Open-access Cuidados de enfermagem em saúde mental para pessoas com diabetes mellitus: revisão integrativa *

Objetivo:  avaliar as evidências disponíveis sobre os cuidados de enfermagem em saúde mental para pessoas com diabetes mellitus nos diferentes níveis de atenção à saúde.

Método:  revisão integrativa da literatura. Busca realizada em cinco bases de dados. Amostra composta por 14 estudos. Os estudos foram exportados para o gerenciador EndNote, e seus dados, para uma planilha desenvolvida pelo Microsoft Excel. A qualidade metodológica dos estudos foi avaliada por meio de ferramentas propostas pelo Joanna Briggs Institute. Etapas de amostragem, categorização, avaliação, interpretação dos resultados e síntese dos estudos incluídos foram realizadas por dois revisores de forma independente e mascarada. A análise descritiva dos resultados é apresentada em três categorias.

Resultados:  orientações para o autocuidado potencializadas pela rede de suporte social, englobando ferramentas e estratégias no âmbito físico e psíquico; estratégias de comunicação terapêutica e psicoterapia, focalizando a psicoterapia e a comunicação terapêutica; e intervenções de autogestão/ autogerenciamento, abordando o autocuidado com base em teorias comportamentais.

Conclusão:  a síntese do conhecimento revelou que as orientações para o autocuidado potencializadas pela rede de suporte social, estratégias de comunicação terapêutica e psicoterapia e intervenções de autogestão/autogerenciamento são intervenções positivas que auxiliam as pessoas com transtornos mentais e diabetes mellitus na prevenção de agravos.

Descritores:
Diabetes Mellitus; Complicações do Diabetes; Saúde Mental; Cuidados de Enfermagem; Autogestão; Padrões de Prática em Enfermagem


Destaques:

(1) A literatura brasileira sobre os cuidados em saúde mental de pessoas com diabetes é escassa.

(2) A revisão aborda cuidados em saúde mental para pessoas com diabetes mellitus.

(3) O autocuidado potencializado pela rede de suporte reverbera na saúde mental.

(4) Comunicação terapêutica e psicoterapia comportamental são cuidados eficazes.

(5) Intervenções pautadas em autogestão/ autogerenciamento reduzem o sofrimento psíquico.

Objetivo:  evaluar las evidencias disponibles en la literatura sobre la atención de enfermería en salud mental a personas con diabetes mellitus en los diferentes niveles de atención de salud.

Método:  revisión integrativa de la literatura. Búsqueda en cinco bases de datos. Muestra de 14 estudios, exportados al gerenciador EndNote®. Los datos se organizaron en planilla de Microsoft Excel®. La calidad metodológica de los estudios fue evaluada mediante herramientas propuestas por el Joanna Briggs Institute. Las etapas de muestreo, categorización, evaluación, interpretación de resultados y síntesis de los estudios incluidos fueron realizadas por dos revisores de manera independiente y ciega. El análisis descriptivo de resultados está presentado en tres categorías.

Resultados:  recomendaciones para autocuidado reforzado por la red de apoyo social, incluyendo herramientas y estrategias de los ámbitos físico y psíquico; estrategias de comunicación terapéutica y psicoterapia, haciendo foco en la psicoterapia y la comunicación terapéutica; e intervenciones de autogestión/autogerenciamiento, abordando el autocuidado en base a teorías conductuales.

Conclusión:  la síntesis de conocimientos reveló que las pautas de autocuidado reforzadas por la red de apoyo social, las estrategias de comunicación terapéutica y psicoterapia y las intervenciones de autogestión/autogerenciamiento son intervenciones positivas que ayudan a las personas con diabetes mellitus y trastornos mentales a prevenir complicaciones.

Descriptores:
Diabetes Mellitus; Complicaciones de la Diabetes; Salud Mental; Atención de Enfermería; Automanejo; Pautas de la Práctica en Enfermería


Destacados:

(1) La literatura brasileña sobre atención de enfermería en salud mental a personas con diabetes mellitus es escasa.

(2) La revisión aborda la atención de salud mental a personas con diabetes mellitus.

(3) El autocuidado potenciado por la red de soporte repercute en la salud mental.

(4) La comunicación terapéutica y la psicoterapia conductual constituyen cuidados eficaces.

