Na atualidade, as mudanças rápidas que estão acontecendo na educação superior a partir das propostas emanadas do projeto TUNNING e do espaço europeu de educação superior (EEES), e a transformação radical da sua estrutura supõem uma mudança profunda que tem uma especial repercussão nos processos de ensino-aprendizagem da enfermagem. A aparição de uma nova estrutura curricular baseada em competências, a proposta de novos métodos de ensino centrados explicitamente na aprendizagem das estudantes e a nova concepção do trabalho da docência emergente diante dessas mudanças, estão gerando umas exigências pedagógico-didáticas que não tem paradigmas na recente história das universidades. Uma das mais destacadas é a que reclama uma formação centrada no estudante e que o prepare adequadamente para as complexas tarefas que hoje em dia exigem as práticas profissionais da enfermagem.
Um dos elementos centrais dessa mudança tem sido a profunda reconceituação que foi levada a cabo sobre os fundamentos epistemológicos das ações que as enfermeiras profissionais realizam no exercício das suas funções1. Esta ressignificação da natureza dos saberes que efetivamente põem em jogo as enfermeiras profissionais tem sofrido por sua vez uma mudança, na maneira de representa-los, formaliza-los e transmiti-los2. Dois são os motivos que tem impulsado essa mudança.
Em primeiro lugar, a que parafraseando a Schön3 poderíamos denominar a crise da perícia ou competência profissional. Esta crise tem gerado um movimento no qual a habilidade profissional requerida para uma prática competente do cuidado, tem deixado de considerar-se uma ciência aplicada baseada na racionalidade técnica ou instrumental para apoiar-se cada vez mais em uma racionalidade prático-reflexiva, a qual, tem suposto, uma redignificação da enfermeira profissional como agente epistémico4.
A primeira entende que a boa práxis profissional do cuidado consiste na aplicação de técnicas e procedimentos, padronizados e validados cientificamente, a solução de problemas bem estruturados e formalizados. A conexão entre problemas e técnicas (meios) se aprende a estabelecer na formação universitária através do treinamento na aplicação sistemática de teorias cientificamente estabelecidas3. Tanto os processos de identificação/diagnóstico de problemas, como os procedimentos de resolução, não se consideram problemáticos uma vez estabelecidos, além das dificuldades que podem encontrar-se para aprendê-los por parte do estudante. A segunda, muito pelo contrario, defende que na prática profissional da enfermagem os problemas (e suas soluções) não costumam apresentar-se de forma estruturada. De fato, existem abundantes evidencias empíricas que permitem afirmar que inicialmente não costumam apresentar-se como problemas (uma situação para que se dispõe de pelo menos uma solução técnica conhecida), bem como situações ambíguas, pouco claras e desorganizadas: o que Schön5 denomina uma situação problemática. Ou seja, uma situação cronológica e cognitivamente previa ao estabelecimento do problema. A prática profissional do cuidado está saturada de ambiguidade e incertezas e demanda, portanto uns saberes suficientemente flexíveis e dinâmicos para poder se adaptar às situações de mudança que o constituem e aos problemas éticos que lhe são inerentes. Conhecimentos que vão muito além das teorias formais, abstratas e descontextualizadas, que são as que exclusivamente usam os novatos (o mapa) nos distintos campos profissionais, porque requer um juízo profissional sustentado no que Dreyfus e Dreyfus6 tem denominado compreensão situacional (o território).
Em segundo lugar, e como consequência dessa perda de confiança na forma de explicar em que consiste e como se desenvolve a perícia profissional, tem se produzido uma forte insatisfação e tem se formulado numerosas críticas à formação que as enfermeiras recebem. Questiona-se que as universidades dominadas pelas culturas “monodisciplinares” e por exigências de produção de conhecimento formais sejam capazes de proporcionar uma formação profissional de qualidade baseada nos saberes utilizados realmente pelas enfermeiras profissionais e as competências que efetivamente põem em jogo para o desenvolvimento de todas as suas funções1.
Para que essa formação que se pede possa efetivamente ser desenvolvida, se exige à pesquisa universitária que se foque no estúdio da prática do cuidado uma espécie de “volta à realidade” fenomenológica dessas práticas2. Trata-se de estudar os saberes das enfermeiras profissionais em seus contextos reais de elaboração e utilização: seu trabalho e as tarefas que desenvolvem, seu conhecimento na prática5. Estes conhecimentos são indissociáveis da “ação profissional”. São estudos elaborados e incorporados durante a prática profissional do cuidado e unicamente tem sentido em relação a essa. O exercício profissional da enfermagem e os saberes que o sustentam, e que nele se produzem, não são instancias separadas, mas, co-pertencem a uma prática determinada, co-evoluem com ela e com essa se transformam. Pensar os conhecimentos profissionais sem articula-los com as situações práticas que lhes dão sentido é um erro.
Há suficientes evidencias para afirmar que as situações práticas com as que as enfermeiras profissionais se enfrentam estão carregadas de incertezas e ambiguidade, que unicamente podem reduzir-se mediante uma análise da situação e seu contexto1,3,7. Essa análise, no entanto, se realiza tanto sobre o contexto da situação como sobre as expectativas, motivações e interesses dos participantes na mesma, resultando um “marco de referencia” que contextualiza e delimita as possibilidades das ações a executar-se e facilita a compreensão dos problemas. O que é importante destacar é que nem a análise original nem o marco resultante são produtos do conhecimento acadêmico nem da derivação e aplicação de princípios e regras técnicas assimiladas pela enfermeira profissional durante sua formação inicial2. Reclama-se, em suma, que os múltiplos saberes e competências que sustentam as práticas profissionais da enfermagem sejam considerados uma fonte de primeira ordem para o delineamento e desenvolvimento dos programas universitários de formação de enfermeiras.
Referências bibliográficas
- 1 Benner P, Tanner C, Chesla C. Expertise in nursing practice: caring, clinical judgment, and ethics. Londres: Springer; 2009.
- 2 Medina JL, Jarauta B, Menegaz J. A formalização do conhecimento profissional no currículo. Rev Ibero-Am Estudos Educ. 2018;13(2):588-603.
- 3 Schön D. La formación de profesionales reflexivos. Hacia un nuevo diseño de la formación y el aprendizaje en las profesiones. Madrid: Paidós MEC; 1992.
- 4 Medina JL. La pedagogía del cuidado. Saberes y prácticas en la formación universitaria en enfermería. Santiago de Chile: Ediciones de la Universidad de Chile; 2017.
- 5 Schön D. The reflective practitioners: How Professionals Think in Action. New York: Basic Books; 1983.
- 6 Dreyfus HL, Dreyfus SE. Mind over machine.The Power of Human Intuition and Expertise in the Era off the Computer. Nueva York: McMillan; 1986.
- 7 Atkinson T, Claxton G. El profesor Intuitivo. Barcelona: Octaedro; 2002.

