Objetivo: mapear as características do cuidado de enfermagem ampliado pela Antroposofia nos serviços de saúde.
Método: revisão de escopo orientada pelo JBI. Foram incluídas 18 fontes de informação e considerados elegíveis artigos originais e literatura cinzenta, publicados sem restrição ao ano de publicação ou idioma. Após remoção de duplicatas, a seleção foi conduzida por duas revisoras de forma cega e independente. Os dados foram extraídos com base em um roteiro e apresentados no formato de fluxograma e quadros.
Resultados: os 12 estudos selecionados nesta revisão mostraram que as características do cuidado de Enfermagem ampliado pela Antroposofia estão relacionadas ao conhecimento e habilidades para a aplicação de compressas, banhos, escalda-pés, deslizamento rítmico corporal, deslizamento corporal em pentagrama, cataplasma, administração de medicamentos, nos diferentes cenários de atenção à saúde, em condições agudas ou crônicas.
Conclusão: o cuidado de enfermagem ampliado pela Antroposofia nos serviços de saúde é uma especialidade promissora no cenário mundial das práticas integrativas e complementares. Nessa direção, estudos futuros são necessários para a sua validação e valorização dos aspectos curativos do cuidado.Registro: https://doi.org/10.17605/OSF.IO/NV6D5
Descritores:
Atenção à Saúde; Cuidados de Enfermagem; Enfermagem; Medicina Antroposófica; Serviços de Saúde; Terapias Complementares.
Destaques:
(1) Cuidados de Enfermagem Antroposófica (EA) integram-se com a enfermagem convencional. (2) Aplicabilidade dos cuidados de EA a diferentes contextos clínicos e de saúde. (3) A necessidade de conhecimento e habilidades advindos da Medicina Antroposófica. (4) A valoração dos aspectos curativos do cuidado implícitos na atitude do enfermeiro. (5) O potencial de atuação no cenário de saúde mundial e critérios de referência OMS.
Objective: to map the characteristics of Anthroposophy-enhanced nursing care in healthcare services.
Method: a scoping review guided by the JBI. Eighteen sources of information were included, and original articles and gray literature published without restrictions concerning year or language were considered. After removing duplicates, the selection was conducted by two blind and independent reviewers. Data were extracted based on a script and presented in flowchart and table formats.
Results: the 12 studies selected in this review showed that the characteristics of Anthroposophy-enhanced nursing care are related to the knowledge and skills for applying compresses, baths, foot baths, rhythmical Einreibung, pentagram body Einreibung, poultices, and medication administration in different healthcare settings, for acute or chronic conditions.
Conclusion: Anthroposophy-enhanced nursing care in healthcare services is a promising specialty in the global scenario of integrative and complementary practices. In this sense, future studies are needed to validate it and to enhance the curative aspects of care. Register: https://doi.org/10.17605/OSF.IO/NV6D5
Descriptors:
Delivery of Health Care; Nursing Care; Nursing; Anthroposophy; Health Services; Complementary Therapies.
Highlights:
(1) Anthroposophic Nursing (AN) care can be integrated with conventional nursing. (2) Applicability of AN care to different clinical and health contexts. (3) The need for knowledge and skills derived from Anthroposophic Medicine. (4) The appreciation of the curative aspects of care implicit in nurses’ approach. (5) The potential for action in the global health scenario and WHO reference criteria.
Objetivo: mapear las características del cuidado de enfermería ampliado por la Antroposofía en los servicios de salud.
Método: revisión de alcance orientada por el JBI. Se incluyeron 18 fuentes de información y se consideraron elegibles artículos originales y literatura gris, publicados sin restricción por año de publicación o idioma. Tras la eliminación de duplicados, la selección fue realizada por dos revisoras de forma ciega e independiente. Los datos fueron extraídos con base en un guion y presentados en formato de diagrama de flujo y cuadros.
Resultados: los 12 estudios seleccionados en esta revisión mostraron que las características del cuidado de Enfermería ampliado por la Antroposofía están relacionadas con el conocimiento y las habilidades para la aplicación de compresas, baños, baños de pies, deslizamiento rítmico corporal, deslizamiento corporal en pentagrama, cataplasma, administración de medicamentos, en los diferentes escenarios de atención a la salud, en condiciones agudas o crónicas.
