, as análises sobre a histeria podem procurar compreendê-la sob um viés social da patologia ou sob uma perspectiva histórica da medicina. Nossa interpretação se alinha, neste ponto, com Veith (1965), López Piñero (1985), Bercherie (1983; 2014) e Ackerknecht (1968).
Referências
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Editores do artigo/Editors:
Maria Livia Tourinho Moretto, Ana Maria Galdini R. Oda
