Objetivo: analisar o perfil clínico-epidemiológico de pacientes pediátricos em suporte por oxigenação por membrana extracorpórea em um centro de referência.
Método: estudo transversal e retrospectivo, baseado na análise de 108 prontuários de pacientes pediátricos de um hospital público. Foram coletados dados sociodemográficos e clínicos por meio de um instrumento desenvolvido para esta pesquisa. Para a análise, foram utilizadas frequências absolutas e percentuais, medidas de tendência central e dispersão, teste de normalidade de Shapiro-Wilk, teste qui-quadrado de Pearson, modelo de regressão logística com entrada Stepwise, análise de regressão linear múltipla e teste de Durbin-Watson.
Resultados: segundo a análise dos documentos, 55,5% pertenciam a pacientes do sexo feminino. Quanto aos desfechos clínicos, 76,1% aguardavam cirurgia antes da canulação, 69,3% utilizaram drogas vasoativas e 57,4% evoluíram para óbito. A oxigenação por membrana extracorpórea venoarterial do tipo central foi a modalidade mais utilizada. A principal indicação para o suporte foi a síndrome do baixo débito cardíaco. Pacientes que desenvolveram complicações mecânicas na oxigenação por membrana extracorpórea apresentaram risco estatisticamente maior para o óbito (odds ratio de 2,8).
Conclusão: complicações mecânicas se associaram ao risco aumentado de mortalidade. O perfil clínico-epidemiológico evidencia a gravidade clínica, caracterizada por instabilidade hemodinâmica e indicação cirúrgica.
Descritores:
Enfermagem; Pediatria; Prontuários Médicos; Prática Avançada de Enfermagem; Cuidados Críticos; Oxigenação por Membrana Extracorpórea.
Destaques:
(1) ECMO VA central foi a modalidade mais utilizada nos pacientes pediátricos. (2) A síndrome do baixo débito cardíaco foi a principal indicação para ECMO. (3) As complicações mecânicas aumentaram em 2,8 vezes o risco de óbito. (4) Predominância de lactentes do sexo feminino com cardiopatias congênitas. (5) Mortalidade de 57,4% entre pacientes pediátricos submetidos à ECMO.
Objective: to analyze the clinical-epidemiological profile of pediatric patients receiving extracorporeal membrane oxygenation support at a referral center.
Method: this was a cross-sectional, retrospective study based on the analysis of 108 electronic and physical medical records of pediatric patients from a public hospital. Sociodemographic and clinical data were collected using an instrument developed for this study. For the analysis, absolute and percentage frequencies, measures of central tendency and dispersion, Shapiro-Wilk normality test, Pearson’s chi-square test, logistic regression model with Stepwise input, multiple linear regression analysis, and Durbin-Watson test were used.
Results: of the documents analyzed, 55.5% belonged to female patients. Regarding clinical outcomes, 76.1% were awaiting surgery before cannulation, 69.3% used vasoactive drugs, and 57.4% died. Central venoarterial extracorporeal membrane oxygenation was the most used modality. The main indication for support was low cardiac output syndrome. Patients who developed mechanical complications during extracorporeal membrane oxygenation had a statistically higher risk of death (odds ratio of 2.8).
Conclusion: mechanical complications were associated with an increased risk of mortality. The clinical-epidemiological profile highlights clinical severity, characterized by hemodynamic instability and surgical indication.
Descriptors:
Nursing; Pediatrics; Medical Records; Advanced Practice Nursing; Critical Care; Extracorporeal Membrane Oxygenation.
Highlights:
(1) Central VA ECMO was the most used modality in pediatric patients. (2) Low cardiac output syndrome was the main indication for ECMO. (3) Mechanical complications increased the risk of death by 2.8 times. (4) Predominance of female infants with congenital heart disease. (5) Mortality rate of 57.4% among pediatric patients undergoing ECMO.
Objetivo: analizar el perfil clínico-epidemiológico de pacientes pediátricos en soporte de oxigenación por membrana extracorpórea en un centro de referencia.
Método: estudio transversal y retrospectivo, basado en el análisis de 108 historias clínicas, tanto electrónicas como físicas, de pacientes pediátricos de un hospital público. Se recolectaron datos sociodemográficos y clínicos mediante un instrumento desarrollado para esta investigación. Para el análisis, se utilizaron frecuencias absolutas y porcentajes, medidas de tendencia central y dispersión, prueba de normalidad de Shapiro-Wilk, prueba chi-cuadrado de Pearson, modelo de regresión logística con entrada Stepwise, análisis de regresión lineal múltiple y prueba de Durbin-Watson.