Conclusión: el cuidado de enfermería ampliado por la Antroposofía en los servicios de salud es una especialidad prometedora en el escenario mundial de las prácticas integrativas y complementarias. En esta dirección, se necesitan estudios futuros para su validación y para la valorización de los aspectos curativos del cuidado. Registro: https://doi.org/10.17605/OSF.IO/NV6D5
Descriptores:
Atención a la Salud; Atención de Enfermería; Enfermería; Medicina Antroposófica; Servicios de Salud; Terapias Complementarias.
Destacados:
(1) Los Cuidados de Enfermería Antroposófica (EA) se integran con la enfermería convencional. (2) Aplicabilidad de los cuidados de EA a distintos contextos clínicos y de salud. (3) La necesidad de conocimientos y habilidades provenientes de la Medicina Antroposófica. (4) La valoración de los aspectos curativos del cuidado implícitos en la actitud del profesional de enfermería. (5) El potencial de actuación en el escenario de salud mundial y criterios de referencia de la OMS.
Introdução
Os cuidados de Enfermagem Antroposófica (EA) integram o sistema médico da Medicina Antroposófica (MA) e baseiam-se nas abordagens e competências convencionais da enfermagem, ampliadas pelo conhecimento antroposófico do ser humano. A diferenciação antroposófica entre corpo físico, forças vitais, alma e espírito, e a compreensão do desenvolvimento biográfico ao longo do percurso de vida proporcionam perspectivas adicionais sobre competências, processos e atitudes de enfermagem1-2.
A MA é um sistema médico integrativo que amplia a medicina convencional com métodos cognitivos e conceitos da antroposofia estabelecidos por Rudolf Steiner e pela médica Ita Wegman, em 1920. Nesse sistema, as interações de vida expressas pelo corpo, alma e espírito são reguladas de acordo com a biografia, o contexto social e ambiental de cada pessoa, e podem ser amparadas com tratamentos e terapias por meio de medicamentos, cuidados de enfermagem, psicoterapia, arteterapia, euritmia terapêutica, terapias de movimento e corporais. Os tratamentos e terapias ofertados pela MA são direcionados ao indivíduo, à família, à comunidade e aos cuidadores, em consonância com as necessidades de saúde apresentadas nos contextos dos serviços de saúde. Destaca-se, nesse sistema, a possibilidade de tornar a compreensão espiritual do ser humano verificável e documentável, por meio da avaliação e articulação de aspectos não somente do corpo, como também da alma e do espírito3-4.
O ser humano, segundo a antroposofia, tem uma natureza quádrupla - corpo físico, etérico ou vital, corpo astral ou anímico, e espiritual ou “Eu”. O corpo físico é tudo o que pode ser tocado e medido, como sinais vitais, resultados laboratoriais, altura e peso. O corpo vital está ativo em processos e ritmos regenerativos do corpo, como digestão e sono. O corpo astral (alma) tem uma forte relação com pensamentos e emoções. Finalmente, o “Eu” do ser humano se manifesta na biografia, nos caminhos de vida, no destino e nas buscas espirituais como aspecto consciente do Eu4.
A prática da MA é realizada em ambientes de cuidados primários, secundários e terciários, centros de reabilitação, lares de idosos, serviços de enfermagem comunitários, hospitais e clínicas antroposóficas, hospitais públicos e centros médicos universitários. A abordagem é aplicada de forma integrada com a medicina ocidental convencional e em conjunto com outras especialidades médicas1-2.
A equipe de enfermagem Antroposófica, em parceria com as do cuidado em MA, tem o mais alto nível de penetração da medicina integrativa na Alemanha e na Suíça, por meio da oferta de terapias nos hospitais antroposóficos e hospitais universitários acadêmicos, sendo que a sua prática é reconhecida pelos Conselhos Alemão e Holandês de Enfermagem1,3.
No Brasil, a Medicina Antroposófica faz parte da lista de Práticas Integrativas e Complementares (PICs) institucionalizadas no Sistema Único de Saúde (SUS), pela Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC). A Antroposofia aplicada à saúde foi reconhecida há pouco tempo pelo Conselho Federal de Enfermagem como área de competência e atuação da enfermagem5-6. Recentemente, a EA passou a integrar os critérios (Benchmarks) da Organização Mundial da Saúde (OMS) para Medicina Antroposófica, que expõem normas e critérios para a formação e a prática dos profissionais de saúde1.
