Open-access Características sociodemográficas e clínicas associadas ao letramento em saúde de pessoas hospitalizadas por doenças crônicas*

Objetivo: identificar a associação do letramento em saúde com as variáveis sociodemográficas e clínicas de pacientes hospitalizados com doenças crônicas.

Método: estudo transversal, realizado com pacientes com doenças crônicas, internadas em um hospital geral. Utilizaram-se um questionário sociodemográfico/clínico e o Health Literacy Questionnaire, composto por nove escalas, mensuradas por escores, com a análise dos dados descritiva e inferencial.

Resultados: o Suporte Social Para a Saúde foi associado ao nível de escolaridade fundamental (p=0,009). Compreensão e Apoio dos Profissionais de Saúde foram relacionados ao tempo de doença crônica (p=0,044). A Avaliação das Informações de Saúde mostrou-se associada à faixa etária (p=0,001), saber ler (p=0,010) e escrever (p=0,032). Navegar no Sistema de Saúde também esteve relacionado à faixa etária (p=0,018), assim como a Capacidade de Encontrar Boas Informações de Saúde (p=0,002), e saber ler (p=0,010), e Compreender as Informações de Saúde bem o Suficiente para Saber o que Fazer esteve associada à faixa etária (p=0,001) e saber escrever (p=0,010).

Conclusão: escolaridade, faixa etária, tempo de doença crônica, saber ler e escrever, interferem no letramento em saúde. Isso destaca a necessidade de estratégias personalizadas que levem em consideração essas variáveis para melhorar o letramento em saúde em populações com doenças crônicas hospitalizadas.

Descritores:
Letramento em Saúde; Doenças Não Transmissíveis; Hospitalização; Doenças Crônicas; Acesso à Informação; Gestão em Saúde


Destaques:

(1) Primeiro estudo brasileiro que avaliou o letramento em saúde de pessoas com DCNT. (2) Potencialidades: capacidade de interação, navegar no sistema e suporte social. (3) Fragilidades: avaliação das informações de saúde e capacidade de encontrá-las. (4) Idade, escolaridade, saber ler e escrever interferem no letramento em saúde.

Objective: to identify the association between health literacy and sociodemographic and clinical variables of hospitalized patients in people hospitalized with chronic diseases.

Method: this was a cross-sectional study of patients with chronic illnesses admitted to a general hospital. A sociodemographic/clinical questionnaire and the Health Literacy Questionnaire comprising nine scales measured by scores, were used, with descriptive and inferential data analysis.

Results: Social Support for Health was associated with the level of primary education (p=0.009). Understanding and Support from Health Professionals were related to the length of chronic illness (p=0.044). Evaluation of Health Information was associated with age (p=0.001), being able to read (p=0.010) and write (p=0.032). Navigating the Health System was also associated with age (p=0.018), as was the Ability to Find Good Health Information (p=0.002) and being able to read (p=0.010), and Understanding Health Information Well Enough to Know What to Do was associated with age (p=0.001) and being able to write (p=0.010).

Conclusion: schooling, age group, length of time with a chronic illness, and being able to read and write interfere with health literacy. This highlights the need for personalized strategies that take these variables into account in order to improve health literacy in hospitalized populations.

Descriptors:
Health Literacy; Noncommunicable Diseases; Hospitalization; Chronic Diseases; Access to Information; Health Management


Highlights:

(1) The first Brazilian study to assess the health literacy of people with CNCDs. (2) Strengths: ability to interact, navigate the system, and social support. (3) Weaknesses: evaluation of health information and ability to find it. (4) Age, schooling, and ability to read and write interfere with health literacy.

Objetivo: identificar la asociación entre alfabetización en salud y las variables sociodemográficas y clínicas de pacientes hospitalizados con enfermedades crónicas.

Método: estudio transversal, realizado con pacientes con enfermedades crónicas ingresadas en un hospital general. Se utilizó un cuestionario sociodemográfico/clínico y el Health Literacy Questionnaire, compuesto por nueve escalas, medidas por puntajes. Análisis descriptivo e inferencial de los datos.

Resultados: el apoyo social a la salud se asoció con el nivel de educación primaria (p=0,009). La comprensión y el apoyo de los profesionales de la salud se relacionaron con la duración de la enfermedad crónica (p=0,044). La evaluación de la información de salud se asoció con la franja etaria (p=0,001), saber leer (p=0,010) y escribir (p=0,032). Navegar por el sistema de salud también estuvo relacionado con la franja etaria (p=0,018), al igual que la capacidad para encontrar buena información de salud (p=0,002), saber leer (p=0,010) y comprender la información de salud lo suficientemente bien como para saber qué hacer se asoció con la franja etaria (p=0,001) y saber escribir (p=0,010).