Resultados: de los documentos analizados, 55,5% correspondían a pacientes de sexo femenino. En cuanto a los desenlaces clínicos, 76,1% aguardaban cirugía antes de la canulación, 69,3% utilizaron fármacos vasoactivos y 57,4% evolucionaron a fallecimiento. La oxigenación por membrana extracorpórea venoarterial de tipo central fue la modalidad más utilizada. La principal indicación para el soporte fue el síndrome de bajo gasto cardíaco. Los pacientes que desarrollaron complicaciones mecánicas en la oxigenación por membrana extracorpórea presentaron un riesgo estadísticamente mayor de fallecimiento (odds ratio de 2,8).
Conclusión: las complicaciones mecánicas se asociaron con un mayor riesgo de mortalidad. El perfil clínico-epidemiológico evidencia la gravedad clínica, caracterizada por inestabilidad hemodinámica e indicación quirúrgica.
Descriptores:
Enfermería; Pediatría; Registros Médicos; Enfermería de Práctica Avanzada; Cuidados Críticos; Oxigenación por Membrana Extracorpórea.
Destacados:
(1) La ECMO VA central fue la modalidad más utilizada en los pacientes pediátricos. (2) El síndrome de bajo gasto cardíaco fue la principal indicación para ECMO. (3) Las complicaciones mecánicas aumentaron en 2,8 veces el riesgo de fallecimiento. (4) Predominio de lactantes de sexo femenino con cardiopatías congénitas. (5) Mortalidad de 57,4% entre pacientes pediátricos sometidos a ECMO.
Introdução
A oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO) funciona como um suporte cardiopulmonar para quadros de insuficiência cardíaca (choque cardiogênico) e/ou respiratória (hipoxemia ou hipercapnia) aguda e refratária aos tratamentos médicos, mas com potencial de recuperação. Embora referida como uma terapia, a ECMO deve ser entendida como um suporte temporário, utilizado como ponte para recuperação, tomada de decisão ou transplante1-2. Sua utilização no Brasil é relativamente recente, sendo reconhecida por meio do parecer 42/2017 do Conselho Federal de Medicina como um procedimento não experimental3. O país conta com 21 centros credenciados na Extracorporeal Life Support Organization (ELSO), uma entidade internacional que estabelece diretrizes e guidelines sobre essa tecnologia4.
A ECMO representa um dos grandes progressos da medicina intensiva moderna para pacientes em estado crítico. A condição clínica do indivíduo e o órgão acometido determinam o tipo de suporte ofertado. A modalidade venoarterial (VA) oferece suporte cardíaco com função pulmonar preservada ou não, tendo como indicação mais frequente a falência transitória pós-cardiotomia ou choque cardiogênico. A modalidade venovenosa (VV) é utilizada para suporte respiratório em pacientes com função cardíaca preservada, como nas pneumonias5-6. A ECMO também abrange outras modalidades como a E-CPR (ressuscitação cardiopulmonar extracorpórea)7) e as configurações combinadas como a VVV (veno-veno-venosa), VVA (veno-veno-arterial) e VAV (veno-arterial-venosa) que atendem a situações mais complexas5.
O primeiro sucesso registrado do uso de um dispositivo de circulação extracorpórea ocorreu em uma cirurgia cardíaca em 1954. Em 1972, foi registrado o primeiro uso da ECMO como suporte terapêutico na síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA). Já o primeiro caso neonatal foi descrito em 1975 em uma paciente com síndrome de aspiração meconial8.
No contexto pediátrico, as indicações mais comuns consistem na instabilidade hemodinâmica pré-operatória, na síndrome do baixo débito cardíaco pós-operatório, na doença cardíaca congênita crítica e na incapacidade de se desvencilhar do bypass cardiopulmonar. Considerando isoladamente a população pediátrica com doença cardíaca congênita, o suporte extracorpóreo é comumente indicado para a estabilização clínica pré ou pós-cirurgia e no cenário de E-CPR9.
