Open-access O trabalhador idoso na contemporaneidade

A saúde do trabalhador é um campo de conhecimento amplo e complexo que estuda e intervém, tanto nos fatores protetores da saúde de quem trabalha, com vista à promoção da sua saúde, quanto nos que podem influenciar o seu adoecimento, numa perspectiva preventiva e de melhoria das condições de trabalho.

No âmbito dessa heterogeneidade encontram-se os tipos diversificados de ambientes laborais, com a presença de numerosos fatores de riscos ocupacionais, além das muitas categorias de trabalhadores em atividades, de diferentes sexos e faixas etárias. Entre as variações de idades das pessoas presentes no mercado de trabalho encontram-se os idosos.

Há então hoje uma tendência para o alargamento do tempo de vida ativa, justificado por razões econômicas, tanto individuais por necessidades de sobrevivência, como globais por insuficiência dos sistemas assistenciais, nos diferentes países.

No Brasil, é considerada idosa a pessoa com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos e essa definição é a mesma divulgada pela Organização Mundial da Saúde (OMS)(1); na atualidade, no pais, há mais de 28 milhões de pessoas nessa situação, representando 13% da população do país, com esse percentual tendendo a dobrar nas próximas décadas, segundo a Projeção da População de 2018(2).

Ainda no Brasil, a Secretaria de Trabalho do Ministério da Economia disponibilizou os dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), mostrando que o número de pessoas com 65 anos ou mais em vagas com carteira assinada aumentou, saindo de 484 mil em 2013 para 649,4 mil em 2017, mostrando uma ampliação de 43% em quatro anos(3). Por sua vez, em Portugal, em 2019, 17,3% dos trabalhadores ativos tinham entre 55 e 64 anos e 5,3% possuíam mais de 65 anos; para a faixa etária de 65 e mais anos a taxa de variação anual é positiva desde 2014, com um aumento percentual mais significativo em 2017, em que atingiu um crescimento de 4,3% em relação ao ano anterior(4).

Esta é uma tendência visível em muitos outros países. Na Áustria, por exemplo, as proporções de pessoas de 55-59 e de idosos de 60-64 anos que trabalham são 67% e 27%, respectivamente; no Canadá, 71% e 51%; na Dinamarca, 81% e 55%; na França, 71% e 28%; na Alemanha, 79% e 56%; nos Estados Unidos, 69% e 54%; no Japão, 80% e 64%. Na realidade, as taxas reais de participação na força de trabalho de pessoas de 60 a 64 anos vêm aumentando nas economias do G7 (Canadá, Japão, Reino Unido, Itália, Estados Unidos, Alemanha e França), desde os anos 2000(5).

Este trabalhador idoso possui, frequentemente, uma grande experiência laboral, maturidade e competência e a sua aceitação no trabalho parece estar aumentando, já que a população, de uma maneira geral, também está envelhecendo(3). Mas, por outro lado, persistem reações de discriminação em relação a ele, pois algumas tarefas tornam-se difíceis para ele realizá-las, principalmente se houver a necessidade de força física. No mercado do trabalho, precisa competir com os jovens e qualificados, enfrentar a estigmatização social, o que dificulta a sua permanência laboral, além de ser preterido nas candidaturas aos empregos, em relação aos mais jovens; em algumas empresas empregados são demitidos prestes a completar o tempo necessário para a aposentadoria; acontecem piadas de mau gosto e assédio moral contra esse trabalhador, entre outros fatos(6).

Atualmente, a disseminação de SARS-CoV-2 impõe uma atenção especial com a saúde destes indivíduos. Por um lado, porque se constituem como grupo de risco acrescido para o desenvolvimento de formas mais graves de COVID-19 e por outro, porque, frequentemente, encontram-se mais desprotegidos na sua capacidade de utilização de muitos meios de proteção, como por exemplo o recurso ao teletrabalho. Apesar disso, alguns estudos têm mostrado que os trabalhadores mais velhos são mais eficazes a responder à pandemia COVID-19. Tais resultados aparentemente contraditórios relembram o papel da idade na menor reatividade ao estresse, maior resiliência e maior competência para a regulação emocional, com uma maior utilização de comportamentos preventivos e estratégias centradas nas emoções(7).

Entretanto, as diferenças interindividuais aumentam com a idade, pelo que devem ser considerados diferentes perfis de estratégias de autorregulação entre os trabalhadores mais velhos(8), o que exige que as organizações e aqueles que se ocupam da Saúde dos Trabalhadores tenham planos de proteção dedicados, em especial, à esta faixa etária.

A inserção da pessoa idosa no mercado de trabalho é um fato contemporâneo e um direito do indivíduo e, assim, a idade como fator de vulnerabilidade e a sua singularidade devem ser considerados quando se estuda e planejam-se intervenções relacionadas à Saúde dos Trabalhadores.

Referências bibliográficas

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Maio 2021
  • Data do Fascículo
    2021
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