Conclusión: la educación, la franja etaria, la duración de la enfermedad crónica y el saber leer y escribir interfieren en la alfabetización en salud. Esto destaca que es necesario desarrollar estrategias personalizadas que consideren esas variables para mejorar la alfabetización en salud de la población hospitalizada.

Descriptores:
Alfabetización en Salud; Enfermedades no Transmisibles; Hospitalización; Enfermedades Crónicas; Acceso a la Información; Gestión en Salud


Destacados:

(1) Primer estudio brasileño que evaluó la alfabetización en salud de personas con ECNT. (2) Potencialidades: Capacidad para interactuar, navegar en el sistema y apoyo social. (3) Debilidades: Evaluación de la información de salud y capacidad para encontrarla.(4) La edad, la educación y el saber leer y escribir interfieren en la alfabetización en salud.

Introdução

As Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs) constituem um problema mundial de saúde pública. São consideradas a principal causa de incapacidade e mortalidade prematura no mundo, e respondem pela morte de 40,8 milhões de pessoas, o equivalente a 74% de todas as mortes ( 1 ).

O acometimento pelas DCNTs implica no acesso aos bens e serviços públicos, garantia de direitos, informação, emprego, renda e a possibilidade de fazer escolhas favoráveis à saúde ( 2 ). Nesse contexto, o Letramento em Saúde (LS) contribui e pode modificar os fatores negativos à saúde e ajudar a compreender os pontos fortes e frágeis das pessoas e das comunidades. Representa o conhecimento e as competências pessoais que se acumulam por meio de atividades cotidianas, interações sociais e gerações. Mediados por estruturas organizacionais e a disponibilidade de recursos que permitem que as pessoas acessem, compreendam, avaliem e usem as informações e os serviços, de maneira que promovam e que mantenham a boa saúde e o bem-estar ( 3 ).

O LS é considerado como o melhor indicador de saúde em relação a muitos determinantes sociais ( 4 ). O LS insuficiente resulta no uso inadequado dos serviços e gera resultados negativos para a saúde. Além disso, associa-se às altas taxas de hospitalização, ao aumento da prevalência de doenças, ao menor uso de métodos preventivos e à baixa adesão aos tratamentos. Em contrapartida, quando adequado, melhora o autogerenciamento do cuidado, da Qualidade de Vida (QV) e, consequentemente, reduz as reinternações hospitalares, e a sobrecarga e os custos ( 5 ).

Nesse contexto, os pacientes com agravamento de sua saúde por DCNTs frequentemente requerem a internação hospitalar, devido à sua complexidade clínica. E os profissionais de saúde que os assistem, em especial a Enfermagem, precisam contribuir no preparo para a alta de modo seguro e de forma que dê continuidade ao cuidado. Para tanto, faz-se necessária a construção de habilidades, considerando o nível de LS, no intuito de facilitar o manejo, o empoderamento, o entendimento do seu autocuidado, e evitar, consequentemente, os eventos adversos e as reinternações ( 6 ).

Alguns estudos têm-se limitado a fazer a avaliação das habilidades cognitivas de leitura e numeramento, sem considerar os demais aspectos do LS, que permitem que os indivíduos e a sociedade sejam responsáveis por suas condições de saúde ( 7 ). Uma pesquisa com pessoas acometidas com DCNTs, na Etiópia, identificou que os níveis de LS variam de acordo com as características sociodemográficas e clínicas. Nesse sentido, os profissionais de saúde devem avaliar o nível de LS e adaptar as informações e o apoio às competências de LS conforme o contexto dos pacientes, o que favorece a gestão da sua condição crônica durante a vida ( 8 ).

No contexto internacional, outros estudos têm identificado a relação do LS com a caracterização sociodemográfica ( 9 ), porém não com as condições clínicas. No Brasil, foram realizados estudos de avaliação multidimensional do LS em diferentes populações, como os profissionais de saúde, usuários em geral, cuidadores domiciliares e pessoas com o Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) ( 10 - 12 ). No Brasil, o LS é pouco explorado no contexto das práticas e da gestão em saúde, inexistindo uma padronização de estratégias e planos eficazes para melhor LS e sua efetividade. Sobretudo, que possam ser aplicados durante o período de internação, pois poucas são as instituições que executam as ações com enfoque nestes, para que possam contribuir para a redução de reinternações hospitalares.

Assim, por meio da identificação das associações do LS com as variáveis sociodemográficas e clínicas, os profissionais de Enfermagem e as instituições de saúde poderão reconhecer as fragilidades do LS e desenvolver as estratégias eficazes para as pessoas com doenças crônicas, a fim de reduzir as reinternações. Reconhece-se a escassez de estudos nacionais e internacionais que relacionem o LS com a caracterização sociodemográfica e clínica, na perspectiva de pessoas que vivem com DCNTs. Diante desse contexto, e da lacuna do conhecimento identificado, é que se justifica a realização deste estudo.