(5) Las intervenciones centradas en la autogestión/autogerenciamiento reducen el sufrimiento psíquico.

Objective:  evaluate the evidence available on mental health nursing care for people with diabetes mellitus at different levels of health care.

Method:  integrative literature review. The search was conducted in five databases. The sample consisted of 14 studies. The studies were exported to the EndNote manager and their data to a Microsoft Excel spreadsheet. The methodological quality of the studies was evaluated using tools proposed by the Joanna Briggs Institute. Sampling, categorization, evaluation, interpretation of the results, and synthesis of the included studies were carried out by two reviewers independently. The descriptive analysis of the results is presented in three categories.

Results:  self-care guidelines enhanced by the social support network, encompassing physical and psychological tools and strategies; therapeutic communication and psychotherapy strategies, focusing on psychotherapy and therapeutic communication; and self-management interventions, addressing self-care based on behavioral theories.

Conclusion:  the synthesis of knowledge revealed that guidelines for self-care enhanced by the social support network, psychotherapy and therapeutic communication strategies, and self-management interventions are positive interventions that contribute to people with mental disorders and diabetes mellitus in the prevention of diseases.

Descriptors:
Diabetes Mellitus; Diabetes Complications; Mental Health; Nursing Care; Self-Management; Nurses’ Practice Patterns


Highlights:

(1) The Brazilian literature on mental health care for people with diabetes is scarce.

(2) The review addresses mental health care for people with diabetes mellitus.

(3) Self-care enhanced by the support network is reflected in mental health.

(4) Therapeutic communication and behavioral psychotherapy are effective treatments.

(5) Interventions based on self-management reduce psychological suffering.

Introdução

O cuidado em saúde mental deve ser considerado como parte essencial do cuidado para pessoas com Diabetes Mellitus (DM) ( 1 ). Os Transtornos Mentais (TMs) e os sentimentos de sofrimento psíquico, que diferem conceitualmente pela duração, gravidade dos sintomas e repercussões na funcionalidade do sujeito, são habituais em pessoas com (DM) ( 2 - 4 ). Ademais, a depressão e a ansiedade são TMs que apresentam alta prevalência e variam de 18% a 54,3% em pessoas com DM ( 4 - 7 ). As evidências científicas apontam existir uma associação linear entre os sintomas depressivos e o DM ( 7 - 9 ). A partir desse cenário, surgem condições desfavoráveis: o autogerenciamento da doença é prejudicado, piora o controle metabólico ( 10 ), aumenta a incidência das complicações microvasculares, macrovasculares e a expectativa de vida diminui ( 1 , 10 ). As principais complicações do DM podem contribuir, de maneira direta ou indireta, com o agravamento de quadros relacionados ao sistema musculoesquelético, ao sistema digestório, à função cognitiva e saúde mental ( 6 , 11 ). Nesse sentido, essas complicações podem provocar sofrimento psíquico que podem levar aos TMs, caso não sejam realizados cuidados em saúde mental precocemente ( 1 , 12 ). Essa condição impacta no cotidiano de vida dessas pessoas nos espaços individuais, familiares e comunitários, podendo-se vivenciar graves restrições de ordem física e emocional ( 3 , 13 ). A complexidade do cenário impõe cuidados estruturados precoces em saúde mental, com destaque para as necessidades psicossociais ( 14 - 15 ).

Estima-se que, até 2045, a população da América do Sul e da Central (SACA) com DM será de 49 milhões, ocasionando aumento de 25% da prevalência de DM, chegando a 11,9%. No Brasil, os dados do inquérito de 2021 mostraram prevalência de 10,5% de adultos entre 20 e 79 anos com DM. Essa situação constitui importante desafio para a saúde pública, visto que, em 2021, 65,3 bilhões de dólares foram gastos com DM na região da SACA, representando 6,7% do total de ônus no mundo ( 16 ).