O tempo em que o paciente permanece em ECMO é variável, podendo estender-se por dias ou semanas. A interrupção da terapia está relacionada à melhora da condição clínica que justificou a necessidade do suporte, à ausência de perspectiva de recuperação ou à irreversibilidade do quadro5. A ECMO em pacientes pediátricos apresenta particularidades no manejo em relação aos adultos, como a necessidade de ajustes específicos nos parâmetros hemodinâmicos e o maior risco de complicações trombóticas e hemorrágicas2, aspectos que motivaram a realização deste estudo.
A análise do perfil clínico-epidemiológico de pacientes pediátricos em ECMO amplia a compreensão da equipe multiprofissional sobre complicações durante o suporte, o prognóstico e os desfechos da terapia-ponte2,9. Os registros nos prontuários documentam os principais desafios associados ao uso da ECMO, os diagnósticos mais prevalentes que justificaram sua indicação, as condutas terapêuticas adotadas, as respostas ao tratamento e os desfechos clínicos. Esses dados refletem a avaliação contínua do paciente, desde a canulação até a alta médica. Entender essas relações contribuirá para o planejamento de intervenções que minimizem falhas na assistência e aprimorem o manejo do suporte extracorpóreo.
Diante do exposto, elaborou-se a seguinte pergunta norteadora para este estudo: Qual é o perfil clínico-epidemiológico de pacientes pediátricos submetidos à ECMO em um centro de referência? Para respondê-la, estabeleceu-se como objetivo analisar o perfil clínico-epidemiológico de pacientes pediátricos em suporte da oxigenação por membrana extracorpórea em um centro de referência.
Método
Tipo do estudo
Estudo transversal, retrospectivo, unicêntrico de base quantitativa10, realizado com prontuários eletrônicos e físicos de pacientes pediátricos.
Local e período da coleta
A coleta de dados foi realizada por dois pesquisadores em um hospital referência em cardiopneumologia de alta complexidade localizado em Fortaleza, CE, Brasil, entre maio e agosto de 2024. Essa instituição atende pacientes desde a faixa etária pediátrica à idade adulta, abrangendo as regiões Norte e Nordeste do país e integrando um dos maiores complexos de saúde totalmente conveniados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O hospital conta com oito unidades de terapia intensiva (UTI), sendo duas destinadas ao atendimento de crianças com cardiopatias congênitas. Dentre elas, uma UTI é exclusiva para o pós-operatório de cirurgia cardíaca e para pacientes em ECMO, dispondo de oito leitos. O estudo foi conduzido nessa unidade.
População, critérios de seleção e amostra
A população foi composta por todos os pacientes pediátricos submetidos à ECMO entre julho de 2012, ano e mês de início do programa, e abril de 2024, totalizando 12 anos de experiência em assistência extracorpórea nesse centro. Foram analisados os registros de todos os pacientes canulados nesse período, admitidos na UTI pós-operatória de cirurgia cardíaca pediátrica do hospital. A pesquisa utilizou uma amostra não probabilística por conveniência, resultando em um total de 108 indivíduos pediátricos. Não houve canulação neonatal no período analisado. Como a amostra incluiu todos os prontuários disponíveis, nenhum documento foi excluído, não havendo, portanto, critério de exclusão.
Coleta de dados e variáveis do estudo
Os prontuários físicos foram localizados no arquivo da Secretaria de Saúde do Estado do Ceará e transportados ao centro de coleta para a extração das informações. Já os prontuários eletrônicos foram acessados diretamente nos computadores do serviço de origem, garantindo a obtenção dos dados de maneira sistemática e sigilosa. Os prontuários físicos foram incluídos, visto que no início da implementação da ECMO no hospital do estudo não havia registros eletrônicos em saúde. A leitura dos prontuários foi feita em uma sala do Departamento de Registro e Arquivos Médicos do hospital do estudo.
As variáveis avaliadas foram: sexo, idade, peso, diagnóstico primário, indicação para o suporte, uso de droga vasoativa antes da ECMO, número de dias de ventilação mecânica invasiva antes da instalação do suporte, ocorrência de parada cardiorrespiratória (PCR) prévia, pós-cardiotomia como indicação, local físico da canulação, modalidade da ECMO, duração da assistência extracorpórea, uso de antibióticos (quando aplicável), complicações mecânicas e fisiológicas e desfecho do paciente.