Assim, este estudo objetiva identificar a associação do LS com as variáveis sociodemográficas e clínicas de pacientes hospitalizados com doenças crônicas.

Método

Tipo de estudo

Trata-se de um estudo quantitativo e transversal baseado nas diretrizes do Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE). Salienta-se que o LS no contexto hospitalar será analisado na perspectiva de pacientes com doenças crônicas, a partir das variáveis sociodemográficas e clínicas.

Contexto e coleta de dados

O estudo foi realizado em um hospital geral com 76 leitos de unidades de internação clínica, na cidade de Ijuí, Rio Grande do Sul (RS), Brasil. As unidades são compostas por 18 leitos privativos e 58 leitos não privativos duplos. A instituição oferece um programa de “Medicina Preventiva em Atenção Integral à Saúde”, que acompanha os pacientes por meio de atividades de atenção integral e preparo para a alta hospitalar.

Período

A coleta de dados foi realizada entre os meses de abril e outubro de 2023.

Participantes

Participaram da pesquisa 166 pessoas hospitalizadas com DCNTs.

Critérios de seleção

Critérios de inclusão: os pacientes maiores de 18 anos, com diagnóstico de DCNTs registrado em prontuário de saúde, internados por pelo menos 24 horas. Foram excluídos parturientes, pacientes cirúrgicos, institucionalizados após a alta, e pessoas com atividade cognitiva não preservada, que foi avaliada pela primeira autora, enfermeira, via registros no prontuário de saúde e presencialmente à beira do leito, a partir da avaliação do nível de consciência do paciente, bem como do conteúdo.

Definição da amostra

A população do estudo foi constituída pelos pacientes internados com DCNTs na instituição, no período de abril a agosto de 2023, o que alcançou um tamanho populacional, de aproximadamente 370 pacientes, o que caracteriza uma população finita. Como estimativa para a base de cálculo sobre o tamanho amostral, considerou-se o principal fator de estudo, a escala Health Literacy Questionnaire (HLQ). Para o total da escala foi assumido escore médio de 3,0 (±1,0), que define o ponto médio.

Com base nessa estimativa e ao assumir o nível de significância de 5% (α=0,05), uma margem de erro de 7,5% sobre a média a ser estimada, que equivale a uma variação de 0,2 unidades, o tamanho mínimo de amostra foi definido em 159 pacientes. Ao aplicar o fator de correção para as populações finitas, o tamanho mínimo necessário, para este estudo foi estimado em 112 investigados. Dessa forma, como alcançaram 166 investigados, foi satisfeito um tamanho amostral que validasse a representatividade amostral.

Diariamente os prontuários eletrônicos eram analisados, para a identificação do perfil clínico do paciente e o tempo de internação, e foram convidados durante o período de coleta de dados. Dos prontuários analisados, 192 pacientes foram convidados a participarem da pesquisa e, destes, 26 recusaram. Assim, a amostra foi constituída por 166 pacientes internados com DCNTs.

Variáveis do estudo

Foram consideradas as variáveis sociodemográficas idade, sexo, renda, escolaridade, raça, estado civil, fazer parte do programa da Medicina Preventiva, saber ler e escrever. E as variáveis clínicas como: condições de saúde, tempo de diagnóstico, ter uma ou mais doenças crônicas. Para o LS utilizaram-se as escalas do questionário HLQ.

Instrumentos utilizados para a coleta das informações

No prontuário de saúde foram obtidas as informações a respeito das variáveis clinicas dos pacientes. Para as variáveis sociodemográficas e LS utilizaram-se um questionário sociodemográfico e o HLQ, respectivamente, à beira do leito. O HLQ é um instrumento multidimensional para mensurar o LS ( 7 ), validado para uso no Brasil ( 10 ).

O HLQ engloba 44 itens e é subdividido em duas partes. Na parte 1, tem-se as escalas: 1. Compreensão e Apoio dos Profissionais de Saúde (HPS); 2. Informações Suficientes Para Cuidar da Saúde (HSI); 3. Cuidado Ativo da Saúde (AMH); 4. Suporte Social Para a Saúde (SS); 5. Avaliação das Informações de Saúde (CA). Nestas escalas o escore para o cálculo da média é de um a quatro, com respostas variando entre “discordo totalmente” e “concordo totalmente” ( 7 , 10 ).