Diante dessa realidade, a prestação de cuidados por equipes de saúde pode possibilitar intervenções pautadas em práticas clínicas baseadas em evidências permitindo o fortalecimento das estruturas existentes com o objetivo de ofertar cuidados integrados e contínuos ( 14 , 17 ). A busca por melhores resultados terapêuticos no sistema de saúde moderno é desafiadora. O cuidado atual em saúde é subdividido em especialidades, essa realidade torna o cuidado fragmentado ( 1 ). As pessoas com DM e TM não são atendidas pelo princípio da integralidade, pois usualmente são atendidas por equipes diferentes que ofertam cuidado para apenas uma das morbidades ( 3 ). No que diz respeito à equipe de enfermagem, o cuidado de enfermagem destaca-se na promoção da saúde, na prevenção das enfermidades e na recuperação e reabilitação da saúde, com isso o cuidado aos pacientes com DM e TM requer dos profissionais de enfermagem uma visão ampla das necessidades impostas pela doença. Esse processo contribui para a oferta de cuidados contínuos no gerenciamento das condições crônicas e de suas complicações, tendo participação fundamental na estruturação de processos de educação em saúde ( 17 ). Um modelo ideal para pacientes com DM e TM consistiria em uma abordagem integral em saúde, constituída de atividades educativas e cuidados em saúde mental, conduzindo à melhoria dos sintomas de TM e ao aumento da adesão às terapêuticas propostas ( 1 , 17 ).

Diante do exposto, é fundamental conhecer os cuidados em saúde mental para as pessoas com condições crônicas, como o DM, a fim de se alcançarem melhores resultados no controle da doença. Ademais, o enfermeiro é responsável pelo planejamento e implementação de cuidados de enfermagem, para direcionar melhor adesão ao tratamento, prevenção das complicações ou detecção precoce, a fim de auxiliar, de forma efetiva, no bem-estar do paciente. Portanto, o presente estudo tem como objetivo avaliar as evidências disponíveis sobre os cuidados de enfermagem em saúde mental para pessoas com DM, nos diferentes níveis de atenção à saúde.

Método

Tipo de estudo

Revisão Integrativa (RI) da literatura desenvolvida de acordo com as seguintes fases: elaboração da questão de revisão, busca na literatura dos estudos primários, avaliação dos estudos primários, análise dos dados e apresentação da revisão ( 18 ). O protocolo da RI foi registrado no Repositório de Dados de Pesquisa da Unicamp, no dia 6 de dezembro de 2022, e está disponível no link: https://doi.org/10.25824/redu/CXJHTW.

Local

O estudo foi realizado no município de Campinas, estado de São Paulo, Brasil.

Período

O período de condução do estudo foi de janeiro de 2021 a janeiro de 2023.

População

A pergunta de revisão elaborada foi: Quais as evidências disponíveis sobre os cuidados de enfermagem em saúde mental para pessoas com DM nos diferentes níveis de atenção à saúde? A partir do acrônimo PICo ( 19 - 20 ), em que, P (População): Pessoas com DM, com ou sem diagnóstico médico de TM; I (Interesse): cuidado em saúde mental/cuidados de enfermagem; e Co (Contexto): níveis de atenção à saúde, ou seja, pacientes que estão em seguimento/acompanhamento na rede de saúde. Esse acrônimo contribui para realizar uma busca efetiva a partir da elaboração da pergunta de revisão, a fim de direcionar a pesquisa de acordo com os objetivos propostos ( 20 ).

Critérios de seleção

Os critérios de elegibilidade para o desenvolvimento da RI foram: estudos primários sem restrição de tempo, cujos autores investigaram os cuidados de enfermagem em saúde mental para pessoas com Diabetes Mellitus tipo 1 (DM1) ou Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2), com ou sem diagnóstico médico de TM, nos diferentes níveis de atenção à saúde, disponíveis eletronicamente na íntegra, publicados em inglês, espanhol ou português. Os critérios de exclusão foram: documentos no formato de carta, editoriais, estudos de caso único, livros, teses, artigos de revisão e artigos não disponíveis na íntegra. O fluxograma de identificação dos estudos encontrados foi elaborado de acordo com as diretrizes Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) ( 21 ).

Definição da amostra

Foram utilizadas as bases de dados eletrônicas de dados/portais: PubMed, Web of Science, Scopus, LILACS, SciELO, CINAHL e American Psychological Association. A estratégia de busca foi construída por meio dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e dos termos indexados no Medical Subject Headings (MeSH), com auxílio dos operadores booleanos AND e OR, objetivando uma alta sensibilidade em cada base de dados e um amplo espectro de resultados. Os termos utilizados foram: “Diabetes Mellitus”, “ Nursing Care”, “ Nursing”, “ Nursing Services”, “ Mental Health”, “ Mental Disorders”, “ Psychiatric Nursing”, “ Mental Health Services”, “ Psychiatric Nursing” e “ Health Care Levels”.