Entende-se por complicações mecânicas: falência da membrana oxigenadora; falência da bomba; rotura dos circuitos; problemas com as cânulas (mau posicionamento ou obstrução por coágulos); e embolia gasosa. As complicações fisiológicas incluem: hemorragia; lesão renal aguda e/ou necessidade de terapêutica de substituição renal; lesão do sistema nervoso central; desequilíbrios hidroeletrolítico e metabólico; complicações cardíacas, incluindo o uso de agentes inotrópicos/vasopressores; e outras complicações, incluindo infeções, pneumotórax, hemólise e lesão por pressão11.
Tratamento e análise dos dados
As informações coletadas pelos pesquisadores foram organizadas em uma planilha do Excel armazenada em um drive. Os dados foram estruturados com base em um instrumento de coleta desenvolvido especificamente para esta pesquisa. A leitura dos prontuários seguiu as categorias de análise estabelecidas no instrumento, respeitando o código de ética das profissões envolvidas e os modos de registro adotados pelos profissionais.
Os dados foram analisados por meio das frequências absolutas e percentuais para variáveis qualitativas, enquanto para variáveis quantitativas foram apresentadas as medidas de tendência central média e mediana, e de dispersão, desvio-padrão e intervalo interquartílico. Além do teste de Shapiro-Wilk para verificação de aderência à distribuição normal. O teste de qui-quadrado de Pearson foi aplicado para verificar a associação entre as variáveis clínicas e o óbito.
Para identificar as características que influenciavam o tipo de ECMO, foi aplicado um modelo de regressão logística com entrada Stepwise. Para avaliação dos fatores que influenciavam no tempo da ECMO, utilizou-se a análise de regressão linear múltipla com verificação de ajuste pelo coeficiente de determinação (R2). A autocorrelação dos resíduos foi analisada pelo teste de Durbin-Watson.
Aspectos éticos
Todos os requisitos éticos e legais para pesquisa com seres humanos foram atendidos, com aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da instituição proponente, conforme parecer de número 6.050.790 e CAAE de número 69346823.4.0000.5039. Foi obtido o termo de anuência do hospital onde o estudo foi conduzido e a autorização dos gestores da UTI pós-operatória cardíaca pediátrica. As informações coletadas foram tratadas com sigilo, assegurando o anonimato dos pacientes e a confidencialidade do local da pesquisa, em conformidade com as normas reguladoras12.
Resultados
Ao longo de um período de doze anos (2012-2024), 108 pacientes pediátricos foram submetidos ao suporte da ECMO. A amostra abrangeu a totalidade dos documentos disponíveis. No entanto, identificou-se ausência de dados em algumas variáveis por falta de registros, sobretudo nos prontuários físicos, o que explica a diferença nos valores totais apresentados nas Tabelas 2 e 3.
Dos documentos analisados, a maioria correspondia a pacientes do sexo feminino (60; 55,5%). Os resultados demonstram uma idade mediana de nove meses dos indivíduos, com uma mediana de peso de sete quilos. Dos 108 prontuários, 52 eram do arquivo físico, provenientes do acervo e guarda da Secretaria de Saúde do Estado do Ceará, enquanto 56 pertenciam ao prontuário eletrônico do paciente (PEP), programa iniciado no hospital no ano de 2020, conforme Tabela 1.
A Tabela 2 apresenta o desfecho clínico dos pacientes pediátricos, evidenciando que mais da metade aguardavam cirurgia devido à gravidade da doença cardíaca congênita (64; 76,1%) antes da canulação ou faziam uso de drogas inotrópicas ou vasopressoras (52; 69,3%). A modalidade mais utilizada foi a ECMO VA com predominância do tipo central. O suporte foi majoritariamente instalado no centro cirúrgico do hospital de origem e a principal indicação para o uso do suporte foi a síndrome do baixo débito cardíaco.
Crianças que apresentaram complicações mecânicas durante a ECMO tiveram uma chance quase três vezes maior de evoluírem para o óbito, em comparação àquelas que não desenvolveram tais complicações (odds ratio de 2,8). É importante ressaltar que a amostra compreendeu todos os documentos disponíveis, contudo, algumas variáveis apresentaram dados incompletos principalmente nos prontuários físicos, justificando a variação total na Tabela 3.
Na Tabela 4, o modelo de regressão logística mostrou uma redução na chance de uso de ECMO periférica entre crianças que não apresentaram PCR pré-ECMO e foram submetidas ao procedimento no centro cirúrgico em comparação com aquelas atendidas na UTI. Por outro lado, a chance de ECMO central era maior entre crianças da UTI e com PCR pré-ECMO.