Na parte 2, tem-se as escalas: 6. Capacidade de Interagir Ativamente com os Profissionais de Saúde (AE); 7. Navegar no Sistema de Saúde (NHS); 8. Capacidade de Encontrar Boas Informações de Saúde (FHI); 9. Compreender as Informações de Saúde bem o Suficiente para Saber o que Fazer (UHI). Estas escalas são avaliadas com escore que pode variar de um a cinco, e as respostas vão de “sempre difícil” a “sempre fácil” ( 7 , 10 ). O HLQ não fornece pontuação global e, sim, escores para cada uma das escalas separadamente. A pontuação indica pontos fortes e as necessidades de cada pessoa em relação ao seu LS ( 7 , 10 ). O cálculo é realizado pela soma de cada item das escalas, e esse valor é dividido pelo número de itens da escala, sendo o valor apresentado como a média da pontuação. O estudo obteve anuência prévia dos autores para uso do instrumento em atendimento aos direitos autorais para sua utilização (hl-info@swin.edu.au).

Coleta de dados

Os instrumentos foram aplicados à beira do leito, face a face, com o auxílio do telefone celular ou tablet. A cada dois dias, era acessado o prontuário eletrônico do paciente para verificar as novas internações. Na sequência, o entrevistador se dirigia até o leito do paciente e o convidava para participar do estudo e, caso houvesse alguma impossibilidade, o auxiliar se retirava do quarto e retornava posteriormente. As pessoas responderam o questionário na ausência de cuidador ou familiar, garantindo a privacidade e os aspectos éticos. Participaram da coleta de dados quatro auxiliares de pesquisa, estudantes de Enfermagem e Medicina, previamente capacitados pela coordenadora do projeto, ou seja, a última autora, por meio da leitura e do acompanhamento na coleta de dados inicial, bem como o seguimento, até encerrá-la. As entrevistas tiveram tempo aproximado de 30 minutos.

Tratamento e análise dos dados

Os resultados foram apresentados por meio da estatística descritiva, pelas medidas de tendência central e de variabilidade. A simetria das distribuições contínuas foi estudada pelo teste de Kolmogorov-Smirnov. Para verificar a confiabilidade do instrumento calculou-se o alfa de Cronbach. Na comparação das variáveis contínuas entre os dois grupos independentes, foi utilizado o teste t-Student. Quando a comparação dos escores envolveu três ou mais grupos independentes, empregou-se a Análise de Variância (One Way) – post hoc Bonferroni. A relação de linearidade que envolveu as idades, os escores das escalas foi analisado por meio do coeficiente de correlação de Pearson. O tratamento estatístico foi realizado com auxílio do programa estatístico Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 25.0 (SPSS Inc., Chicago, IL, USA, 2018) para Windows, e para os critérios de decisão estatística foi adotado o nível de significância de 5%.

Aspectos éticos

O estudo respeitou os aspectos éticos conforme a Resolução no 466/2012. A pesquisa foi aprovada em 28 de fevereiro de 2023 pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), com nº 66693823.7.0000.5350 e o Parecer nº 5.915.197.

Resultados

Dos (100%) pacientes com DCNTs, as doenças crônicas mais prevalentes foram 153 (92,2%) cardiovasculares, 40 (24,1%), metabólicas, 41 (24,7%), neurológicas e 38 (22,9%), neoplasias. Houve predomínio de pacientes do sexo feminino (87; 52,4%), com média de idade de 69,3 ±14,3 anos, de cor branca (159; 95,8%), com renda de até cinco salários-mínimos (121; 73%). A maioria (158; 95,8%) referiu saber ler e escrever. Em relação à escolaridade, (92;55,4%) pacientes não estudaram ou tinham Ensino Fundamental, (40; 24,1%), cursaram Ensino Médio e (34; 20,5%), o Ensino Superior completo. Quanto a sua participação no programa de Medicina Preventiva, a maioria referiu que não participava (117; 70,5%). Em relação ao tempo de doença crônica, a maioria referiu que tinha a doença há mais de 14 anos (70; 42,2%) (Tabela 1).

Tabela 1 -
Caracterização sociodemográfica e clínica de pessoas com doenças crônicas não transmissíveis. Ijuí, RS, Brasil, 2023

Na Tabela 2 são apresentadas as médias do HLQ e a consistência interna do instrumento.

Tabela 2 -
Medidas de tendência central, de variabilidade e consistência interna das escalas do HLQ*. Ijuí, RS, Brasil, 2023

Ao avaliar os escores do LS identificou-se que as escalas que tiveram melhores médias, consideradas pontos fortes, foram: Capacidade de Interagir Ativamente com os Profissionais de Saúde, Navegar no Sistema de Saúde e Suporte Social Para a Saúde, portanto, consideradas potencialidades. E as escalas Avaliação das Informações de Saúde, Informações Suficientes Para Cuidar da Saúde e Capacidade de Encontrar Boas Informações de Saúde, com menores médias, consideradas fragilidades (Tabela 2).