Durante as buscas, optou-se pela estratégia de cruzamento dos descritores e das palavras-chave a partir do uso dos operadores booleanos, assim, inicialmente, os descritores de cada conjunto da estratégia PICo foram combinados entre si com o conector booleano OR ou AND e, em seguida, cada conjunto foi combinado com o conector AND ( Figura 1).

Figura 1 -
Estratégia de busca utilizada. Campinas, SP, Brasil, 2023

Os artigos encontrados foram exportados para o gerenciador de referências EndNote (C larivate Analytics) online, possibilitando armazenamento e organização, bem como verificação e exclusão dos registros duplicados ( 22 ). A etapa de seleção dos artigos foi realizada, de maneira independente, por duas pesquisadoras cujas divergências foram solucionadas mediante consenso. A seleção dos estudos ocorreu em duas fases: 1) leitura de títulos e resumos, de acordo com os critérios de inclusão e exclusão e 2) leitura do artigo na íntegra.

Coleta de dados

Para a coleta e categorização de dados dos estudos incluídos na revisão, foi desenvolvida uma planilha no software Microsoft Excel, versão 2013, registrando-se as seguintes informações: autores, ano de publicação e país de afiliação, título do artigo, objetivo, metodologia, nível de evidência, caracterização da amostra/participantes, intervenções, principais resultados e conclusão. As etapas de triagem, seleção e análise dos artigos foram realizadas, de maneira independente, por duas pesquisadoras cujas divergências foram solucionadas mediante consenso.

Análise dos dados

Para os níveis de evidência, consideraram-se as classificações: I, evidência obtida de revisão sistemática ou metanálise de ensaios clínicos randomizados e controlados relevantes; II, derivada de ensaio controlado, aleatório e com indivíduos randomizados de um grupo de tratamento/controle; III, proveniente de ensaio controlado sem randomização, não aleatório a um grupo de tratamento/controle; IV, obtida de estudo de caso-controle ou coorte; V, derivada de revisão sistemática de estudos qualitativos ou descritivos; VI, procedente de estudo qualitativo e descritivo; VII, derivada do parecer ou consenso de comitê de especialistas ( 23 ).

A análise e síntese dos estudos selecionados foram realizadas por meio de leituras críticas e agrupamento de conteúdos de maneira descritiva, classificando os estudos em categorias para posterior discussão, com base na literatura científica disponível, sobre a temática. Foram alocados em três categorias de cuidados que emergiram nos estudos primários, consideradas fundamentais para a discussão dos achados. Esse processo ocorreu com o auxílio da planilha desenvolvida no software Microsoft Excel.

Resultados

Os resultados desta RI correspondem à análise de 14 artigos científicos publicados, selecionados de acordo com as diretrizes do PRISMA ( Figura 2).

Figura 2 -
Fluxograma do processo de seleção dos estudos primários incluídos na revisão integrativa de acordo com o Preferred Reporting Items for Systematic Review and Meta-Analyses (PRISMA). Campinas, SP, Brasil, 2023

Diante dos resultados, foi possível identificar diferentes tipos de cuidados em saúde mental que foram abordados nos estudos desta amostra. Do ponto de vista qualitativo, para melhor compreensão e organização dos resultados, estes foram subdivididos em três categorias temáticas: “Orientações para o autocuidado potencializadas pela rede de suporte social”, “Estratégias de comunicação terapêutica e psicoterapia” e “Intervenções de autogestão/autogerenciamento”. As categorias, o detalhamento da análise e a quantidade de estudos que foram alocados em cada categoria constam na Figura 3.