Na Tabela 5 o modelo de regressão linear para a duração da ECMO demonstrou que o tempo de suporte era maior entre crianças do sexo feminino e que não haviam sido submetidas à correção cirúrgica.
Discussão
Por meio deste estudo foi possível analisar o perfil clínico-epidemiológico de pacientes pediátricos com ECMO em um hospital de referência em cardiopneumologia no Estado do Ceará. Considera-se essa terapia-ponte quando a insuficiência da função pulmonar e/ou cardíaca aguda representam risco de mortalidade superior a 50%, sendo fortemente indicada quando a probabilidade de morte atinge cerca de 80%, apesar do tratamento convencional13-14. Em consonância com o que tem sido descrito na literatura15-16, os dados desta pesquisa apontam predominância no uso da ECMO em pacientes lactentes do sexo feminino, sendo mais frequentemente indicada para os casos de cardiopatias congênitas. Os achados estão em consonância com estudo prévio que indica uma alta prevalência da ECMO nesse grupo etário16.
A ELSO recomenda os critérios de seleção em casos de falência respiratória e de falência cardíaca com ou sem disfunção pulmonar associada, para os pacientes pediátricos que serão submetidos à terapia14,17. As decisões devem ser tomadas considerando a individualidade de cada paciente, com base no conhecimento da condição clínica, na experiência do centro, no consenso da equipe multiprofissional e em consulta à beira do leito14. Neste estudo, a indicação aconteceu dentro dos critérios estabelecidos internacionalmente com destaque para a duração da ventilação mecânica, que apresentou uma média de 3,5 dias até o momento da canulação. Observa-se que as taxas de sobrevivência são maiores quando o período de ventilação mecânica é inferior a 14 dias antes da ECMO18-19.
A análise dos dados revela que os pacientes já faziam uso de drogas vasoativas antes do início da ECMO, evidenciando um quadro de instabilidade hemodinâmica prévio à canulação. Além disso, uma parcela significativa dos indivíduos apresentou PCR antes do início da terapia. Embora as drogas vasoativas possam atuar como resgate hemodinâmico do paciente crítico, seu uso está associado a piores desfechos, como nefrotoxicidade renal e hipoperfusão tecidual, maior tempo de permanência na UTI e aumento da mortalidade20. Durante a ECMO, esses medicamentos geralmente têm suas doses reduzidas de forma gradativa até a suspensão, com a necessidade de manutenção ou retirada avaliada caso a caso16.
O uso de drogas vasoativas reflete o agravo clínico dos pacientes com cardiopatias congênitas que aguardavam cirurgias paliativas, corretivas ou procedimentos hemodinâmicos. Em cerca de um terço dos casos, a PCR foi a principal indicação para o uso da ECMO. Nessa situação, a instalação da ECMO VA pode ser recomendada quando o paciente não responde às manobras convencionais de ressuscitação cardiopulmonar (RCP), procedimento conhecido como E-CPR21-22. Restrita a PCR intra-hospitalar, a E-CPR deve ser instituída durante as compressões cardíacas ou dentro de 20 minutos após o retorno da circulação espontânea sem compressões contínuas. Sua utilização está associada a desfechos neurológicos menos favoráveis quando comparada à ECMO empregada para outras indicações22.
No presente estudo, os pacientes submetidos à canulação, sem PCR como critério, apresentaram complicações fisiológicas, como sangramento, lesão por pressão, infecção e desequilíbrio hidroeletrolítico e metabólico, tendência igualmente relatada em estudo prévio11. Também foram observadas nesta pesquisa complicações mecânicas como formação de coágulos nas cânulas, decanulação acidental e falha do oxigenador, em consonância com relatos de estudo anterior18. Viu-se que a doença de base aumentou o risco de sangramento e de tromboembolismo, associado ao uso do anticoagulante contínuo e a interface não biológica do circuito dado semelhante ao encontrado em outra pesquisa16. Cumpre acrescentar que o suporte VA de predominância central, descrito na maioria dos casos, acarreta prejuízos no desempenho cardíaco, redução do fluxo coronariano, menor transporte de oxigênio ao cérebro e aos órgãos vitais e aumento da resistência pulmonar23.
O suporte VV está associado a menor risco de lesão neurológica e mortalidade, sendo recomendado como modalidade inicial para os casos de insuficiência respiratória em pediatria14. Nessa condição, a pneumonia bacteriana figura como uma causa frequente de ECMO nesse grupo etário24.