À medida que países estabelecem estruturas regulatórias para a prática de abordagens de Terapias Integrativas e Complementares, os formuladores de políticas precisam de informações para a tomada de decisões, incluindo a avaliação da qualidade das práticas, dificuldades e formas de implementação1.
Assim sendo, após busca preliminar na MEDLINE (via PubMed), JBI Evidence Syntheses e Cochrane Database of Systematic Review, não foram identificadas revisões sistemáticas ou de escopo, publicadas ou em curso, que investigaram as características do cuidado de enfermagem ampliado pela Antroposofia e suas práticas. Diante disso, este estudo tem como objetivo mapear as características do cuidado de enfermagem ampliado pela Antroposofia nos serviços de saúde7-9.
Método
Desenho do estudo
Trata-se de uma revisão de escopo orientada pelo JBI e o PRISMA Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR): Checklist and Explanation7-9. Para registro de intenção de desenvolvimento e disponibilidade científica, o protocolo foi registrado na plataforma Open Science Framework e pode ser acessado através do DOI 10.17605/OSF.IO/NV6D58. Esta revisão objetivou responder à pergunta norteadora: “Quais as evidências na literatura sobre as características do cuidado de enfermagem ampliado pela Antroposofia nos serviços de saúde?” A elaboração desta pergunta foi feita por meio da utilização do acrônimo PCC, sendo a população (P) pessoas em qualquer fase do ciclo de vida humana, no que concerne ao conceito (C), características do cuidado de enfermagem ampliado pela Antroposofia e quanto ao contexto (C), cenários de atenção à saúde.
Período
As buscas dos dados ocorreram entre os meses de março e abril de 2024.
Critérios de seleção
Os critérios de inclusão aplicados foram: artigos originais e literatura cinzenta publicados sem restrição ao ano de publicação ou idioma. Foram excluídos artigos não disponíveis na íntegra, cujos títulos e resumos não respondiam à questão norteadora, além de cartas ao editor, editoriais, artigos de revisão, livros/capítulos de livros, e resumos de conferências.
Estratégia de busca
Quanto à estratégia de pesquisa e identificação dos estudos, utilizaram-se as seguintes fontes de informações eletrônicas: Academic Archive Online (DiVA), Academic Search Premier (EBSCOhost), CINAHL with full text (via EBSCOhost), Der Merkurstab, EMBASE (Elsevier), LILACS (BVS), MEDLINE (via PubMed), MOSAICO (Modelos de Saúde e Medicinas Tradicionais, Integrativas e Complementares nas Américas- via BVS), SciELO (Scientific Electronic Library Online), Scopus (Elsevier), ScienceDirect (Elsevier), Web of Science - Core Collection (Clarivate Analytics). O acesso à revista Der Merkurstab ocorreu pelo site Anthromedics, ambiente virtual de referência em publicações na área de Medicina Antroposófica.
A busca da literatura cinzenta (dissertações e teses) foi conduzida nas plataformas da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), Catálogo de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), CyberTesis, NDLTD (Global ETD Search), Repositório Científico de Acesso Aberto de Portugal (RCAAP), e Theses Canada.
A estratégia de busca foi elaborada com o apoio de um bibliotecário, utilizando os operadores booleanos AND e OR nos idiomas português, inglês e espanhol. Foram testadas diversas combinações de descritores extraídos do Medical Subject Headings (MeSH) e Descritores em Ciências da Saúde (DeCS). Esses descritores foram combinados em uma estratégia de pesquisa adaptada às particularidades de cada fonte de informação/repositório consultado na revisão, conforme ilustrado na Figura 1. O levantamento das publicações nas fontes de informações mencionadas ocorreu em 09 de abril de 2024.
Estratégias de busca desenvolvidas, adaptadas a cada fonte de dados. Brasília, DF, Brasil, 2024
Seleção de estudos
Após a busca, os estudos foram direcionados ao gerenciador EndNoteWeb para arquivos e exclusão de artigos em duplicidade. Em segundo momento, as referências foram enviadas ao software Rayyan® -Intelligent Systematic Review10, acessado por dois revisores para leitura de títulos e resumos, e então os estudos foram classificados utilizando-se os critérios de inclusão e exclusão. Em caso de divergência, um terceiro revisor foi consultado. Na etapa seguinte, ocorreu a leitura dos estudos selecionados na íntegra e nova triagem utilizando os critérios de inclusão e exclusão.