Figura 3 -
Categorias temáticas. Campinas, SP, Brasil, 2023

A evolução temporal dos estudos analisados corresponde ao período de 2009 a 2022, sendo que 21,43% (n=3) deles estão concentrados no ano de 2020. Os 14 estudos estão publicados em periódicos nacionais (n=1) e internacionais (n=13). Quanto à origem dos estudos, 21,43% (n=3) são provenientes da China, 21,43% (n=3), dos Estados Unidos da América e os demais (7,14%), do Reino Unido, Canadá, Brasil, Países Baixos, Indonésia, Turquia, Irã e Noruega, com um estudo cada, respectivamente. Em relação aos níveis de atenção à saúde em que os estudos foram realizados, 46,86% (n=6) foram conduzidos na Atenção Primária, 28,57% (n=4) na Atenção Secundária e 21,43% (n=3) na Atenção Terciária. A categoria níveis de atenção não se aplica a um dos estudos (7,14%) ( Figura 4).

No que se refere ao tipo de estudo, 35,71% (n=5) são de abordagem qualitativa, 28,57% (n=4) ensaios clínicos randomizados, 7,14% (n=1) quase-experimental randomizado com grupo controle, 7,14% (n=1) transversal descritivo, 7,14% (n=1) descritivo correlacional, 7,14% (n=1) observacional randomizado e 7,14% (n=1) ensaio clínico não randomizado ( Figura 4). Quanto aos níveis de evidência, 21,43% (n=3) apresentam nível I, 21,43% (n=3) nível II, 50,00% (n=7) nível VI e 7,14% (n=1) nível VII ( Figura 4).

Figura 4 -
Caracterização dos artigos incluídos na revisão integrativa: estudo primário, ano, país de origem, delineamento, nível de atenção à saúde, desfechos/conclusões, nível de evidência e base de dados. Campinas, SP, Brasil, 2023

Discussão

Os achados são apresentados e discutidos em três categorias temáticas: Orientações para o autocuidado potencializadas pela rede de suporte social, Estratégias de comunicação terapêutica e psicoterapia e Intervenções de autogestão/autogerenciamento.

Orientações para o autocuidado potencializadas pela rede de suporte social

A literatura mostrou que as orientações para práticas de autocuidado são um tipo de cuidado que reverbera na saúde mental da pessoa. Os estudos analisados na RI indicaram a necessidade de orientar, em uma lógica educativa, práticas que objetivam o autoconhecimento e fornecem ferramentas para a promoção do autocuidado. A rede de suporte social da pessoa com DM pode potencializar orientações de autocuidado, e essas ações promovem a saúde mental ( 24 , 26 - 27 , 30 ). Reforçando que o engajamento às boas práticas de autocuidado, tais como adotar um plano alimentar saudável, praticar exercícios físicos regularmente, gerenciar a glicose sanguínea e manter adesão terapêutica medicamentosa, é fundamental para reduzir os riscos da condição crônica em longo prazo ( 28 ), além de reduzir os custos com os tratamentos e, consequentemente, minimizar estados ansiosos e outros sentimentos de sofrimento psíquico ( 38 ).

Nesse sentido, pessoas com TM e DM precisam vivenciar os sintomas em relação a ambas as condições crônicas, apresentando diferentes desafios no manejo do diabetes, em virtude dos sintomas mentais e efeitos adversos dos medicamentos psicotrópicos. Logo, o TM em conjunto com o DM podem ser desfavoráveis nas práticas de autocuidado ( 27 ) - pois muitos sintomas dos transtornos mentais interferem na vontade, determinação e nas outras atividades funcionais ( 6 ) - necessitando de monitoramento cuidadoso por parte da equipe de saúde ( 27 ). Essa afirmativa deve alertar o enfermeiro que geralmente está nas atividades de acolhimento, avaliação inicial ou triagem nos serviços da atenção primária à saúde, a fim de considerar estratégias de monitoramento e implementação de cuidados efetivos para as condições mencionadas.

Apesar de haver piores resultados clínicos em pessoas com DM e TM, quando há uma rede de suporte social, os pacientes apresentam melhores níveis de autoeficácia relacionados ao DM, o que tem sido associado à melhora dos níveis de glicose e ao maior engajamento na autogestão da doença ( 5 , 7 , 9 ). Estudo mostrou que o aprimoramento da rede de suporte social percebido pela pessoa com DM causa regressão nos sentimentos de sofrimento ( 30 ). Logo, as iniciativas que permeiam essa temática devem fazer parte das práticas de cuidado em saúde mental, a fim de auxiliar no enfrentamento das dificuldades apresentadas por ambas as condições crônicas. Sendo assim, o mapeamento da rede de suporte social, por meio de ferramentas, pode contribuir e ampliar a percepção da pessoa sobre a importância do autocuidado ( 27 ).