Neste estudo, as principais indicações para o suporte extracorpóreo foram a síndrome do baixo débito cardíaco, o choque cardiogênico e a crise de hipertensão pulmonar/hipoxemia, com uma taxa de mortalidade superior à metade da população analisada. Dado o predomínio de causas cardíacas, especula-se que os fatores como a utilização da ECMO na modalidade VA, o uso prévio de inotrópicos e vasopressores, a indicação do suporte em tempo oportuno, a doença subjacente e até mesmo os aspectos demográficos, como a faixa etária, possam ter influenciado a mortalidade observada.
Estudos apontam que a indicação baseada em critérios bem definidos contribui para o sucesso da terapia13,15,25. O objetivo da ECMO não é curativo, mas de oferecer suporte ao paciente crítico quando as opções convencionais se mostram ineficazes, aumentando suas chances de sobrevivência17. Diferente de outros métodos, como o dispositivo de assistência ventricular (VAD), que requer instalação em ambiente estéril, a ECMO pode ser implantada à beira do leito26, como ocorreu neste estudo.
Embora o suporte extracorpóreo seja uma estratégia vital para os pacientes em estado crítico, a presença de múltiplos conectores e pontos de acesso aumenta o risco de complicações e desafios operacionais, como sangramento e formação de trombos no circuito, ambos associados a uma alta taxa de mortalidade23,25. Neste estudo, as principais causas de óbito foram falência de múltiplos órgãos, PCR e choque séptico.
A conexão prolongada do organismo à superfície de polivinila das cânulas, o uso de múltiplos dispositivos médicos e a condição clínica do indivíduo representam fatores de risco para infecções. O manuseio do paciente pela equipe multiprofissional, utilizando técnicas assépticas, é essencial para minimizar este risco26-27. Embora a literatura não apresente dados conclusivos que associem o local de instalação da ECMO ao aumento do risco de infecção, é mandatória a adoção da assepsia, sobretudo quando a canulação ocorrer na UTI28. Os dados mostram que os pacientes já estavam em uso de antibióticos antes da canulação, o que reflete a complexidade do quadro clínico-infeccioso. O tempo médio de utilização da ECMO foi de 9,5 dias, resultados semelhantes aos da literatura15-16.
Apesar dos avanços no gerenciamento do dispositivo, os riscos associados ao uso prolongado do suporte permanecem inevitáveis29. Observou-se que crianças que desenvolveram complicações mecânicas apresentaram um risco de óbito significativamente maior, sendo quase três vezes superior ao das que não tiveram essas complicações. As mais comuns incluem má posição das cânulas, decanulação acidental, formação de coágulos no oxigenador e a remoção inadvertida das cânulas por pacientes despertos11,29-30. A vigilância contínua e a resposta rápida a eventos adversos com ECMO é indispensável. Embora raras, essas complicações podem causar danos irreversíveis ao paciente ou até mesmo o óbito30.
Neste estudo, a decanulação acidental ocorreu em um paciente durante a mudança de decúbito, realizada por dois profissionais para prevenir lesão por pressão. No entanto, a imagem radiológica já indicava um alto risco para esse evento adverso, que não foi identificado previamente pela equipe. Considerada catastrófica, a decanulação acidental pode causar sangramento maciço e entrada de ar no circuito15,30. Esse foi o evento adverso mais grave da amostra, o que motivou a implementação de capacitações e estratégias preventivas. O paciente evoluiu para óbito devido à doença subjacente, e não pela decanulação, em outra unidade hospitalar.
Este estudo revela uma menor probabilidade de utilização da ECMO periférica em pacientes sem PCR antes da canulação e que haviam passado por cirurgia cardíaca. O suporte foi mais frequentemente necessário em pacientes internados na UTI com PCR prévia e que não haviam realizado cirurgia. Esses dados destacam a importância de intervenções oportunas, já que as crianças com cardiopatias congênitas, que compuseram quase toda a amostra, necessitam de procedimentos cirúrgicos em idades específicas, conforme a fisiologia da doença-base15,20. Devido à gravidade dessas condições, é comum o uso da ECMO nos cardiopatas congênitos críticos16.