Ao comparar as faixas etárias com as escalas Compreensão e Apoio dos Profissionais de Saúde (HPS), Informações Suficientes Para Cuidar da Saúde (HSI), Cuidado Ativo da Saúde (AMH) e Suporte Social Para a Saúde (SS), não foram encontradas diferenças estatísticas significativas. Encontrou-se correlação fraca significativa na escala Suporte Social Para a Saúde (SS) para os pacientes com idade mais avançada (r=0,153; p=0,049) (Tabela 3).

Tabela 3 -
Média e desvio-padrão para as escalas HPS*, HSI, AMH e SS§ da escala HLQ||, segundo características específicas da amostra. Ijuí, RS, Brasil, 2023

A comparação das faixas etárias com as escalas Compreensão e Apoio de (HPS), Informação Suficiente para Cuidados de Saúde (HIS), Cuidados de Saúde Ativos (AMH) e Suporte Social Para a Saúde (SS) aconteceu em relação às escalas da parte 1, não havendo diferenças estatisticamente significativas (Tabela 3).

Em relação à escolaridade observaram-se escores maiores nos pacientes com instrução até o Ensino Fundamental (p=0,009). Entre os dois níveis de escolaridade mais elevados, não houve diferença significativa na comparação entre os escores. Os resultados relacionados às demais escalas mostraram que as diferenças entre os escores dos diferentes níveis de escolaridade não foram representativos. Quanto às características saber ler ou saber escrever, não houve diferenças estatísticas significativas (Tabela 3).

Quando comparada a participação ou não dos pacientes no programa de Medicina Preventiva, observou-se diferença estatística significativa entre aqueles que participavam do programa de Medicina Preventiva, na escala Informações Suficientes Para Cuidar da Saúde (HSI) (p=0,015). Quanto às demais escalas, não houve diferenças estatísticas significativas (Tabela 3).

Ao se comparar os pacientes em relação ao tempo de DCNT e as escalas HPS; HSI e AMH, constatou-se diferença estatística significativa para os pacientes com diagnóstico entre cinco e 14 anos e acima de 14 anos de doença, com os escores médios mais elevados na escala Compreensão e Apoio dos Profissionais de Saúde (HPS) (p=0,044) (Tabela 4).

Tabela 4 -
Média e desvio-padrão para as escalas CA*, AE e NHS da escala HLQ§, segundo as características sociodemográficas. Ijuí, RS, Brasil, 2023

Ao se comparar as faixas etárias e as escalas Avaliação das Informações de Saúde (CA), Capacidade de Interagir Ativamente com os Profissionais de Saúde (AE) e Navegar no Sistema de Saúde (NHS), observou-se diferença estatística significativa para a escala Avaliação das Informações de Saúde (CA) (p<0,001). Identificou-se escore médio mais elevado nas faixas etárias até 49 anos e de 50 a 69 anos. Ressalta-se que a definição da escala CA com escore alto indica que a pessoa é capaz de identificar boas informações e fontes confiáveis, resolver as informações conflitantes sozinha ou com ajuda de outras pessoas. Esta capacidade se mostrou presente nos pacientes com até 49 anos e de 50 a 69 anos (Tabela 4).

Ao comparar a idade dos pacientes às escalas CA, AE, NHS obteve-se correlação estatisticamente significativa e negativa para a escala CA (r = -0,301; p<0,001). Isso aponta que os elevados escores na escala Avaliação das Informações de Saúde (NHS) devem estar correlacionados aos pacientes com menores faixas etárias da amostra (Tabela 4).

A escala Navegar no Sistema de Saúde (NHS) (p=0,018) mostrou resultado significativamente superior, com escore médio na faixa etária de 50 a 69 anos, quando comparada aos demais. Na escala de Capacidade de Interagir Ativamente com os Profissionais de Saúde (AE), não foi observada diferença estatística significativa. Também os resultados das correlações entre a idade e as escalas AE e NHS não mostraram diferenças estatísticas significativas. Ao considerar a comparação da escolaridade em relação às escalas CA, AE, e NHS, encontrou-se diferença estatística significativa com a escala CA (p<0,0001). Pacientes com níveis de escolaridade de Ensino Médio e Ensino Superior Completo apresentaram escores médios significativamente mais elevados, quando comparados àqueles com menor nível. Nas escalas AE e NHS não se encontraram diferenças estatísticas significativas (Tabela 4).

Em relação ao fato de saber ler, obteve-se diferença significativa, com destaque exclusivamente na escala CA (2,5±0,7 vs 1,9± 0,9 p=0,010), na qual os pacientes que referiram saber ler apresentaram escore médio significativamente superior, em comparação aos demais.