Verifica-se que comportamentos de incentivo e retorno positivo dos profissionais de saúde podem ser considerados fatores de motivação para essas pessoas na realização das práticas de autocuidado ( 27 , 38 ). Nesse sentido, destaca-se a relevância das consultas de enfermagem sistematizadas objetivando a construção contínua do plano de cuidados individualizado, a fim de promover a autogestão dos cuidados, incentivar a adesão terapêutica a ambas as doenças, devendo essa edificação contemplar questões biopsicossociais inerentes à pessoa humana, bem como buscar pelo suporte social ( 17 , 27 ).

Estratégias de comunicação terapêutica e psicoterapia

Os cuidados em saúde mental com fundamentação na comunicação terapêutica e psicoterapia foi o resultado mais expressivo em termos de número de artigos. A relação interpessoal utilizando estratégias de comunicação terapêutica aparece como possibilidade de cuidado em saúde mental para pacientes com DM. Psicoterapia individual e grupal ancorada em referenciais teóricos, com destaque para a TCC, EM e Psicanálise, emergiu como potência ( 28 - 29 , 32 - 34 , 39 ).

Em relação aos cuidados em saúde mental voltados para um campo relacional, dos quais destacam-se a comunicação terapêutica e as psicoterapias, as evidências apontam que estas podem promover e melhorar a saúde mental, intensificando a motivação para a realização do autogerenciamento das comorbidades, ou seja, oferecem maior possibilidade de construção de autonomia e responsabilidade no tratamento ( 10 , 40 ).

Esses cuidados podem ser edificados em espaços grupais ( 33 ) ou individuais e geralmente são utilizados como terapia de suporte ( 32 ), ou seja, em conjunto com outras terapêuticas, inclusive medicamentosas. Estudo clínico randomizado conduzido no Reino Unido traz a TCC e EM conduzidas por enfermeiros habilitados em que não houve diferenças significativas dos resultados e nem melhora dos níveis glicêmicos ( 28 ). Por outro lado, outro estudo clínico conduzido por enfermeiros utilizando a intervenção guiada de autoajuda (terapia de suporte) apresentou resultados positivos, com redução significativa dos sintomas de ansiedade e depressão ( 32 ). Ainda, sessões de psicoterapia pautadas no modelo de aceitação e compromisso em saúde mental, associadas ao tratamento medicamentoso, demonstraram melhora na saúde mental e no estado mental geral de pessoas com DM ( 29 ).

Os estudos envolvem temáticas que podem ser abordadas nessas estratégias de cuidado em saúde mental: reflexões sobre autoestima relacionada às perdas funcionais ocasionadas pela DM; habilidades adaptativas da pessoa por meio da exploração de comportamentos interpessoais ( 39 ) ; identificação de soluções individuais por meio da relação terapêutica em espaços voltados para o cuidado em saúde mental ( 34 ) ; valores e crenças articulados com respostas comportamentais ( 33 ).

A TCC em pessoas com DM2 é apontada, em outros estudos, como eficaz e potencialmente econômica quando associada com manejos medicamentosos de primeira linha, exercícios físicos e engajamento de um plano alimentar adequado ( 11 , 40 ).

Outros estudos evidenciam que a combinação dos cuidados em saúde mental pautados na comunicação terapêutica e nas psicoterapias associada com práticas de autocuidado e terapia medicamentosa resulta na melhora de sintomas depressivos em pessoas com DM. Esses estudos descreveram efeito positivo maior e duradouro sobre sintomas depressivos do que quando o tratamento é feito apenas com medicamentos antidepressivos ( 12 , 15 , 40 ).

Por fim, cabe ressaltar que os cuidados em saúde mental planejados e operacionalizados pela equipe de enfermagem encontram-se no eixo da relação terapêutica e o referencial teórico de que essa técnica necessita para ser aplicada com eficácia ( 41 ).

Intervenções de autogestão/autogerenciamento

As intervenções de autogestão/autogerenciamento foram apontadas nesta revisão como evidências do cuidado em saúde mental. O fato de a pessoa com DM conseguir autonomia no seu tratamento e resultados positivos nos níveis glicêmicos e outros indicadores de autogestão parece diminuir sintomas dos TM e sentimentos de sofrimento psíquico ( 25 , 31 , 35 , 42 ).