Extração e apresentação de dados
A extração dos dados ocorreu por meio de um formulário de extração baseado nas recomendações do JBI11, adaptado pelos autores com as informações de interesse para esta revisão, a saber: a) Informações bibliográficas e Características do estudo: título, autor(es), ano, local de estudo (país), objetivo geral, tipo de estudo; b) Características do cuidado de enfermagem ampliado pela Antroposofia: características das intervenções de Enfermagem realizadas nos ambientes de cuidado (tipos, duração, frequência), serviço de saúde em que as intervenções de enfermagem são implementadas, resultados e recomendações.
A síntese dos resultados foi ilustrada no formato de fluxograma e quadros, sucedidos por um resumo narrativo dos resultados mapeados, descrevendo-os como esses estão relacionados com o objetivo e a pergunta da pesquisa. O estudo e a qualidade metodológica não foram avaliados, visto que o objetivo desta revisão de escopo não foi fornecer uma análise crítica das evidências.
Resultados
Após análise pareada e seleção dupla cega por revisores, ao final 12 publicações foram incluídas para revisão conforme Figura 2.
A Figura 3 apresenta os estudos selecionados para revisão de escopo, segundo informações bibliográficas e características do estudo.
Caracterização das publicações mapeadas segundo autores, título do artigo, país e ano, tipo de estudo, amostra, objetivo e serviço de Saúde. Brasília, DF, Brasil, 2024
Os cuidados de enfermagem ampliados pela antroposofia estão caracterizados na Figura 4, por meio da visualização do tipo, duração e frequência, resultados e recomendações descritos nos estudos.
Caracterização das intervenções de enfermagem segundo tipo, duração, frequência, resultados e recomendações. Brasília, DF, Brasil, 2024
Discussão
Dentre os estudos analisados nesta revisão, no que se refere ao idioma, seis foram redigidos em língua inglesa, quatro em alemã, um em português e um em sueco. Em relação ao tipo de publicação, dez correspondem a artigos científicos, um a dissertação de mestrado e um a tese de doutorado. Quanto à origem geográfica, quatro estudos são provenientes da Nova Zelândia, seis da Alemanha, um do Brasil e um da Suécia12-23.
Esta revisão possibilitou mapear as características do cuidado ampliado pela antroposofia, evidenciando que a EA se utiliza das terapias externas, expressa nas práticas de compressas, cataplasmas, envoltórios, banhos, escalda-pés, lavagens intestinais, massagem com mel, deslizamentos rítmicos, pentagrama, administração parenteral e inalatória de medicamentos, usadas para queixas físicas (dor, tosse, asma, constipação, dificuldade para respirar, convulsões, tensão muscular, fadiga, falta de apetite, dificuldade de autorregulação da temperatura, pneumonia) e anímicas (medo, sofrimento psíquico, insatisfação com a saúde, estresse, exaustão mental, humor deprimido). Essas terapias combinam atenção interpessoal, toque, movimentos rítmicos, manutenção de calor, elementos fitoterápicos (óleo, essências, tinturas, pomadas) em intervenções aplicadas diariamente ou 1-2 vezes por semana, em sessões de 30-60 minutos, com duração a depender da substância aplicada, que são seguidas por um período de repouso terapêutico, e administradas em ciclos de tratamentos de acordo com a condição clínica do paciente12-23.
Nos estudos analisados, as terapias externas foram associadas à terapia medicamentosa antroposófica no início do tratamento, visando estimular a autorregulação do calor corporal e mobilização das forças etéricas, sendo o veículo para acesso dos medicamentos aos outros corpos, anímico e eu, contribuindo para que a medicação oral surta efeito mais rápido, e mobilize forças que auxiliam no processo de cura12,14,16,18-20,22-23. Primeiramente as terapias externas são coadjuvantes no processo terapêutico, mas, com o passar das sessões, tornam-se a principal terapia curativa13,16-17. As terapias externas são apontadas na literatura como facilitadoras da autorregulação autonômica e de processos salutogênicos (que promovem e potencializam o desenvolvimento de um bom estado subjetivo de saúde), influenciando fisicamente a distribuição de calor no organismo, integrando as funções do corpo, alma e espírito, por meio da regulação de processos vitais, como respiração, aquecimento, nutrição, excreção, manutenção, crescimento e reprodução, assim como, da harmonização das questões emocionais, e de processos de significação da vida e da saúde2,24.