Um resultado semelhante foi observado em relação à variável saber escrever, quando comparada às escalas CA, AE, NHS. A diferença significativa foi obtida pela escala CA (p=0,032), apontando que os pacientes que declararam saber escrever apresentaram escore médio significativamente superior (Tabela 4).

Ao considerar as análises que envolveram as comparações da faixa etária, na escala Capacidade de Encontrar Boas Informações de Saúde (FHI), houve uma diferença estatística significativa (p=0,002), e apontou-se que os escores médios nas faixas de idade até 49 anos e de 50 a 59 anos se mostraram significativamente mais elevados. Também se encontrou resultado semelhante na comparação da faixa etária com a escala Compreender as Informações de Saúde bem o Suficiente para Saber o que Fazer (UHI) (p=0,001) (Tabela 5).

Tabela 5 -
Média e desvio-padrão para as escalas FHI* e UHI da escala HLQ, segundo as características sociodemográficas. Ijuí, RS, Brasil, 2023

Segundo definição da escala, há evidências de que as faixas etárias até 49 anos e de 50 a 69 anos apresentaram maior habilidade de explorar as informações. Além disso, as duas faixas etárias também apresentaram maior capacidade de entender as informações escritas em relação à saúde.

Ao correlacionar as escalas com a idade, identificaram-se as correlações estatisticamente significativas e negativas, tanto entre a idade e a escala FHI (r = -0,334; p<0,001), quanto sobre os dados da escala UHI (r = -0,301; p<0,001). Há evidências de que os pacientes com as idades mais elevadas se mostraram correlacionados aos menores escores.

No que se refere às comparações sobre a questão saber ler, nos escores das escalas FHI e UHI obteve-se algumas diferenças estatisticamente significativas. Identificou-se que o escore médio foi significativamente maior entre os investigados que declararam saber ler (FHI) (p=0,010). Um resultado semelhante ocorreu ao comparar a variável sabe ler. Ao se considerar as comparações com a escala UHI, sobre a questão saber escrever (p=0,010), a diferença estatística significativa se configurou exclusivamente sobre esta escala, apontando um escore médio superior no grupo que relatou saber escrever.

Discussão

Este é o primeiro estudo brasileiro que avaliou o LS de pacientes com DCNTs e sua relação com as variáveis sociodemográficas (idade, escolaridade, saber ler e escrever, e se faz parte da Medicina Preventiva) e clínicas (tempo de diagnóstico de DCNTs) por meio da análise bivariada. Identificou-se que os maiores escores foram nas escalas: Suporte Social Para a Saúde e Capacidade de Interagir Ativamente com os Profissionais de Saúde, ambos os resultados semelhantes a outro estudo internacional, com pessoas de uma comunidade de pesca rural no norte do Egito ( 13 ).

Predominaram as pessoas com Doenças Cardiovasculares (DCV,) semelhante a um estudo que avaliou o LS no Brasil com pessoas acometidas por DCNTs, ao qual predominou as DCV com 230 pessoas (29%) e o sexo feminino (67,5%) ( 10 ). Outros estudos recentes também reafirmaram esses resultados ( 1 , 6 ). Observou-se uma redução do LS com o aumento da idade e menor escolaridade. O LS desempenha papel significativo no manejo das DCNTs, consideradas complexas, que se tornam um desafio significativo e de longo prazo para as pessoas e para o sistema de saúde ( 4 , 6 ).

Os menores escores foram encontrados nas escalas Avaliação das Informações de Saúde e Capacidade de Encontrar Boas Informações de Saúde, o que corrobora outros estudos, realizados no Brasil, que utilizaram o mesmo instrumento com pessoas com HIV e com doença renal crônica ( 12 , 14 ).

Neste estudo, os pacientes com idades avançadas e escolaridade baixa tiveram os melhores desempenhos na escala Suporte Social Para a Saúde, resultado semelhante ao encontrado em outros estudos ( 15 ). Ademais, o suporte social de qualidade promove melhores resultados de saúde ( 16 ) e da autogestão ( 17 ). Para tanto, a educação e apoio aos familiares e cuidadores envolvidos nesse contexto pode ser uma estratégia útil para os serviços de saúde; outros estudos ( 18 - 19 ) sugerem que os cuidadores de pessoas com DCNTs têm necessidade de informações sobre os cuidados, sendo cruciais os princípios do LS no cotidiano dos cuidadores, profissionais e gestores para os melhores desfechos e decisões em saúde ( 11 ).

Um estudo realizado na Austrália apontou que os pacientes com idade avançada e grau de instrução menor têm necessidade e/ou recebem maior Suporte Social Para a Saúde, o que favorece o LS desta população ( 20 ). Outra pesquisa no Brasil mostrou resultados semelhantes aos dessa investigação ( 14 , 21 ).