Embora o manejo do suporte extracorpóreo envolva uma equipe multiprofissional, a ELSO destaca o papel da enfermagem nesse processo. Sendo uma terapia de alta complexidade e elevado custo, a responsabilidade pela assistência direta aos pacientes em ECMO, dentro da equipe de enfermagem, é exclusiva do enfermeiro31. Com a implementação do Processo de Enfermagem (PE) e de protocolos institucionais, é possível garantir uma assistência sistemática e segura32, alinhada à recomendação da ELSO de manter a proporção de 1:1 entre enfermeiro e paciente em ECMO33. É imperativo que os profissionais detenham conhecimentos, habilidades e atitudes fundamentais para o manejo desses pacientes27,34.
Por fim, é importante destacar que o hospital do estudo teve uma transição significativa nos registros. Até setembro de 2020, as anotações eram realizadas em prontuários físicos. Após esse período, foi implementado o PEP e, em 2023, o PE e a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), anteriormente baseada em “Checklists” físicos, tornou-se totalmente digital. Além disso, os demais membros da equipe multiprofissional de saúde também aderiram à mesma plataforma de registro, reduzindo o tempo destinado às anotações e permitindo mais tempo na assistência ao paciente.
A limitação deste estudo é que ele se baseia em registros que não contemplam desfechos a longo prazo. No entanto, durante a coleta das variáveis, os pesquisadores anotaram o número de telefone dos responsáveis pelo paciente, com o objetivo de, no futuro, avaliar por meio da telemedicina, as incapacidades e a qualidade de vida dos sobreviventes. Outra limitação foi a falta de informações completas em alguns prontuários especialmente nos registros físicos, como a modalidade e o tipo de ECMO utilizado. O fato de a pesquisa ser conduzida em apenas um centro limita generalizações com outros contextos.
Além da pesquisa, os dados serão compartilhados com o hospital onde o estudo foi realizado, o que pode auxiliar a equipe multiprofissional na seleção tempestiva dos candidatos para o suporte extracorpóreo, potencializando as chances de sucesso da terapia-ponte e na otimização dos recursos do centro. O estudo evidencia que o uso da ECMO e as condições clínicas dos pacientes estão associados à ocorrência de eventos adversos, como complicações mecânicas e fisiológicas. Dada a escassez de estudos na faixa etária pediátrica submetida à ECMO, esta pesquisa traz contribuições significativas sobre o tema, representando um avanço do conhecimento científico para a área de saúde, na análise e divulgação de assuntos pouco explorados.
Para a enfermagem, o conhecimento do perfil clínico-epidemiológico permite que enfermeiros(as) compreendam as particularidades desse público, adaptem a assistência com base na clínica do paciente e na modalidade da ECMO ofertada, fortalecendo a prática baseada em evidência e uma assistência segura e eficaz.
Conclusão
As complicações mecânicas na ECMO apresentaram associação significativa com o aumento do risco de mortalidade entre os pacientes analisados. O perfil clínico-epidemiológico evidencia a severidade do quadro clínico, marcada especialmente pela presença de instabilidade hemodinâmica e pela necessidade de intervenção cirúrgica. Além disso, a utilização prévia de drogas vasoativas e antibióticos pré-canulação reflete o agravamento cardíaco e infeccioso, contribuindo para a elevada mortalidade observada nessa população.
Este estudo apresenta contribuições para preencher lacunas na prática clínica em pacientes pediátricos submetidos a ECMO, servindo de base para a implementação de programas de educação permanente e para o desenvolvimento de linhas de cuidado específicas para esse público. Ressalta-se a importância de novas pesquisas, tanto clínicas quanto epidemiológicas, para uma caracterização mais abrangente dos pacientes pediátricos candidatos à ECMO, além do monitoramento a longo prazo dos sobreviventes.
Declaração de Disponibilidade de Dados:
Todos os dados gerados ou analisados durante este estudo estão incluídos neste artigo publicado
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Artigo extraído da dissertação de mestrado “Validação do protocolo de cuidados de enfermagem ao paciente pediátrico com oxigenação por membrana extracorpórea”, apresentada à Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, CE, Brasil.
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Como citar este artigo:
Nascimento KP, Queiroz MVO, Ribeiro SB, Silva VM, Lopes MVO, Sena TM. Clinical and epidemiological profile of pediatric patients undergoing extracorporeal membrane oxygenation: experience at a referral center. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2026;34:e4780 [cited ano mês dia]. Available from: URL.https://doi.org/10.1590/1518-8345.7999.4780
Editado por
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Editor Associado:
Omar Pereira de Almeida Neto