Os estudos apontam o indivíduo como foco de cuidado na EA, mediante o reconhecimento de sua natureza quádrupla12-23. A literatura explica que, ao observar como os aspectos dessa natureza quádrupla interagem entre si e como são expressados, um novo nível de compreensão é alcançado e ocorre um processo de avaliação empírica dos corpos mais sutis. Por exemplo, a funcionalidade do corpo vital, que mantém todas as partes numa relação viva, pode ser vista no equilíbrio de fluidos, nos ciclos de sono/vigília e na qualidade do cabelo e das unhas. A saúde do corpo emocional pode ser avaliada pelo equilíbrio emocional, experiências de dor e fortes reações às circunstâncias ou pessoas com simpatia ou antipatia. Por fim, a presença do “eu” como ativo no indivíduo pode ser observada através do senso de coerência que se tem na vida, da conexão com a espiritualidade e/ou do mundo, da capacidade de se tornar observador tanto dos outros quanto de si mesmo, e a capacidade de encontrar significado na vida ou na doença. Isso proporciona ao enfermeiro antroposófico uma compreensão profunda dos outros e de si mesmo, e naturalmente passa a informar o cuidado prestado4,24.
Os estudos destacaram que o cuidado de EA é ofertado a pacientes nos diferentes ciclos de vida, com condições clínicas diversas, agudas ou crônicas, com intervenções que produzem impactos imediatos e a curto prazo na saúde, em ambientes de atenção primária, atendimento ambulatorial e hospitalar e que podem estar integrados com práticas de saúde da medicina convencional12-23. Também foi realçada a tomada de decisão compartilhada e ênfase na autogestão de sintomas relacionados à doença, com resultados a médio e longo prazo, viabilizada pela possibilidade de algumas terapias externas serem ensinadas para auto aplicação em domicílio13,16-17,20, principalmente a pacientes que enfrentam sintomas crônicos, devido à natureza simples de execução e ao baixo custo de seus elementos terapêuticos.
Em outro âmbito os cuidados foram evidenciados, como nas doenças crônicas em crianças. Considerou-se que as doenças crônicas advêm do modo de vida atual e de experiências sensoriais e mentais na infância, e podem ser tratadas com a terapia antroposófica, principalmente quando outras terapias foram tentadas sem êxito. O objetivo é substituir influências que causam doenças por outras que preservam a saúde. A integração mútua de terapias de enfermagem, terapia artística, deslizamento rítmico, educação curativa, debates orientados com a família, e terapia farmacológica colaboram para que se crie um equilíbrio na percepção empática da carga familiar individual e uma identificação clara das condições e consequências das influências do cotidiano familiar na saúde das crianças. Neste contexto, se reconhece que por vezes o tratamento em ambiente ambulatorial não surte o efeito desejado, sendo necessário acompanhamento em ambiente hospitalar, para que os aspectos físicos e anímicos possam ser compreendidos e acompanhados com um plano terapêutico mais assertivo para a criança e o contexto familiar12.
O cuidado de EA na área de oncologia foi ressaltado por meio das terapias externas como compressas, envoltórios, deslizamentos rítmicos segundo Wegman e Hauschka, medicamentos antroposóficos, orientações de cuidados de saúde para domicílio, e atitude interior do Enfermeiro, que configuram um complemento à assistência oncológica. A terapêutica no contexto oncológico se baseou na promoção de calor interno, para que se estabeleça a integração entre os quatro corpos do ser humano e se estimule o princípio curativo. Destaca-se que as terapias externas ofertadas advêm da decisão do enfermeiro, embasado nos doze gestos da enfermagem antroposófica, que oferecem um modelo de avaliação, orientação e execução do plano terapêutico da enfermagem13-14.
Os aspectos curativos do cuidado de EA e o envolvimento do paciente são apontados na literatura como atividades intangíveis que contribuem para resultados e experiências positivas do paciente, e precisam ser valorados nos contextos de saúde em igual importância com os processos terapêuticos convencionais de cura4.