É fundamental que os profissionais de saúde avaliem o nível de LS dos pacientes e adaptem as informações e o apoio às competências de LS conforme o contexto dos seus pacientes, de forma singular, pois favorece a gestão da sua condição crônica de saúde durante a vida ( 9 ). Ressalta-se que as estratégias pautadas em comunicação assertiva, informações compreensíveis e o acesso aos serviços de forma clara favorecem o LS das pessoas ( 7 , 22 ).

Dados deste estudo evidenciaram que os pacientes que participavam de um programa de Medicina Preventiva tiveram melhor média na escala Informações Suficientes Para Cuidar da Saúde. Ou seja, sentiam-se confiantes de que tinham as informações de que precisavam para conviver, gerenciar suas condições e tomar as decisões em relação à sua saúde ( 8 ), diferente de outros estudos que apresentaram médias mais baixas ( 12 - 13 ). Isso ressalta a importância de programas que sejam baseados nos princípios de LS ( 3 ).

É importante ter relação estabelecida com pelo menos um profissional de saúde que os conheça bem e em quem confiem, para receber informações úteis para os ajudar a compreender as orientações e a tomar decisões sobre sua saúde ( 8 ). O fortalecimento do vínculo facilita a continuidade do cuidado prestado e oportuniza o desenvolvimento de estratégias de forma singular. Considera-se estratégico que a transmissão de informações pelos profissionais de saúde seja clara e com linguagem acessível, de maneira a favorecer a compreensão e incentivar o autogerenciamento ( 23 ), visto que os serviços de saúde constituem a porta de entrada principal, e são considerados como fonte de informação segura para os usuários.

Os pacientes do estudo em tela apontaram fragilidades nas escalas Informações Suficientes Para Cuidar da Saúde e Avaliação das Informações de Saúde. Apresentaram lacunas em relação ao seu conhecimento de saúde, não conseguiam compreender as informações que recebiam e acreditavam não possuir informações necessárias para o autogerenciamento. Essa fragilidade foi corroborada por outro estudo ( 12 ), que identificou o grau de adesão baixo/insuficiente ao tratamento medicamentoso de pessoas com HIV, devido às fragilidades encontradas sobre Informações Suficientes Para Cuidar da Saúde e Avaliação das Informações de Saúde.

Esses resultados têm implicações importantes e reafirmam a necessidade, e avanços, no cuidado às pessoas com DCNTs, em termos de comunicação assertiva entre os pacientes e os profissionais de forma singular, em concordância com outros estudos que apresentaram resultados semelhantes ( 11 , 24 - 25 ). O acesso às informações não é o principal problema, mas sim a sua qualidade, visto que as pessoas precisam entender as orientações de forma clara para seu autogerenciamento. Para tanto, a disponibilização de materiais educativos sobre a doença e o tratamento em linguagem acessível e de fonte segura são recursos que podem ser adotados ( 7 , 23 ).

A comunicação assertiva pode ser empregada por meio do uso de teach back, que favorece a compreensão das informações ( 26 ). Essas estratégias oferecem suporte para que as pessoas aumentem o conhecimento, a capacidade para a tomada de decisão compartilhada, o engajamento e o seu autogerenciamento ( 26 - 27 ).

Este estudo identificou que os pacientes mais jovens e com maior grau de instrução tiveram potencialidades de LS para identificar as boas informações em fontes seguras, bem como entender as informações conflitantes sozinhas ou com a ajuda de outras pessoas. O nível de escolaridade é relevante, uma vez que as pessoas com grau de escolaridade maior podem obter melhor acesso às informações sobre os cuidados em saúde e o tratamento das DCNTs ( 28 ).

Isso, embora influencie, nem sempre é considerado característica determinante, visto que pessoas com níveis altos de estudo podem ter LS insuficiente, pois este é singular e transcende o saber ler ou escrever, consideradas as habilidades de tomada de decisão, promoção da saúde, acesso e navegação no sistema de saúde ( 7 ).

Os resultados da escores da escala Cuidado Ativo da Saúde mostraram fragilidades para o LS. Ela relacionou-se com a responsabilidade do indivíduo com sua saúde e com envolver-se proativamente de modo a tomar suas próprias decisões. Este fato pode estar associado à idade e à baixa escolaridade, pois a idade avançada pode reduzir a capacidade de realizar tarefas cognitivas que requeiram o processamento de informações. As pessoas com maior idade parecem ter mais dificuldade para concluir tarefas que exijam raciocínio ou tirar conclusões a partir das informações apresentadas ( 29 ).