O conceito de autogestão refere-se à capacidade de a pessoa gerenciar as consequências clínicas e psicossociais, juntamente com mudanças no estilo de vida, relacionando-a à convivência com uma condição crônica, neste caso, com o DM e algum TM, esse processo é mediado pela equipe nos diferentes equipamentos de saúde ( 42 ). Esse cuidado em saúde mental pode proporcionar autonomia e, ao mesmo tempo, traz a corresponsabilidade da pessoa para o contexto do tratamento, ampliando a compreensão de que os cuidados precisam de adesão efetiva para bons resultados.

Para a prática clínica da enfermagem, as intervenções de autogestão/autogerenciamento devem ser direcionadas a incentivar e aperfeiçoar o autocuidado, pois podem trazer benefícios e promover a autonomia da pessoa para gerir o DM e o TM. Esse cuidado é apontado na literatura como potencializador no engajamento ao tratamento, no processo de aprendizagem e na melhoria do bem-estar geral ( 35 ). Esse cuidado em saúde mental é apresentado de forma complexa, uma vez que envolve o planejamento de aspectos relacionados ao alcance de objetivos, intensidade, duração, ambiente, modo de funcionamento (grupal ou individual), tipo e treinamento do profissional de saúde ou paciente ( 32 , 43 - 44 ).

A autogestão (ou o autogerenciamento) é influenciada pela psicologia comportamental e pautada nas teorias de mudança de comportamento em saúde, como a teoria cognitiva social e a teoria da ação racional e comportamento planejado, dentre outras. No decorrer dessa intervenção, os profissionais de saúde trabalharam com a pessoa sobre terapia medicamentosa, alimentação saudável, realização de atividade física, monitoramento dos níveis de glicose e regularidade nas consultas ( 35 , 42 ). Nesse contexto, é importante ressaltar a necessidade de o enfermeiro se instrumentalizar em referenciais teóricos da saúde mental ( 41 ) por meio de capacitações, objetivando a detecção precoce e intervenções mais acuradas e integrais para a pessoa com DM e TM.

Pessoas com DM e algum tipo de doença mental podem apresentar autogestão inadequada para ambas as condições. Essa realidade pode resultar em instabilidade da glicose sanguínea e complicações subsequentes, além dos desafios em relação à saúde física, psicológica e social. Todas essas variáveis causam um baixo estado de saúde funcional e uma autogestão insatisfatória ( 35 ). Reconhecer precocemente esses aspectos nessa população, principalmente no que tange a equipamentos que são portas de entrada para o sistema de saúde, é fundamental ( 12 ). Profissionais de saúde, ao reconhecer essa população, podem intervir precocemente, e esse mapeamento precoce proporciona o aumento da capacidade de autogestão e gerenciamento ( 35 ).

Estudos que emergiram desta revisão relatam sobre as complicações do DM e como são mais prováveis de se desenvolverem quando existe autogestão inadequada dessa condição crônica. Os cuidados em saúde mental pautados nas intervenções de autogestão devem ser adaptados para pessoas com DM2 e TMs graves, com a finalidade de ampliar essa capacidade ( 35 ).

A aplicação da intervenção de TTIM por enfermeiros com o objetivo de capacitar pessoas com DM e TM pode tornar as pessoas ativamente envolvidas nos cuidados ( 31 ). Considerada uma ferramenta de autogerenciamento, essa intervenção proporciona ampliação do conhecimento de saúde ( 13 , 25 ).

A TTIM é uma intervenção que pode ser liderada por enfermeiros educadores e “especialista” no conteúdo e é realizada em duas etapas que consistem em sessões semanais em grupo e acompanhamento mensal, pessoalmente ou por telefone, durante um período de 48 semanas, para oferecer suporte ao plano de cuidados pessoais. Os enfermeiros abordam os facilitadores e as barreiras do cuidado e fazem educação em saúde em temáticas específicas, além de coordenar a comunicação com outros profissionais. A interação entre educadores de enfermagem, outros profissionais e os participantes do programa é uma característica fundamental dessa intervenção ( 31 ). Em estudo qualitativo, conduzido por meio de um ensaio clínico randomizado, que incluiu 10 pessoas com DM e TM grave e que participaram de uma intervenção TTIM, a intervenção de autogestão, foram atribuídos significado positivo das experiências grupais, aumento do conhecimento sobre sua saúde e aumento da autoconfiança ( 25 ). Dessa forma, destaca-se a importância de que os profissionais de saúde, com ênfase na enfermagem, desenvolvam prática clínica acurada e fundamentada em evidências para o cuidado em saúde mental e manejo do DM.