Os estudos destacaram que o nível de consciência que os enfermeiros compartilham em suas intervenções eleva o trabalho da enfermagem para além de modelos mecânicos, um nível terapêutico, que inclui as qualidades internas intangíveis que os enfermeiros trazem para a experiência do cuidado, ou seja, a ampliação da consciência não sobre o que a enfermeiro faz pelo paciente, mas como isso é feito. Esse processo possibilita ao enfermeiro compreender de que forma o cuidado oferecido afeta os quatro corpos do paciente, além de influenciar seu humor interno e o estado de ser do próprio profissional. Cada encontro é visto como único, carregando em si o potencial de transformação para todos os envolvidos no ato de cuidado. A intenção consciente pode ser exemplificada por atitudes expressas em 12 gestos da enfermagem, que fortalecem o enfermeiro e apoiam o paciente13,15,19,21. Os doze gestos de Enfermagem Antroposófica são classificados em dois grupos: gestos envolventes e gestos ativadores. Os gestos envolventes visam satisfazer uma necessidade da qual a pessoa, em determinada condição, não é capaz de suprir autonomamente. Nessa abordagem, o enfermeiro atua de forma interventiva, em nome da segurança ou conforto do paciente. Já os gestos ativadores têm como objetivo estimular os pacientes a se tornarem conscientes e a agirem em seu próprio nome, favorecendo o resgate de sua capacidade interna de reação e autorregulação4.
Diante dos achados, a limitação deste estudo é seu caráter de escopo, explorando publicações que descrevessem os cuidados de enfermagem ampliados pela antroposofia, o que limitou a expressividade da revisão, pois algumas pesquisas enfocavam as terapias externas, mas com desenhos metodológicos pouco claros, que não permitiam identificar se a terapia referida era utilizada na prática de enfermagem. Recomenda-se que estudos futuros foquem em uma abordagem metodológica objetiva e clara, e ampliem o cenário de atuação da EA ao âmbito gerencial, de ensino e de especialidades na área de saúde, referenciadas na literatura, mas que não foram evidenciadas, como por exemplo a Enfermagem Obstétrica Antroposófica1.
Os resultados provenientes desta revisão contribuem para o avanço do conhecimento científico na área das PICs, especialmente para a enfermagem antroposófica. Essa área exige o aprimoramento de habilidades e conhecimentos especializados, para que os profissionais possam incorporar novas tecnologias e práticas, além de competências interpessoais essenciais para lidar com as diversas situações que a profissão apresenta. As evidências coletadas auxiliam no preenchimento da lacuna de conhecimento sobre o fazer da Enfermagem Antroposófica e destaca a necessidade de futuras pesquisas que consolidem esse conhecimento e ampliem as formas de cuidado de enfermagem em diferentes contextos de saúde.
Conclusão
O mapeamento das características do cuidado de enfermagem ampliado pela Antroposofia nos serviços de saúde evidenciou a Enfermagem Antroposófica como especialidade na área de enfermagem, com um fazer baseado em conhecimento próprio advindo da Medicina Antroposófica, que possibilita a integração com práticas de saúde da medicina convencional e atuação em equipe multiprofissional. Apresenta o indivíduo como foco de cuidado, em diferentes contextos de saúde, seja hospitalar, de clínicas de saúde ou domicílio, com condições clínicas diversas, agudas ou crônicas.
Os cuidados de enfermagem requerem do enfermeiro conhecimentos e habilidades específicas sobre as práticas terapêuticas antroposóficas, para oferecer uma assistência eficaz e segura nos diferentes contextos de saúde e de vida. Essas práticas têm características de acompanhamento a curto, médio e longo prazo, sendo que algumas podem ser ensinadas ao paciente para realização em domicílio, como forma complementar ao plano terapêutico estabelecido. O destaque recai sobre a corresponsabilidade no processo terapêutico e na postura do enfermeiro percebida pelos pacientes como fator facilitador do processo de cura. A Enfermagem Antroposófica amplia o olhar sobre a promoção da saúde e necessidades individuais dos pacientes que, por vezes, estão além dos limites da medicina convencional.
Declaração de Disponibilidade de Dados:
Todos os dados gerados ou analisados durante este estudo estão incluídos neste artigo publicado.
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Como citar este artigo:
Martín-Hernández S, Sousa JM, Casanova-Garrigos G. Characteristics of nursing care expanded by anthroposophy: a scoping review. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2026;34:e4792 [cited ano mês dia]. Available from: URL. https://doi.org/10.1590/1518-8345.7819.4792
Editado por
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Editora Associada:
Maria Lúcia Zanetti