Nesse sentido, o suporte social deve ser uma preocupação dos profissionais de saúde, em especial da Enfermagem, a fim de aprimorar as práticas educativas que possam proporcionar uma escuta qualificada, com esclarecimento sobre os cuidados, e considerando, inclusive, as questões emocionais ( 30 ), com vistas à abordagem integral aos idosos e com maior vulnerabilidade.

Ao se considerar os escores das escalas Capacidade de Encontrar Boas Informações de Saúde e Compreender as Informações de Saúde bem o Suficiente para Saber o que Fazer, identificou-se que, até a faixa etária de 69 anos, as pessoas apresentaram potencialidades de LS. É necessário que as pessoas consigam explorar, compreender e utilizar diferentes fontes de informações, sendo capazes de escrever adequadamente em formulários, quando necessário.

O estudo possibilitou a identificação dos aspectos que necessitam ser aprimorados na assistência, a fim de subsidiar a elaboração de estratégias e favorecer o LS. Com o estudo, foi possível perceber que o investimento em políticas de saúde, nos âmbitos público e privado, baseadas em estratégias de LS é crucial, assim como se faz necessário apoiar os gestores, profissionais da saúde e os usuários engajados para que haja a mudança efetiva.

Este estudo tem algumas limitações: o tipo de estudo eleito, quantitativo e transversal, que não permite estabelecer relação de causalidade entre as variáveis, bem como a sua realização em um único hospital geral. Portanto, deve-se ter cuidado ao generalizar os resultados. Apesar das limitações, este estudo traz inovações sobre a importância de considerar o LS para a qualificação da assistência em saúde em DCNTs. Os resultados podem fornecer subsídios para o aprofundamento de pesquisas futuras investigando a relação causal entre o LS e as variáveis sociodemográficas e clinicas dos pacientes internados com DCNTs.

Conclusão

Os pacientes apresentaram potencialidades em LS, nas escalas Suporte Social Para a Saúde (3,5±0,4), Capacidade de Interagir Ativamente com os Profissionais de Saúde (3,9±0,9) e Navegar no Sistema de Saúde (3,6±1,0). Em contrapartida, identificaram-se fragilidades na Avaliação das Informações de Saúde. (2,5±1,0) e na Capacidade de Encontrar Boas Informações de Saúde (3,1±1,0).

Houve uma associação significativa entre o LS e as variáveis sociodemográficas, como idade, escolaridade e saber ler e escrever. Os pacientes na faixa etária até 49 anos e de 50 a 59 anos apresentaram médias menores, enquanto aqueles com menor escolarização apresentaram médias maiores na escala Suporte Social Para a Saúde. As faixas etárias menores evidenciaram os melhores resultados de LS nas escalas: Avaliação das Informações em Saúde, Capacidade de Encontrar Boas Informações de Saúde e Compreender as Informações de Saúde Bem o Suficiente para Saber o que Fazer.

Os pacientes mais jovens, com maior escolaridade e habilidades de leitura e escrita, apresentaram escores mais elevados em escalas relacionadas à avaliação e compreensão das informações de saúde. Por outro lado, os indivíduos de idade mais avançada e menor escolaridade mostraram escores menores, indicando as fragilidades na compreensão das informações em saúde. Por outro lado, a escala Suporte Social Para a Saúde se mostrou como potencialidade e pode favorecer o LS na avaliação e na utilização dos serviços de saúde.

Os pacientes que participavam do programa de Medicina Preventiva tiveram maiores médias na escala Informações Suficientes Para Cuidar da Saúde. As pessoas com mais tempo de DCNTs informaram que são mais compreendidas e apoiadas pelos profissionais de saúde.

Diante do exposto, é necessário que os profissionais de saúde reflitam e implementem as estratégias de LS de forma singular para os pacientes com faixa etária maior e baixa escolaridade, a fim de que estas possam usufruir na tomada de decisão sobre a sua saúde e o seu bem-estar.

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  • *
    Artigo extraído da dissertação de mestrado “Letramento em saúde de pessoas com doenças crônicas não transmissíveis: estudo de métodos mistos”, apresentada à Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, Ijuí, RS, Brasil. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) - Código de Financiamento 001, Brasil e apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), processo nº 306855/2021-6, Brasil.
  • Como citar este artigo
    Rodrigues FO, Gheno EER, Castro L, Nogaro A, Rosa ACM, Kolankiewicz ACB. Sociodemographic and clinical characteristics associated with health literacy in people hospitalized for chronic diseases. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2025;33:e4494 [cited]. Available from: . https://doi.org/10.1590/1518-8345.7395.4494

Editado por

  • Editora Associada:
    Maria Lúcia Zanetti

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Maio 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    20 Mar 2024
  • Aceito
    22 Out 2024
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