Assim, o cuidado deve ser direcionado por estratégias que tenham como objetivo mapear e avaliar essa população precocemente e ofertar cuidados em saúde mental com intuito de mediar o gerenciamento dos sintomas do TM e DM ( 28 , 39 ). Essas ações podem promover a saúde física e mental, auxiliando na melhoria do bem-estar geral e redução de riscos em longo prazo ( 34 - 35 , 45 ).

A presente RI foi desenvolvida com esforços para atender o rigor metodológico necessário. Contudo, algumas limitações foram identificadas. Primeiramente, o critério de inclusão de artigos disponíveis na íntegra e gratuitamente pode não ter permitido a inclusão de estudos pertinentes à proposta. Ademais, alguns estudos incluídos apresentam limitações metodológicas, das quais destacam-se a fragilidade na composição amostral, o baixo nível de evidência e a existência de descrição insuficiente sobre a coleta de dados, o que, apesar de não ser um impedimento para a RI, pode tornar a discussão de alguns estudos, vulnerável. Para sanar essa limitação, revisões sistemáticas futuras podem ser desenvolvidas considerando, especificamente, estudos com um maior nível de evidência científica. Ademais, foi identificado apenas um estudo primário nacional que respondia à pergunta de pesquisa, o que pode caracterizar uma lacuna desse conhecimento no contexto nacional.

Diante do exposto, os cuidados em saúde mental para pessoas com DM e TM devem ser implementados pelos profissionais da área da saúde, com ênfase nos profissionais de enfermagem que geralmente estão nas atividades de acolhimento, triagem e cuidado individualizado, visando a apoio psicossocial, plano de cuidado para a autogestão do DM e TM e promoção de estratégias de prevenção para ambos os problemas de saúde. Ao implementar esses cuidados, o enfermeiro poderá, inclusive, monitorar sentimentos de sofrimento psíquico e promover saúde mental, bem como prevenção de agravos.

Por fim, destaca-se que os poucos estudos qualitativos identificados, a priori, apresentaram maior relação com o tema desta revisão, o que aponta um cenário de lacuna para pesquisas que envolvem enfermagem, DM e TM.

Conclusão

Os resultados da RI mostraram que as orientações para o autocuidado potencializadas pela rede de suporte social, estratégias de comunicação terapêutica e psicoterapia e intervenções de autogestão/autogerenciamento são intervenções positivas que contribuem para a prevenção de agravos em pessoas com TM e DM. Portanto, os profissionais, com ênfase para os enfermeiros, devem identificar e mapear precocemente os sintomas de sofrimento psíquico, para que os cuidados em saúde mental sejam efetivos, podendo repercutir positivamente no engajamento ao tratamento de DM. Todavia, a implementação desses cuidados de saúde ainda necessita de desenvolvimento de pesquisas com delineamentos robustos.

Agradecimentos

As autoras agradecem a Samuel Miranda Mattos por suas contribuições em relação à metodologia e a Vanessa Emile Sousa Freire por sua colaboração no processo de revisão e formatação, aperfeiçoando o presente manuscrito.

Referências bibliográficas

  • *
    Apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), processo nº 125675/2021- 6, Brasil.
  • Como citar este artigo
    Silva BB, Lima MHM, Saidel MGB. Mental health nursing care for people with diabetes mellitus: An integrative review. Rev. Lati no-Am. Enfermagem. 2023;31:e4074 [cited mês dia ano]. Available from: URL . https://doi.org/10.1590/1518-8345.6827.4074
  • Todos os autores aprovaram a versão final do texto.

Editado por

  • Editora Associada:
    Maria Lúcia Zanetti

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    04 Dez 2023
  • Data do Fascículo
    2023

Histórico

  • Recebido
    04 Maio 2023
  • Aceito
    04 Set 2023
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